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quinta-feira, 20 de julho de 2017

Princípios Elementares de Filosofia - Capítulo I




O PROBLEMA FUNDAMENTAL DA FILOSOFIA

I— Duas maneiras de explicar o mundo.
Vimos que a filosofia é o «estudo dos problemas mais gerais», e que tem por fim explicar o mundo, a natureza, o homem.
Se abrirmos um manual de filosofia burguesa, ficamos espantados com o grande número de filosofias diversas que aí se encontram. São designadas por múltiplas palavras, mais ou menos complicadas, terminando em «ismo»: o criticismo, o evolucionismo, o intelectualismo, etc., e esta quantidade cria a confusão. A burguesia, aliás, nada fez para esclarecer a situação, antes pelo contrário. Mas, podemos já fazer
a triagem de todos esses sistemas, e distinguir duas grandes correntes, duas concepções nitidamente opostas:
a) A concepção científica.
b) A concepção não científica do mundo.

II. — A matéria e o espírito.
Quando os filósofos tentaram explicar o mundo, a natureza, o homem, tudo o que nos rodeia, enfim, foram levados a fazer distinções. Nós próprios constatamos que há coisas, objetos que são materiais, que vemos e tocamos. Depois, outras realidades que não vemos e não podemos tocar, nem medir, como as nossas ideias.
Classificamos, portanto, assim as coisas: por um lado, as que são materiais; por outro, as que não o são, e pertencem ao domínio do espírito, do pensamento, das ideias.
Foi assim que os filósofos se encontraram em presença da matéria e do espírito.

III. — O que é a matéria? O que é o espírito?
Acabamos de ver, de uma maneira geral, como se foi levado a classificar as coisas, conforme são matéria ou espírito.
Mas devemos precisar que esta distinção se faz sob diversas formas e com palavras diferentes.
É assim que, em vez de falar do espírito, falamos, afinal, do pensamento, das nossas ideias, da nossa consciência, da alma, assim como, falando da natureza, do mundo, da terra, do ser, é da matéria que se trata.
Assim, ainda quando Engels, no seu livro «Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã», fala do ser e do pensamento, o ser é a matéria; o pensamento, o espírito.
Para definir o que é o pensamento ou o espírito, o ser ou a matéria, diremos:
O pensamento é a ideia que fazemos das coisas; algumas dessas ideias vêm-nos ordinariamente das nossas sensações e correspondem a objetos materiais; outras, como as de Deus, filosofia, infinito, do próprio pensamento, não correspondem a objetos materiais. O essencial, que devemos fixar aqui, é que temos ideias, pensamentos, sentimentos, porque vemos e sentimos.
A matéria ou o ser é o que as nossas sensações e percepções nos mostram e apresentam, é, duma maneira geral, tudo o que nos rodeia, a que se chama o «mundo exterior». Exemplo: a minha folha de papel é branca.
Saber que é branca é uma ideia, e são os meus sentidos que me dão tal ideia. Mas a matéria é a própria folha.
É por isso que, quando os filósofos falam das relações entre o ser e o pensamento, ou entre o espírito e a matéria, ou entre a consciência e o cérebro, etc., tudo isso diz respeito à mesma pergunta, e significa: qual é, da matéria ou do espírito, do ser ou do pensamento, o termo mais importante? Qual é o que é anterior ao outro? Tal é a interrogação fundamental da filosofia.

IV. — A pergunta ou o problema fundamental da filosofia.
Não há ninguém que não se tenha interrogado em que nos tornamos depois da morte, de onde vem o mundo, como se formou a Terra. E é-nos difícil admitir que sempre existiu qualquer coisa. Tem-se tendência em pensar que num dado momento nada haveria. É por isso que é mais fácil acreditar no que ensina a religião:
«O espírito pairava sobre as trevas... depois veio a matéria». Do mesmo modo, perguntamo-nos onde estão os nossos pensamentos, e, assim, põe-se-nos o problema das relações que existem entre o espírito e a matéria, entre o cérebro e o pensamento. Há, aliás, muitas outras maneiras de pôr a questão. Por exemplo,
quais são as relações entre a vontade e o poder? A vontade é, aqui, o espírito, o pensamento; e o poder é o que é possível, é o ser, a matéria. Encontramos, assim, muitas vezes, a questão das relações entre a «consciência social» e a «existência social».
A pergunta fundamental da filosofia apresenta-se, pois, sob diferentes aspectos, e vê-se quanto é importante reconhecer sempre a maneira em que se põe este problema das relações da matéria e do espírito, uma vez que sabemos que só pode haver duas respostas a essa pergunta:
1. Uma resposta científica.
2. Uma resposta não científica.

V. — Idealismo ou materialismo.
Foi assim que os filósofos foram levados a tomar posição nesta importante questão.
Os primeiros homens, completamente ignorantes, não tendo nenhum conhecimento do mundo, nem deles próprios, e não dispondo senão de fracos meios técnicos para agir sobre o mundo, atribuíam a seres sobrenaturais a responsabilidade de tudo o que os espantava. Na sua imaginação, excitada pelos sonhos em que viam viver os seus semelhantes e eles próprios, chegaram à concepção de que cada um de nós tinha uma dupla existência. Perturbados pela idéia deste «duplo», chegaram a imaginar que os seus pensamentos e sensações eram produzidos, não pelo seu próprio corpo,
“mas por uma alma particular, habitando nesse corpo e deixando-o na hora da morte”2.
Em conseqüência, nasceu a idéia da imortalidade da alma e de uma possível vida do espírito fora da matéria.
Do mesmo modo, a sua fraqueza, a inquietação perante as forças da natureza, face a todos esses fenômenos que não compreendiam, e que o estado da técnica não lhes permitia corrigir (germinação, tempestades, inundações, etc.), levam-nos a supor que, por trás dessas forças, há seres onipotentes, «espíritos» ou «deuses» benéficos ou maléficos, mas, em todo o caso, caprichosos.
Por igual razão, criam em deuses, em seres mais poderosos do que os homens, mas imaginavam-nos, sob a forma de homens ou animais, como corpos materiais. É somente mais tarde que as almas e os deuses (depois o Deus único que substituiu os deuses) foram concebidos como puros espíritos.
Chega-se então à idéia de que há na realidade espíritos que têm uma vida inteiramente específica, completamente independente da dos corpos, e que não têm necessidade deles para existir.
Assim, tal assunto pôs-se de uma maneira mais clara em função da religião, sob esta forma: O mundo foi criado por Deus ou existe desde sempre?
Conforme respondiam desta ou daquela maneira a tal pergunta, os filósofos dividiam-se em duas grandes facções3.
Os que, adotando a explicação não científica, admitiam a criação do mundo por Deus, isto é, afirmavam que o espírito tinha criado a matéria, formavam a facção do idealismo.
Os outros, os que procuravam dar uma explicação científica do mundo, e pensavam que a natureza, a matéria era o elemento principal, pretendam às diferentes escolas do materialismo.
Na origem, estas duas expressões, idealismo e materialismo, não significavam outra coisa senão isso.
O idealismo e o materialismo dão, pois, duas respostas opostas e contraditórias ao problema fundamental da filosofia.
O idealismo é a concepção não científica. O materialismo é a concepção científica do mundo.
Ver-se-á, mais adiante, as provas desta afirmação, mas podemos dizer, desde já, que: se  constata bem, na experiência, que há corpos sem pensamento, como as pedras, os metais, a terra, não se constata nunca, pelo contrário, a existência do espírito sem corpo.
Para terminar este capítulo com uma conclusão sem equívoco, veremos que, para responder a esta pergunta: como é que o homem pensa? não pode haver mais do que duas respostas, inteiramente diferentes e totalmente opostas:
1.ª resposta: O homem pensa porque tem uma alma.
2.ª resposta: O homem pensa porque tem um cérebro.
Conforme dermos uma ou outra resposta, estaremos preparados para dar soluções aos problemas que resultam desta questão.
Segundo a nossa resposta, seremos idealistas ou materialistas.

2 Friedrich ENGELS: «Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã», Obras Escolhidas de Marx e Engels em Três Tomos, Ed. Avante 1985, Tomo III, pp 375-421
3 Idem.


Próximo capitulo: O IDEALISMO