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sexta-feira, 6 de abril de 2012

RESISTÊNCIA CIVIL, A NOVA ESTRATÉGIA PALESTINA



Do fundo de sua cela numa prisão israelense, onde cumpre pena de prisão perpétua, Marwan Bargouthi apresentou a nova estratégia dos movimentos palestinos.

Depois de afirmar que o processo de paz estava morto, ele conclamou seu povo à resistência civil.
A estratégia militar, através de atentados e lançamento de mísseis contra o território israelense, também fracassara. E não só pela imensa superioridade militar israelense mas,  também por repercutir mal na opinião pública externa.
Os atentados, sempre divulgados com o maior destaque pela imprensa internacional, abalavam a imagem pública dos movimentos de libertação. E os duelos entre os mísseis lançados de Gaza e a aviação israelense, não só resultavam em perdas muito maiores para os palestinos, como também, ainda pela ação da imprensa, pareciam ter sido provocados por eles.
O processo de paz, através de negociações com Israel, sob patrocínio dos EUA e da Europa Unida, já tinha se mostrado incapaz de chegar a parte alguma, depois de 19 anos inúteis.
Como diz o ditado inglês, “it takes two to tango” (é preciso dois para dançar o tango), ficou mais do que claro que os líderes de Israel, especialmente o atual, Bibi Netanyahu, não estavam nem um pouco interessados numa paz justa com os árabes.
Seu objetivo, especialmente agora, nunca foi atender aos desejos dos árabes palestinos.
Se os governos israelenses anteriores ainda faziam concessões, embora insuficientes, o atual não faz nenhuma.
A política de Netanyahu sempre foi adiar ao máximo o início das negociações, ganhando tempo para aumentar constantemente o número de assentamentos na Margem Oeste e em Jerusalem, tornando sua ocupação um
fait accompli. Com isso vai ficando cada vez mais difícil a formação de um estado palestino independente. Até tornar-se inviável.
As esperanças depositadas em Obama após o “histórico” discurso do Cairo, no qual defendeu a independência da Palestina, já foram desfeitas.
Se ainda restavam algumas, sumiram de vez diante do discurso do presidente dos EUA na reunião da AIPAC (maior lobby judeu-americano).
Nessa ocasião, ele declarou que fizera de tudo em defesa de Israel. E citou muitas medidas nesse sentido, a maioria delas contrárias às leis internacionais e aos justos interesses palestinos.
Mais ultimamente, o governo Obama mostrou sua total parcialidade, que o incapacitam a ser um árbitro no conflito da Palestina: foi o único voto contrário à criação de uma comissão de investigação dos problemas dos assentamentos, aprovada por 36 votos na Comissão de Direitos Humanos da ONU.
Fato chocante, pois Obama passou todo o seu primeiro ano de governo pedindo que Israel interrompesse a fundação de novos assentamentos para permitir o início das negociações.
Sem ter força militar capaz de enfrentar Israel; sem o interesse israelense numa Palestina independente; sem o apoio de Obama para garantir as negociações de paz, a resistência civil era mesmo a única saída que restava.
Em mensagem escrit, enviada através de um portador, Bargouithi declarou :”Parem de fazer marketing com a ilusão de que há alguma possibilidade de terminarmos a  ocupação e conseguirmos um estado livre através de negociações, quando isso falhou miseravelmente.”
E apontou sua solução: “O lançamento da resistência popular em larga escala neste estágio é o que interessa à causa do nosso povo.”
Bargouthi faz um apelo à não-violência, deixando claro que a resistência civil é mais do que isso. Consiste em usar todos os meios possíveis para protestar e denunciar a violência da ocupação e cortar toda a cooperação com os israelenses em segurança e assuntos econômicos.
A não-violência proposta por Bargouthi será posta a prova nas marchas programadas pelos palestinos para 30 de março, em protesto contra a ocupação israelense. Elas se realizarão através da Margem Oeste, de Jerusalém, e das fronteiras com Gaza, Líbano e Síria e provavelmente será reprimida por Israel.
Será mais uma oportunidade para tornar pública a necessidade da ocupação acabar, denunciando as violações dos direitos humanos praticadas pelo governo e o exército israelenses.
A investigação a ser feita pela ONU, através de enviados da Comissão de Direitos Humanos, permitirá que se revele ao mundo as barbaridades sofridas pelo povo da Palestina, sob a ocupação israelense. E, o que é muito importante, terá sua veracidade comprovada por uma entidade respeitada internacionalmente.
Por isso mesmo, Netanyahu, ajudado pelos prestimosos amigos americanos, está acusando de faccioso o setor de Direitos Humanos da ONU. Seu argumento principal é que, das 91 decisões de investigação, 39 foram sobre Israel. O que na verdade depõe contra seu país. Se é alvo de tantas comissões de investigação é porque nele se praticam as maiores violências contra os direitos humanos.
Barghouti tem grande prestígio junto aos palestinos de todas as facções. Acredita-se que suas propostas serão aceitas.
Muitos líderes do Hamas e do Fatah querem que ele suceda a Abbas na presidência da Autoridade Palestina. No entanto, a resistência civil poderá implicar no fim da Autoridade Palestina, já que faz parte de suas funções colaborar com o governo israelense.
Com isso, os EUA e a Europa Unida serão também responsabilizados pelo fracasso das negociações de paz.
Lembro que Tony Blair foi escolhido como enviado especial desse conjunto de nações para promover as negociações entre as partes. Pelo nenhum resultado dessa missão,  faz a gente pensar que ele se limitou a fazer turismo.
Muita coisa pode acontecer agora.
Barghouti poderá não ser obedecido. O Hamas continuará em pé de guerra e o Fatá fazendo de conta que acredita nas negociações com Israel.
Até mesmo Barghouti poderá ser anistiado pelos israelenses, por ser pragmático e aceitar o estado de Israel, embora nos limites de 1967, com uma Palestina independente tendo  soberania sobre Jerusalem Oriental. Não  será por Netanyah, é claro, mas, por seu sucessor, que nunca poderá ser tão duro quanto ele.
Adotando o caminho da resistência civil, a renúncia dos palestinos ao processo de paz implicará provavelmente no fim da Autoridade Palestina, que foi criada em função desse processo.
Livre ou preso, Barghouti é uma voz que os palestinos ouvem.
Acredito que sua estratégia será posta em prática.
Mas, não se pode pensar em resultados a curto prazo.
A resistência civil vai atrair uma repressão ainda mais violenta de Israel. Que tornará cada vez mais negativa sua imagem internacional e mais urgente uma solução.
Serão necessários muitos anos.
Muito tempo para as pessoas da Europa se emocionarem o bastante para se associarem aos palestinos nos protestos. E mais tempo ainda para os americanos e os israelenses sentirem e agirem igual.
Bargouthi acredita que só quando isso acontecer haverá pressão externa e até interna para o governo de Israel aceitar uma Palestina independente e viável.

De: Luiz Eça

Fonte: Olhar o Mundo

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A GRANDE MENTIRA QUE ASSOLOU O BRASIL



De: Valdir Pereira

Trinta e dois anos após a queda da ditadura militar, instaurada em 1964, grande parcela da população brasileira desconhece esse período histórico e tiram conclusões, baseados em fontes nada confiáveis, de que nesse período sindicatos de trabalhadores, organizações representativas de militares de baixa patente: sargentos, cabos, soldados do exercito e da marinha mais o PCB, estavam tramando para instauração de um regime comunista no Brasil.

Essa notícia repetida, até a exaustão, na época, induziram grandes contingentes da classe média, religiosos e pessoas menos esclarecidas, a aceitarem essa informação como verdadeira.

O grande chefe da conspiração pró-comunista era João Goulart, conhecido por “Jango”, presidente do Brasil, depois de uma tumultuada trajetória para chegar ao cargo, pela cerrada oposição dos militares de alta patente. Os costumeiros golpistas, responsáveis pelo suicídio de Vargas, em 1954.

Jango, que era vice de Janio Quadros, foi impedido de assumir a presidência pelos chefes militares, depois da renúncia de Janio, em 1961.

Jango na China, em uma missão diplomática, acompanhou o desenrolar da crise, que culminou com o entendimento em se adotar o parlamentarismo como regime de governo.  No dia 2 de setembro de 1961, o sistema parlamentarista foi aprovado no Congresso Nacional e no dia 8 de setembro Jango foi empossado presidente e Tancredo Neves, primeiro ministro.

Antes, porém, do entendimento político, o governador Leonel Brizola e o General Machado Lopes, comandante do III exército, baseado no Rio Grande do Sul, mobilizaram o estado pela posse de Jango, recebendo o apoio de Mauro Borges, governador de Goiás e Ney Braga do Paraná e grande parcela do povo, que se alistavam no exército da legalidade, em banquetas distribuídas pelos municípios brasileiros.

Em janeiro de 1963, através de um plebiscito, o parlamentarismo foi revogado, por uma votação maciça do povo brasileiro.

Jango para governar encontrava grande dificuldade: os militares opunham-se a ele, o congresso rejeitava suas propostas políticas e econômicas; restava-lhe o apoio dos sindicatos, onde tinha grande influência e buscava o apoio do PCB e do PSB, visando  uma ampla base popular.

O plano Trienal de seus ministros, Celso Furtado, do Planejamento, e Santiago Dantas, da Fazenda, onde se estabelecia as bases de um desenvolvimento nacional de caráter progressista e popular, foram rejeitadas pelo Congresso.

                             REFORMAS DE BASE

As reformas de base, como era conhecido o plano, previa:

Reforma agrária – Consistia  em promover a democratização da terra, paralelamente à promulgação do Estatuto do Trabalhador Rural, estendendo ao campo os principais direitos dos trabalhadores urbanos.

Reforma educacional: visava à valorização do magistério e do ensino público em todos os níveis, o combate ao analfabetismo, com adoção do método Paulo Freire; realizar uma reforma universitária, com a abolição da cátedra vitalícia.

Reforma fiscal – Tinha como objetivo promover a justiça fiscal e aumentar a capacidade de arrecadação do Estado. Alem disso, pretendia-se limitar a remessa de lucros para o exterior, sobretudo por parte das empresas multinacionais, o que foi feito através do decreto  n° 53451/64.

Reforma eleitoral: consistia basicamente a extensão  do direito de voto ao analfabeto e aos militares de baixa patente. Previa-se também a legalização do Partido Comunista Brasileiro.

Reforma urbana, entendida como um conjunto do Estado, visando ajusta utilização do solo urbano, ao fornecimento de habitação condigna a todas as famílias. O projeto foi elaborado por urbanistas  ligados ao IAB.

Reforma bancária: com o objetivo de ampliar o acesso ao crédito pelos produtores.

As reformas também incluíam a nacionalização de vários setores industriais – refino de petróleo, energia elétrica, químico-farmacêutico, etc.-

O  Partido Comunista Brasileiro (PCB), trabalhava intensamente pelas reformas de base, pois viam no projeto nacionalista de Jango o caminho de uma ampla  aliança com a burguesia nacional, aprofundando, em consequência a luta anti-imperialista .

Os militares não viam com bons olhos essa aproximação com os comunistas, que controlavam a maioria dos sindicatos, e, além disso, estavam descontentes diante da omissão do governo em punir movimentos de rebeldia de militares de baixa patente, e do apoio explicito que lhes prestavam. Os Sargentos do exército se rebelaram contra decisão do STF, em não lhes conceder o direito político de disputar cargos eletivos; os marinheiros igualmente se mobilizavam  pelo reconhecimento de suas entidades  e por melhores salários. Nessa mobilização se associavam aos sindicatos que lhe davam  grande apoio e cobertura.

Toda essa mobilização dos trabalhadores, e dos movimentos de indisciplina nas forças armadas, serviram de caldo de cultura para fomentar um golpe militar.

A igreja, associada a movimentos de direita e com a participação dos latifundiários, temerosos com o movimento pela reforma agrária, organizavam passeatas denominadas: Marcha da Família com Deus pela Liberdade; arrastavam a classe média, que viam em Jango a ameaça comunista.

                               O COMÍCIO DOS 150 MIL

No dia 13 de março, em frente a Central do Brasil, na grandiosa manifestação organizada pelos sindicatos, que reuniu milhares de trabalhadores, Jango assinou um decreto instituindo a reforma agrária ao longo de 100 kilômetros das rodovias e ferrovias, o que provocou forte reação dos setores conservadores e contribuiu para sua derrubada do governo.

Na madrugada do dia 1º de abril de l964, o general Mourão Filho inicia a movimentação de tropas de Minas Gerais em direção ao Rio de Janeiro, dando início ao golpe militar.

Jango, para evitar derramamento de sangue, não aceitou a sugestão de Brizola em resistir ao golpe militar em andamento.

A história de 21 anos de ditadura sanguinária, que nem todos conhecem e, muitos mal informados pretende justificar como necessária em proteger o país do comunismo, por este breve relato fica claro que o Brasil perdeu uma grande oportunidade  em dar passos gigantescos em direção a uma sociedade mais justa e democrática; prova a injustiça que se cometeu a um grande nacionalista, que amava o Brasil e por ele deu sua vida.

Prova, ainda, a necessidade de se restabelecer a verdade da história nebulosa de 21 anos de ditadura militar; a necessidade em punir aqueles que torturaram e mataram, em nome de uma mentira.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Ato contra a "privatização da TV Cultura" é marcado para o dia 16/4


Nessa data, o conselho curador da Fundação Padre Anchieta elegerá seu novo presidente. Manifestantes contrários às demissões em massa, à extinção de programas tradicionais, como Zoom, Grandes Momentos do Esporte e Vitrine, e à cessão de espaço na grade para a mídia privada prometem tomar as imediações da emissora, da zona oeste de São Paulo. Na noite de terça-feira (3), um ato reuniu profissionais de comunicação, artistas, sindicalistas e parlamentares em protesto contra as reformas na tevê.

São Paulo - Um grande protesto contra a "privatização da TV Cultura" tomará as imediações da emissora, na zona oeste de São Paulo, no próximo dia 16 de abril. Nessa data, o conselho curador da Fundação Padre Anchieta elegerá seu novo presidente.

O advogado e jornalista Moacyr Expedito, que ocupava o cargo, renunciou semana passada, um ano antes do término de seu mandado. O conselho curador colabora com a administração da tevê, que está nas mãos do presidente da Fundação Padre Anchieta, o economista João Sayad.

O protesto foi agendado na noite desta terça-feira (3) por profissionais de comunicação, sindicalistas, artistas e parlamentares, que participaram de um ato contra as reformas empreendidas na emissora. Entre elas, destacam-se a redução do quadro de funcionários - segundo os manifestantes, em mais de mil profissionais -, e a extinção de programas tradicionais, como Zoom, Grandes Momentos do Esporte e Vitrine.

Além disso, houve a tentativa de encerramento do programa Manos e Minas, que traz manifestações culturais da periferia da cidade para a televisão. Mas, diante dos protestos, a direção da emissora recuou. Os profissionais que conduziam o programa, porém, acabaram demitidos.

Para ocupar a grade, a TV Cultura convidou tradicionais veículos da grande imprensa paulista para fornecerem conteúdos, entre eles Folha de S. Paulo, Estadão e Veja. Por enquanto, apenas a Folha ocupou o espaço, com um jornalístico nas noites de domingo. Segundo o próprio jornal, foi feita uma permuta: a tevê cedeu espaço em troca de espaço publicitário no jornal impresso.

Indignação
"É a mídia privada ocupando espaço na tevê pública, um absurdo", protestou o jornalista Renato Rovai, presidente da Associação Brasileira de Empresas e Empreendedores da Comunicação (Altercom) e editor da revista Fórum. Segundo ele, por trás dessas mudanças está uma concepção da mídia privada e de governos do PSDB de "não engolirem o serviço público de comunicação".

Na mesma linha, o diretor da Altercom e da Carta Maior, Joaquim Ernesto Palhares, lembrou que a tevê pública do Rio Grande do Sul foi "sucateada" no governo de Yeda Crusius (2007-2011), do PSDB. "É o modelo tucano de fazer política e governar, e que ainda conta com um cinturão midiático ao seu redor", afirmou.

Para o jornalista Pedro Pomar, também presente no ato, o desmonte da TV Cultura é "estratégico para os tucanos". "É mais um capítulo da reforma do Estado que eles vêm empreendendo nos últimos 20 anos. E a emissora é um símbolo que precisa ser destruído, porque ela mostra que o que é público pode ser bom", criticou.

O ato, realizado no Sindicato dos Engenheiros de São Paulo, contou com a participação de funcionários e ex-funcionários da TV Cultura. A jornalista Marilu Cabañas, demitida após 16 anos de casa, se emocionou ao fazer um relato sobre os novos rumos da programação da emissora. "Quando eu estava produzindo uma série sobre crianças desaparecidas, veio uma ordem de que não devíamos ficar falando sobre pobres nas reportagens", contou. A série acabou exibida, por pressão de outros colegas.

Desmonte
Já o funcionário Sérgio Ipoldo Guimarães revelou que o departamento em que trabalhava, o de meteorologia, foi extinto, para dar lugar a um convênio com a empresa Somar Meteorologia. Hoje, ele ocupa um cargo na direção do Sindicato dos Radialistas, e não sabe o que fará na emissora quando retornar. "Meu desejo é me qualificar para outra função", disse.

Para João Brant, do coletivo Intervozes, o desmonte da tevê tem o potencial de influenciar as experiências culturais das pessoas. "Eu mesmo tive minha formação musical através da rádio Cultura AM, que tinha uma amplitude de repertório e muito cuidado com a música brasileira", afirmou.

O enfraquecimento da TV Cultura gera, ainda, uma baixa na formação de quadros técnicos para o sistema público de comunicação. Segundo o professor Laurindo Leal Filho, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, a academia brasileira não tem tradição na formação de pessoal para o sistema público, e esse papel era desempenhado pela TV Cultura.

Mais ações
Além do ato no dia 16, os manifestantes, que também participam de entidades como Central Única dos Trabalhadores (CUT), Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) e Sindicato dos Jornalistas, entre outras, farão pressão na Assembléia Legislativa para que uma audiência pública discuta a questão. Entre os parlamentares que apóiam a proposta, participaram do ato os deputados estaduais Carlos Giannazi (PSOL), Simão Pedro (PT) e Leci Brandão (PCdoB).

Renata Mielli, do Centro de Estudos Barão de Itararé, sistematizou as propostas dos participantes. Além dos protestos do dia 16 e da audiência pública na Assembléia, as entidades envolvidas circularão um manifesto contra o desmonte da tevê, colherão depoimentos de artistas e jornalistas, encaminharão um ofício solicitando que sejam ouvidas pelo conselho da Fundação Padre Anchieta, e exigirão auditoria nos contratos da emissora.

Fonte: Carta Maior

Escândalo "Cachoeira", a mídia corrompida vai ser investigada?

Policarpo Júnior, editor-chefe da Veja trocou mais de 200 ligações com o contraventor Carlinhos Cachoeira, alguém (MP, PF ou imprensa) vai investigar o que tanto "assuntaram"?
Imprensa permanece blindada no caso “Cachoeira”
Dezenas de agentes ligados ao esquema do contraventor Carlinhos Cachoeira já estão sob a mira da Justiça, do Congresso, da imprensa e da opinião pública após serem citados nas investigações que deflagraram a operação Monte Carlo. Envolvimento de jornalistas, porém, não recebe os mesmos holofotes. Questionada, Veja indicou telefone de consultoria jurídica que nega trabalhar em algo relativo à revista.

Brasília - A Operação Monte Carlo resultou na prisão de 35 pessoas acusadas de envolvimento com a quadrilha da jogatina de Carlinhos Cachoeira, em Goiás. Entre os acusados, dois delegados da Polícia Federal, seis delegados da Polícia Civil goiana, um agente da Polícia Rodoviária Federal e 29 soldados, cabos e oficiais da Polícia Militar de Goiás.

A classe política também sangra com a operação. Após terem seus nomes mencionados nas investigações do Ministério Público e da Polícia Federal, os deputados Carlos Leréia (PSDB-GO), João Sandes Júnior (PP-GO) e Rubens Otoni (PT-GO) e, especialmente, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) já são alvos de diversas reportagens e de um inquérito encaminhado pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, ao Supremo Tribunal Federal (STF). Caminho parecido deve seguir o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), dadas as denúncias crescentes na mídia que expõe seus vínculos com Cachoeira.

Mais complicado, entretanto, é vir a público quais são os setores da imprensa envolvidos com a organização criminosa.

Conforme noticiou Carta Maior, partes do inquérito que deram origem a Operação Monte Carlo - publicadas na internet – citam relações promíscuas de jornalistas com a quadrilha de Cachoeira. Porém, apenas o nome de Wagner Relâmpago, repórter do programa DF Alerta, da TV Brasília/Rede TV, é explicitado.

Os três procuradores federais do Ministério Público responsáveis pelo caso - Daniel de Resende Salgado, Léa Batista de Oliveira e Marcelo Ribeiro de Oliveira - não deram maiores informações sobre o envolvimento de jornalistas. “Vamos ter que estudar isso”, limitou-se a dizer o procurador Marcelo Ribeiro.

Por meio de sua assessoria, o juiz da 11ª Vara da Justiça Federal em Goiás, Paulo Augusto Moreira Lima, que expediu os mandados da operação Monte Carlo, disse que não vai se pronunciar porque o processo corre em segredo de Justiça e só quem tem acesso a ele são as partes envolvidas e seus procuradores.

Porém, diversas outras informações, além daquelas que já são públicas devido ao vazamento de trechos do inquérito citado acima, seguem sendo meticulosamente reveladas por veículos de comunicação. Mas, praticamente nada diz respeito aos jornalistas envolvidos.

Rara exceção foi o jornalista Luis Nassif, que obteve a informação de que as investigações registraram mais de 200 telefonemas entre Cachoeira e o diretor da revista Veja em Brasília, Policarpo Júnior.

No intuito de se defender, no último sábado (31), a revista tornou pública a gravação de uma conversa, que teria sido feita em 8 de julho de 2011, entre Cachoeira e o ex-agente da Abin, Jairo Martins, acusado pela Justiça de pertencer à quadrilha. Na conversa, Cachoeira cita Policarpo como “alguém que nunca vai ser nosso” e ainda afirma que foi seu grupo quem deu “os grande furos do Policarpo”,“limpando esse Brasil, rapaz, fazendo um bem do caralho pro Brasil, essa corrupção aí”.

Para Nassif, esta gravação não é suficiente para desfazer a associação da quadrilha com a revista, entre outras razões, porque foi registrada em uma época em que a antiga relação entre elas já estava esgarçada. “Há um vazamento seletivo. Por que não divulgam os demais grampos?”, indaga.

Procurada pela reportagem, a revista Veja alegou que o assunto deveria ser tratado com seu departamento jurídico. Entretanto, no telefone informado, a Novoa Prado Consultoria Jurídica afirmou que, apesar de já ter prestado serviços para a Editora Abril, nunca trabalhou em nada relativo à revista Veja

O assunto parece mesmo proibido nos veículos da mídia tradicional, ainda que em mínimas proporções. O blog “Rádio do Moreno”, que faz parte da edição digital do jornal O Globo, teve que retirar do ar, na última sexta-feira (30), um texto do colaborador Théofilo Silva. O artigo mencionava que “o poderoso editor da revista Veja” estaria envolvido com Cachoeira e indagava “se você compra a imprensa e as autoridades públicas, o que mais falta para ser o dono do Estado?”

Na nota em que comunicou a retirada do texto, Jorge Moreno disse ter recebido “uma grave e merecida advertência do diretor de redação, Ascânio Seleme”, alegou falta de apuração e concluiu “não considero correto que um blog de jornalista agrida outro jornalista”.
Vinicius Mansur / Carta Maior