Maior fabricante de carros da Rússia retornará à ilha caribenha após 12 anos fora do mercado local. Especialista duvida, porém, do potencial de vendas no país.
Lada Vesta é um dos dois primeiros modelos que serão exportados ao país latino-americano Foto:Reuters
O principal fabricante de automóveis da Rússia, a AvtoVAZ, planeja entregar um lote com cerca de 300 carros Lada para Cuba. O fornecimento é esperado para maio.
“A última vez que vendemos carros novos para Cuba foi há 12 anos, então, a questão agora é como podemos voltar a esse mercado”, disse o presidente da AvtoVAZ, Nicolas Maure, em uma apresentação para empresas de transporte em Havana.
Por enquanto, serão comercializados apenas os modelos Vesta e Largus.
“A AvtoVAZ está interessada no mercado automotivo cubano porque há grande demanda; além disso, a proibição de importar carros novos foi levantada há pouco tempo”, explica Evguêni Ieskov, editor-chefe do site AvtoBusinessReview.
Durante meio século, a maior parte do mercado local de automóveis consistiu em carros norte-americanos e soviéticos de segunda mão. “Os cubanos conhecem carros russos, e isso conta a favor da AvtoVAZ”, acrescenta Ieskov.
Os primeiros modelos a chegarem à ilha estarão disponíveis para empresas de táxi, aluguel e turismo.
Se o teste for bem sucedido, e Cuba decidir comprar mais carros russos, um novo contrato deverá ser assinado já em 2018.
“O volume inicial de carros novos [300 unidades] parece ótimo para começar, e tudo dependerá dos resultados das vendas”, diz o editor.
De acordo com o site Lada.ru, o preço de varejo de um Lada Largus no mercado russo é, em média, 600 mil rublos (US$ 10.000), e de um Lada Vesta, 640 mil rublos (US$ 11.000). Os salários em Cuba são, entretanto, mais baixos do que na Rússia, e poucos residentes poderão ter recursos para investir em um carro novo.
“Em longo prazo, Cuba poderia se tornar um mercado importante para a AvtoVAZ, mas não o principal, porque os volumes de vendas não devem atender às necessidades de exportação do fabricante”, avalia Ieskov.
Em 2013, as autoridades cubanas cancelaram a proibição de importações e vendas de carros novos no varejo, em vigor desde 1959. Até então, os cubanos só podiam comprar e vender carros usados – e somente entre si. Embora os países da ex-URSS tenham fornecido alguns veículos durante o período anterior, essas importações eram basicamente de caminhões, ambulâncias ou e carros de bombeiros.
À medida que Washington aumenta sua presença militar na Ásia, Pequim demonstra cada vez mais interesse pelas tecnologias hipersônicas russas.
HGVs podem assumir velocidade de 11.000 km/h e realizar manobras aerodinâmicas Foto:Global Look Press
A corrida para construir o sistema de entrega nuclear mais rápido do mundo – o veículo hipersônico de deslize (HGV, na sigla em inglês) – ganhou impulso. Embora os Estados Unidos estejam claramente na liderança, a Rússia e a China não estão muito atrás, e há, inclusive, relatos sugerindo que Moscou – em uma reprise da amigável década de 1950 – estaria influenciando o programa de HGV de Pequim.
Em um novo estudo intitulado “Factoring Russia in the US-Chinese Equation on Hypersonic Glide Vehicles”, o Instituto da Paz de Estocolmo (Sipri) afirma que a Rússia estaria moldando a pesquisa chinesa relacionada a hipersônicos.
Considerando a crescente interseção entre as posturas estratégicas da China e da Rússia e as percepções de ameaças – particularmente na Ásia-Pacífico – é possível que haja, de fato, alguma correlação entre os programas hipersônicos dos países.
De acordo com o Sipri, dois sinais apontam para a integração Rússia-China nessa esfera. Em primeiro lugar, existem 872 textos em língua chinesa sobre HGVs que mencionam a Rússia – o que representa 52% do número total de artigos chineses sobre veículos hipersônicos de deslize. Além disso, o teste de voo do sistema hipersônico chinês DF-ZF em abril de 2016 ocorreu poucos dias depois que a Rússia realizou seu próprio teste com um sistema semelhante.
“Isso é mais do que mera coincidência. A revisão de mais de uma década da literatura chinesa sobre tecnologias hipersônicas e de deslize revela um interesse crescente e pesquisa do programa de veículos hipersônicos da Rússia”, diz o relatório do órgão.
“A combinação dessa tendência com as preocupações comuns de ambos os países sobre as defesas antimísseis dos EUA sugere que é hora de levar em conta como o programa de ‘ataque-relâmpago global’ da Rússia pode estar influenciando as decisões da China em relação às cargas convencionais e nucleares, aos alvos e ao alcance de seu próprio HGV”, continua o documento.
O especialista em política de defesa da Universidade de Ciência Política e Direito de Xangai, He Qisong, concorda que as avaliações da Rússia possam influenciar as decisões de Pequim sobre os objetivos e o alcance de seu próprio veículo hipersônico.
“Os testes hipersônicos conduzidos pela China e pela Rússia tentam causar uma ameaça aos Estados Unidos, que planejam montar um sistema de defesa antimísseis na Coreia do Sul”, disse Qisong ao jornal “South China Morning Post”.
“A China não tem outra opção, especialmente porque os EUA tomaram uma série de medidas provocativas para se envolverem nas disputas territoriais da China com outros países asiáticos no Mar da China Meridional”, acrescentou o professor. “O HGV é, até então, uma das armas de propriedade chinesa que poderiam romper o sistema de mísseis antibalísticos do Exército dos Estados Unidos (THAAD).” Coalizão necessária
Ao contrário dos mísseis balísticos que viajam ao longo de um trajeto parabólico – e previsível – até o alvo, os HGVs deslizam através da estratosfera após o lançamento. A fase de deslizamento permite que os veículos assumam velocidades de 11.000 km/h ou mais e manobrem de forma aerodinâmica para escapar de interceptações.
Os HGVs são armas altamente desestabilizadoras porque, ao contrário dos mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs), que podem levar até 30 minutos para atingir seus alvos do outro lado do mundo, os veículos hipersônicos podem fazer o mesmo trajeto em uma fração desse tempo.
Os EUA são atualmente líder em tecnologia de armas baseadas no espaço. O programa norte-americano de veículo hipersônico de deslize é um componente-chave de seu sistema de ‘ataque-relâmpago global’, cujo objetivo é permitir ao país atingir qualquer alvo no mundo em menos de 60 minutos.
Embora, atualmente, não haja mais do que uma colaboração acadêmica ou teórica básica entre a Rússia e a China no setor, as ações de Washington estão aproximando os dois países. Uma dessas medidas é a implantação de uma de uma bateria americana THAAD na Coreia do Sul.
Segundo Víktor Poznikhir, tenente-general do Estado-Maior das Forças Armadas russas, Moscou e Pequim acreditam que essa nova geração de armas poderia fornecer aos EUA não só a possibilidade de perpetrar um ataque devastador sobre seus territórios, como também interceptar mísseis chineses e russos.
Para contrapor o potencial dos EUA, os dois países já realizaram em 2016 exercícios conjuntos para evitar ataques de mísseis com o uso de um sistema de defesa próximo a suas fronteiras. Espera-se que uma manobra semelhante seja conduzida este ano. Mudança de postura
Pequim se mantém na defensiva: a maioria de seus ICBMs estão em silos, enquanto as ogivas nucleares ficam separadas de seus núcleos físseis e sistemas de entrega. Isso é feito para evitar alarde no Pentágono e uma desnecessária corrida de mísseis.
No entanto, a China está gradualmente mudando de abordagem. Acreditava-se que suas armas hipersônicas deslizantes seriam montadas sobre os mísseis DF-21D como uma tipo de sistema A2AD, mas tudo indica que o país está emulando a postura russa de que Moscou deve ser capaz de lançar um primeiro ataque contra alvos nos EUA.
“Se o objetivo final dos sistemas chineses estiver alinhado com o da Rússia e tiver por objetivo derrotar as defesas antimísseis dos EUA, isso sugere uma carga nuclear. Essa tendência poderia alterar não apenas as definições de ‘resposta rápida’ e ‘defesa ativa’, mas também a essência da postura da China de ‘não fazer o primeiro ataque’”, sugere o documento publicado pelo Sipri.
Fato é que as armas nucleares estão no centro da percepção russa e chinesa de poder. Os avanços dos EUA em relação a HGVs têm o potencial de criar uma janela de vulnerabilidade que coloca em risco os arsenais de Moscou e Pequim, bem como seus sistemas de comando, controle e comunicação. É justamente nesse contexto que não se pode excluir uma convergência de interesses entre os dois no setor hipersônico. Rakesh Krishnan Simha é um jornalista e observador internacional baseado na Nova Zelândia. Também integra o conselho consultivo do Diplomacia Moderna, um portal europeu voltado à discussão de assuntos internacionais.
Importantes mudanças mundiais estão acontecendo dentro do grande triângulo estratégico em curso entre Rússia China e Irã, enquanto o resto do mundo continua perdendo tempo tentando decifrar ou assimilar a nova presidência Trump.
Distante do atual caos nos Estados Unidos, grandes acontecimentos estão acontecendo a pleno vapor, com Irã, Rússia e China coordenados em uma série de movimentos significativos para o futuro do continente eurasiano. Com uma população total de mais de cinco bilhões de almas, que constituem cerca de dois terços da população do planeta, o futuro da humanidade passa obrigatoriamente através dessa área imensa. Apontando para uma mudança de grande magnitude na ordem mundial que se baseia atualmente na Europa e nos Estados Unidos, em direção a mundo multipolar monitorado pela China, Irã e Rússia, os estados eurasianos estão se preparando para um papel de liderança no desenvolvimento desse enorme continente. Como parte dos desafios que deverão enfrentar os líderes desses países multipolares, os eventos prejudiciais que se originam na ordem mundial Euro/Atlântica construída depois da Segunda Grande Guerra mundial terão que ser encarados.
Analisando os principais projetos do continente eurasiano, uma coisa que se destaca é o papel da China, Rússia e Irã nas diferentes áreas sob sua influência. O projeto One Belt, One Road (um cinturão, uma estrada, também conhecido como OBOR - ntrad) que foi proposto por Pequim (com investimento de cerca de um trilhão de dólaresdentro dos próximos dez anos); a União Econômica Eurasiana (Eurasian Economic Union - ntrad) proposta por Moscou para integrar as antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central e o papel do Irã no Oriente Médio como esforço para trazer de volta a estabilidade de prosperidade para a região - são todos de importância crucial para o desenvolvimento eurasiano. Claro que possuindo uma perspectiva multipolar, todos estes projetos convergem totalmente, e requerem desenvolvimento conjunto e coordenado para que resultem realmente no sucesso do continente eurasiano.
Neste sentido, as principais áreas de grande agitação incluem aquelas sob a esfera de influência destes principais países eurasianos. As principais concentrações de turbulência podem ser facilmente identificadas no Oriente Médio e no Norte da África, isso para não fazer menção ao Golfo Pérsico, onde a guerra criminosa da Arábia Saudita contra o Iêmen continua sem tréguas há 24 meses.
Uma fonte de cooperação: o terrorismo islâmico
A fonte comum de instabilidade no continente eurasiano resulta do terrorismo islâmico, utilizado pelas grandes potências ocidentais como um instrumento de divisão e conflito. Assim, o papel de sauditas e turcos, alimentando e espalhando o Wahhabismo, bem como a Irmandade Muçulmana significa que eles estão diretamente contra a estabilidade pretendida pela esfera Russa, Chinesa e Iraniana. Previsivelmente, o papel de Teerã na região se tornou decisivo, com o apoio total, financeiramente da China e militarmente da Rússia. Hoje, o Irã é o país no qual a influência sino/russa se manifesta em todos os níveis, na região e além dela. A deterioração da situação militar na Síria, no entanto, obrigou Moscou a intervir militarmente para ajudar à Síria, aliado regional mais importante do Irã na região, mas ao mesmo tempo providenciou uma desculpa perfeita para conter a influência da Arábia Saudita e da Turquia na região. O Crescente Xiita em ascensão, que liga Irã, Iraque, Síria e Líbano, é de importância vital para quem quer estabelecer ou manter a influência de um mundo multipolar na região. Até agora, Washington tem sido capaz de impor seus assuntos através de ações levadas a termo por Arábia Saudita e Turquia, seus submissos ativos regionais, cujos interesses se alinham sempre com os mesmos de elementos sionistas, neoconservadores e Wahhabis que existem no estado profundo dos Estados Unidos. Washington claramente quer manter e preservar a ordem mundial de um mundo unipolar através de seus aliados regionais, com o objetivo de se manter o principal árbitro nas questões do Oriente Médio, uma área que reflete a instabilidade desde o Golfo Pérsico até o Norte da África.
Não é de se admirar, portanto, que Moscou tente manter relações especiais com o governo egípcio que sucedeu a Irmandade Muçulmana de Morsi, com a intenção de conter a influência saudita/(norte)americana no Cairo e no Norte da África, especialmente na sequência da destruição da Líbia de Kaddafi. Os sinais emitidos por Al Sisi são encorajadores e representam um exemplo claro de um mundo multipolar em construção. O Egito aceitou financiamento saudita durante a época de elevada tensão entre Doha eRIAD, o que representava um movimento de fraqueza óbvia do Cairo, especialmente depois do golpe que removeu Morsi, o qual era apoiado pelo Catar, Turquia e Estados Unidos. Hoje, o Egito está feliz em cooperar com Moscou, especialmente no que diz respeito a armamentos (a compra de dois navios Mistral da França representa futuras compras de armamento de Moscou; da mesma forma, é o caso de desenvolvimento de fontes de energia nuclear, que seria alternativa para a importação massiva de petróleo da Arábia Saudita, a qual foi suspensa por Riad, logo depois do início do diálogo entre Cairo e Damasco). O Egito trabalha para estabelecer uma posição estratégica na região, cada vez mais influenciada pelo triângulo russo/sino/iraniano (conversações sobre a inclusão do Egito na EAEU [União Econômica Euroasiática- ntrad] Estão em andamento já há algum tempo), embora não descarte completamente a contribuição econômica da Arábia Saudita e dos Estados Unidos. Por outro lado, a influência de Turquia e Irã é rejeitada e declarada hostil, principalmente por causa do contínuo relacionamento com a Irmandade Muçulmana, uma das maiores preocupações do país no Sinai.
A estabilidade no Oriente Médio e no Norte da África depende de uma expansão do papel mediador do Irã; de importantes contribuições financeiras da República Popular da China (pense um pouco na situação da Líbia e na reconstrução da Síria); e de uma cooperação militar da Federação Russa. A importância de focar nestas áreas jamais será superestimada, já que representam os primeiros passos na direção de uma reestruturação mais fundamental da nova ordem mundial em partes diferentes da massa continental eurasiana.
Síria, um caso de estudo: o Cáucaso, a Ásia Central e AfPak (região do Afeganistão/Paquistão - ntrad)
Ao prestarmos atenção nos perigos que representam um Islã politizado e o extremismo wahhabista, sempre vêm à mente três áreas do continente eurasiano para considerações: as antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central; a fronteira sempre problemática entre Afeganistão e Paquistão e a área do Cáucaso. Netas áreas, a cooperação entre China, Rússia e Irã está mais uma vez desempenhando um papel chave, e estamos presenciando muitas tentativas de mediação de tensões e conflitos que podem ser potencialmente catastróficos para o desenrolar de projetos econômicos e de desenvolvimento. Os ataques terroristas que aconteceram recentemente na cidade de Lahore, capital da província do Punjab no Paquistão, mostram a verdadeira face da cooperação entre Afeganistão e Paquistão, decididamente encorajada pela China e pela Rússia. Logo após uma breve troca de tiros entre militares dos dois países na fronteira comum, um acordo foi arranjado entre Kabul e Islamabad para reduzir as tensões e fazer progredir conversações de paz fortemente apoiadas por Moscou e Pequim. A necessidade de interromper a escalada de tensões entre Paquistão e Afeganistão é um dos principais objetivos de Rússia e China, naquela que é uma das regiões mais instáveis do mundo e pela qual deverão transitar os futuros projetos liderados pela aliança Irã/Rússia/China. A instabilidade dessa área em particular depende em grande parte do papel que Índia, Arábia Saudita, Estados Unidos e Turquia pretendem desempenhar para colocar um contrapeso ao papel do trio eurasiano. Assim, não é por coincidência que Moscou está tentando várias formas de entendimento complexo com cada um desses atores. A Arábia Saudita e a Turquia são os centros de controle e administração do terrorismo internacional, e a influência negativa deRIAD e Ancara é sentida desde a Líbia e a Síria, até o Paquistão, Afeganistão e o Cáucaso. Aqui, o fator determinante não é exercido pelos Estados Unidos, embora Washington não tenha nenhum pejo em encorajar quaisquer esforços destrutivos diretos contra a integração do continente eurasiano.
No papel representado por Rússia e Turquia, o primeiro ponto positivo de entendimento parece ser a Síria, e pode, caso seja encontrado um resultado positivo para o conflito, representar a pedra fundamental sobre a qual se poderá construir uma cooperação estratégica em áreas como AfPak e Ásia Central. Neste sentido, os incentivos do corredor energético representado pelos oleogasodutos, nos quais o principal empreendedor é a Rússia, não pode ser subestimado, como é o caso, por exemplo, do Turkish Stream. Também no Cáucaso, que é outra área de instabilidade acentuada, o papel desempenhado pela Rússia e Irã foi decisivo durante os quatro dias da Guerra em Nagorno-Karabakh.
Em relação ao campo energético, é certamente um grande fator de interesse para a Arábia Saudita, que está há tempos observando a diversificação do setor energético com atenção, em especial a energia nuclear civil, campo no qual a Rússia tem posição de liderança mundial. Moscou diversifica seu jogo, valorizando suas cartas ao prover cooperação econômica e militar com seus parceiros mais próximos (Irã, China, Síria, Cazaquistão, Tajiquistão e Quirguistão); fortalecendo as alianças bilaterais através de incentivo na forma de cooperação em sistemas de armamentos (Índia, Paquistão e Egito); e cooperação no setor de energia com países tão distantes como Catar, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, na intenção de abrir brechas que lhe permitam alcançar acordos geopolíticos mais amplos.
Toda a estratégia das três principais nações eurasianas dirige-se primariamente para a consolidação de suas fronteiras nacionais com os países das regiões mais turbulentas. A recente viagem de Putin ao Cazaquistão, Tajiquistão e Quirguistão tinha o objetivo de fortalecer a parte mais vulnerável da Federação Russa, ao eliminar a ameaça e influência do terrorismo islâmico radical, permitindo a expansão da cooperação econômica na União Eurasiana. Embora não seja uma tarefa fácil, há o encorajamento da perspectiva de ganhos de parte a parte para as nações envolvidas, com acordos bilaterais mutuamente vantajosos, em vez de imposições. De certa forma, é o que a República Popular da China também está tentando fazer na Ásia Central, uma das regiões mais voláteis do planeta, esforçando-se para estabelecer acordos e expandir o conjunto de seus recursos energéticos, como ocorreu recentemente no Turcomenistão. Outro exemplo da redução de ameaças no continente eurasiano pode ser visto na província chinesa de Xinjiang, onde a China colocou seus esforços um uma área onde existe a necessidade urgente de minimizar as tensões políticas e sociais, caso se queira evitar o sucesso de esforços estrangeiros para desestabilizar a China, a partir principalmente da Turquia, através de seu aliado Turcomenistão.
Neste contexto, o papel mais difícil de entender é o desempenhado pela Índia, encaixotada dentro de sentimentos contrários a Paquistão e China, bem como uma antiga sujeição aos Estados Unidos e uma boa amizade histórica com a Federação Russa. As ações de Nova Deli nesta parte do mundo são as mais difíceis de decifrar, vendo-se os inescrutáveis esforços da Índia para avançar na direção de seus objetivos estratégicos. A importância estratégica de Moscou e Teerã é essencial para equilibrar a posição da Índia. Historicamente, a Índia é um parceiro importante da URSS, e em anos mais recentes o exército hindu continua a desenvolver projetos militares importantes com a Federação Russa. Mais recentemente, a República Islâmico da Irã contribuiu muito para a diversificação dos suprimentos de energia da Índia. O fato de que Teerã é um parceiro privilegiado do Pequim mostra como se parece um mundo multipolar, e também ajuda a equilibrar o sentimento de antipatia contra a China, profundamente enraizado no establishment hindu. Neste caso, Rússia e Irã estão claramente desempenhando papel de mediadores entre China e Índia. O fato de que tanto a Índia quanto a China são compradores importantes de gás do Irã, bem como o fato de que tanto China quanto Índia estão cooperando com a Rússia em termos militares, ajuda a compreender como Moscou e Teerã estão pouco a pouco eliminando Washington e amenizando o sentimento contra a China na Índia.
As tensões dos fás de Washington na Índia estão sendo cada vez mais afastadas, não apenas porque trazem dificuldades para a necessidade do país de criar um ambiente confiável de desenvolvimento sem excluir qualquer oportunidade de parceria. O maior e mais difícil desafio é o processo de paz entre Afeganistão e Paquistão, o qual vai contra os interesses geopolíticos da Índia na região, nesta questão alinhados com a posição (norte)americana. Para amenizar a situação, é necessária grande cooperação conjunta. A SCO - Shanghai Cooperation Organization (Organização de Cooperação de Xangai - ntrad) tentará construir um quadro dentro do qual se discuta e se encontre acordos possíveis entre todos os participantes envolvidos. Mais uma vez, uma conversação regional entre poderes eurasianos não incluirá a velha ordem mundial composta por Europa e Estados Unidos.
Não se pode declarar que o esforço exercido por China e Rússia na Ásia Central são exagerados por causa da importância dos recursos energéticos potencialmente disponíveis. Isso para não mencionar a futura possível cooperação entre duas áreas econômicas gigantescas, como a União Europeia e Ásia, que deverá fluir através da Ásia Central, transformando a União Eurasiana em uma ponte dourada ligando a Europa e a Ásia. Até agora, a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO - Collective Security Treaty Organization - ntrad) se portou apenas como uma organização nos moldes da SCO, que tem a tendência de priorizar a luta contra o terrorismo; mas cada vez mais estás sendo vista como um lugar disponível para conversações, uma organização que pode oferecer um caminho para a cooperação econômica e que oferece prioritariamente as bases para a estabilização territorial da região. Nesta área do planeta, a prosperidade econômica depende profundamente da estabilidade militar e política.
Resumindo, trata-se do principal desafio que a Rússia, China e Irã estão encarando, nomeadamente, arrefecer as zonas quentes (Oriente Médio, Golfo Pérsico e Norte da África) através da erradicação do problema do terrorismo, e evitar nova escalada de tensões em regiões vizinhas que se situam dentro de sua esfera de influência (o Cáucaso, Afeganistão/Paquistão e Ásia Central). Assim, estarão evitando uma desestabilização destrutiva.
Somente quando um quadro internacional estiver implementado firmemente nestas áreas, estabilizando-a totalmente, será possível uma grande e abrangente cooperação econômica que terá significação histórica. Neste sentido, a admissão da Índia e do Paquistão na SCO foi o primeiro passo de um acordo complicado arranjado pela China e Rússia e que cobriu uma dúzia de nações. A mesma situação será observada com a futura entrada do Irã na SCO, com o objetivo específico de aumentar a influência da SCO em áreas instáveis como o Golfo Pérsico me o Oriente Médio. Da mesma forma as discussões relativas à entrada do Egito na SCO como membro efetivo é destinada a expandir a influência positiva da SCO em lugares tão longínquos quanto o Norte da África.
As fundações desenvolvimentistas que Rússia, China e Irã estão arquitetando destinam-se a tornar irrelevantes os Estados Unidos em seus esforços para esticar seu momento unipolar. Ao combinar o desenvolvimento econômico e demográfico dessas áreas com a população do continente eurasiano, é fácil entender como, no espaço de duas décadas, se tanto, a área que vai de Portugal à China e que inclui dúzias de nações em todas as latitudes e longitudes e que se estende desde as regiões Árticas da Federação Russa até as praias da Índia no Golfo Pérsico, deverá ser o pivô central a girar a economia mundial. A combinação dos corredores de mar e terra fará do continente eurasiano o coração do mundo, não apenas em termos de produção mas também em negócios e consumo, devido ao crescimento da riqueza da classe média dessas áreas do planeta.
Numa visão estratégica que historicamente incorporou décadas de planejamento, Teerã, Moscou e Pequim conseguiram compreender totalmente que a estabilidade é o objetivo principal a ser conquistado para promover desenvolvimento econômico efetivo que beneficie todas s nações envolvidas. Na Ásia, a ASEAN (Association of Southeast Asian Nations - Associação das Nações do Sudeste Asiático - ntrad) começou a agir de forma menos beligerante com a China. Embora Pequim continue a assegurar seus interesses estratégicos com a construção e militarização de ilhas artificiais no Mar do Sul da China. O presidente Duterte, das Filipinas, parece ter compreendido os ganhos potenciais de uma cooperação multipolar, e a recente guinada estratégica efetuada por seu país está mostrando o caminho para todas as nações asiáticas, especialmente na sequência do fracasso do projeto de livre comércio denominado TPP (Trans-Pacific Partnership), abandonado por Washington, que o projetara. Pertence ao futuro o papel que deverá ser representado pelo velho continente europeu, desde que continua amarrado à estratégia (norte)americana, focada em isolar a Rússia, China e Irã e comprometido em promover a hegemonia de Washington a qualquer custo, mesmo que isso envolve uma espécie de suicídio econômico, como pode ser visto nas sanções contra a Federação Russa motivadas pelos acontecimentos na Ucrânia.
Embora não se possa predizer, não se pode da mesma forma excluir uma mudança de direção pela Europa, como resultado direto das políticas fracassadas de se ajoelhar perante os interesses dos Estados Unidos em detrimento dos interesses dos cidadãos europeus. Não é por acaso que muitos partidos europeus, considerados populistas ou nacionalistas, têm mesmo a intenção de se voltar para o oriente, na busca de uma cooperação que por longo tempo vem sendo evitada pela estupidez das elites ocidentais.
China, Rússia e Irã parecem ter mesmo a intenção de acelerar o projeto de uma cooperação global e não mostram disposição para fechar a porta a qualquer ator de fora da Eurásia, especialmente em um mundo cada vez mais globalizado e interconectado. Dê uma olhada nas ligações da República Popular da China com projetos de desenvolvimento em países da América Latina para entender como a dimensão ciclópica dessa vontade de incluir todas as nações sem exceção. É sobre essa fundação que a nova ordem mundial multipolar está assentada, e cedo ou tarde as elites europeias e (norte)americanas terão que entender. O dilema que a elite ocidental tem uma dificuldade enorme de assimilar é o fato de que seu papel será diminuído na futura ordem mundial: os Estados Unidos e a Europa não mais serão protagonistas, e sim atores em pé de igualdade no elenco internacional. A ordem multipolar está a todo o vapor, deixando sem tempo e em crise o mundo unipolar. Como reagirão europeus e (norte)americanos? Aceitarão o papel de fazer parte do elenco em pé de igualdade ou rejeitarão a mudança histórica inexorável, relegando-se ao papel de um doloroso processo de aniquilação e esquecimento?
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Exército sírio expulsou militantes terroristas de Palmira graças ao apoio das Forças Aeroespaciais da Rússia. Ideia é criar novos postos de controle e reforçar segurança para cidadãos a fim de evitar uma nova ofensiva do Estado Islâmico contra a cidade.
Cidade liberada em março de 2016 havia sido novamente tomada pelo EI Foto:Oleg Blokhin/Anna News
A retomada da cidade histórica de Palmira das mãos de militantes do Estado Islâmico (EI) foi confirmada pelo ministro da Defesa russo, Serguêi Choigu, em reunião com o presidente Vladímir Pútin na última quinta (2).
Segundo relatos, poucas horas antes do ataque à cidade, o Exército sírio tomou o controle do monte Al Tar, próximo à cidadela antiga, onde artilharia foi implantada para garantir a cobertura das tropas.
Embora o acesso a Palmira tenha sido feito a partir de pontos diversos, o ataque se deu lentamente, já que os militantes terroristas haviam implantado minas explosivas em grande parte da cidade. Antes do avanço dos soldados, sapadores tiveram de ‘limpar’ os trajetos para a passagem da infantaria e da tecnologia militar. Sapadores retiraram minas antes de Exército adentrar cidade (Foto: Oleg Blokhin/Anna News)
Durante os combates, as tropas do EI sofreram grandes perdas e acabaram recuando para o leste do país, informou a agência Fars News. Defesa de Palmira
De acordo com o coronel da reserva e editor-chefe da revista “Arsenal da Pátria”, Víktor Murakhóvski, o Exército sírio assumiu o controle das zonas elevadas ao redor de Palmira, onde poderá implantar sua artilharia. Isso permitirá, segundo o militar, controlar o território em um raio de 8 km.
“O exército conseguiu um importante ponto de apoio e traçou uma linha na frente que impedirá o contra-ataque de militantes do EI à base aérea T4, da Força Aérea Síria, nos entornos de Palmira”, diz Murakhóvski.
“Isso permitirá garantir a segurança dos distritos recuperados e desenvolver o ataque a Deir ez Zor, onde os guerrilheiros cercaram algumas divisões da Síria”, acrescenta. Tropas adicionais serão posicionadas dentro e nos arredores de Palmira (Foto: Oleg Blokhin/Anna News)
Após a primeira batalha por Palmira, em março de 2016, as milícias se encarregaram da defesa da cidade, e as tropas oficiais sírias seguiram para os arredores de Aleppo.
No entanto, agora é provável que o comando do Ministério da Defesa russo aloque tropas e tecnologia adicionais para ajudar a defender a cidade, diz o editor-chefe da revista “Defesa Nacional”, Ígor Korótchenko.
“Para defender a cidade não é necessário um grande contingente militar. A Rússia vai enviar novos sistemas para essa área e continuará ampliando a defesa nos arredores (...) para evitar que os acontecimentos eventos do final do ano passado se repitam, quando os militantes chegaram a Palmira sem serem vistos e tomaram o controle da cidade mais uma vez”, explica. Áreas elevadas nos arredores de cidade facilitarão controle (Foto: Oleg Blokhin/Anna News)
Segundo o coronel-general aposentado e presidente do Centro Internacional de Análise Geopolítica, Leonid Ivachov, após a derrota das unidades do EI em Palmira, os militantes devem optar por aumentar as atividades terroristas e poderão começar a enviar homens-bomba aos bairros residenciais quando os moradores retornarem.
“Será necessário reforçar o controle por parte dos serviços de segurança e fortalecer não só os pontos de apoio militar ao longo do perímetro da cidade, mas também a segurança das pessoas dentro da cidade”, destaca o militar aposentado . Próximas missões
O próximo lugar onde as Forças Aeroespaciais russas atuarão deverá ser, de acordo com alguns especialistas, a província de Idlib. Isso porque mais de 30 mil militantes do EI e suas famílias chegaram à região por meio de corredores humanitários.
“O Exército sírio está tentando cercar os terroristas com o nosso apoio para liberar a parte ocidental da província de Aleppo, bem como a região norte das províncias de Hama e Latakia”, disse à Gazeta Russa o analista militar e vice-diretor do Instituto dos Países da CEI, Vladímir Ievseiev. Após retomada de Palmira, militares russos deverão seguir para Idlib (Foto: Oleg Blokhin/Anna News)
A expectativa é que as operações militares nessa área durem até a metade de 2017; nos meses seguintes, espera-se que os exércitos da Rússia e da Síria se movam rumo às cidades de Raqqa e Deir ez Zor, na frente oriental.
“Espero que, em breve, comecemos a trabalhar mais ativamente com os EUA nessa área e que a guerra na Síria não dure mais de um ano”, concluiu Ievseiev.