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sexta-feira, 28 de julho de 2017

Princípios Elementares de Filosofia - ESTUDO DA DIALÉTICA



INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DIALÉTICA
I. — Precauções preliminares.
II. — De onde nasceu o método dialético?
III. — Por que foi a dialética, durante muito tempo, dominada pela concepção metafísica?
IV. — Por que era metafísico o materialismo do século XVIII?
V. — Como nasceu o materialismo dialético: Hegel e Marx.

I. — Precauções preliminares.
Quando se fala da dialética, é, por vezes, com mistério e apresentado-a como qualquer coisa de complicado.
Conhecendo mal o que é, fala-se dela, também, a torto e a direito. Tudo isso é lamentável, e faz cometer erros que é preciso evitar.
Tomado no seu sentido etimológico, o termo dialética significa, simplesmente, a arte de discutir, e é assim que se ouve, muitas vezes, dizer de um homem que discute longamente, e mesmo também, por extensão, daquele que fala bem: é um dialético!
Não é nesse sentido que vamos estudar a dialética. Tomou, sob o ponto de vista filosófico, uma significação especial.
A dialética, no sentido filosófico, contrariamente ao que se pensa, está ao alcance de todos, porque é uma coisa muito clara e sem mistério.
Mas, se pode ser compreendida por toda a gente, tem, todavia, as suas dificuldades; e, eis como devemos compreendê-las.
Entre os trabalhos manuais, alguns são simples, outros, mais complicados. Fazer caixas de embalagem, por exemplo, é um trabalho simples. Montar um aparelho de T.S.F., pelo contrário, representa um trabalho que requer muita habilidade, precisão, agilidade dos dedos.
As mãos e os dedos são para nós instrumentos de trabalho. Mas o pensamento também o é. E se os dedos não fazem sempre um trabalho de precisão, o mesmo acontece com o nosso cérebro.
Na história do trabalho humano, o homem, no início, apenas sabia fazer trabalhos grosseiros. O progresso nas ciências permitiu trabalhos mais precisos.
Acontece exatamente o mesmo com a história do pensamento. A metafísica é esse método de pensamento que apenas é capaz, como os nossos dedos, de movimentos grosseiros (como pregar caixotes ou puxar as gavetas da metafísica).
A dialética difere deste método, porque permite uma maior precisão. É apenas um método de pensamento de grande precisão.
A evolução do pensamento foi a mesma que a do trabalho manual. É a mesma história, não havendo nenhum mistério: tudo é claro nesta evolução.
As dificuldades que encontramos provêm de que, até há vinte e cinco anos, pregamos caixotes, e, subitamente, nos colocam em frente dos aparelhos de T.S.F. para fazer a montagem. É certo que teremos grandes dificuldades, que as nossas mãos serão pesadas, os dedos inábeis. Só pouco a pouco conseguiremos suavizar-nos e realizar esse trabalho. O que era muito difícil no princípio, parecer-nos-á, depois, mais simples. Para a dialética, é a mesma coisa. Estamos embaraçados, de erros pelo antigo método de pensamento metafísico, e devemos adquirir a maleabilidade, a precisão do método dialético. Mas, vemos que, ainda aí, nada há de misterioso nem de muito complicado.

II. — De onde nasceu o método dialético?
Sabemos que a metafísica considera o mundo como um conjunto de coisas congeladas, e, ao contrário, se olharmos a natureza, vemos que tudo se move, tudo muda. Constatamos a mesma coisa com o pensamento.
Resulta desta constatação, portanto, um desacordo entre a metafísica e a realidade. É por isso que, para definir de uma maneira simples e dar uma ideia essencial, se pode dizer: quem diz «metafísica» diz «imobilidade», e quem diz «dialética» diz «movimento».
O movimento e a mudança, que existem em tudo o que nos rodeia, estão na base da dialética.
Quando submetemos ao exame do pensamento a natureza ou a história da humanidade, ou a nossa, própria atividade mental, o que se nos oferece, em primeiro lugar, é o quadro de uma confusão infinita de relações, de ações e reações, onde nada permanece o que era, onde era, como era, onde tudo se move, se transforma, vem a ser e passa47.
Vemos, depois deste texto tão claro de Engels, que, do ponto de vista dialético, tudo muda, nada fica onde está, nada permanece o que é, e, por consequência, tal ponto de vista está em perfeito acordo com a realidade. Nenhuma coisa permanece no lugar que ocupa, uma vez que mesmo o que nos aparece como imóvel se move; move-se com o movimento da terra em volta do sol; e no movimento da terra sobre ela mesma. Na metafísica, o princípio de identidade quer que uma coisa permaneça ela própria. Vemos, pelo contrário, que nenhuma coisa permanece o que é.
Temos a impressão de ficar sempre os mesmos, e, portanto, diz-nos Engels, «os mesmos são diferentes».
Pensamos ser iguais e já mudamos. Da criança que éramos, tornamos homem, e este, fisicamente, jamais fica o mesmo: envelhece todos os dias.
Não é, pois, o movimento que é a aparência enganadora, como o sustentavam os Eleatas, é a imobilidade, visto que, de fato, tudo se move e tudo muda.
A história também nos prova que as coisas não permanecem o que são. Em nenhum momento a sociedade está imóvel. Primeiramente, houve, na antiguidade, a sociedade escravagista, sucedeu-lhe a feudal, depois a capitalista. O estudo dessas sociedades mostra-nos que, continuamente, insensivelmente, os elementos que permitiram o nascimento de uma sociedade nova desenvolveram-se nelas. E, é por isso que os metafísicos não compreendem o que é essa mudança. Continuam a julgar uma sociedade transformada,como era antes, com os seus sentimentos de homens sofrendo ainda a opressão.
Os nossos próprios sentimentos se transformam, coisa de que mal nos apercebemos. Vemos o que era apenas uma simpatia transformar-se em amor, depois degenerar, algumas vezes, em ódio.
O que vemos por toda a parte, na natureza, na história, no pensamento, é a mudança e o movimento. É por esta constatação que começa a dialética.
Os Gregos impressionaram-se pelo fato de se encontrar por toda a parte a mudança e o movimento. Vimos que Heráclito, o chamado «pai da dialética», foi o primeiro a dar-nos uma concepção dialética do mundo, isto é, descreveu-o em movimento e não congelado. A maneira de ver de Heraclito pode tornar-se um método.
Mas este método dialético não pôde afirmar-se senão muito mais tarde, e é-nos necessário ver porque razão a dialética foi muito tempo dominada pela concepção metafísica.

III. — Por que foi a dialética, durante muito tempo, dominada pela concepção metafísica?
Vimos que a concepção dialética nascera muito cedo na história, mas que os conhecimentos insuficientes dos homens permitiram à concepção metafísica desenvolver-se e passar à frente da dialética.
Podemos fazer aqui um paralelo entre o idealismo, que nasceu da grande ignorância dos homens, e a concepção metafísica, que nasceu dos conhecimentos insuficientes da dialética.
Como e porquê foi isso possível?
Os homens começaram o estudo da natureza num estado de completa ignorância. Para estudar os fenômenos que constatam, começam por classificá-los. Mas, da maneira de classificar resulta um hábito do espírito. Ao criar categorias, e separando-as umas das outras, o nosso espírito habitua-se a efetuar tais separações, e voltamos a encontrar aí os primeiros caracteres do método metafísico. É, pois, na verdade, da insuficiência do desenvolvimento das ciências que sai a metafísica. Ainda há 150 anos, se estudava as ciências separando as umas das outras. Estudava-se à parte a química, a física, a biologia, por exemplo, e não se via entre elas qualquer relação. Continuava-se, também, a aplicar esse método no interior das ciências: a física estudava o som, o calor, o magnetismo, a eletricidade,, etc., e pensava-se que estes diferentes fenômenos não tinham qualquer relação entre si; estudava-se cada um deles em capítulos separados.
Na verdade, reconhecemos, aí, o segundo caráter da metafísica, que quer que se desconheçam as relações das coisas e nada haja de comum entre elas.
Do mesmo modo, é mais fácil conceber as coisas no estado de repouso do que em movimento. Tomemos como exemplo a fotografia: vemos que, em primeiro lugar, se procura fixar as coisas na sua imobilidade (é a fotografia), depois, somente pela sequência, no seu movimento (é o cinema). Pois bem! A imagem da fotografia e do cinema é a do desenvolvimento das ciências e do espírito humano. Estudamos as coisas em repouso, antes de as estudar no seu movimento.
E isso porquê? Porque não se sabia. Para aprender, tomou-se o ponto de vista mais fácil; ou as coisas imóveis são mais fáceis de perceber e estudar. Certamente, o estudo das coisas em repouso é um momento necessário do pensamento dialético — mas só um momento, insuficiente, fragmentário, e que é preciso integrar no estudo das coisas em transformação.
Encontramos esse estado de espírito na biologia, por exemplo, no estudo da zoologia e da botânica. Porque não se conheciam bem, classificaram-se, primeiro, os animais em raças, espécies, pensando que entre elas não havia nada de comum e que fora sempre assim (terceiro caráter da metafísica). Ê daí que vem a teoria a que se chama o «fixismo» (que afirma, contrariamente ao «evolucionismo», que as espécies animais foram sempre o que são, que nunca evoluíram), que é, por conseguinte, uma teoria metafísica, proveniente da ignorância dos homens.

IV. — Por que era metafísico o materialismo do século XVlll?
Sabemos que a mecânica desempenhou um grande papel no materialismo do século XVIII e que este é muitas vezes chamado o «materialismo mecanicista». Por que aconteceu assim? Porque a concepção materialista está ligada ao desenvolvimento de todas as ciências e, entre estas, foi a mecânica que se desenvolveu primeiro. Na linguagem corrente, a mecânica é o estudo das máquinas; em linguagem científica, o do movimento no que respeita a deslocação. E se a mecânica foi a ciência que primeiro se desenvolveu, é porque o movimento mecânico é o mais simples. Estudar o movimento de uma maçã que balança ao vento, num pomar, é muito mais fácil do que estudar a mudança que se produz na maçã que amadurece. Pode estudar-se mais facilmente o efeito do vento sobre a maçã do que a sua maturação. Mas este estudo é «parcial», abrindo, assim, a porta à metafísica.
Muito embora observem que tudo é movimento, os antigos Gregos não podem tirar partido de tal observação, porque o seu saber é insuficiente. Então, observam-se as coisas e os fenômenos, classificam-se, contentam-se em estudar a deslocação, daí a mecânica; e a insuficiência dos conhecimentos nas ciências dá origem à concepção metafísica.
Sabemos que o materialismo é sempre baseado nas ciências e que, no século XVIII, a ciência era dominada pelo espírito metafísico. De todas, a mais desenvolvida nessa época era a mecânica.
É por isso que era inevitável, dirá Engels, que o materialismo do século XVIII fosse um materialismo metafísico e mecanicista, porque as ciências eram assim.
Diremos, portanto, que o materialismo metafísico e mecanicista era materialista, porque respondia à pergunta fundamental da filosofia - o fator primeiro é a matéria -, mas era metafísico, porque considerava o universo como um conjunto de coisas congeladas e mecânicas, porque estudava e via todas as coisas através da mecânica.
Virá um dia em que se chegará, por acumulação das pesquisas, a constatar que as ciências não são imóveis; aperceber-se-á que, nelas, se produziram transformações. Depois de ter separado a química da biologia e da física, dar-se-á conta de que se torna impossível tratar qualquer delas sem ter de recorrer às outras. Por exemplo, o estudo da digestão, que é do domínio da biologia, torna-se impossível sem a química. No século XIX, aperceber-se-á, pois, que as ciências estão ligadas entre si, e resultará um retrocesso do espírito metafísico nas ciências, porque se terá um conhecimento mais aprofundado da natureza. Até lá, tinha-se estudado os fenômenos da física separadamente; agora, era-se obrigado a constatar que todos esses fenômenos eram da mesma natureza. É assim que a eletricidade e o magnetismo, que se estudavam separadamente, estão reunidos hoje numa ciência única: o electromagnetismo.
Ao estudar os fenômenos do som e do calor, descobriu-se, do mesmo modo, que ambos eram provenientes de um fenômeno da mesma natureza.
Batendo com um martelo, obtém-se um som e produz-se calor. É o movimento que produz calor. E sabemos que o som provém de vibrações no ar, também estas são movimento. Portanto, eis dois fenômenos da mesma natureza.
Em biologia, chegou-se, classificando cada vez mais minuciosamente, a encontrar espécies que não se podiam classificar, nem como vegetais, nem como animais. Não havia, pois, separação brusca entre uns e outros. Desenvolvendo-se sempre os estudos, chegou-se a concluir que os animais não foram sempre o que são. Os fatos têm condenado o fixismo e o espírito metafísico.
Foi no decurso do século XIX que se produziu esta transformação que acabamos de ver, e que permitiu ao materialismo tornar-se dialético. A dialética é o espírito das ciências que, ao desenvolver-se, abandonaram a concepção metafísica. O materialismo pôde transformar-se, porque as ciências mudaram. Às ciências metafísicas corresponde o materialismo metafísico, e às novas um materialismo novo, o dialético.

V. — Como nasceu o materialismo dialético: Hegel e Marx.
Se perguntamos como se operou essa transformação do materialismo metafísico em dialético, responde-se geralmente dizendo:
1. Havia o materialismo metafísico, o do século XVIII;
2. As ciências mudaram;
3 Marx e Engels intervieram; separaram o materialismo metafísico em dois; abandonando a metafísica, ficaram com o materialismo, juntando-lhe a dialética.
Se temos tendência em apresentar as coisas assim, isso provém do método metafísico, que quer que simplifiquemos as coisas, para fazer um esquema. Devemos, pelo contrário, ter sempre bem presente que jamais os fatos da realidade devem ser esquematizados. Os fatos são mais complicados do que parecem, do que pensamos. Pelo que não há uma transformação tão simples do materialismo metafísico em dialético.
A dialética foi, de fato, desenvolvida por um filósofo idealista alemão, Hegel (1770-1831), que soube compreender a mudança operada nas ciências. Retomando a velha ideia de Heráclito, constatou, ajudado pelos progressos científicos, que, no Universo, tudo é movimento e mudança, nada está isolado, mas tudo depende de tudo, criando, deste modo, a dialética. É a propósito de Hegel que falamos hoje de movimento dialético do mundo. O que Hegel compreendeu primeiro foi o movimento do pensamento, e, naturalmente, chamou-lhe dialético.
Mas Hegel é idealista, isto é, dá a importância primeira ao espírito, e, por consequência, faz do movimento e da mudança uma concepção particular. Pensa que são as mudanças do espírito que provocam as da matéria.
Para Hegel, o universo é a ideia materializada, e, antes dele, existe primeiramente o espírito que descobre o universo. Em resumo, constata que o espírito e o universo estão em perpétua mudança, mas, daí, conclui que as mudanças do espírito determinam as da matéria.
Exemplo: o inventor tem uma ideia, realiza-a, e é esta, materializada, que cria mudanças na matéria.
Hegel é, pois, na verdade, dialético, mas subordina a dialética ao idealismo.
É então que Marx (1818-1883) e Engels (1820-1895), discípulos de Hegel, mas discípulos materialistas, e dando, por consequência, a importância primeira à matéria, pensam que a sua dialética dá afirmações exatas, mas ao contrário. Engels dirá, a este respeito: com Hegel a dialética conservava-se na cabeça, era preciso repô-la nos pés. Marx e Engels, transferem, portanto, para a realidade material a causa inicial desse movimento do pensamento definido por Hegel, e chamam-no, naturalmente, dialético, servindo-se daquele seu mesmo termo.
Pensam que tem razão para dizer que o pensamento e o universo estão em perpétua mudança, mas se engana, afirmando que são as mudanças das ideias que determinam as das coisas. São, pelo contrário, estas que nos dão aquelas, e as ideias modificam-se porque as coisas se modificam.
Outrora, viajava-se em diligência. Hoje, de trem e avião. Não é por termos a ideia de viajar de trem ou avião, que este meio de locomoção existe. As nossas ideias modificaram-se, porque se modificam as coisas.
Devemos, pois, evitar dizer: «Marx e Engels possuíam, por um lado, o materialismo resultante do materialismo francês do século XVIII, por outro, a dialética de Hegel; por consequência, apenas tinham que os juntar um ao outro».
É uma concepção simplista, esquemática, que esquece que os fenômenos são mais complicados; é uma concepção metafísica.
Marx e Engels tomarão, na verdade, a dialética a Hegel, mas transformá-la-ão. O mesmo farão do materialismo, para nos dar o materialismo dialético.
47 Friedrich ENGELS: «Anti-Dühring

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Princípios Elementares de Filosofia – Materialismo Filosófico Capítulo III



HISTÓRIA DO MATERIALISMO  - 

I. — Necessidade de estudar essa história.
II. — O materialismo pré-marxista:
1. A antiguidade grega.
2. O materialismo inglês.
3. O materialismo na França.
4. O materialismo no século XVIII.
III. — De onde vem o idealismo?
IV. — De onde vem a religião?
V. — Os méritos do materialismo pré-marxista.
VI. — Os defeitos do materialismo pré-marxista.

Estudamos, até aqui, o que é o materialismo em geral e quais são as ideias comuns a todos os materialistas.
Vamos ver, agora, como evoluiu desde a antiguidade, até chegar ao materialismo moderno. Em poucas palavras, vamos seguir rapidamente a história do materialismo.
Não temos a pretensão de explicar, em tão poucas páginas, os 2000 anos de história do materialismo; queremos, simplesmente, dar indicações gerais, que guiarão as leituras.
Para estudar bem, mesmo sumariamente, essa história, é indispensável ver, a cada instante, porque razão as coisas se desenrolaram assim. Mais valeria não citar certos nomes históricos, do que não aplicar este método.
Mas, mesmo não querendo sobrecarregar o cérebro dos nossos leitores, pensamos que é necessário nomear, por ordem histórica, os principais filósofos materialistas mais ou menos seus conhecidos.
É por isso que, para simplificar o trabalho, vamos consagrar estas primeiras páginas ao lado puramente histórico, pois, na segunda parte deste capítulo, veremos porque é que a evolução do materialismo teve que suportar a forma de desenvolvimento que conheceu.

I. — Necessidade de estudar essa história.
A burguesia não gosta da história do materialismo, e é por isso que, ensinada nos livros burgueses, é inteiramente incompleta e sempre falsa. Empregam-se diversos processos de falsificação:
1. Não podendo ignorar os grandes pensadores materialistas, nomeiam-nos falando de tudo o que escreveram, salvo dos seus estudos materialistas, e esquecem-se de dizer que são filósofos materialistas.
Há muitos destes casos de esquecimento na história da filosofia, tal como é ensinada nos liceus ou na Universidade, e citaremos, como exemplo, Diderot, que foi o imaior pensador materialista antes de Marx e Engels.
2. Houve, no decurso da história, numerosos pensadores que foram materialistas sem o saber, ou inconseqüentes. Quer dizer, em alguns dos seus escritos, eram materialistas, noutros, idealistas: Descartes, por exemplo.
Ora, a história escrita pela burguesia deixa na sombra tudo o que, nesses pensadores, tem, não somente influenciado o materialismo, mas dado origem a toda uma corrente desta filosofia.
3. Portanto, se estes dois processos de falsificação não conseguem camuflar certos autores, suprimem-nos, pura e simplesmente.
É assim que se ensina a história da literatura e da filosofia do século XVIII,   ignorando d'Holbach e Helvétius, que foram grandes pensadores dessa época.
Por que é assim? Porque a história do materialismo é particularmente instrutiva para conhecer e compreender os problemas do mundo; e, também, porque o desenvolvimento do materialismo é funesto às ideologias que sustentam os privilégios das classes dirigentes.
São estas as razões pelas quais a burguesia apresenta o materialismo como uma doutrina que, congelada desde há vinte séculos, não mudou, quando, pelo contrário, o materialismo foi qualquer coisa de vivo e sempre em movimento.
Tal como o idealismo passou por toda uma série de fases de desenvolvimento, o mesmo acontece com o materialismo. Com cada descoberta que faz época no domínio das ciências naturais, é-lhe necessário modificar a sua forma.29
Compreendemos agora melhor a necessidade de estudar, mesmo sumariamente, essa história do materialismo. Para o fazer, devemos distinguir dois períodos: 1.°, da origem (antiguidade grega) até Marx e Engels; 2.°, do materialismo de Marx e Engels aos nossos dias. (Estudaremos esta segunda parte com o materialismo dialético.)
Chamamos ao primeiro período «materialismo pré-marxista» e ao segundo «materialismo marxista», ou «materialismo dialético».

II. — O materialismo pré-marxista.
1. A antiguidade grega.
Recordamos que o materialismo é uma doutrina que esteve sempre ligada às ciências, que evoluiu e progrediu com elas. Logo que, na antiguidade grega, nos séculos IV e V antes da nossa era, as ciências começaram a manifestar-se com os «físicos», forma-se, nesse momento, uma corrente materialista que atrai os melhores pensadores e filósofos dessa época (Tales, Anaximene, Heráclito). Esses primeiros filósofos serão, como disse Engels, «naturalmente dialéticos». Ficam realmente surpreendidos por acharem em tudo o movimento, a mudança, e que as coisas não estão isoladas, mas intimamente ligadas umas às outras...
Heráclito, a quem se chama o «pai da dialética», dizia: Nada é imóvel; tudo corre; nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio, porque ele nunca é, em dois momentos sucessivos, o mesmo: de um momento ao outro, mudou; tornou-se outro.
Heráclito, o primeiro, procura explicar o movimento, a mudança, e vê na contradição as razões da evolução das coisas.
As concepções destes primeiros filósofos estavam certas, e se foram abandonadas foi porque tinham o senão de serem formuladas à priori, isto é, o estado das ciências dessa época não permitia provar o que eles antecipavam. Por outro lado, as condições sociais necessárias ao desenvolvimento da dialética (veremos, mais adiante, quais são) não estavam ainda realizadas.
É só muito mais tarde, no século XX, que as condições (sociais e intelectuais), permitindo às ciências provar a exatidão da dialética, serão realizadas.
Outros pensadores gregos tiveram concepções materialistas: Leucipo (século V antes da nossa era), que foi o mestre de Demócrito, discutia já esse problema dos átomos de que vimos a teoria estabelecida por este último.
Epicuro (341-270 antes da nossa era), discípulo de Demócrito, é um grande pensador cuja filosofia foi completamente falsificada pela Igreja, na idade média.
Por antipatia ao materialismo filosófico, esta apresentou a doutrina epicurista como uma doutrina profundamente imoral, como uma apologia das mais baixas paixões. Na realidade, Epicuro era um asceta, e a sua filosofia visa dar um fundamento científico (portanto anti-religioso) à vida humana.
Todos esses filósofos tinham consciência de que a filosofia estava ligada ao destino da humanidade, e constatamos já, por parte deles, uma oposição à teoria oficial; oposição entre o idealismo e o materialismo.
Mas um grande pensador domina a Grécia antiga: é Aristóteles, que era acima de tudo idealista. A sua influência foi considerável. E é por isso que devemos citá-lo muito particularmente. Organizou o inventário dos conhecimentos humanos dessa época, cheio das lacunas criadas pelas ciências novas. Espírito universal, escreveu numerosos livros, sobre todos os assuntos. Pela universalidade do seu saber, de que retivemos apenas as tendências idealistas, negligenciando os seus aspectos materialistas e científicos, teve sobre as concepções filosóficas uma influência considerável até ao fim da idade média, isto é, durante vinte séculos.
Durante todo este período, seguiu-se, pois, a tradição antiga, e pensava-se apenas por Aristóteles. Uma repressão selvagem procedia cruelmente contra os que pensavam de maneira diferente. Apesar de tudo, pelo fim da idade média, uma luta se estabeleceu entre os idealistas que negavam a matéria e os que pensavam que existia uma realidade material.
Nos séculos XI e XII, esta disputa prosseguiu na França e, sobretudo, na Inglaterra.
De início, é principalmente neste último país que o materialismo se desenvolve. Marx disse: O materialismo é o verdadeiro filho da Grã-Bretanha30.
Um pouco mais tarde, é na França que o materialismo se expandirá. Em todo o caso, vemos, nos séculos XV e XVI, manifestarem-se duas correntes: uma, o materialismo inglês, a outra, o materialismo francês, cuja reunião contribuirá para o prodigioso desenvolvimento do materialismo no século XVIII.
2. O materialismo inglês .
O autêntico pai do materialismo inglês e de toda a ciência experimental moderna é Bacon. A ciência da natureza é, aos seus olhos, a verdadeira ciência, e a física, baseada na experiência sensível, é a parte fundamental mais nobre31.
Bacon é célebre como fundador do método experimental no estudo das ciências. O importante, para ele, é estudar a ciência no «grande livro da natureza», e isso é particularmente interessante numa época em que se estuda a ciência nos livros que Aristóteles deixara alguns anos antes.
Para estudar a física, por exemplo, eis como se procedia: sobre um certo assunto, tomava-se as passagens escritas por Aristóteles; em seguida, pegava-se nos livros de S. Tomás de Aquino, que era um grande teólogo, e lia-se o que este último escrevera sobre a passagem de Aristóteles. O professor não fazia comentário pessoal, ainda menos dizia o que pensava, mas reportava-se a uma terceira obra, que repetia Aristóteles e S. Tomás. Era isto a ciência da idade média, a que se chamou escolástica: era uma ciência livresca, porque se estudava somente nos livros.
É contra esta escolástica, este ensinamento congelado, que Bacon reagiu, chamando a estudar no «grande livro da natureza».
Nessa época, uma pergunta se punha:
De onde vêm as nossas ideias? de onde vêm os nossos conhecimentos? Cada um de nós tem ideias, a ideia de casa, por exemplo. Esta ocorre-nos porque há casas, dizem os materialistas. Os idealistas pensam que é Deus que nos dá a ideia de casa. Bacon, esse dizia que a ideia apenas existia porque se viam ou tocavam as coisas, mas não podia ainda demonstrá-lo.
É Locke (1632-1704) que tentou demonstrar como as ideias provêm da experiência. Mostrou que todas vêm da experiência, e que só esta nos dá aquelas. A ideia da primeira mesa veio ao homem antes que ela existisse, porque, pela experiência, se servia já de um tronco de árvore ou de uma pedra como mesa.
Com as ideias de Locke, entra em França, na primeira metade do século XVIII, o materialismo inglês, porque, enquanto esta filosofia se desenvolvia de um modo particular na Inglaterra, aparecera uma corrente materialista em França.
3. O materialismo na França .
Pode situar-se a partir de Descartes (1596-1650) o nascimento na França de uma corrente nitidamente materialista. Descartes teve uma grande influência nesta filosofia, mas, em geral, não se fala nisso!
Nessa época em que a ideologia feudal estava muito viva, até nas ciências, em que se estudava de modo escolástico, como vimos, Descartes entra em luta contra tal estado de coisas.
A ideologia feudal está impregnada de mentalidade religiosa. Considera, portanto, que a Igreja, representando Deus na terra, tem o monopólio da verdade. Resulta disso que nenhum homem pode pretender a verdade, se não subordina o seu pensamento aos ensinamentos da Igreja. Descartes rebate os argumentos desta concepção. Não se opõe, certamente, à Igreja como tal, mas professa ousadamente que todo o homem,
crente ou não, pode chegar à verdade pelo exercício da razão (a «luz natural»).
Descartes declara desde o princípio do seu «Discurso do método»: «O bom senso é a coisa mais bem dividida do mundo». Por consequência, toda a gente, perante a ciência, tem os mesmo direitos. E se faz, por exemplo, uma boa crítica da medicina do seu tempo (o «Doente imaginário», de Molière, é um eco das críticas de Descartes), é porque quer fazer uma ciência que seja verdadeira, baseada no estudo da natureza e
rejeitando a ensinada até ele, em que Aristóteles e S. Tomás eram os únicos «argumentos».
Descartes vivia no começo do século XVII; no século seguinte, a Revolução ia rebentar, e é por isso que se pode dizer dele que sai de um mundo que vai desaparecer, para entrar num mundo novo, naquele que vai nascer. Esta posição faz com que Descartes seja um conciliador; quer criar uma ciência materialista e, ao
mesmo tempo, é idealista, porque quer salvar a religião.
Quando, na sua época, se perguntava: por que há animais que vivem?, respondia-se, segundo as respostas definitivas da teologia: porque há um princípio que os faz viver. Descartes, pelo contrário, sustentava que as leis da vida animal são simplesmente da matéria. Acreditava, aliás, e afirmava que os animais são apenas máquinas de carne e músculos, como as outras máquinas são de ferro e madeira. Pensava mesmo que uns e outras não tinham sensações, e quando, na abadia de Port-Royal, durante as semanas de estudos, homens que se valiam da sua filosofia picavam cães, diziam: «Como a natureza está bem feita, dir-se-ia que sofrem!...».
Para o Descartes materialista, os animais aram, portanto, máquinas. Mas o homem, esse é diferente, porque tem uma alma, diz o Descartes idealista...
Das ideias desenvolvidas e defendidas por Descartes, vão nascer, por um lado, uma corrente filosófica nitidamente materialista e, por outro, uma idealista.
Entre os que continuam o ramo cartesiano materialista, retemos La Mettrie (1709-1751). Retomando essa tese do animal-máquina, estende-a até ao homem.
Por que não seria este uma máquina?... A própria alma humana, vê-a como uma mecânica em que as ideias seriam movimentos mecânicos.
É nessa época que penetra na França, com as ideias de Locke, o materialismo inglês. Da junção dessas duas correntes vai nascer um materialismo mais evoluído. Será:
4. O materialismo do século XVIII .
Este materialismo foi defendido por filósofos que souberam também ser lutadores e escritores admiráveis; criticando continuamente as instituições sociais e a religião, aplicando a teoria à prática, e sempre em luta com o poder, foram, por vezes, encerrados na Bastilha ou em Vincennes.
Foram eles que reuniram os seus trabalhos na grande «Enciclopédia», onde fixam a nova orientação do materialismo. Tiveram, aliás, uma grande influência, uma vez que esta filosofia era, como o diz Engels, «a condição de toda a juventude culta».
Foi mesmo, na história da filosofia na França, a única época em que uma filosofia, tendo um caráter francês, se tornou verdadeiramente popular.
Diderot, nascido em Langres em 1713, morto em Paris em 1784, domina todo esse movimento. O que é preciso dizer, antes de mais, e que a história burguesa não refere, é que foi, antes de Marx e Engels, o maior pensador materialista. Diderot, disse Lenine, chega quase às conclusões do materialismo contemporâneo (dialético).
Foi um verdadeiro militante; sempre em luta contra a Igreja, contra o estado social, conheceu os cárceres. A história escrita pela burguesia contemporânea suprimiu-o muito. Mas é preciso ler «Conversas de Diderot e d'Alembert», «Sobrinho de Rameau», «Jaime, o fatalista» para compreender a enorme influência de Diderot
sobre o materialismo32.
Na primeira metade do século XIX, por causa dos acontecimentos históricos, constatamos um retrocesso do materialismo. A burguesia de todos os países faz uma grande propaganda em favor do idealismo e da religião, porque, não só já não quer que se propaguem as ideias progressistas (materialistas), mas, ainda, precisa adormecer os pensadores e as massas, para se manter no poder.
É então que vemos, na Alemanha, Feuerbach afirmar, no meio de todos os filósofos idealistas, as suas convicções materialistas, repondo, solidamente, de novo o materialismo no trono33.
Desenvolvendo essencialmente uma crítica da religião, retoma, de uma maneira justa e atual, as bases do materialismo, que tinham sido esquecidas, e influencia, assim, os filósofos da sua época.
Chegamos ao período do século XIX em que se constata um progresso enorme nas ciências, devido, particularmente, a estas três grandes descobertas: a célula viva, a transformação da energia, a evolução (de Darwin)34, que vão permitir a Marx e Engels, influenciados por Feuerbach, fazer evoluir o materialismo, para nos dar o materialismo moderno, ou dialético.
Acabamos de ver, de um modo inteiramente sumário, a história do materialismo antes de Marx e Engels.
Sabemos que, se estavam de acordo com os materialistas que os precederam sobre numerosos pontos comuns, julgaram também, pelo contrário, que a Obra destes apresentava numerosos defeitos e lacunas.
Para compreender as transformações por eles trazidas ao materialismo pré-marxista é, portanto, absolutamente necessário investigar quais foram esses defeitos e lacunas, e porque foi assim.
Por outras palavras, o nosso estudo da história do materialismo ficaria incompleto se, depois de enumerar os diferentes pensadores que contribuíram para fazer progredir o materialismo, não procurássemos saber como e em que sentido se efetuou esse avanço, e porque razão sofreu esta ou aquela forma de evolução.
Interessamo-nos particularmente pelo materialismo do século XVIII, porque foi o resultado das diferentes correntes desta filosofia.
Vamos, pois, estudar quais eram os erros desse materialismo, quais foram as suas lacunas, porém, como nunca devemos ver as coisas de um modo unilateral, mas, pelo contrário, no seu conjunto, sublinharemos, também, quais foram os seus méritos.
O materialismo, dialético nas suas origens, não pôde continuar a desenvolver-se nessas bases. O raciocínio dialético, por causa da insuficiência dos conhecimentos científicos, teve que ser abandonado. Era preciso, primeiro, criar e desenvolver as ciências.
Era preciso saber, primeiro, o que era esta ou aquela coisa, antes de poder estudar os processos35.
É, portanto, a união muito íntima do materialismo e da ciência que permitirá a esta filosofia voltar a ser de novo, em bases mais sólidas e científicas, o materialismo dialético, o de Marx e Engels.
Encontraremos, pois, o ato de nascimento do materialismo ao lado do da ciência. Mas, se reconhecemos sempre de onde vem o materialismo, devemos estabelecer, também, de onde vem o idealismo.

III. — De onde vem o idealismo?
Se, no decurso da história, o idealismo pôde existir ao lado da religião, tolerado e aprovado por ela, é um fato que nasceu e provém da religião.
Lenine escreveu, a esse respeito, uma fórmula que devemos estudar: «O idealismo não é mais do que uma forma apurada e refinada da religião». O que é que isso quer dizer? Isto: o idealismo sabe apresentar as suas concepções muito mais agilmente do que a religião. Pretende que o universo foi criado por um espírito que pairava sobre as trevas, que Deus é imaterial, para depois, bruscamente, como o faz a religião, declarar que fala (pelo Verbo) e tem um filho (Jesus); é esta uma série de ideias apresentadas brutalmente.
O idealismo, afirmando que o mundo existe apenas no nosso pensamento, no nosso espírito, apresenta-se de uma maneira mais subtil. De fato, sabêmo-lo, vem tudo a dar na mesma, quanto ao fundamento, mas a forma é menos brutal, mais elegante. É por isso que o idealismo é uma forma mais apurada da religião.
Também é refinada, porque os filósofos idealistas sabem, nas discussões, prever as perguntas, estender as armadilhas, como Philonous ao pobre Hylas, nos diálogos de Berkeley.
Mas dizer que o idealismo provém da religião é simplesmente afastar o problema, e devemos perguntar imediatamente:

IV. — De onde vem a religião?
Engels deu-nos, sobre este assunto, uma resposta muito clara: «A religião nasce das concepções restritas do homem». (Restrito é tomado, aqui, no sentido de limitado.)
Para os primeiros homens, esta ignorância é dupla: ignorância da natureza, ignorância deles próprios. É preciso pensar constantemente nessa dupla ignorância, quando se estuda a história dos homens primitivos.
Na antiguidade grega, que consideramos já como uma civilização avançada, tal ignorância parece-nos infantil, por exemplo, quando se vê que Aristóteles pensava que a terra era imóvel, que era o centro do mundo, e à sua volta giravam planetas. (Estes, que via em número de 46, estavam fixos, como pregos num teto, e era esse conjunto que girava à volta da terra...)
Os Gregos pensavam, também, que havia quatro elementos: a água, a terra, o ar e o fogo, e que não era possível decompô-los. Sabemos que tudo isso é falso, uma vez que decompomos, agora, a água, a terra e o ar, não considerando o fogo como um corpo da mesma ordem.
Acerca do próprio homem, os Gregos eram também muito ignorantes, uma vez que não conheciam a função dos nossos órgãos, e consideravam, por exemplo, o coração como o centro da coragem!
Se a ignorância dos sábios gregos, que consideramos já como mais avançados, era tão grande, como seria, então, a dos homens que viveram milhares de anos antes deles? As concepções que os homens primitivos tinham da natureza e deles próprios eram limitadas pela ignorância. Mas tentavam, apesar de tudo, explicar as coisas. Todos os documentos que possuímos sobre os homens primitivos dizem-nos que estavam muito preocupados com os sonhos. Vimos, desde o primeiro capítulo, como tinham resolvido este problema dos sonhos pela crença na existência de um «duplo» do homem. No início, atribuíam a esse duplo uma espécie de corpo transparente e leve, com uma consistência ainda material. Só muito mais tarde, nascerá no seu
espírito a concepção de que o homem tem nele um princípio imaterial, que lhe sobrevive, um princípio espiritual (a palavra vem de espírito, que, em latim, quer dizer sopro, o sopro que se vai com o último suspiro, quando se entrega a alma a Deus, só subsistindo o «duplo»). É, então, a alma que explica o pensamento, o sonho.
Na idade média, tinha-se concepções bizarras sobre a alma. Pensava-se que, num corpo gordo, havia uma
alma diminuta e, num corpo franzino, uma grande alma; é por isso que, nessa época, os ascetas faziam longos e frequentes jejuns, para ter uma grande alma, fazer uma morada grande para ela.
Admitindo, sob a forma do duplo transparente, depois sob a da alma, princípio espiritual, a sobrevivência do homem após a morte, os homens primitivos criaram os deuses.
Acreditando, primeiramente, em seres mais poderosos do que os homens, existindo sob uma forma ainda material, chegaram, insensivelmente, à crença em deuses, existindo sob a forma de uma alma superior à nossa. E é deste modo que, depois de ter criado uma multidão de deuses, cada um com a sua função definida, como na antiguidade grega, chegaram à concepção de um só Deus. Então, foi criada a religião monoteísta36 atual. Assim, vemos que, na origem da religião, mesmo sob a sua forma atual, esteve à ignorância.
O idealismo nasce, pois, das concepções limitadas do homem, da sua ignorância; enquanto que o materialismo, pelo contrário, do recuo desses limites.
Vamos assistir, no decurso da história da filosofia, a essa luta contínua entre o idealismo e o materialismo.
Este quer fazer recuar as fronteiras da ignorância, e isto será uma das suas glórias e um dos seus méritos. O idealismo, pelo contrário, e a religião que o alimenta fazem todos os esforços para manter a ignorância e tirar proveito desta ignorância das massas, para lhes fazer admitir a opressão, a exploração econômica e social.

V. — Os méritos do materialismo pré-marxista.
Vimos nascer o materialismo entre os Gregos, desde que existe um embrião de ciência. Segundo este princípio que: quando a ciência se desenvolve, se desenvolve o materialismo, constatamos, no decorrer da história:
1. Na idade media, um fraco desenvolvimento das ciências, uma estagnação do materialismo.
2. Nos séculos XVII e XVIII, a um enorme desenvolvimento das ciências corresponde um grande desenvolvimento do materialismo. O materialismo francês do século XVIII é a conseqüência direta do seu desenvolvimento.
3. No século XIX, assistimos a numerosas e grandes descobertas, e o materialismo sofre uma grande transformação com Marx e Engels.
4. Hoje, as ciências progridem enormemente e, ao mesmo tempo, o materialismo. Vêem-se os melhores sábios aplicar nos seus trabalhos o materialismo dialético.
O idealismo e o materialismo têm, portanto, origens completamente opostas; e constatamos, no decurso dos séculos, uma luta entre estas duas filosofias, que dura ainda nos nossos dias, e não foi apenas acadêmica.
Esta luta que, através da história da humanidade, se trava entre a ciência e a ignorância é a luta entre duas correntes. Uma atira a humanidade para a ignorância, mantendo-a nela; a outra, pelo contrário, aspira à libertação dos homens, substituindo a ignorância pela ciência.
Tal luta tomou, algumas vezes, formas graves, como no tempo da Inquisição, em que podemos tomar, entre outros, o exemplo de Galileu. Este afirmou que a terra girava. Era um conhecimento novo, que estava em contradição com a Bíblia e, também, com Aristóteles: se a terra gira, é porque não é o centro do mundo, mas, simplesmente, um ponto nele, e, então, é preciso alargar as fronteiras dos nossos .pensamentos. Que se fez, então, perante essa descoberta de Galileu?
Para manter a humanidade na ignorância, foi instituído um tribunal religioso, e Galileu condenado a retratar se publicamente. Eis um exemplo da luta entre a ignorância e a ciência.
Devemos, pois, julgar os filósofos e os sábios dessa época situando-os nesta luta da ignorância contra a ciência, e constataremos que, defendendo a ciência, defendiam o materialismo, sem eles próprios o saberem.
Assim, Descartes, pelos seus raciocínios, forneceu ideias que puderam fazer progredir o materialismo.
É necessário ver, também, que esta luta no decurso da história não é simplesmente teórica, mas social e política. As classes dominantes nesta batalha estão sempre do lado da ignorância. A ciência é revolucionária, contribuindo para a libertação da humanidade.
O caso da burguesia é típico. No século XVIII, a burguesia é dominada pela classe feudal; nesse momento, ela é a favor das ciências; conduz a luta contra a ignorância, e dá-nos a «Enciclopédia»37. No século XX, a burguesia é a classe dominante, e, nesta luta contra a ignorância e a ciência, é pela ignorância, com uma ferocidade muito maior do que antes (lembrai-vos do nazismo).
Vemos, portanto, que o materialismo pré-marxista representou um papel considerável, e teve uma importância histórica muito grande. No decurso desta luta entre a ignorância e a ciência, soube desenvolver uma concepção geral do mundo que pôde ser oposta à religião, à ignorância, portanto. É graças, também, à evolução do materialismo, a esta sucessão dos seus trabalhos, que as condições indispensáveis à eclosão do materialismo dialético foram realizadas.

VI. — Os defeitos do materialismo pré-marxista.
Para compreender a evolução do materialismo, ver bem os seus defeitos e lacunas, é preciso não esquecer nunca que ciência e materialismo estão ligados.
No princípio, o materialismo estava adiantado às ciências, e é por isso que esta filosofia não pôde afirmar-se subitamente. Era preciso criar e desenvolver as ciências, para provar que o materialismo dialético tinha razão; mas isso levou mais de vinte séculos. Durante esse longo período, o materialismo sofreu a influência das ciências e, especialmente, a do espírito das ciências, assim como a das ciências particulares mais
desenvolvidas.
É por isso
que o materialismo do século .precedente [isto é, do século XVIII] era, antes de mais, mecanicista, porque, nessa época» de todas as ciências naturais, só a mecânica, e ainda apenas a dos corpos sólidos, celestes e terrestres, numa palavra, a mecânica da gravidade, chegara a uma certa perfeição. A química ainda só existia na sua forma infantil, flogística. A biologia estava ainda nos começos; o organismo vegetal e animal
apenas tinha sido estudado grosseiramente, explicado por causas puramente mecânicas; para os materialistas do século XVIII, o homem era uma máquina, tal como o animal para Descartes38.
Eis, pois, o que era o materialismo resultante de uma longa e lenta evolução das ciências, depois do período «hibernal da idade média cristã».
O grande erro, nesse período, foi considerar o mundo como uma grande mecânica, julgar todas as coisas segundo as leis da ciência que se chama mecânica. Considerando o movimento como um simples movimento mecânico, pensava-se que os mesmos acontecimentos deviam reproduzir-se continuamente. Via-se o lado
máquina das coisas, mas não o lado vivo. Também se chama a este materialismo: mecânico (ou mecanicista).
Vejamos um exemplo: Como explicavam esses materialistas o pensamento? Desta maneira: «o cérebro segrega o pensamento como o fígado segrega a bílis»! É um pouco simplista! O materialismo de Marx, pelo contrário, dá uma série de precisões. Os nossos pensamentos não provêm unicamente do cérebro. É preciso ver porque temos certos pensamentos, certas ideias, primeiro que outros; repara-se, então, que a sociedade, o ambiente, etc., selecionam as nossas ideias. O materialismo mecânico considera o pensamento como um simples fenômeno mecânico. Ora, ele é bem mais!
Esta aplicação exclusiva da mecânica a fenômenos de natureza química e orgânica, no âmbito dos quais as leis mecânicas atuaram, sem dúvida, também, mas postas em segundo plano por leis de ordem superior, constitui um acanhamento específico, mas inevitável nessa época do materialismo francês clássico39.
Eis o primeiro grande erro do materialismo do século XVIII.
As suas conseqüências eram ignorar a história em geral, isto é, o ponto de vista do desenvolvimento histórico, do progresso: tal materialismo considerava que o mundo não evolui e volta, com intervalos regulares, a estados semelhantes, jamais concebendo uma evolução do homem e dos animais.
Esse materialismo... na sua incapacidade para considerar o mundo no que respeita a progresso, a matéria ajustada num desenvolvimento histórico... correspondia ao nível que tinham atingido na época as ciências naturais e ao modo metafísico40. Isto é, anti-dialético de filosofar que daí resultava. Sabia-se que a natureza estava empenhada num movimento perpétuo, mas este, segundo a concepção da época, descrevia também um círculo perpétuo, nunca mudando, por consequência, de lugar; produzia sempre os mesmos resultados41.
Eis o segundo defeito desse materialismo.
O seu terceiro erro, é que era muito contemplativo; não via suficientemente o papel da ação humana no mundo e na sociedade. O materialismo de Marx ensina que não devemos apenas explicar o mundo, mas transformá-lo. O homem é, na história, um elemento ativo que pode trazer mudanças ao mundo.
O materialismo pré-marxista não tinha consciência desta concepção da ação do homem. Pensava-se, nessa época, que era um produto do meio42, enquanto que Marx nos ensina que o meio é um produto do homem, sendo este, portanto, um produto da sua própria atividade, em certas condições dadas à partida. Se o homem
sofre a influência do meio, pode transformá-lo, à sociedade; pode, pois, por consequência, transformar-se a si mesmo.
O materialismo do século XVIII era, portanto, muito contemplativo, porque ignorava o desenvolvimento histórico de todas as coisas, e isso era então inevitável, uma vez que os conhecimentos científicos não estavam bastante avançados para conceber o mundo e as coisas de outro modo que não fosse através do velho método de pensar: metafísico.

LEITURAS

MARX e ENGELS: «A Sagrada Família», em Estudos filosóficos.
MARX: «Teses sobre Feuerbach», Obras Escolhidas de Marx e Engels em 3 Tomos, Tomo I, p.1, Ed. Avante
PLÉKHANOV: «Ensaios sobre a história do materialismo» (d'Holbach, Helvétius, Marx). Edições sociais, 1957.
29 Friedrich ENGELS: «Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã», Obras Escolhidas de Marx e Engels em Três Tomos, Ed. Avante 1985, Tomo III, pp 375-421
30 MARX-ENGELS: «A Sagrada Família», Estudos filosóficos, Edições sociais, 1961.
31 ENGELS: «Do Socialismo utópico ao socialismo cientifico», Introdução, Obras Escolhidas de Marx e Engels em três Tomos, pp. 104-149
33 Friedrich ENGELS: «Ludwig Feuerbach»
34 Idem,
35 Friedrich ENGELS: «Ludwig Feuerbach»
36 Do grego monos: um só — e thêos: deus.
37 Ver «Páginas escolhidas da Enciclopédia». Os Clássicos do povo, Edições sociais.
38 Friedrich ENGELS: «Ludwig Feuerbach»