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quinta-feira, 29 de março de 2012

BRICS impõe sua pauta ao ocidente


A reforma das instituições de governança global e os meios para lidar com a retração econômica mundial vão estar no topo da agenda do encontro de líderes do BRICS (Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul) quarta e quinta-feira, em Nova Délhi. A economia dá sinais de recuperação em alguns países desenvolvidos e emergentes, mas ainda persiste uma grande preocupação com a zona do euro, que deve receber ajuda do grupo por intermédio do FMI.


Adriana Moysés, enviada da RFI a Nova Délhi


O primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, anfitrião do encontro, vai propor a criação de um banco multilateral de desenvolvimento comandado por países emergentes, instituição que vem sendo chamada de Banco Sul-Sul ou Banco de Desenvolvimento do BRICS. Seria uma espécie de banco paralelo ao Banco Mundial (BM) e ao Fundo Monetário Internacional (FMI), independente dos jogos de poder que dominam há décadas essas duas instituições, destinado ao financiamento de projetos nos países em desenvolvimento.
A ideia já tinha sido lançada no ano passado, durante o encontro do BRICS em Sanya, na China, mas ganhou força com o ritmo lento das reformas do sistema de cotas e de governança no FMI e no Banco Mundial. A Índia propõe que a presidência do novo banco seja rotativa entre os cinco integrantes do BRICS, mas enfrenta resistência da China que, por seu peso econômico, queria ocupar o posto com prioridade.
Segundo o Itamaraty, o Banco de Desenvolvimento do BRICS ainda está em uma fase embrionária. É provável que no encontro em Nova Délhi os líderes aprovem a formação de grupos técnicos de trabalho para formatar a instituição. O aporte de capital de cada país seria definido numa etapa posterior.
Para Fabiano Mielniczuk, mestre e doutor em Relações Internacionais pela PUC-Rio e coordenador de pesquisas no think tank BRICS Policy Center, no Rio de Janeiro, uma das vantagens desse banco é que seus projetos de financiamento seriam isentos das condicionalidades que impõem, até hoje, o FMI e o Banco Mundial a seus credores, dificultando a superação das crises.
Mais um exemplo dessa fórmula dolorosa e de sucesso incerto se vê atualmente na zona do euro. Muitos economistas criticam a dieta de rigor imposta pela troika europeia (FMI, Banco Central Europeu e União Europeia) aos países do bloco em dificuldades, como Grécia, Portugal, Espanha e Itália, condenados a um longo período de recessão. O Banco de Desenvolvimento do BRICS teria uma fórmula adaptada às necessidades da nova ordem econômica mundial, explica Fabiano Mielniczuk.
Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV-SP, considera o projeto um recurso inteligente e agregador de força política para o BRICS. Segundo ele, os projetos de desenvolvimento na África são uma área onde os BRICS enxergam um espaço, um vácuo, onde o grupo consegue articular uma visão em conjunto, e lidar com os desafios e problemas do continente africano de forma eficiente.
Na opinião do professor Diego Santos Vieira de Jesus, do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, o banco do BRICS, aliado à reforma das instituições financeiras existentes, poderia contribuir para que os membros do grupo assumissem uma posição que reflete seu peso global.
Mais uma eleição sem consenso no Banco Mundial 
A eleição do próximo presidente do Banco Mundial, marcada para 20 a 22 de abril, também será discutida esta semana em Nova Délhi. Os BRICS não conseguiram indicar um candidato do grupo, já que a China se comprometeu a apoiar o candidato dos Estados Unidos depois de ficar com um cargo de direção no FMI após a eleição da francesa Christine Lagarde na direção-geral, no ano passado.
O Brasil e a África do Sul vão apoiar candidatos da Colômbia e da Nigéria, respectivamente, e deverão ser seguidos por vários países em desenvolvimento. Mais uma vez os BRICS vão criticar o déficit de legitimidade nas regras de governança das instituições multilaterais, historicamente dirigidas por americanos e europeus.
A ministra nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala, o ex-ministro da Fazenda colombiano José Antonio Ocampo e o acadêmico sul-coreano naturalizado americano Jim Yong Kim são os três candidatos finalistas para presidir a instituição.
O presidente Barack Obama surpreendeu ao indicar o sul-coreano de 52 anos, doutor em medicina e antropólogo de formação, presidente desde 2009 da Darmouth College, uma das universidades mais prestigiadas dos Estados Unidos. Ele é conhecido por suas conquistas na luta contra a Aids. O anúncio fez explodir na internet a procura por um vídeo em que Kim canta rap num show de talentos em um campus universitário.
A imprensa indiana estima que a indicação de Kim aumenta as chances dos candidatos concorrentes. Ocampo e Okonjo-Iweala personificam o desafio de países emergentes e pobres no processo decisório frente ao acordo tácito entre a Europa e os Estados Unidos pelo qual um europeu exerce a direção do FMI e um americano a do Banco Mundial há mais de 50 anos.
Comércio crescente entre os BRICS
Paralelamente à reunião de cúpula dos líderes, haverá um fórum econômico e financeiro reunindo ministros da Economia, do Desenvolvimento e Comércio Exterior, presidentes dos bancos centrais e dos bancos de desenvolvimento dos países do BRICS. Eles vão avaliar meios para aumentar o comércio intra-BRICS, ainda muito baixo, talvez à exceção do Brasil e da China. As autoridades vão estudar a redução de obstáculos ao comércio, o alinhamento de regras de investimento e a facilitação de crédito mútuo para aumentar as trocas comerciais entre os integrantes. No ano passado, o comércio entre os BRICS movimentou US$ 250 bilhões.

Fonte: RFI Brasil

quarta-feira, 28 de março de 2012

Quem armou para arrancar Zé Dirceu do governo Lula?




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A história política é repleta de senões e detalhes é preciso ficar atento a eles. Há uma cena que sempre me vem à mente quando o caso do mensalão volta à tona. Ao fim da entrevista do presidente Lula com os “blogueiros sujos” foi sugerida uma foto oficial. Antes de fazê-la, senti Lula pegando-me pelo braço e ao mesmo tempo dizendo: “Deixa eu dizer uma coisa, deixa eu dizer uma coisa…”, o que fez com que os “sujos” se reunissem em torno dele. Sem que ninguém tivesse tocado no assunto, disparou. “Uma coisa que quero combinar com vocês é que depois que eu desencarnar vou contar tudo o que sei dessa história do mensalão. Sabem por quê? Porque o Zé Dirceu pode ter muitos defeitos, mas o que fizeram com ele nessa história foi um absurdo… Depois de desencarnar, quero dar uma entrevista para vocês para falar disso, combinado?”
Dito isto, falou: “Cadê o cloaquinha, vem cá cloaquinha, fica do meu lado”. Foi quando foi tirada a foto abaixo.


Hoje depois de ler algumas matérias relacionando o caso Demóstenes e Cachoeira ao episódio do mensalão, recordei-me de uma reportagem publicada no Jornal Nacional em março de 2004, mais precisamente no dia 30 de março.
Ela trazia o conteúdo de um grampo que envolvia Carlinhos Cachoeira e o subprocurador da República, José Roberto Santoro. Aliás, o mesmo subprocurador do famoso Caso Lunus, que atropelou a candidatura de Roseana Sarney.
Não estou aqui a fazer insinuações nem ilações. Mas nesse grampo da época Santoro diz textualmente como o leitor poderá ver mais abaixo, que:
“Ele (Cláudio Fontelles, procurador à época) vai chegar aqui e vai dizer o sacana do Santoro resolveu acabar com o governo do PT, e pra isso arrumou um jornalista (Mino Pedrosa, da Veja), juntaram-se com um bicheiro, e resolveram na calada da noite tomar depoimento. Não foi nem durante o dia, foi às 3h da manhã. (…) Ele vai vir aqui, e vai ver, tomando um depoimento pra, desculpe a expressão, pra ferrar o chefe da Casa Civil da Presidência da República, o homem mais poderoso do governo, ou seja, pra derrubar o governo Lula.”
Foi a partir desse episódio de Waldomiro Diniz que José Dirceu começou a cair.
Mais à frente, outro grampo, neste caso de Maurício Marinho, diretor dos Correios, publicado pela Revista Veja, detonou o escândalo do Mensalão. Roberto Jefferson, então presidente do partido de Marinho, o PTB, resolveu sair atirando e afirmando que o esquema tinha relação com uma mesada para deputados federais.
E escolheu José Dirceu como alvo.
A revelação de que Demóstenes era quase como um “sócio” de Cachoeira e de que o caso está na gaveta do procurador Roberto Gurgel desde 2009 são elementos suficientes para que essa história do mensalão comece a ser relida a partir de outros ângulos. Um deles:
“Quem armou para arrancar Zé Dirceu do governo Lula?”
Segue a degravação do JN do dia 20 de março, que revela depoimento de Cachoeira ao subprocurador da República José Roberto Santoro, antes de o caso se tornar um escândalo. Ao ler essa degravação a luz dos novos acontecimentos o leitor talvez imagine o tamanho da pulga que está atrás da orelha deste blogueiro sujo.
APRESENTADORA FÁTIMA BERNARDES : Surge uma nova fita do caso Waldomiro Diniz. Ela registra um depoimento extra-oficial que o dono de casas de jogos, Carlos Cachoeira, prestou ao subprocurador da República, José Roberto Santoro, antes de o escândalo vir a público pela revista Época.
APRESENTADOR WILLIAM BONNER : O objetivo do subprocurador era obter oficialmente, de Cachoeira, a fita em que Waldomiro pede dinheiro a ele. O depoimento teria durado quatro horas, mas somente 28 minutos foram gravados.
APRESENTADORA FÁTIMA BERNARDES : O Jornal Nacional obteve a fita, sábado passado, de um intermediário que se disse a mando de Carlos Cachoeira. Ao investigarmos o intermediário, constatamos que ele, de fato, tinha relações próximas com Cachoeira. A fita foi levada à perícia, que atestou que ela não apresentava montagem.
APRESENTADOR WILLIAM BONNER : Ontem, a Procuradoria da República, ao oferecer denúncia no caso do contrato da G-Tech com a Caixa, pediu o perdão judicial para Carlos Cachoeira, com a alegação de que ele estaria colaborando com a Justiça. Hoje, quando o Jornal Nacional finalmente conseguiu falar com Cachoeira, ele negou ser o autor da gravação, como o intermediário tinha dito. E disse nada saber sobre ela. O intermediário não soube explicar a atitude de Cachoeira.
APRESENTADORA FÁTIMA BERNARDES : Como a fita foi aprovada pela perícia, o Jornal Nacional decidiu divulgá-la. Procedendo assim, considera que está contribuindo para a elucidação de todos os aspectos que o escândalo tem. A fita teria sido gravada, segundo o intermediário, na noite do dia 12 de fevereiro. O procurador Santoro admite que os diálogos existiram, mas disse que o depoimento ocorreu no dia 8 de fevereiro. Dele, participaram, além de Santoro e Cachoeira, o procurador Marcelo Serra Azul, um delegado da Polícia Federal, Jácomo Santoro, um advogado de Cachoeira e a mulher dele.
APRESENTADOR WILLIAM BONNER : Na fita, o procurador Santoro se mostra preocupado com o adiantado da hora. Eram 3h da manhã. Diz a Cachoeira que seu superior hierárquico, o procurador Cláudio Fontelles, costuma chegar cedo ao trabalho. Que se o encontrasse ali, poderia estranhar a reunião e veria um subprocurador geral da República empenhado em derrubar o governo do PT.
REPÓRTER : A fita foi examinada pelo perito Ricardo Molina. No laudo, ele certifica que a gravação não apresenta indícios de montagem. O subprocurador José Roberto Santoro ouviu o depoimento de Cachoeira e pediu que ele entregasse a fita de vídeo em que o ex-assessor do Palácio do Planalto, Waldomiro Diniz, aparece pedindo propina, porque, segundo ele, seria uma prova lícita.
GRAVAÇÃO:
SANTORO : Faz o seguinte: entrega a fita, não depõe, diz que vai depor mais tarde pra ver o que que aconteceu, porque aí você acautela que você colaborou com a Justiça, entregou a fita, acautelou prova lícita o cacete a quatro. Então. E aí vem o cafofo
REPÓRTER : A fita de vídeo, a que se referia o subprocurador, foi gravada por Cachoeira em 2002.
GRAVAÇÃO:
Um por cento.
No total?
REPÓRTER : O subprocurador já tinha uma cópia dessa gravação, que segundo ele havia sido entregue pelo senador Antero Paes de Barros, do PSDB de Mato Grosso, mas queria uma cópia do próprio Cachoeira. Ele, porém, durante horas recusou-se a entregar espontaneamente a gravação. Como alternativa, Cachoeira propôs que a Polícia Federal fizesse uma busca para apreender a fita.
GRAVAÇÃO:
CACHOEIRA: Eu entrego o endereço, entrego tudo… Combino o local.
SANTORO: Você sabe o que vai acontecer com essa fita?
CACHOEIRA: Ham?
SANTORO: A busca e apreensão vai ser feita pela Polícia Federal, a Polícia Federal vai lá bater. É isso? A primeira coisa que vai ser, vai ser periciada e a primeira pessoa que vai ter acesso a essa fita é o Lacerda, o segundo é o ministro da Justiça e o terceiro é o Zé Dirceu. E o quarto o presidente.
CACHOEIRA: Ah, é desse jeito?
REPÓRTER : Em vários trechos da fita, Santoro procura encerrar logo a conversa. Diz que quer evitar o encontro com o procurador geral da República, superior dele. No diálogo, Santoro diz que o procurador poderia ver motivações políticas na investigação realizada naquelas condições.
GRAVAÇÃO:
SANTORO: Daqui a pouco o Procurador Geral vai dizer assim, porra, você tá perseguindo o governo que me nomeou Procurador Geral, Santoro, que sacanagem é essa? Você tá querendo ferrar o assessor do Zé Dirceu, o que que você tem a ver com isso aí eu vou dizer: não, eu não tenho nada, tô ajudando, porra, ajudando como, você é um subprocurador Geral, você não tem que ficar na madrugada na Procuradoria tomando depoimento dos outros.
CACHOEIRA: É claro.
SANTORO: Ele vai chegar aqui e vai dizer o sacana do Santoro resolveu acabar com o governo do PT, e pra isso arrumou um jornalista, juntaram-se com um bicheiro, e resolveram na calada da noite tomar depoimento. Não foi nem durante o dia, foi às 3h da manhã.
REPÓRTER :O jornalista a que se refere Santoro é Mino Pedrosa, dono de uma empresa de comunicação e que foi assessor de Cachoeira. Num diálogo, fica claro que Pedrosa foi uma das duas pessoas que tiveram acesso à fita com a conversa entre Waldomiro e Cachoeira. Em outro trecho, Santoro volta a mostrar preocupação com o tempo.
GRAVAÇÃO:
SANTORO: Daqui a pouco o Procurador Geral chega, que ele chega 6h da manhã. Ele vai ver o carro, ele vai vir aqui na minha sala. Ele vai vir aqui, e vai ver, tomando um depoimento pra, desculpe a expressão, pra ferrar o chefe da Casa Civil da Presidência da República, o homem mais poderoso do governo, ou seja, pra derrubar o governo Lula. A primeira coisa que ele vai dizer é o seguinte,o Santoro é meu inimigo, porque ele podia, como meu amigo, ter ligado pra mim e ter dito assim, olha, vai dar porcaria pro Zé Dirceu”. E eu não fiz isso. Não vou fazer mais, por quê? Porque chega. (ouviram?)
REPÓRTER : E adiante, mais uma vez, revela preocupação com a possibilidade da chegada do procurador geral, Claudio Fonteles.
GRAVAÇÃO:
SANTORO: Ó, estourou o meu limite, daqui a pouco o Cláudio chega, chega às 6h da manhã, vai ver teu carro na garagem, vai ser o que tem e vai ver um subprocurador geral empenhado em derrubar o governo do PT , você vê,3h da manhã, bicho…
REPÓRTER : O subprocurador José Roberto Santoro reconheceu que a conversa existiu, mas disse que a gravação é só de uma parte do diálogo, e que esse trecho está fora de contexto. José Roberto Santoro, o depoimento foi marcado à noite porque esse foi o horário escolhido por Carlinhos Cachoeira. Os outros depoimentos dados por ele também foram à noite. Sobre os trechos em que fala das conseqüências políticas e da possível reação do procurador-geral, Santoro disse que isso foi uma forma de pressionar Cachoeira, já que era tarde e ele se recusava a entregar a fita ou dar um depoimento consistente.
O subprocurador disse que insistiu para receber a fita de Cachoeira, porque a Justiça poderia ter dúvidas sobre a validade da cópia entregue pelo senador Antero Paes de Barros.
APRESENTADORA FÁTIMA BERNARDES :O procurador geral da República, Cláudio Fontelles, disse que não iria se manifestar porque, pela Constituição, todos os integrantes do Ministério Público têm autonomia e independência funcional. O jornalista Mino Pedrosa disse que teve acesso à fita, mas que devolveu a Cachoeira sem ter feito cópia ou ter entregue a gravação a outra pessoa.
APRESENTADOR WILLIAM BONNER : A revista Época, editada pela Editora Globo, informou que obteve a fita do senador Antero de Barros no dia 4 de fevereiro e que imediatamente mandou fazer uma perícia nela. Constatada a ausência de fraude, a revista ouviu os envolvidos. E obteve, em entrevista, a confissão de Waldomiro Diniz de que, de fato, tinha pedido dinheiro a Carlos Cachoeira para campanhas eleitorais e propina para um amigo. Diante disso, a revista Época publicou a reportagem que revelou ao Brasil o escândalo Waldomiro – como agora o caso é chamado – e cumpriu seu dever com os leitores e com o país, sua única motivação.
APRESENTADORA FÁTIMA BERNARDES : A direção da Caixa Econômica Federal entrou com representação no Ministério Público Federal, questionando o trabalho feito pelo procurador Marcelo Serra Azul no inquérito que investigou a renovação de contrato entre a Caixa e a GTech, empresa americana que opera o sistema de loterias no Brasil. O inquérito denunciou o presidente da Caixa, Jorge Mattoso, por gestão fraudulenta e corrupção na negociação de renovação do contrato. Jorge Mattoso negou que vá se afastar do cargo ou demitir funcionários também denunciados pelo promotor.


Lewandowsky será o relator de inquérito contra Demóstenes

O ministro indicado para integrar a corte máxima do país pelo ex-presidente Lula vai avaliar a procedência do pedido de investigação feito pelo Ministério Público sobre as ligações de parlamentares de Goiás com o contraventor Carlinhos Cachoeira. As acusações mais contundentes recaem sobre o senador Demóstenes Torres (DEM). Mas também há suspeitas do envolvimento dos deputados Carlos Leréia (PSDB) e Sandes Júnior (PP).

Brasília - O ministro Ricardo Lewandowsky, indicado para integrar a corte máxima do país em 2006, pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, será o relator do inquérito instaurado para avaliar a procedência do pedido de investigação sobre as ligações de parlamentares com o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, acusado de chefiar um esquema de jogos clandestinos em Goiás.

No pedido de abertura de inquérito, encaminhado ao STF na noite desta terça (27), o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, propôs o desmembramento das investigações em três frentes. A primeira para tratar exclusivamente das denúncias do envolvimento do bicheiro com o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) que, segundo ele, são as mais contundentes.

A segunda, para tratar do envolvimento de outros parlamentares com o contraventor. O procurador-geral não informou quantos seriam, mas deixou claro que, entre eles, constam os deputados Carlos Leréia (PSDB-GO) e Sandes Júnior (PP-GO), já denunciados pela imprensa como pessoas próximas à Cachoeira.

E, a última, para apurar a participação de pessoas sem direito a foro privilegiado no esquema de corrupção. Nesse último caso, as investigações deverão ser conduzidas pela Justiça do Estado de Goiás.

O procurador-geral disse também que não solicitou novas prisões. A Operação Monte Carlo, deflagrada pela Polícia Federal (PF), em fevereiro, para coibir a ação da quadrilha que dominava os jogos clandestinos em Goiás, já havia resultado na detenção de 34 pessoas, além de Cachoeira.

Gurgel foi informado pela PF sobre as relações suspeitas entre o bicheiro e o
senador desde 2009. Mas esclareceu que só agora, após ter conhecimento do teor das investigações que deflagraram na Operação Monte Carlo, julgou ter elementos suficientes para pedir a abertura de investigações contra Demóstenes.

O senador é acusado de receber presentes de Cachoeira, como um conjunto
importado de geladeira e fogão e, muito mais grave, um rádio nextel habilitado nos Estados Unidos para que pudessem conversar com mais privacidade.
Informações publicadas pela imprensa revelam que as escutas telefônicas realizadas pela PF apontam também que Demóstenes recorreu ao contraventor para quitar despesa com serviços de táxi-aéreo no valor de R$ 3 mil. E, ainda, que o senador repassava ao colega informações privilegiadas sobre ações dos três poderes federais: executivo, legislativo e judiciário.

Matéria exclusiva publicada pela revista Carta Capital, na sexta passada, aponta para uma acusação ainda mais grave: o senador teria direito a 30% da arrecadação total do esquema de jogos clandestinos comandados por Cachoeira, que, em seis anos, teria movimentado R$ 170 milhões.

Por orientação da sua assessoria jurídica, Demóstenes ainda não se manifestou. Ontem, ele renunciou à liderança do Democratas no Senado, para “acompanhar a evolução dos fatos noticiados nos últimos dias”, e informou o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), que não voltará a discursar em plenário até que tenha conhecimento das acusações que pesam contra ele.

Conselho de Ética
Nesta terça, o corregedor do Senado, Vital do Rêgo (PMDB-PB), havia dito que aguardaria a resposta da Procuradoria Geral da República (PGR) ao seu pedido de informações sobre o teor das investigações realizadas pela PF para decidir se encaminharia denúncia contra Demóstenes ao Conselho de Ética do Senado.

Mas o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) decidiu se antecipar e entrar, ainda nesta quarta (28), com a representação. Segundo ele, o pedido de abertura de investigação ao STF justifica o procedimento.

O coordenador da Frente Parlamentar Mista de Combate à Corrupção, deputado Francisco Praciano (PT-AM), disse que, além do pedido de informações sobre a participação de Demóstenes no esquema de Cachoeira, a Frente quer saber quais são os demais parlamentares suspeitos de envolvimento para adotar as providências necessárias.

 Boletim Carta Maior - 28 de Março de 2012


Ultradireita tenta reagir à pressão pela Comissão da Verdade

A convocação de oficiais aposentados para um ato público em favor da ditadura, nesta quinta-feira às 15h, no Rio de Janeiro, horário semelhante aos dos manifestantes que tomarão a Cinelândia em uma manifestação de apoio à Comissão da Verdade, ganha contornos de uma paródia ao enfrentamento nos moldes conhecidos durante os Anos de Chumbo. Um dos militares que participaram da ditadura, o general aposentado Luiz Eduardo Rocha Paiva (foto) diz que o Brasil teve poucos pessoas torturadas

(*) Publicado originalmente no Correio do Brasil.

Rio de Janeiro - A convocação dos oficiais aposentados para um ato público em favor da ditadura militar, nesta quinta-feira às 15h, horário semelhante aos dos manifestantes que tomarão a Cinelândia em uma manifestação de apoio à Comissão da Verdade, ganha contornos de uma paródia ao enfrentamento nos moldes conhecidos durante os Anos de Chumbo. Por e-mail, em mensagens apócrifas, militares afastados das tropas por alcançar idades acima dos 65 anos, apresentar problemas de saúde ou psicológicos, usam dos velhos jargões dos governos ditatoriais na tentativa de convocar simpatizantes a uma campanha denominada Brasil acima de tudo.

Com base no manifesto em que os sócios do Clube Militar, instituição ligada à ultradireita, com sede no Centro da cidade, tentaram pressionar – sem sucesso – a presidente Dilma Rousseff para não seguir adiante com as investigações de abusos e tortura de prisioneiros durante o regime de 64, os indivíduos que já não usam mais a farda e passam o tempo entre uma e outra conspiração contra a democracia, apelam aos aliados daquela era na tentativa de arregimentar apoiadores à palestra do general Luiz Eduardo Rocha Paiva, figura conhecida nos porões dos antigos Doi-Codi e Cenimar, centros de referência na tortura e morte de prisioneiros políticos no Brasil.

“Creio ser um assombro a luta de alguns poucos no sentido de abrirem os olhos da sociedade! Eles serão mártires ou heróis desta luta insana! De qualquer forma, que Deus os ilumine pela verdadeira guerra que fazem com as armas da crítica e do esclarecimento. Se cometerem algum erro, que tenham a certeza, ele será irrelevante no contexto do bom combate que travam, pois seu alerta está sendo dado!”, diz o texto, apócrifo, do “chamamento” que distribuem na web. Segundo os organizadores, policiais alinhados à extrema direita, integrantes de clubes de serviço que, na época da ditadura, apoiaram o regime militar, membros do grupo fascista Tradição, Família e Propriedade (TFP) e maçons que apoiaram o regime imposto pela força das armas deveriam ser convocados para comparecer ao Clube Militar.

Na mensagem, ditam como cada um dos ex-integrantes das Forças Armadas deveria atuar, na busca de mobilizar alguns incautos para uma reação à Comissão da Verdade.

“1 – Para tirar cópia do chamamento (…) na copiadora – 15 minutos. Quem preferir gastar alguns centavos, tire cópias no comércio local e distribua pelo menos nas caixas de correspondência de seus edifícios.

“2 – Quantos parentes sem e-mail já foram contatados pelo telefone? – 30 minutos;

“3 – Já telefonaram ou passaram e-mails para os conhecidos das (sic) polícias militares? – 15 minutos;

“O “LIONS” e o “ROTARY” da cidade já estão por dentro da campanha, telefonema ou e-mail? 10/15 minutos;

“4- A “loja maçônica” da cidade já está por dentro da campanha, telefonema ou e-mail? – 10/15 minutos”.

A mensagem, sem nenhuma assinatura, em tom de ameaça, alega ainda que os antigos militares não podem “entregar o ouro ao bandido vermelho, de graça”, talvez em referência à ação guerrilheira do Partido Comunista do Brasil e de outras vanguardas revolucionárias da resistência, que terminaram por determinar o fim da ditadura no país, com o apoio de toda a sociedade civil.

Ainda segundo o texto, “depende das comunicação que vocês lograrem, por e-mail ou telefone, com os “LlONS’, ‘ROTARY’, ‘lojas maçônicas’, ‘TFP’ e assemelhados”, sem citar o que seriam estes últimos.

Sem dentes
Para alguns dos organizadores da manifestação, convocada pelas redes sociais em uma mensagem transmitida, por vídeo, pelo cineasta Silvio Tendler, essas “manifestações malucas que circulam pela internet” não significam um perigo real para a realização do ato convocado para as 14h, em frente ao Clube Militar, na Avenida Rio Branco, nesta quinta-feira.

– São leões sem dentes. Rugem, fazem barulho, mas já não mordem mais ninguém – concluiu um dos ativistas, que prefere não se identificar “para não jogar mais lenha na fogueira”.

Procurado pelo Correio do Brasil, o presidente do Clube Militar, general aposentado Renato Cesar Tibau da Costa, sequer respondeu às ligações.