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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Carta aberta critica transformação do julgamento do "mensalão" em espetáculo

Em carta aberta, artistas, intelectuais e ativistas sociais criticam "transformação do julgamento em espetáculo, sob o risco de se exigir - e alcançar - condenações por uma falsa e forçada exemplaridade. A carta repudia ainda o linchamento público e defende a presunção de inocência. Assinam, entre outros, Fernando Morais, Alceu Valença, Emir Sader, Eric Nepomuceno, João Pedro Stédile, Luiz Carlos Bresser Pereira, Luiz Gonzaga Belluzzo e Oscar Niemeyer

          


CARTA ABERTA AO POVO BRASILEIRO

Desde o dia 02 de agosto o Supremo Tribunal Federal julga a ação penal 470, também conhecida como processo do mensalão. Parte da cobertura na mídia e até mesmo reações públicas que atribuem aos ministros o papel de heróis nos causam preocupação.

Somos contra a transformação do julgamento em espetáculo, sob o risco de se exigir – e alcançar – condenações por uma falsa e forçada exemplaridade. Repudiamos o linchamento público e defendemos a presunção da inocência.

A defesa da legalidade é primordial. Nós, abaixo assinados, confiamos que os Senhores Ministros, membros do Supremo Tribunal Federal, saberão conduzir esse julgamento até o fim sob o crivo do contraditório e à luz suprema da Constituição.

Fernando Morais, jornalista e escritor

Hildegard Angel, jornalista

Luiz Carlos Barreto, produtor cinematográfico

Olgária Matos, filósofa, professora universitária Unifesp

Abelardo Blanco, cientista politico, publicitário

Adilson Monteiro Alves, sociólogo

Adriano Pilatti, professor de direito PUC/RJ

Afonso Celso Lana Leite, professor universitário UFU

Alceu Valença, músico

Alcides Nogueira, escritor

Aldimar Assis, advogado

Altamiro Borges, jornalista

Amélia Cohn, socióloga, professora Faculdade de Medicina USP

Ana Carolina Lopes, fotógrafa

Ana Corbisier, pesquisadora

Ana Fonseca, economista, professora universitária

Ana Helena Tavares, jornalista

Ana Maria dos Santos, advogada

Ana Maria Freire, escritora

André Borges, escritor e poeta

André Klotzel, cineasta

André Medalha e Almada, designer

André Tokarski, presidente da UJS – União da Juventude Socialista

Antonio Abujamra, ator

Antonio Carlos Fon, jornalista

Antonio Celso Ferreira, historiador, professor Unesp/Assis

Antonio Gilson Brigagão, jornalista e diretor teatral

Antonio Grassi, ator

Antonio Ibañez Ruiz, educador, professor universitário UNB

Antonio Pitanga, ator

Armando Freitas Filho, poeta

Arnaldo Carrilho, servidor público aposentado

Artur Henrique, sindicalista, secretário relações internacionais da CUT para as Américas

Artur Scavone, jornalista

Aton Fon Filho, advogado

Beatriz Cintra Labaki, socióloga

Beilton Freire da Rocha, médico

Benedito Prezia , antropólogo e escritor

Bernadette Figueiredo, professora

Betinho Duarte, administrador de empresa

Bruno Barreto, cineasta

Carlos Azevedo, jornalista

Carlos Duarte, advogado

Carlos Eduardo Niemeyer – Fotógrafo

Carlos Enrique Ruiz Ferreira, professor, coordenador assuntos institucionais e internacionais da UEPB

Carlos Roberto Pittoli, advogado

Carlos Walter Porto-Gonçalves, geógrafo, professor universitario UFF

Carlota Boto, pedagoga e professora da FEUSP

Carolina Abreu

Ceci Juruá, economista

Cecilia Boal, psicanalista

Célio Turino, historiador, gestor cultural

Celso Frateschi, ator

Celso Horta, jornalista

Cenise Monte Vicente, psicóloga, ex-diretora do UNICEF/SP

Christina Iuppen, professora

Clara Charf, militante feminista

Claudio Adão, jogador de futebol

Claudio Kahns, cineasta

Cloves dos Santos Araújo, advogado, professor universitário UNEB

Consuelo de Castro, dramaturga

Cristiane Souza de Oliveira

Daniel Tendler, cineasta

David Farias, artista plástico, escultor e pintor

Dayse Souza, psicóloga

Débora Duboc, atriz

Derlei Catarina de Lucca, professora

Domingos Fernandes, jornalista

Drauzio Gonzaga, professor universitário UFRJ

Dulce Maia de Souza, ambientalista

Dulce Pandolfi, historiadora, pesquisadora CPDOC/FGV

Edmilson José Valentim dos Santos, engenheiro

Eduardo Ebendinger, ator

Edvaldo Antonio de Almeida, jornalista

Eide Barbosa, gestora de pessoas

Eleonora Rosset, psicanalista

Emiliano José, jornalista e escritor

Emir Sader, sociólogo, professor universitário UERJ

Eneida Cintra Labaki, historiadora

Ercílio Tranjan, publicitário

Eric Nepomuceno, jornalista e escritor

Ernesto Tzirulnik, advogado

Erotildes Medeiros, jornalista

Eugenio Staub, empresário

Fabio Dutra, estudante de direito USP

Fabio Roberto Gaspar, advogado

Felipe Lindoso, produtor cultural

Fernando Nogueira da Costa, economista, professor universitário Unicamp

Fernando Sá, cientista político

Fernando Soares Campos, servidor público

Fidel Samora B.P. Diniz, músico

Flora Gil, produtora cultural

Francis Bogossian, engenheiro, Academia Nacional de Educação e Academia Nacional de Engenharia

Gabriel Cohn, sociólogo, professor USP

Gabriel Landi Fazzio, estudante de direito USP

Gabriel Pereira Mendes Azevedo Borges, estudante de direito USP

Gabriel Priolli, jornalista

Gabriela Shizue S. de Araujo, advogada

Galeano Bertoncini, cirugião dentista

Gaudêncio Frigoto, educador, professor universitário UERJ

Gegê, vice-presidente nacional da CMP – Central de Movimentos Populares

Giane Alvares Ambrósio Alvares, advogada

Gilson Caroni, sociólogo, professor universitário Faculdades Integradas Hélio Alonso/RJ

Gisela Gorovitz, empresária e advogada

Glaucia Camargos, produtora de cinema

Gonzalo Vecina Neto, médico sanitarista, professor da FSP/USP

Guilherme Silva Rossi, estudante de direito USP

Heloísa Fernandes, socióloga, professora USP e ENFF

Hugo Carvana, ator e cineasta

Humberto de Carvalho Motta, estudante universitário

Ícaro C. Martins, cineasta

Idacil Amarilho, administrador

Iná Camargo, professora universitária USP

Iolanda Toshie Ide, professora universitária aposentada Unesp/Marília

Isa Grispun Ferraz, cineasta

Ivan Seixas, presidente do Condepe – Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana

Ivo Rosset, empresário

Ivone Macedo Arantes, arquiteta

Ivy Farias, jornalista

Izabel de Sena, professora universitária, Sarah Lawrence College, NY

Izaias Almada, escritor

Jacy Afonso de Melo, secretário de organização da CUT Nacional

Jane Argollo, coordenadora de Ponto de Cultura

Jessie Jane Vieira, historiadora, professora da UFRJ

Jesus Chediak, jornalista

João Antonio de Moraes, sindicalista, coordenador geral da FUP – Federação Única dos Petroleiros

João Antonio Felício, sindicalista, secretário de relações internacinais da CUT

João Carlos Martins, pianista e maestro

João Feres, cientista político

João Jorge Rodrigues dos Santos, advogado e presidente do Grupo Olodum

João Lopes de Melo

João Paulo Possa Terra, estudante de direito USP

João Pedro Stédile, presidente nacional do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

João Quartim de Morais, cientista político, professor universitário Unicamp

Jorge Ferreira, empresário

Jorge Mautner, cantor e escritor

José Antonio Fernando Ferrari, antiquário

José Arrabal, professor, jornalista e escritor

José Carlos Asbeg, cineasta

José Carlos Henrique, arquiteto

José Carlos Tórtima, advogado

José Fernando Pinto da Costa, presidente do grupo educacional Uniesp

José Ibrahim, líder sindical

José Luiz Del Roio, escritor

José Marcelo, pastor batista

Josefhina Bacariça, educadora popular em Direitos Humanos

Julia Barreto, produtora cinematográfica

Julio Cesar Senra Barros, interlocutor social

Jun Nakabayashi, cientista político

Juvandia Moreira, sindicalista, presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região

Ladislau Dowbor, economista, professor universitário PUC/SP

Laio Correia Morais, estudante de direito USP

Laurindo Leal Filho, jornalista e sociólogo, professor universitário USP

Lauro Cesar Muniz, dramaturgo

Levi Bucalem Ferrari, escritor e professor de ciências políticas

Lia Ribeiro, jornalista

Lincoln Secco, historiador, professor universitário USP

Lorena Moroni Girão Barroso, servidora pública federal

Lucas Yanagizawa Paes de Almeida Nogueira Pinto, estudante de psicologia

Lucy Barreto, produtora cinematográfica

Luiz Carlos Bresser Pereira, economista, professor FGV

Luiz Edgard Cartaxo de Arruda Junior, memorialista

Luiz Fenelon P. Barbosa, economista

Luiz Fernando Lobo, artista

Luiz Gonzaga Belluzzo, economista, professor universitário Unicamp

Luiz Pinguelli Rosa, professor da UFRJ

Maia Aguilera Franklin de Matos, estudante de direito USP

Maira Machado Frota Pinheiro, estudante de direito/USP

Malu Alves Ferreira, jornalista

Manoel Cyrillo de Oliveira Netto, publicitário

Marcelo Carvalho Ferraz, arquiteto

Marcelo Santiago, cineasta

Marcílio de Freitas, professor da UFAM

Márcio Souza, escritor

Marcionila Fernandes, professora, pró-reitora de pós-graduação e pesquisa da UEPB

Marco Albertim, jornalista

Marco Antonio Marques da Silva, desembargador

Marco Aurélio Belém Purini, estudante de direito USP

Marco Aurélio de Carvalho, advogado

Marco Piva, jornalista e empresário da área de comunicações

Marcos José de Oliveira Lima Filho, doutorando em Direito da UFPB

Marcus Robson Nascimento Costa

Maria Carmelita A. C. de Gusmão, professora

Maria das Dores Nascimento, advogada

Maria do Socorro Diogenes, professora

Maria Guadalupe Garcia, socióloga

Maria Izabel Calil Stamato, psicóloga, Universidade Católica de Santos

Maria José Silveira, escritora

Maria Luiza de Carvalho, aposentada

Maria Luiza Quaresma Tonelli, professora e advogada

Maria Victoria Benevides, socióloga, professora universitária USP

Mariano de Siqueira Neto, desembargador aposentado

Marilene Correa da Silva Freitas, professora da UFAM

Marília Cintra Labaki, secretária

Marília Guimarães, escritora, Comitê Internacional de intelectuais e artistas em defesa da humanidade

Mário Cordeiro de Carvalho Junior, professor da FAF/UERJ

Marlene Alves, professora, reitora da UEPB

Marly Zavar, coreógrafa

Marta Nehring, cineasta

Marta Rubia de Rezende, economista

Martha Alencar, cineasta

Maryse Farhi, economista, professora universitária

Matheus Toledo Ribas, estudante de direito USP

Michel Chebel Labaki Jr.

Michel Haradom, empresário, presidente da FERSOL

Mirian Duailibe, empresária e educadora

Ney de Mello Almada, desembargador aposentado

Nilson Rodrigues, produtor cultural

Noeli Tejera Lisbôa, jornalista

Oscar Niemeyer, arquiteto

Otavio Augusto Oliveira de Moraes, estudante de economia PUC/SP

Otávio Facuri Sanches de Paiva, estudante de direito USP

Pablo Gentili, educador, professor universitário UERJ, FLACSO

Paula Barreto, produtora cinematográfica

Paulo Baccarin, procurador da Câmara Municipal de São Paulo

Paulo Betti, ator

Paulo Roberto Feldmann, professor universitário, USP, presidente da Sabra Consultores

Paulo Thiago, cineasta

Pedro Gabriel Lopes, estudante de direito USP

Pedro Igor Mantoan, estudante de direito USP

Pedro Rogério Moreira, jornalista

Pedro Viana Martinez, estudante de direito USP

Raul de Carvalho, pesquisador

Regina Novaes, socióloga/RJ

Regina Orsi, historiadora

Renato Afonso Gonçalves, advogado

Renato Tapajós, cineasta

René Louis de Carvalho, professor universitário UFRJ

Ricardo Gebrim, advogado

Ricardo Kotscho, jornalista

Ricardo Miranda, cineasta

Ricardo Musse, filósofo, professor USP

Ricardo Vilas, músico

Ricardo Zarattini Filho, engenheiro

Risomar Fassanaro, poetisa e jornalista

Roberto Gervitz, cineasta

Rodrigo Frateschi, advogado

Ronaldo Cramer, professor de direito PUC/RJ

Rose Nogueira, jornalista

Rubens Leão Rego, professor Unicamp

Sandra Magalhães, produtora cultural

Sebastião Velasco e Cruz, cientista político, professor universitário Unicamp

Sérgio Ferreira, médico

Sergio Amadeu da Silveira, sociólogo e professor da UFABC

Sergio Caldieri, jornalista

Sérgio Mamberti, ator

Sergio Mileto, empresário, presidente da Alampyme – Associação Latino Americana de Pequenos Empresários

Sérgio Muniz, cineasta

Sérgio Nobre, sindicalista, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC

Sérgio Ricardo, cantor

Sérgio Vampre, advogado

Silvio Da Rin, cineasta

Tatiana Tiemi Akashi, estudante de direito USP

Teresinha Reis Pinto, biomédica e pedagoga Consultora UNESCO

Tereza Trautman, cineasta

Theotônio dos Santos, economista

Tizuka Yamasaki, cineasta

Tullo Vigevani, professor Unesp/Marília

Urariano Mota, escritor e jornalista

Vagner Freitas de Moraes, sindicalista, presidente nacional da CUT – Central Única dos Trabalhadores

Valter Uzzo, advogado

Venicio Artur de Lima, jornalista e sociólogo

Vera Lúca Niemeyer

Vera Maria Chalmers, professora universitária Unicamp

Verônica Toste, professora universitária IESP/UERJ

Vitor Fernando Campos Leite, estudante de direito USP

Vitor Quarenta, estudante de direito Unesp/Franca

Vladimir Sacchetta, jornalista e produtor cultural

Wadih Damous, advogado/RJ

Walnice Nogueira Galvão, professora de literatura comparada USP

Walquikia Leão Rego, professora Unicamp

Zé de Abreu, ator


Para apoiar, envie e-mail para: cartaabertaadesoes@gmail.com

Russomanno: "A direita popular"

A história de São Paulo prova duas coisas. A primeira é que um candidato como Russomanno não é nenhuma novidade. Desde os anos 1940 candidatos como Ademar de Barros e Janio Quadros mantiveram uma corrente que podemos chamar apenas por falta de um conceito melhor como “direita popular”. Esta corrente nunca se expressou numa organização partidária, mas é um “partido” no lato sentido de corrente de opinião permanente. A segunda é que nunca houve uma polarização entre PT e PSDB no município de São Paulo.




Numa reunião de intelectuais em apoio ao então pré-candidato petista Fernando Haddad, um deles disse: “Vamos nos concentrar na classe média porque a periferia já é nossa”. Passados vários meses, parece que só agora petistas e tucanos acordaram para o fato de que a dianteira do Deputado Celso Russomanno nas eleições de 2012 na cidade de São Paulo é mais do que um fogo de palha.

Até recentemente vigorava a ideia de que Russomanno era uma novidade passageira. Depois surgiu a ideia de que ele podia se estabilizar somente porque o eleitor estaria cansado da polarização entre PT e PSDB e apostaria num outsider desvinculado de partidos.

Alguns tentaram explicá-lo pelo fato de que o lulismo teria criado uma base ampla em que petistas e lideranças evangélicas coabitam no governo federal. A nova classe trabalhadora que ascendeu ao mercado poderia ser disputada pelo tradicional discurso petista de melhoria do serviço público ou se voltar para um discurso típico da classe média: a defesa do consumidor. E nisto Russomanno é um mestre pelo histórico de seus programas de televisão.

Nada mais falso. Ainda que uma parte das pessoas que ingressam no mercado possa querer se diferenciar pela compra de serviços privados, não há nenhuma correlação comprovada entre consumo e ideologia política. Pessoas da classe média tradicional consomem mais e se consideram politizadas. Por que no momento em que os pobres ascendem eles não teriam capacidade de consumir e manter suas preferências políticas?

As igrejas evangélicas também foram mostradas como motivo do voto popular. Mas os evangélicos não são mais “alienados” do que ateus ou membros de outras religiões. Se uma parte dos fiéis pode seguir o pastor, uma maioria certamente se define por convicções formadas em vários espaços de sociabilidade como a vizinhança, os parentes mais informados e também as igrejas. Muitas pessoas na periferia frequentam mais de uma ao mesmo tempo.

A história não costuma ser chamada a opinar em processos eleitorais que tem oscilações rápidas e casuais. Uma acusação de corrupção, um escândalo na família e a falta de recursos financeiros podem fazer desabar uma candidatura. Pode ser que o vídeo de Mitt Romney falando maldades dos eleitores de Obama tenha selado a sua derrota. Quem sabe?

Mas deixando de lado as oscilações do tempo curto, a história de São Paulo prova duas coisas. A primeira é que um candidato como Russomanno não é nenhuma novidade, mas a norma. Desde os anos 1940 candidatos como Ademar de Barros e Janio Quadros mantiveram uma corrente que podemos chamar apenas por falta de um conceito melhor como “direita popular”. Ela contrastava com a direita nacional de classe média da UDN que era derrotada nas eleições presidenciais. Decerto muita gente desgosta da expressão porque parece um oximoro. Se é popular não pode ser direita.

Esta corrente política nunca se expressou numa organização partidária, mas é um “partido” no lato sentido de corrente de opinião permanente. O fenômeno de candidatos direitistas com voto não é uma exclusividade paulistana. Mas como São Paulo é uma grande cidade que passou por urbanização intensa em dimensões incomparáveis, as populações recém-chegadas sempre foram alvo de um discurso autoritário que as situavam como clientela e vítima. “Culpadas” pela violência que sofriam e dependentes, elas nem sempre se viam como trabalhadoras responsáveis pelo erguimento da metrópole e sucumbiam à mensagem de ordem, segurança e habitação. Mas ao mesmo tempo se organizavam nas associações de bairro (muitas com sede própria há mais de meio século) e conquistavam loteamentos, asfalto, postos de saúde etc.

Mas a história paulistana nos mostra um segundo fator. Nunca houve uma polarização entre PT e PSDB no município de São Paulo. Em 1985 um velho representante desse “partido de direita” voltou ao poder municipal pelo voto. Era Janio Quadros que derrotou F. H. Cardoso. Mas Eduardo Suplicy (PT) ficou num digno terceiro lugar. Em 1988 o município foi surpreendido pela vitória de Luiza Erundina (então no PT). Mas desde 1992 o malufismo governou São Paulo. Na onda neoliberal a direita apresentou a privatização da saúde como propaganda já em 1992 e não agora. O PAS (Plano de Atendimento à Saúde) foi uma concessão de serviços públicos que enriqueceu alguns empresários médicos e se parecia a um plano de saúde privado.

Enquanto isso, o PT fincou raízes na periferia extrema da cidade, mas divide o apoio com a direita popular. Na verdade só conseguiu derrotá-la em 1988 numa eleição de um só turno e em 2000 quando o Governo FHC estava em seu momento de mais baixa popularidade e o PT despontava como alternativa nacional de poder. Além disso, a petista Marta Suplicy teve o apoio do Governador Mario Covas do PSDB! A vitória do tucano José Serra em 2004 poderia ser apontada como uma anomalia, pois ele não tem o perfil malufista. Tem um partido estabelecido e outra relação com eleitores de classe média.

Mas a vitória de Serra só foi possível com o apoio de votos que ficaram sem uma liderança na direita popular em 2004, já que ela estava absorvida pelo governo Lula em sua lua de mel com os novos aliados. Maluf já estava em franca decadência e o próprio Serra inclinou o discurso à direita. Ao olhar somente para o tempo curto o analista passa a acreditar que há um fenômeno estrutural: a “direita lulista”. Na verdade, a Direita popular atualiza frequentemente o discurso, pois se apresenta como uma “direita de resultados” e não presa a valores morais. Estes são mais fortes na direita conservadora de classe média. Depois de sua derrota em 1988 a direita popular incorporou temas sociais ao lado das propostas de suas tradicionais grandes obras viárias. O projeto Cingapura (Habitação) e a aparente defesa dos favelados foram vitrines da campanha malufista em 1992.

Entretanto, Serra perdeu a chance de quebrar a polaridade entre PT e a velha direita ao deixar a prefeitura para um antigo malufista que se reelegeu: Kassab. A disputa de 2012 pode reproduzir o duelo entre petistas e a direita popular. Se o PSDB for ao segundo turno isso se deverá mais ao erro estratégico do PT ter demorado a fazer campanha onde ele sempre foi mais forte: a periferia. A geografia do voto em São Paulo mostra há vinte anos que o PT tem apoio maior entre os mais pobres.

O apoio de Maluf ao PT em nada muda a luta política estabelecida porque a sua base social não o acompanhou. É que a periferia não é propriedade de ninguém. O PT tem lá sua força e a direita popular também porque ela é popular de fato. E é de Direita porque visa manter o Status Quo através da canalização das necessidades populares para saídas individualistas ou para organizações limitadas às demandas corporativas.

Decerto um “grande acontecimento” ou uma campanha massiva dos meios de comunicação (no caso de Serra ir ao segundo turno) pode tirar a vitória de Russomanno. Fora disso só o improvável apoio do eleitorado do PSDB ao PT no segundo turno e a recuperação dos votos petistas nos extremos Leste e Sul da cidade alterariam um resultado mais do que previsível, embora não inelutável. É que as eleições são uma composição de quadros dinâmicos e não estáticos. Haddad poderia reorientar sua agenda na reta final do primeiro turno totalmente para o objetivo de desmontar uma parcela do apoio popular à Direita e, depois, usar sua imagem de classe média para atrair os votos que Marta Suplicy teve em 2000. Se ainda há tempo só a campanha petista poderá comprovar depois de tantas desavenças internas e erros estratégicos.

Quanto ao futuro, é a mudança de condição de vida já em curso na periferia que poderá quebrar a hegemonia de Direita em São Paulo. A velocidade da urbanização e o perfil da economia industrial da cidade começaram a mudar nos últimos decênios. Mas para isso a esquerda precisa ver os pobres como sujeitos históricos.

(*) Lincoln Secco é Professor de História Contemporânea na USP e autor de “A História do PT” (Ed. Ateliê, terceira edição, 2012).
 
Carta Maior

Jornalista da Veja revela ódio a Lula: ‘ele morrerá sem saber o que é vergonha na cara’

 


A retórica agressiva está de volta à imprensa brasileira. O ex-presidente Lula passou a ser tratado por alguns meios de comunicação como criminoso

“SOMOS UM POVO HONRADO GOVERNADO POR LADRÕES”
Escrita por Carlos Lacerda, na Tribuna da Imprensa, a manchete acima desencadeou os acontecimentos que levaram ao suicídio de Getúlio Vargas. Tendo Lula como alvo, a retórica violenta está de volta aos meios de comunicação, como no texto de Augusto Nunes, que diz que o ex-presidente morrerá sem saber o que é ter vergonha na cara; afinal, retornamos aos anos 50? Quais serão as consequências?
augusto nunes veja lula vergonha
Jornalista de Veja Augusto Nunes. Foto: reprodução
Antes de se transformar no Augusto Nunes (foto) atual, caricatura do que um dia foi no passado, o Augusto Nunes original redigiu a autobiografia de Samuel Wainer, a partir de seus depoimentos. Intitulado “Minha razão de viver”, o livro narra as peripécias do jornalista que revolucionou a imprensa brasileira na década de 50, contando com o apoio do ex-presidente Getúlio Vargas para criar a sua Última Hora.
Getúlio incentivou o desenvolvimento de uma imprensa de cunho popular porque era o alvo preferencial daquilo que hoje chamam de PIG (Partido da Imprensa Golpista) – organização que, nos anos 50, era comandada por Carlos Lacerda, dono da Tribuna da Imprensa.

Em 2 de agosto de 1954, Lacerda publicou a mais ousada de suas manchetes: “Somos um povo honrado governado por ladrões”. Vinte e dois dias depois, após um atentado contra Lacerda que acirrou ainda mais os ânimos, Getúlio se matou com um tiro no peito.

Essa retórica agressiva está de volta à imprensa brasileira. O ex-presidente Lula passou a ser tratado por alguns meios de comunicação como criminoso, sobre quem paira a ameaça de um processo judicial, e seis partidos políticos redigiram uma nota condenando o golpismo da imprensa e comparando a situação atual à dos anos 50.
Em resposta, Augusto Nunes, de Veja.com, escreveu um artigo dizendo que a comparação entre Lula e Getúlio insulta a memória do presidente suicida, mas não é exagero comparar seu estilo ao de Lacerda. No texto, Nunes afirmou que Lula, ao contrário de Getúlio, morrerá sem saber o que é ter vergonha na cara.
Paradoxalmente, o biógrafo de Samuel Wainer se transformou num arremedo de Carlos Lacerda.
(Leia, aqui, texto de Alzira Alves de Abreu, publicado pelo CPDOC, da FGV, que fala sobre a relação entre Getúlio e a imprensa. E também o texto de Sérgio Domingues sobre o comportamento dos meios de comunicação até o golpe de 1964)

Brasil 247
Pragmatismo Político

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Município socialista na Espanha resiste à crise

 

Desde que conseguiu a desapropriação de terras improdutivas a partir da pressão dos moradores, Marinaleda implementou um modelo cooperativista de produção que envolve rodízio na lavoura e na indústria e hoje sustenta índices de emprego mais elevados do que os da Espanha. Segundo a prefeitura, o desemprego não passa de 4%, enquanto a oposição diz que chega a 14%. Seja como for, são números muito inferiores aos 25% do país.



Marinaleda - Quando em 2008 a crise do sistema financeiro dos Estados Unidos chegou à Europa, causando também recessão nos países do Velho Mundo, cerca de 200 jovens migraram a Marinaleda, um pequeno povoado espanhol no coração da Andaluzia.

Parte deles voltava para casa depois de ter perdido o trabalho na construção civil, que era então o grande setor em expansão no país ibérico e cuja bolha explodiu com a falta de crédito na economia a partir da quebra de bancos norte-americanos. Outros vinham em busca do El Dorado espanhol: a festejada terra do pleno emprego propagandeada pela administração municipal.

A fama da cidade, entretanto, não tem nada de milagroso ou mítico. É fruto de três décadas de uma briga comprada por toda a população e liderada pelo líder sindical Juan Manuel Sánchez Gordillo: a reforma agrária.

Marinaleda perdeu a metade de seus habitantes durante a ditadura do general Francisco Franco. A pobreza a que estavam condicionados os que ficaram fez com que se gestasse no íntimo dessa sociedade um desejo de mudança que não foi saciado com o retorno da democracia no final dos anos 70.

Organizados em torno do Sindicato de Obreros del Campo, criado em 1977, os trabalhadores rurais iniciaram uma sistemática ocupação de terras improdutivas nos arredores da cidade, exigindo que fossem repartidas para que todos pudessem trabalhar. A luta mais conhecida de todas é a origem da boa reputação de Marinaleda: a fazenda de El Humoso.

“Todas as manhãs caminhávamos 8 quilômetros entre o centro urbano e a estância. Logo que nos instalávamos, vinha a guarda civil nos correr de lá. Em alguns casos eram bem violentos; chegaram a cortar as árvores para que não tivéssemos sombra para descansar”, lembra o agricultor Joaquin Juan Diaz, hoje um dos sócios de uma das cooperativas responsáveis pela produção em El Humoso.

“Mas não nos assuntavam: na manhã seguinte, marchávamos até lá novamente e a polícia nos mandava embora, mas voltávamos no dia seguinte, e no outro, e no outro, e no outro”, recorda, admirando o horizonte de oliveiras que hoje é (também) sua propriedade.

El Humoso pertencia ao Duque do Infantado, que assim como essa, possuía outras tantas terras no sul da Espanha. A maior parte delas improdutiva. “Era muito comum durante a guerra da Reconquista, no século XV, que os reis dessem terras como pagamento aos que lutavam por eles contra os mouros, no sul”, explica o deputado e porta-voz do grupo parlamentário da Esquerda Unida da Andaluzia, José Antonio Castro.

As caminhadas diárias – e os confrontos contra a guarda civil – duraram seis anos até que a Junta da Andaluzia decidiu desapropriar parte da terra e deixar que os moradores a explorassem. O primeiro que fizeram foi pintar no muro externo da propriedade a frase que retocam ano a ano com denodo. “Essa fazenda é para os trabalhadores desempregados de Marinaleda”.

Em seguida dividiram-se em oito cooperativas e com os subsídios estatais compraram máquinas, ferramentas e sementes para a produção. Oito anos depois deram um novo passo e fundaram a primeira agroindústria de propriedade coletiva na cidade, a Humar Alimentos, cujo nome foi criado a partir das iniciais de Humoso e Marinaleda.

“É fundamental colocar os meios de produção nas mãos do agricultor e do operário: assim eles recebem o que é justo pelo seu trabalho e o consumidor paga menos pelo alimento”, costuma discursar Sánchez Gordillo.

Jornada igual para todos
As duas iniciativas associativistas de Marinaleda são o que garantem que em 2012 o município sustente taxas de desemprego bastante menores que os nacionais. Segundo a prefeitura, os parados na cidade não passam de 4%, enquanto a oposição defende que chegam a 14%.

De uma maneira ou outra, são números muito inferiores aos 25% da população espanhola que não consegue trabalho em plena crise. “O campo se caracteriza por não ter índices estáveis de ocupação. É verdade que há meses em que o desemprego é nulo na cidade. Mas há épocas de menor atividade tanto na fazenda como na agroindústria”, pondera Joaquin Diaz.

Entre 70 e 120 cooperativados trabalham de maneira fixa o ano todo na lavoura e na agroindústria. Em períodos de entressafra, eles aproveitam para fazer a manutenção de equipamentos, limpeza dos campos, a contabilidade.

Por este serviço recebem 1.200 euros mensais, o mesmo salário dos funcionários públicos e do próprio Sánchez Gordillo, eleito nove vezes prefeito entre 1979 e 2011 – ele nunca recebeu pelo cargo eletivo municipal, era remunerado como professor de História e nos últimos anos como deputado da Andaluzia.

Quando há carga extra, se contrata por jornada homens e mulheres na cidade. O cenário laboral de Marinaleda se complicou a partir de 2008 não apenas pela retração da economia, que reduz os preços pagos pelos grandes distribuidores – as multinacionais, que são o alvo do momento dos protestos na cidade – e a demanda dos consumidores. Com o retorno dos jovens que haviam ido para a cidade e a chegada de migrantes de outras regiões, há mais competição na hora de conseguir um trabalho.

O que não significa que haverá mais desempregados, senão que cada um trabalhará menos horas, conforme explica a vice-prefeita de Marinaleda, Esperanza Saavedra Martín: “Se há necessidade de 100 agricultores para 20 dias de trabalho e são 100 candidatos, cada um vai trabalhar 20 dias. Mas se 200 pessoas se apresentarem, cada uma vai ir para o campo durante 10 dias”.

Outra diferença com relação aos plantios tradicionais é que tanto El Humoso como a Humar Alimentos pagam uma diária única para todos os seus trabalhadores: 47 euros por jornada, sem fazer distinção entre a função e até mesmo a produtividade de cada um.

É folclórica, aliás, uma fala de Sánchez Gordillo durante uma assembleia na qual queixavam-se alguns trabalhadores da falta de comprometimento e de efetividade de outros colegas. “Se há quem trabalha menos, os que podem produzir mais devem fazer o dobro de esforço a que estão costumados para ajudar a estes companheiros”.

O trabalho se reparte através de sorteios nas assembleias públicas do município. Embora o vereador Hipólito Aires, do Partido Socialista Espanhol (PSOE) – que em Marinaleda faz oposição à sigla no poder, a Esquerda Unida – acrescente que só são incluídos na loteria laboral aqueles que participam das marchas e protestos convocados pelo prefeito. “Cada tipo de atividade política conta um número específico de pontos e só pode apresentar-se para uma vaga aqueles que atingem um mínimo”, denuncia.

Exportação para Venezuela começou neste ano
A aposta das cooperativas para que haja ocupação plena durante a maior parte do ano é diversificar a produção. Setembro é o mês da colheita dos pimentões – há três variedades cultivadas em El Humoso, que em seguida são beneficiadas na Humar Alimentos –, e a previsão de Esperanza era que se incorporassem ao contingente fixo das cooperativas entre 300 e 500 trabalhadores durante dois meses. Em seguida será o turno das beterrabas, dos girassóis, do trigo, da alcachofra.

Três vezes ao ano eles recolhem azeitonas do plantio de oliveiras. “Em 2011 colhemos 3,8 milhões de quilos: 3 milhões para a fabricação de azeite e o restante de azeitonas de mesa”, contabiliza Manuel Martín Fernández, que em um domingo se dedicava a limpar os tanques de estocagem do líquido, que em breve receberia a parte da produção de setembro.

A colheita, entretanto, ficou pequena com o início das relações comerciais com a Venezuela, depois que o presidente Hugo Chávez conheceu a história de Marinaleda e de seu prefeito através de uma reportagem na TeleSur. Em 2012 pela primeira vez El Humoso entregou ao país cerca de 70 milhões de litros de azeite, um volume 20 vezes superior ao que a fazenda produz.

A saída foi se associar com cooperativas de municípios vizinhos que seguissem parâmetros de produção e de trabalho semelhantes aos de Marinaleda. “Tem que pagar bem o agricultor que recolhe azeitona e o empregado da fábrica, e possuir uma qualidade como a nossa, pois não misturamos 'orujo' no nosso azeite”, completa Joaquin Díaz.

“É muito importante que haja solidariedade prática entre os países, entre as cooperativas, entre os distintos grupos. Ainda mais num momento difícil como esse”, reflete Gordillo, referindo-se ao momento de crise. Ele planeja estabelecer relações semelhantes com Nigarágua, Equador e Bolívia. “Seria uma boa ideia que o projeto Alba se estendesse pelo sul da Europa”, conclui.

Apesar da ajuda bem-vinda de Chávez, o prefeito defende um modelo misto de sustentabilidade da produção, em que o mercado interno também seja atendido, numa relação direta entre produtor, pequeno comércio e consumidor.
Carta Maior