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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

STF deu o golpe e assumiu o poder

 



Por Rui Martins - Berna
A mais recente tentativa de golpe pelo STF foi no julgamento do italiano Cesare Battisti, ameaçado de extradição a pedido do governo Berlusconi. Num artigo publicado na época, alertei quanto à tentativa de golpe pelo STF. O objetivo do Supremo, presidido então por Gilmar Mendes, era o retirar do presidente Lula o direito, que lhe era garantido pela Constituição, de decidir se Battisti seria ou não enviado ao governo italiano.

Antes disso houve, e o ex-ministro da Justiça,  Tarso Genro, denunciou diversas vezes, a inconstitucionalidade da decisão tomada pelo STF, ultrapassando seus poderes, de ignorar a decisão do ministro da Justiça negando expatriar Cesare Battisti. Gilmar Mendes e Peluso tudo fizeram para expatriar Battisti, julgando-se mais competentes na matéria que o Ministério da Justiça e, atingido esse objetivo, queriam se sobrepor ao direito do presidente Lula dar a última palavra. Essa tentativa de somar mais poder e desmoralizar o presidente se frustrou e Lula deu acolha ao italiano, que tinha passado mais de dois anos ilegalmente preso.

Porém ficou evidente - o STF era incompetente na questão Battisti, seu longo julgamento deve ser considerado nulo e desnecessário, pois a questão já havia sido resolvida pelo ministro da Justiça. Em todo caso, desrespeitando o princípio constitucional da equiparação dos Poderes, o STF decidiu por maioria de um voto pela extradição de Battisti sem dispor de provas, optando pela versão unilateral do governo italiano. Não me lembro qual foi a posição do ministro Joaquim Barbosa quanto a Battisti, mas me parece não ter votado por estar em licença por doença.

O jurista Carlos Lungarzo, que publica nos próximos dias um livro sobre o caso Battisti, demonstrou com base em documentos europeus a inconsistência dos argumentos italianos contra Battisti e a leviandade de ministros do STF em condenar sem provas o italiano à extradição. Mas nessa primeira tentativa do STF se sobrepor ao Executivo, um precedente foi criado - a última instância judiciária do país, em desrespeito ao princípio básico de Direito, de que não pode haver pena sem prova de crime ou delito, criou a perigosa jurisprudência de que se pode condenar sem provas concludentes.

Tal procedimento lembra os do Tribunal Especial na França ocupada e que consistia em dar a aparência de julgamentos legais a condenações pré-decididas pelo governo de Vichy contra personalidades francesas contrárias à Ocupação nazista. Uma constante é a de que toda vez que o Judiciário se prestou a maquiar perseguições políticas como julgamentos legais foi em obediência a ditaduras de direita ou de esquerda. Ora, no Brasil, ocorre uma diferença fundamental - a última instância do Judiciário assumiu autonomia própria e age inclusive contra o governo, com o intuito de desmoralizá-lo e de assumir suas prerrogativas e seu poder, para confiná-lo apenas na governança.

O exemplo mais recente de golpe legal, é o do ocorrido no Paraguai, onde o Parlamento, interpretando à sua maneira um texto da Constituição, decretou o impeachment do presidente eleito pelo povo, derrubou-o e passou o poder ao vice-presidente. Ou seja, o Legislativo, contanto com a complacência do Judiciário, deu o golpe no Executivo.
Agora no Brasil, a condenação do principal articulador do governo petista, José Dirceu, visa diretamente o governo e o PT, e é um recado claro do STF de que assume o poder, mesmo se seus ministros-juizes não foram eleitos pelo povo. A partir de agora, todas as questões importantes do governo poderão ser decididas pelo STF e não pela presidenta Dilma e isso pode implicar até na privatização de estatais, como a cobiçada Petrobras, como no impeachment de governadores, prefeitos e até numa inelegibilidade do ex-presidente Lula.

Outro aspecto importante na condenação de José Dirceu está na exigência de ser colocado em cela comum, desobedecendo-se outro preceito legal, que beneficia com tratamento diferente a todos os universitários e ao qual Dirceu teria direito como bacharel em Direito. Essa exceção reforça a suspeita de não se tratar de um julgamento equitável, mas de um ajuste de contas, alguma coisa parecida com vingança ou revanchismo de perdedores.

Por que tanto ódio contra José Dirceu ? Não pertenço ao PT e me sinto à vontade para comentar. Mesmo se muitos petistas fundadores deixaram o partido por divergir das concessões feitas pelo governo Lula, não se pode negar ter sido Dirceu o principal articulador da eleição de Lula para a presidência. Além disso, foi um resistente contra a ditadura militar. E, embora acusado sem provas mas por ilação como envolvido no episódio do Mensalão, não se tratava de enriquecimento pessoal.

Se nos reportarmos ao ano 2005, quando estourou o caso Mensalão, fica evidente que o alvo daquela campanha era o presidente Lula - o objetivo principal era o de se provocar um impeachment e derrubar Lula. Eu fazia a correção das provas do meu livro sobre Maluf (Dinheiro Sujo da Corrupção - Geração Editorial), e tive tempo de incluir um capítulo sobre o que considerei como um escândalo de excessivas proporções. Não se tratava de se justificar o ato de compra dos votos do parlamentares, mas de uma observação realista.

E eu citava, como costumo citar, o exemplo suíço, país considerado dos mais honestos, onde existe uma versão legal de um tipo de mensalão. Todo deputado ou senador eleito recebe imediatamente o convite das grandes empresas suíças, desde bancos a laboratórios farmaceuticos, para ser vice-presidente do conselho de administração. O objetivo é o de evitar leis que prejudiquem tais bancos ou empresas e o de criar leis que os beneficiem. Trata-se de uma compra indireta dos votos dos parlamentares, que poderia também ser considerada como lobby, mas que implica no pagamento de um salário mensal ao parlamentar.
O então presidente do equivalente à nossa Câmara Federal, Peter Hess, era em 2005, vice-presidente de 42 conselhos de administração de empresas suíças, o que lhe garantia mais de 400 mil dólares mensais. E isso sem qualquer escândalo.
A diferença é que, na Suíça, não é um partido que compra o voto de parlamentares mais ou menos honestos, porém as empresas privadas. O fato de na Suíça haver uma versão local de mensalão não justifica essa prática, mas pode lhe dar a verdadeira dimensão.
É evidente que, no Brasil, não se condena o Mensalão como prática desonesta, trata-se de um jogada política para se desmoralizar os petistas, que acabou não surtindo efeito nas eleições (por que diabo o STF escolheu a época das eleições para julgar o Mensalão?), mesmo porque dizem ter havido compra de votos na emenda constitucional que permitiu a reeleição de FHC. Iria o STF julgar agora, sem provas, também o FHC? Outro aspecto importante - estão condenando os chamados corruptores de parlamentares, mas não punem os parlamentares corruptos ?
E agora ? O STF deixou de interpretar as leis, de manter ou anular julgamento, para aplicar sentenças e mesmo acusados não parlamentares não tiveram direito a julgamentos normais em primeira e segunda instâncias. Deve-se aceitar a humilhação de José Dirceu e os riscos que correrá em prisão comum, quando dentro de dois anos a Suíça devolverá os milhões bloqueados de Maluf, por não ter havido condenação pelo STF ? Quando Pimenta Neves vive tranquilo em prisão domiciliar depois de ter matado a sangue frio a jornalista Sandra Gomide ?
Em termos de recursos, as possibilidades de se adiar a execução da pena de José Dirceu são mínimas. Que tribunal acima do STF poderá arguir da condenação sem prova formal ? E da inconstitucionalidade do Judiciário ultrapassando sua competência ? Só um Conselho Constitucional, caso existisse, como na França, onde leis e sentenças ou decisões judiciárias podem ser anuladas em caso de inconstitucionalidade.
Ou será que José Dirceu é culpado por ter contribuído à diminuição da desigualdade social no Brasil, à ascenção dos negros às escolas e universidades, à projeção do Brasil como sexta potência mundial ? ou de ter articulado a eleição à presidência de um operário quebrando a hegemonia das elites brasileiras ?
Talvez o Brasil ainda não tenha se curado dos repetitivos golpes e tentativas de golpe, constantes da história da República. Getúlio se matou porque havia movimento de tropas para derrubá-lo; Café Filho e Carlos Luz queriam invalidar a eleição de Juscelino e Jango; depois da renúncia de Jânio, Jango só assumiu com a criação do parlamentarismo, um golpe indireto para anular seu poder presidencial; mesmo assim, foi derrubado pelos militares para não concretizar as reformas de base; depois da ditadura militar corremos agora o risco de uma ditadura light ou soft ditada pelo STF ?
Em todos esses episódios, os golpes e tentativas visavam governos populistas ou reformistas interessados em dar mais direitos aos trabalhadores ou excluídos e restringir os privilégios da elite dominante.

Fonte: Blog Dag Vulpi

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Sandra Ramírez, companheira de Marulanda, recorda a luta e sua vida ao lado do guerrilheiro

 


    
Noto que ela está nervosa. É a primeira vez que concede uma entrevista. Eu a encontrei em Havana. É uma das 13 mulheres que formam o grupo de 30 pessoas que negociam com o governo colombiano pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), na tentativa de um possível – e ansiado– processo de paz. Com sua grande sensibilidade, ainda que de uma elegância natural, faz parte desses 40% de mulheres combatentes. Suas palavras são acompanhadas pelo movimento das mãos e pelo brilho de seus olhos negros. Seu nome é Sandra Ramírez, é a viúva do líder histórico da organização guerrilheira, Manuel Marulanda Vélez.

Diante de minhas duas primeiras perguntas, responde como se fosse um discurso. Paro o gravador para recordá-la que não faço uma entrevista: quero conversar com ela. Então, sorri e deixa os olhos vagarem para um lugar distante, começa com suas recordações e presentes.

“Em 1981, na região campesina em que vivia com minha família, os guerrilheiros começaram a passar. Meu pai servia de guia para que eles conhecessem a região. Muito me chamou atenção o fato de uma mulher estar no comando. Devido às condições econômicas não pude continuar meus estudos secundários e como essa mulher se tornou uma referência para mim, decidi ingressar nas FARC.

“Entendi que não existe diferença entre homens e mulheres no combate. Também me chamou atenção que se travasse a luta contra o machismo e pela igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres. O que não era fácil, considerando que a maioria dos combatentes são do campo, onde o machismo é mais acentuado, além de serem oriundos de uma sociedade capitalista altamente sexista. Nas FARC, criamos mecanismos para romper com esta postura. Essa é uma de nossas lutas diárias ao lado dos companheiros. Porque nossa luta é pela igualdade dos gêneros e seu bem estar.

“É esse respeito pela mulher e a possibilidade de que avancemos como pessoas, combatentes e profissionais que faz com que tantas mulheres ingressem em suas fileiras. Aqui oferecemos o que as condições sociais e econômicas do país não promovem à imensa maioria, muito menos às mulheres. Uma mulher nas FARC cumpre missões e exerce o comando, porque a partir do momento que ingressa na organização, é educada para que tome consciência de sua condição de pessoa e combatente. Aqui uma mulher pode estudar computação, comunicação, ser médica, enfermeira ou qualquer das especialidades que temos. Aqui a mulher opina e propõe, pois as decisões das FARC são coletivas.

“Claro, não gostamos de perder a feminilidade. Por isso a organização nos dá mensalmente, quando as condições da guerra e as economias permitem, creme para o corpo, esmalte para as unhas, maquiagem, além de toalhas higiênicas e os anticoncepcionais. Não é incomum irmos para a linha de combate bem perfumadas e com o cabelo penteado.

“As relações de casais são tão normais como em Bogotá ou Madri. A propaganda midiática do inimigo diz que as guerrilheiras são obrigadas a estar sexualmente com os companheiros. Isso é mentira. Nós decidimos livremente estar com um companheiro se gostamos. Aqui nos apaixonamos, nos desapaixonamos e sofremos decepções, como em todas as partes do mundo.

“Para nós, o controle de natalidade é obrigatório. Não se pode ser mãe e guerrilheira. Quando ingressamos, aceitamos esta condição. Não se pode esquecer que nós somos parte de um exército. Quando ocorre a gravidez, a guerrilheira pode escolher entre abortar ou sair e ter seu filho. O inimigo nos menospreza por sermos mulheres, porém também nos teme. No geral, quando capturam companheiras, as mesmas são violadas, torturadas e chegam a cortar-lhes os seios, a mutilá-las. Existem casos atrozes. Nos tratam como espólios de guerra. Nos temem porque os enfrentamos de igual para igual, demonstrando que podemos ser muito aguerridas no combate. Por isso, descarregam sobre nós seu medo, raiva e impotência ao capturar uma camarada.

E chegou o momento de fazer a última pergunta. Quando ela escutou sua voz mudou, surgindo um nó na garganta e passou a olhar o chão enquanto juntava as mãos. Respirou fundo e respondeu, sem que lhe faltassem sorrisos travessos em vários momentos de seu relato.

“Em 1983, eu tinha 20 anos. Foi com essa idade que vi no acampamento um senhor com um sombreiro, revólver na cintura, uma carabina e sem uniforme. Então, perguntei quem era. Fiquei paralisada. O camarada Marulanda era a pessoa mais simples que você pode imaginar. Ele não impunha sua presença como chefe. Nós que víamos nele a autoridade.

“Eu não fazia parte de seu grupo de segurança, ainda que estivesse no acampamento do Secretariado, máxima instância de direção das FARC. Em maio de 1984, eu fazia parte do grupo de apoio que recebia as comissões, políticos, jornalistas e demais pessoas que vinham ao acampamento de La Uribe para discutir sobre os acordos de paz que estavam sendo negociados com o governo. Um dia o camarada sofreu um acidente e fissurou uma costela. Como enfermeira, fiquei com a tarefa de aplicar-lhe os medicamentos e a fisioterapia. E durante o tratamento, a nossa aproximação e relação afetiva começou.

“Vivi com ele uma relação absolutamente normal. Eu não tinha privilégios por ser sua companheira. Ele sim era muito especial comigo. Claro que tínhamos discussões e dificuldades como todo casal, porém foram muitas as alegrias. Eu contribuía em suas responsabilidades. Por exemplo, me encarregava das comunicações, muitas vezes assumia a tarefa de secretária ou preparava-lhe comidas como ele gostava.

“Às vezes, vivíamos situações muito difíceis com relação à segurança, próprias da guerra. Ele era o homem mais procurado do país. Por muitas vezes tivemos o exército bem próximo, mas ele, com sua calma e experiência, sempre soube resguardar sua tropa. Ele era muito precavido e tudo planejava. Nós ríamos quando escutávamos notícias de que o tinham matado, enquanto bebíamos café. Porque o mataram muitas vezes.

“Minhas últimas horas com ele? Ainda tenho dificuldade para falar sobre esta parte de nossa vida em casal. Mas bem… Pelos sintomas, acreditávamos que tinha um problema de gastrite. E nesse dia (26 de março de 2008, NdA), tinha escrito um documento, enquanto escutava cumbias colombianas. Depois, o acompanhei para que tomasse banho, tomou chocolate e acreditamos que estava superado o problema. Às cinco da tarde, jantou o pouco de costume. Uma hora depois, recebeu os informes da guarda e deu orientações. Logo após, pediu que eu o acompanhasse ao banheiro. Eu levei o facão e o cinto com a pistola, pertences que nunca abandonava. Então, me disse que se sentia tonto. Vi que estava quase caindo e o contive. Comecei a chamar os que estavam de guarda. O camarada desabou. É terrível ver assim aquele que sempre foi tão forte. O levamos para cama e lhe demos massagens cardíacas e respiração, porém não voltou. Tudo foi tão inesperado. Não sofreu: até nisso perdeu o inimigo. Nem esse gosto deu aos seus inimigos.

Eu me senti triste, só e desamparada, ainda que toda organização estivesse comigo”.

Hernando Calvo Ospina é jornalista colombiano residente na França. Colaborador do Le Monde Diplomatique.
 
Fonte: AVERDADE

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