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sexta-feira, 29 de março de 2013

Coreia do Norte prepara mísseis após exercício aéreo dos EUA



quinta-feira, 28 de março de 2013

Presidenta, crie corvos e eles bicarão teus olhos



 

 

por Maria Luiza Tonelli
Publicado originariamente em Viomundo

O Brasil teve a mais longa ditadura da América Latina: 21 anos. Passamos por um período de redemocratização iniciado em 1985 e, finalmente, em 1988, com a Constituição chamada por Ulysses Guimarães de constituição cidadã, entramos efetivamente num sistema político de democracia, sob o Estado Democrático de Direito. Nossa democracia ainda é muito jovem, considerando que pela primeira vez o Brasil desfruta de um período de democracia ininterrupta, sem golpes no meio do caminho.
Às vésperas de completar 49 anos do golpe militar que contou com o apoio das classes privilegiadas, da imprensa, de intelectuais de direita, de grande parte da classe média brasileira e dos EUA, ainda estamos longe de viver numa verdadeira democracia em termos de efetiva igualdade de todos perante a lei e do respeito à dignidade humana, corolário da nossa Constituição.
O Brasil é um país constitucionalista, ou seja, um Estado no qual ninguém está acima da lei, nem governantes nem governados. Significa que nenhuma lei pode estar em contradição com a Constituição, bem como a nenhum cidadão ou grupo de indivíduos cabe, sob qualquer pretexto, agir de modo tal que contrarie o que diz nossa Lei Maior, mesmo quando percebemos que há colisão entre direitos.
Isso quer dizer que nenhum direito é absoluto. O direito à liberdade de expressão não é absoluto a ponto de violar o direito à imagem, à privacidade e à dignidade humana. Mesmo quando se trata de figuras públicas, o direito mínimo à privacidade deve ser garantido. Estar na condição de agente público não exclui direitos fundamentais e direitos humanos do político como indivíduo e como cidadão.
De modo simplificado, o que podemos dizer sobre a dignidade humana é que todo ser humano deve ser tratado como um fim em si mesmo, não como um meio, segundo a fórmula kantiana.
A dignidade humana é um valor intrínseco ao ser humano, um direito constitucional a ser respeitado e um direito humano que tem como pressuposto o fato de que, por sermos humanos, todas as pessoas devem ser tratadas com igual respeito.
Trata-se de um valor supremo. Direitos humanos são universais, para todos, pelo simples fato de fazermos parte da espécie humana. É uma conquista da civilização o direito de não ser tratado de forma humilhante e degradante. O direito a não sofrer tratamento cruel, física ou psicologicamente. Mesmo um prisioneiro, pelo simples fato de pertencer à espécie humana, deve receber tratamento digno de modo a ter preservada a sua integridade física e mental.
Foi durante os 21 anos de estado de exceção que surgiram e fortaleceram-se, em termos econômicos e políticos, os grandes meios de comunicação hegemônicos deste país. Mesmo que a Constituição Federal vede o monopólio dos meios de comunicação, apenas seis famílias dominam a chamada grande mídia, concentrada fundamentalmente no eixo Rio-São Paulo.
Além disso, foi durante o período da ditadura que concessões de rádio e TV foram distribuídas para políticos que apoiavam o regime militar. Como verdadeiros latifúndios eletrônicos, através de rádios e TVs pelo Brasil afora, principalmente no Nordeste do Brasil, políticos perpetuam-se no poder, que é passado de pai para filho. Temos então num país de dimensões continentais uma grande mídia nas mãos de seis famílias e seus tentáculos nos estados da federação.
Isso, tudo junto e misturado, significa que quando a mídia se assume oposicionista ela atua fora dos marcos do parlamento, uma vez que além de atuar como porta voz dos partidos de oposição, também se constitui num verdadeiro partido político na defesa de seus interesses e de sua ideologia. Uma mídia que se arvora em ser representante dos interesses da sociedade, como se fosse um quarto poder na república.
Não é por acaso que os donos dos meios de comunicação querem nos fazer crer que regulação da mídia é sinônimo de censura. Não admitem a democratização dos meios de comunicação porque querem manter o monopólio a fim de conservar o poder político e aumentar cada vez mais sua força econômica. Vale lembrar sempre que os meios de comunicação privados são empresas comerciais; logo, regidas pela lógica do mercado, embora apregoem que atuam na defesa da democracia, em nome da liberdade de expressão e de imprensa. Liberdade de imprensa não é sinônimo de liberdade de expressão. Além disso, devemos nos lembrar que empresas de comunicação são concessões públicas que, portanto, estão sujeitas a regras e normas constitucionais.
A longa preleção acima presta-se, principalmente, a uma questão: pode um meio de comunicação, em nome da liberdade de expressão e de imprensa, através de um programa pretensamente humorístico, expor uma pessoa a um tratamento humilhante, degradante, aviltante, em nome da liberdade de expressão e de imprensa, como fez o CQC com o deputado José Genoíno, sem considerar que se trata de um ser humano com direitos a serem respeitados? Uma mídia que hipocritamente fala tanto em moral e valoriza tanto os “valores da família” não considera que José Genoíno também tem uma família que sofre com tamanho linchamento moral?
Estamos às vésperas de completar 49 anos de um golpe militar que nos impôs 21 anos de ditadura, quando muitos foram mortos, outros perseguidos, presos, torturados barbaramente, simplesmente porque lutavam contra o regime de exceção e defendiam a democracia que nos foi solapada quando um presidente legitimamente empossado no cargo foi deposto pelos militares, saudados pela imprensa em seus editoriais no dia seguinte ao golpe.
José Genoíno, preso e torturado, foi um dos que teve a coragem de lutar contra a ditadura. Pelo mesmo motivo foi perseguida, presa e torturada a mulher que hoje preside este país. Genoíno, hoje achincalhado, é torturado psicologicamente pela mesma mídia que agora defende a democracia.
A presidenta Dilma já disse várias vezes que prefere o barulho da mídia na democracia do que o silêncio da ditadura. Nós não queremos o barulho de uma mídia que não respeita a Constituição nem os direitos humanos, pois no Estado Democrático de Direito ninguém está acima da lei. O que queremos é o barulho da democracia com uma comunicação democratizada. Direitos quando são para poucos já não são direitos, mas privilégios.
A democracia foi inventada pelos gregos há quase dois mil e quinhentos anos como o regime da palavra e assim continua sendo. Quando a comunicação está nas mãos de poucos não é apenas o direito humano e constitucional ao uso da palavra de todos que está sob ameaça, é a democracia que está em perigo.
Para quem sofreu na alma e na própria carne os horrores da ditadura, como a presidenta Dilma, é compreensível e louvável que defenda a total liberdade de expressão e a liberdade de imprensa. Mas isso não é condição suficiente para que tenhamos uma verdadeira democracia. Sabemos muito bem a quem interessa e o que favorece a desregulamentação da mídia neste país.
A presidenta Dilma deve saber o significado do adágio popular espanhol cria cuervos que te sacarán los ojos.

Maria Luiza Tonelli é advogada, Mestre e Doutoranda em Filosofia pela USP

quarta-feira, 27 de março de 2013

Lançamento de documentário sobre Yoani Sánchez amanhã em Salvador (BA)

Publicado em Solidários


Por Laís Bellini
Do site da Associação Nacional de Cubanos Residentes no Brasil - José Martí

Acontece na próxima quarta feira, dia 27 de março às 19h00, no Espaço Cultural Raul Seixas do Sindicato dos Bancários da Bahia (Av. Sete de Setembro, 1.001, Mercês, Centro) a homenagem ao "Comandante" Alírio, da ACJM-BA (Associação Cultural José Martí), falecido recentemente e grande amigo da Cuba revolucionária e a primeira exibição do documentário "Yoani Sánchez, conexão Cuba - EUA, sua passagem pela Bahia" (20 min.) do diretor Carlos Pronzato, que foca os dois dias (18 e 19 de fevereiro de 2013) em que a blogueira cubana passou pela Bahia, iniciando uma badalada viagem de 80 dias por 12 países. 
A entrada é livre!
Uma mulher cubana que representa o que? 

Foi aqui no Brasil que ela começou sua jornada programada para 80 dias viajando por diversos países e, segundo o que a grande mídia divulgava, falar sobre liberdade de expressão e de comunicação em Cuba. É estranho verificar que os maiores meios de comunicação que apoiaram, legitimaram e inclusive investiram nessa empreitada da blogueira que tampouco representa seu povo são os grandes meios que fazem parte da SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa). Essa organização não é a reunião de jornalistas que visam dialogar quanto a liberdade dos meios de comunicação. Como muitos sabem o que é bem verdade, é que esses grupos se reúnem visando manter o controle empresarial dos meios de comunicação da América sob seus poderes e se unem no intuito de evitar espaços para que mídias contra hegemônicas comecem a ocupar espaços de diálogo com o povo. 
É também bem verdade que, começando sua saga pelo Brasil, especificamente na Bahia (18 e 19 de fevereiro), a blogueira teve uma recepção tal que não foi o real resultado de suas expectativas. O povo veio lhe responder. Respostas tais sobre seu posicionamento que não é só contra a luta pela preservação de um Estado Socialista no mundo, como o de seu país, como também pelo seu olhar favorável à abertura do mercado cubano e a intervenção estadunidense que foi distanciada desde a Revolução Cubana com muita luta e empenho. 
Neste curta - documentário, seguimos os seus passos na Bahia e buscamos apresentar quem é Yoani Sánchez e porque diversas organizações sociais brasileiras se opuseram a sua apresentação no país como a grande defensora da liberdade de expressão. 
Serviço 
Duração: 20 minutos 
Ano de produção: 2013 
Direção e Roteiro: Carlos Pronzato 
Edição: Laisa Ferreira 
Apoio: Faculdade da Cidade do Salvador 
Realização: La Mestiza Audiovisual

A formação econômica e social do Brasil sob nova ótica

 

Publicado no Pravda ru
A formação econômica e social do Brasil sob nova ótica. 18018.jpeg
A historiografia econômica brasileira marcou-se pela elabo­ração, ainda na primeira metade do século XX, de uma interpre­tação acerca do processo de for­mação econômica e social do Brasil assentada na ênfase posta na produção para exportação.
Iraci del Nero da Costa *
José Flávio Motta **
 
1. O modelo de Caio Prado Júnior
 
A historiografia econômica brasileira marcou-se pela elabo­ração, ainda na primeira metade do século XX, de uma interpre­tação acerca do processo de for­mação econômica e social do Brasil assentada na ênfase posta na produção para exportação. Assim, em Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia, publi­cado em 1942, Caio Prado Júnior explicitava o sentido da colonização, conceito fundamental a embasar a aludida in­terpretação: "No seu conjunto, e vista no plano mundial e internacional, a colonização dos trópicos toma o aspecto de uma vasta em­presa comercial, mais completa que a antiga feitoria, mas sempre com o mesmo caráter que ela, destinada a explorar os recursos naturais de um território virgem em proveito do comércio europeu. É este o verdadeiro sentido da colonização tropical,de que o Brasil é uma das resultantes: e ele explicará os elementos funda­mentais, tanto no econômico como no social, da formação e evolução históricas dos trópicos americanos. {...} Se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde ouro e diamantes; depois, algodão, e em seguida café, para o comércio europeu. Nada mais que isto. E com tal objetivo, objetivo exterior, voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio, que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras. Tudo se disporá naquele sentido: a estrutura, bem como as atividades do país." (PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia. 17a. ed., São Paulo: Brasiliense, 1981, p. 31-32).
É sabida, e indiscutível, a im­portância do modelo interpreta­tivo proposto por Caio Prado Júnior para a compreensão de nossa formação histórica. To­davia, ainda que tenha sido inegável a relevância ímpar, nas etapas colonial e imperial da história brasileira, das ativi­dades direcionadas à expor­tação, sedimentava-se na histo­riografia um viés exportador, que passava a nortear os traba­lhos produzidos na área.[i] Em outras palavras, no modelo pradiano ao se "{...} pensar a constituição da economia brasileira como uma mera pro­jeção imediata do capital comercial no plano da pro­dução {...} perde-se de vista, assim, o que hodiernamente chamaríamos 'Brasil real' e se privilegia desmesuradamente o 'Brasil exportacionista', vale dizer, o segmento econômico voltado para os mercados mundiais." (COSTA, Iraci del Nero da. Repensando o modelo interpretativo de Caio Prado Júnior. Cadernos NEHD, n. 3. São Paulo: NEHD-FEA/USP, 1995, p. 3-4).[ii] Paten­teiam-se, dessa forma, as limi­tações características do modelo em questão, pois, neste Brasil real, "{...} as articulações presentes na sociedade brasileira sobrepujavam largamente um mero empreendimento dirigido pelo capi­tal comercial e imediatamente voltado para o mercado mundial e dele totalmente dependente. Neste sentido tratava-se de urna economia com expressivos traços de integração endógena e que comportava uma gama diversifi­cada de atividades produtivas votadas para o atendimento de suas próprias necessidades, dando-se, também, processos in­ternos de acumulação. Disto decorria a geração, na órbita doméstica, de condições que per­mitiam um espaço econômico re­lativamente autônomo vis-à-vis a economia internacional e o capital comercial, espaço econômico este ao qual, ademais, deve-se atribuir expressivo contributo no que tange à formação da renda e do produto." (COSTA, op. cit., 1995, p. 20).
2. Algumas críticas ao modelo pradiano
 
As críticas ao modelo de Caio Prado Júnior, que marcam o evolver da historiografia a partir de meados dos anos 1960 e, so­bretudo, no decênio de 1970, não obstante as discrepâncias, muitas vezes de fundo, que as diferenciam umas das outras, apresentam a característica comum de defenderem a neces­sidade, para um melhor entendi­mento do processo de formação econômica e social do Brasil, de se voltar a atenção, essencialmente, para o universo colonial, propugnando-se uma efetiva in­flexão "para dentro" da economia brasileira. Compondo as criticas aludidas, destacam-se as inter­pretações de Antônio Barros de Castro, Ciro Flamarion S. Car­doso e Jacob Gorender.
Para Castro, mais além da finalidade de servir aos interesses do comércio europeu, punha-se à estrutura socioeconômica estabelecida na colônia brasileira a tarefa de reproduzir-se a si mesma: "A produção em massa de mercadorias cria raízes no Novo Mundo, objetivando-se sob a forma de um complexo aparato produtivo. O 'objetivo' maior desta realidade - o seu 'sentido' se se quiser - lhe é agora ine­rente: atender as suas múltiplas necessidades, garantir a sua re­produção. Em tais condições o comércio é estruturalmente recolocado e os interesses mercantis - bem como os da Coroa - terão necessariamente de ter em conta as determinações que se estabelecem no nível da produção. Em outras palavras, a forma pela qual os interesses ex­ternos atuam sobre a colônia passa a depender 'primeiramente da sua solidez e da sua estrutura interna'. O 'projeto' co­lonial e/ou mercantilista subsiste, sem dúvida; o seu raio de incidência - especialmente em conjunturas adversas - fica no entanto severamente limitado pelo surgimento na colônia de uma estrutura socioeconômica, com seus elementos de rigidez, suas regularidades, seus interesses e, por último, mas também importante, pelos conflitos que lhe são próprios." (CASTRO, Antônio Barros de. A economia política, o capitalismo e a escravidão. In: AMARAL LAPA, José Roberto do (org.). Modos de produção e realidade brasileira. Petrópolis: Vozes, 1980, p. 88-89). 3
Proposição semelhante é evocada por Gorender: "Focalizando agora a linha de interpretação que se concentrou no mercado e dele fez a chave explicativa da economia colonial, constatamos um resultado invariável desse procedimento metodológico: a so­breposição da esfera da circu­lação às relações de produção. {...} A desobstrução metodológica impõe a inversão radical do enfo­que: as relações de produção da economia colonial precisam ser estudadas de dentro para fora, ao contrário do que tem sido feito, isto é, de fora para dentro." (GORENDER, Jacob. O escravismo colo­nial. 4a. ed. São Paulo: Ática, 1985, p. 6-7). Como corolário da "inversão radical" por ele proposta, Goren­der desenvolve o conceito de modo de produção escravista colonial, com o qual pretende dar conta do processo de for­mação econômica da colônia brasileira. Na mesma direção - e com anterioridade - caminha a critica de Ciro Flamarion Cardoso ao circulacionismo e à chamada "teoria do capitalismo comercial": "el carácter de uma formación económica y social debe buscarse básicamente en la esfera de la producción". Para Cardoso, ademais, a re­jeição à ênfase desmedida na esfera da circulação, aliada à crítica igualmente contundente ao dogmatismo presente no esquema stalinista de evolução das sociedades, implica a espe­cificidade do regime colonial: "en mi opinión, la especificidad de las estructuras internas coloniales y de su génesis histórica {...} impone la elaboración de uma teoria de los modos de producción coloniales, partiéndose del principio que dichas estructuras son específicas y dependientes." (CARDOSO, Ciro Flamarion S. Severo Martínez Peláez y el caráter del régimen colonial. In: ASSADOURIAN, Carlos Sempat et alii. Modos de producción en América Latina. 3a.ed. Córdoba: Cuadernos de Pasado y Presente, Buenos Aires: Siglo XXI, 1975, p. 86).
3. A produção historiográfica recente
 
A década de 1970, além dos de­senvolvimentos teóricos referidos no item 2 acima, colocou-se igualmente como marco inicial de produção de um vasto material historiográfico assentado na integração de fontes primárias de variados tipos. Essa produção - na qual se inserem com destaque os trabalhos realizados no campo da demografia histórica 4 - evidenciou, à sacie­dade, a relevância dos processos econômicos que se davam na ór­bita interna da economia brasileira e, por essa via, corroborou, com farto em­basamento empírico, a insufi­ciência da "visão exportacionista" à la Caio Prado. Mais ainda, essa mesma produção historiográfica, amiúde de caráter monográfico, ao ilustrar, cabal e inequivocamente, a multiplici­dade e a complexidade defini­doras do universo colonial, tor­nou igualmente evidentes as limitações postas no plano teórico em decorrência da utili­zação do conceito de modo de produção colonial.
Assim, por exemplo, como lidar, no âmbito de um modo de pro­dução escravista colonial, com o largo segmento formado pelos indivíduos não-proprietários de cativos? Afinal, tais indivíduos, conforme verificado por Iraci Costa (COSTA, Iraci del Nero da. Arraia-miúda: um estudo sobre os não-pro­prietários de escravos no Brasil. São Paulo: MGSP, 1992), dominavam amplamente a produção de mantimentos (ar­roz, feijão, milho, mandioca), de algodão e a pesca; eram, em suma, "{...} participes ativos do mundo produtivo. Faziam-se pre­sentes em todas as culturas, mesmo nas de exportação, vincu­lavam-se às lidas criatórias, ao fabrico e/ou beneficiamento de bens de origem agrícola e com­pareciam com relevo nas atividades artesanais. Suas apou­cadas posses, é evidente, limitavam e condicionavam sua presença, a qual, não obstante, não pode ser negada nem deve ser subestimada." (COSTA, op. cit., 1992, p. 111).
4. O "mosaico de formas não-capitalistas de produção"
 
Tornou-se, portanto, patente, a dificuldade de integrar, às inter­pretações vigentes acerca de nossa formação econômica e so­cial, a complexidade e riqueza características da realidade Colo­nial brasileira. Essa realidade não se via apreendida pelas análises centradas quase exclusivamente nas atividades de ex­portação; de outra parte, dita realidade "vestia", com evidente desconforto, a camisa-de-força representada pelo conceito de modo de produção.
Os anos 1990 trouxeram à luz duas importantes tentativas de superar o impasse vivenciado pela historiografia. Em uma de­las, explicitada no trabalho de Fragoso (FRAGOSO, João Luís Ribeiro. Homens de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1992), a crítica aos modelos explicativos tradicionais é acompanhada da ênfase no conceito de formação econômico-social, trazido ao cerne da análise com o intuito de superar as limi­tações postas pela noção de modo de produção. O avanço historiográfico das últimas décadas é incorporado pelo autor enquanto compondo um "mosaico de formas não-capitalistas de produção", manifesto na produção escravista de ali­mentos no Rio de Janeiro, no complexo agropecuário que se estabelece na região das Minas Gerais, com base no trabalho de escravos e camponeses e dire­cionado para o abastecimento interno, nas fazendas de criação e na agricultura de alimentos presentes em São Paulo e, por fim, na região sul, na produção camponesa de alimentos, na charqueada escravista e nas estâncias gaúchas.
Nas palavras de Fragoso: "a existência de um mercado doméstico e de segmentos produtivos para ele voltados introduz um novo elemento na lógica de funciona­mento da formação colonial - referimo-nos à possibilidade de reproduções endógenas. {...} o processo de reprodução desses segmentos se dá em meio ao mercado interno, constituindo-se, assim, em movimentos de acu­mulações introversas na eco­nomia colonial. Disso infere-se uma maior possibilidade de re­tenção do sobretrabalho na própria economia colonial e, por­tanto, de autonomia dessa última, diante de flutuações externas. {...} Em realidade, a possibilidade de se apreender os movimentos de acumulação endógena à economia colonial prende-se à compreensão dessa última enquanto formação econômico-social. Desse modo, aquela acumulação resultaria, a princípio, da interação mercantil dos processos de reprodução do escravismo colonial com os setores produtivos ligados ao mer­cado doméstico." (FRAGOSO, op. cit., 1992, p. 131-132).
 
A interpretação proposta por Fragoso apresenta-se passível de crítica em dois aspectos funda­mentais. Em primeiro lugar, o entendimento da economia colonial enquanto formação econômico-so­cial encobre, mas não resolve, a impropriedade presente na utilização do conceito de modo de produção ("problema" que Fragoso, aliás, compartilha com Ciro Cardoso e Jacob Gorender): "A impropriedade está, justamente, em conceber abstra-tamente o conjunto de cate­gorias 'modos de produção'. Segundo nossa visão, os distintos modos de produção identificados por Marx devem ser entendidos como um continuum do qual o capitalismo ê o ponto culminante, e o é porque, a partir de sua efetivação, a ­história, além de se fazer univer­sal, conhece uma mudança qualitativa, de sorte que se torna impossível dissociar as distintas sociedades ou áreas do planeta - a solidariedade que as une é dada e explicada pelo capital e ­pelo capitalismo. Disto se infere, ­em primeiro, a impossibilidade de emparelharmos os distintos ­modos de produção - ao fazê-lo operamos uma abstração -; em segundo, a impertinência de 'procurarmos' novos modos de ­produção depois de fundada, ­pelo capitalismo, a história universal. Posta esta e, correlatamente, o mercado mundial, persiste, apenas, o modo de pro­dução capitalista - que a tudo ilu­mina, parafraseando a imagem clássica. Segundo nossa leitura de Marx, a superação 'deste' modo de produção significa a superação da própria categoria, a pré-história devirá história; o homem, até então pressuposto, devirá sujeito." (COSTA, Iraci del Nero da. Nota sobre a não existência de modos de produção coloniais. São Paulo: IPE/USP, 1985, p. 3). 5
O segundo dos aspectos fundamentais da interpretação de Fragoso que deve ser sopesado diz respeito à radicalização da crítica ao modelo de Caio Prado Júnior mediante a defesa de uma reprodução autônoma da economia brasileira. Há, aqui, que reproduzir o seguinte ques­tionamento, de Ciro Cardoso: "Tendo combatido por muitos anos as posturas que enfatizam unilateralmente as relações metrópole-colônia ou centro-periferia, a extração de excedentes, o capital mercantil (hipostasiado em 'capitalismo comercial') e mais em geral a circulação de mercadorias como locus explicativo privilegiado, só posso me regozijar com esses novos e sólidos argumentos {dos estudos preo­cupados em evitar o viés expor­tador - INC/JFM}. Desde que, também neste caso, não se ceda à tentação de mais uma ênfase unilateral. {As análises que in­corporam tais argumentos­ INC/JFM} não estarão esquecendo exageradamente, empurrando um tanto para fora do horizonte, a dependência colonial e neocolo­nial - e as determinações e condi­cionamentos que ela sem qualquer dúvida implicava (ainda que tais análises tenham demonstrado que algumas das determinações imputadas a fatores externos eram falsas)? Fique como questão a ser pensada esta minha dúvida." (CARDOSO, Ciro Flamarion S. et alii. Escravidão e abolição no Brasil: novas perspectivas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988, p. 58).
5. O capital escravista-­mercantil
 
A segunda das interpretações trazidas à luz nos anos 1990 e que aqui se deseja salientar é aquela centrada no conceito de capital escravista-mercantil, elabo­rada por Costa & Pires. 6 Por um lado, preocupa-se em fugir à radicali­zação da crítica ao modelo pradiano. Dessa forma, ainda que se tenha em mente a complexidade da realidade colonial, cada vez mais esmiuçada pela historiografia no decurso dos últimos lustros, não se nega que a so­ciedade escravista moderna "{...} é a própria encarnação da dependência com respeito ao mundo exterior, seja quanto à colocação de parcela substantiva do produto gerado, seja no respeitante à sua própria manutenção no tempo, pois necessitava, crucialmente, do fornecimento externo de mão de obra cativa." (COSTA, op. cit., 1995, p. 25). 7
Nessa perspectiva, a critica a Caio Prado assume o seguinte teor: a limitação que marca seu modelo "{...} deveu-se ao fato de ele haver transposto para o plano fenomênico, sem as necessárias e devidas mediações, elementos próprios do que considerou a essência de nossa formação e da sociedade aqui constituída. Reduzido, assim, o plano do con­creto, ao que se poderia entender ser seu determinante em última instância, a elementos de sua pretensa 'essência' - que não se exaure em tais elementos, diga-se com ênfase -, resta-nos um caricatura de vida econômica e social, desfigurada, rígida, des­carnada, apartada da experiência do dia a dia, perdem-se a especifícidade e as peculiari­dades do escravismo moderno {...} e se fica ás voltas com um 'sentido' abstrato, imaterial, que faz com que nos sintamos tão in­comodados, tão 'desconfortáveis' quando confrontamos nossa visão daquela sociedade com a que derivamos da leitura dos escritos de Caio Prado Júnior." (COSTA, op. cit., 1995, p. 26).
De outra parte, a categoria capi­tal escravista-mercantil substi­tui, na interpretação ora enfo­cada, o papel desempenhado pelo modo de produção (em Gorender e Ciro Cardoso) e pela formação econômico-social (em Fragoso): "Assim, no caso da colônia lusa em terras americanas, a criação da mais-valia decorria da ação do capital escravista-mercantil, vale dizer, embora isolado dos mercados externos e, portanto da órbita da circulação {...}, a esfera da produção interna colocava-se inteiramente em sua órbita e era dominada pelo capital escravista-mercantil. Tal dominância, que não deve ser entendida em termos absolutos, estendia-se à produção de mercadorias (exportáveis ou não), de valores de uso e de serviços, abarcando também a alocação de fatores e recursos e espraiando-se pela circulação interna. Afetava, ainda, a geração e distribuição da renda, a escala da produção, o tamanho das plantas instaladas, as técnicas utilizadas e os elementos afetos à qualificação da mão de obra. Enfim, sua pre­sença condicionava toda a economia colonial, bem como as relações estabelecidas no pro­cesso de produção, projetando-­se, ademais, na vida social e política da colônia. Disso deve-se inferir que os segmentos sociais e econômicos não vinculados ime­diatamente ao escravismo tam­bém se viam influenciados e, em larga medida, determinados {...} pelo capital escravista-mercantil {...} o qual só podia se comunicar com o mundo que lhe era externo medi­ante a intermediação do capital comercial." (PIRES, Julio Manuel & COSTA, Iraci del Nero da. O Capital Escravista-Mercantil e a escravidão nas Américas. São Paulo, EDUC/FAPESP, 2010, p. 21-22 e 23)
A caracterização do capital escravista-mercantil - sua "onipresença" - sedimenta, outrossim, a crítica aos modelos interpreta­tivos que o antecederam, pois "{...} é justamente em tamanha dominância que se assenta o en­gano daqueles que pensam encontrar aqui o assim chamado 'escravismo capitalista' ou propugnam pela existência de um pretenso modo de produção colonial." (PIRES & COSTA, op. cit., 2010, p. 22). Adicionalmente, a riqueza e, ao mesmo tempo, "simplicidade" teórica do con­ceito capital escravista-mer­cantil evidencia o profícuo caminho trilhado pela histo­riografia, em termos da dis­cussão, sempre bem-vinda, do processo de formação econômica e social do Brasil, calcada agora em categorias originais e mais adequadas à nossa realidade, superando-se, assim, o vezo próprio dos que têm tentado explicar o aludido processo com base na utilização de um universo conceptual erigido, sobretudo, em termos do desenvolvimento histórico observado na Europa Ocidental.
* Professor Livre-docente aposentado da Universidade de São Paulo.
** Professor Livre-docente da Universidade de São Paulo.
NOTAS

[i] Caso, por exemplo, de FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 17a. ed., São Paulo: Na­cional, 1980 e de NOVAIS, Fernando Antônio. Portugal e Brasil na crise do antigo sistema co­lonial (1777-1808). São Paulo: Hucitec, 1979.
[ii] Compondo igualmente este viés expor­tador, a própria população brasileira viu-se enfocada mediante a ênfase nos contingentes particularmente presentes na produção para exportação, isto é, a mão de obra escrava e o con­junto dos proprietários de cativos, relegando-se os demais à marginali­dade econômica e social. Dessa forma, assevera Prado Júnior: "Entre estas duas categorias {senhores e escravos - INC/JFM} nitidamente definidas e entrosadas na obra da coloni­zação, comprime-se o número, que vai avultando com o tempo, dos desclassi­ficados, dos inúteis e inadaptados; indivíduos de ocupações mais ou menos incertas e aleatórias ou sem ocupação alguma. {...} O número deste elemento indefinido socialmente, é avantajado {...} compreenderia com certeza a grande, a imensa maioria da população livre da colônia. Compõe-se, so­bretudo, de pretos e mulatos forros ou fugidos da escravidão: índios {...}; mestiços de todos os matizes e cate­gorias {...}; até brancos, brancos puros, e entre eles, {...} até rebentos de tron­cos portugueses ilustres {...}; os nossos poor white, detrito humano segregado pela colonização escravocrata e rígida que os vitimou." (PRADO JÚNIOR, 1981, p. 281-282).
3 Saliente-se que a crítica de Castro é igualmente pertinente quando se toma o enfoque teórico de Fernando Novais acerca do sentido da coloni­zação: "{...} a colonização do Novo Mundo, na Época Moderna, apresenta-­se como peça de um sistema, instrumento da acumulação primitiva da época do capitalismo mercantil. Aquilo que {...} afigurava-se como um simples projeto, apresenta-se agora consoante com o processo histórico concreto de constituição do capitalismo e da sociedade burguesa. Completa-se, entrementes, a conotação do sentido profundo da colonização: comercial e capitalista, isto é, elemento consti­tutivo no processo de formação do capitalismo moderno" (NOVAIS, op. cit., 1979, p. 70). Sobre esta abordagem, escreve Castro: "Observe-se que, para efeitos da interpretação da estrutura econômico-social da colônia, o fato de que em Novais o 'sentido último' é dado pela 'aceleração da acumulação primitiva de capitais' {...}, e não pelos interesses do comércio europeu (como quer Caio Prado), em pouco ou nada os diferencia. A substituição do 'objetivo' pelo 'significado' apenas evita (ou melhor, oculta) a teleologia patente em Caio Prado" (CASTRO, op. cit., 1980, p. 88, nota de rodapé n. 74).
4 Acerca da contribuição da demografia histórica à historiografia brasileira ver MOTTA, José Flávio. Contribuições da demografia histórica à historiografia brasileira. In: Anais do IX Encontro Nacional de Estudos Popu­lacionais. Belo Horizonte: ABEP, 1994, vol. 3, p. 273-295.
5 Sobre o entendimento do capitalismo como forma superior e derradeira da existência natural da sociabilidade humana, ver MOTTA, José Flávio & COSTA, Iraci del Nero da. O fim da história, o inicio da história. Informações Fípe. São Paulo: FIPE, n. 172, p. 20-23, ja­neiro/1995 e MOTTA, José Flávio & COSTA, Iraci del Nero da. O fim da história, o inicio da história: um adendo. Infor­mações Fipe. São Paulo: FIPE, n. 174, p. 21-23, março/1995.
6 Para uma visão pormenorizada da categoria "capital escravista-mercantil" veja-se:
7 Este último elemento da dependência da sociedade escravista, cabe frisar, não se vê absolutamente negado quando, como o faz Fragoso, "{...} consideramos o tráfico atlântico, desde meados do século XVIII, como um negócio interno à economia do Sudeste brasileiro. E isso por uma boa razão: ele era controlado por negociantes residentes no Brasil. Esse fenômeno trans­formava tal negócio em uma operação integrada aos movimentos de acumulação interna à economia colonial" (FRAGOSO, op. cit., 1992, p. 131-132).
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