Publicado em Carta Maior
Passaram-se oito anos e os Estados Unidos fecharam a
porta do Iraque deixando um desastre atrás dela. Durante o conflito,
morreram mais de 100 mil civis, 4.800 soldados da coalizão perderam a
vida (4 .500 dos EUA), junto com 20 mil soldados iraquianos. Para os
iraquianos, o legado da invasão é morte, dezenas de milhares de
mutilados, insegurança, desemprego, falta de água potável e
eletricidade. A democracia exportada com bombas ultramodernas não mudou o
curso das coisas.
Eduardo Febbro
Passaram-se oito anos. Como pedras
impiedosas que semearam a morte. Como aquelas horrendas imagens que
surgiam à beira das estradas no caminho em direção a Bagdá. Fumaça,
destruição, cadáveres e silêncio. Parece ontem. O cruzamento de estradas
assinalava duas direções : Basra ou Bagdá. Através da estrada até
Bagdá, as sucessivas batalhas da ofensiva emergiam como cogumelos
despedaçados : ônibus bombardeados, veículos calcinados, tanques
arrebentados e crateras imensas cavadas pelos mísseis. Os tanques
iraquianos dispostos em fila à beira da estrada pareciam latas de
sardinha queimadas. Frente a eles, os tanques Abrams norteamericanos
tinham o aspecto de mastodontes invencíveis. « Quando começamos a
avançar por esse trajeto, os soldados iraquianos saíam dos tanques para
nos pedir água e comida », contava com lástima um oficial
norteamericano.
Os primeiros grandes subúrbios de casas baixas
pareciam emergir de um pesadelo. As casas e as lojas tinham virado
trincheiras e havia centenas de pessoas caminhando pelas ruas, levando
colchões, cadeiras, roupas, televisões, máquinas de lavar roupa, velhas
máquinas de costura. Bagdá, ao longe, estava envolta em uma espessa
nuvem de fumaça escura. Os poços e as trincheiras de petróleo seguiam
ardendo. Saddam Hussein havia mandado incendiá-los para impedir que os
satélites norteamericanos obtivessem imagens precisas do estado de
Bagdá. Depois, a cidade aparecia finalmente. Ferida e assustada.
Em
cima do capô de um automóvel que havia avançado sobre a calçada, um
livro de capa azul exibia suas páginas milagrosamente intactas. Dentro
do veículo, o corpo de um homem com o corpo tombado para a frente tinha a
cabeça partida e parte do cérebro esparramado em cima do porta-luvas.
Ninguém prestava atenção. A cem metros do automóvel, um grupo de homens
tentava, em vão, derrubar uma imensa estátua de Saddam Hussein erguida
no centro de uma rótula. Do outro lado, três mortos jaziam à margem da
rua. Um grupo de cachorros sarnentos disputava a propriedade do corpo de
um dos mortos : um menino de seis anos estava ali também, sem um sapato
e sem a metade do rosto.
Saddam Hussein havia desaparecido. O
exército ocupante se instalava em tendas nos territórios de sua nova
conquista, ocupava os palácios de quem tinha sido seu aliado, se
apoderava das ruas da cidade transformada e restaurada pelo ditador com a
ajuda dos arquitetos enviados pelo Ocidente nos anos em que Saddam era
um sócio confiável e ninguém se importava que ele afogasse seu povo em
uma lagoa de sangue. O choque de civilizações acabava de se plasmar em
sua versão mais violenta : a de um país milenar e reprimido, a de uma
potência ocidental que havia enviado do céu uma chuva de democracia
comprimida em cachos de bombas.
Há lugares cujo nome e os
símbolos que evoca sobrevivem aos estragos do tempo e das guerras. Bagdá
tinha esse dom. Horrível e mágica. Histórica e contemporânea.
Ameaçadora e hospitaleira. As Mil e uma Noites, uma grande livro onde, a
cada virada de página, havia muitos mortos. O soldado Higins tinha
visto inúmeras fotos de Bagdá antes da invasão, mas nunca havia
imaginado a cidade real que encontrou quando sua unidade entrou na
capital depois do que qualificava como « um combate épico » contra um
inimigo « inferior, mas disposto a tudo ». Higins dizia que, até sua
chegada a Bagdá, não havia conhecido a morte e tampouco imaginado como
seria. Agora já tinha se acostumado ela, mas o primeiro morto seguia
fazendo companhia a ele em sua memória. « A primeira vez que matei um
homem foi à noite. Fiquei com uma sensação estranha, irreal. Não posso
esquecer.
Minha unidade encontrava-se na periferia de Bagdá.
Fazíamos parte de uma patrulha avançada que estava por penetrar na
capital desde o sul. Tínhamos recebido a ordem de consolidar a zona e
seguir adiante. Seguimos as instruções e no início da madrugada
começaram a nos atacar. Choviam tiros de metralhadoras e bazucas. Como
não se via nada usamos os fuzis com visão noturna. O primeiro homem que
apareceu na mira avançava por uma rua lateral, ocultando-se entre as
portas. Era um alvo fácil. Deixei que avançasse. Apontei e disparei. Ele
cai no chão e voltou a se levantar, cambaleante. Disparei mais duas
vezes. Não posso dizer que nesse momento senti que o tinha matado. Com
as miras de visão noturna tudo é visto de um modo distinto, como se
fosse um jogo informático. A realidade é mais lenta e as coisas têm a
forma de silueta ».
« Sei que está por aí, Saddam é eterno. Um
império não pode com ele. Saddam vive até no silêncio », dizia o
empregado de um hotel que havia desaparecido em um incêndio. A única
coisa que estava ali, pulsando no meio da fumaça, era o futuro. O futuro
já estava escrito nas múltiplas sequências da queda de bagdá na
indolência e ignorância dos ocupantes. Essa ignorância brutal era a
matéria prima da ação de Paul Bremer, o ineficiente e teimoso
responsável pela CPA, a Autoridade Provisória da coalizão encarrehada de
administrar o Iraque com estatuto de autoridade governamental.
A
guerra começou em 19 de março de 2003. Cerca de três semanas mais
tarde, Bagdá caiu nas mãos da coalizão. No dia 1° de maio de 2003, o
presidente George W. Bush deu por encerrada essa fase com a expressão
triunfalista « missão cumprida ». No dia 6 de maio, Bush nomeou Paul
Bremer. O « vice-rei » Bremer chegou a Bagdá e abriu a caixa de Pandora
com um projeto político, econômico e administrativo delirante :
converter o Iraque em uma representação dos Estados Unidos no Oriente
Médio : liberal, democrática, permissiva, um centro de negócios ao
melhor estilo dos falcões da Casa Branca.
Ele não tinha a menor
ideia do chão em que estava pisando. Sua primeira decisão consistiu em
decretar a « desbaasificação » da sociedade iraquiana. Bremer pretendia
sanear o sistema político com uma ordem inaplicável : fazer desaparecer o
partido Baas e seus representantes em uma sociedade onde, para
conseguir trabalho ou ser membro da administração pública, era
obrigatório aderir ao Baas. Paul Bremer decretou a demissão de milhares
de empregados e executivos da administração pública, dos organismos
encarregados do petróleo, dos bancos, das universidades. Onze dias
depois de ter assumido suas funções, Bremer assinou outro decreto
enlouquecido : dissolveu o exército, a aviação, a marinha, o Ministério
da Defesa, os serviços de inteligência. Seu frenesi ignorante chegou ao
ponto de, em um país que saía de um prolongado embargo internacional,
que estava em guerra, onde os hospitais estavam destruídos e faltava
até algodão, lançar uma campanha contra o tabagismo e elaborar um
projeto para distribuir rações alimentares com cartões de crédito.
Passaram-se
oito anos e os Estados Unidos fecharam a porta do Iraque deixando um
desastre atrás dela. Durante o conflito, morreram mais de 100 mil civis,
4.800 soldados da coalizão perderam a vida (4 .500 dos EUA), junto com
20 mil soldados iraquianos. « Depois de todo o sangue derramado, o
objetivo de que o Iraque governe a si mesmo e seja capaz de garantir a
segurança se cumpriu », disse o secretário de Defesa estadunidense, Leon
Panetta. O legado da invasão é outro : morte, dezenas de milhares de
mutilados, insegurança, desemprego, falta de água potável e
eletricidade. A democracia exportada com bombas ultramodernas não mudou o
curso das coisas. A queda do déspota permitiu que os xiitas,
majoritários no país e reprimidos até a barárie por Saddam Hussein,
tomasem as rédeas do poder sem que isso implicasse unidade ou
estabilidade. O Iraque segue sendo um país em carne viva onde as feridas
da ocupação não se fecharam.