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sexta-feira, 5 de abril de 2013

Brasil não pode ficar desarmado

               
Publicado na Revista Mirante
Em artigo lúcido e corajoso, Mauro Santayana mostra a necessidade de uma indústria bélica no país.
(JB) - O governo da Presidente Dilma Roussef decidiu alterar as leis sobre a indústria bélica e editar normas para a política de defesa, que incentivam a produção nacional de armas e o desenvolvimento de processos tecnológicos autônomos. Os nossos leitores habituais devem recordar-se de matéria sobre o assunto que publicamos neste mesmo Jornal do Brasil sobre o tema em 16 de agosto do ano passado. No texto, citávamos a dramática advertência do general Maynard Santa Rosa: em caso de agressão estrangeira, só dispomos de munição para uma hora de resistência. Um dos maiores erros dos governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, se não o mais grave, foi desarmar o Brasil. A doutrina FHC se baseava no falso conformismo de que jamais poderíamos nos defender do poderio bélico norte-americano e seria melhor transformar as forças armadas em corpos policiais destinados ao combate ao tráfico de drogas, sob o comando continental dos Estados Unidos, of course.
Todos os povos que se prezam são obrigados a defender-se dos eventuais inimigos. As nações se formam dentro de espaços naturais, em que devem viver em paz, preocupando-se com seus recursos, com a felicidade e com a defesa de sua liberdade. À soma de espaço e liberdade chamamos soberania, no léxico político moderno. Nas guerras, sempre indesejadas, as nações agredidas, qualquer que seja a sua capacidade bélica, são eticamente obrigadas a resistir.
Churchill, ao opor-se à capitulação de Chamberlain, ponderou que uma nação , quando se defende com a coragem do patriotismo, pode ser derrotada sem perder a honra, mas, ao capitular sem luta, perde o respeito do inimigo e das nações neutras.
O vencedor trata  com natural desprezo os que se entregam sem luta, ainda que em nome da paz. É essa a diferença entre os soviéticos, que perderam rios de sangue na Segunda Guerra Mundial, e puderam hastear sua bandeira no Reichstag, enquanto Hitler se matava - e os franceses de Pétain e Laval, que se entregaram quase sem luta e colaboraram com a repressão nazista dentro de seu próprio território. Ainda bem que, no caso da França, os maquisards salvaram a face de seu povo, na dura resistência contra os ocupantes.
O Brasil é um dos poucos países do mundo capazes de viver com autonomia dentro de suas próprias fronteiras, o que o dispensa da sedução de conquista de espaços alheios. É um dos maiores do mundo em extensão territorial contínua, em que se fala a mesma língua, com invejável insolação e imensos depósitos de água potável. E exatamente por isso é obrigado a manter forças armadas capazes de dissuadir os eventuais cobiçosos.
A experiência continental nos adverte de que não podemos manter alinhamentos internacionais automáticos. Não cabe discutir aqui se a Argentina agiu bem, ao tentar recuperar, pela força, o que pela força perdera, ou seja, a soberania sobre as Malvinas. O fato é que Washington não interveio em favor da paz: colocou-se inteiramente ao lado de Mme. Thatcher, sem ir mais fundo na discussão da soberania argentina, reconhecida por todos os seus vizinhos da América do Sul.
A nova doutrina brasileira busca estabelecer parcerias não só comerciais, mas estratégicas. E, para que não ocorra a pressão sobre os nossos parceiros, é melhor negociar com países emergentes – no caso, os BRICS.
Cometemos um erro estratégico ao assinar o famoso Tratado de Não Proliferação Nuclear. A decisão de não usar determinado instrumento bélico não nos deve tolher o processo de sua fabricação e a técnica de seu emprego.
Armemo-nos todos, ou nos desarmemos todos, sem exceção.

França afunda no obscurantismo

 

Publicado na Revista Mirante


Fotos de Leneide Duarte-Plon

Sempre interessante e interessada pelos assuntos humanos, Leneide Duarte-Plon envia de Paris, em seu blog, triste informação sobre a onda sectária de tipo fascista que avança naquele país – onde, não há muito tempo, o mundo buscava inspiração para a abertura do espírito e a civilização.

O Islã é compatível com a République ?*

Na França, essa pergunta é feita, em geral, para provar que não. Esse slogan do Front National, o partido de Jean-Marie Le Pen, (L’Islam n’est pas compatible avec la République) começa a ser endossado por intelectuais que, a pretexto de defenderem a laicidade, o princípio que separa a Igreja do Estado, cada dia mais se desinibem no ataque à religião muçulmana.
A guerra contra o véu islâmico, começada nos anos 90, continua. A caça às bruxas continua. As mulheres são proibidas de usá-lo em todo o espaço público (escolas, creches, hospitais, administrações públicas, polícia) depois de já serem proibidas de usá-lo nas fotos de identidade.
Recebi de um amigo do Brasil uma montagem audiovisual de fotos de monumentos parisienses acompanhadas de um texto « informativo ». Ele tem um único objetivo: difundir o medo estigmatizando a cultura e a religião muçulmanas.
Esses textos veiculam mentiras e meias verdades. Pura propaganda anti-Islã, que no jogo político atual tomou o lugar da URSS e do comunismo como o bicho-papão que precisa ser diabolizado pela “civilização cristã-ocidental”. O fundo musical não podia ser mais cafona: Mireille Mathieu canta « La Marseillaise ». Mireille Mathieu é um símbolo de cafonice na França.
Com o fim do comunismo, é preciso fabricar um inimigo para justificar as guerras, a fabricação e a venda de armas. Não sei a origem do texto, mas todas as informações se referem à França, como se o país estivesse à beira de uma invasão muçulmana. O título da peça é « Um perigo para o mundo livre ».
Há uma islamofobia na França, mesmo se o discurso racista é controlado por lei que pune “incitação ao ódio racial”. Por isso, ele se exprime veladamente, nesse  clima de difusão do medo, incentivado pela extrema direita.
Os muçulmanos franceses são a segunda religião na França, mas não têm e nunca terão poder de modificar as leis e os costumes, como insinua o texto de propaganda. Eles se chocam à realidade francesa e, mal ou bem, tentam se integrar nessa cultura. Um exemplo é o véu, alvo de leis e proibições em todas as repartições públicas do país.
Tenho horror ao Islã fundamentalista no qual a mulher vale menos que zero, a mulher tem um lugar subalterno em relação ao homem. Mas o judaísmo, não somente o ortodoxo-fundamentalista, não fica atrás e ninguém ousa criticar.
Por quê? Primeiramente, por serem os judeus menos numerosos e terem experiência milenar de  integração e assimilação nas diferentes sociedades cristãs. Depois, porque os fundamentalistas, em geral, emigram para Israel, para poderem exercer a ortodoxia deles em paz. E, por último, porque ninguém quer ser acusado de antissemitismo, o pior crime numa França que carrega a culpa histórica pela deportação dos judeus e colaboração com os nazistas.
Procuro ver os filmes israelenses que passam em Paris e alguns mostram os ortodoxos no dia-a-dia. A concepção de mundo deles é tão abominável quanto a dos muculmanos ortodoxos: as mulheres têm um único direito, calar-se e viver à sombra dos machos, de um código religioso estreito. A misoginia da religião judaica não fica nada a dever à da religião muçulmana.
O título “Um perigo para o mundo livre” me faz lembrar os slogans anti-comunistas de outros tempos. Quem fabrica os perigos (antes era o “perigo vermelho”) quer se mostrar como o caminho de combatê-los.
Na França, o racismo anti-Islã é o principal “fonds de commerce” do partido de extrema direita Front National. Ele tenta convencer os ingênuos de que França corre graves riscos e somente o FN conseguirá impedir a destruição da « identidade francesa ». O pior é que 33% dos franceses se dizem próximos das teses do FN.
Fonte: http://bilhetesdeparis.blogspot.fr/

Fidel Castro relata os acontecimentos que geraram o conflito na Coreia

Reflexões de Fidel Castro Ruiz, publicadas em 2008, relata o processo histórico gerador do conflito entre as duas Coreias e a luta dos norte-coreanos, contra a ocupação japonesa, o envolvimento dos Estados Unidos, da União Soviética e da China. As reflexões de Fidel, apeasr de escritas em 2008, conservam toda atualidade e representam uma referência incontestável do conflito na península. Para quem não conhece os motivos do conflito, esta é uma oportunidade em conhcê-lo.


Embaixada da Coreia do Norte em Cuba

Publicado no Blog de Atilio Boren, PCB e Solidários
As duas Coreias (parte I)
"A nação coreana, com sua peculiar cultura que diferentemente de seus vizinhos chineses e japoneses, existe há três mil anos. São características típicas das sociedades dessa região asiática, incluídas a chinesa, a vietnamita e outras. Nada parecido se observa nas culturas ocidentais, algumas com menos de 250 anos.
Os japoneses tinham arrebatado da China na guerra de 1894 o controle que exercia sobre a dinastia coreana e transformaram seu território numa colônia do Japão. Por acordo entre os Estados Unidos e as autoridades coreanas, o protestantismo foi introduzido nesse país no ano 1892. Por outro lado, o catolicismo tinha penetrado igualmente nesse século através das missões. Calcula-se que atualmente na Coréia do Sul ao redor de 25 por cento da população é cristã e um número similar é budista. A filosofia de Confúcio exerceu grande influência no espírito dos coreanos, que não se caracterizam pelas práticas fanáticas da religião.
Duas importantes figuras ocuparam os primeiros planos da vida política dessa nação no século 20. Syngman Rhee, que nasce em março de 1875, e Kim Il Sung 37 anos depois, em abril de 1912. Ambas as personalidades, de diferente origem social, enfrentaram-se a partir de circunstâncias históricas alheias a elas.
Os cristãos se opunham ao sistema colonial japonês, entre eles Syngman Rhee, que era praticante ativo do protestantismo. A Coréia mudou de status: o Japão anexou seu território em 1910. Anos mais tarde, em 1919, Rhee foi nomeado Presidente do Governo Provisório no exílio, com sede em Xangai, China. Nunca empregou as armas contra os invasores. A Liga das Nações, em Genebra, não lhe prestou atenção.
O império japonês foi brutalmente repressivo com a população da Coreia. Os patriotas resistiram com as armas à política colonialista do Japão e conseguiram libertar uma pequena zona nos terrenos montanhosos do Norte, durante os últimos anos da década de 1890.
Kim Il Sung, nascido nas proximidades de Pyongyang, aos 18 anos, incorporou-se às guerrilhas comunistas coreanas que lutavam contra os japoneses. Em sua ativa vida revolucionária atingiu a chefatura política e militar dos combatentes anti-japoneses do Norte da Coréia, quando apenas tinha 33 anos de idade.
Durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos decidiram o destino de Coréia no pós-guerra. Entraram na contenda quando foram atacados por uma criação sua, o Império do Sol Nascente, cujas herméticas portas feudais foram abertas por Comodoro Perry na primeira metade do século 19 apontando com seus canhões ao estranho país asiático que se negava a comercializar com a América do Norte.
O avantajado discípulo se transformou mais tarde em um poderoso rival, como já expliquei em outra ocasião. O Japão golpeou sucessivamente décadas mais tarde a China e a Rússia, apoderando-se adicionalmente da Coréia. Não obstante, foi astuto aliado dos vencedores na Primeira Guerra Mundial à custa da China. Acumulou forças e, transformado em uma versão asiática do nazifascismo, tentou ocupar o território da China em 1937 e atacou aos Estados Unidos em dezembro de 1941; levou a guerra ao Sudeste Asiático e à Oceania.
Os domínios coloniais da Grã-Bretanha, França, Holanda e Portugal na região estavam condenados a desaparecer e os Estados Unidos surgiam como a potência mais poderosa do planeta, resistida apenas pela União Soviética, então destruída pela Segunda Guerra Mundial e pelas inúmeras perdas materiais e humanas que lhe ocasionou o ataque nazista. A Revolução chinesa estava por concluir em 1945, quando a matança mundial cessou. O combate unitário anti-japonês ocupava então suas energias. Mao, Ho Chi Minh, Gandhi, Sukarno e outros líderes prosseguiram depois com sua luta contra a restauração da velha ordem mundial que era já insustentável.
Truman lançou contra duas cidades civis japonesas a bomba atômica, arma nova terrivelmente destrutiva de cuja existência, como se explicou, não havia informado ao aliado soviético, o país que mais contribuiu à destruição do fascismo. Nada justificava o genocídio cometido, nem sequer o fato de que a tenaz resistência japonesa tinha custado a vida de quase 15 mil soldados norte-americanos na ilha japonesa de Okinawa. Já o Japão estava derrotado e tal arma, lançada contra um objetivo militar, teria tido mais cedo ou mais tarde o mesmo efeito desmoralizador no militarismo japonês sem novas baixas para os soldados dos Estados Unidos. Foi um ato inqualificável de terror.
Os soldados soviéticos avançavam sobre a região da Manchúria e do Norte da Coréia, tal como o haviam prometido ao cessarem os combates na Europa. Os aliados tinham definido previamente até que ponto chegaria cada força. Na metade da Coreia estaria a linha divisória, eqüidistante entre o rio Yalu e o Sul da península. 
O governo norte-americano negociou com os japoneses as normas que regeriam a rendição das tropas em seu próprio território. O Japão seria ocupado pelos Estados Unidos. Na Coréia, anexada ao Japão, permanecia uma grande força do poderoso exército japonês. No Sul do Paralelo 38, limite divisório estabelecido, prevaleceriam os interesses dos Estados Unidos. Syngman Rhee, reincorporado a essa parte do território pelo governo dos Estados Unidos, foi o líder ao que apoiou, com a cooperação aberta dos japoneses. Ganhou assim as concorridas eleições de 1948. Os soldados do Exército Soviético haviam se retirado da Coreia do Norte nesse ano.
Em 25 de junho de 1950 explodiu a guerra no país. Ainda se discute quem deu o primeiro disparo, se os combatentes do Norte ou os soldados norte-americanos que estavam de guarda junto aos soldados recrutados por Rhee. A discussão carece de sentido se for analisada do ângulo coreano. Os combatentes de Kim Il Sung lutaram contra os japoneses pela libertação de toda a Coréia. Suas forças avançaram incontidas até as proximidades do extremo Sul, onde os ianques se defendiam com o apoio em massa de seus aviões de ataque. Seul e outras cidades tinham sido ocupadas. McArthur, chefe das forças norte-americanas do Pacífico, decidiu ordenar um desembarque da infantaria de Marinha por Incheon, na retaguarda das forças do Norte, que estas não podiam já contra-arrestar. 
Pyongyang caiu nas mãos das forças ianques, precedidas por devastadores ataques aéreos. Isso impulsionou a idéia por parte do comando militar norte-americano no Pacífico de ocupar toda a Coréia, já que o Exército de Libertação Popular da China, dirigido por Mao Tsé-Tung, tinha infligido uma derrota esmagadora às forças pró-ianques de Chiang Kai-shek, abastecidas e apoiadas pelos Estados Unidos. Todo o território continental e marítimo desse grande país tinha sido recuperado, com exceção de Taipei e algumas outras pequenas ilhas próximas onde se refugiaram as forças do Kuomintang, transportadas por naves da Sexta Frota.
A história do ocorrido então se conhece bem hoje. Não podemos esquecer que Boris Yeltsin entregou a Washington, entre outras coisas, os arquivos da União Soviética.
O que fizeram os Estados Unidos quando explodiu o conflito praticamente inevitável sob as premissas criadas na Coréia? Apresentou a parte norte desse país como agressora. O Conselho de Segurança da recém criada Organização das Nações Unidas, promovida pelas potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial, aprovou a resolução sem que um dos cinco membros pudesse vetá-la. 
Nesses precisos meses, a URSS havia se manifestado desconforme com a exclusão da China no Conselho de Segurança, onde os Estados Unidos reconheciam Chiang Kai-shek, com menos de 0,3 por cento do território nacional e menos de 2 por cento da população, como membro do Conselho de Segurança com direito ao veto. Tal arbitrariedade conduziu à ausência do delegado russo, em conseqüência do qual se produziu o acordo desse Conselho dando à guerra o caráter de uma ação militar da ONU contra o suposto agressor: a República Popular da Coreia. 
A China, alheia por completo ao conflito, que afetava sua luta inconclusa pela libertação total do país, viu pairar a ameaça direta contra seu próprio território, o que era inaceitável para sua segurança. Segundo dados publicados, enviou ao premiê Zhou Enlai para Moscou, para expressar a Stalin seu ponto de vista sobre o inadmissível que era a presença de forças da ONU sob o comando dos Estados Unidos nas ribeiras do rio Yalu, que delimita a fronteira da Coréia com a China, e lhe solicitar a cooperação soviética. Não existiam então contradições profundas entre os dois gigantes socialistas.
O contragolpe chinês afirma-se que estava planejado para 13 de outubro e Mao o postergou para o dia 19, esperando a resposta soviética. Era o máximo que podia estendê-lo.
Penso em concluir esta reflexão na próxima sexta-feira. É um tema complexo e trabalhoso, que demanda cuidado especial e os dados mais precisos possíveis. São fatos históricos que devem ser conhecidos e recordados".
Fidel Castro Ruz, Havana, 22 de julho de 2008
As duas Coreias (parte II)
''Em 19 de outubro de 1950 mais de 400 mil combatentes voluntários chineses, cumprindo as instruções de Mao Tsé-Tung, cruzaram o Yalu e foram ao encontro das tropas dos Estados Unidos que avançavam para a fronteira chinesa. As unidades norte-americanas, surpreendidas pela enérgica ação do país que tinham subestimado, viram-se obrigadas a retroceder até as proximidades da costa sul, devido ao empurre das forças combinadas de chineses e coreanos do Norte. Stalin, que era sumamente cauteloso, prestou uma cooperação muito menor que a esperada por Mao, ainda que valiosa, mediante o envio de aviões MiG-15 com pilotos soviéticos, numa frente limitada de 98 quilômetros, que na etapa inicial protegeram às forças de terra em seu intrépido avanço. Pyongyang foi de novo recuperada e Seul ocupada outra vez, desafiando o incessante ataque da força aérea dos Estados Unidos, a mais poderosa que já existiu.
MacArthur estava ansioso para atacar a China com o emprego das armas atômicas. Demandou seu uso depois da humilhante derrota sofrida. O presidente Truman viu-se obrigado a substituí-lo do comando e nomear ao general Matthews Ridgway como chefe das forças de ar, mar e terra dos Estados Unidos no cenário de operações. Na aventura imperialista da Coréia participaram, junto aos Estados Unidos, o Reino Unido, França, Países Baixos, Bélgica, Luxemburgo, Grécia, Canadá, Turquia, Etiópia, África do Sul, Filipinas, Austrália, Nova Zelândia, Tailândia e Colômbia. Este país foi o único participante pela América Latina, sob o governo unitário do conservador Laureano Gómez, responsável por matanças em massa de camponeses. Com ela, como se viu, participaram a Etiópia de Haile Selassie, onde ainda existia a escravidão, e a África do Sul governada pelos racistas brancos.
Fazia apenas cinco anos que a matança mundial iniciada em setembro de 1939 havia terminado, em agosto de 1945. Após sangrentos combates no território coreano, o Paralelo 38 voltou a ser o limite entre o Norte e o Sul. Calcula-se que morreram nessa guerra cerca de dois milhões de coreanos do Norte, entre meio milhão ou um milhão de chineses e mais de um milhão de soldados aliados. Por parte dos Estados Unidos perderam a vida ao redor de 44 mil soldados; não poucos deles eram nascidos em Porto Rico ou outros países latino-americanos, recrutados para participar em uma guerra à que os levou a condição de imigrantes pobres.
O Japão obteve grandes vantagens dessa contenda; em um ano, a manufatura cresceu 50%, e em dois recuperou a produção que tinha antes da guerra. Não mudou, no entanto, a percepção dos genocídios cometidos pelas tropas imperiais na China e Coréia. Os governos do Japão renderam culto aos atos genocidas de seus soldados, que na China tinham violentado a dezenas de milhares de mulheres e assassinado brutalmente a centenas de milhares de pessoas, como já se explicou numa reflexão. Sumamente trabalhadores e tenazes, os japoneses transformaram seu país, desprovido de petróleo e outras matérias primas importantes, na segunda potência econômica do mundo.
O PIB do Japão, medido em termos capitalistas — ainda que os dados variam segundo as fontes ocidentais —, ascende hoje a mais de 4,5 trilhões de dólares, e suas reservas em divisas atingem mais de um trilhão. É ainda o dobro do PIB da China, 2,2 trilhões, ainda que esta possua 50% a mais de reservas em moeda conversível que esse país. O PIB dos Estados Unidos, 12,4 trilhões, com 34,6 vezes mais território e 2,3 vezes mais população, é apenas três vezes maior que o do Japão. Seu governo é hoje um dos principais aliados do imperialismo, quando este se encontra ameaçado pela recessão econômica e as armas sofisticadas da superpotência se esgrimem contra a segurança da espécie humana.
São lições inapagáveis da história.
A guerra, por sua vez, afetou consideravelmente a China. Truman deu ordens à 6.ª Frota de impedir o desembarque das forças revolucionárias chinesas que culminariam a libertação total do país com a recuperação de 0,3 por cento de seu território, que havia sido ocupado pelo resto das forças pró ianques de Chiang Kai-shek que para ali fugiram.
As relações sino-soviéticas se deterioraram depois, após a morte de Stalin, em março de 1953. O movimento revolucionário dividiu-se em quase todos os lugares. O apelo dramático de Ho Chi Minh deixou registro do estrago ocasionado, e o imperialismo, com seu enorme aparelho midiático, atiçou o fogo do extremismo dos falsos teóricos revolucionários, um tema no qual os órgãos de inteligência dos Estados Unidos se transformaram em especialistas.
À Coréia do Norte lhe correspondeu, na arbitrária divisão, a parte mais acidentada do país. Cada grama de alimento tinha que ser obtida a custa de suor e sacrifício. De Pyongyang, a capital, não restou pedra sobre pedra. Um número elevado de feridos e mutilados de guerra tinha que ser atendido. Estavam bloqueados e sem recursos. A URSS e os demais Estados do campo socialista se reconstruíam.
Quando cheguei em 7 de março de 1986 à República Popular Democrática da Coréia, quase 33 anos após a destruição deixada pela guerra, era difícil acreditar o que ali havia acontecido. Aquele povo heróico tinha construído uma infinidade de obras: grandes e pequenas represas e canais para acumular água, produzir eletricidade, abastecer cidades e regar os campos; termoelétricas, importantes indústrias mecânicas e de outros ramos, muitas delas debaixo da terra, encravadas nas profundidades das rochas a base de trabalho duro e metódico. 
Por falta de cobre e alumínio, viram-se obrigados a utilizar inclusive ferro em linhas de transmissão devoradoras de energia elétrica, que em parte procedia da hulha. A capital e outras cidades arrasadas foram construídas metro a metro. Calculei milhões de moradias novas em áreas urbanas e rurais e dezenas de milhares de instalações de serviços de todo o tipo. Infinitas horas de trabalho estavam transformadas em pedra, cimento, aço, madeira, produtos sintéticos e equipamentos. As plantações que pude observar, onde quer que tenha ido, pareciam jardins. Um povo bem vestido, organizado e entusiasmado estava em todos os lugares, recebendo ao visitante. Merecia a cooperação e a paz.
Não houve tema que não fosse discutido com meu ilustre anfitrião Kim Il Sung. Não o esquecerei.
A Coréia ficou dividida em duas partes por uma linha imaginária. O Sul viveu uma experiência diferente. Era a parte mais povoada e sofreu menos destruição naquela guerra. A presença de uma enorme força militar estrangeira requeria o fornecimento de produtos locais manufaturados e outros, que iam desde o artesanato até as frutas e vegetais frescos, além dos serviços. Os gastos militares dos aliados eram enormes. O mesmo ocorreu quando os Estados Unidos decidiu manter indefinidamente uma grande força militar. 
As multinacionais do Ocidente e do Japão investiram nos anos da Guerra Fria quantias consideráveis, extraindo riquezas sem limites do suor dos sul-coreanos, um povo igualmente trabalhador e abnegado como seus irmãos do Norte. Os grandes mercados do mundo estiveram abertos aos seus produtos. Não estavam bloqueados. Hoje o país atinge elevados níveis de tecnologia e produtividade. Sofreu as crises econômicas do Ocidente, que permitiram a aquisição de muitas empresas sul-coreanas pelas transnacionais. O caráter austero de seu povo permitiu ao Estado a acumulação de importantes reservas em divisas. Hoje suporta a depressão econômica dos Estados Unidos, em especial os elevados preços de combustíveis e alimentos, e as pressões inflacionárias derivadas de ambos.
O PIB da Coréia do Sul, 787 bilhões 600 milhões de dólares, assim como o do Brasil (796 bilhões) e México (768 bilhões), ambos com abundantes recursos de hidrocarbonetos e populações incomparavelmente maiores. O imperialismo impôs às mencionadas nações seu sistema. Dois ficaram para trás; a outra avançou bem mais.
Da Coréia do Sul mal emigram ao Ocidente; do México, o fazem em massa para o atual território dos Estados Unidos; do Brasil, América do Sul e América Central, a todos os lugares, atraídos pela necessidade de emprego e pela propaganda consumista. Agora são retribuídos com normas rigorosas e depreciativas.
A posição de princípios sobre as armas nucleares subscrita por Cuba no Movimento de Países Não Alinhados, ratificada na Conferência Cúpula de Havana em agosto de 2006, é conhecida.
Saudei pela primeira vez ao atual líder da República Popular Democrática da Coréia, Kim Jong Il, quando cheguei ao aeroporto de Pyongyang e ele estava discretamente situado a um lado do tapete vermelho próximo ao seu pai. Cuba mantém com seu governo excelentes relações.
Ao desaparecer a URSS e o campo socialista, a República Popular Democrática da Coreia perdeu importantes mercados e fontes de fornecimentos de petróleo, matérias primas e equipamentos. Assim como para nós, as conseqüências foram muito duras. O progresso atingido com grandes sacrifícios viu-se ameaçado. Apesar disso, mostraram a capacidade de produzir a arma nuclear.
Quando se aconteceu ao redor de um ano o ensaio pertinente, transmitimos ao Governo da Coréia do Norte nossos pontos de vista sobre o estrago que isso poderia ocasionar aos países pobres do Terceiro Mundo que travavam uma luta desigual e difícil contra os planos do imperialismo em uma hora decisiva para o mundo. Talvez não fosse necessário fazê-lo. Kim Jong Il, já chegado a esse ponto, havia decidido de antemão o que devia fazer, tomando em conta os fatores geográficos e estratégicos da região.
Satisfaz-nos a declaração da Coréia do Norte sobre a disposição de suspender seu programa de armas nucleares. Isto não tem nada que ver com os crimes e chantagens de Bush, que agora se gaba da declaração coreana como sucesso de sua política de genocídio. O gesto da Coréia do Norte não era para o governo dos Estados Unidos, ante o qual não cedeu jamais, senão para a China, país vizinho e amigo, cuja segurança e desenvolvimento é vital para os dois Estados.
Aos países do Terceiro Mundo interessa-lhes a amizade e cooperação entre a China e ambas as partes da Coréia, cuja união não tem que ser necessariamente uma a custa da outra, como ocorreu na Alemanha, hoje aliada dos Estados Unidos na OTAN. Passo a passo, sem pressa, mas sem trégua, como corresponde a sua cultura e a sua história, continuarão sendo tecidos os laços que unirão às duas Coreias. Com a do Sul desenvolvemos progressivamente nossos vínculos; com a do Norte existiram sempre e os continuaremos fortalecendo.''
Fidel Castro Ruz, Havana, 24 de julho de 2008

Golpe de 64: Forças reacionárias perdem a batalha final pela memória no Brasil

Publicado no Correio do Brasil

Os cartazes distribuídos pelas forças de repressão trazem as fotos dos atuais heróis brasileiros na luta contra a ditadura militar de 64
 

As forças reacionárias que patrocinaram a queda do governo democrático de João Goulart, em 1964, e a ditadura nas duas décadas seguintes perderam, nestas últimas 24 horas, a batalha decisiva pela memória popular no Brasil e, com isso, a trincheira mais importante da ultradireita junto à opinião pública. Desarticulados por uma série de vitórias, nas urnas, das frentes libertárias que conduziram a política nacional na última década, os integrantes da extrema-direita vêem, agora, os dias 31 de março e 1º de abril deixarem de ser a data da “revolução” para se transformar no marco do golpe militar. Enquanto o assunto ficou restrito aos rodapés ou, simplesmente, desapareceu do noticiário nos meios de comunicação conservadores que, na época, não apenas apoiaram como sustentaram o regime ditatorial brasileiro, por 20 anos, os trabalhos da Comissão da Verdade ganham destaque na mídia independente. Instituído no ano passado, o colegiado presta aos brasileiros a tarefa de redesenhar a História, com dados que repercutiram ao longo do dia, aqui no país e no exterior.

A lembrança dos Anos de Chumbo ocupou os principais sites e perfis das redes sociais, nesta segunda-feira. Em um artigo publicado no Blog da Cidadania, o advogado Eduardo Guimarães questiona: “Onde estão as famílias das vítimas dos ‘terroristas’ a bradarem contra os assassinatos ou torturas de país, mães, irmãos, amigos? Por que, como as vítimas da ditadura, não se organizam e levam fotos de entes queridos que os que tentavam devolver a democracia ao Brasil teriam exterminado ou torturado?”

“Claro que, sim, houve alvos militares. E é claro que alguns soldados da ditadura tombaram em combate com “terroristas”. Mas nada que sequer se aproxime dos meninos e meninas que aquele regime hediondo sequestrou, seviciou e exterminou. Hoje, 1º de abril de 2013, faz 49 anos que o inferno foi desencadeado no país. Sobreviventes que enfrentaram aqueles psicopatas, assassinos, estupradores, ladrões, pervertidos que colocaram este país de joelhos, chegaram ao poder. Aliás, o Brasil é governado por uma heroína que, altiva, enfrentou aqueles demônios”, acrescentou o blogueiro, referindo-se à presidenta da República, Dilma Rousseff.

Ainda nesta segunda-feira, a agência alemã de notícias Deutsche Welle (DW) publicou extensa matéria sobre o atraso provocado por sucessivos governos ainda dominados por setores reacionários da sociedade brasileira, os mesmos que ainda controlam os maiores meios de comunicação do país e, em meio à crise internacional, sobrevivem graças ao pesado e paradoxal subsídio que ainda verte do Palácio do Planalto. Segundo a DW, “ao contrário de outros países sul-americanos, até hoje o Brasil não se ocupou devidamente dos crimes do regime 1964-1985. Para vítimas, medidas não vão longe o suficiente”.

Ainda segundo a reportagem, que segue publicada em alemão e nos demais 30 idiomas em que a agência distribui seu noticiário, o Brasil, por meio da Comissão da Verdade, acrescenta mais um passo decisivo “na recuperação de sua memória política, em especial na investigação do período ditatorial mais recente”. Nesta segunda-feira, entrou no ar o site do Arquivo Público do Estado de São Paulo, permitindo, pela primeira vez, acessar cerca de 1 milhão de documentos relativos à ditadura militar de 1964-1985. Os arquivos revelam quem foi perseguido e espionado pelo regime. Já os nomes dos responsáveis, no entanto, foram omitidos. Os documentos são originários do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops), órgão importante no aparato repressivo dos militares, e foram guardados pela Polícia Federal, antes de serem confiados ao estado de São Paulo, em 1990.

Vera Sílvia Magalhães, torturada barbaramente durante a ditadura, é amparada por Cid Benjamin ao deixar o cárcere rumo ao exílio


Memória fundamental

No site do arquivo, Lauro Ávila Pereira, diretor do Departamento de Preservação e Difusão do Acervo, avalia:

– Esta iniciativa pode ajudar a identificação daqueles agentes públicos que, durante a época da ditadura, cometeram violações dos Direitos Humanos. Temos que lembrar que o Brasil é um dos poucos países da América do Sul onde esse tipo de crime jamais foi punido – disse.

Pereira ressalta, ainda, a importância didática do acervo online, que pode ser utilizado pelos professores em sala de aula. A disponibilização resulta da parceria entre a Associação dos Amigos do Arquivo Público de São Paulo e o projeto Marcas da Memória da Comissão de Anistia, do Ministério da Justiça, com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A parcela agora acessível, em torno de 1 milhão de fichas, prontuários e dossiês, compõe cerca de 10% do acervo total. Sua seleção e digitalização exigiram mais de três anos, e o processo de digitalização prossegue até 2014.

Um projeto análogo, e já em pleno funcionamento, é o website Documentos Revelados, que contém milhares de testemunhos históricos relativos ao último período ditatorial brasileiro. Disponibilizados em formatos PDF e JPEG, os arquivos contemplam desde relatórios policiais, depoimentos, análises periciais e processos judiciais, até cartas e fotografias – além de jornais e panfletos produzidos por organizações que resistiram ao regime militar. O editor do site, Aluízio Palmar, que se apresenta como “um sobrevivente”, baseou-se sobretudo em arquivos estaduais.

Hora da verdade

Ao contrário de outros países sul-americanos, como o Chile ou a Argentina, até hoje o Brasil não definiu devidamente os crimes da ditadura dos pontos de vista jurídico e legislativo. Somente em novembro de 2011 a presidenta Dilma instituiu a Comissão da Verdade, com o objetivo de apurar violações dos direitos humanos ocorridos entre 1946 e 1988. Na ocasião, ela sancionou também a Lei de Acesso a Informações Públicas, acabando com o sigilo eterno de documentos. Segundo dados oficiais, 480 pessoas foram assassinadas por motivos políticos durante a ditadura no Brasil. Mais de 100 mil foram presas, e o número das vítimas de tortura é calculado em 50 mil, no mínimo. O destino de 160 desaparecidos segue não esclarecido. Para muitas das vítimas, a elaboração do período militar precisa ir mais longe. Elas exigem a revogação da Lei de Anistia de 1979, que garante impunidade aos que atuaram como torturadores entre 1964 e 1985.


O deputado Romário (PSB-RJ) lidera as investigações contra a direção da CBF


Pela manhã, o deputado Romário (PSB-RJ), em visita à sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) com Ivo Herzog, filho de Vladimir Herzog, morto em prisão durante a ditadura militar, entregou uma petição pública pela saída do presidente da instituição, José Maria Marin, com 54 mil assinaturas, recolhidas desde o dia 19 de fevereiro. Romário lidera os esforços contra Marin na titularidade da Presidência da Comissão de Turismo e Desporto da Câmara. Desta vez, ele se uniu a Ivo Herzog, que o acompanha com a missão de enviar cópias do documento à direção dos 20 principais clubes que participam do Campeonato Brasileiro e a todas as federações estaduais de futebol. Pai de Ivo, Herzog, foi assassinado em 1975, enquanto estava detido nas dependências do Destacamento de Operações de Informações do Centro de Informações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo. No texto em que justifica a petição, Ivo afirma que Marin ajudou a dar sustentação política à ditadura.

No dia 14 de março, Romário afirmou, no Plenário da Câmara que as suspeitas sobre o presidente da CBF são “graves e constrangedoras”, principalmente no momento em que o Brasil se prepara para receber a Copa do Mundo de 2014.

– Nós, atletas e ex-atletas, ficamos muito desconfortáveis com esse tipo de situação. Será que merecemos ter à frente do nosso esporte mais querido, mais popular, um esporte que orgulha o nosso povo, uma pessoa suspeita de envolvimento, ainda que indireto, com tortura, assassinato e a supressão da democracia? – deixou a questão no ar.