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quarta-feira, 8 de maio de 2013

Portugal: PCP pede união e luta contra a crise



 
Comunicado do Comité Central do PCP de 5 de Maio de 2013
O Comité Central do Partido Comunista Português, reunido a 5 de Maio de 2013, analisou aspectos da evolução da situação econômica e social - traduzidos no agravamento da recessão e na degradação da situação social - e da crise política e institucional decorrente da ação do governo que, à margem da lei e contra a Constituição, compromete o regular funcionamento das instituições perante a inteira cumplicidade do Presidente da República que age à revelia das suas responsabilidades e deveres constitucionais. O Comité Central debateu e definiu ainda as direções fundamentais da intervenção política do PCP, com vista à concretização da urgente demissão do governo, convocação de eleições, rejeição do Pacto de Agressão e derrota da política de direita, bem como da afirmação de uma política e um governo patrióticos e de esquerda. O Comité Central procedeu a uma avaliação da luta de massas e das medidas a adotar para o seu desenvolvimento, fixou as tarefas essenciais à preparação das eleições autárquicas e ao trabalho com vista ao reforço orgânico do PCP.
1. Dois anos de Pacto de Agressão: Um rumo de desastre econômico e social.

1. A subscrição do Pacto de Agressão por parte do PS, PSD e CDS e a sua execução estão a conduzir o País para o abismo econômico e social.
Tinha razão o PCP quando, em 5 de Abril de 2011, alertou para o rumo de desastre nacional a que a ilegítima decisão de acorrentar o País ao chamado programa de ajustamento assinado com a União Europeia, o FMI e o BCE conduziria.
Passados dois anos, o País está mergulhado numa espiral de austeridade e recessão econômica com consequências dramáticas nos planos econômico e social. Este é o resultado de um Pacto de Agressão e de uma política que, ao serviço da acumulação capitalista e dos lucros dos grupos monopolistas, concebida para aumentar a exploração dos trabalhadores e destruir direitos e conquistas sociais, está a empurrar o País para o empobrecimento, o declínio e a crescente dependência.
Dois anos em que todos os principais indicadores econômicos e sociais se agravaram: uma recessão acumulada de - 5,5% do PIB; um aumento em mais de 430 mil do número de desempregados que ultrapassam já 1 milhão e 400 mil; uma redução média dos salários reais de 9,2%; uma quebra de 10% no consumo das famílias; mais de 250 mil portugueses, na sua maioria jovens, obrigados a emigrar; uma dívida pública que, tendo aumentado neste período 48 mil milhões de euros, ascende ao valor recorde de 123,6% do PIB.
2. Desmentindo todas as infundadas previsões macro-económicas e promessas de retoma, a realidade nacional expõe com dramáticas consequências o resultado de uma política que não resolveu nenhum dos problemas do País e que se constitui como factor principal para o seu agravamento. Uma política e um governo a que é preciso pôr termo.
A tentativa ensaiada pelo governo de procurar apresentar como positiva a sétima avaliação daTroika (que em si mesma confirma um futuro com mais recessão, mais desemprego e menos perspectivas de saída para os problemas do País), constitui um exercício de despudorada mistificação da realidade e um insulto à inteligência dos portugueses, para procurar esconder as consequências do programa e justificar novas e mais graves medidas.
Sob a capa de uma chamada reforma do Estado e apresentando o Tribunal Constitucional e a Constituição da República como a causa dos problemas que a sua política vem acentuando, Passos Coelho em nome do governo PSD/CDS, anunciou a 3 de Maio um novo programa de terrorismo social para dar continuidade ao Pacto de Agressão. Novos roubos aos reformados, um novo assalto aos direitos dos trabalhadores, um passo mais na liquidação de direitos, novos e arrasadores cortes na saúde, na protecção social e na educação, um ataque aos militares e forças de segurança. Ao mesmo tempo que mantém, designadamente, milhares de milhões de euros para os juros da dívida, elevadas taxas de rendibilidade das PPP, rendas ilegítimas do sector de energia, ruinosos seguros de crédito (swaps) e a continuada cobertura dos prejuízos do BPN. Um programa que, refletindo a natureza do capitalismo e o agravamento da sua crise, atinge profundamente os interesses dos trabalhadores e do povo.
Um passo mais no caminho do desastre econômico e social, uma nova declaração de guerra aos trabalhadores, ao povo e ao País que o «Documento de Estratégia Orçamental, 2014-2016» já havia indiciado.
Um conjunto de medidas devastadoras - que o orçamento retificativo anunciado para este mês e os Orçamentos de Estado seguintes revelariam, a não ser interrompida esta política e a ação do governo, de forma ainda mais brutal - que não são dirigidas especificamente aos trabalhadores da Administração Pública e aos reformados. A devastação destas medidas atingirá toda a atividade econômica, a sobrevivência de milhares de empresas, a vida de milhões de famílias.
Em poucos dias a manobra de propaganda ensaiada pela voz do ministro da Economia com a apresentação da denominada «Estratégia para o Crescimento e Fomento Industrial - 2013/2020» foi desmascarada com a divulgação daquele que é o único programa que determina a ação do governo: o do aumento da exploração dos trabalhadores, do retrocesso social e da austeridade para a maioria do povo, e privilégios para o grande capital.
2. Um insustentável processo de declínio econômico, retrocesso social e abdicação nacional
1. Perante o caminho de desastre, governo e apoiantes da ingerência externa apresentaram, repetida e falsamente, o ano de 2013 como sendo de viragem e de recuperação. Há pouco mais de dois meses o País e o povo português ficaram a saber que os querem condenar ao prolongamento da agonia econômica e social por muitos anos.
A "reestruturação" do memorando e da dívida que o Governo defende, constituindo sem dúvida um sinal de reconhecimento pelo falhanço das medidas e condições do Pacto de Agressão na resposta ao objectivo invocado de correção dos desequilíbrios estruturais do País, não põe em causa as gravosas imposições e condicionantes do "memorando" de submissão e dependência, nem pretende romper com a espiral de austeridade e recessão e assegurar um processo sustentável de pagamento da componente legítima da dívida pública. Visam, bem pelo contrário, procurar manter a margem de manobra que sabem estar a perder para poderem prosseguir a concretização dos seus objetivos.
Cada "sucesso" anunciado pelo governo significa um passo mais na concretização do projeto de exploração, de declínio e de submissão. Cada avaliação da Troika é sinônimo de novas medidas de austeridade e de roubo nos salários, pensões de reforma, e outros rendimentos. O chamado alargamento das "maturidades", na prática mais prazo de pagamento sem alterações das condições dos juros e reavaliação dos montantes dos empréstimos que nestas condições servirá essencialmente os interesses dos credores (nomeadamente pelo aumento do volume dos juros a pagar) mas não os do País, é apenas a moeda de troca para justificar novas medidas de austeridade e um brutal ataque às funções sociais do Estado.
2. O compromisso com a Troika de mais um pacote de medidas visando um novo assalto aos salários e rendimentos dos trabalhadores e do povo revela um governo transformado num verdadeiro conselho de administração do grande capital, do FMI e da União Europeia e disposto a sacrificar os interesses nacionais e a vida dos portugueses aos interesses do grande capital nacional e transnacional. A carta de vassalagem de Passos Coelho aos credores internacionais não só desmente a cínica e intolerável operação contra a decisão do Tribunal Constitucional, em si mesma uma derrota do governo, como mostra que, desde há meses, o governo tem em vista amarrar o País a um novo resgate.
3. O Comité Central do PCP denuncia a posição da direção do PS que, para lá das afirmações de oposição ao governo, confirma que não quer afastar-se dos compromissos com o programa de agressão ao País, amarrado aos objetivos e opções da política de desastre nacional, vinculado aos interesses do grande capital e da estratégia de subordinação que a União Europeia quer impor a Portugal. As referências intermitentes à demissão do governo, que não correspondem a uma vontade política real, as reiteradas juras de comprometimento e cumprimento do "memorando"subscrito com a Troika enquanto fator de justificação para a sua disponibilidade para examinar com o governo novos compromissos nos projetos de exploração dos trabalhadores e no ataque a direitos e conquistas sociais, o silêncio sobre a reposição dos direitos laborais, dos rendimentos e apoios sociais roubados, os patéticos conselhos ao governo para mudar de política ou a critica à "insensibilidade" dos credores, a recusa de uma verdadeira renegociação da dívida e, mais em particular, o apelo do Secretário-Geral do PS, António José Seguro dirigido a "sociais-democratas" e "democratas-cristãos" para que se unam ao PS, expõem com clareza o objectivo de procurar, de novo, o poder absoluto para preservar o essencial da política de direita e do rumo de submissão e de desastre nacional que simula contestar.
4. Nada ilude a questão crucial que a realidade nacional revela: um rumo insustentável imposto a um País subjugado por uma dívida impagável. O que o País reclama perante o caos econômico e social a que o estão a conduzir é, não uma denominada "reestruturação do Memorando", mas sim a sua rejeição e a inadiável renegociação da dívida (nos seus juros, prazos e montantes) proposta pelo PCP e que outras forças, sectores e personalidades de diferentes áreas sociais e políticas crescentemente vêm reclamando.
3. Uma profunda crise política e institucional. Uma inquietante deriva antidemocrática
O País assiste a um verdadeiro assalto às instituições democráticas por parte de quem tem um projeto de entrega dos interesses nacionais, de colaboração com o programa de centralização e concentração de capitais, com a exploração e empobrecimento do povo português e de pilhagem dos recursos do País e dos rendimentos dos trabalhadores e do povo.
Os mais recentes desenvolvimentos põem em evidência um governo socialmente isolado e politicamente derrotado que, à revelia de promessas eleitorais, procura desesperadamente agarrar-se ao poder para prosseguir a destruição da vida dos portugueses e do País.
Um Governo, uma maioria e uma política fora da lei, em confronto com a Constituição da República, que estão a impor, na prática, um verdadeiro estado de excepção. Um governo, uma maioria e uma política que assumem na sua ação a Lei Fundamental do País como um obstáculo aos seus projetos  que vêem em outras instituições, como os Tribunais ou as magistraturas, alvos a abater, que suspendem princípios básicos do funcionamento da Administração e do Estado. Um governo, uma maioria e uma política que há muito puseram em causa o regular funcionamento das instituições perante o apoio ativo e cúmplice de um Presidente da República - ostensivamente exposto no seu discurso a 25 de Abril na Assembleia da República - que se confirma hoje aos olhos do País como parte do problema.
Ao contrário do que o governo PSD/CDS de Passos Coelho e Paulo Portas afirma não é nem a Constituição, nem os portugueses a quem manda emigrar que estão a mais no País. Quem está a mais é o governo, a maioria parlamentar e a sua política, o Pacto de Agressão e o Presidente da República que se assume como mero patrocinador de um governo ilegítimo.
Quando se inscreve como objectivo de uma política a subordinação da democracia e a liquidação prática de algumas das suas expressões ao projeto de dependência externa que têm em curso, não é só o futuro do País que está ameaçado, é o regime democrático e constitucional que está a ser posto em causa.
Nesta situação, o PCP sublinha a particular importância de as Forças Armadas e as forças de segurança, recusarem a sua instrumentalização ao serviço da ação inconstitucional do Governo, da maioria parlamentar que o apoia e do Presidente da República que o sustenta, assumindo o compromisso que têm de servir o Povo e o País no respeito pela Constituição.
Nesta situação é, ainda mais, aos trabalhadores e ao povo a quem cabe, com a sua luta, o exercício pleno dos seus direitos constitucionais, incluindo o direito de resistência, defender a democracia e as liberdades, afirmar o primado da Lei fundamental, garantir a independência nacional e projetar os valores de Abril no futuro de Portugal.
4. Demitir o governo, rejeitar o Pacto de Agressão, derrotar a política de direita - tarefa central de todos os democratas e patriotas
É urgente romper com o rumo de desastre nacional e derrotar a intensa campanha ideológica suportada em falsas inevitabilidades e em fantasiosas promessas de retoma.
É preciso optar entre a postura de aceitação de um País subjugado e ocupado a que governo, grande capital e promotores da política de direita querem condenar Portugal ou, pelo contrário, por uma atitude de afirmação de um País liberto e soberano a que aspiram todos os patriotas. Uma opção de clara rejeição de um programa para impor um rumo de retrocesso e de alienação do direito a um desenvolvimento soberano, centrado nos interesses nacionais e na garantia de condições de vida dignas para o nosso povo.
É preciso optar entre manter vivo um governo e uma política orientados para o domínio do grande capital sobre a economia e a vida nacional, como desejam o Presidente da República e os que querem ver perpetuada a política de direita ou, pelo contrário, uma política que inscreva como objetivos centrais a elevação das condições de vida dos trabalhadores e do povo e a afirmação dos seus direitos, inseparáveis da concretização de uma política e de um governo patrióticos e de esquerda. Uma opção que reclama e exige a urgente demissão do governo, um inequívoco compromisso de rejeição do Pacto de Agressão e de devolução e reposição dos direitos e rendimentos roubados nos últimos anos.
É preciso optar entre um governo e uma política subordinados aos "mercados" e especuladores, inebriados e determinados pelos elogios dos que vêem na ação do governo um instrumento eficaz de pilhagem dos recursos do País ou, pelo contrário, uma política que assegure os direitos dos trabalhadores e do povo. Uma opção que reclama a assunção pelo Estado português do comando das políticas econômicas e orçamentais.
A opção crucial que está colocada aos trabalhadores, a todos os patriotas e ao povo é a de libertar o País do rumo de submissão e afirmar o direito inalienável a um Portugal desenvolvido, independente e soberano. Uma opção que rejeite a política monetária e a utilização da moeda única, já não apenas como fator de liquidação continuada de atividades e estruturas produtivas, mas também como um instrumento de chantagem que, suportada na expropriação da soberania monetária, visa justificar o caminho de afundamento econômico  Uma opção que, exigindo desde logo, e na atual conjuntura, a rejeição do Pacto de Agressão, tem de inscrever como objectivo a ruptura com a política e orientações da União Europeia em matéria orçamental, monetária e econômica que visam perpetuar para lá do horizonte dos programas de assistência e da Troika os projetos de exploração, retrocesso, declínio e dependência que lhes estão associados.
O Comité Central do PCP sublinha que a inadiável demissão do governo e a convocação de eleições antecipadas é condição da maior importância para interromper o caminho de desastre a que o País está a ser conduzido. E reafirma que a solução dos problemas nacionais e a indispensável mudança de rumo é inseparável da rejeição do Pacto de Agressão, da ruptura com a política de direita e com o processo de integração capitalista europeu.
Alertando para a ilusão de falsas soluções e alternativas, o PCP chama a atenção que só uma política alternativa patriótica e de esquerda está em condições de dar resposta aos problemas do País e às aspirações do povo português.
Num quadro em que a demissão do governo e a convocação de eleições são um importante fator para interromper o atual rumo, o Comité Central do PCP reitera que a principal e mais decisiva condição para assegurar a ruptura com a política de direita reside na ampliação da corrente dos que reclamam a rejeição do Pacto de Agressão e no crescente isolamento dos que executam e sustentam o "memorando" subscrito com o FMI e a União Europeia.
O Comité Central do PCP dirige-se aos sectores e forças políticas e sociais, a todos os patriotas e democratas, a todas as personalidades que séria e convictamente estejam empenhadas em resgatar o País do declínio e da dependência e em devolver ao País e aos trabalhadores o que lhes foi roubado, para que, com base num conjunto de objetivos e orientações cruciais, unam os seus esforços, conhecimentos e disponibilidade para dar corpo a uma outra política.
5. Uma política e um governo patrióticos e de esquerda - imperativo nacional
A concretização de uma política patriótica e de esquerda, e de um governo que lhe dê expressão, assume-se como um imperativo nacional, indispensável para romper com o atual rumo de desastre e abrir perspectivas para dar resposta aos problemas do País. Uma política que, como o XIX Congresso do PCP definiu, seja capaz de libertar Portugal da dependência e da submissão, recuperar para o País o que é do País (os seus recursos, os seus sectores e empresas estratégicas, o seu direito ao crescimento e desenvolvimento econômico , devolver aos trabalhadores e ao povo os seus direitos, salários e rendimentos.
Uma política que, sem prejuízo de posicionamentos diferenciados, se baseie em seis opções fundamentais indispensáveis:
- primeira, a rejeição do Pacto de Agressão e a renegociação da dívida nos seus montantes, juros, prazos e condições de pagamento rejeitando a sua parte ilegítima, com a assunção imediata de uma moratória negociada ou unilateral e com redução do serviço da dívida para um nível compatível com o crescimento econômico e a melhoria das condições de vida;
- segunda, a defesa e o aumento da produção nacional, a recuperação para o Estado do sector financeiro e de outras empresas e sectores estratégicos indispensáveis ao apoio à economia, o aumento do investimento público e o fomento da procura interna;
- terceira, a valorização efetiva dos salários e pensões e o explícito compromisso de reposição de salários, rendimentos e direitos roubados, incluindo nas prestações sociais;
- quarta, a opção por uma política orçamental de combate ao despesismo, à despesa sumptuária, baseada numa componente fiscal de aumento da tributação dos dividendos e lucros do grande capital e de alívio dos trabalhadores e das pequenas e médias empresas, garantindo as verbas necessárias ao funcionamento eficaz do Estado e do investimento público;
- quinta, uma política de defesa e recuperação dos serviços públicos, em particular nas funções sociais do Estado (saúde, educação e segurança social), reforçando os seus meios humanos e materiais, como elemento essencial à concretização dos direitos do povo e ao desenvolvimento do País;
- sexta, a assunção de uma política soberana e a afirmação do primado dos interesses nacionais nas relações com a União Europeia, diversificando as relações económicas e financeiras e adoptando as medidas que preparem o País face a uma saída do Euro, seja por decisão do povo português, seja por desenvolvimentos da crise da União Europeia.
6. O futuro do País nas mãos dos trabalhadores e do povo.
1. A par da grave crise económica e social e da situação de comprometimento da soberania nacional desenvolve-se e acrescenta-se agora uma crise política e institucional.
O Presidente da República - a quem incumbiria assegurar o regular funcionamento das instituições - demite-se das suas responsabilidades e constitui-se como obstáculo a esse regular funcionamento.
Hoje, mais do que nunca, são os trabalhadores e o povo, com a sua luta e o desenvolvimento de um amplo movimento de massas, que acabarão por impor a demissão do governo, o respeito pela Constituição e a afirmação dos interesses nacionais capazes de assegurar o desenvolvimento independente e soberano de Portugal.
O Comité Central do PCP salienta o amplo e diversificado processo que se tem desenvolvido nos últimos meses de que se destacam as greves, paralisações e concentrações, a acção da CGTP-IN realizada durante os meses de Fevereiro e Março, a acção que no dia 2 de Março se desenvolveu por todo o País, a manifestação nacional da juventude trabalhadora de 27 de Março, a Marcha contra o Empobrecimento promovida pela CGTP-IN que iniciada a 6 de Abril percorreu o País e culminou em Lisboa a 13 de Abril, as comemorações do 39º aniversário da Revolução de Abril com uma grande dimensão e combatividade e a grande jornada do 1º de Maio promovida pela CGTP-IN.
No seguimento das lutas desenvolvidas, coloca-se a exigência do alargamento e da intensificação da luta dos trabalhadores e do povo português em torno da resolução dos seus problemas, da concretização das suas aspirações, de um Portugal com futuro.
Lutas reivindicativas da classe operária e de todos os trabalhadores, das classes e camadas antimonopolistas, do povo português. Luta pelo aumento dos salários incluindo o salário mínimo nacional, contra o aproveitamento pelo patronato das alterações ao Código do Trabalho para pôr em causa remunerações, pagamento de horas extraordinárias e trabalho aos feriados e dias de descanso semanal, pela defesa dos horários de trabalho, pela defesa dos direitos e melhoria das condições de vida e de trabalho, pela aplicação da contratação colectiva.
Lutas dos pequenos e médios agricultores como a promovida pela CNA no passado dia 17 de Abril, dos estudantes do ensino secundário e superior, dos pequenos e médios empresários, das populações em defesa das freguesias, do Poder Local e dos serviços públicos, dos inquilinos contra a lei das rendas, das comissões de utentes em defesa da água pública e contra a portagens, dos reformados.
O Comité Central do PCP salienta a importância das acções em curso, designadamente as paralisações, greves, plenários e acções de rua marcadas para 30 de Maio, contra a tentativa do patronato se aproveitar da decisão do Governo para tentar impor o trabalho forçado e não pago em quatro feriados por ano (de que este dia feriado é o primeiro abrangido), numa ampla acção para exigir a manutenção do direito ao feriado.
O Comité Central do PCP apela à participação de todos na grande concentração/manifestação convocada pela CGTP-IN para o próximo dia 25 de Maio, em Lisboa, junto à Presidência da República "Contra a exploração e o empobrecimento: Governo Rua!".
2. Está na hora de travar o caminho de desastre social e de abdicação nacional. Está na hora de apelar à determinação, à coragem e à força da razão dos que não querem um País aprisionado pelos interesses dos centros do capital internacional, dos que não se conformam com uma política de traição e venda dos interesses nacionais, sob a qual se justifica um futuro de miséria e empobrecimento a que querem condenar Portugal e o povo português.
A todos os trabalhadores roubados nos seus salários e direitos, ao povo português amarrado a um futuro de empobrecimento, às forças e organizações sociais que resistem em defesa dos que representam, às camadas não monopolistas condenadas por esta política à ruína, aos jovens cujo única perspectiva de futuro é deixar o seu País, a todos os patriotas que não aceitam ver o País transformado num protectorado, a todos os democratas que têm nos valores de Abril e no regime democrático a referência indispensável para a construção de um outro rumo, o PCP apela: Façam ouvir a vossa voz, ergam o vosso protesto contra a exploração, o empobrecimento, as injustiças e o declínio nacional, multipliquem a luta em defesa da demissão do governo, pela convocação de eleições, pela rejeição do Pacto de Agressão e a derrota da política de direita, por uma política alternativa patriótica e de esquerda vinculada aos valores de Abril.
7. Intensificar a intervenção, reforçar a organização
1. O Comité Central do PCP destaca e saúda a elevada participação dos quadros e militantes do Partido, concretizando as orientações do XIX Congresso, dando resposta, tomando a iniciativa, assegurando o papel ímpar do PCP ao serviço dos trabalhadores, do povo e do País.
O Comité Central do PCP salienta a particular exigência que está colocada ao trabalho de direcção, aos quadros, ao funcionamento dos organismos, na resposta à situação que passa pelo desenvolvimento da luta de massas, o fortalecimento das organizações unitárias de massas, a acrescida intervenção no plano do trabalho político unitário e a dinamização da intervenção política do Partido em que se insere, com o seu conteúdo próprio, a preparação das eleições autárquicas do próximo Outono e em que se destaca a necessidade do reforço do Partido.
3.Neste âmbito o Comité Central considera algumas tarefas imediatas, no quadro da concretização das conclusões do XIX Congresso:
- A intensificação da acção política concretizando a campanha «Por uma política alternativa patriótica e de esquerda» a decorrer no primeiro semestre que se prolongará até Junho inserida no objectivo geral da luta pela rejeição do Pacto de Agressão e da ruptura com a política de direita. Uma campanha dirigida para ampliar em largos sectores do povo português a convicção de que não só é necessária como é possível uma política alternativa à política de direita, de que o PCP é portador dessa política patriótica e de esquerda, que essa possibilidade é tão mais alcançável e realizável quanto maior for a luta dos trabalhadores e quanto maior a sua força e influência política, social e eleitoral. Uma campanha que, com desenvolvimentos temáticos associados a eixos da política alternativa, tem nos debates «O Euro e a dívida»; «Produzir mais para dever menos»; «Desigualdades no território e na sociedade - dimensões do desenvolvimento capitalista» e «Cumprir a Constituição, assegurar o desenvolvimento soberano do País», momentos de afirmação da política patriótica e de esquerda que o PCP defende;
- As eleições autárquicas do próximo Outono constituem uma batalha política da maior importância no plano local e nacional. O reforço da CDU, das suas posições, da sua votação, do número dos seus eleitos, assume uma enorme significado. Mais CDU significará mais capacidade de resolução dos problemas locais, uma mais sólida garantia do trabalho, honestidade e competência que lhe é reconhecida. Mais CDU significará o reforço da presença que assegura a defesa e representação dos interesses populares, do seus direitos e aspirações. Mas significará também dar mais força à luta por uma política alternativa, patriótica e de esquerda, que abra caminho a uma vida digna;
- A activa preparação da Festa do Avante cuja 37ª edição se realiza em 6, 7 e 8 de Setembro, concretizando as tarefas indispensáveis ao seu êxito, designadamente com a ampla divulgação e a venda da EP;
- O prosseguimento do programa de comemorações do Centenário de Álvaro Cunhal que se está a desenvolver com grande amplitude e impacto, afirmando a sua vida pensamento e luta como exemplo que se projecta na actualidade e no futuro, destacando do vasto programa de iniciativas a grande exposição inaugurada a 27 de Abril e que está patente até 2 de Junho no Terreiro do Paço em Lisboa, o Congresso "Álvaro Cunhal, o projecto comunista, Portugal e o Mundo de hoje", que decorrerá nos dias 26 e 27 de Outubro, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e o programa intenso em torno do dia do Centenário, 10 de Novembro, designadamente, com a realização de um grande Comício Comemorativo, no Campo Pequeno, em Lisboa.
- A acção de reforço do Partido dando particular atenção: ao reforço da organização e intervenção nas empresas e locais de trabalho, questão central e primeira prioridade do trabalho do Partido ao longo deste ano; à realização de assembleias das organizações partidárias, designadamente das organizações de base; à responsabilização de quadros; à estruturação das organizações de base local e à intensificação da sua acção; ao trabalho dos reformados, nomeadamente no que se refere à criação de células de reformados; ao recrutamento e integração de novos militantes; à avaliação dos meios essenciais de intervenção, fundos, centros de trabalho, instrumentos de propaganda e imprensa partidária com a tomada de medidas indispensáveis para nesta situação garantir a sua disponibilidade para a acção do Partido.
3. Quando o País está confrontando com uma situação sem precedentes desde o tempo do fascismo, o PCP consciente das exigências do momento actual reafirma o seu compromisso com os trabalhadores e o povo e a sua determinação e confiança na luta para derrotar a política de direita, e abrir caminho a uma alternativa patriótica e de esquerda, a uma democracia avançada com os valores de Abril no futuro de Portugal, tendo no horizonte a sociedade livre da exploração e da opressão, a sociedade socialista.

PCP

Publicado no Pravda.ru

terça-feira, 7 de maio de 2013

Governo brasileiro quer verdade sobre Jango e Plano Condor



Por meio de uma iniciativa inédita no Brasil, cujos governos civis não quiseram investigar o Plano Condor, a presidenta Dilma Rousseff resolveu tomar a iniciativa no assunto, através de suas principais colaboradoras na área, a ministra de Direitos Humanos, Maria do Rosário, e Rosa Cardoso, que foi sua advogada nos anos da resistência à ditadura e integra hoje a Comissão Nacional da Verdade. A Carta Maior falou com ambas neste sábado (4) sobre as investigações envolvendo a morte do ex-presidente João Goulart.

Brasilia- Depois das evidências sobre o envenenamento do ex-presidente chileno Eduardo Frei Montalva, em 1982, e das suspeitas sobre outro assassinato bioquímico que pode ter matado o poeta comunista Pablo Neruda, em 1973, logo após a derrubada de Salvador Allende, o governo brasileiro decidiu apoiar, politicamente, a exumação do ex-presidente João Goulart, falecido há 27 anos na Argentina, aparentemente após ingerir uma pílula cuja procedência está sob suspeita. Está provado que o ex-presidente deposto em 1964 esteve na mira no Plano Condor, do qual a ditadura brasileira foi uma peça crucial, e a menos investigada da região até aqui, talvez porque Emilio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel fossem os generais de maior confiança de Henry Kissinger, o verdadeiro fiador da caçada multinacional.

Por meio de uma iniciativa inédita no Brasil, cujos governos civis não quiseram investigar o Plano Condor, a presidenta Dilma Rousseff resolveu tomar a iniciativa no assunto, através de suas principais colaboradoras na área, a ministra de Direitos Humanos, Maria do Rosário, e Rosa Cardoso, que foi sua advogada nos anos da resistência à ditadura e integra hoje a Comissão Nacional da Verdade. A Carta Maior falou com ambas neste sábado (4).

Goulart morreu no dia 6 de dezembro de 1976 na província argentina de Corrientes e as primeiras suspeitas sobre a causa do falecimento surgiram no dia 7, quando o regime de Ernesto Geisel autorizou o ingresso do corpo no Brasil sob a condição de que não fosse realizada uma autópsia.

Ministra Maria do Rosário, quais são as probabilidades de se descobrir vestígios tóxicos em um cadáver antigo?

Já se passaram tantos anos que talvez agora a perícia não consiga chegar a uma demonstração conclusiva de que ele foi envenenado. Mas a exumação é só uma parte de nosso trabalho de buscar a verdade sobre o que ocorreu.

Depois de muita investigação da Comissão da Verdade e da família do ex-presidente Goulart, estamos convencidos de que a perseguição que se fez contra ele durante tantos anos demonstram claramente que havia a decisão de ataca-lo da forma mais vil por partes das ditaduras que atuavam associadas. Ele era um alvo dessas ditaduras que estavam associadas na ideia de eliminá-lo.

Se a pesquisa não obtiver resultados isso pode dar argumentos aqueles que boicotam a investigação do passado?

Não creio que seja assim, porque temos informações muito consistentes que nos permitirão seguir outras pistas. Há uma determinação de trabalhar para que este caso seja esclarecido. A presidenta Dilma solicitou a mim e a Comissão da Verdade, que está realizando um trabalho muito importante, que avancemos tudo o que for possível com o caso João Goulart e com todos os outros casos de vítimas do Condor. Estamos investigando há tempo a perseguição que o presidente Goulart sofreu durante seu longo exílio no Uruguai, na Argentina e em outros países. Além de ter sido deposto pelo golpe de 1964, ele foi seguido quase que cotidianamente por agentes brasileiros articulados com os serviços de inteligência dos demais países do Cone Sul. Nós já temos isso muito bem documentado.

A intoxicação de Frei e a exumação de Neruda reforçaram a pista do envenenamento?

As experiências de crimes ocorridos em outros países como o Chile, com estes dois casos que você está citando, nos fazem reforçar nossa pesquisa sobre o que aconteceu com João Goulart. O certo é que houve, em geral, uma perseguição implacável e ataques aos dirigentes e presidentes como foi o caso do próprio presidente Salvador Allende.

A presidenta Dilma viajará este ano a Washington. Ela pedirá que Obama libere documentos secretos?

Temos buscado e obtido muitos documentos e acreditamos que sempre deve haver colaboração entre nações democráticas.

A entrevista concedida por Maria do Rosário à Carta Maior já é, em si mesma, uma confirmação de que Dilma Rousseff recomendou a sua ministra de Direitos Humanos para que se envolvesse plenamente na reconstrução da odisseia vivida por Goulart e seu eventual assassinato, além das possíveis tentativas fracassadas. Um dado político nada desprezível.

A família de Jango, que assumiu a pesada tarefa de investigar o caso solitariamente durante anos, apoia a tese de que o plano para eliminá-lo foi urdido com a participação direta do escritório da CIA no Uruguai, para onde teria sido enviado o repressor brasileiro Sergio Paranhos Fleury. Além de algumas evidências e documentos, os herdeiros do ex-presidente citam, para sustentar a ideia do envenenamento, o testemunho do ex-membro do serviço de inteligência uruguaio, Mario Neira Barreiro, atualmente encarcerado em um presídio de segurança máxima em Charqueadas, Rio Grande do Sul, que declarou ter sido parte da operação pela qual teriam sido colocadas pílulas letais entre os medicamentos de Goulart.

A advogada Rosa Cardoso, integrante da Comissão Nacional da Verdade, conversou no sábado com a Carta Maior, sobre o relato do uruguaio com quem conversou há alguns meses.

Você atribui credibilidade às declarações do ex-agente?

Todos temos nossas reservas sobre Neira Barreiro, é verdade, mas considero que uma parte do que nos disse pode ser verdadeira e, além disso, coincide em alguns pontos com o que a família Goulart já descobriu e com o que nós levantamentos na investigação que estamos realizando.

Você acredita que Goulart foi assassinado?

Essa é uma possibilidade que tem que ser ponderada. Não podemos assegurar nada até investigar mais e a exumação pode aportar algo ou não, porque o estado de decomposição pode ser muito avançado. Exumar o corpo e fazer a pesquisa é um trabalho que demora um longo tempo, temos que ser pacientes.

Convidaram a equipe de antropologia forense argentina para acompanhar esse trabalho?

Certamente o faremos, assim como também outros especialistas internacionais.

Goulart e Perón vigiados

Nascido formalmente em 1975, o Plano Condor já atuava como rede de espionagem multinacional, sem levar esse nome de rapina, desde alguns anos, e uma de suas presas mais cobiçadas era João Goulart, informado papéis secretos encontrados por Carta Maior. Um desses documentos, com detalhes de uma conversa entre Goulart e o ex-presidente argentino Juan Perón, em 1973, traz o rótulo de “secreto” e o selo do Serviço Nacional de Informações brasileiro (SNI) e do CIEX, o aparato de inteligência montado na época pelo Itamaraty. Outros relatos mencionam que a Argentina de 1973 era uma plataforma de articulação política para o ex-mandatário “populista”.

“Estes documentos do período em que Goulart era perseguido e espionado na Argentina, dos quais você me fala, mostram que houve um plano perverso contra os democratas e aqueles que ameaçavam a permanência da ditadura”, observa a ministra Maria do Rosário.

Setores do governo brasileiro sustentam a hipótese de que Goulart era um moderado capaz de encabeçar uma coalizão pela restituição democrática, representando uma ameaça ao modelo de transição vigiada concebido, e finalmente aplicado, por Ernesto Geisel. Goulart e Juscelino Kubitscek, outro ex-presidente falecido em um acidente nebuloso em 1976, assim como o chileno Orlando Letelier, assassinado no mesmo ano, poderiam se fortalecer com a vitória do democrata Jimmy Carter.

O Plano Condor via com horror o retorno de líderes apoiados por Washington, como conta em uma correspondência de agosto de 1976, descoberta há 20 anos, enviada pelo então chefe da DINA chilena, Manuel Contreras, a seu colega na época, João Batista Figueiredo, depois promovido a presidente de fato.

@DarioPignotti

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

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Esquerda manifesta-se em Paris contra austeridade de Hollande



Protesto que se desenrolou entre as praças parisienses da Bastilha e da Nação, no domingo (5), reuniu 180 mil manifestantes. Jean-Luc Mélenchon apelou para uma "insurreição" que ponha fim a estas políticas de austeridade e disse que o período de teste para Hollande terminou.


O balanço do primeiro ano do presidente François Hollande esteve presente em todo o protesto que se desenrolou entre as praças da Bastilha e da Nação, superando as previsões dos organizadores. A Frente de Esquerda esperava 100 mil pessoas, mas a meio da tarde anunciava a presença de 180 mil manifestantes, mais 20 mil que no 1º de Maio da CGT. A desilusão com o mandato presidencial, envolvido em escândalos financeiros de fraude fiscal e incapaz de cumprir as promessas de dar um rumo diferente à economia, foi também o centro das intervenções no comício.

A manifestação foi apoiada pelo NPA e também contou com a presença da ex-candidata às presidenciais Eva Joly, apesar dos Verdes não terem apoiado este protesto. Joly defendeu que Hollande devia "regressar ao espírito de Bourget", quando o então candidato presidencial do PS designou como inimigo "a Finança". O orador seguinte foi o líder do PCF, Pierre Laurent, que falou num "ano perdido para a mudança. Isto é demais e não o aceitamos", afirmou.

No discurso de Jean-Luc Mélenchon, voltaram a ouvir-se apelos a uma "insurreição" que ponha fim a estas políticas de austeridade. Não se pouparam críticas a Hollande, sem o nomear, zurzindo no "pequeno monarca fora de controle" e símbolo de uma "monarquia vertical que permite à finança estender os seus tentáculos".

"O período de teste terminou" para o presidente francês, avisou Mélenchon. "E se você não sabe como fazer, nós sabemos", acrescentou o ex-candidato presidencial, sublinhando que "nós não mudamos de opinião, não queremos a finança no poder nem aceitamos as políticas de austeridade". O líder da Frente de Esquerda tinha apelado a uma "varridela" do sistema político francês neste domingo e muitos manifestantes trouxeram as vassouras de casa, em defesa de uma VI República fundada por uma Assembleia Constituinte que não inclua as figuras que tenham passado pelo poder executivo ou legislativo. "Nada é mais poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou", concluiu Mélenchon, terminando o comício com esta citação de Victor Hugo.

Sempre de cravo vermelho ao peito, Mélenchon disse ao correspondente do Expresso em Paris que "não deixaremos que matem Portugal nem nenhum país vítima da finança" e recordou que no Chipre "assistimos a um golpe de Estado da finança na Europa", mas que "as dívidas nunca serão pagas, com um pouco de inflação apaga-se a dívida, a inflação é melhor que a morte, a bancarrota ou a guerra!", exclamou.  

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Joaquim Barbosa vê ausência de pluralismo na mídia brasileira



A apresentação do presidente do STF se deu em quatro partes voltadas a
apresentar uma perspectiva multifacetada sobre liberdade de imprensa. Na
abertura, reafirmou o compromisso da corte e do país com a liberdade de
expressão e de imprensa, e ressaltou que uma imprensa livre, aberta e
economicamente sólida é o melhor antídoto contra arbitrariedades. Barbosa
lembrou a ausência de censura pública no Brasil desde a redemocratização em 1985.

Na segunda parte, o ministro apresentou como o tema é tratado na
Constituição de 1988, que pela primeira vez reservou um capítulo específico
para a comunicação. Segundo Barbosa, no sistema legal brasileiro nenhum
direito fundamental deve ser tratado como absoluto, mas sempre interpretado em completa harmonia com outros direitos, como privacidade, imagem pessoal e, citando textualmente o texto constitucional, “o respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família”. Nesse sentido, ressaltou o ministro, o sistema legal brasileiro relaciona a liberdade de expressão com a responsabilidade legal correspondente. “A lei se aplica a todos e deve ser obedecida. A liberdade de imprensa não opera como uma folha em branco ou como um sinal verde para violar as regras da sociedade”, afirmou Barbosa.

Na terceira parte de seu discurso, Joaquim Barbosa apresentou dois casos em que o Supremo Tribunal Federal teve que lidar com a liberdade de expressão e de imprensa. No primeiro, lembrou a a análise que o STF teve de fazer sobre a publicação de obras racistas contra judeus por parte de Siegfried Ellwanger. Neste caso, a corte avaliou que a proteção dos direitos do povo judeu deveria prevalecer em relação ao direito de publicar casos
discriminatórios. Em seguida, falou sobre a lei de imprensa, que foi
derrubada pelo Supremo por ser considerada em desacordo com a Constituição e extremamente opressora aos direitos de liberdade de expressão e de imprensa.

Antes de encerrar, porém, Barbosa fez questão de ressaltar que não estaria sendo sincero se não destacasse os problemas que via na mídia brasileira. Falando da ausência de diversidade racial, o ministro lembrou que embora pretos e mulatos correspondam à metade da população, é muito rara sua presença nos estúdios de televisão e nas posições de poder e liderança na maioria das emissoras. “Eles raramente são chamados para expressar suas posições e sua expertise, e de forma geral são tratados de forma estereotipada”, afirmou o ministro.

Avaliando a ausência de diversidade política-ideológica, Barbosa lembrou que há apenas três jornais de circulação nacional, “todos eles com tendência ao pensamento de direita”. Para ele, a ausência de pluralismo é uma ameaça ao direito das minorias. Barbosa finalizou suas observações sobre os problemas do sistema de comunicação destacando o problema da violência contra jornalistas. “Só neste ano foram assassinados quatro profissionais, todos eles trabalhando para pequenos veículos. Os casos de assassinatos são quase todos ligados a denúncias de corrupção ou de tráfico de drogas em âmbito local, e representam grave violação de direitos humanos”.

Em resposta a questoinamentos do público, Barbosa lembrou um dos motivos da impunidade nos crimes contra a liberdade de imprensa é a disfuncionalidade do sistema judicial brasileira, que tem quatro níveis e “infinitas possibilidades de apelo”. Além das possibilidades de apelo, a justiça brasileira tem, na perspectivas de Barbosa, sistemas de proteção aos poderosos, que influenciam os diretamente os juízes. “A justiça condena pobres e pretos, gente sem conexão. As pessoas são tratadas de forma diferente de acordo com seu status, cor de pele ou poder econômico”, concluiu Barbosa.

Publicado em Carta Maior