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segunda-feira, 29 de julho de 2013

Religiões: quando o cristianismo é pura intolerância



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Extremistas católicos e evangélicos querem agora vetar lei que regulamenta atendimento do SUS às vítimas de estupro. Decisão está com Dilma

Por Gabriela Leite
Certas leis podem, no máximo, reduzir danos. É o caso de um texto aprovado no último dia 11, no Congresso Nacional. Proposto no século passado (em 1999) pela deputada Iara Bernardi (PT-SP), ele estabelece as normas para atendimento, no Sistema Único de Saúde, das mulheres que foram vítimas de estupro. É um problema sabidamente grave, mas crescente. O número de casos deste crime no Brasil aumentou muito nos últimos anos. Só no primeiro semestre de 2013, a média na cidade de São Paulo foi de nove denúncias por dia. No Rio de Janeiro, os casos aumentaram 56% nos últimos quatro anos. Nestas situações, como os médicos da rede pública devem proceder?
O projeto da deputada Iara, aprovado por unanimidade após quase quinze anos de protelação, estabelece alguns procedimentos. Exige que todos os hospitais da rede do SUS atendam imediatamente as vítimas. Garante amparo social e psicológico, informações sobre direitos legais e acesso a exames de HIV e medidas necessárias para evitar doenças e gravidez. Não resolve o problema, mas assegura o direito à saúde das mulheres que sofrem com o crime.
Porém, grupos religiosos e conservadores parecem compreender que elas não têm esse direito. Para eles, um dos parágrafos da lei representa, na verdade, uma aprovação escondida do aborto: o que fala da “profilaxia da gravidez”. Carlos Alberto di Franco, membro da organização católica Opus Dei, sustenta, em artigo para O Estado de São Paulo (22/7) que, como não é necessária prova de que a mulher foi realmente estuprada, ela pode fingir o abuso para poder realizar o aborto. Argumento semelhante é o do deputado Marco Feliciano. Para ele, o termo “profilaxia” pode ser interpretado de maneira dúbia, e garantir a interrupção da gravidez. Ele também acredita que não é papel dos hospitais dar informações às vítimas de estupro sobre seu direito legal e sanitário, que elas devem procurar uma delegacia. Sugere que este ponto também deve ser vetado pelo Executivo.
A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia explica que a profilaxia da gravidez não significa aborto — mas sim a administração de Levonorgestrel, a chamada “pílula do dia seguinte”. Ela evita a fecundação e deve ser tomada até três dias após o ato sexual. Esta medida funciona como técnica contraceptiva, e é totalmente legalizada no Brasil. No caso de estupro, evitaria um provável futuro aborto — mais perigoso para a vítima. De qualquer maneira, interromper uma gravidez que aconteceu por um ato de violência sexual já é um direito garantido por lei.
A proposta foi encaminhada para sanção da presidente Dilma Rousseff e deve ser aprovada até 1º de agosto. Define, para os devidos fins, que violência sexual é qualquer forma de atividade sexual sem consentimento. Resta agora à presidente decidir: optará pelos direitos ou pelo fundamentalismo?

"É preciso acelerar a integração latino-americana", diz secretário-executivo do Foro de São Paulo

Para Valter Pomar, crise econômica e avanço da direita em alguns países exigem salto de qualidade de partidos e governos


O Foro de São Paulo, articulação entre partidos progressistas e de esquerda da América Latina, volta à cidade onde foi criado. Entre 31 de julho e 4 de agosto, a capital paulista receberá pela terceira vez representantes de agremiações não apenas do continente, mas de todo o mundo.

Criado em 1990, por iniciativa do PT (Partido dos Trabalhadores), do Brasil, e do Partido Comunista de Cuba, entre outros, o Foro congrega mais de uma centena de agremiações. Os temas do evento vão da integração regional à crise econômica mundial, passando pelos avanços e recuos da esquerda em cada país. Estarão presentes representantes da Europa, África e Ásia, vários deles integrando governos.
Reprodução/Facebook

Pomar: mobilizações de junho no Brasil mostram que esquerdas enfrentam dilemas muito semelhantes em todos os países da região

Opera Mundi conversou com Valter Pomar, de 46 anos, membro do Diretório Nacional do PT e Secretário-executivo do Foro. Doutor em História Econômica, Pomar fala dos diversos desafios que devem ser tratados no evento, cuja programação completa pode ser vista no site oficial.

Opera Mundi : Qual a importância deste Encontro do Foro de São Paulo? Quais os principais temas a serem debatidos?
Valter Pomar: Trata-se do primeiro encontro do Foro, depois da morte de Hugo Chávez e da eleição de Nicolas Maduro. Cito esses dois fatos, porque ajudaram o conjunto da esquerda regional a perceber que estamos em uma nova etapa na região, marcada principalmente pela contra-ofensiva da direita local e de seus aliados nos Estados Unidos e Europa. Nessa nova etapa, há dois desafios principais: aprofundar o processo de mudanças em cada país e acelerar o processo de integração regional. São os grandes temas em debate no XIX Encontro do Foro.
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OM: O Encontro acontece quase simultaneamente à visita que Papa Francisco fez ao Brasil. Que significado pode ter um pontífice latino-americano nessa conjuntura?
VP: Há controvérsias sobre isso. A maior parte da esquerda regional prefere não opinar a respeito. Há setores com expectativas positivas, o que é compreensível se lembrarmos do comportamento do Papa anterior. Mas há, também, setores muito preocupados, por três motivos: primeiro devido a versões acerca do que ocorreu na época da ditadura militar argentina; segundo, por lembrar do papel jogado por outro Papa no combate ao socialismo, tal como existia no Leste Europeu; terceiro, devido a crescente influência dos conservadores no interior da igreja católica. Para os que são crentes, acho que o mais adequado é orar e vigiar muito.

OM: Uma nova conjuntura política parece estar se abrindo no Brasil, com a ascensão das mobilizações populares. Isso será objeto de debate no Encontro?
VP: Os partidos brasileiros que integram o Foro - o PT, o PC do B (Partido Comunista do Brasil), o PSB (Partido Socialista Brasileiro), o PDT (Partido Democrático Trabalhista), o PPL (Partido Pátria Livre) e o PCB (Partido Comunista Brasileiro) - terão diversas oportunidades, nas atividades oficiais do Foro e nas bilaterais, para apresentar seu ponto de vista sobre o que ocorreu e sobre os impactos presentes e futuros. Há uma grande curiosidade a respeito, especialmente daqueles que acreditavam na existência de "duas esquerdas" na região. Pois um dos ensinamentos das mobilizações de junho é que a direita brasileira, como a venezuelana, disputa a mídia, as urnas e as ruas conosco. E que as esquerdas enfrentam dilemas muito semelhantes, em todos os países da região.

OM: Um tema de relevo na pauta do Encontro é a integração regional. Como isso se dá, pela via dos partidos políticos?
VP: A integração regional é um processo em disputa. Primeiro, disputa contra o imperialismo, que deseja uma integração subalterna a eles, como no projeto da Alca. Segundo, disputa contra a grande burguesia, que deseja uma integração focada nos mercados e no lucro de curto prazo, o que conduz a uma integração que aprofunda as disparidades regionais e sociais, o que por sua vez acabaria nos levando a uma integração subalterna aos gringos. Terceiro, uma disputa entre diferentes ritmos e vias de desenvolvimento e integração. Trata-se, portanto, de um processo quente, que do ponto de vista da esquerda precisa ser simultaneamente político, econômico e cultural. Tarefas nas quais os governos são fundamentais, mas insuficientes. Os partidos políticos, assim como os movimentos sociais e o mundo da cultura são essenciais nesse processo.

Pt.org.br
OM: A grande variável da internacional hoje é o comportamento da economia chinesa. O aumento de sua demanda por commodities possibilitou que o ciclo de governos progressistas da América Latina – exportadores de produtos primários – conhecesse surtos expressivos de crescimento. Se a China desacelerar, quais os cenários para o continente?
[Primeira edição do Foro de São Paulo, realizada em julho de 1990]
VP: A China já está desacelerando e está fazendo uma inflexão em direção ao seu mercado interno. Isto pode ter duas consequências: ou voltarmos ao "estado normal" de economias dependentes, vítimas da desigualdade nos termos de troca entre produtos de baixo e de alto valor agregado; ou fazermos uma inflexão em direção a um ciclo de desenvolvimento econômico regional, impulsionado pelo Estado e baseado na ampliação de infraestruturas, políticas universais e capacidade de consumo.
Este é o pano de fundo do acirramento da luta de classes na região, assim como do acirramento no conflito entre alguns países da região, para não falar do acirramento de nossa relação com as potências imperialistas.

OM: A alta das commodities tende a recolocar as economias latino-americanas num quadro conhecido na primeira metade do século passado: o de exportador de produtos primários e importador de manufaturados. Não há uma contradição no fato de governos que têm recuperado a soberania nacional estejam se mantendo graças a uma inserção econômica subordinada no mercado global?
VP: Contradição há, mas a realidade está corrigindo essa contradição. Para ser mais claro: os governos progressistas e de esquerda que insistirem neste caminho estarão pavimentando o caminho para sua derrota eleitoral, mais cedo ou mais tarde. Ou, o que também pode acontecer, para uma mudança de lado: os progressistas e a esquerda continuariam lá, nos governos, mas a serviço de outros interesses. Claro que na etapa anterior a esta, foi correto aproveitar o boom das commodities para com isso enfrentar alguns problemas imediatos.

OM: Em 2014, completam-se 15 anos do início da gestão de Hugo Chávez, na Venezuela. A partir daí, uma série de governos de centro-esquerda foram eleitos na América Latina. Nos últimos meses, alguns deles enfrentam turbulências internas. É o caso da Venezuela, da Argentina e do Brasil. É possível ver uma tendência nesses processos? O ciclo progressista estaria se esgotando?
VP: O que certamente se esgotou foi a primeira etapa do ciclo progressista e de esquerda, esta etapa que começa entre 1998 e 2002, com as eleições de Chávez e de Lula. E que se conclui em algum ponto entre a eclosão da crise internacional e a posse de Obama. Deste momento em diante, entramos em outra etapa, marcada pela crise, pela contraofensiva da direita e pelo esgotamento do padrão adotado em todos os governos progressistas e de esquerda. Esse padrão foi, na Venezuela, no Brasil, na Bolívia e na Argentina, por todos os lados, redirecionar para outros setores sociais a renda e a riqueza geradas pelo modelo herdado. Este modelo se esgotou. Agora está posto construir outro modelo. Se não tivermos sucesso nisso, aí sim poderemos falar de esgotamento do ciclo. Se tivermos sucesso, por outro lado, viveremos um salto de qualidade.
Efe

Venezuelanos lembram aniversário de Hugo Chávez, em Caracas. Falecimento do presidente é tema do Encontro do Foro de SP

OM: A direita continental promoveu golpes em Honduras e no Paraguai e teve expressiva votação nas eleições presidenciais na Venezuela. Há um fortalecimento regional dessas correntes?
VP: Claro que sim. Elas se apoiam em suas próprias forças, que são enormes; nos seus aliados internacionais; e nas debilidades de nossos governos. A direita está jogando seu papel. O desafio é reagir a isto, corrigindo erros, superando debilidades, ampliando a cooperação entre nós.

OM: Países como Chile, Colômbia, México e Peru estão articulando a Aliança do Pacífico. Quais as consequências disso?
VP: A Aliança do Pacífico constitui um espaço de articulação próprio daqueles governos e países mais amarrados, através de tratados de comércio ou de acordos político-militares, com os Estados Unidos e outras potências. Comercialmente, economicamente, não constituem uma grande ameaça. Do ponto de vista político, é distinto: trata-se de uma cunha contra o Mercosul, a Unasul e a Celac. O caminho para resolver o problema está, também, principalmente na política: trata-se de recuperar as relações com o governo Ollanta Humala, de recuperar em novas bases o governo chileno, trata-se de fazer a paz na Colômbia e retomar a influência da esquerda no México.

OM: O sr. é candidato à presidência do PT, cuja eleição se realizará em novembro. Qual a ligação dessa postulação com sua atividade internacional?
VP : Sou candidato e as eleições serão em novembro de 2013. Mas até 4 de agosto, quando conclui o XIX Encontro do Foro de São Paulo, minha prioridade total é o próprio Foro, do qual sou secretário executivo por indicação do PT.

operamundi

Fora de ponto

O pensamento econômico ortodoxo avalia a política econômica pelo tripé criado no início do segundo mandato de FHC por imposição do FMI como pré-condição para salvar o país da bancarrota. Aparentemente bonito na teoria, não funciona na prática, pois os caminhos da inflação, do crescimento e do equilíbrio interno e externo respondem por outros fatores.


O pensamento econômico ortodoxo avalia a política econômica pelo tripé criado no início do segundo mandato de FHC por imposição do FMI como pré-condição para salvar o país da bancarrota.

O tripé é definido por: a) superávit primário elevado; b) câmbio flutuante e; c) meta de inflação. Foram três condições que facilitariam o pagamento da dívida do País. Caso adotado garantiria, segundo a ortodoxia, crescimento econômico, equilíbrio nas contas internas e externas e inflação baixa.

Aparentemente bonito na teoria, não funciona na prática, pois os caminhos da inflação, do crescimento e do equilíbrio interno e externo respondem por outros fatores.

Esse tripé não trata da taxa de juro. É como se ela fosse consequência dos três fatores. Assim, o Banco Central deitou e rolou praticando taxas básicas de juros elevadas e deixou o mercado financeiro livre para usar e abusar de taxas de juros de corar agiota.

Fato é que com o tempo esse tripé foi morrendo e hoje quando se fala dele é que foi abandonado. Mas o que de fato caracteriza a política econômica em todos os governos, sem exceção, é a submissão vergonhosa aos ditames do mercado financeiro, que é quem de fato comanda a economia.

Esse comando se dá garantindo as taxas de juros que maximizam o lucro financeiro dos bancos com a Selic e nos empréstimos.



Os presidentes do BC, à época de FHC praticaram a Selic mais saborosa que o mercado financeiro já teve. Vale sempre registrar o agrado ao mercado financeiro, que marcaram suas gestões. À exceção do atual presidente Tombini os demais vieram e retornaram ao mercado financeiro, tendo Armínio Fraga sido operador do megaespeculador George Soros.

Os lucros com a Selic ocorrem pelo uso hábil do mercado financeiro ao propagar a ameaça da inflação e dela se encontrar fora do centro da meta. O lucro se dá sob duas formas: a) nos ganhos de tesouraria em cima dos títulos do governo federal e; b) na remuneração pelo BC dos saldos de caixa diário dos bancos presenteados pela Selic. Sim, nosso BC remunera os saldos diários de caixa dos bancos, o que seria um escândalo em qualquer país, isso parece que não é notado pelo Tribunal de Contas, pelo Ministério Público, pelo Congresso Nacional nem pela mídia.

O outro ganho anormal do mercado financeiro é com as taxas de juros dos empréstimos. Segundo a Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade - Anefac, essa taxa para empréstimos em 12 meses é de 90% para o consumidor e 45% para as empresas. É onde o lucro é maior e inigualável em qualquer outro país.

Se durante o governo FHC os ex presidentes do BC praticaram a Selic mais elevada, no governo Lula ela ainda permaneceu nos dois dígitos, mas ainda ao gosto do mercado financeiro. No governo Dilma parecia que isso iria mudar ao declarar a presidenta que não havia justificativa técnica para as taxas de juros serem tão elevadas. Assim, conduziu a equipe econômica objetivando a queda da Selic e em abril de 2012 iniciou campanha de pressão sobre os bancos privados para a redução das taxas de juros dos empréstimos. No começo parecia que iria conseguir seu objetivo, mas passados seis meses voltaram ao nível anterior e ficou por isso mesmo.

Fora de ponto – Ao permanecer submissa ao mercado financeiro, a economia vem sendo operada fora de ponto. É como um potente motor que, estando fora de ponto, se move rangendo e trepidando. O rendimento é baixo e, com o tempo pode queimar.

A estratégia usada pelo BC para controlar a inflação é manter a Selic elevada para atrair o capital especulativo internacional para os ganhos financeiros nas aplicações em títulos do governo federal.

Esse artificialismo cambial é devastador para a economia. Em primeiro lugar pelo rombo nas contas externas, que atingiram nos últimos doze meses até junho, US$ 72,5 bilhões (3,2% do PIB). Em segundo lugar pela perda potencial de dólares que irá naturalmente ocorrer quando os especuladores decidirem repatriar os lucros das aplicações. Em terceiro lugar por manter baixa a competitividade da empresa local face às empresas de fora do País.

Como resultado, boa parte da expansão do consumo das famílias é atendida pelo produto importado, o que reduz o PIB e a geração de emprego industrial.

O câmbio de equilíbrio para restaurar as contas externas é de R$ 3,00/US$ conforme o gráfico, que ilustra a relação entre as transações correntes e o câmbio em valores atuais para os anos de 2005 a 2012.



A outra anomalia que faz a economia girar fora de ponto é a taxa de juro ao tomador. Ela dobra o custo de aquisição para financiamentos com prazo de um ano, restringindo o orçamento doméstico. É o mais potente freio ao consumo, em linha com a política do BC para controlar a inflação.

Resumindo: para crescer é necessário reduzir as taxas de juros básicas e ao tomador. Com isso o consumo cresce de forma saudável e pode ser atendido preferencialmente pelas empresas locais, livres do câmbio artificial. Retorna-se ao equilíbrio fiscal, por se reduzir as despesas com juros e ao equilíbrio das contas externas ao permitir ao câmbio voltar ao seu ponto de equilíbrio.

A OPUS DEI NA AMERICA LATINA


Com o encerramento, no domingo, (28/7) da visita do Papa Francisco, Mario Bergollio, na Jornada Mundial da Juventude, o que me chamou a atenção foi a postura do Papa, um tanto quanto controversa: quando de um lado exorta a igreja a promover uma aproximação com os mais pobres e sair as ruas na busca desse intento, por outro lado, mantém as tradicionais políticas conservadoras da igreja secular, sem qualquer menção ou intenção de modificá-las, mantendo inalterada essa política conservadora com relação a temas candentes da atualidade, aceitas pela maioria da população e já admitidas em vários países, inclusive judicialmente legalizadas. É o caso do casamento entre pessoas do mesmo sexo, adoção de crianças; o uso de preservativos para se evitar nascimentos indesejáveis e a questão do aborto, procedimento legal, também, adotados em alguns países.
Tudo indica, salvo engano ou alguma surpresa mais a frente, que o Papa é um populista de direita que faz um discurso progressista e age da mesma forma que o Papa anterior, Bento XVI. Pelo menos Bento XVI, não escondia o jogo e era bem claro em suas posições conservadoras.
Falando nisso, qual vai ser sua posição com relação a Opus Dei? O Papa Bento XVI mantinha relações cordiais e amistosas com o Bispo Chefe da Prelazia da Organização Opus Dei. Entidade de grande poderio financeiro e grande influência política em boa parte do mundo, inclusive na America Latina, onde domina Jornais importantes e setores do judiciário Paulista, segundo denúncias de ex-membros da organização.
Para refrescar a memória, tendo em vista a visita do Papa Francisco no Brasil, reeditamos a matéria:
A Opus Dei na America Latina

Bento XVI saúda D. Javier Echevarría Rodríguez, Bispo titular de Cilibia, Prelado da Prelazia Pessoal do Opus Dei, Foto Flickr (Escritório de informação do Opus Dei
 A Opus Dei atua também no monopólio da imprensa. Controla o jornal "El Observador", de Montevidéu, e exerce influência sobre órgãos tradicionais da oligarquia como "El Mercurio", no Chile, "La Nación", na Argentina e "O Estado de São Paulo", no Brasil.
O elo com a imprensa é o curso de pós-graduação em jornalismo da Universidade de Navarra em São Paulo, coordenado por Carlos Alberto di Franco, numerário e comentarista do "Estadão" e da Rádio Eldorado.
O segundo homem da Opus Dei na imprensa brasileira é o também numerário Guilherme Doring Cunha Pereira, herdeiro do principal grupo de comunicação do Paraná ("Gazeta do Povo").

Os jornalistas Alberto Dines e Mário Augusto Jakobskind denunciam que a organização controla também a Sociedade Interamericana de Imprensa - SIP (na sigla em espanhol).

Analisando a estrutura de classes dos países latino-americanos, Darcy Ribeiro identificava como segmento hegemónico dentro das classes dominantes o corpo de gerência das transnacionais. Ponta de lança do imperialismo, é ele quem dita ordens e impõe ideologias às demais fracções e, em muitos casos, organiza-as politicamente. A desnacionalização das economias latino-americanas na década de 90 agravou este quadro. A alteração de mais relevo no perfil da classe dominante verificada no bojo deste processo é o crescimento da influência da Opus Dei. Sustentada pelo capital espanhol, a organização controla jornais, universidades, tribunais e entidades de classe, sendo hoje peça chave para se compreender o processo político no continente, inclusive no Brasil, onde quer eleger Geraldo Alckmin presidente da República.


Procissão Católica na Espanha, berço da Opus Dei.
Mas o que é afinal, a Opus Dei (em latim, Obra de Deus)?
Em seu campo original de atuação, é a vanguarda das tendências mais conservadoras da Igreja Católica. "Este concílio, minhas filhas, é o concílio do diabo" teria dito seu fundador, Josemaria Escrivá de Balaguer, sobre o Vaticano II, no relato do jornalista argentino Emilio J. Corbiere no seu livro "Opus Dei. El totalitarismo católico".
Fundada na Espanha em 1928, a organização foi reconhecida pelo Vaticano em 1947. Em 1982, foi declarada uma prelatura pessoal, o que, sob o Direito canónico, significa que só presta contas ao papa e que seus membros não se submetem à jurisdição dos bispos. "A relação entre Karol Wojtyla e a Opus Dei" conta o teólogo espanhol Juan José Tamayo Acosta "atinge seu êxito nos anos 80-90, com a irresistível ascensão da Obra à cúpula do Vaticano, a partir de onde interveio altivamente, primeiro no esboço e depois na colocação em prática do processo de restauração da Igreja católica sob o protagonismo do papa e a orientação teológica do cardeal alemão Ratzinger."
Fontes ligadas à Igreja Católica atribuem o poder da Obra à quitação da dívida do Banco Ambrosiano, fraudulentamente falido em 1982.
Obscurantismo e misoginia são traços que marcam a organização. Exemplos podem ser encontrados nas denúncias de ex-adeptos como Jean Lauand, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo - Universidade de São Paulo (USP), que recentemente escreveu junto com mais dois ex-membros, o juizMárcio Fernandes e o médico Dário Fortes Ferreira, o livro "Opus Dei - os bastidores". Em entrevista ao programa Biblioteca Sonora, da Rádio USP, Jean Lauand conta que a Obra tem um "Index" de livros proibidos que abrange praticamente toda a filosofia ocidental desde Descartes. Noutra entrevista, à revista Época, Jean Lauand denuncia as estratégias de fanatização dos chamados numerários, leigos celibatários que vivem em casas da organização: "Os homens podem dormir em colchões normais, as mulheres têm de dormir em tábuas. São proibidas de segurar crianças no colo e de ir a casamentos". É obrigatório o uso de cinturões com pontas de ferro fortemente atados à coxa, como prática de mortificação que visa refrear o desejo. Mas os danos infligidos pelo fanatismo não se limitam ao corpo.
No site que mantém com outros dissidentes (http://www.opuslivre.org/), Jean Lauand revela que a Obra conta com médicos especialmente encarregados de receitar psicotrópicos a numerários em crise nervosa.
A captação de numerários dá-se entre estudantes de universidades e escolas secundárias de elite. Centros de estudos e obras de caridade servem de fachada. A Opus Dei tem forte presença na USP, em especial na Faculdade de Direito, onde parte do corpo docente é composta por membros e simpatizantes,como o numerário Inácio Poveda e o diretor Eduardo Marchi. Outro expoente da organização na USP é Luiz Eugênio Garcez Leite, professor da Faculdade de Medicina e autor de panfletos contra a educação mista. A Obra atua também na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade de Campinas (Unicamp) e Universidade de Brasília (UnB).

Fazendo a América
Mas a Opus Dei é mais que um tema de saúde pública. Ela tem, desde a origem, uma clara dimensão política. Durante a ditadura de Franco, praticamente fundiu-se ao Estado espanhol, ao qual forneceu ministros e dirigentes de empresas e órgãos governamentais. No fim da década de 40, inicia sua expansão rumo à América Latina. Não foi difícil conquistar adeptos entre oligarquias como as da Cidade do México, Buenos Aires e Lima, que sempre buscaram diferenciar-se de seus povos apegando-se a um conceito conservador de pretensa hispanidade. Um dos elementos definidores desse conceito é exatamente o integralismo católico.
Alberto Moncada, outro dissidente, conta em seu livro "La evolución del Opus Dei": "os jesuítas decidiram que seu papel na América Latina não deveria continuar sendo a educação dos filhos da burguesia, e então apareceu para a Opus Dei a ocasião de substituí-los - ocasião que não hesitou em aproveitar".
No Brasil, a organização deitou raízes em São Paulo no começo da década de 50, concentrando sua atuação no meio jurídico. O promotor aposentado e ex-deputado federal Hélio Bicudo conta que por duas vezes juízes tentaram cooptá-lo. Seu expoente de maior destaque foi José Geraldo Rodrigues Alckmin, nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)por Médici em 1972 e tio do atual governador de São Paulo. Acontece que nos anos 70, o poder da Opus Dei era embrionário. Tinha quadros em posições importantes, mas sem atuação coordenada. Além disso, dividia com a Tradição, Família e Propriedade (T.F.P.) as simpatias dos católicos de extrema-direita.
Era natural, da mesma forma, que, alguns quadros dos regimes nascidos dos golpes de Estado de 1966 e 1976, na Argentina, e 1973, no Uruguai, fossem também quadros da Opus Dei. Mas segundo se lê no livro de Emilio J. Corbiere , sua atuação era ainda dispersa, o que não os impediu de controlar a Educação na Argentina durante o período Onganí (1966-70).
Já no Chile, a Opus Dei foi para o pinochetismo o que havia sido para o franquismo na Espanha. O principal ideólogo do regime,Jaime Guzmá, era membro activo da organização, assim como centenas de quadros civis e militares.

No México, a Obra conseguiu fazer Miguel de la Madrid presidente da República em 1982, iniciando a reversão da rígida separação entre Estado e Igreja imposta por Benito Juárez entre 1857 e 1861.

Internacional reacionária
A Opus Dei não criou o reacionarismo católico, antes, teve nele sua base de cultura. Mas sistematizou-o doutrinariamente e organizou politicamente seus adeptos de uma forma quase militar. Hoje, funciona como uma espécie de Internacional reaccionária, congregando, coordenadamente, adeptos em todo o mundo.
Concorrem para isto, nos anos 90, o ápice do poder da Obra no Vaticano e a invasão da América Latina por transnacionais espanholas.
A Argentina entregou suas estatais de telefonia, petróleo, aviação e energia á Telefónica, Repsol, Iberia e Endesa, respectivamente. A Telefónica controla o sector também no Peru e em São Paulo. A Iberia já havia engolido a LAN, do Chile, onde a geração de energia também é controlada pela Endesa. Bancos espanhóis também chegaram ao continente neste processo.
No Brasil, o Santander comprou o Banespa e o Meridional, enquanto que o BBVA recebeu os ativos do Excel através do Proer, no governo de Fernando Henrique Cardoso.
"A Opus Dei tem sido para o modelo neoliberal o que foram os dominicanos e franciscanos para as cruzadas e os jesuítas frente à Reforma de Lutero" compara José Steinsleger, colunista do diário mexicano "La Jornada".
A organização atua também no monopólio da imprensa. Controla o jornal "El Observador", de Montevidéu, e exerce influência sobre órgãos tradicionais da oligarquia como "El Mercurio", no Chile, "La Nación", na Argentina e "O Estado de São Paulo", no Brasil. O elo com a imprensa é o curso de pós-graduação em jornalismo da Universidade de Navarra em São Paulo, coordenado por Carlos Alberto di Franco, numerário e comentarista do "Estadão" e da Rádio Eldorado. O segundo homem da Opus Dei na imprensa brasileira é o também numerário Guilherme Doring Cunha Pereira, herdeiro do principal grupo de comunicação do Paraná ("Gazeta do Povo"). Os jornalistas Alberto Dines e Mário Augusto Jakobskind denunciam que a organização controla também a Sociedade Interamericana de Imprensa - SIP (na sigla em espanhol).
Sedeada na Espanha, a Universidade de Navarra é a jóia da coroa da Opus Dei no negócio do ensino. Sua receita anual é de 240 milhões de euros. Além disso, a Obra controla as universidades Austral (Argentina), Montevideo (Uruguai), de Piura (Peru), de Los Andes (Chile), Pan Americana (México) e Católica André Bello (Venezuela).
Dentro da igreja católica, a Opus Dei emplacou, na última década, vários bispos e Cardeais na América Latina. O mais notável é Juan Luís Cipriani, de Lima, no Peru, amigo íntimo da ditadura de Alberto Fujimori. Em seu estudo "El totalitarismo católico em el Peru", o jornalista Herbert Mujica denuncia que quando o Movimento Revolucionário Tupac Amaru tomou a embaixada do Japão, em 1997, Juan Luís Cipriani, valendo-se da condição de mediador do conflito, instalou equipamentos de escuta que possibilitaram à polícia invadir a casa e matar os ocupantes.
Na Venezuela, a Obra teve papel essencial no fracassado golpe de 2002 contra Hugo Chávez. Um dos articuladores da tentativa foi José Rodríguez Iturbe, nomeado ministro das Relações Exteriores. Também participou da articulação à embaixada da Espanha, governada na época pelo neo-franquista Partido Popular (PP).
Após os reveses na Venezuela, as esperanças da Opus Dei voltaram-se para Joaquím Laví, no Chile, e Geraldo Alckmin, no Brasil, hoje seus quadros políticos de maior destaque. Joaquím Laví foi derrotado nas últimas eleições presidenciais chilenas em Dezembro. Resta o Brasil, onde a Obra tenta fazer de Geraldo Alckmin presidente e formar um eixo geopolítico com os governos Álvaro Uribe (Colombia) e Vicente Fox (México), aos quais está intimamente associada.

Entranhas mafiosas
Além das dimensões religiosa e política, a Opus Dei tem uma terceira face: a de sociedade secreta de cunho mafioso. Em seus estatutos secretos, redigidos em 1950 e publicados em 1986 pelo jornal italiano "L´Expresso", a Obra determina que "os membros numerários e supernumerários saibam que devem observar sempre um prudente silêncio sobre os nomes dos outros associados e que não deverão revelar nunca a ninguém que eles próprios pertencem à Opus Dei."

Inimiga jurada da Maçonaria, ela copia sua estrutura fechada o que frequentemente serve para encobrir atos criminosos.
Entre os católicos, a Opus Dei é conhecida como "Santa Máfia",Emilio J. Corbiere lembra os casos de fraude e remessa ilegal de divisas nas empresas espanholas Matesa e Rumasa, em 1969, onde parte dos activos desviados financiaram a Universidade de Navarra. Bancos espanhóis são suspeitos de lavagem de dinheiro do narcotráfico e da máfia russa. A Opus Dei também esteve envolvida nos episódios de falência fraudulenta dos bancosComercial (Uruguai, pertencente à família Peirano, dona de "El Observador") e de Crédito Provincial (Argentina).
Na Argentina os responsáveis pelas desnacionalizações da petrolífera YPF e das Aerolineas Argentinas, compradas por empresas espanholas, em dois dos maiores escândalos de corrupção da história do país, tiveram sua impunidade assegurada pela Suprema Corte, onde pontificava António Boggiano, membro da Opus Dei.
No Brasil, as pretensões de controlo sobre o Judiciário esbarram no poder dos Maçons.
A Opus Dei controla, porém, o Tribunal de Justiça de São Paulo através da manipulação de promoções. Segundo fontes do meio jurídico paulista, de 25 a 40% dos juízes de primeira instância no estado pertencem à organização - proporção que se repete entre os promotores, no tribunal, a proporção sobe para 50 a 75%.
Recentemente, o tribunal, em julgamento secreto, decidiu pelo arquivamento de denúncia contra Saulo Castro Abreu Filho, braço direito de Geraldo Alckmin, acusado de organizar grupos de extermínio desde a secretaria de Segurança, e contra dois juízes acusados de participação na montagem desses grupos.
A fusão dos tribunais de Justiça e de Alçada, determinada pela Emenda Constitucional n.º 45, foi uma medida da equipe do ministro da Justiça, Mácio Thomaz Bastos, para reduzir o poder da Obra no judiciário paulista, cuja orientação excessivamente conservadora, principalmente em questões criminais e de família, é motivo de alarme entre profissionais da área jurídica.

por Henrique Júdice Magalhães
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