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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Cubanos: "Viemos para ser parceiros dos médicos brasileiros, respeitar e ser respeitados"




Oscar Martinez considera que a resistência de segmentos vai desaparecer com o bom trabalho
Cinco dos 176 médicos cubanos que desembarcaram em Brasília disseram não temer opiniões contrárias e demonstraram acreditar que, no final, trabalho será reconhecido

Por Hylda Cavalcanti, da RBA

As principais expectativas dos médicos cubanos recém-chegados ao Brasil consistem em trocar experiências com os demais profissionais e contribuir para melhorar a saúde pública no país. Mas eles demonstraram, desde que apareceram no saguão do aeroporto Juscelino Kubitschek, ontem (24) à noite, cuidado ao falar dos médicos brasileiros ao ressaltar que têm, como missão principal, zelar pelo trabalho em conjunto com os colegas da terra. Os cubanos também fizeram questão de citar detalhes sobre seus currículos, diante das críticas feitas por entidades médicas brasileiras a eles, nos últimos dias.

Muitos deixaram clara, ainda, a preferência em atuar no estado do Amazonas – pela grandiosidade e diversidade daquela unidade da federação e suas populações ribeirinhas – bastante mencionada durante a entrevista (com certo ar reservado, para não causar transtornos no caso de serem escolhidos para outros locais). Assim como por áreas do semiárido nordestino, como o interior do Ceará. Mas, repetindo o tom de cautela e diplomacia, frisaram várias vezes que não farão pedidos específicos e estão prontos para atuar em qualquer local do território brasileiro.

Nesta entrevista, cinco deles – a médica Yasiel Perez e os médicos Rodolfo Garcia,Oscar Martinez, Juan Rodriguez e Angel Perez – falam sobre o que os move na empreitada:

Qual a principal expectativa do trabalho a ser realizado por vocês no Brasil?

Yasiel Perez:
Sou médica, especialista em medicina geral integral. Como todos os médicos que agora estão chegando a este país, para nós é um prazer, algo muito grande para expressarmos. Sou a mais jovem da brigada, mas tenho 32 anos e muita experiência. Em meu país se estuda medicina durante seis anos consecutivos e se trabalha quatro anos com as famílias mais necessitadas, além de passar outros dois anos atuando no serviço social. Além dessa formação, trabalhei na Bolívia durante dois anos e quatro meses, com uma população muito difícil, bastante carente. Mediquei em lugares distantes, mas não é por isso que essa mulher que vocês veem hoje aqui voltou correndo para Cuba quando deparou com problemas.

Não temem protestos e manifestações de pessoas que se posicionem contrárias à vinda dos senhores ao país?

Yasiel Perez:
Vi e enfrentei muitas dificuldades na Bolívia e fiquei lá até o final da missão. Retornei ao meu país com uma qualificação satisfatória e é isso que quero repetir no Brasil, ao lado de todos os colegas. Queremos vencer, estamos contentes e esperamos cumprir nossa missão aqui. Esperamos que o povo brasileiro nos respeite como respeitamos a toda a população. Somente queremos ajudar, apoiar e contribuir para melhorar a saúde, para que a população tenha mais acesso aos serviços médicos. Somente queremos dar e receber amor.

Os senhores imaginam encontrar algo diferente do que já viram em outros países no trabalho a ser realizado agora, no interior do Brasil?

Rodolfo Garcia:
Tenho 36 anos como médico, já estive no Brasil e conheço bem o país. Uma turma de médicos que chega já conhece a região Norte do Brasil profundamente. Além disso, muitos dos colegas que compõem o grupo possuem mais de 20 anos formados como médicos, possuem mestrado e cursos de especialização e participaram de trabalhos diversos de cooperação em outros países da África e América Central, com participações no tratamento de vítimas de desastres naturais. Não acho que teremos qualquer dificuldade nesta missão.

Como os senhores avaliam os comentários de que médicos cubanos não estariam preparados para atender aos problemas de alta complexidade que possam vir a ser observados ao longo da missão?
Rodolfo Garcia: Viemos empolgados para a realização de um trabalho em regiões diferentes. Sabemos que no Brasil não há médicos em muitos lugares distantes. Sabemos também que há no Brasil muitos municípios carentes de médicos. Posso te assegurar que somos preparados e viemos com muita vontade de trabalhar e fazer a coisa andar. Cuba é um país pobre que não tem muitos recursos naturais, mas tem muitos médicos e especialistas que estão com disposição de ajudar o Brasil e fazer parcerias para aumentar a saúde do povo brasileiro. Estamos preparados, tenha a certeza.
E sobre a questão da remuneração que os senhores receberão, alvo de tantas polêmicas nas últimas semanas? O que têm a dizer sobre isso?

Rodolfo Garcia:
A primeira coisa que queremos que vocês compreendam é que o dinheiro, para nós, neste caso em questão, fica em segundo lugar. Vamos receber uma remuneração suficiente para ficar no Brasil. O restante do dinheiro vai voltar para Cuba, para ajudar hospitais, os doentes que estão precisando porque no nosso país a saúde é de graça. O nosso dinheiro está lá, nosso salário está sendo pago lá.

Na opinião dos senhores, o programa ‘Mais Médicos’, do governo federal, foi uma escolha acertada?
Rodolfo Garcia: Não estamos a par do projeto em sua totalidade, mas reconhecemos que o governo precisa de muita coisa e deu um bom passo na vinda dos médicos estrangeiros. Por tudo o que temos lido, a percepção que temos é de que estão sendo criadas condições para melhoria da saúde pública no país. Queremos fazer todo o esforço para caminhar juntos na resolução dos problemas e pela melhoria da qualidade de vida do povo mais carente do Brasil, aquele que não tem dinheiro para pagar médicos particulares, populações como as dos interiores mais distantes do Pará, Tocantins ou Amapá, onde muitos de nós já estivemos. Sinceramente, viemos com muita vontade de ajudar as pessoas.
Esperavam encontrar tamanha receptividade por parte das pessoas que vieram ao aeroporto recebê-los?

Rodolfo Garcia:
Não. É um prazer estar aqui. Estamos muito nervosos porque não esperávamos que vocês todos estivessem aqui, desse jeito. Mas estamos muito felizes também.
Como avaliam o estreitamento da cooperação entre Brasil e Cuba a partir deste trabalho?

Oscar Martinez:
Sem dúvida, como bastante positivo. Sou especialista em saúde da família, sou médico há 23 anos e há 19 concluí minha especialização. Não sei para onde vou, mas vim para fazer este trabalho. Queremos agradecer ao povo brasileiro. Os povos de Cuba e Brasil são irmãos há muito tempo, mas este trabalho de agora estreita muito mais os laços de cooperação e de irmandade entre nós. Temos várias expectativas boas. A mais importante é colaborar para haja acessibilidade para todos os que carecem de um serviço de saúde neste país.
Como imaginam que será a receptividade à chegada dos senhores pelo conjunto dos médicos brasileiros com quem vão trabalhar?

Oscar Martinez:
Viemos para trabalhar juntos. Nosso sentimento é de consideração para com os problemas dos médicos brasileiros. Vamos ter a oportunidade de trabalhar com eles, em lugares de acesso complicado, sabemos disso tudo, mas vamos acompanhá-los e trabalhar juntos pela nação brasileira. O principal objetivo nosso, a parte de trabalho como médicos, nesta missão, é estreitar a solidariedade do povo de Cuba com o povo brasileiro. Somos irmãos e a irmandade entre nós tem, agora, que ser mais forte.
E em relação aos protestos feitos por entidades medicas que são contrárias à chegada de médicos cubanos ao país? 
Oscar Martinez: Ainda estamos chegando no Brasil, não temos todos os elementos para responder completamente à sua pergunta. Só vou falar o seguinte: todas as questões ou programas, quando iniciados, estão sujeitos a críticas e compreendemos isso. Agora, vamos ficar aqui e esperar as últimas palavras sobre o nosso trabalho depois de algum tempo, quando nos conhecerem melhor. Certamente serão bem diferentes.
Alguns dos senhores têm preferência por algum estado específico para trabalhar?

Juan Rodrigues:
Conheço o Brasil, preferiria o estado do Amazonas, no Norte, ou estados nordestinos, mas tudo no Brasil nos interessa.
O que mais os incentiva na realização deste trabalho?

Angel Perez:
o exercício da profissão em regiões remotas e a cooperação médica. Estive recentemente em Honduras e em lugares também distantes e repletos de dificuldades, mas sempre trabalhando duro para que as pessoas possam desfrutar de boa qualidade de vida e a mesma coisa acontecerá no Brasil. Estamos vindo com o sentimento e o coração aberto para trabalhar junto com os médicos e todo o pessoal da área de saúde brasileira. Queremos ajudar a população e contribuir para melhoria da saúde pública no país.

Fonte: Solidários

domingo, 25 de agosto de 2013

Damasco tacha de "conspiração" as denúncias sobre uso de armas químicas

De  operamundi    



Para governo sírio, declarações se justificam após grupos opositores terem sentido que fracassaram


O primeiro-ministro sírio, Wael al Halqi, afirmou neste domingo (25/08) que as denúncias sobre a utilização de armas químicas por parte do regime de Damasco são "uma conspiração barata e clara" impulsionada pelos rebeldes.

Em reunião com o embaixador chinês na Síria, Zhang Xun, Al Halqi ressaltou que essas alegações foram feitas por "grupos terroristas e jihadistas armados após sentir seu fracasso".

O chefe de governo destacou, segundo as declarações divulgadas pela televisão síria, que os terroristas fracassaram em nível militar, político e econômico, e, por isso, "recorreram a falar do uso de armas químicas".

A oposição síria denunciou na quarta-feira passada (21/08) a morte de mais de mil pessoas em Guta Oriental e outras áreas da periferia de Damasco, em um suposto ataque com armas químicas perpetrado pelo regime.

As autoridades sírias negaram a autoria desse ataque e hoje autorizaram a visita a essa zona da missão da ONU encarregada de investigar o uso de armas químicas na Síria.



Al Halqi assegurou também que, na atualidade, a Síria está interessada em lutar contra o terrorismo e reconstruir o que os extremistas destroem.

Por sua parte, o embaixador chinês disse que seu governo está ciente do assunto das armas químicas e desempenhará "um papel positivo no Conselho de Segurança (da ONU) e na comunidade internacional".

Xun reiterou que Pequim rejeita a ingerência estrangeira na crise síria e defendeu uma solução política ao conflito, que começou em março de 2011 e causou mais de 100 mil mortes.

O protesto dos black blocs na Editora Abril


Mauro Donato  do Diário do Centro do Mundo
Eles pararam a marginal Pinheiros e queimaram exemplares da Veja.
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(FOTOS MAURO DONATO)

Eles se dizem a tropa de choque dos manifestantes. Com integrantes das comunidades Black Bloc Zona Sul, Black Bloc SP, Black Bloc ZL, Black Bloc Zona Oeste e Black Bloc Zona Norte, cerca de 300 pessoas cercaram a sede da Editora Abril na sexta (23). Tocaram fogo em uma pilha de exemplares da Veja.
Impossível, durante o ato, não me lembrar do filme Fahrenheit 451, de François Truffaut. Porém às avessas. Os restos carbonizados foram arremessados para dentro do prédio, por cima dos capacetes dos policiais.
A revista, em sua última edição, além de manipular uma entrevista com uma integrante do Ocupa Cabral, havia provocado com o trocadilho “caras tapadas” e distorcido definições sobre o movimento black bloc.
Ainda na concentração do protesto de sexta-feira, no Largo da Batata, os black blocs distribuíam um manifesto que ao mesmo tempo justificava o protesto e esclarecia o conceito.
“A revista Veja publicou uma matéria sobre o black bloc (…) numa estratégia de jogar a população contra os manifestantes e colocando medo nas pessoas de irem às ruas para lutar por mudanças no Brasil. Black blocs não são vândalos ou baderneiros, como a mídia quer que a população acredite. As informações são mentirosas e manipuladoras.
O que é black bloc? É uma tática de manifestação formada pelo povo (ressaltamos que não é um grupo, é uma ideia). Antes de tudo, o black bloc luta contra a corrupção e por um país mais justo e igualitário, não possuindo uma organização fixa.
Para fazer parte do black bloc basta estar vestido de preto e ir para frente em momentos de conflito para proteger os manifestantes. Alguns cobrem o rosto para não serem identificados e evitarem possíveis represálias em suas vidas pessoal ou profissional. (…) Os black blocs não iniciam os ataques, pelo contrário, eles se defendem dos ataques iniciados pela polícia que usa bombas de gás e de efeito moral e spray de pimenta. Contrataque somente em último caso, com o intuito de proteger o cidadão da truculência da polícia. Enquanto a maioria dos manifestantes oprimidos corre, os black blocs retardam os opressores ao máximo, fazendo barricadas e cordões de isolamento. É uma tática que zela pela segurança dos demais manifestantes epelo direito constitucional à livre manifestação. (… ) O black bloc faz o papel que o estado não faz que é de servir e proteger o cidadão que luta pelos seus direitos.”
O manifesto critica também a revista Época por publicar informações falsas acerca dos membros do Ocupa Alckmin, que acampam em frente ao Palácio dos Bandeirantes. Condenando uma postura imparcial dessas publicações, alerta o leitor: “Perceba que não se fala nos escândalos dos cartéis do metrô, nas PEC que irão favorecer somente os políticos, nos gastos exorbitantes com a Copa… Enquanto nos rotulam de vândalos por pichar uma parede, os políticos estão quebrando nosso país, sem educação, sem saúde, segurança, transporte de qualidade, além de corruptos estarem soltos.”
E termina:
“De que lado você está? Do lado de quem te oprime e te rouba todos os dias, ou do lado de quem quer te proteger e lutar por um Brasil mais justo? ”
O saldo da noite foi um manifestante preso, outro ferido, dois cinegrafistas contundidos e uma câmera despedaçada. Duas agências bancárias, três carros e algumas pichações podem entrar na conta dos black blocs.
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O que não dizem sobre os médicos cubanos

A grande imprensa brasileira, que nos últimos anos exacerbou, por incompetência e ideologia, a superficialidade que sempre a caracterizou, tem sido coerente ao tratar da vinda de quatro mil médicos cubanos: limita-se a noticiar o fato e reproduzir as críticas das associações corporativas de médicos e dos políticos oposicionistas. Mantém-se fiel à superficialidade que é sua marca, acrescida de forte conteúdo ideológico conservador e de direita.
Não conta, por exemplo, que médicos cubanos já trabalharam no Brasil, atendendo a comunidades pobres e distantes nos estados de Tocantins, Roraima e Amapá. Não houve nenhuma reclamação quanto à qualidade desse atendimento e nenhum problema com o conhecimento restrito da língua portuguesa. Os médicos cubanos tiveram de deixar o Brasil por pressão do corporativismo médico brasileiro – liderado por doutores que gostam de trabalhar em clínicas privadas e nas grandes cidades.
A grande imprensa não conta também que há mais de 30 mil médicos cubanos trabalhando em 69 países da América Latina, da África, da Ásia e da Oceania, lidando com pessoas que falam inglês, francês, português e dialetos locais. Só no Haiti, onde a população fala francês e o dialeto creole, há 1.200 médicos cubanos – que sustentam o sistema de saúde daquele país e, como profissionais com alto nível de educação formal, aprendem rapidamente línguas estrangeiras.
O professor John Kirk, da Universidade Dalhousie, no Canadá, estudou a participação de equipes de saúde de Cuba em vários países e é dele a frase seguinte: “A contribuição de Cuba, como ocorre agora no Haiti, é o maior segredo do mundo. Eles são pouco mencionados, mesmo fazendo muito do trabalho pesado”. Segredo porque a imprensa internacional – especialmente a estadunidense — não gosta de falar do assunto.
Kirk contesta o argumento de que os médicos cubanos que atendem as comunidades pobres em vários países não são eficientes por não dominar as últimas tecnologias médicas: “A abordagem high-tech para as necessidades de saúde em Londres e Toronto é irrelevante para milhões de pessoas no Terceiro Mundo que estão vivendo na pobreza. É fácil ficar de fora e criticar a qualidade, mas se você está vivendo em algum lugar sem médicos, ficaria feliz quando chegasse algum”.
O problema dos que contestam a vinda de médicos estrangeiros e, em especial dos cubanos, é que as pessoas que passam anos ou toda a vida sem ver um médico ficarão muito felizes quando receberem a atenção que os corporativistas do Brasil lhes negam e tentam impedir.

SOCIALISMO E GUERRA FRIA
Duas informações referentes à vinda de médicos cubanos para o Brasil e que podem ser úteis aos que querem ir além do que diz a grande imprensa:
- Cuba é um país socialista e por isso, gostemos ou não, as coisas não funcionam exatamente como em um país capitalista. Como é um país socialista, há a preocupação de manter baixos os índices de desigualdade econômica e social. Por isso nenhuma empresa ou governo estrangeiro contrata trabalhadores cubanos diretamente, em Cuba ou no exterior (nesse caso quando a contratação é resultado de um acordo entre estados). Todos são contratados por empresas estatais que recebem do contratante estrangeiro e pagam os salários aos trabalhadores, sem grande discrepância em relação ao que recebem os que trabalham em empresas ou organismos cubanos. Os médicos que trabalham no exterior recebem mais do que os que trabalham em Cuba. Mas algo como nem muito que seja um desincentivo aos que ficam, nem tão pouco que não incentive os que saem.
- O governo dos Estados Unidos tem um programa especial para atrair médicos cubanos que trabalham no exterior. Eles são procurados por funcionários estadunidenses e lhes são oferecidas inúmeras vantagens para “desertar”, como visto de entrada, passagem gratuita, permissão de trabalho e dispensa de formalidades para exercer a atividade. Os que atuam na América Latina são os mais procurados e uma condição para serem aceitos no programa é que critiquem o sistema político cubano e digam que os médicos no exterior são oprimidos e mantidos quase como escravos. Os que aceitam as ofertas dos Estados Unidos, os que emigram para outros países ou ficam no país que os recebe depois de terminado o contrato representam cerca de 3% dos efetivos. No Brasil, mantida essa média, pode-se esperar que até 120 dos quatro mil médicos cubanos “desertem”.
UM SISTEMA IRREAL
A citação a seguir é do New England Journal of Medicine: “O sistema de saúde cubano parece irreal. Há muitos médicos. Todo mundo tem um médico de família. Tudo é gratuito, totalmente gratuito. Apesar do fato de que Cuba dispõe de recursos limitados, seu sistema de saúde resolveu problemas que o nosso [dos EUA] não conseguiu resolver ainda. Cuba dispõe agora do dobro de médicos por habitante do que os EUA”.
Menções elogiosas ao sistema de saúde cubano e a seus profissionais são frequentes em publicações especializadas e ditas por autoridades médicas e organizações internacionais, como a Organização Mundial de Saúde, a Organização Panamericana de Saúde e o Unicef. Mas mesmo assim, querendo negar a realidade, médicos e políticos brasileiros insistem em negar o óbvio, chegando ao absurdo de dizer que nossa população está correndo riscos ao ser atendida pelos cubanos.
Para começar, os indicadores de saúde em Cuba são os melhores da América Latina e estão à frente dos de muitos países desenvolvidos. A mortalidade infantil, por exemplo (4,8 por mil), é menor do que a dos Estados Unidos. Aliás, para os que gostam de dizer que Cuba estava melhor antes da revolução de 1959, naquela época era de 60 por mil. A expectativa de vida dos cubanos é também elevada: 78,8 anos.
Outro aliás quanto aos saudosistas: em 1959, Cuba tinha seis mil médicos, sendo que três mil correram para os Estados Unidos quando viram que não haveria mais lugar para o sistema privado de saúde e que os doutores elitistas e da elite perderiam seus privilégios. Hoje tem 78 mil médicos, um para cada 150 habitantes, uma das melhores médias do mundo. Isso permite a Cuba manter mais de 30 mil médicos no exterior. Desde 1962, médicos cubanos já estiveram trabalhando em 102 países.
Em 2012 formaram-se em Cuba 5.315 médicos cubanos em 25 faculdades públicas e 5.694 estrangeiros, que estudam de graça na Escola Latino-americana de Medicina (Elam). A Elam recebe estudantes de 116 países, inclusive dos Estados Unidos, e já formou 24 mil estrangeiros.
Os médicos cubanos se formam após seis anos de graduação, incluindo um de internato, e mais três ou quatro anos de especialização. Os generalistas, que atendem no sistema Médico da Família (um médico e um enfermeiro para 150 a 200 famílias, e que moram na comunidade que atendem) são preparados para atuar em clínica geral, pediatria, ginecologia-obstetrícia e fazer pequenas cirurgias.
Dos quatro mil médicos que vêm para o Brasil, todos têm especialização em medicina de família, 42% já trabalharam em pelo menos dois países e 84% têm mais de 16 anos de atividade. Grande parte já atuou em países de língua portuguesa, na África e em Timor-Leste. Foi em Timor, a propósito, que ocorreu o fato seguinte: o embaixador estadunidense exigiu do então presidente Xanana Gusmão que expulsasse os médicos cubanos. Xanana perguntou quantos médicos dos Estados Unidos havia no Timor-Leste e quantos o país mandaria para substituir os mais de duzentos cubanos que estavam lá. Diante da resposta, de que havia apenas um, que atendia os diplomatas norte-americanos, e que não viria mais nenhum, Xanana, simplesmente, disse que os cubanos ficariam. E estão lá até hoje. Falando português.
OS LIMITES DO CORPORATIVISMO
1 – Sindicatos de trabalhadores existem para defender os interesses das categorias profissionais que representam. São corporativistas por definição.
2 – É natural que esses interesses conflitem com os de seus empregadores, especialmente em questões ligadas à remuneração e condições de trabalho.
3 – Muitas vezes os interesses de uma categoria batem de frente com interesses de outras categorias, e aí cada sindicato defende seus representados, o que também é natural.
4 – Outras vezes os interesses de uma categoria colidem com interesses do país e da sociedade. Essa é uma questão complicada: quem tem legitimidade para definir os interesses nacionais é a população, que só é consultada quando elege seus governantes e representantes. E esses governantes e representantes têm, muitas vezes, sua legitimidade contestada.
A contradição entre interesses corporativos e interesses nacionais e da sociedade, assim, só pode ser resolvida pelos que têm legitimidade para expressar esses interesses nacionais e da sociedade em seu conjunto.
Nos últimos dias, tivemos três bons exemplos de como os interesses corporativos colidem com os da sociedade. São três causas que podem interessar às categorias profissionais, mas violam a legislação e ferem os direitos humanos e sociais:
- O sindicato dos servidores no Legislativo defendeu que funcionários da Câmara e do Senado recebam remunerações que superam o teto salarial que deve vigorar para todos.
- O sindicato dos aeroviários defendeu a tripulação que criou absurdos e desnecessários constrangimentos a uma criança de três anos e a sua família, por causa de uma doença não infecciosa.
- Os sindicatos de médicos são contra o trabalho de médicos estrangeiros no Brasil, mesmo não havendo médicos brasileiros interessados no trabalho que eles vão fazer.
O corporativismo é inevitável, e os interesses corporativos devem ser discutidos e considerados. Não podem é prevalecer quando contrariam interesses e direitos da sociedade: o teto salarial dos servidores tem de ser respeitado, ninguém pode ser submetido a constrangimentos por causa de uma doença e as pessoas têm o direito de receber assistência médica, seja de um brasileiro ou de um estrangeiro.
SISTEMA CUBANO DÁ “DE LAVADA”
As frases a seguir são de um médico cubano radicado no Brasil desde 2000. Insuspeito, pois abandonou Cuba. Formou-se lá e se especializou em epidemiologia e administração da saúde. Trabalhou por dois anos em Angola e veio para Santa Catarina em um acordo da prefeitura de Irati com o governo de Cuba. Dois anos depois resolveu ficar no Brasil, onde vive com a mulher e quatro filhos. Critica o sistema de pagamento aos médicos, dizendo que ficava com 50% do que era pago pela prefeitura. Mesmo tendo “desertado”, não entra na onda dos médicos brasileiros e dos oposionistas de direita que atacam a vinda dos cubanos.
O que o médico cubano Alejandro Santiago Benítez Marín, 51 anos, disse ao portal G1:
“Em dois meses, eu já entendia perfeitamente tudo (diferenças culturais, língua). Fazer medicina é igual em todo o lugar, só muda o endereço”.
“Eu não sou contra que eles venham, não. Os médicos cubanos são muito bons, nossa medicina é a melhor do mundo. Só não concordo com a forma como o governo quer pagar, repassando o dinheiro para Cuba e Cuba vai decidir a quantia que vai repassar. Isso não tem cabimento”.

“Há médicos cubanos fazendo um excelente trabalho no Norte e Nordeste. O Conselho Federal de Medicina tem nos ofendido sem necessidade desde o início, chamando-nos de curandeiros, feiticeiros. Eu sou incapaz de ofender um médico brasileiro, mesmo conhecendo médicos brasileiros que cometem erros, a imprensa publica sempre. Tem médico ruim e bom tanto no Brasil quanto em Cuba. Não temos culpa do que está acontecendo no Brasil e que os médicos de fora têm que vir”.
“Em Cuba é bem mais fácil o atendimento, não tem esta fila que há hoje no SUS, em que há a demora de três meses para a realização de exames simples, como ultrassonografia ou ressonância. Em Cuba este exame é feito no mesmo dia ou na mesma semana. Esta demora faz o diagnóstico médico ter que esperar”.
“O sistema cubano dá ‘de lavada’ no SUS, tanto no atendimento normal quanto de emergência. A especialização nossa é muito boa, tanto que Cuba exporta médicos para mais de 70 países”.

Hélio Doyle é jornalista.

Fonte: Solidários