Translate

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

OBAMA: O ENGANADOR



Bruce Ackerman*, Foreign Policy
http://www.foreignpolicy.com/articles/2013/09/03/bait_and_switch_obama_syria_congress


A virada do presidente Barack Obama na questão da Síria chega como surpresa, dados seus recentes shows de desdém pelo Congresso. Há apenas poucos meses, as revelações de Edward Snowden forçaram o Diretor da Agência Nacional de Inteligência a admitir que mentira à Comissão de Inteligência do Senado – crime punível com cinco anos de prisão. Mas nem a confissão do crime fez com que o presidente substituísse Clapper por alguma cara nova que pudesse somar-se ao Congresso em alguma operação de limpeza, depois do escândalo da Agência de Segurança Nacional.
O show seguinte de unilateralismo de Obama aconteceu em resposta ao golpe militar no Egito. A Lei de Assistência a País Estrangeiro impede qualquer ajuda a país cujo “chefe de governo devidamente eleito seja deposto por golpe militar.” Mas mesmo depois de os militares egípcios terem moído manifestantes nas ruas, a Casa Branca ainda insistia que “não é do alto interesse dos EUA” determinar “se houve golpe ou não”. Apesar de protestos do Capitólio, não se viu sinal algum de que o presidente obedeceria à lei.
Quando o drama mudou-se para a Síria, a política de Obama variou no rumo oposto. Dessa vez, os EUA não pagariam o general Abdel Fattah el-Sisi para matar manifestantes, mas passariam a bombardear Bashar al-Assad por matar civis com armas químicas – o que não está provado que tenha acontecido. O secretário de Estado John Kerry lidera a carga, e o mundo prende a respiração na angústia de esperar os primeiros ataques, depois que, surpreendentemente, Obama buscou o Congresso.
Num momento de terrível ironia histórica, a derrota do primeiro-ministro David Cameron na Casa dos Comuns, foi a causa que precipitou o desesperado movimento do presidente. Durante quase mil anos, a Constituição britânica excluiu o Parlamento de declarar guerra – o rei exigia para si esse poder, como “prerrogativa real”. Mas na guerra de George III contra seus colonos rebeldes, passou a ser imperativo para os Pais Fundadores nos EUA determinar que seu novo presidente tivesse papel diferente – e esse novo papel implicava que o Congresso tomaria, nos EUA, as decisões cruciais sobre guerra e paz. E então, dois séculos depois, o velho Parlamento Britânico reaparece para aplicar uma lição ao presidente imperial do outro lado do mundo.
Foi só em 2003, que Tony Blair decidiu que sua aventura com George W. Bush exigia algo mais que um decreto real. Para reforçar sua legitimidade democrática, Blair requereu aprovação formal do Parlamento – que obteria, porque seu partido tinha firme maioria na Casa. Mas em 2013, Cameron já não passava de cabecilha de uma vacilante coalizão Tory-Liberal, e não conseguiu os votos de que precisava.
Assim, o presidente Obama, decidido a atacar militarmente a Síria, viu-se na lamentável posição de ter conseguido ainda menos que Bush.
Por mais terríveis que tenham sido os erros da Guerra do Iraque considerada a lei internacional, Bush e Blair conseguiram, sim, montar uma formidável “coalizão de vontades”. Por mais mentiras que Bush tenha mentido à opinião pública sobre as armas de destruição em massa de Saddam Hussein, ele, pelo menos, obteve a aprovação no Congresso.
Mas, no minuto em que os britânicos pularam fora, ficou claro que a coalizão internacional de Obama seria muito menos substancial que a outra, que apoiara Bush. E, se Obama não buscasse a aprovação do Congresso, se condenaria a ser atacado pela direita e pela esquerda, se sua intervenção unilateral lhe saísse pela culatra.
Obama mostrou potente instinto de autopreservação, nessa virada de último momento. Mas o ato terá consequências muito maiores do que as que Obama pretendia obter. É possível que tivesse ganho alguma coisa, vitória rápida e rasa, se tivesse proposto resolução ao Congresso que limitasse estritamente seu uso de força a um ataque cirúrgico, como dizia pretender fazer.
Mas a proposta formal que Obama enviou ao Congresso,[1] é, perfeita e acabada, uma operação para tentar enganar todos, todo o tempo. Por aquela proposta, o presidente ficaria autorizado a “usar as Forças Armadas dos EUA”, inclusive soldados para combate em solo, e a usar força militar “dentro, para e a partir da Síria”.
Ainda mais: o presidente poderia agir para deter “o uso ou proliferação” de “armas químicas e de outras armas de destruição em massa” e intervir para “proteger os EUA e seus aliados e parceiros contra a ameaça dessas armas”.
Seria nada menos que aprovação ‘preventiva’, pelo Congresso dos EUA para intervenção militar em todo o Oriente Médio e em qualquer lugar do mundo.
Essa espantosa iniciativa de Obama, de tão espantosa, teria de levar, como levou, ao exame detalhado de suas premissas – atitude de que os EUA precisam hoje quase desesperadamente, num momento em que o governo vacila, da mais crua realpolitik no Egito, para o mais hipócrita moralismo na Síria. Além do mais, não há chance de que a maioria do Congresso una-se a John McCain e Lindsey Graham para endossar a quase inacreditável ‘carta branca’ que Obama pediu.
De fato, os deputados Chris Van Hollen (D-MD) e Gerald Connolly (D-VA) já prepararam e distribuíram um outro texto de projeto de lei a ser votado[2] que só autorizará a missão limitada – a única da qual Obama falou publicamente em todas as suas falas para a opinião pública nos EUA.
O mais importante da nova proposta, é que o Congresso insiste em limite de tempo estrito para todos os usos de força – como foi feito na autorização ao presidente Ronald Reagan para que invadisse o Líbano em 1983. Mas, considerada a enorme diferença que separa essa limitação e a autorização absolutamente ilimitada que Obama pediu, deve-se esperar que alguma barganha de último minuto gere algum tipo de ‘solução intermediária’ que satisfaça a maioria nas duas Casas.
Seja como for, o debate que virá estará marcando o fim da era do 11/9. Os próximos presidentes já chegarão bem avisados de que o povo americano já não apoia intervenções militares de vasto alcance no mundo islâmico.
E mais uma boa coisa. Embora haja quem se preocupe com alguma perda de estatura de Obama de curto prazo, a grande preocupação de todos deve começar a ser a perda de credibilidade dos EUA de longo prazo – tanto moralmente, como resultado da conduta brutal dos EUA na guerra ao terror --, quanto, estrategicamente, pelas fracassadas intervenções militares no Iraque e pela ainda mais viciosa e pervertida luta por poder no Oriente Médio. Muito mais do que reduzir os efeitos daninhos dessas políticas fracassadas, o debate que se aproxima no Congresso deve abrir as portas para reavaliação total dos fundamentos dessas políticas.
[Mas... Atenção, América Latina: Obama, o enganador, pode estar jogando muito alto, pensando em ganhar noutras frentes! OJO! ALERTA! (NTs)]
Paradoxalmente, tudo isso pode libertar Obama para que se engaje em iniciativas diplomáticas mais construtivas. A defesa de um Acordo de Livre Comércio com a Europa tem probabilidade muito mais alta de gerar resultados duradouros, que o frenesi do secretário Kerry, que tenta alucinadamente inventar um acordo entre israelenses e palestinos. A virada de Obama para a Ásia [atenção, Rússia! Atenção, China!] pode ser complementada por uma virada para a América Latina [atenção, América Latina!], cujos problemas fundamentais são sistematicamente ignorados por uma Casa Branca continuamente atropelada pela mais recente crise no Oriente Médio.
Mas tudo isso é para o futuro. O ponto crucial é perceber que algo especial está acontecendo. Uma disputa contra um déspota de liga de futebol de segunda-divisão está provocando uma grande virada na política dos EUA para o mundo. É momento em que o Congresso tem de encarar suas responsabilidades com a máxima seriedade. **************
* Bruce Ackerman é professor de Direito e Ciências Políticas em Yale e autor de The Decline and Fall of the American Republic.
[1] Texto em inglês, da proposta que Obama encaminhou ao Congresso dos EUA está em http://www.cnn.com/2013/08/31/us/obama-authorization-request-text/index.html?hpt=hp_t1. Aquela proposta, se aprovada, lhe daria poder ilimitado, para fazer o que bem entendesse [NTs].
[2] 3/9/2013, New York Times, “Senate Resolution on Syria”, RESOLUÇÃO CONJUNTA A SER VOTADA (traduzida em http://goo.gl/P0qNth).

Fonte: PÁTRIA LATINA

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Esquema Siemens operou na administração de Aécio Neves, denuncia empresário


Brockveld denunciou esquema da Siemens no governo mineiro durante a era FHC
Brockveld denunciou esquema da Siemens no governo mineiro durante a era FHC

Em meio ao escândalo do chamado ‘propinoduto tucano’, denunciado pela Siemens, em que empresas fornecedoras de equipamentos e de serviços em trens e metrô nas gestões Mario Covas, José Serra e Geraldo Alckmin superfaturaram R$ 577 milhões, o equivalente a 30% a mais do que os governos pagariam se não houvesse esquema, outros casos envolvendo a empresa igualmente estão sendo investigados, mas ainda permanecem ofuscados. Os fatos foram publicados no jornal mineiro Novo Jornal.

Leia, a seguir, os detalhes da denúncia:
Até 2005, repousou em uma gaveta do empresário catarinense Edson Maurício Brockveld um envelope lacrado de papel pardo. Em uma das faces do invólucro estão registradas cinco assinaturas de membros da Comissão Especial de Licitação dos Correios. Dentro, segundo ele, está a prova de que a corrupção na ECT começou, ou tinha prosseguimento, ainda no governo Fernando Henrique Cardoso.
Dono da Brockveld Equipamentos e Indústria Ltda., o empresário esperou até 2005, ocasião da CPMI dos Correios para abrir publicamente o envelope. Seu objetivo era provar ter sido preterido em uma concorrência, em 2000, em favor de duas empresas estrangeiras, a alemã Siemens e a francesa Alstom, ambas com propostas supostamente superfaturadas.
Brockveld alega ter calculado em R$ 48 milhões o contrato de compra de equipamentos de movimentação e triagem de carga interna oferecido à ECT. A dupla vencedora cobrou quase o dobro. De quebra, diz o empresário, as escolhidas passaram a gerenciar outros três contratos no valor de US$ 100 milhões (R$ 230 milhões).
Em 22 de dezembro de 1999, a ECT abriu a concorrência internacional 016/99 para compra e manipulação de equipamentos de sistemas de movimentação e triagem interna de carga. Interessado no negócio, Edson Brockveld conta que, nos dois anos anteriores à licitação, desenvolveu, junto ao setor de engenharia dos Correios, diversos equipamentos e realizou testes em parceria com as empresas Portec e Buschman, ambas dos Estados Unidos.
Segundo ele, a pedido da diretoria da ECT, a Brockveld Equipamentos chegou a trazer engenheiros americanos para fazer as demonstrações e, assim, ganhar a confiança da direção da estatal. O presidente da empresa era Hassan Gebrin, ligado aos grupos políticos do então governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz (PMDB), e do ex- senador e ex-governador também do Distrito Federal José Roberto Arruda (PFL-DF).
A indicação havia sido avalizada pelo então ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga. Para garantir uma boa posição no processo licitatório, a Brockveld fez um consórcio com a japonesa NEC, uma das gigantes mundiais do setor de tecnologia de ponta. Pelo acordo, cada empresa seria responsável por um setor.
A empresa brasileira cuidaria do maquinário de movimentação postal e a NEC dos equipamentos de comunicação e segurança. Dois dias antes da licitação, no entanto, sem nenhum sinal prévio, conta Edson, o então diretor da NEC no Brasil, Marcos Sakamoto, informou à Brockveld que não poderia participar da licitação.
Alegou, segundo o empresário catarinense, atender a um pedido da direção da Siemens, que não queria a participação das duas empresas na licitação. No dia da abertura das propostas, Edson Brockveld diz ter sido diretamente convidado pelas empresas Mannesmann Dematic Rapistan, Siemens e Alstom a não participar da concorrência da ECT, pois estaria tudo certo que as duas últimas seriam as vencedoras da licitação.
Brockveld alega ter ignorado a oferta e participado, assim mesmo, do processo. No dia da licitação, o edital previa que fossem abertos os envelopes relativos à habilitação técnica e comercial. Porém, ao ser constatado que a Brockveld Equipamentos iria participar da licitação, e pelo fato de os concorrentes não saberem se a empresa estava ou não com os documentos em ordem, foi feita uma proposta à ECT de emissão de um parecer único da proposta técnica e de habilitação, em desacordo com o estabelecido no edital de licitação.
Feito isso, a Brockveld e a Mannesmann acabaram sumariamente inabilitadas tecnicamente. A Mannesmann imediatamente recorreu, mas teve o pedido indeferido. Ambas receberam, lacrados, os envelopes com as propostas de volta. Siemens e Alstom foram às escolhidas. Detalhe: a empresa francesa embolsou US$ 15 milhões e deu o cano na ECT, por este motivo foi processada pelos Correios e substituída em seguida, pela NEC.
Logo depois, a direção da Brockveld foi procurada pelas empresas vencedoras. Teriam pedido para que ela não entrasse com recurso administrativo. Em troca, os executivos da Siemens e da Alstom dariam parte do projeto para a perdedora. Ou seja, comprariam da empresa brasileira os equipamentos previstos no contrato.
Com a Alstom, o acordo foi assinado na noite do dia 23 de fevereiro de 2000. A empresa foi representada, segundo Edson Brockveld, por um diretor chamado Jean Bernard Devraignes. A Siemens, no entanto, esperou a data-limite para entrada de recurso, 24 de fevereiro de 2000, para assinar o acordo, em Brasília.
Naquele dia, para ter certeza de que tudo sairia conforme combinado, Hélcio Aunhão, diretor da Siemens, foi ao aeroporto da capital federal encontrar com Brockveld, então disposto a entrar com o recurso administrativo contra o resultado da licitação, o que nunca aconteceu. Depois de assinados os contratos, no entanto, as empresas vencedoras não honraram os acordos.
Edson Brockveld, então, esperou o momento certo de se vingar. A crise desencadeada a partir das denúncias de corrupção, justamente nos Correios, lhe pareceu à oportunidade ideal. O empresário foi ao Congresso Nacional para entregar toda a documentação sobre o caso a então senadora, hoje ministra Ideli Salvatti.
Disse a ela ter tomado a iniciativa de denunciar o caso cinco anos depois porque, impedido de participar da licitação e traído por empresas internacionais, achava que a CPMI dos Correios iria se interessar pelo caso. Por isso havia decidido ir pessoalmente ao Senado. Ele disse à senadora que, em princípio, não teria interesse em entrar em briga judicial contra a ECT, mas pretendia acionar a Siemens e a Alstom por quebra de contrato.
O diretor-regional de Vendas da Siemens no Brasil, Hélcio Aunhão, negou, na Sub-relatoria de Contratos da CPMI dos Correios, as acusações de que a empresa teria feito conluio com a Alston para que a Brockveld se retirasse da licitação do sistema de triagem interna de cargas dos Correios.
Aunhão confirmou ter assinado termos de intenção de compra de alguns equipamentos com a Brockveld, transação que, segundo Edson Maurício, serviria para compensar a empresa que se retirou, mas disse que a compra não foi realizada porque a empresa fornecedora não teria cumprido as condições estipuladas no contrato.
O sub-relator, então deputado federal, hoje Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, afirmou na audiência que a CPMI iria solicitar ao Ministério Público o aprofundamento da investigação sobre o caso.
O Ministério Público brasileiro obteve de autoridades da Suíça, este ano, a confirmação da existência de contas do operador do esquema junto ao Metrô de São Paulo, Roberto Marinho, no exterior. Agora, espera-se no MP a chegada de novas informações, vindas do Principado de Liechtenstein, vizinho à Suíça, de forma a rastrear o trânsito de grandes recursos no circuito de empresas e bancos do paraíso fiscal.
Segundo as autoridades o alimentador desse esquema seria a multinacional Alstom, que teria feito “acordo”, com os tucanos antes mesmo da Siemens e em relação ao Metrô de São Paulo, ou seja, no período que ocorreu às irregularidades no Correios, quando Pimenta da Veiga era Ministro das Comunicações de FHC.
Na multinacional alemã, o presidente no Brasil, Peter Loscher, foi afastado do cargo, numa responsabilização indireta sobre a gestão que teria participado de um cartel formado por 15 empresas, todas participantes de um esquema de pagamento de propinas aos tucanos.
Manga na carta
Ainda segundo o autor do texto, Marco Aurélio Carone, “os mineiros, desde o Império, têm sempre na manga uma carta, como agora que, enquanto o CADE vaza informações a respeito do ocorrido em São Paulo, os arquivos permanecem fechados em relação aos acontecimentos ocorridos em Minas Gerais, sob a guarda de Rutelly Marques da Silva, Conselheiro da Light indicado por Aécio Neves”, quando ainda ocupava o cargo de governador do Estado.
A” exemplo do ex-procurador de Justiça de Minas Gerais Fernando Antônio Fagundes Reis, Rutelly, no mínimo, exerce o cargo na concessionária em claro conflito de interesse. Depois de pesada crítica do MPMG, Fagundes Reis, por determinação do CNMP, optou pelo cargo na Light. Rutelly, nascido em 20 de janeiro de 1975, é Bacharel em Ciências Econômicas pela Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais e Mestre em Economia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais. De 2003 a 2008, período que Aécio foi governador de Minas Gerais, exerceu o cargo de Assessor Técnico e Coordenador-Geral de Defesa da Concorrência e, posteriormente, de Coordenador-Geral de Energia da Secretaria de Acompanhamento Econômico, órgão do Ministério da Fazenda. Desde 04 de agosto de 2008 vem atuando como Secretário Adjunto desse mesmo órgão”, acrescenta o texto.
Ainda segundo o Novo Jornal, “numa entrevista para um programa de TV no auditório do Ibmec em São Paulo, Adilson Antônio Primo foi apresentado como o CEO que não fez MBA e que nunca foi demitido. Por quê? ‘Eu acho que a trajetória profissional acaba definindo os rumos que você toma dentro da empresa. Até agora, parece que não foi o rumo errado’, respondeu ele”. Dois anos depois, Primo foi demitido porque, segundo comunicado divulgado pela matriz na Alemanha, ‘foi descoberta uma grave contravenção das diretivas da Siemens na sede nacional, ocorrida antes de 2007′. A empresa nunca explicou o que quis dizer com ‘grave contravenção’, mas deixou vazar a informação de que Primo teve seu nome envolvido em um suposto desvio de dinheiro, ocorrido entre 2005 e 2006, que lhe teria rendido 6,5 milhões de euros”.

“Como CEO da Siemens, Adilson Primo também frequentava os eventos políticos e sociais. Não faltava aos encontros com autoridades, como ocorreu em julho de 2011, quando ele e o governador tucano Antonio Anastasia, de Minas Gerais, selaram com as mãos colocadas umas sobre as outras, como fazem os jogadores de futebol antes de entrarem em campo, o acordo para a construção de uma fábrica da Siemens em Itajubá, no sul do Estado. Já sem a presença de Primo no comando da Siemens, a empresa anunciou a desistência do projeto. O motivo seria a crise européia. Mas Adilson Primo foi para Itajubá, cidade que tem menos de 100 mil habitantes e é famoso no município por ocupar uma nova secretaria, encarregada entre outras atividades de conduzir a elaboração do novo Plano Diretor”, afirma.

Fonte: Correio do Brasil

Carta aos médicos cubanos

Enviado por Miguel Gonçalves Trujillo Filho



David Oliveira de Souza

Bem-vindos, médicos cubanos. Vocês serão muito importantes para o Brasil. A falta de médicos em áreas remotas e periféricas tem deixado nossa população em situação difícil. Não se preocupem com a hostilidade de parte de nossos colegas. Ela será amplamente compensada pela acolhida calorosa nas comunidades das quais vocês vieram cuidar.
A sua chegada responde a um imperativo humanitário que não pode esperar. Em Sergipe, por exemplo, o menor Estado do Brasil, é fácil se deslocar da capital para o interior. Ainda assim, há centenas de postos de trabalho ociosos, mesmo em unidades de saúde equipadas e em boas condições.
Caros colegas de Cuba, é correto que nós médicos brasileiros lutemos por carreira de Estado, melhor estrutura de trabalho e mais financiamento para a saúde. É compreensível que muitos optemos por viver em grandes centros urbanos, e não em áreas rurais sem os mesmos atrativos. É aceitável que parte de nós não deseje transitar nas periferias inseguras e sem saneamento. O que não é justo é tentar impedir que vocês e outros colegas brasileiros que podem e desejam cuidar dessas pessoas façam isso. Essa postura nos diminui como corporação, causa vergonha e enfraquece nossas bandeiras junto à sociedade.
Talvez vocês já saibam que a principal causa de morte no Brasil são as doenças do aparelho circulatório. Temos um alto índice de internações hospitalares sensíveis à atenção primária, ou seja, que poderiam ter sido evitadas por um atendimento simples caso houvesse médico no posto de saúde.
Será bom vê-los diagnosticar apenas com estetoscópio, aparelho de pressão e exames básicos pais e mães de família hipertensos ou diabéticos e evitar, assim, que deixem seus filhos precocemente por derrame ou por infarto.
Será bom vê-los prevenindo a sífilis congênita, causa de graves sequelas em tantos bebês brasileiros somente porque suas mães não tiveram acesso a um médico que as tratasse com a secular penicilina.
Será bom ver o alívio que mães ribeirinhas ou das favelas sentirão ao vê-los prescrever antibiótico a seus filhos após diagnosticar uma pneumonia. O mesmo vale para gastroenterites, crises de asma e tantos diagnósticos para os quais bastam o médico e seu estetoscópio.
Não se pode negar que vocês também enfrentarão problemas. A chamada "atenção especializada de média complexidade" é um grande gargalo na saúde pública brasileira. A depender do local onde estejam, a dificuldade de se conseguir exame de imagem, cirurgias eletivas e consultas com especialista para casos mais complicados será imensa. Que isso não seja razão para desânimo. A presença de vocês criará demandas antes inexistentes e os governos serão mais pressionados pelas populações.
Para os que ainda não falam o português com perfeição, um consolo. Um médico paulistano ou carioca em certos locais do Nordeste também terá problemas. Vai precisar aprender que quando alguém diz que está com a testa "xuxando" tem, na verdade, uma dor de cabeça que pulsa. Ou ainda que um peito "afulviando" nada mais é do que asia. O útero é chamado de "dona do corpo". A dor em pontada é uma dor "abiudando" (derivado de abelha).
Já atuei como médico estrangeiro em diversos países e vi muitas vezes a expressão de alívio no rosto de pessoas para as quais eu não sabia dizer sequer bom dia --situação muito diferente da de vocês, já que nossos idiomas são similares.
O mais recente argumento contra sua vinda ao nosso país é o fato de que estariam sendo explorados. Falou-se até em trabalho escravo. A Organização Pan-americana de Saúde (Opas) com um século de experiência, seria cúmplice, já que assinou termo de cooperação com o governo brasileiro.
Seus rostos sorridentes nos aeroportos negam com veemência essas hipóteses. Em nome de nosso povo e de boa parte de nossos médicos, só me resta dizer com convicção: Um abraço fraterno e muchas gracias.
DAVID OLIVEIRA DE SOUZA, 38, é médico e professor do Instituto de Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês. Foi diretor médico do Médicos Sem Fronteiras no Brasil (2007-2010)

“Os brasileiros podem esperar o melhor dos médicos cubanos”, afirma cônsul



Do MAB
“Os brasileiros podem esperar o melhor dos médicos cubanos que estão chegando. São profissionais extremamente bem preparados, todos com mais de 15 anos de experiência, que já estiveram em missões em outros continentes, como África e Ásia. São profissionais que atuaram em momentos de crise, em locais atingidos por terremotos, por exemplo. E, acima de tudo, são pessoas preparadas para atuar na prevenção, no cuidado com a saúde na atenção básica e para estar muito próximos do cotidiano das comunidades que mais precisam. Digo à população brasileira que pode contar com o carinho e a solidariedade dos médicos cubanos para cuidar de sua saúde”. 
A afirmação é do cônsul de Cuba em São Paulo, Alexander Cañede, referindo-se à chegada dos médicos cubanos para atuar no Programa Mais Médicos do governo federal. Junto com mais de três mil pessoas vindas de todo o Brasil, Cañede participou da abertura do Encontro Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens, na segunda-feira, 2 de setembro, em Cotia, São Paulo. 

O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), assim como os demais movimentos sociais do campo ligados à Via Campesina, e movimentos sindicais e populares urbanos, apoia a vinda dos profissionais médicos cubanos, por entender que a necessidade de mais médicos no campo, pequenos municípios e periferias das cidades é muito grande. A presença do cônsul foi saudada pelos presentes ao Encontro do MAB, que salientaram a importância da solidariedade entre os povos no avanço das demandas populares. A militante do MAB Cida Lessa, atingida pela barragem de Manso, em Mato Grosso, que acaba de se formar em engenharia em Cuba, falou em nome de todos os brasileiros que estudam naquele país. “Desejo as boas vindas a todos os médicos cubanos que irão contribuir com a saúde da classe trabalhadora aqui no Brasil”, afirmou. 
 O cônsul cubano também comentou a relevância do Encontro Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens. “Apoiamos completamente o evento e a discussão da geração de energia com soberania dos povos, com igualdade de acesso, defesa do meio ambiente e, principalmente, da vida e da dignidade humanas”, afirmou. Ele lembrou de um discurso de Fidel Castro à época da Eco 92, há 21 anos, quando o então presidente cubano afirmou que o desenvolvimento dos países não pode se sobrepor à vida.