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Caracas (Prensa Latina) O fascismo possui várias facetas e muda conforme as épocas para novas formas de dominação como a referente aos meios de comunicação em massa, presentes nas mais recentes tentativas de desestabilização promovidas pela direita contra governos progressistas na América Latina. Participantes do I Encontro Internacional Antifascista, convocado em Caracas a 40 anos do Golpe de Estado no Chile, puseram a descoberto este processo de transmutação experimentado pelo fascismo desde sua criação nas primeiras décadas do século XX: uma de suas caras mais relevantes na atualidade deriva de sua matriz mediática. De acordo com o jornalista e catedrático espanhol Ignacio Ramonet, o papel dos meios de comunicação nos golpes de Estado executados na América Latina, evidenciam a manipulação como uma das especialidades do fascismo, bem como a fascinação pelo controle dos meios. Ao fazer uma contagem histórica desta manifestação política, Ramonet recordou a vinculação desde cedo entre fascismo e imprensa: assim, por exemplo, o ditador italiano Benito Mussolini -criador desta vertente ideológica- utilizava seu jornal para mobilizar massas e criar massas antiprogressistas, precisou. Mais tarde, os nazistas na Alemanha -com Adolph Hitler, grande admirador de Mussolini- desenvolveram um sistema mediático, onde se destacou a propaganda com um ministro como Joseph Goebbels que utilizava os meios para manipular às massas. Sobre esse ponto, o catedrático espanhol recordou que desde suas origens "a comunicação e a manipulação da mesma constituiu uma das especialidades do fascismo". Não obstante, a diferença da Europa onde -segundo Ramonet- os meios eram impulsionados historicamente pelo Estado, na América Latina por tradição estadunidense estes se desenvolveram a partir de iniciativas e capital privado. Por isso, esse caráter privado será característico da guerra mediática à que assistimos há 40 anos, que começou com o golpe de Estado contra o presidente chileno Salvador Allende e não terminou, disse o jornalista. Como demonstração mais recente de seus argumentos citou a campanha mediática que contribuiu em 2009 à derrubada do mandatário hondurenho, Manuel Zelaya, ou o caso do Paraguai e o golpe parlamentar contra o presidente Fernando Lugo, em 2012. Em todo este período a imprensa deveio expressão das oligarquias que já dominavam estes países, com todos seus recursos como a terra, o comércio, a banca e até o mesmo poder, explicou o catedrático ao recordar a posse dos meios de comunicação de massas por tais classes como elemento de propaganda de suas próprias ambições. Daí que vemos -especificou- uma América Latina onde os meios de grupos de comunicação privados se jactam de ter feito e desfeito governos, posto e deposto presidentes, e que fazem parte do poder tradicional, das oligarquias e burguesias que se consideram donas naturais do país. Assim, pareceria normal que a burguesia governe porque o país sob esta visão lhes pertence, e por isso quando a maioria pobre e explorada acede democraticamente ou chega por qualquer circunstância ao poder e aspira à redistribuição da riqueza mal repartida para acertar a dívida social, então não se aceita este tipo de partilha. Desde esse momento põe-se em marcha o mecanismo do golpe: na América Latina nenhum governo com vontade de mudança social -exceto Cuba desde 1959- conseguiu manter-se no poder antes do triunfo do presidente Hugo Chávez na Venezuela, explicou Ramonet, ao denotar a significação da Revolução Cubana e Bolivariana para o acordar do continente. Por sua vez, o vice-presidente boliviano, Álvaro García Linera, manifestou que o fascismo tem tido muitas caras: a princípios do século XX era um fascismo expansionista que invadia, na década de 1960 e 1970 era um fascismo golpista-militarista, dimensionou. Hoje não há nem o rosto do invasor nem o rosto da ditadura militar, hoje há outro rosto: além da conspiração econômica, financeira, existe a mediática: É fascismo, mas sob novas formas, detalhou. Conhecedora da cara mediática do fascismo, a ex-chanceler hondurenha, Patricia Rodas, expressou que esta vertente política "se transforma em expressões específicas que se transladam do ultramar para nosso continente com a intenção de esmagar todos os processos de transição e transformação democrática em curso". Para tal fim, o fascismo então começa a mudar e a procurar novos mecanismos de dominação e de extravio mental que correspondam a essas novas formas de manifestação social que vão aparecendo, asseverou em declarações Prensa Latina. Nesse sentido, a ex-ministra de Relações Exteriores do derrocado governo de Zelaya fez notar também a evolução dos métodos do fascismo desde os clássicos golpes militares para outras vias desestabilizadoras na atualidade como a guerra econômica e sobretudo na esfera mediática. Tal estratégia é explicável se se entende que com a chegada dos novos tempos e das transformações sociais as armas de agressão fascistas evoluem e se transformam enquanto evoluem e se transformam os setores que pretendem agredir, precisou. Desse modo, quando vimos a queda das ditaduras militares isso não quis dizer que desapareceram a repressão e os mecanismos de perseguição, mas que esta se transformou em outras formas como a manipulação mediática, denunciou. É do modo que começamos a receber notícias e realidades deformadas e começou-se a injetar preconceitos a cidadãos de uma mesma sociedade que padecemos os mesmos males e se aprofundou na estigmatização do que é diferente ou de propostas inovadoras, agregou. Inclusive a política de difamação, mentira e engano converte-se em uma cultura de ódio, tudo isso através dos meios de comunicação com seus respectivos mecanismos de formação de consciência para manter sob seu domínio do terror a setores importantes da população, expressou Rodas. Acrescentou que a estratégia do terrorismo mediático pretende a divisão e desintegração social mediante o ódio: "com isso se aspira destruir esse tecido que fundamentou os Estados-Nação e a necessidade de nos integrar não só como sociedade como um com o outro, e de reconhecer as lutas de um continente e de nossos próceres". Não obstante, contra esse mal atualmente luta-se pela integração de nossas pátrias latino-americanas, para conseguir uma forma de associação continental que não seja excludente e permita a eliminação do preconceito e do temor como base fundadora das grandes contradições que ameaçam o século XXI, afirmou. A este respeito, considerou vital a solidariedade continental entre os povos pois só assim poderá ser enfrentado com sucesso o fascismo em qualquer lado que este se encontre, dimensionou. *Corresponsável da Prensa Latina na Venezuela jha/mem/cc |
sábado, 28 de setembro de 2013
A transmutação do fascismo: a matriz mediática
Programas político, espacial e nuclear indianos são alvo da NSA
Interesses comercias estratégicos do país podem ter sido seriamente comprometidos. De acordo com um documento secreto revelado pelo ex-consultor da NSA, Edward Snowden, ao qual o jornal The Hindu teve acesso, o programa PRISM foi empregado pela agência norte-americana para colher informações vitais da Índia diretamente dos servidores de empresas gigantes de tecnologia que prestam serviços como e-mail, compartilhamento de vídeo, chamadas por IP, chats, transferências de arquivos e redes sociais.
Por Shobhan Saxena
As alegações públicas feitas por membros do governo dos EUA e da Índia de que a National Security Agency (NSA) não tirou nenhum tipo de conteúdo da rede de telefonia e de internet indiana e que o programa de vigilância estadunidense procurou apenas “padrões de comunicação” como medida contra o terrorismo estão longe da verdade, ou podem ser até mesmo completamente enganosas.
De acordo com um documento top-secret revelado por Edward Snowden ao qual o The Hindu teve acesso, o programa PRISM foi empregado pela agência norteamericana para colher informações vitais da Índia diretamente dos servidores de gigantes de tecnologia que prestam serviços como email, compartilhamento de vídeo, chamadas por IP, chats, transferências de arquivos e redes sociais.
E, de acordo com o documento sobre o PRISM visto pelo The Hindu, grande parte da comunicação que foi alvo da NSA não tem nada a ver com terrorismo, ao contrário do que dizem autoridades indianas e estadunidenses.
Pelo contrário, muito do que foi espionado tem a ver com a política interna indiana e os interesses estratégicos e comerciais do país.
Essa é a primeira vez que é revelado que o PRISM, que facilita minuciosa vigilância em comunicações ao vivo e em dados armazenados, foi usado pela maior organização de vigilância do mundo, para interceptar e colher conteúdo relacionado a pelo menos três pontos de interesse geopolítico e econômico para a Índia. São eles: nuclear, espacial e político.
O documento altamente secreto da NSA, que tem o selo de “Special Source Operation”, chama “Uma semana na vida do PRISM”, e mostra “amostras de tópicos de 2 a 8 de fevereiro de 2013”. Com uma etiqueta verde em que se lê “589 relatórios finais”, o documento traz os logotipos de companhias como Gmail, Facebook, MSN, Hotmail, Yahoo!, Google, Apple, Skype, YouTube, paltalk.com e AOL no topo da página.
“Relatórios finais” são relatórios oficiais produzidos a partir de informação bruta.
Numa seção intitulada “Índia”, o documento indica claramente várias matérias sobre que tipo de conteúdo foi colhido de vários servidores na internet no intervalo de apenas uma semana.
Esse documento é prova contundente de que a vigilância da NSA na Índia não se restringia a registrar telefonemas, mensagens de texto e logs de emails com o Boundless Informant, uma ferramenta da NSA usada massivamente na Índia. “Como política, espaço e nuclear são mencionados como ‘produtos finais’ nesse documento, isso quer dizer que telefones, emails e mensagens de texto de pessoas importantes relacionadas a esses assuntos foram constantemente monitorados e foi recolhida inteligência deles, e então a NSA preparou relatórios mais refinados com base nessa informação bruta. Isso quer dizer que eles ouvem ao vivo o que nossos líderes políticos, burocratas e cientistas estão conversando entre si” , disse um membro de uma agência de inteligência indiana ao The Hindu, falando sob a condição de se manter anônimo.
Mas ministros e membros do alto escalão do governo insistem em negar.
Depois que o Guardian publicou, em 7 de junho, que o programa PRISM permitiu que a NSA “obtivesse comunicação específica sem requisitar aos servidores de internet e sem precisar de ordens judiciais para cada caso”, membros tanto do governo dos EUA quanto da Índia disseram que nenhum tipo de conteúdo foi extraído das redes do país e que o programa visava “combater o terrorismo”.
O disfarce de Kerry
Durante sua visita a Nova Delhi, em 24 de junho, para participar do India-U.S. Strategic Dialogue, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, negou que programas de agências de seu país acessassem conteúdo online. “Ele não vê o conteúdo de emails. Ele não ouve conversas telefônicas das pessoas. É uma pesquisa aleatória feita por computador nos telefones de qualquer pessoa, pelos números e não pelo nome... Ele pega números aleatórios e verifica se esses números estão ligados a outros números, que ele sabe, por conta da inteligência, estejam ligados a terroristas, em lugares onde esses terroristas operam”, disse o sr. Kerry, enfatizando que apenas quando há um “vínculo relevante” as autoridades pedem uma ordem judicial para recolher mais dados.
Até os membros do governo indiano têm repetido tudo isso desde que as atividades da NSA no país foram reveladas. Em resposta a uma pergunta feita em Rajya Sabha, em 26 de agosto, o ministro das Comunicações e Tecnologia da Informação, Kapil Sibal, disse que as agências americanas só rastreiam qual “a origem e o destino dos dados, mas nunca tentam acessar o conteúdo, o que precisaria de uma ordem judicial”. “O governo ficaria muito preocupado se dados coletados ilegalmente fossem usados contra cidadãos indianos ou contra a infraestrutura do governo. O governo repassou essas preocupações muito claramente para o governo dos EUA”, disse o ministro, acrescentando que a violação de qualquer lei indiana sobre a privacidade das informações de qualquer cidadão indiano por programas de vigilância seria “inaceitável”.
O limite do “inaceitável” pode ter sido extrapolado pela NSA milhões de vezes com o programa PRISM, já que, de acordo com documentos revelados pelo sr. Snowden, ele é capaz de alcançar diretamente os servidores das companhias de tecnologia que fazem parte do programa, assim como coletar dados em tempo real de alvos específicos. “A National Secutiry Agency obteve acesso direto aos sistemas de Google, Facebook, Apple e outras gigantes da internet”, publicou o Guardian em 7 de junho, a partir de uma apresentação com 41 lâminas em PowerPoint que aparentemente foi usada para treinar agentes de inteligência com o programa.
Com os estrangeiros tudo bem
As companhias de tecnologia negam que permitam o acesso direto da NSA. Com duras palavras de rechaço à participação em programas de vigilância, eles alegam permitir o acesso a dados apenas nos termos previstos em lei.
Aqui está o pulo do gato. Ao contrário das negativas das empresas de tecnologia e das alegações do ministro das Comunicações indiano de que a agência norteamericana precisa de um “mandado judicial” para ver conteúdo online, a NSA usou as mudanças nas leis estadunidenses sobre vigilância que permitem que qualquer usuário dos serviços das empresas participantes “que more fora dos EUA ou os americanos que se comuniquem com pessoas fora dos EUA” seja alvo. Essa lei, conhecida como FISA Amendment Act ou FAA, foi introduzida pelo presidente George W. Bush e renovada pelo presidente Barack Obama em dezembro de 2012, e permite espionagem eletrônica em qualquer pessoa que pareça estar fora dos EUA.
Nenhum cidadão indiano, departamento de governo ou organização tem qualquer tipo de proteção legal contra a espionagem da NSA. Em uma declaração conjunta do Gabinete do Diretor de Inteligência Nacional e da National Security Agency, em 21 de agosto de 2013, foi dito que “FISA existe para permitir que os EUA tenham dados de inteligência fora do país enquanto protege as liberdades civis e a privacidade dos americanos”.
Então a NSA não tinha nenhum empecilho – técnico ou legal – para usar o PRISM contra a Índia e contra os cidadãos indianos. Armada com a FAA e com a cooperação ativa das maiores marcas de internet, a NSA conseguiu pegar inteligência muito específica da Índia sobre assuntos de enorme interesse estratégico e com muitas implicações para a Índia. Enquanto os programas “espacial” e “nuclear” indianos têm claro valor comercial para empresas dos EUA, a vigilância de “política” tem enormes implicações para as políticas a serem adotadas na região.
“Se os americanos estão ouvindo nossos políticos e grampeando os telefones ou lendo emails de pessoas que cuidam dos programas espacial e nuclear, eles têm enormes vantagens sobre nós em todas as negociações e relações diplomáticas. Mesmo antes de sentarmos à mesa, eles sabem o que vamos fazer. Não é só uma violação da nossa soberania, é uma intrusão completa nos nossos processos decisórios”, disse um membro de alto escalão do Ministério de Assuntos Internos, que admitiu em off que os relatórios sobre a vigilância da NSA “chacoalharam” o governo.
O documento da NSA também tem os nomes de diversos países da Ásia, África e América Latina de onde a agência recolheu dados sobre assuntos que variam de petróleo à OMC a políticas governamentais, deixando claro que a espionagem da NSA estava focada em áreas comerciais e de negócios, e não no alegado campo da segurança nacional. “Se as agências de inteligência americanas e as grandes corporações estão caçando em par, nós vamos perder”, disse o membro do governo indiano.
Mais do que tudo, o fato de a NSA ter como alvo os programas espacial e político da Índia acabam com o mito de que há uma parceria estratégica entre Índia e EUA. O documento visto pelo The Hindu está povoado de países que são normalmente vistos como adversários dos EUA. Quando o programa PRISM foi revelado pela primeira vez, em junho, um membro do governo dos EUA disse que “as informações recolhidas por meio desse programa estão entre os mais valiosos dados de inteligência que já conseguimos, e são usados para proteger nossa nação de uma série de ameaças”.
Fonte: Carta Maior
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
O tiro no pé das entidades médicas
Por
Lilian Terra
Lilian Terra
Jaru-RO: posto de saúde pichado em março, por moradores obrigados a percorrer 30 quilômetros até médico mais próximo
Por Lilian Terra
As entidades que em teoria representam a classe médica deram um tiro no pé. Ao se oporem ao programa “Mais Médicos”, tudo o que conseguiram foi fortalecer a imagem de elitistas e corporativistas que vem nutrindo ao longo das últimas décadas.
Nem sempre foi assim. Há não muito tempo atrás a medicina era vista como um dom, um sacerdócio. O médico era como o padre, sabia da vida das famílias que assistia – suas angústias, aflições. Era, além de cuidador, conselheiro. Mas o perfil do cuidado em saúde mudou. A tecnologia trouxe avanços de forma muito rápida e talvez o médico não tenha sabido conciliar os novos conhecimentos com a antiga e preciosa escuta do doente. Além disso, o acesso à saúde ampliou-se bem mais que a quantidade de médicos formados, de maneira que os que estavam no mercado precisaram captar os novos pacientes, em detrimento do tempo de atenção a cada um.
Hoje, temos muitas escolas médicas no país, com estudantes que buscam status e enriquecimento, mas também que buscam salvar vidas, cuidar de pessoas, independentemente de cor, credo ou classe social. Há ainda aqueles que buscam um sistema de saúde melhor e mais justo para o Brasil. Entram na faculdade entre seus 17 e 20 anos, vindos de famílias mais abastadas, de escolas particulares, tendo tido até então pouco ou nenhum contato com a pobreza, exceto aqueles provocados pela violência ou pelos funcionários mais pobres da família. A faculdade precisaria fazer com que estes futuros médicos abram seus olhos para esta nova realidade que se apresenta.
O fato é que existe muito preconceito dentro da classe médica com o trabalho na atenção básica. O “médico do postinho” é visto como alguém inferior, que não teve sucesso em escolher uma especialidade. As residências de Saúde Coletiva, Medicina Preventiva ou Saúde da Família são menos procuradas. Todos aspiram a ser Ivo Pitangui, quase ninguém a ser Osvaldo Cruz. Quando se fala em ir para o interior ou trabalhar nos Centros de Saúde da periferia, sempre dizem que não há estrutura e condições de trabalho – o que é bem verdade, mas talvez não seja o motivo real da recusa.
Tudo isso ficou muito claro no debate acerca do Programa Mais Médicos do governo federal. As entidades erraram, ao não mostrar à população que algumas alternativas já vinham sendo debatidas. Desde 2009, por exemplo, tramita no Legislativo a Proposta de Emenda Constitucional 454, cujo objetivo é instituir a Carreira de Estado para médicos. Quatro anos depois, a PEC segue sob análise de uma comissão especial. endo aprovada. A que aprovada, tramitará por tempo indefinido até apreciação do plenário das duas casas do Legislativo.
A exemplo do que ocorre no Poder Judiciário, não faltariam profissionais mesmo nos locais mais remotos do país – caso houvesse uma carreira. Porém, ao invés de chamar atenção para este aspecto, as entidades médicas focaram na recusa, não nas alternativas. Não mostraram à população o desejo real, de muitos médicos brasileiros, de ir para estas unidades de saúde; mas, sim, o o desejo de bloquear a vinda de estrangeiros. Demonstraram, em sua luta, mais medo de perder status e nível salarial do que de deixar a população desassistida, permitindo que o governo colocasse nos médicos a responsabilidade pela má qualidade da saúde pública.
Talvez as entidades médicas representaram bem a classe médica. Infelizmente, porém, existem profissionais que se viram abandonados pelos que deveriam representá-los – aqueles comprometidos com o SUS, que estão na luta por menos desigualdade social, por mais acesso aos serviços públicos, por mais qualidade destes serviços. Mais comprometidos que o próprio governo, que parece rejeitar a proposta de iniciativa popular que visa destinar 10% da receita bruta da União para a saúde. Ao se dirigir ao Congresso na última quarta-feira, 18/09/2013, a ministra Miriam Belchior afirmou não ser possível destinar essa fatia para o financiamento da saúde, ainda que especialistas tenham estudado previamente a proposta e que outros países destinem uma parte ainda maior de seu PIB.
Enquanto isso, as entidades médicas não tomam posição ao lado do governo ou ao lado da população. São uma terceira categoria, cada vez mais isolada. Como apontou a colunista Cláudia Colluci, em recente texto para a Folha de São Paulo, os médicos precisam se colocar “na pele de quem vive nos rincões sem assistência médica” e provavelmente este é um exercício muito difícil para jovens da classe média alta brasileira – certamente bem mais do que o das provas de vestibular.
Fonte: OUTRASPALAVRAS
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Friedrich Engels: Bruno Bauer e o Início do Cristianismo
Friedrich Engels
Em Berlim, em 13 de abril, morreu um homem que atuou como
filósofo e teólogo, mas, durante anos, dificilmente se ouvia falar dele, somente atraindo a atenção pública eventualmente como um "literato excêntrico". Teólogos oficiais, inclusive Renan, corresponderam-se com ele e, mesmo assim, mantiveram sobre ele um silêncio de morte. E ele valia mais do que todos eles e fez mais que todos eles em uma questão que também interessa a nós, Socialistas: a pergunta pela origem histórica do Cristianismo.
Por ocasião da sua morte, vamos fazer um breve relato da
situação atual da questão, e da contribuição de Bauer para a sua
solução.
A visão que dominou os livres-pensadores da Idade Média
incluindo os Iluministas do século XVIII, de que todas as religiões
eram obra de enganadores, e, portanto, o Cristianismo também, não
era mais suficiente depois que Hegel fixou para a filosofia a tarefa de
mostrar a evolução racional na história mundial.
É claro que se espontaneamente surgem religiões - como a
adoração de feitiços dos Negros ou a religião comunal dos arianos
primitivos — sem qualquer engodo inicial, entretanto, o engano,
através dos sacerdotes, logo se torna inevitável no seu
desenvolvimento subsequente. Apesar de toda fé sincera, religiões
artificiais não podem permanecer, desde a sua fundação, sem engano
e falsificação histórica. O Cristianismo, também, pode se gabar de
grandes realizações a este respeito desde o início, como Bauer
mostrou em sua crítica do Novo Testamento. Mas isto somente
confirma um fenómeno geral e não explica o caso particular em
questão.
A religião que subjugou o Império Romano e dominou sem dúvida
a maior parte da humanidade civilizada por 1.800 anos, não pode ser
explicada apenas declarando ser ela uma tolice resultante de fraudes.
Não se pode elucidar esta questão e ter sucesso na explicação da sua
origem e do seu desenvolvimento sem partir das condições históricas
sob as quais surgiu e alcançou o domínio da situação. Isto se aplica
ao Cristianismo. A questão a ser solucionada, então, é: como
aconteceu que as massas populares no Império Romano preferiram
esta tolice — que era aceita, normalmente, pelos escravos e
oprimidos — a todas as outras religiões, e, finalmente porque o
ambicioso Constantino viu na adoção desta religião tola o melhor
meio de elevar a si mesmo ao posto de autocrata do mundo romano.
Bruno Bauer contribuiu mais para a solução desta questão que
qualquer outra pessoa. Não importa quanto os teólogos meio-crentes
do período da reação tenham lutado contra ele desde 1849, ele
irrefutavelmente demonstrou a ordem cronológica dos Evangelhos e
sua interdependência mútua, demonstrada por Wilke do ponto de
vista puramente linguístico, pelo próprio conteúdo dos Evangelhos.
Ele expôs a carência completa de espírito científico da vaga teoria de
mito de Strauss, de acordo com a qual se pode considerar como
histórico tudo quanto se gosta nas narrações do Evangelho. E, se
quase nada do conteúdo inteiro dos Evangelhos é historicamente
provável — de forma que até a existência histórica de Jesus Cristo
pode ser questionada — Bauer tem, assim, iluminado os fundamentos
para a solução da pergunta: qual é a origem das idéias e
pensamentos que foram tecidos como uma espécie de sistema no
Cristianismo, e como veio ele a dominar o mundo?
Bauer estudou esta pergunta até a sua morte. Sua investigação
alcançou seu ponto alto na conclusão que o judeu de Alexandria,
Filon, que ainda vivia por volta de 40 D.C., mas já era muito velho,
foi o pai verdadeiro do Cristianismo, e que o estóico romano Sêneca
era, por assim dizer, seu tio. A escrita numerosa atribuída a Filon que
nos alcançou tem origem realmente em uma fusão alegórica e
racionalisticamente concebida das tradições judaicas com as gregas,
particularmente a filosofia estóica. Esta conciliação de perspectivas
ocidentais e orientais já encerra todas as idéias essencialmente
Cristãs: o pecado inato do homem, o Logos, a Palavra, que está com
Deus e é Deus e que se torna o mediador entre Deus e homem: a
compensação, não por sacrifícios de animais, mas trazendo-se o
próprio coração a Deus, e finalmente a característica essencial que na
nova filosofia religiosa, invertendo a ordem mundial anterior, busca
seus discípulos entre os pobres, os miseráveis, os escravos, e os
rejeitados, e menospreza o rico, o poderoso e o privilegiado,
originando o preceito para menosprezar todo prazer mundano e
mortificar a carne.
Por outro lado, Augusto via em si mesmo não só o Deus-homem,
mas também a chamada concepção imaculada que se tornou fórmula
imposta oficialmente. Ele não só teve César e ele mesmo idolatrados
como deuses, mas também espalhou a noção que ele, Augustus
Caesar Divus, o Divino, não era filho de um pai humano, mas que sua
mãe o concebeu do deus Apolo. Mas não seria talvez o Apolo citado
na canção de Heinrich Heine? [Referência a Apollgott, de Heine.].
Como vemos, nós precisamos apenas da pedra fundamental e
teremos o conjunto do Cristianismo em suas características básicas:
a encarnação da Palavra se torna homem em uma pessoa definida e
seu sacrifício na cruz traz a redenção da humanidade pecadora.
As fontes mais confiáveis não nos dão certeza sobre quando esta
pedra fundamental foi introduzida nas doutrinas estóico-filônicas. Mas
uma coisa é certa: não foi introduzida por filósofos, nem discípulos de
Filon ou estóicos. As religiões são fundadas por pessoas que
experimentam uma necessidade própria de religião e têm uma
percepção das necessidades religiosas das massas. Como regra, este
não é o caso dos filósofos clássicos. Por outro lado, nós observamos
que em tempos de decadência geral, agora, por exemplo, a filosofia e
o dogmatismo religioso geralmente aparecem em sua forma vulgar e
superficial. Enquanto a filosofia grega clássica em suas últimas
formas — particularmente na escola Epicurista — leva ao
materialismo ateístico, a Filosofia grega vulgar leva à doutrina de um
Deus único e da imortalidade da alma humana. O Judaísmo também,
racionalmente vulgarizado em mistura e intercurso com estrangeiros
e meio-judeus, acaba negligenciando a cerimónia e transforma o
antigo deus judeu exclusivamente nacional, Jahveh, no único Deus
verdadeiro, o criador de céu e Terra, e adota a idéia da imortalidade
da alma, que era estranha ao Judaísmo inicial. Deste modo, a filosofia
vulgar monoteísta entrou em contacto com a religião vulgar, a qual
presenteou com o já elaborado Deus único. Assim, o caminho foi
preparado pela elaboração entre os judeus das também vulgarizadas
noções filônicas, e não dos próprios trabalhos de Filon, das quais o
Cristianismo procede, como está provada pelo quase total descuido
com que foi composta a maior parte do Novo Testamento,
particularmente a interpretação alegórica e filosófica das narrações
do Velho Testamento. Este é um aspecto ao qual Bauer não dedicou
atenção suficiente.
Pode-se ter uma idéia do que era o Cristianismo em sua forma
inicial lendo o chamado Livro do Apocalipse, de São João. Selvageria,
fanatismo confuso, dogmas incipientes, a moral Cristã é apenas a
mortificação da carne, mas há uma multidão de visões e profecias. O
desenvolvimento dos dogmas e doutrinas morais pertence a um
período posterior, no qual os Evangelhos e as chamadas Epístolas dos
Apóstolos foram escritos. Nestas últimas — pelo menos como
consideração moral — a filosofia dos estóicos, de Sêneca em
particular, foi copiada sem qualquer cerimónia. Bauer provou que as
Epístolas, frequentemente, copiam os antigos palavra-por-palavra; de
fato, qualquer fiel nota isto, mas mesmo assim eles mantêm que
Sêneca copiou o Novo Testamento, embora ele ainda não houvesse
sido escrito naquele tempo. O dogma foi desenvolvido, por um lado
com relação à lenda de Jesus que estava, então, se formando, e, por
outro lado, na luta entre cristãos de origem judaica e de origem
pagã.
Bauer também fornece dados valiosos sobre as causas que
ajudaram o Cristianismo a triunfar e atingir a dominação mundial.
Mas aqui o filósofo alemão é impedido por seu idealismo de ver
claramente e formular precisamente. As frases frequentemente
substituem a substância em pontos decisivos. Ao invés, então, de
entrar em detalhes sobre as visões de Bauer, daremos a nossa
própria concepção deste ponto, baseados em trabalhos de Bauer, e
também em nosso estudo pessoal.
A Conquista romana dissolveu em todos os países que dominou,
primeiro, diretamente, as condições políticas antigas, e depois,
indiretamente, também as condições sociais de vida.
Primeiramente, substituindo a antiga organização fundamentada
nas propriedades (escravidão à parte) pela distinção simples entre
cidadãos romanos e peregrinos ou vassalos.
Depois, e principalmente, pelo severo tributo em nome do Estado
romano. Se, debaixo do império, era fixado um limite ao interesse do
estado para conter a sede de riqueza dos governadores, aquela sede
foi substituída pela taxação mais efetiva e opressiva em benefício da
tesouraria oficial, cujo efeito era terrivelmente destrutivo.
Em terceiro lugar, a Lei romana era, em última instância,
administrada em toda parte por juizes romanos, enquanto o sistema
social nativo era anulado no caso de conflitos com as prescrições da
lei romana.
Estas três alavancas necessariamente desenvolveram um
tremendo nivelamento de poder, particularmente quando foram
aplicados por centenas de anos a populações — das quais as parcelas
mais vigorosas tinham sido ou eliminadas ou escravizadas nas
batalhas precedentes, acompanhando, e frequentemente seguindo, a
conquista. As relações sociais nas províncias ficaram cada vez mais
próximas do que dependia da capital e da Itália. A população se
tornou cada vez mais nitidamente dividida em três classes, ignorando
os mais variados elementos e nacionalidades: pessoas ricas, incluindo
alguns escravos emancipados (cf. Petrônio), grandes proprietários de
terras ou agiotas ou ambos de uma só vez, como Sêneca, o tio do
Cristianismo; pessoas livres despossuídas, que, em Roma, eram
alimentadas e divertidas pelo estado — mas nas províncias viviam
como podiam, sem ajuda — e, finalmente, a grande massa, os
escravos. Em face do Estado, isto é, do Imperador, as duas primeiras
classes tinham tão poucos direitos quanto os escravos em face aos
seus senhores. Do tempo de Tibério ao de Nero, em particular, era
uma prática condenar cidadãos romanos ricos à morte a fim de
confiscar sua propriedade. O suporte do governo era —
materialmente, o exército, que era mais um exército de soldados
estrangeiros contratados do que de velhos camponeses romanos, e
moralmente, a visão geral de que não poderia ser de outro modo;
que não era este ou aquele César, mas o império fundamentado na
dominação militar que era uma necessidade imutável. Aqui não é o
lugar para examinar os fatos materiais que justificam esta visão.
A perda geral de direitos e a falta de possibilidades de melhorar
de condição ocasionaram um correspondente afrouxamento e
desmoralização geral. Os poucos Romanos velhos, sobreviventes do
tipo patrício, ou eram removidos ou mortos; Tácito foi o último deles.
Os outros ficavam contentes quando podiam manter-se afastados da
vida pública; toda razão para viver era juntar e desfrutar da riqueza,
e praticar a fofoca e a intriga privada. Os cidadãos livres
despossuídos eram pensionistas em Roma, mas nas províncias sua
condição era infeliz. Tiveram que trabalhar e competir com o trabalho
escravo pelo salário. Mas eram confinados nas cidades. Além deles,
existiam também os camponeses das províncias, livres proprietários
de terras (ambos, provavelmente, com propriedades comunais) ou,
como na Gália, fiadores das dívidas dos grandes proprietários de
terras. Esta classe era a menos afetada pelo motim social; também
era a que resistia mais tempo ao motim religioso. [Nota de Engels:
Conforme Fallmereyer, os camponeses em Main, Peloponeso, ainda
ofereciam sacrifícios a Zeus no século IX.] Finalmente, existiam os
escravos, destituídos de direitos e de si próprios e da possibilidade de
libertação, como a derrota de Spartacus já provara; a maior parte
deles, porém, foram antes cidadãos livres, ou filhos de cidadãos
livres-nascidos. Deveria, então, haver ainda entre eles um ódio
generalizado e vigoroso, entretanto, externamente impotente, por
causa das suas condições de vida.
Devemos encontrar o tipo de ideólogo que correspondia à
situação daquele momento. Os filósofos eram ou professores que
ensinavam por dinheiro ou palhaços pagos para divertir os ricos.
Alguns eram até escravos. Um exemplo do que se tornaram eles sob
boas condições é fornecido por Sêneca. Este estóico, pastor da
virtude e da abstinência, era o primeiro intrigante da corte de Nero, o
que ele não poderia ser sem servilismo; ele assegurou para si
presentes em dinheiro, propriedades, jardins, e palácios — e
enquanto orava pelo pobre Lázaro do Evangelho, ele era, na
realidade, o homem rico da mesma parábola. Até que Nero o fez
solicitar ao imperador que aceitasse a devolução todos os seus
presentes, pois sua filosofia era o bastante para ele. Só os filósofos
completamente isolados, como Persius, tiveram a coragem de brandir
a sátira acima de seus contemporâneos degenerados. Um segundo
tipo de ideólogos, os juristas, eram entusiastas das novas condições
porque a abolição de todas as diferenças entre Estados permitiria a
eles largo escopo na elaboração de seu direito favorito, o privado, em
troca de que eles prepararam para o imperador o sistema oficial de
direito mais vil que já existira.
Assim como fez com as peculiaridades políticas e sociais dos
vários povos, o Império Romano também foi condenado a arruinar
suas religiões particulares. Todas as religiões de Antiguidade eram
espontâneas, tribais, e velhas religiões nacionais, que surgiram da
fusão das condições sociais e políticas dos respectivos povos. Uma
vez que estas bases se romperam, e suas tradicionais formas de
sociedade, suas instituições políticas herdadas e suas independências
nacionais foram destruídas, a religião correspondente a estas
também naturalmente desmoronou. Os deuses nacionais podiam
suportar outros deuses ao lado deles, como era a regra geral da
Antiguidade, mas não acima deles. O transplante de divindades
Orientais para Roma era prejudicial só para a religião romana, não se
verificava decadência das religiões Orientais. Assim que os deuses
nacionais ficaram incapazes de proteger a independência de sua
nação encontraram sua própria destruição. Este foi o caso em todos
lugares (exceto com camponeses, especialmente nas montanhas). O
que o iluminismo filosófico vulgar — eu quase disse Voltairianismo —
fez em Roma e na Grécia, foi feito nas províncias pela opressão
romana e pela substituição de homens orgulhosos de sua liberdade
por submissos desesperados e malandros egoístas.
Tal era a situação material e moral. O presente era insuportável,
a possibilidade do futuro tranquilo, ameaçada. E nada, além disso. Só
o desespero ou refúgio no prazer sensual comum, pelo menos para
aqueles que podiam dispor disto, e estes eram uma minoria
minúscula. Caso contrário, nada, além de esperar o inevitável. Mas,
em todas as classes existiam necessariamente as pessoas que,
desesperando da salvação material, buscavam em seu lugar uma
salvação espiritual, uma consolação em sua consciência para salvarse
do desespero absoluto. Esta consolação não podia ser fornecida
pelos estóicos ou pela escola Epicurista, pela razão de que estes
filósofos não eram voltados para consciência comum e,
secundariamente, porque a conduta de discípulos destas escolas
trouxe o descrédito em suas doutrinas. A consolação era um
substituto, não para a filosofia perdida, mas para a religião perdida;
teve que tomar uma forma religiosa, a mesma que de alguma
maneira, segurou as massas até o século XVII. Precisamos notar
apenas que a maioria daqueles que estavam sensíveis para tal
consolação de sua consciência, para este vôo do mundo externo para
o interno, estavam necessariamente entre os escravos. Foi no meio
desta decadência económica, política, intelectual e moral que o
Cristianismo apareceu. E entrou como uma antítese resoluta a todas
as religiões anteriores.
Em todas as religiões anteriores, a cerimónia era a coisa
principal. Só tomando parte nos sacrifícios e procissões, e, no
Oriente, observando a dieta mais detalhada e preceitos de limpeza,
podia alguém mostrar a que religião pertencia. Enquanto Roma e a
Grécia eram tolerantes a respeito disto, existia no Oriente uma
revolta contra as proibições religiosas que contribuíram muito para a
sua queda final. Pessoas de duas das religiões diferentes, (Egípcios
Persas, judeus, Caldeus) não podiam comer ou beber juntos,
apresentar-se e agir juntos, ou mesmo falar um com o outro. Era
certamente devido a esta segregação do homem pelo homem que o
Oriente desmoronava. O cristianismo não possuía nenhuma
formalidade distintiva, nem mesmo os sacrifícios e procissões do
mundo clássico. Deste modo, rejeitando todas as religiões nacionais e
suas formalidades comuns, e dirigindo-se diretamente a todas as
pessoas sem distinção, se tornou a primeira religião mundial possível.
O judaísmo também, com seu novo deus universal, fez um começo a
caminho de se tornar uma religião universal; mas os filhos de Israel
sempre permaneceram uma aristocracia separando os crentes e os
circuncidados, e o próprio Cristianismo teve que se livrar da noção da
superioridade dos cristãos judeus (ainda dominante no chamado
Apocalipse, de São João) antes de poder realmente se tornar uma
religião universal. O Islã, por outro lado, preservando a cerimónia
especificamente Oriental, limitou a área de sua propagação ao
Oriente e à África do Norte, conquistada e povoada novamente por
beduínos árabes; ali ele pode se tornar a religião dominante, mas não
no Oeste.
Secundariamente, o Cristianismo atingiu um tom que estava
destinado a ecoar em incontáveis corações. A todas as reclamações
sobre a maldade dos tempos e a angústia moral e material, a
consciência cristã do pecado responde: É assim e não pode ser de
outro modo; tu ardes em culpa, somos todos culpados pela corrupção
do mundo, por nossa própria corrupção interna! E onde estava o
homem que podia negar isto? Mea culpai A admissão da parte de
cada um na responsabilidade pela infelicidade geral era irrefutável e
era a pré-condição para a salvação espiritual que o Cristianismo ao
mesmo tempo anunciava. E esta salvação espiritual estava tão
instituída que podia ser facilmente compreendida por membros de
toda a comunidade religiosa antiga. A idéia do pagamento para
aplacar a deidade ofendida era conhecida em todas as religiões
antigas; como a idéia do auto-sacrifício do mediador pagando de uma
vez por todas os pecados da humanidade não podia ser facilmente
explicada assim? O cristianismo, então, expressou claramente o
sentimento universal de que os próprios homens são culpados da
corrupção geral através da consciência do pecado de cada um; ao
mesmo tempo, providenciou, no sacrifício da morte de seu juiz, uma
saída universalmente esperada — pela salvação interna do mundo
corrupto, a consolação de consciência; assim novamente o
cristianismo provou sua capacidade para se tornar uma religião
mundial e ser, realmente, uma religião adequada ao mundo como ele
era naquele tempo.
Assim aconteceu que, entre os milhares de profetas e pregadores
do deserto que enchiam aquele período de incontáveis inovações
religiosas, só os fundadores do Cristianismo tiveram sucesso. Não só
a Palestina, mas o Oriente inteiro fervilhou com tais fundadores das
religiões, e entre eles travou-se o que pode ser chamado uma luta
darwiniana pela existência ideológica. Usando principalmente os
elementos mencionados acima, o Cristianismo "ganhou o dia". Como
ele gradualmente desenvolveu seu caráter de religião mundial por
seleção natural na luta das seitas umas contra as outras e contra o
mundo pagão é explicado em detalhe pelos primeiros três séculos da
história da Igreja.
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11 de Maio de 1882
Primeira Edição: Sozialdemokrat, de 4-11 de maio de 1882.
Fonte: A tradução foi realizada a partir da versão inglesa constante do MIA.
Tradução: Wellington de Lucena Moura
HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e
indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.
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