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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Síria: em vez dos Tomahawks, alguma esperança




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Frustrado o ataque norte-americano, surgem os primeiros caminhos de pacificação. Sociedade civil reivindica participar das negociações sobre o pós-guerra civil

Por Cauê Seignemartin Ameni

Erudito e sofisticado, porém partidário da ordem liberal, o historiador britânico Timothy Garton Ash comentou com irônica amargura o arranjo diplomático que impediu, há semanas, uma intervenção norte-americana na Síria. Depois de destacar o claro declínio de Washington no cenário global contemporâneo, ele alfinetou: “aos críticos e inimigos dos Estados Unidos, digo apenas: se vocês não gostavam do velho mundo em que os EUA intervinham regularmente, esperem para ver o novo, em que isso não ocorra”.
Menos de um mês depois, está surgindo, precisamente na Síria, um primeiro desmentido ao vaticínio de Timothy. A alternativa desenhada pela ONU, para evitar o ataque dos EUA, está sendo implementada. Livres dos mísseis Tomahawk, que teriam agravado os horrores e o labirinto da guerra civil, governo e parte da oposição armada abriram algum diálogo – que pode isolar as redes terroristas ligadas à Al-Qaeda. Fala-se mais frequentemente num processo de negociações para reconstruir o país. Grupos da sociedade civil reivindicam presença no processo.
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Os primeiros sinais concretos de esperança brotaram terça-feira (1º/10). Inspetores da ONU chegaram a Damasco, menos de uma semana depois de firmada a resolução do Conselho de Segurança para desmantelar os estoques de armas químicas do governo, sem atacar o país. As circunstâncias de sua chegada expõem o caos provocado pela guerra civil. Deslocaram-se numa caravana de carros, partindo de Beirute, porque a via que liga a capital síria a seu aeroporto é território conflagrado.
Mas mostraram-se confiantes. Declararam que pretendem cumprir o desafio de localizar e destruir, em alguns meses, as armas. No domingo, o presidente do país, Bashar Assad, dissera, numa rara entrevista à TV pública italiana, que terão plena liberdade de ação. No mesmo dia, um diretor da Organização pela Proibição das Armas Químicas (OPAC), a agência da ONU encarregada de cumprir a resolução do Conselho de Segurança, fez afirmações otimistas, à agência Al Jazeera. “Até o momento, não temos absolutamente razão alguma para duvidar das informações [sobre as armas] oferecidas pelo regime sírio”, disse ele.
Na segunda-feira, um indício de outra natureza – porém igualmente importante – sugeriria possibilidade de desarmar a lógica da guerra. Famoso por seu vasto conhecimento sobre o Oriente Médio, o jornalista britânico Robert Fisk publicou, no The Independent, de Londres, notícias surpreendentes. Em Damasco e em meio à guerra civil, revelou ele, foram abertas negociações entre o governo e o Exército Sírio Livre (FSA, em inglês) – principal grupo de oposição não fundamentalista. Os contatos são frágeis, mas já produziram alguns resultados. Em Aleppo, cidade controlada pelo FSA, as escolas e instituições públicas foram reabertas. Apesar das feridas, provocadas de parte a parte, cresce o sentimento de que o país – conhecido no passado por sua tolerância e convívio intercultural – precisa ser reconstruído. Ambos os lados têm um desafeto comum: as redes terroristas ligadas à Al Qaeda, capazes de atos que, em meio a uma guerra brutal, chocam por sua selvageria extrema.
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Foi a ausência de um ataque militar norte-americano, aliás, que tornou públicas as fissuras entre os distintos grupos armados que compõem a oposição ao regime. Ontem (2/10), Ghayth Armanazi, um conhecido especialista em questões sírias, procurava descrever, no The Guardian, o novo panorama. Nos dois anos de guerra civil, contou ele, o FSA (composto principalmente por desertores do exército sírio) e seus aliados civis cometeram um erro fatal. “Ao invés de formular um programa de transformações democráticas, aliaram-se a fundamentalistas islâmicos, num acerto que afastou muitos sírios de orientação secular”. Ambas facções confiavam numa ação dos EUA capaz de debilitar Assad e abrir caminho para sua vitória bélica. Como Washington não pôde socorrê-las sentem-se humilhadas e desprestigiadas: “passaram a ser vistas pela rua árabe como quem convocou um assalto imperial armado do Ocidente contra seu próprio país”…
Esta derrota estratégica as separou. Em texto recente, o jornalista Pepe Escobar relata que, nas últimas semanas, os grupos ligados à Al Qaeda – em especial a chamada Frente Al-Nusra – têm preferido atacar o FSA a combater o próprio governo. Além disso, ampliaram seu repertório de crimes contra a humanidade. Ainda em setembro, barbarizaram as cidades de Raqqa e Maloula, redutos cristãos que estavam até então distantes da guerra. São conhecidos por atos como a decapitação sistemática de prisioneiros e por cenas grotescas: recentemente, imagens de TV registraram um combatente da Al-Nusra dilacerando o corpo de um inimigo morto em combate para devorar-lhe o fígado, diante das câmeras. Fortemente financiada pela Arábia Saudita, a facção tem conseguido atrair parte dos combatentes do FSA. Mas este movimento tende a isolá-la, ao abrir espaço para uma aproximação entre a oposição “moderada” e o regime.
Qual o horizonte de uma possível negociação que ponha fim à guerra? Há meses, circula a proposta de uma conferência de paz batizada de Genebra II. É iniciativa da ONU, que nela vislumbra a possibilidade de construir um caminho para a reconstrução da Síria. O governo sírio tem se declarado disposto a participar, desde que a ideia foi lançada. Mas a conferência tem sido adiada indefinidamente, devido à exigência da oposição, pela renúncia prévia de Assad.
Nas últimas semanas, a proposta voltou a ganhar força. Além disso, em mais um sinal favorável à paz, grupos da sociedade civil síria têm afirmado reivindicação de estar presentes. “As cadeiras à mesa de negociações não podem estar reservadas apenas a homens em armas”, argumenta o advogado norte-americano Mel Duncan, da ONG internacional Nonviolent Taskforce. Num texto publicado em 5/9, no site alternativo norte-americano Minnpost, ele relata os contatos que manteve na Síria, em maio, com grupos civis, membros do governo e do FSA. Lembra que os grupos combatentes na Síria agem, em certo sentido “por procuração”, transferindo para o país os ódios gerados em outros conflitos – como EUA X Rússia, Irã X Arábia Saudita, Israel X Hezbollah. Frisa que, para muitos de seus interlocutores na sociedade civil (partidários do governo ou opositores), o principal adversário é a Al Qaeda. “Não queremos viver sob a lei da sharia”, exclama um de seus contatos.
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Num outro artigo, para a Al Jazeera, a jornalista independente norte-americana Rania Khalek descreve, com ainda maior detalhe, as agruras e esperanças dos grupos de oposição não-armada. Foram eles, lembra Rania, que deflagraram a luta contra Assad, em abril de 2011, logo após o início da Primavera Árabe. Rapidamente, porém, sua mobilização foi engolfada por grupos militarizados opostos. Onde prevalece a violência, calam as ideias. Tais grupos não têm condição alguma de influir nos rumos da guerra.
Passaram a se dedicar, prossegue Rania, á mobilização política de base: “uma florescente rede de mídias alternativas, conselhos de base para organizar o socorro humanitário, projetos como o ‘ônibus da dignidade’ (Karama Bus), que circula pela província de Idlib oferecendo apoio sóciopsicológico a crianças desalojadas. O texto cita a oposição de Khaled Harbash, um jovem de 21 anos que integra estas redes, ao ataque que Washignton queria promover. “Os Estados Unidos não são um juiz internacional para punir e perdoar quem desejem (…) Qualquer ataque militar não será contra o regime, mas contra o país. E quem sofrerá as consequências são os sírios, já vitimados por dois anos e meio de guerra civil”, diz ele.
Bloqueado o ataque norte-americano, é possível que Khaled e seus companheiros possam sonhar de novo com um país pacificado e democrático.

Fonte: OUTRASPALAVRAS

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Putin ganhou a Síria. Obama muda-se para o Irã




A euforia em torno da aprovação da resolução sobre as armas químicas sírias no Conselho de Segurança da ONU na 6ª-feira está em todas as manchetes, mas permanece no ar um pressentimento obscuro, que ameaça estragar a festa.


M K Bhadrakumar, Asia Times Online
Tradução: Vila Vudu


Sim, é verdade que, depois de um longo e tormentoso intervalo, quando nada parecia ir bem entre eles, os EUA e a Rússia concordaram, afinal, em torno de alguma coisa. Merece celebração. Mas em seguida começam a emergir indícios de que nem tudo é um mar de rosas entre os dois ministros de Relações Exteriores, John Kerry e Sergey Lavrov, e que houve momentos tensos. O déficit de confiança é palpável.
Passo potencialmente significativo
Não há dúvidas de que há no ar muita irritabilidade impaciente. O presidente Barack Obama não voltou a dizer palavra ao presidente Vladimir Putin da Rússia, depois da conversa de 20 minutos durante a reunião do G-20 em São Petersburgo, há quase um mês.
Na fala do sábado, Obama soou estranhamento modesto. Faltava eloquência. O que ele compreendera da resolução teve de ser explicado por Lavrov, no dia seguinte, falando à televisão estatal russa.
Obama entendera que a resolução "é legalmente vinculante, será aplicável e fiscalizável e haverá consequências para a Síria se não cumprir o que foi acordado" e, por isso entendera que a resolução "vai além, de fato, do que se poderia obter mediante ação militar."
 
Obama disse que a resolução é "endosso explícito" do processo de Genebra sobre a Síria. E que estava "muito esperançoso" quanto às possibilidades. Mas, imediatamente, se manifestou preocupado com "se a Síria cumprirá todos os compromissos" e reconheceu "preocupações legítimas" com a implementação da resolução em condições de guerra civil.
Mas, tudo considerado, Obama cautelosamente avalia que a resolução do Conselho de Segurança "representa passo potencialmente significativo". Mas estava ali, potencialmente inaudível, o seu suspiro de alívio por não ser necessária qualquer ação militar contra a Síria - pelo menos por hora. 
A reticência de Obama contrasta com o tom triunfalista com que Lavrov anunciou a resolução como vitória da diplomacia russa, e que "não foi fácil". Lavrov listou os ganhos:
- a Rússia garantiu que os especialistas da Organização para Proibição de Armas Químicas continuem a ser os principais atores na implementação da resolução, não o Conselho de Segurança da ONU.
- A Rússia "alcançou seu objetivo" de assegurar que não restem "pretextos ou acrobacias" que levem ao uso da força, considerando a experiência líbia e as "capacidades de nossos parceiros para interpretar resoluções do Conselho de Segurança da ONU."
- Qualquer ataque militar contra a Síria, no âmbito da resolução "está fora de questão".
- Enquanto Obama põe o ônus da implantação da resolução sobre os ombros do presidente Bashar Al-Assad e seu governo, Lavrov chama a atenção para a responsabilidade que cabe aos mentores e patrocinadores dos 'rebeldes' sírios, para garantir que seus "prepostos adotados" não cometam atos de provocação.
Lavrov tem todos os motivos para estar satisfeito por Moscou ter negociado uma solução ótima. O que realmente conta é que a resolução não contém nenhum mecanismo que permita sanções contra a Síria no caso de não cumprimento; nem, tampouco, admite qualquer ação militar por potências estrangeiras.
A Rússia também bloqueou qualquer tipo de condenação ao regime Assad por pressuposto uso de armas químicas. De fato, os norte-americanos aceitaram tacitamente uma versão muito diluída da sua doutrina de "linha vermelha" autoproclamada, dado que a resolução distribui o ônus entre os dois lados, regime e 'rebeldes'.
Não nos enganemos
Lavrov passou por cima das condições de guerra civil que imperam na Síria e, de fato, a principal lacuna da resolução, avaliada hoje, é não incluir um mapa do caminho para um cessar-fogo.
A probabilidade de a implantação do acordo começar a encontrar dificuldades dentro de poucos meses é terrivelmente alta. Se acontecer, a possibilidade de o Conselho de Segurança aprovar uma segunda resolução nos termos do Cap. 7º da Carta da ONU [que autorize o uso de força militar] é muito remota, dada a tensão que, hoje, ainda persiste entre EUA e Rússia.
Dito em termos claros: a cooperação do regime sírio é absoluta e completamente voluntária. Mas deve-se ter em conta que a resolução priva o regime sírio de vários bilhões de dólares em equipamento militar, que tem sido fator de contenção estratégica de qualquer agressão externa.
No clima dominante entre os protagonistas na guerra civil, engajados em combate mortal e procurando vitória completa, o regime sírio não pode ser dito culpado se decidir conservar , para alguma emergência, uma parte de seus arsenais químicos. Talvez 10% dos arsenais, como disse Henry Kissinger; talvez mais, ou menos. Mas a alta probabilidade de que o faça já está sendo abertamente discutida.
O presidente da Turquia Abdullah Gul foi franco na entrevista que deu à CNN no fim de semana, alertando que "não nos enganemos" com a ideia de que Assad cumprirá o acordo sem a ameaça de força militar. Disse que "se vai haver limpeza real, será maravilhoso. Será bom para todos. Mas se só se vai dar algum tempo, de modo que no fim ainda haja armas químicas [na Síria], nesse caso será perda de tempo."
Gul é uma das vozes mais moderadas nessa parte do mundo. Mas, vindas de um país envolvido até o pescoço na guerra civil síria, suas palavras não trazem bons augúrios.
De fato, a atitude dos grupos da oposição síria - e, mais importante, dos estados regionais que os patrocinam - é fator altamente crítico.[1] Interessante: ninguém celebrou em Ancara, Amã, Doha ou Riad, a aprovação da resolução do Conselho de Segurança sobre a Síria.
Essas capitais regionais, que participam do jogo pelo poder na Síria, jamais se sentiram confortáveis ante a evidência de que a agenda de mudança de regime tivesse sido superada pela iniciativa da entrega das armas químicas.
Quanto aos  grupos da oposição, o quadro é ainda mais desalentador. Estão irrecuperavelmente divididos e cada dia mais furiosamente empenhados em lutar uns contra os outros; mas a única coisa que os une é a rejeição, de todos os grupos, à iniciativa das armas químicas.
O general Salim Idris, líder relativamente moderado do Conselho Militar, que, pelo menos em tese supervisiona o Exército Sírio Livre, disse claramente que "[a iniciativa das armas químicas] não nos interessa". É trabalho de Washington trazer para bordo a turma de Idris. Mas, como até um comentarista da Radio Free Europe/Radio Liberty já admitiu,
"Com a oposição tão negativa, ainda falta quantidade enorme de diplomacia para garantir que os grupos 'rebeldes' não concluam que seria de seu máximo interesse sabotar todo o acordo, na esperança de obter uma intervenção militar ocidental que os ajude. Mas é trabalho diplomático complicado, porque os grupos de oposição que mais crescem na Síria hoje, são os islamistas, que não têm nenhum ou quase nenhum laço que os aproxime dos interesses das potências ocidentais."
No que tenha a ver com grupos fundamentalistas linha-duríssima, a situação é realmente apavorante. Semana passada, 13 das principais facções 'rebeldes' anunciaram que rejeitam a liderança da oposição no exílio apoiada pelo ocidente; anunciaram simultaneamente a formação de uma "Aliança Islâmica".
Estima-se que esses 13 grupos controlem dezenas de milhares de militantes [o presidente Bashar al-Assad tem dito "terroristas"] e, como a Radio Free Europe/Radio Liberty observou, "se a Aliança Islâmica se fixar, pode significar que as potências ocidentais não terão influência alguma sobre o que aconteça no solo em grande parte do norte e em partes de Homs e Damasco".
Tudo isso considerado, se os grupos fundamentalistas entenderem que têm interesse estratégico em capturar os arsenais químicos ou em sabotar, seja como for, a implantação da resolução do Conselho de Segurança, os EUA e seus aliados ocidentais (e Israel) serão arrastados para o conflito. Os mais cínicos podem até dizer que esse horror potencial seria o álibi perfeito para uma intervenção militar ocidental - com ou sem uma segunda resolução do CS-ONU.
Uma pirueta diplomática
Um ponto no qual o cálculo dos russos pode não dar certo está na confiança que Moscou tem em seu poder de veto no Conselho de Segurança. Mas de fato, hoje, alastra-se a indignação contra as credenciais dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (P5) - EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia e China. Esse foi tema recorrente nos discursos de inúmeros presidentes na Assembleia Geral da ONU, que está em andamento. Nas palavras de John Key, primeiro-ministro da Nova Zelândia,
"Parece que vivemos segundo uma prática pela qual os membros permanentes podem não apenas bloquear ações, pelo veto. Eles também parecem ter acesso privilegiado a informações e podem impedir que o Conselho se reúna, nos casos em que isso interesse aos seus objetivos coletivos."
Key disse à imprensa que o funcionamento do Conselho de Segurança é tão completa farsa, que os diplomatas apressam-se para por fim às discussões e 'concluir', para que todos possam correr ao Twitter para divulgar a 'notícia', antes, até, de informar os membros não permanentes do Conselho de Segurança.
Em resumo, a incrível pirueta diplomática que Rússia e EUA conseguiram executar no caso da Síria, em larga medida criou meios para que as duas superpotências saíssem de uma situação complicada. Os EUA livraram-se de ter de usar força militar (que, provavelmente, jamais seria sua escolha), e a Rússia saiu da posição de "Mr. Não", aos olhos do ocidente). De fato, foi um casamento de conveniência, que resultou na resolução do Conselho de Segurança.
Mas não teria a Rússia assumido responsabilidade desproporcional, para criar o 'rebento'? Considere-se o seguinte.
Obama, hoje, está claramente se acomodando na poltrona de trás, no que tenha a ver com a Síria, e concentra-se na questão do Irã, carregada de consequências profundas, diretas e de longo prazo para interesses vitais dos EUA e para as preocupações núcleo dos EUA e de seus aliados no ocidente e no Oriente Médio - o que a Síria nunca foi nem pode ser.
Assim sendo, restou à Rússia administrar a lata de minhocas? Difícil dizer, mas, sim, o perigo existe e está aí, bem visível.
Por outro lado, os EUA cederam aos russos o lugar de destaque no Conselho de Segurança da ONU. À primeira vista, a possibilidade de um ataque militar dos EUA à Síria está desaparecendo tão depressa e para tão longe, no fundo da cena, que já nem se pode dizer que ainda exista, como preocupação séria, na zona de consideração do pensamento de Obama.
Tudo faz crer que a diplomacia russa alcançou um sucesso extraordinário, que, seja lá como for, é o que transparece para a opinião pública internacional e serve de cenário para uma espetacular "chegada" da Rússia, como potência global, ao cenário do Oriente Médio.
Mas, se se examina mais de perto, há o perigo de que os russos estejam pressionando demais adiante, com seus espetaculares sucessos diplomáticos na Síria nas últimas semanas, ao mesmo tempo em que marginalizam já a comunidade internacional e, sobretudo, a China, o melhor amigo dos russos. Isso, por um lado.
Por outro lado, funcionários russos já disseram que a Organização do Tratado Coletivo de Segurança [orig. Collective Treaty Security Organization (CSTO)] liderado por Moscou, deslocará forças para a Síria para garantir a segurança do pessoal técnico da Organização para a Proibição de Armas Químicas e para guardar os arsenais de armas químicas. Esse CSTO é uma folha de parreira: tudo isso será missão de um contingente militar russo. Ora! E se os 'rebeldes' sírios fizerem correr sangue russo em território sírio?
Países como Arábia Saudita e Qatar, patrocinadores e viabilizadores dos 'rebeldes' fundamentalistas, sobretudo dos combatentes salafistas, não estão gostando da ideia de haver russos armados se movimentando num gramado que o espião chefe da Arábia Saudita, o príncipe Bandar Sultan, fantasia como seu playground exclusivo.
O útero do tempo
Não que tenha sido alguma espécie de armadilha que Washington tivesse armado para o Kremlin. Mas às vezes acontece que o que parece empenho e decisão para fazer avançar algum projeto diplomático, cheio de boas intenções, resulte em consequências trágicas. O que se vê hoje, é que já e pelos próximos meses, a Rússia estará engalfinhada em combate contra a "jihad" na Síria. E Obama está mudando de assunto.
Depois de dar mão relativamente livre aos russos para que exercessem o privilégio de pôr os pés nos campos minados da Síria, Obama pode concentrar-se em front muito mais produtivo e que terá impacto maior e mais significativo sobre as políticas para o Oriente Médio, que o destino de Bashar Al-Assad: a normalização das relações entre EUA e Irã.
A rapidez com que Obama mudou-se, semana passada, para o Irã, é simplesmente inacreditável. Depois da fala de Obama na Assembleia Geral da ONU, John Kerry reuniu-se com seu equivalente iraniano, Mohammad Zarif. Parece que discutiram um cronograma de um ano, de um mapa do caminho para tirar do impasse a questão nuclear.
E enquanto Kerry-Zarif se encontravam, surgiu a excelente ideia de pôr Obama e Rouhani numa conversa por telefone. Aconteceu, é claro, casualmente, pouco antes de Rouhani embarcar para o longo voo até Teerã.
O que se sabe, do relato que Obama fez desse telefonema histórico, tanto quanto do relato de Rouhani é que a árvore das hostilidades entre EUA e Irã começa a despedir-se das agressivas folhas avermelhadas, como árvores no outono.
Rouhani recorreu ao Twitter, quando deixava o solo dos EUA, para relatar a conversa de 15 minutos com Obama. Eis o relato dele, pelo Twitter:
@BarackObama para @HassanRouhani: Meus respeitos ao senhor e ao povo do #Irã. Estou convencido de que as relações entre Irã e EUA afetarão enormemente a região. Se pudermos progredir na #questão nuclear, outras questões como a #Síria, com certeza serão afetadas positivamente. Faço votos de que o senhor faça boa viagem, em segurança, e peço desculpas pelo exasperante tráfego em #NYC.
@HassanRouhani para @BarackObama: Sobre a  #questão nuclear, com #vontade política há como resolver rapidamente o caso. Estamos esperançosos do que veremos do P5+1 [P5 plus Alemanha] e do seu governo em especial, nas próximas semanas e meses. Sou grato por sua #hospitalidade e pelo telefonema. Tenha um bom-dia, senhor presidente.

@BarackObama para @HassanRouhani: Obrigado. Khodahafez [literalmente, em persa, "Que Deus o acompanhe"].

Que ninguém se engane: Obama tem esperança de voltar à questão síria, no futuro - e de mãos dadas com Rouhani. Até lá, se tratará só - ou, bem, principalmente - do privilégio russo para administrar a lata de minhocas.
O fato de que Obama não cuidou de falar com Putin sobre a Síria durante um mês inteiro, desde o encontro em São Petersburgo, dias 5-6 de setembro, mas falou da Síria no primeiro momento de sua primeira conversa com Rouhani permite adivinhar o que se esconde no útero do tempo. Não apenas deixa ver a deriva das prioridades dos EUA: também revela a alquimia pobre das relações entre EUA e Rússia.
[1] Terroristas ativos hoje na Síria, por nacionalidade (Relatório de IHS Jane's, 26/9/2013, Al-Manar, Líbano, com mapa, em
http://www.almanar.com.lb/english/adetails.php?eid=112638&cid=31&fromval=1&frid=31&seccatid=91&s1=1) [NTs].

http://www.iranews.com.br/noticia/10907/putin-ganhou-a-siria-obama-muda-se-para-o-ira

terça-feira, 1 de outubro de 2013

“Rebeldes” sírios: entre a Al-Qaeda e Washington


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“Rebeldes” da Al-Nusra: por desejarem Síria talibanizada, eles voltam-se agora contra antigos aliados, que acusam de “desejarem a democracia”

Depois de apoiar “oposição”, Washington perde controle sobre ela. Agora, quem dá cartas são gangues ultra-fundamentalistas, bem armadas e financiadas pela Arábia Saudita

Por Pepe EscobarAsia Times Online | Tradução Vila Vudu 

Se ainda faltasse alguma prova extra para destroçar o mito de uma luta “revolucionária” para alguma futura Síria “democrática”, as manchetes da semana acabaram com qualquer dúvida remanescente.
Onze, treze ou catorze brigadas “rebeldes” (o número varia conforme a fonte) já fizeram descarrilar o tal Conselho Nacional Sírio, dito “moderado” e mantido pelos EUA, e o nada livre Exército Sírio Livre. Os líderes do bando “rebelde” são os jihadistas tresloucados da Frente al-Nusra – mas o bando inclui outras podridões, como as brigadas Tawhid e Tajammu Fastaqim Kama Ummirat em Aleppo, algumas imundícies das quais eram, até recentemente, parte do Exército Sírio Livre, já em pleno colapso.
Na prática, os jihadis ordenaram que a miríade de “moderados” se submetesse, que se “unificasse num quadro claramente islamista” e que jurasse fidelidade a uma Síria futura na qual a lei da sharia seja “a fonte única da legislação”.
Um certo Ayman al-Zawahiri deve estar em festa, dançando em seu esconderijo confortável, à prova de drones, em algum ponto dos Waziristões. Não só porque sua conclamação para uma jihad multinacional – à moda do Afeganistão nos anos 1980s – está funcionando; também porque o Conselho Nacional Sírio, comandado pelos EUA, já está exposto como o roedor desdentado que de fato é.
E os fatos em campo só fazem comprovar exatamente isso. O Estado Islâmico do Iraque e do Levante, promovido pela al-Qaeda, acaba de tomar uma cidade próxima do ponto de passagem de Bab al-Salam, na fronteira com a Turquia, que estava sob controle do Exército Sírio Livre, porque o Exército Sírio Livre foi acusado de lutar por “democracia” e de manter laços com o Ocidente. Errado. O Exército Sírio Livre deseja esses laços com o ocidente, sim; mas sob regime controlado pela Fraternidade Muçulmana. E o Estado Islâmico do Iraque e do Levante – do qual a Frente al-Nusra é o principal membro sírio – deseja um Siriastão talibanizado.
As gangues de jihadis linha duríssima na Síria somam cerca de 10 mil jihadistas; mas correspondem a cerca de 90% dos combates pesados, porque são os únicos com real experiência de combate (incluindo iraquianos que combateram contra norte-americanos, e chechenos que combateram contra russos).
Paralelamente, e não por acaso, desde que o príncipe Bandar bin Sultan, codinome Bandar Bush, foi nomeado pelo rei saudita Abdullah para comandar a jihad síria, com instruções para não deixar nem levar prisioneiros vivos, o Conselho Nacional Sírio, dito “moderado” e aliado da Fraternidade Muçulmana do Qatar, passou a ser cada dia mais deixado de lado.
Whasington arma e treina oposição "rebelde" Exército Sírio Livre
Whasington arma e treina Exército Sírio Livre
Cortem a cabeça desses ‘pacifistas’ 
E, em matéria de descarrilamento catastrófico, nada se compara à desculpa do governo Obama para uma “estratégia”, a qual, teoricamente, se resume a armar e treinar extensivamente o elo mais fraco – gangues selecionadas do Exército Sírio Livre infiltradas por agentes da CIA – e que “impediriam” que as armas caíssem em mãos de jihadistas. Como se a CIA tivesse inteligência local confiável sobre as fontes do Golfo que garantem dinheiro e apoio logístico aos milhares de jihadistas .
O Conselho Nacional Sírio, o Exército Sírio Livre e o chamado “Comando Militar Supremo” (de exilados) comandado pelo grandiloquente general Salim Idriss já não passam, hoje, de piada.
A coisa toda aconteceu enquanto o presidente da Coalizão de Oposição Síria Ahmed Asi Al-Jerba, estava na Assembleia Geral da ONU em New York – onde se encontrou com o secretário de Estado John Kerry. Kerry não falou sobre armas, mas sobre mais “ajuda” e futuras negociações na perenemente adiada Conferência Genebra-2. Al-Jerba ficou furioso. E, para piorar, várias das gangues do seu Exército Sírio Livre declaradamente bandearam-se para a al-Qaeda.
Por que? Sigam o dinheiro. É assim que funciona. Pelo menos metade das “brigadas” do Exército Sírio Livre são mercenários – financiados do exterior. Lutam onde os patrões – que lhes pagam e lhes fornecem armas – mandam lutar. O “Comando Supremo” controla, no máximo, 20% das brigadas. E essa gente sequer vive na Síria; têm bases do lado turco ou jordaniano da fronteira.
Em contrapartida, os jihadis mercenários combatem em tempo integral. Eles são a efetiva força combatente, recebem salários em dia e suas famílias são protegidas e mantidas.
Assim sendo, trata-se hoje de guerra entre o Exército Sírio Árabe e um bando de jihadistas. Claro: nada disso será jamais bem explicado pela imprensa à opinião pública ocidental.
Imaginem, então, se esses degoladores, comedores de fígados, fãs da sharia, teriam algum desejo de aparecer na conferência Genebra-2 para negociar um cessar-fogo com o governo sírio e um possível acordo de paz com o eixo OTAN-Casa de Saud. Evidentemente, nunca acontecerá – como Bandar Bush deixou bem claro, pessoalmente, em Moscou, para o presidente Vladimir Putin.
O pior, do ponto de vista de Washington, é que não há como explicar por que não pode acontecer nenhuma negociação significativa. Até os mais descerebrados infiéis que habitam os círculos do poder em Washington já viram que há conexão direta entre todos as hordas de “rebeldes”, e também, é claro, com os “rebeldes” sírios que abraçaram a al-Qaeda imediatamente depois que o grupo al-Shabaab atacou o shopping center Westgate em Nairobi.
Nem é preciso dizer que Bagdá entrou em surto, ante esses desenvolvimentos. O Estado Islâmico do Iraque e do Levante já aumentou os atentados com carros-bomba e homens-bomba no próprio Iraque – porque o governo de al-Maliki, “apóstata” xiita, é alvo tão preferencial quanto o governo do secular Bashar al-Assad.
Quase nem acredito que há apenas cinco meses, eu mesmo escrevi sobre o advento do Emirado Islâmico do Siriastão [1]. Agora já está bem claro que e como o “invisível” al-Zawahiri e o esperto Bandar Bush se apropriaram da “estratégia” de Washington para chegar, realmente, onde querem chegar.
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[1] 12/4/2013, Pepe Escobar: O Emirado Islâmico do Siriastão

Indígenas defendem a Constituição e protestam contra ruralistas



Tatiana Félix
Adital

Foto: ABr_AntonioCruz22Para defender seus direitos já conquistados na Constituição Federal Brasileira é que povos indígenas de todo o país realizam até o próximo sábado (5) a Semana Nacional de Mobilização Indígena. A atividade, que é organizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), iniciou ontem (30) em Brasília (DF) e terminará no marco da celebração dos 25 anos da Constituição Federal, no próximo dia 5 de outubro. Também estão confirmadas manifestações em Roraima, Acre, Pará, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná e São Paulo.
O objetivo é protestar contra as constantes ameaças de retirada de direitos indígenas, propostas por ruralistas através de propostas de emenda constitucional (PECs) e de projetos de lei (PL) como a PEC 215 do Congresso que pretende tirar do governo federal e dar ao Legislativo o poder de decisão sobre demarcações de terras indígenas e quilombolas; a PEC 038 que pretender atribuir ao Senado Federal a aprovação dos processos de demarcação das terras indígenas; e outras propostas que visam tirar territórios dos povos originários.
Kléber Karipuna, liderança de base da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia (COIAB), disse que a ideia é chamar a atenção de todos os setores da sociedade brasileira que também se sentem ameaçados por mudanças em leis para defenderem seus direitos diante do Congresso e do Planalto, em Brasília (DF). Segundo ele, se a bancada ruralista do Congresso conseguir aprovar a PEC 215, por exemplo, "nós nunca mais teremos terras indígenas demarcadas”.
Foto: ABr_Antonio_Cruz22"A gente vê um relacionamento muito estreito entre órgãos do governo federal e a bancada ruralista do Congresso. Tem membros do governo trabalhando para essas propostas serem aprovadas. A gente não vê com bons olhos o que o governo fala e o que ele faz”, expressou, acrescentando que os movimentos indígenas sabem que não são prioridade para o governo da presidenta Dilma Rousseff.
O líder indígena disse ainda que o apoio de quilombolas, camponeses, sindicatos e outros setores da sociedade brasileira com a causa indígena apontam para a "união de forças para derrubar essas propostas”. Segundo ele, a ideia é tentar um diálogo com o governo para colocar novamente o posicionamento dos índios contra esses projetos. "Se isso [o diálogo] não ocorrer, nós buscaremos outras instâncias jurídicas”, avisou.
Programação
A Semana Nacional de Mobilização Indígena foi aberta na tarde desta segunda-feira (30) com a aula temática "Povos indígenas, terra e ameaças à Constituição”, na Universidade de Brasília. O Conselho Indigenista Missionário (CIMI), o Centro de Trabalho Indigenista (CTI), o Greenpeace e o Instituto Socioambiental (ISA), também lançaram ontem o hotsite "República dos Ruralistas” que apresenta dados sobre os parlamentares que defendem propostas anti-indígenas e a ligação deles com empresas multinacionais do agronegócio, crimes ambientais e contras populações tradicionais e pequenos agricultores. O hotsite foi desenvolvido utilizando tecnologias livres.
Hoje (1º) lideranças e representantes de movimentos indígenas concederam uma coletiva de imprensa para denunciar e dar visibilidade ao problema, e realizaram um ato público em defesa da Constituição e dos direitos de Povos Indígenas e Tradicionais, em frente ao Congresso Nacional.
Na manhã desta terça-feira a audiência pública sobre os 25 anos da Constituição Federal e os Direitos Indígenas acabou em protestos na Comissão de Direitos Humanos do Senado. De acordo com informações da Agência Brasil, a senadora Ana Rita (PT-ES) iniciou a audiência com duas horas de atraso e um pedido de desculpa pelos índios terem sido impedidos de entrar na Casa. Os indígenas só foram autorizados a entrar no Senado depois de intensa negociação e com a condição de deixarem seus objetos característicos como arcos, flechas e instrumentos musicais, na entrada.
Para os próximos dias estão previstos mais debates temáticos, audiências, seminários, visitas, exposições e atos públicos em outras cidades do país e do mundo.

Para mais informações, acesse: http://mobilizacaonacionalindigena.wordpress.com/
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