Translate

domingo, 3 de novembro de 2013

Farc podem se incorporar ao processo político


sábado, 2 de novembro de 2013

Inglaterra aprova novo sistema regulador da imprensa

Conselho Assessor da Rainha sancionou o novo regime que contempla a criação de um órgão regulador e outro ouvidor. Por Marcelo Justo, de Londres



Marcelo Justo

www.theepochtimes.com
Londres – Os grandes grupos da imprensa britânica não puderam evitar, com um recurso judicial no último minuto, que se aprovasse um novo sistema regulador à luz dos escândalos das escutas telefônicas. O Conselho Assessor da Rainha da Inglaterra, composto por altos funcionários e membros do governo, sancionou o novo regime que contempla a criação de um órgão regulador e outro ouvidor com poderes ampliados e multas de mais de um milhão de dólares pela violação do código de ética da imprensa.
Em um dia de alta voltagem dramática, duas instâncias judiciais rechaçaram o recurso dos conglomerados midiáticos para que se bloqueasse a aprovação do novo sistema. Segundo o juiz Stephen Richards, a imprensa “teve muitíssimo tempo para apresentar seus argumentos” sobre o novo marco regulatório e sua demanda era “no melhor dos casos, muito frouxa”. Os conglomerados – News Corp de Murdoch, Daily Mail e General Trust e  Trinity Mirror – apelaram novamente à tarde à Corte que voltou a negar-lhes uma ordem interina para bloquear o novo sistema.

O novo sistema, consensuado pelos três principais partidos políticos, substitui a Comissão de Reclamações sobre a Imprensa, que se mostrou totalmente inoperante durante as duas últimas décadas, cenário dos escândalos envolvendo a família real e, finalmente, o das escutas telefônicas. Como pela mão de algum demiurgo, ao mesmo tempo em que a justiça limpava o caminho para a promulgação oficial do novo sistema, três jornalistas se declaravam culpados ante a Corte Criminal de Old Bailey de interceptar comunicações e interferir no telefone de uma estudante sequestrada e assassinada, Milly Dowler. O caso de Dowler provocou renúncias em massa no grupo Murdoch, o fechamento do dominical News of the World e forçou o governo a criar em 2011 a Comissão Leveson que propôs um novo sistema regulatório.

A velha Comissão de Reclamações sobre a Imprensa era um mecanismo de autorregulação sim poderes de investigação ou sanção da imprensa e com um código de ética brando que ninguém respeitava. O atual sistema propõe a criação de um órgão regulador, nomeado pela própria imprensa, mas sem editores ou membros de diretorias de publicações, e um painel ouvidor que cuidará com que o regulador respeite o código de ética e se comporte de maneira independente.

A proposta, criticada em princípio pelas vítimas das escutas telefônicas, tentava manter um difícil equilíbrio entre uma espécie de autorreegulação da imprensa – que nomeava o comitê regulador – e uma garantia de que este comitê atuasse de maneira independente graças à vigilância do órgão supervisor. Em uma tentativa de garantir a liberdade de imprensa e a não interferência política, o órgão supervisor não poderá ser integrado por jornalistas, políticos ou funcionários públicos.

O sistema tem um calcanhar de Aquiles: é voluntário. As publicações só serão submetidas a esta regulação se aceitarem participar. Esta participação será alentada por incentivos que favorecem que as queixas contra a imprensa se resolvam por processos internos de arbitragem e que autorizam as cortes a tratar de maneira diferente um periódico caso não faça parte do sistema.

Estes incentivos não bastaram para os donos da imprensa que agora devem decidir se farão parte do sistema ou se vão boicotá-lo, gerando um potencial enfrentamento entre o parlamento e os meios de comunicação. O diretor executivo do The Thimes, Roger Alton, insinuou que haverá uma resistência em massa. “Uma ideia que foi consensuada entre políticos e lobistas anti-imprensa enquanto comiam pizza não vai controlar a imprensa que é chave para a democracia. Resistiremos”, assinalou.

Nenhum diário anunciou até aqui sua participação no sistema, mas nem todos apelaram contra a sua existência. Guardian, Financial Times e Independent se mantiveram à margem da ação judicial. O grupo “Hacked off”, fundado pelas vítimas das escutas, entre eles o ator Hugh Grant, condenou duramente o chamado à resistência. “Murdoch e seus amigos estão se aferrando ao direito a mentir, intimidar, intrometer-se e tornar a vida das pessoas miserável”, assinalou o diretor executivo de Hacked Off, Brian Cathcart.


Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Fonte: Carta Maior

Zizek: "Quem são os responsáveis pela paralisia do governo nos EUA? Os mesmos idiotas responsáveis pela crise de 2008"

 Ao fazer oposição ao Obamacare, a direita populista-radical expõe as distorções de sua própria ideologia. Texto de Slavoj Zizek
Slavoj Zizek

.
Em abril de 2009 eu estava descansando num quarto de hotel em Syracuse, alternando entre dois canais: um documentário da PBS sobre Pete Seeger, o grande cantor americano de música country da esquerda; e uma reportagem da Fox News sobre o anti-tributário Tea Party, com um cantor de música country apresentando uma canção populista sobre como Washington está tributando os cidadãos comuns e trabalhadores para financiar os financistas de Wall Street. Havia uma estranha similaridade entre os dois cantores: ambos articulavam acusações anti-estabilishment e populistas contra os ricos exploradores e seu Estado; ambos clamavam por medidas radicais, incluindo a desobediência civil.

Era mais uma lembrança dolorosa de como os atuais populistas-radicais de direita nos fazem recordar dos antigos populistas-radicais de esquerda (os grupos cristãos sobrevivencialistas-fundamentalistas de hoje, com sua situação de semilegalidade, não são organizados como os Panteras Negras na década de 1960?). É uma manipulação ideológica magistral: a pauta do Tea Party é fundamentalmente irracional, já que ela pretende proteger os interesses dos trabalhadores comuns ao privilegiar os “exploradores ricos”, portanto contrariando os seus interesses.
A ideologia distorcida também está por trás da atual paralisia do governo federal nos EUA. Uma pesquisa de opinião no final de junho de 2012 demonstrou que a maioria dos americanos, embora se opusesse ao Obamacare, apoiava de maneira contundente a maior parte de suas provisões. Eis que encontramos a ideologia do Tea Party em sua forma mais pura: a maioria quer ter o seu bolo ideológico, mas quer comer o doce de verdade. Eles querem os benefícios concretos de uma reforma no sistema de saúde, ao passo que rejeitam seu formato ideológico, que é visto como uma ameaça à “liberdade de escolha”. Eles rejeitam o conceito de fruta, mas eles querem maças, ameixas e morangos.

Alguns devem se lembrar dos esforços comunistas contra a liberdade burguesa “formal”. Por mais ridícula que fosse essa argumentação, há um fundo de verdade nessa distinção entre a liberdade “formal” e a “real”. Um gerente numa empresa em crise tem a “liberdade” para demitir funcionários, mas não a liberdade para mudar a situação que impõe a ele suas escolhas. Nós acompanhamos isso, também, na discussão sobre o sistema de saúde americano: o Obamacare entregaria a várias pessoas a “liberdade” questionável de se preocuparem com quem cobriria suas enfermidades.

Liberdade de escolha é algo que só funciona com a existência de uma complexa rede de condições legais, educacionais, éticas e econômicas – limitações que formam o alicerce invisível para o exercícios da nossa liberdade. É por isso que, como antídoto à ideologia populista da direita pró-escolha, países como a Noruega deveriam ser ressaltados como um modelo: apesar de todos os principais agentes respeitarem um acordo acordo social básico, e de grandes projetos sociais serem promulgados em solidariedade, a economia está prosperando (e não apenas por causa das reservas de petróleo), contradizendo peremptoriamente o senso comum de que uma sociedade como esta estaria estagnada.

Não são muitos os que sabem – e poucos ainda apreciam a ironia do fato – de que a icônica música de Frank Sinatra, My Way (Minha maneira, em tradução livre) – que supostamente sintetiza a postura individualista americana – é na verdade uma versão da canção francesa Comme d'Habitude, que significa “como sempre, como de hábito”. É muito fácil enxergar isso como outro exemplo da oposição entre a esterilidade dos hábitos franceses e a inventividade americana. Mas e se essa for uma oposição falsa? E se, para que eu possa fazer as coisas do meu jeito, precisar contar que as coisas caminhem comme d'habitude? Muitas coisas precisam ser reguladas se nós quisermos desfrutar da nossa liberdade sem regulações.

Frequentemente ouvimos que a paralisia do governo dos EUA é resultado de brigas partidárias, que os políticos deveriam se colocar acima disso e encontrar solução bipartidárias para o bem da nação. Não apenas o Tea Party, mas Barack Obama também é acusado de dividir a população americana em vez de a unir. Mas se isso, precisamente, for uma qualidade positiva de Obama? Em situações de crise profunda, uma divisão autêntica é urgentemente necessária: uma divisão entre aqueles que querem se arrastar dentro dos antigos parâmetros e aqueles que estão atentos à necessidade de mudanças radicais. Este, e não o consenso oportunista, é o único caminho para a união verdadeira.

Uma das consequências bizarras da crise financeira de 2008 e das medidas tomadas para combatê-la (enormes somas de dinheiros para ajudar os bancos) foi a ressurgência da obra de Ayn Rand, o mais próximo que se pode chegar de uma ideóloga do capitalismo radical sustentado pela noção de que “a ganância é boa”. As vendas de sua maior obra, o livro Quem é John Galt? (Atlas Shrugged), dispararam. De acordo com alguns relatos, já há sinais de que o cenário descrito no livro – os próprios capitalistas criativos entrando em greve – pode se concretizar por via de uma direita populista.

Entretanto, essa é uma interpretação equivocada da situação: o que está de fato acontecendo atualmente é basicamente o oposto. A maior parte do dinheiro do resgate financeiro está indo precisamente para os heróis de Ayn Rand, os banqueiros que falharam em seus projetos “criativos” e nos conduziram à hecatombe financeira. Não são os “gênios criativos” que estão agora ajudando os cidadãos comum; são os cidadãos comuns que estão ajudando os “gênios criativos” fracassados.

John Galt, o personagem central do romance de Ayn Rand, não tem seu nome exposto até praticamente o fim da narrativa. Antes de sua identidade ser revelada, a pergunta é feita repetidamente: “Quem é John Galt?”. Agora nós sabemos exatamente quem ele é: John Galt é o idiota responsável pela crise financeira de 2008 e pela atual paralisia do governo americano.

Fonte: Carta Maior

Roteiros para "sair do capitalismo"

   

Anselm Jappe filia-se à corrente do marxismo que se autodenomina crítica do valor, que não considera a denúncia da exploração como central da obra de Marx.

Ricardo Musse - Para o Blog da Boitempo

Blog da Boitempo
Anselm Jappe filia-se à corrente do marxismo que se autodenomina “crítica do valor”. Os nomes mais conhecidos dessa vertente são Robert Kurz, recentemente falecido, e Moishe Postone. Com seu último livro, Crédito à morte: A decomposição do capitalismo e suas críticas, Jappe se credencia como mais que um divulgador. Atualiza essa teoria, destacando a pertinência de sua reflexão na análise da conjuntura e, sobretudo, procurando demonstrar, em tom polêmico, as insuficiências das contestações corriqueiras ao capitalismo.

A “crítica do valor” parte de uma interpretação de O capital que, na contramão da leitura impulsionada pela Segunda e Terceira Internacionais, não considera a denúncia da exploração e seus desdobramentos sob a forma de luta de classes como o ponto central da obra de Marx. Na trilha aberta por História e consciência de classe, de György Lukács, e por A teoria marxista do valor, de Isaak Illich Rubin, desdobrada posteriormente pela Escola de Frankfurt, considera que o eixo central da teoria marxista consiste na crítica ao “fetichismo da mercadoria” e às formas envolvidas nesse processo: valor, mercadoria, dinheiro, capital, trabalho etc.

Não se trata, porém, apenas de uma correção teórica. A leitura desenvolvida por essa vertente traduz uma análise histórica e uma opção política que atribui os fracassos do reformismo social-democrata e dos Estados ditos socialistas a uma compreensão equivocada do funcionamento do capitalismo, em particular, do papel nele desempenhado pela forma-mercadoria.

O diagnóstico do presente histórico, ancorado nessa linhagem, identifica, nas transformações recentes do capitalismo, sintomas de seu processo de decomposição. A circulação incessante da mercadoria dinheiro, pressuposto necessário da dinâmica do capital, funciona como uma espécie de “sujeito automático” que se depara cada vez mais com limites internos e externos.
Internamente, o capital presencia o paradoxo de ter que incrementar inovações no processo de trabalho que tendem a reduzir a taxa de lucro e a própria massa de mais-valia, fonte primordial da atual crise econômica e social. Externamente, a lógica da acumulação, a exigência de ampliação contínua da produção, esbarra nos limites da natureza, situação que tende a amplificar a crise ecológica.

A força da reconstituição, por Jappe, dessa dupla crise, deriva da precisão e da argúcia com que demonstra seus efeitos na configuração contemporânea da sociabilidade e da subjetividade. A expansão inaudita da mercantilização, atingindo setores até então infensos ao “fetichismo da mercadoria”, intensifica as formas de relação social moldadas pela troca monetária, com o predomínio da abstração e da quantificação. Seu resultado mais palpável consiste no incremento da barbárie, patente cada vez mais não só no funcionamento do mercado, mas nas próprias políticas de Estado.

Em linha geral, no entanto, nessa fase, o capitalismo tende a promover, no âmbito das subjetividades, o narcisismo. Trata-se de uma neurose (ou psicose), cuja matriz, Jappe atribui a uma infantilização massiva oriunda da ênfase no consumo, na sedução das mercadorias e de uma dessimbolização em larga escala produzida pela indústria do entretenimento. A regressão a um estágio no qual prevalece o princípio do prazer, a dificuldade em aceitar a realidade, a projeção do eu sobre os objetos exteriores, no mínimo, dificultam a experiência da alteridade, condição imprescindível para um desenvolvimento psíquico maduro.

As polêmicas de Jappe contra as correntes contemporâneas críticas do capitalismo perpassam os dez artigos reunidos no livro. Intervenções no debate francês, os textos não se eximem de confrontar as principais reações intelectuais e políticas à crise do capitalismo.

A discussão é travada em patamares distintos. Num primeiro bloco, rejeita-se “o cidadanismo do tipo ATTAC, a caça aos especuladores e as críticas cujo único alvo é a alta cúpula financeira; mas também as propostas de volta à ‘política’ e à luta de classes”. Jappe designa-as como “populistas”, pois não criticam as bases do capitalismo, limitando-se a “propor reformas, procurar bodes expiatórios, procurar formas de antagonismo que afundaram com o próprio capitalismo”.

Num segundo bloco, propõe um “diálogo crítico” com tendências que julga capazes de indicar caminhos para uma superação real da sociedade capitalista. Inclui, nessa série, os teóricos do “dom”, organizados no grupo francês MAUSS, as posições defendidas por Jean-Claude Michéa e a tese, surgida no interior do ambientalismo, do “decrescimento”. As objeções que Jappe levanta referem-se, grosso modo, a uma compreensão insuficiente, por parte dessas vertentes, da lógica do capital. Desconhecendo as determinações primordiais do processo de acumulação, esses adversários do capitalismo correm o risco de propor metas ou roteiros insuficientes para “sair do capitalismo”.

Os dois últimos artigos do livro esboçam uma atualização do conceito frankfurtiano de “indústria cultural”. Jappe insiste na pertinência de distinções “qualitativas” no campo da arte e da cultura, contra o relativismo generalizado e o igualitarismo da “esquerda cultural”. Segundo ele, o pós-modernismo apenas replica a dominação da forma-mercadoria, com sua indiferença em relação ao conteúdo.

Concluo com uma citação indicativa de sua disposição em não se curvar a consensos consagrados como senso comum:

“a esquerda quis abolir hierarquias que podiam até fazer algum sentido, com a condição que não fossem estabelecidas como definitivas, que fossem modificáveis: as da inteligência, do gosto, da sensibilidade, do talento. A existência de uma hierarquia de valores contribui para negar e contestar a hierarquia do poder e do dinheiro que reina absoluta numa época em que se nega toda e qualquer hierarquia cultural”.

Referências bibliográficas
JAPPE, Anselm. Crédito à morte. A decomposição do capitalismo e suas críticas. Tradução: Robson J. F. de Oliveira. São Paulo: Hedra, 2013.
MARX, Karl. O Capital. Tradução: Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013
LUKÁCS, Georg. História e consciência de classe. Tradução: Rodnei Nascimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
RUBIN, Issak Illich. A teoria marxista do valor. Tradução: José Bonifácio de S. Amaral Filho. São Paulo: Polis, 1987.

***

Ricardo Musse é professor no departamento de sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo. Doutor em filosofia pela USP (1998) e mestre em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992). Atualmente, integra o Laboratório de Estudos Marxistas da USP (LEMARX-USP) e colabora para a revista Margem Esquerda: ensaios marxistas, publicação da Boitempo Editorial. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas.

Fonte: Carta Maior