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domingo, 24 de novembro de 2013

Um espectro que ronda o Brasil?

 Neste ano ocorreram pelo menos três episódios públicos envolvendo denúncias de "doutrinação marxista" no ambiente universitário brasileiro.
Luciana Ballestrin

Arquivo
Neste ano ocorreram pelo menos três episódios públicos envolvendo denúncias de “doutrinação marxista” no ambiente universitário brasileiro: a recusa de um estudante em realizar um trabalho sobre Karl Marx, a pedido de seu professor (SC); a ação popular movida por um advogado contra um projeto de extensão de difusão do marxismo (MG), que acarretou em sua suspensão pela Justiça Federal do Maranhão e a acusação de um filósofo sobre a contaminação do marxismo nas Ciências Humanas e Sociais (SP). As três notícias tiveram cobertura em veículos midiáticos, cujas posições ideológicas são historicamente conhecidas do público.

O espraiamento nacional de uma suposição sobre o avanço do comunismo e do marxismo no Brasil, às vésperas do cinquentenário do Golpe civil-militar, convida a todos os cidadãos e cidadãs para a seguinte reflexão: o que estes discursos e ideias representam no Brasil após 25 anos da promulgação da Constituição de 1988? Gostaríamos de sugerir que isso reflete uma paranoia, compartilhada por pessoas e grupos capazes de formar guetos de opinião e que a despeito do alcance restrito, ganham destaque desproporcional na mídia hegemônica.

O conceito de paranoia, em termos psiquiátricos, possui sua própria história, como todos os conceitos mais ou menos compartilhados pelo campo científico. A despeito das controvérsias particulares inerentes a este campo - no caso, o da psicanálise - é possível sustentar com baixo custo de prejuízo que a ideia de paranoia envolve basicamente um delírio persecutório baseado em uma desconfiança descolada da realidade, razão ou empiria.

Defensivas ou preventivas, as consequências políticas da proliferação do discurso paranoico anticomunista e antimarxista ferem, paradoxalmente, dois princípios liberais básicos: liberdade de expressão e tolerância. Ao mesmo tempo, reedita a paranoia clássica alimentada pela Guerra Fria, cuja conjuntura internacional fora cúmplice do segundo período ditatorial brasileiro.

Foi justamente neste contexto que ocorreu a institucionalização das Ciências Sociais no Brasil, amplamente apoiada pela estadunidense e liberal Fundação Ford.
Neste período, várias brasileiras e brasileiros pagaram com a dor, o exílio e a vida, o preço pela defesa de suas ideias comunistas e marxistas, bem como quaisquer outros que contrariassem à lógica da Ditatura Civil-Militar. Hoje, qual é o preço a pagar por essa retórica da intransigência? Como responder a uma paranoia revestida de intelectualidade, a um despautério anacrônico e a um disparate sem fundamento?

Seria um tanto contraproducente esboçar nessas linhas argumentos e razões que tentem comprovar que o Brasil não é governado por comunistas e que a universidade brasileira não está intoxicada pelo marxismo. Inútil, de igual forma, pensar na originalidade histórica dos escritos marxianos e na importância das várias correntes do marxismo - do vulgar e ortodoxo para o crítico e arejado - para os campos das Ciências Sociais Aplicadas ou não. Da mesma maneira estéril, argumentar que o eurocentrismo, o colonialismo e o progresso moderno não são completamente afastados do marxismo e que justamente por isso, ele encontra resistência nos movimentos decoloniais latino-americanos.

Produtivo, talvez, seja observar o nascimento de um novo tipo de direita no Brasil.
Mesmo os velhos e os contemporâneos clássicos do liberalismo político moderado são capazes de aceitar a tolerância, a diferença, a liberdade de expressão, a existência do Estado e o respeito ao outro. Não estamos falando, portanto, da adversária histórica direita liberal. Ela é nova justamente porque ultrapassa a própria moral e a própria ética do liberalismo e acontece neste exato momento histórico. Ela é nova justamente porque também se apropria dos discursos da esquerda e da democracia para combater a própria esquerda e a própria democracia.

Se, cada vez mais, a esquerda não tem se restringindo à alternativa marxista, criando um repertório de resistência, emancipação e libertação próprias, a direita não tem se restringido à alternativa liberal, criando um repertório de ignorância, esquecimento e ódio próprios. Certamente, o espectro que ronda a primeira já não é mais o do comunismo. Mas, o espectro que ronda a segunda ainda desagua no seu totalitarismo oposto, o fascismo. Ou será que estamos, simplesmente, paranoicos?

(*) Professora Adjunta de Ciência Política, Coordenadora do Curso de Relações Internacionais - Centro de Integração do Mercosul Programa de Pós-Graduação em Ciência Política - Instituto de Filosofia, Sociologia e Política, da Universidade Federal de Pelotas.

sábado, 23 de novembro de 2013

Entender e defender a Coréia do Norte




Por Yongho Thae
Via Invent the Future
Traduzido por Paulo Gabriel, do Centro do Socialismo

Nota dos Editores (Centro do Socialismo): Yongho Thae é o embaixador norte-coreano na Inglaterra. Abaixo, traduzimos uma entrevista cedida por ele em Outubro a Carlos Martinez. Nela, o entrevistado trata de diversos temas que ainda causam polêmica em todos os lugares do mundo, como o programa nuclear da Coréia Popular, sua estrutura de Estado e sociedade, a Guerra Contra a Síria, a atual conjuntura latino-americana, etc.

Julgamos importante a tradução e publicação desse texto no Brasil e demais países de língua portuguesa por conta de uma experiência que vivemos recentemente.

É fato que, em totalidade, o público de nossa página e nosso blog declara-se anti-imperialista. No entanto, em Abril desse ano, quando ocorreu a tensão militar entre a Coréia do Norte e o imperialismo estadunidense, ao defendermos intransigivelmente a Coréia Popular, fomos repudiados por parte de nossos seguidores. 

Stalinismo ou não, o fato é que o regime imperialista mundial quer se apoderar da Coréia do Norte para calar qualquer voz de oposição ao capitalismo e à escravidão assalariada, ou até mesmo à dominação imperialista mundial. Defender a Coréia Popular é uma questão de princípios, não de adesão total e acrítica às posições do governo coreano. Afinal, foi o próprio Trotsky quem disse: "Stálin derrubado pelo imperialismo, é a contrarrevolução que triunfa".

Esperamos que o presente texto reacenda o debate acerca da ingerência imperialista contra a Coréia Popular, e, principalmente, esperamos que ele possa servir para auxiliar nossos seguidores no objetivo auto-declarado do mesmo: entender e defender a Coréia do Norte. 


ENTENDER E DEFENDER A CORÉIA DO NORTE

CM: A narrativa da mídia ocidental afirma que o programa nuclear da RDPC [República Popular Democrática da Coréia, Coréia do Norte - N. do Editor] é uma grande ameaça à paz mundial. Por que a RDPC possui armas nucleares?

YT: Quando a imprensa ocidental comenta o programa nuclear da RDPC, ela nunca fala sobre as principais razões por trás de tal programa. A mídia só está interessada em justificar as agressões dos EUA. Ela quer que as pessoas permaneçam cegas à lógica básica de nossa posição. Nossa política é simples e fácil de ser compreendida: nós precisamos de uma dissuasão nuclear.
Antes que eu entre nesta questão, eu gostaria de esclarecer que a desnuclearização da península coreana ainda faz parte das políticas da RDPC. Nossa política sempre foi a de salvaguardar nosso país da ameaça de uma guerra nuclear. Mas para alcançar esse objetivo não tivemos escolha senão a de desenvolver nossas próprias armas nucleares.
Depois da Segunda Guerra Mundial, os EUA eram o único país do mundo que possuía armas nucleares. Com o objetivo de avançar com sua estratégia de dominação global, o governo americano decidiu utilizar bombas atômicas no Japão. Os fatos demonstram que não havia razão alguma para usar tais armas naquela situação. Na Europa, em maio de 1945, Hitler foi derrotado e a guerra chegou ao seu fim. No Pacífico, a maré já havia virado completamente contra o Imperialismo japonês. Era óbvio que o exército soviético entraria na guerra contra o Japão [Nota do tradutor: o Exército Vermelho entrou na guerra contra o Japão. A Operação “Tempestade de Agosto” destruiu todas as posições japonesas na Ásia continental em questão de duas semanas mais ou menos. Ajudando a libertar a Coréia, inclusive.], e o Japão já estava perdendo a guerra contra os EUA. Era apenas uma questão de tempo até que o esforço de guerra japonês entrasse em colapso. O Japão não iria conseguir vencer as forças combinadas da União Soviética, Europa, China e EUA, e por isso estavam buscando uma maneira de sair do conflito. Não havia absolutamente motivo algum para os EUA utilizarem suas armas nucleares. Dentro do establishment [Nota do tradutor: não há tradução correlata em português. A palavra refere-se às instituições mais poderosas de um país, tanto privadas quanto públicas. Seria uma organização que abrange as mais importantes figuras das classes dominantes] americano houve discussões encarniçadas sobre o uso ou não das bombas atômicas. A população do mundo não compreendia o verdadeiro poder destrutivo destas armas – apenas os líderes americanos sabiam. Eles queriam que o mundo visse o quão poderosas as bombas eram, para que então todas as nações fossem obrigadas a seguir os ditames da política dos EUA. Com esta meta em mente, as autoridades norte-americanas não levaram em conta a quantidade de vidas que seriam ceifadas. Para eles, as vidas de cidadãos comuns do Japão eram como as vidas de animais, de cachorros. Eles matariam o tanto que pudessem para favorecer seus interesses geopolíticos.
Então os EUA lançaram as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Mais tarde, a URSS também desenvolveu suas armas nucleares. Com o passar do tempo o arsenal nuclear soviético passou a contrabalancear a possibilidade do uso de armas nucleares por parte dos Estados Unidos. Esta é a principal razão a qual os EUA não puderam usar tais armas na segunda metade do século XX. Mais tarde o clube nuclear foi expandido, passando a incluir China, Inglaterra e França. Em termos de paz mundial como um todo, o aumento do clube nuclear pode ser visto intuitivamente como uma coisa ruim, mas a verdade é que a China e a União Soviética, por possuírem também armas nucleares, foram capazes de restringir o uso destas pelas outras nações. Eu acho que este é um fato que deveríamos admitir.
Em relação à Coréia, você sabe que a Coréia é logo ao lado do Japão. Muitos japoneses viveram na Coréia, pois a Coréia era colônia do Japão. Nosso aparelho midiático era comandado pelos japoneses. Então quando Hiroshima e Nagasaki foram bombardeadas, nós ouvimos sobre e entendemos muito bem a escala do desastre. O povo coreano entendeu muito bem o tanto de pessoas que foram mortas em um espaço de tempo de apenas um minuto. Então o povo coreano teve uma experiência bem direta de guerra nuclear.
A Guerra da Coréia começou em 1950. Os americanos pensaram que poderiam vencer facilmente a guerra, porque eles possuíam as armas convencionais mais avançadas e haviam mobilizado 16 países satélites para o esforço. Nessa época a China havia acabado de ser libertada – a República Popular da China tinha apenas um ano. Enquanto isso, a URSS ainda estava se recuperando da vasta destruição causada pela Segunda Guerra Mundial. Portanto, os EUA pensaram que venceriam facilmente a Guerra da Coréia. Entretanto, eles acabaram descobrindo que tal arrogância fora um equívoco. De fato, a Guerra da Coréia foi a primeira guerra a por em cheque as ambições dos Estados Unidos.
O Exército Popular da Coréia e os voluntários chineses lutaram com incrível força contra os EUA. Do ponto de vista dos americanos, esta guerra era uma guerra contra o comunismo. Porém os comunistas detinham total apoio das populações da Coréia e da China. Ambas nações eram basicamente rurais e as pessoas eram motivadas pela ideia de conseguir suas próprias terras. Foi o Partido Comunista – O Partido do Trabalho da Coréia – que distribuiu as terras igualmente a todos os fazendeiros. Então o PTC tinha o apoio incondicional das massas que participaram da Guerra da Coréia. Eles sabiam da situação de de seus irmãos e irmãs na Coréia do Sul – dominados pelos latifundiários e pelos interesses dos EUA – e entendiam que se a RDPC perdesse a guerra, o poder dos grandes proprietários de terra seria restaurado e a reforma agrária seria revertida. Esta é a razão pela qual o povo comum da Coréia se envolveu no conflito. Todos se envolveram e ninguém hesitou em fazer os mais árduos sacrifícios.
Quando Einsenhower percebeu que a guerra não estava seguindo de acordo com os planos, perguntou aos seus assessores: como podemos vencer a guerra? Os generais americanos sugeriram o uso de uma ameaça nuclear. Eles imaginaram que se avisassem à população que eles iriam lançar uma bomba atômica no país, as pessoas fugiriam do front. Por terem testemunhado os efeitos da guerra nuclear há apenas cinco anos, milhões de pessoas fugiram da Coréia do Norte e foram para o sul. O resultado desta ação foi que até hoje ainda há 10 milhões de famílias separadas na Coréia.
Então você pode ver que o povo coreano é vítima direta de agressões nucleares – muito mais que qualquer outro povo do mundo. A questão nuclear não é uma questão abstrata para nós, é algo que temos de encarar com muita seriedade.
Depois da Guerra da Coréia os EUA nunca pararam com sua política hostil contra a Coréia. Atualmente eles dizem que não podem normalizar as relações com a RDPC porque nós possuímos armas nucleares. Porém nas décadas de 60, 70 e 80 nós não possuíamos armas nucleares – e eles normalizaram as relações? Não. Em vez disso eles continuaram a tentar dominar a península coreana com suas forças militares. Foram os EUA que introduziram armas nucleares na península coreana. Nos anos 70 eles posicionaram armas nucleares na Europa e também na Coréia do Sul com o objetivo de restringir a influência da União Soviética. Os Estados Unidos nunca pararam de ameaçar a RDPC com essas armas que estavam bem no nosso quintal, apenas do outro lado da zona desmilitarizada. A Coréia é um país bem pequeno com uma grande densidade populacional. O quadro então é bem claro: se os EUA utilizassem suas armas nucleares a escala da catástrofe humanitária seria inimaginável.
O governo da RDPC teve então que desenvolver uma estratégia que fosse capaz de prevenir os EUA de usarem suas armas nucleares contra nós. Na década de 70 houve discussões entre as grandes potências sobre como se poderia prevenir uma guera nuclear. As cinco grande potências então decidiram pela  não-proliferação de armas nucleares. Apenas estes cinco países teriam permissão para possuir armamentos nucleares, os outros ficariam sem.  O Tratado de Não-Proliferação (TNP) foi realizado na década de 70. Ele afirma claramente que potências nucleares não podem utilizar suas armas nucleares com o objetivo de ameaçar nações não-nucleares. Então a RDPC pensou que ao assinar o TNP as amaças nucleares por parte dos EUA cessariam. Portanto assinamos o tratado. No entanto, os Estados Unidos nunca abandonaram seu direito de lançar um ataque nuclear preventivo. Os EUA sempre afirmaram que se seus interesses fossem ameaçados eles teriam sempre o direito de lançar ataques nucleares preventivos para salvaguarda-los. Logo é bem óbvio o fato de que o TNP não pode assegurar a nossa segurança. Com base nesta situação, nós decidimos nos retirar do TNP e formular uma estratégia diferente para nos proteger.
A conjuntura mundial mudou após o 11 de Setembro de 2001. O Presidente Bush afirmou que, caso os Estados Unidos quisessem se manter seguros, deveriam remover os países do ‘Eixo do Mal’ da face da terra. Os três países listados como ‘Eixo do Mal’ foram Irã, Iraque e Coréia do Norte. Bush disse que os EUA não hesitariam em usar armas nucleares para eliminar este mal. Acontecimentos desde então provaram que esta não era apenas uma ameaça retórica – eles realmente realizaram tais ameaças contra o Afeganistão e o Iraque [Nota do tradutor: ele se refere ao uso de projéteis e munições de Urânio Empobrecido por parte das forças armadas dos EUA].
Voltando à Coréia do Norte, houve um acordo bilateral entre a administração de Clinton e a RDPC em 1994, mas a administração de Bush cancelou o acordo, argumentando que a América não deveria negociar com o mal. Os neoconservadores disseram que ‘estados malignos’ deveriam ser destruídos pela força. Tendo testemunhado o que ocorreu com o Afeganistão e o Iraque, percebemos que não poderíamos por um fim às ameaças americanas com base em armas convencionais apenas. Então nós percebemos que precisávamos de nossas próprias armas nucleares para proteger nosso povo.
Somada a questão da ameaça nuclear direta, devo apontar que também há a questão do ‘guarda-chuva’ nuclear. Os EUA estendem seu guarda-chuva nuclear sobre seus aliados como, por exemplo, a Coréia do Sul, o Japão e os países membros da OTAN. Mas a Rússia e a China não estão dispostos a abrir um guarda-chuva nuclear a outras nações, principalmente porque têm medo da reação dos Estados Unidos. Nós percebemos que nenhum país nos defenderia das armas nucleares americanas, portanto chegamos à conclusão de que deveríamos desenvolver as nossas próprias armas nucleares.
Nós podemos dizer que a escolha pelo desenvolvimento de nossa própria força de dissuasão nuclear foi uma decisão correta. O que aconteceu com a Líbia? Quando Kadafi quis melhorar as relações da Líbia com os EUA e o Reino Unido, os imperialistas disseram que ele deveria desistir de seus programas militares para atrair investimentos internacionais. Kadafi até afirmou que iria visitar a RDPC para nos convencer a desistir de nosso programa nuclear. Porém quando a Líbia desmontou todos os seus programa nucleares e isto foi confirmado pela inteligência ocidental, o ocidente mudou seu tom. Isto levou a uma situação na qual Kadafi não podia proteger a soberania da Líbia, ele não podia proteger nem mesmo sua própria vida. Esta foi uma importante lição histórica.
A RDPC quer se manter segura. Nós pedimos para os EUA abandonarem sua política hostil, suas ameaças militares, pedimos para normalizar as relações com a RDPC, para substituir o armistício por um tratado de paz. Apenas quando a ameaça militar americana à RDPC for removida, quando mecanismos de garantia da paz forem estabelecidos na península coreana, é que poderemos conversar sobre desistir de nosso arsenal nuclear. Em outras palavras, os EUA deveriam levar esta questão a sério, os americanos deveriam ter uma abordagem positiva para resolvê-la.
Nós temos orgulho pelo fato de conseguirmos ter evitado outra guerra, mesmo com toda a enorme presença militar americana no nordeste asiático e na península coreana. A máquina de guerra dos EUA nunca pára. Vietnã, Afeganistão, Iraque, Líbia e a agora a Síria... Todos os dias centenas de pessoas inocentes morrem devido à política imperialista implantada pelos EUA. Mas depois do fim da Guerra da Coréia em 1953, a RDPC foi capaz de manter a paz na península coreana e consideramos isto uma grande conquista.
CM: Vocês estavam esperançosos que, com a eleição de Barack Obama, a posição dos EUA em relação à Coréia Popular melhoraria?

YT: Bem, a política de Obama é diferente da de Bush e dos conservadores. Em vez de resolver estes problemas diretamente, ele os está movendo para uma posição de ‘abandono estratégico’. Obama quer deixar a questão do jeito que está em vez de dar passos concretos para melhorar a situação. A administração atual afirma que há muitas questões pendentes para os Estados Unidos resolverem.
CM: Ultimamente ocorreram algumas visitas interessantes à RDPC como, por exemplo, a de Eric Schmidt, CEO do Google, e também a de Dennis Rodman, o astro do basquete. Será que estas visitas indicam – mesmo que de forma bastante frágil – que há algumas pessoas dentro dos círculos dominantes dos EUA que estão interessadas em melhorar as relações com a RDPC?

YT: É muito difícil dizer se tais visitas terão um efeito positivo. O que a RDPC quer é transmitir ao povo americano que a RDPC está sempre disposta a discutir e resolver os problemas, que a RDPC quer melhorar as relações com os EUA, que a RDPC não considera os EUA como seu inimigo permanente. Nós esperamos que estas visitas de cidadãos americanos proeminentes ajudem a transmitir estas mensagens.
CM: E quanto às outras potências imperialistas (por exemplo, Inglaterra, França, Austrália ), elas apresentam posições mais construtivas em relação à RDPC ou elas seguem a liderança dos EUA?

YT: Há algumas diferenças de posição. Por exemplo, o governo dos EUA nunca reconheceu diplomaticamente a RDPC como um país soberano, enquanto alguns dos aliados dos americanos como a Inglaterra e a Austrália reconhecem, sim, nossa existência. Estes países apoiam uma política de conversação com a RDPC.
CM: E os EUA ainda mantém armas nucleares na Coréia do Sul?

YT: É muito difícil de se dizer com certeza, porque as armas nucleares dos EUA são muito mais sofisticadas e modernizadas se comparadas com as das década de 70 e de 80. Eles possuem mais submarinos nucleares. Eles possuem armas que são menores e mais difíceis de detectar. Então é difícil dizer se há armas nucleares permanentemente estacionadas na Coréia do Sul. Porém é bastante óbvio que armas nucleares americanas visitam a Coréia do Sul com certa regularidade. Recentemente, os EUA fizeram exercícios militares conjuntos com o Japão e a Coréia do Sul. Com o intuito de participar de tais exercícios, o porta-aviões americano George Washington permaneceu no porto sul-coreano de Busan por três dias. Que tipo de aviões são carregados pelo George Washington? Caças e bombardeiros que podem lançar facilmente bombas nucleares na península coreana.
Em março deste ano (2013), os EUA introduziram bombardeiros B-52 na península coreana para exercícios militares, simulando bombardeios nucleares sobre a Coréia do Norte.
A política dos EUA é de nem confirmar ou negar se eles tem ou não tem armas nucleares na Coréia do Sul. Mas o fato é que eles podem introduzir estas armas e lançar um ataque a qualquer momento, logo não importa muito se há ou não armas nucleares estacionadas na península.
CM: Você vive em Londres já há um bom tempo e provavelmente tem alguma ideia de como o povo inglês pensa a respeito da Coréia do Norte. O esteriótipo é de que é um país ‘não-democrático’ onde as pessoas não possuem o direito de votar; onde as pessoas não têm nenhuma liberdade de expressão; elas não têm o direito de criticar o governo;  elas não têm o direito de participar da administração do país. Está é uma caracterização justa?

YT: Penso que a impressão geral que o povo inglês tem foi formada pela imprensa burguesa. O que eu posso dizer é que aquelas pessoas que fizeram investigações mais sérias, especialmente as que visitaram a RDPC e viram nossas conquistas com seus próprios olhos, possuem uma visão completamente diferente acerca de meu país.
O número de turistas ingleses têm aumentado nos últimos anos – apenas neste ano serão mais de 500. Existem nove agências de turismo inglesas que organizam visitas à RDPC. Vistos nunca são negados a turistas. Eu já me encontrei com alguns turistas ingleses que haviam acabado de retornar da RDPC e eles estavam tão surpresos em ver o quanto o país era diferente de suas primeiras impressões formadas pela mídia. Eles não sabiam que a RDPC é um país socialista onde existe educação gratuita, onde há um sistema de saúde gratuito, onde há moradia também gratuita. Eles não conheciam todos estes aspectos positivos da Coréia do Norte. A maioria deles imaginava, antes de visitar o meu país, que nossas ruas eram lotadas de pessoas desnutridas e que não havia transportes decentes, que todo mundo parecia triste, que não havia vida cultural de verdade, etc. Porém quando eles chegam na Coréia percebem que as coisas são completamente diferentes. Por exemplo, o transporte público é quase gratuito – você paga um pouco de dinheiro, mas comparado com o que você paga na Inglaterra e nos EUA é basicamente gratuito. Eles não conseguiam acreditar que Pyongyang é cheia de grandes apartamentos e casas construídos e concedidos aos cidadãos de forma gratuita. Eles também ficavam surpresos com o fato de haver tantas escolas muito melhor equipadas dos que as escolas públicas inglesas. Eles descobriram que as crianças norte-coreanas em geral possuem um nível educacional muito maior que as inglesas; que a vasta maioria das crianças norte-coreanas desfrutam de atividades extra-escolares de graça como, por exemplo, aulas de piano, de violino, entre outras coisas. Eles descobriram que não há pedintes nas ruas, nem problemas com drogas. Eles descobriram que podiam sair de seus hotéis a qualquer hora da noite e caminhar pelas ruas sem temer por sua segurança, já que não há problemas de assaltos ou de gangues.
Então eles estavam chocados e me perguntaram porque a mídia inglesa é sempre tão negativa em relação à RDPC e nunca menciona seus aspectos positivos. Minha resposta é que a mídia quer apresentar a RDPC como um mal, um tipo de inferno, porque eles querem dizer ao público inglês que não há alternativas ao capitalismo, ao imperialismo. Eles querem que as pessoas acreditem que há apenas um sistema econômico e político, portanto é contra seus interesses dizer qualquer coisa positiva sobre o sistema socialista.
CM: Então se pessoas da Inglaterra quiserem visitar a Coréia do Norte é fácil de conseguir?

YT: Sim. Há várias companhias bem conhecidas como a Regent Hollydays, Voyagers, Koryo Tours e outras que organizam visitas em grupo. Porque a mídia descreve a RDPC tão mal, o número de pessoas interessadas em visitar está, na verdade, se tornando cada vez maior.
CM: Se alguém for em uma visita, visitará apenas Pyongyang?

YT: Não, você pode visitar o lugar que quiser. Há mais e mais opções surgindo a todo momento. Por exemplo, muitos turistas querem visitar apenas por um dia, então eles podem fazer uma visita de um dia através da fronteira com a China. Outra viagem que nós iniciamos é uma viagem de trem, com trens indo da China para a Coréia. Agora há também uma viagem aérea com aviões antigos (feitos na URSS nas décadas de 50 e 60) que é bastante apreciada por muitos turistas. Agora uma companhia da Nova Zelândia está organizando um tour de motocicleta por toda a península coreana. É possível encontrar tais tours na internet.
Estas viagens têm aumentado bastante nos últimos 3-4 anos, já que agora possuímos uma infraestrutura de apoio muito melhor e assim a indústria de turismo se tornou mais aberta e diversificada. Nós sentimos que isto nos ajuda em estabelecer fortes relações culturais com outros países.
CM: Cada país socialista teve sua própria maneira de organizar a democracia popular e a participação, por exemplo, os Sovietes na URSS e os Comitês para a Defesa da Revolução em Cuba – estruturas que permitiram que as pessoas cuidassem de seus negócios nos locais de trabalho e nos bairros, resolvendo seus problemas básicos e elegendo representantes para assembleias nas esferas regionais e nacionais. Existe algo semelhante na Coréia do Norte?

YT: Claro que sim. A democracia é praticada em todos os níveis do partido e do governo. Como você sabe, o partido mais importante do governo é o Partido do Trabalho da Coréia. Este partido é um partido de massas, com milhões de membros, e ele é organizado de acordo com o centralismo democrático. Se alguém em uma estrutura do partido (uma célula) não está trabalhando de acordo com a linha do partido que foi discutida e aprovada, então haveria críticas por parte de outros membros do partido e a oportunidade de tal membro corrigir seu comportamento lhe seria dada. Em cada nível do partido utilizamos este sistema de crítica, auto-crítica e responsabilidade com o objetivo de manter o trabalho eficiente e correto.
Nós temos a Assembléia Popular Suprema a qual poderia ser considerada um equivalente do parlamento inglês. Sob essa Assembléia Popular Suprema existem assembleias de província, cidade e distrito. Os membros são todos eleitos e eles se reúnem com frequência. Eles são responsáveis por tomarem decisões importantes de uma maneira democrática normal. Por exemplo, dado um orçamento limitado, eles poderão ter que votar onde investirão o dinheiro: na construção de uma pré-escola, na melhoria de um hospital e por aí vai. Desta maneira, amplas massas de pessoas são envolvidas no processo de administração da sociedade. Se as assembleias não funcionarem corretamente, existem mecanismos para os cidadãos criticarem-nas e para apelarem contra decisões errôneas e trabalho mal feito. Por exemplo, se o saneamento da água de uma vila em particular apresenta problemas e precisa ser melhorado, então o povo local pode ir à assembléia local para protestar. Se seus protestos são levados em conta e a situação é melhorada, tudo bem. Caso contrário, as pessoas podem apelar para esferas mais altas – como a da cidade ou da província –  para certificar-se que a assembléia está representando-os apropriadamente.
CM: O PTC é o único partido político na Coréia do Norte?

YT: Existem vários partidos e organizações de massas além do PTC, como o Partido Católico e o Partido Social-Democrata. Nós não consideramos que existam partidos de ‘governo’ e de ‘oposição’ – todos os partidos são amigáveis entre si e cooperam em conjunto para o desenvolvimento de nossa sociedade. Todos os partidos participam das assembleias populares – desde que possuam votos suficientes. Inclusive eles são representados na Assembléia Popular Suprema.
As pessoas têm preconceito em relação ao nosso país, pois pensam que as decisões são tomadas apenas por uma pessoa, mas como isso seria possível? Administrar um país é um processo bem complicado e que necessita da energia e da criatividade de muitas pessoas.
CM: Estou interessado em compreender como a RDPC foi capaz de sobreviver nas últimas duas décadas, em um contexto político global tão complicado. A URSS – a maior nação socialista – entrou em colapso e as democracias populares na Europa Oriental deixaram de existir. Como que, em um ambiente internacional tão hostil, a RDPC conseguiu se manter em pé?

YT: As últimas duas décadas foram o período mais difícil para nós. De uma hora para outra perdemos nossos principais parceiros comerciais, sem nenhum aviso sequer. Isto teve um impacto severo em nossa economia. E com o desaparecimento da URSS, os Estados Unidos passaram a adotar uma política mais agressiva, acreditando que nossos dias estavam contados. Os EUA intensificaram o bloqueio econômico e a ameaça militar. Eles bloquearam todas as transações financeiras entre a RDPC e o resto do mundo. Os EUA controlam o fluxo de moeda internacional: se eles dizem que qualquer banco será alvo de sanções caso faça negócios com a RDPC, então é óbvio que os bancos terão que seguir o que eles dizem. Os EUA lançaram um ultimato a todas as empresas: se fizerem negócios com a RDPC, estarão sujeitas a sanções. Esta ameaça ainda está de pé. O governo dos Estados Unidos pensou que se eles cortassem todas as relações econômicas da RDPC com o resto do mundo, nós teríamos que nos submeter à vontade deles. A única razão que nos manteve em pé foi a unidade sincera de nosso povo. O povo se uniu firmemente à liderança. E nós trabalhamos duro para resolver nossos problemas sozinhos.
Se um dia o Reino Unido perdesse de repente todos os seus mercados nos EUA e na Europa, seria capaz de sobreviver? Se todas as transações financeiras são interrompidas como um país pode sobreviver? E, no entanto, nós sobrevivemos.
CM: A conjuntura global atualmente é mais favorável para a Coréia do Norte e para outros países que buscam um caminho independente?

YT: Sim. As últimas duas décadas foram bastante difíceis: não só tivemos que tentar sobreviver economicamente como também tivemos que frustrar o militarismo agressivo dos EUA, portanto, tivemos que colocar muito investimento e foco no fortalecimento de nosso exército, na construção de armamentos e no desenvolvimento de nossa capacidade nuclear. Agora que possuímos armas nucleares podemos reduzir o investimento militar, porque mesmo uma pequena arma nuclear pode servir como dissuasão. Nós estamos em uma posição em que podemos fazer os EUA hesitarem em nos atacar. Logo, podemos nos focar mais no bem-estar do povo agora.
CM: Você acredita que o declínio econômico relativo dos EUA e da Europa Ocidental ajudará a Coréia?

YT: Nós temos que esperar para ver. É verdade que o poder econômico dos EUA está em declínio, mas precisamente por causa disso eles estão tentando consolidar suas posições políticas e militares. Neste momento, isto é refletido no ‘pivô para a Ásia’ [Nota do Tradutor:  política da administração de Obama em considerar a região da Ásia e do Pacífico como fundamental para seus interesses devido ao desafio que o crescimento do poderio chinês têm trazido para a hegemonia dos EUA], que é uma política focada na China. Portanto, a importância da península coreana está aumentando devido à sua proximidade com a China e com a Rússia. A península coreana é uma espécie de ponto estratégico pelo qual os EUA pensam poder exercer controle sobre as grandes potências da Ásia.
CM: A guerra na Síria tem sido uma questão fundamental da política mundial nestes últimos 2-3 anos. A RDPC continua a apoiar e continua a ser amiga da Síria. Qual é a base de tal relação?

YT: No passado, nosso falecido presidente Kim Il-Sung teve relações bastante amigáveis com o presidente Hafez al-Assad. Ambos os líderes compartilhavam a opinião de que se devia lutar contra as políticas imperialistas. A Síria sempre foi uma grande adepta da auto-determinação palestina e era também um pilar importante contra a política dos EUA e de Israel em relação ao Oriente Médio. Enquanto isso, a RDPC era um importante pilar contra a política dos EUA na península coreana. Então ambos os países compartilhavam da mesma política de luta contra o imperialismo global. Esta é a base da solidariedade entre as duas nações.
Historicamente a Síria não foi nosso único aliado no Oriente Médio: nós éramos muito próximos ao Egito de Nasser e à OLP de Yasser Arafat – estes líderes e estas nações compartilhavam a mesma filosofia de independência e desenvolvimento. Tal filosofia ainda existe entre a Síria e a Coréia do Norte.
Sob o pretexto de introduzir direitos humanos e democracia no Oriente Médio, os EUA e os seus aliados estão semeando o caos. A chamada ‘Primavera Árabe’ deles criou uma situação em que centenas de inocentes são mortos todos os dias. As pessoas estão lutando entre si no Egito, Síria, Iraque, Líbano, etc. Isto é um reflexo da política de dividir e conquistar dos EUA. Israel – o mais importante aliado regional dos EUA – é um país pequeno, enquanto que o mundo árabe é bem grande; logo, os EUA e Israel temem a unidade do povo árabe. Como eles podem quebrar essa unidade? Ele tentam semear o ódio entre as diferentes organizações políticas, entre os diferentes grupos religiosos, entre os diferentes países. Quando o ódio é efetivamente criado, eles encorajam as pessoas a lutarem entre si. Esta é a ‘liberdade’ que eles levaram: a liberdade das pessoas matarem umas as outras. Esta é a estratégia para garantir a segurança de Israel.
É essencial para o povo árabe a compreensão desta política de dividir e conquistar. Esta política foi utilizada por centenas de anos pelo Império Britânico, pelos americanos e por outras potências imperialistas. As pessoas devem se unir para que possam proteger suas crianças.
CM: Nos últimos 10 ou 15 anos surgiram algumas mudanças importantes na América do Sul e Central, a região historicamente considerada como ‘quintal’ dos EUA. Existem agora governos progressivos não só em Cuba, como também na Venezuela, Nicarágua, Bolívia, Equador, Brasil, Argentina e Uruguai. Você acredita que este é um desenvolvimento promissor?

YT: Penso que sim. O povo da América do Sul está mais consciente do que nunca. Antigamente, a América do Sul era dominada pelo imperialismo americano, com a maior parte dos governos – boa parte deles eram ditaduras militares brutais – apoiados diretamente pelos EUA. Mas estes governos não melhoraram a vida de seus cidadãos. Então agora as pessoas perceberam que elas devem quebrar a relação de dependência em relação aos EUA. Elas decidiram tomar conta de seus próprios destinos. Apenas dê uma olhada na Venezuela: a Venezuela sempre foi um país rico em petróleo, mas apenas quando Chávez chegou ao poder que a riqueza do petróleo foi distribuída também para as pessoas comuns.

A RDPC tem relações bem positivas com países latino-americanos. Nós abrimos uma embaixada no Brasil. Nós temos ótimas relações com a Nicarágua, Bolívia, Venezuela e Cuba, claro. Chávez queria visitar a Coréia do Norte, mas no fim sua saúde acabou não permitindo. Porém ele sempre promoveu boas relações entre a Venezuela e a Coréia do Norte. Ele certamente deixou muitas saudades.

Missão de Pizzolato na Itália é destruir o processo do ‘mensalão’, diz advogado




Pizzolato acusa Rios de assinar uma carta com informações falsas ao STF
Pizzolato acusa Rios de assinar uma carta com informações falsas ao STF

Militante petista desde a fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), candidato ao governo do Paraná em 1990 e com um histórico de contribuições às campanhas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, ora em local desconhecido, na Europa, depositou em um banco naquele continente o dossiê de mais de mil páginas que carregou com ele, na fuga do Brasil. Mais do que documentos, Pizzolato recebeu dos companheiros presos por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF), entre eles o ex-ministro José Dirceu e o deputado federal José Genoino (PT-SP), o apoio para seguir adiante na missão que, aos 61 anos, o catarinense de Concórdia pretende cumprir ao longo da vida que lhe resta.
“Decidi consciente e voluntariamente, fazer valer meu legítimo direito de liberdade para ter um novo julgamento, na Itálila, em um Tribunal que não se submete às imposições da mídia empresarial, como está consagrado no tratado de extradição Brasil e Itália”, afirmou Pizzolato na nota que o Correio do Brasil divulgou, em primeira mão.
Uma vez desmontada “a farsa do ‘mensalão”, como se referem o escritor Fernando Morais e o jornalista Raimundo Pereira, editor da revista Retrato do Brasil ao julgamento da Ação Penal (AP) 470 no STF, Pizzolato terá construído o seu caminho de volta ao Brasil e conquistado a liberdade para Dirceu e Genoino.
– Pizzolato sabe que não está na Itália a passeio, muito menos porque espera que os presídios sejam mais civilizados do que aqueles lá do Brasil. Ele está em uma missão, que significa a sua liberdade e a de seus companheiros. Todos eles poderiam, sem nenhuma dificuldade, pedir asilo em uma embaixada, mas a decisão de se entregar baseia-se, fundamentalmente, na fé em Pizzolato conseguir, junto à Justiça italiana, provar que nunca existiu ‘mensalão’ algum no Brasil. Ele espera, sim, que a Justiça italiana, livre dos interesses políticos paroquiais e do espetáculo promovido pela mídia local, saiba avaliar que ele não cometeu crime algum – afirmou, por telefone, um dos advogados do ítalo-brasileiro.
Criado em um sítio, no interior do Paraná, Pizzolato “leva a sério seus compromissos”, como atestam parentes e amigos do militante petista. Acuada pela feroz campanha na mídia conservadora, a direção do PT demonstra dificuldade para sair em defesa de seus principais líderes, como Dirceu e Genoino. A presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantêm uma distância segura do processo, embora demonstrem uma “preocupação humanista”, como afirmou Dilma, em relação ao estado de saúde do parlamentar petista.
– O fato é que apenas Pizzolato poderá desconstruir a tese que Barbosa levou quase uma década para montar. Uma vez provada a inocência dele, todo o processo cai por terra, na cabeça daqueles que o construíram – acrescentou o advogado.
Gestão de risco
Contratada à época pela administradora de cartões Visa, a agência de comunicação Ketchum Estratégia fez uma avaliação que constatou a funcionalidade do esquema montado, segundo o dossiê de Pizzolato, para que a imagem da multinacional escapasse, ilesa, da CPI dos Correios, onde se originou a AP 470. Pizzolato era o único petista na diretoria de Marketing do Banco do Brasil.
Presidente do fundo Visanet, à época, Antonio Luiz Rios da Silva foi dormir tranquilo no dia 21 de Dezembro de 2005, depois que recebeu da jornalista Mayrluce Villela, hoje empregada na estatal Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), em Brasília, a mensagem eletrônica na qual afirma, textualmente, que “quem se complicou foi o ex-diretor de Marketing do BB, Henrique Pizzolato”.
“O presidente da CPI, Delcídio Amaral, chegou a dizer que o Banco do Brasil fez jus ao ditado: ‘vão-se os aneis, ficam os dedos’, para explicar que o Banco do Brsil assumiu erros, mas jogando a responsabildiade para cima do Pizzolato. Ele (Delcídio) não acha que a Visanet tenha que explicar nada”, afirma Villela.
Antonio Rios da Silva hoje ocupa a superintendência da gráfica FTD, de propriedade da Província Marista do Brasil Centro-Sul (PMBCS), ligada aos irmãos maristas, um dos grupos católicos de ultradireita em atividade no Brasil. Em 2003, porém, logo após a derrota de José Serra para o então presidente Lula, Rios ocupava a Vice-presidência de Varejo do Banco do Brasil, de onde saiu para presidir o fundo Visanet, de onde se originaram os recursos apontados na AP 470.

Rios é acusado por Pizzolato de assinar uma “carta mentirosa”, anexada ao processo, e a manipular peritos “ao fornecer ‘informações’ inverídicas a respeito do funcionamento do fundo Visanet” e, de posse dos documentos em seu dossiê, pretende apresentá-los a uma corte italiana. Procurado pelo Correio do Brasil, Rios não estava imediatamente disponível para responder à reportagem.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Globo pulando fora?: desmoralização de JB e do STF preocupa emissora da ditadura



MENSALÃO: Globo dá sinais de que, se farsa ruir, Barbosa é quem vai pagar a conta

por Helena Sthephanowitz, Rede Brasil Atual


Conquistada a condenação dos réus da Ação Penal 470, o chamado mensalão, a Globo agora quer transferir o ônus do golpismo para o STF, mais especificamente para Joaquim Barbosa. Não parece ser por virtude, mas por esperteza, que William Bonner passou um minuto no Jornal Nacional de  quarta-feira (20) lendo a notícia: "Divulgada nota de repúdio contra decisão de Joaquim Barbosa".

O manifesto é assinado por juristas, advogados, lideranças políticas e sociais repudiando ilegalidades nas prisões dos réus do mensalão efetuadas durante o feriado da Proclamação da República, com o ministro Joaquim Barbosa emitindo carta de sentença só 48 horas depois das ordens de prisão.

O locutor completou: "O manifesto ainda levanta dúvidas sobre o preparo ou boa-fé do ministro Joaquim Barbosa, e diz que o Supremo precisa reagir para não se tornar refém de seu presidente".

A TV Globo nunca divulgou antes outros manifestos em apoio aos réus, muito menos criticando Joaquim Barbosa, tampouco deu atenção a reclamações de abusos e erros grotescos cometidos no julgamento. Pelo contrário, endossou e encorajou verdadeiros linchamentos. Por que, então, divulgar esse manifesto, agora?

É o jogo político, que a Globo, bem ou mal, sabe jogar, e Joaquim Barbosa, calouro na política, não. E quem ainda não entendeu que esse julgamento foi político do começo ao fim precisa voltar ao be-a-bá da política. O PT tinha um acerto de contas a fazer com a questão do caixa dois, mas parava por aí no que diz respeito aos petistas, pois tiveram suas vidas devassadas por adversários, que nada encontraram. O resto foi um golpe político, que falhou eleitoralmente, e transformou-se numa das maiores lambanças jurídicas já produzidas numa corte que deveria ser suprema.

A Globo precisava das cabeças de Dirceu e Genoino porque, se fossem absolvidos, sofreria a mesma derrota e o mesmo desgaste que sofreu para Leonel Brizola em 1982 no caso Proconsult, e o STF estaria endossando para a sociedade a tese da conspiração golpista perpetrada pela mídia oposicionista ao atual governo federal.

A emissora sabe dos bastidores, conhece a inocência de muitos condenados, sabe da inexistência de crimes atribuídos injustamente, e sabe que haverá uma reviravolta aos poucos, inclusive com apoios internacionais. A Globo sabe o que é uma novela e conhece os próximos capítulos desta que ela também é protagonista.

Hoje, em tempos de internet, as verdades desconhecidas do grande público não estão apenas nas gavetas da Rede Globo, como acontecia na ditadura, para serem publicadas somente quando os interesses empresariais de seus donos não fossem afetados. As verdades sobre o mensalão já estão escancaradas e estão sendo disseminadas nas redes sociais. A Globo, o STF e Joaquim Barbosa têm um encontro marcado com essas verdades. E a emissora já sinaliza que, se ela noticiou coisas "erradas", a culpa será atribuída aos "erros" de Joaquim Barbosa e do então procurador-geral da República, Roberto Gurgel.

Joaquim Barbosa, homem culto, deve conhecer a história de Mefistófeles de Goethe, a parábola do homem que entregou a alma ao demônio por ambições pessoais imediatas. Uma metáfora parecida parece haver na sua relação com a TV Globo. Mas a emissora parece que está cobrando a entrega antes do imaginado.

Fonte:http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/helena/2013/11/globo-da-sinais-de-que-se-farsa-ruir-barbosa-e-que-vai-pagar-a-conta-4280.html