No finalzinho de 2013, o
jornalista Eugenio Bucci, editorialista do Estadão, escreveu artigo
rejeitando a tese que considera a atuação da mídia comercial brasileira
hoje, a imprensa em particular, como “um partido de oposição”. O texto
de Bucci já recebeu brilhante crítica do jornalista e professor
Gabriel Priolli, publicada no Viomundo. Como o tema é muito vasto, além
dos argumentos cristalinos levantados por Priolli, os quais endosso,
cabem outros olhares.
Pode-se dizer que há vários pontos de
contatos entre os argumentos de Bucci com os da ex-presidente da
Associação Nacional dos Jornais, Judith Brito, que, em 2010,
contrariando o editorialista do Estadão, analisando, de forma bem
direta o desempenho da imprensa, confessou:“obviamente, esses meios de
comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já
que a oposição está profundamente fragilizada. E esse papel de
oposição, de investigação, sem dúvida nenhuma incomoda sobremaneira o
governo [Lula]”.
Ao contrário de Judith, para tentar provar
que a imprensa no Brasil não atua como um partido político, Bucci
recorre ao caso venezuelano, quando, em 2002, um golpe de estado,
organizado nas dependências de uma das maiores redes de tv local, tirou
Chávez do poder por 47 horas, sequestrando-o, preparando, inclusive, sua
eliminação física, o que apenas não ocorreu face o levante
cívico-militar em defesa da democracia. Chávez voltou nos braços do povo
e foi reeleito mais duas vezes. Mas, as conclusões de Bucci sobre esta
experiência são curiosas. Ele afirma que “se os meios de comunicação
tivessem passado a operar como partido unificado, com o intento de
sabotar a administração pública, o que nós teríamos no Brasil seria um
abalo semelhante ao que se viu na Venezuela em 2002”. A história nos
ajuda a lançar argumentos neste interessantíssimo e grave debate, que,
certamente, não terá acolhida plural nas páginas do Estadão.
Petrobrás: atacada desde o seu nascedouro
Partindo
do princípio que o exercício de crítica à imprensa é imprescindível e
democrático, tanto quanto o direito dos meios de criticar os governos e
suas políticas, vale ressaltar que não há absolutamente nenhum
cerceamento ao trabalho dos meios que, como afirmou Judith Brito, estão
fazendo a “posição oposicionista neste país”. Mas, vale lembrar também
no dia em que o Presidente Vargas sancionou a criação da Petrobrás, o
Estadão publicou editorial sustentando que era uma loucura criar uma
empresa estatal de petróleo num país em que, sabidamente, dizia o texto,
não havia petróleo. O problema todo era a opção por uma empresa
estatal. Como classificar uma posição editorial como esta, com plena
sintonia com a oposição estrangeira e a oposicionista interna à criação
da Petrobrás? Era uma crítica jornalística ou era uma oposição
ideologicamente cega ao nacionalismo de Vargas?
Mas, esta
oposição editorial sistemática já havia se expressado, muito
especialmente, durante a fase em que o governo Vargas regulamentou os
direitos trabalhistas e pela primeira vez os trabalhadores passam a ter
uma carteira de trabalho, o emprego formal, jornada de trabalha
delimitada, descanso semanal, férias, conquistas que sempre, sempre
foram afrontadas pelo pensamento oligárquico exalado pelo Estadão. Era
uma crítica jornalística normal ou uma defesa intransigente da tese de
todo direito ao capital e nenhum direito ao trabalho?
Também é
preciso lembrar que aquilo que Bucci reconhece ter ocorrido na
Venezuela, a quartelada mediática, já havia ocorrido aqui no Brasil.
Primeiramente, em 1954, quando os jornais, rádios e a iniciante
televisão - com sustentação financeira dos anúncios de empresas
transnacionais - juntaram-se num grito-campanha de denúncias contra o
suposto e nunca provado “mar de lama de Vargas”, resultando no
dramático suicídio presidencial. A fúria popular fez os golpistas
recuarem, , mas, por apenas 10 anos. Até mesmo o jornal Tribuna
Popular, do PCB, que naquele traumático dia 24 de agosto de 1954
publicava uma entrevista de Prestes pedindo a renúncia de Vargas, tal
como todos os demais jornais, à exceção do Última Hora, foi alvo do
legítimo e espontâneo sentimento popular, com os dirigentes comunistas
mandando recolher, às pressas, os jornais das bancas.
Censura atinge até a Carta Testamento de Vargas
Apesar
da gigantesca manifestação popular de apoio a Vargas, os que tramaram o
golpe, conseguiram o cúmulo de censurar novas leituras radiofônicas da
Carta Testamento de Vargas, um dos principais documentos da História do
Brasil!, pois um dispositivo militar da Aeronáutica ocupou a Rádio
Nacional. Assim, é assustador ler Bucci afirmar que “no Brasil não
houve nada parecido”. Não houve uma sabotagem contra a administração
pública? Aqui o presidente Vargas suicida-se, lá na Venezuela o
presidente Chávez, igualmente eleito pelo voto popular, é sequestrado e
permanece preso por 47 horas, até que o levante popular e militar
democrático derrota os golpistas.
Aqui, na madrugada de 24
de agosto de 1954, na reunião do Catete, Tancredo Neves, jovem ministro
da justiça de Vargas, havia proposto a resistência, inclusive armada, se
preciso fosse, lembrando a Vargas que , em outubro de 1930, ele mesmo
havia sido protagonista de um levante popular armado. Vargas preferiu o
sacrifício. Gesto que inspirou o belo livro “O dia em que Getúlio Vargas
matou Allende”, de Flávio Tavares, que testemunhou uma conversa entre
Mao Tsé Tung e o então senador Salvador Allende, em Pequim, sobre
Vargas. Em 1973, Allende preferiu resistir em La Moneda, cumprindo a
profecia de Vargas que dissera “Só saio do Catete morto!” Chávez, em
2002, orientado telefonicamente por Fidel, optou, corretamente, por
não se imolar e sim, ganhar tempo, contando com a resistência
democrática, militar e povo, unidos em defesa do governo legítimo.
Brizola, na primeira tentativa de golpear a Goulart, mobilizou o povo,
distribuiu armas na praça e organizou a Campanha da Legalidade, em 1961.
Um gesto para a história, com bravura tal que fez recuar os golpistas.
Muito ainda devemos refletir e aprender daquele indomável Brizola com
uma metralhadora no ombro e um microfone nas mãos!
Jornais apoiaram golpes contra Vargas e Jango
Dez
anos depois, em 1964, o golpismo se lançou contra o presidente João
Goulart, que havia recebido a Carta Testamento de Vargas, seu herdeiro
político preferido, e, por isso mesmo, odiado até a medula pelo
Presidente Kennedy - que preparou o golpe, embora incensado como
democrata até hoje - pela cúpula militar e pelos capitalistas do
campo e da cidade. Uma vez mais, o golpe recebe apoio disciplinado da
mídia, com o apoio de recursos financeiros distribuídos pelos organismos
inventados pela Cia para comprar parlamentares, sindicalistas,
jornalistas e jornais. Foi o ex-presidente Tancredo Neves quem denunciou
que a Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, mais agressivo crítico de
Goulart, recebera recursos financeiros da CIA para desestabilizar o
governo. Desestabilização da qual fez parte também o Estadão, que
publicou o artigo aqui comentado, que tenta naturalizar e eximir de
golpismo a oposicionismo impresso.
.
Como é que “no Brasil não
houve nada parecido”? Nós fomos pioneiros, os golpes contra Chávez e
Allende vieram depois. Contra Jango, não foi apenas apoio ao golpe, com
editoriais demolindo a imagem de um presidente que possuía 73 por cento
de popularidade e pedindo, diariamente - basta pesquisar - a
intervenção militar para derrubar este presidente, instalando uma
ditadura de 21 anos, mas que ainda deixou seus entulhos autoritários por
aí. Foi mais que isto: um governo estrangeiro, EUA, enviou dinheiro,
agentes, combustível, navios e armas para derrubar um governo
democrático, Kennedy sugeriu uma invasão militar, Lyndon Jhonson cumpriu
a cartilha, e este golpismo foi totalmente apoiado pelos jornais,
entre eles o Estadão. Como é que no Brasil não houve nada parecido? Já
houve, em 1954, em 1964, e há, na atualidade, a mesmíssima sintonia
editorial para demolir os governos petistas e seus programas. Senão,
vejamos: tal como contra Jango, os jornais não falavam abertamente em
golpe militar - só quando este sinal veio da Casa Branca - agora ,
também, os jornais não se confessam desestabilizadores dos governos
petistas. Mas, o que estão fazendo é muito diferente de ser apenas
jornalismo crítico. A Judith Brito tem razão quando confessa: os meios
fazem o papel da oposição que , segundo ela, estaria enfraquecida.
Enfado de governar?
Bucci
sugere que “as forças instaladas no governo, como que enfadadas do
ofício de governar, começaram a fazer oposição à imprensa”. Seria o
governo petista, que até o momento manteve intacta prática de milionária
destinação de verbas publicitárias para a mídia em geral que lhe faz
oposição, que estaria fazendo oposição à mídia, e não o contrário? Esta
prática, segundo o texto em análise, decorreria de um enfado com o
exercício do governo. Como estariam enfadadas as forças governistas se
conseguiram, com seus programas sociais, retirar milhões de pessoas da
faixa de extrema miséria, reduzir a desnutrição e o trabalho infantil,
como reconhecem a UNICEF e a OIT, ampliar o mercado de consumo, como
mostra a CEPAL, criar milhões de emprego com carteira assinada,
recuperar a indústria naval demolida na Era da Privataria? Será motivo
de enfado ter mudado o perfil da universidade brasileira, por exemplo, a
ponto que hoje a UnB possua 40 por cento de matrículas de negros?
Pesquisa
realizada pela BBC apontou o Brasil como o sétimo país mais popular do
mundo, à frente dos EUA, que ficam em oitavo lugar, enquanto numa outra
enquete, realizada em 48 países, ficou constatado haver “o sonho
internacional de morar no Brasil”, único país latino-americano e dos
Brics a ser escolhido pelos entrevistados como destino. Realmente, deve
ser muito enfadonho governar um país como este, sendo esta a razão para
“a oposição do governo à imprensa”.
Dilma Roussef, assim como
Lula, demonstra seu elevado compromisso democrático, sem qualquer
retaliação ao jornalismo oposicionista sintonizado com o discurso dos
partidos oposicionistas. O que não impediu a presidenta de processar
jornalista da Folha de São Paulo, que publicou em destaque, na capa,
uma ficha falsificada como prisioneira no Dops, onde foi torturada no
regime militar, apoiado também pelo Estadão. Mas, neste caso, nem
estamos falando de jornalismo, mas de fraude, falsificação, é uma outra
esfera das nossas leis, né?
Quem estaria desanimado?
Bucci
afirma que a crítica ao oposicionismo da imprensa teria por finalidade
“inflar o ânimo dos militantes de baixo e para inflar o ego dos
militantes de cima”. Será mesmo verdade que o partido que elegeu por
três vezes o presidente da república, elegeu a primeira presidenta da
história do Brasil, que manteve ao longo destes 11 anos uma robusta
popularidade, que lidera as pesquisas eleitorais para o próximo pleito e
que foi apontado pelos eleitores como o partido de maior preferência
nacional (mais de 30 por cento), em níveis muito acima do segundo
colocado, o PMDB, com 6 por cento, precisaria mesmo inventar um discurso
artificial, de oposição à imprensa, para conseguir os objetivos fixados
no texto, com uma boa dose de imaginação anti-petista?
Segundo
Bucci, o discurso das forças governistas é autoritário e fanatizante e
“está assentado em bases fictícias, completamente fictícias”. Será? Os
governos petistas organizaram o programa Luz para Todos, permitindo que
milhões de brasileiros conhecessem a luz elétrica somente em pleno
século 21, mas os benefícios nada fictícios desta política têm sido
desconstruídos pela imprensa oposicionista. Como parte do debate
democrático, as forças governistas questionam, legitimamente, este modo
de cobrir os fatos, o que é logo encarado pelo artigo em exame como
“discurso autoritário e fanatizante”.
Mais Médicos, menos jornalismo
O
mesmo Estadão, em editorial, chegou ao ponto de reduzir o Programa
Mais Médicos, que possui elevada aprovação da população mais pobre, a
uma caricatura intitulada “Mais Cubanos”, acusando, sem fundamentação
alguma, que o seu único objetivo seria o de financiar Cuba. Com isto,
ignora-se, deliberadamente, o altíssimo conceito internacional que a
saúde cubana goza em escala internacional, em instituições como a ONU, a
OMS, a OPAS, e, também, pela eficiente presença solidária de seus
profissionais de saúde, junto com suas vacinas, em mais de 70 países em
todo o mundo. Talvez seja este exatamente o problema: junto com os
médicos cubanos, instala-se um modelo mais eficiente de medicina
pública, de filosocia social e solidária, com médicos que não são apenas
Office-boys da indústria de equipamentos médicos e farmacêutica. Por
detrás da rejeição irracional e agressiva de entidades médicas
brasileiras aos médicos cubanos, rejeição que atingiu as raias do
criminoso racismo, desponta-se o medo da indústria de medicamentos ante a
possibilidade de expansão de acordos entre laboratórios estatais de
Cuba e do Brasil, para a produção de vacinas destinadas realmente a uma
política pública de saúde em escala internacional, o que ameaça os
incalculáveis lucros daquela indústria oligopolista transnacional,
vocalizada pelos médicos brasileiros. Brasil e Cuba selaram importantes
acordos nesta área de saúde para atuação parceira e solidária no Haiti,
na África (vacinas cubanas produzidas no Bio-Manguinhos custam 90 por
cento menos que as das transnacionais) e também no Timor Leste. Estas
informações nunca são difundidas pelo oposicionismo impresso, impedindo
seus leitores de uma correta compreensão sobre as políticas públicas do
setor, o que justifica uma queixa democrática por parte das forças
governistas, o que nada tem de fanatizante ou autoritário. Ou não são
informações relevantes estes acordos entre Brasil e Cuba?
Há
muitos exemplos a elencar, sobre a prática do oposicionismo impresso e
seu distanciamento da boa técnica jornalística, entre eles o daquele
super noticiado surto da febre amarela que não ocorreu, o confisco da
poupança que não se deu etc. Mas, tem sido no plano econômico um dos
esforços mais concentrados do oposicionismo impresso para apresentar a
economia brasileira como em derrocada generalizada. Critica-se o
Pibinho, quando os baixos PIBs dos Eua e da França, com crescimento
zero, causaram desemprego de trabalhadores brasileiros em filiais de
empresas estrangeiras aqui, quando, no Brasil, o nível de emprego vem
mantendo-se elevado, sendo praticamente algo próximo ao pleno
emprego.Enquanto o desemprego se alastra pela Europa, o trabalho
infantil cresce nos estados unidos, aqui, o emprego formal avança e os
direitos trabalhistas da Era Vargas, são mantidos e expandidos como na
lei da trabalhadora doméstica e no aumento da licença maternidade.
Economia em derrocada ou a derrocada informativa?
Ainda
no terreno da desconstrução das políticas econômicas brasileira, o
oposicionismo impresso, justificado e naturalizado por Bucci, entoa o
mantra do “descontrole inflacionário”, quando os números informam que,
durante os três primeiros anos do governo FHC, a inflação registrava
12,7 por cento (e recebia a benção deste mesmo jornalismo de “inflação
sob controle”); nos três primeiros anos do Governo Lula, a inflação
marcou 9 por cento, e agora, nos três primeiros anos do governo Dilma,
sob pressão da crise mundial, a inflação cravou 6,8 por cento, portanto,
descendente, nunca descontrolada. Por que, então, seriam fictícias as
bases do discurso que critica o esforço notável deste jornalismo
oposicionista. Quem é mesmo que estaria sendo fanatizante? Não seria o
oposicionismo impresso, que busca desconstruir a inflação de tendência
declinante, a expansão do mercado do consumo, a redução da mortalidade
infantil, a valorização do salário e do mercado de trabalho formal, o
Bolsa Família redutor da miséria, vendo nele apenas um suposto causador
de obesidade?
É muito reveladora a atuação do oposicionismo
impresso em relação à Petrobrás, a segunda maior empresa das Américas e
alvo predileto dos que sonham diariamente com sua privatização. No final
de 2002, a Petrobrás tinha um valor de mercado de 15 bilhões de
dólares, o que a colocava na 121ª posição. Mas, durante o governo Lula a
estatal subiu 118 posições, registrando um crescimento de 192 bilhões
de dólares. Ainda assim, apesar de toda esta valorização, há uma espécie
de pessimismo noticioso que vê como decadente uma empresa que hoje é a
segunda maior empresa de capital aberto das Américas, perdendo apenas
para a Exxon, que avança em desenvolvimento tecnológico e que contribui
para nacionalização de equipamentos, com fortes impactos na retomada da
indústria naval e na expansão do mercado de trabalho. Onde estaria,
então, a derrocada econômica?
A urgência da democratização da comunicação
E
todo este esforço por legitimar um oposicionismo editorial que
afasta-se dos princípios básicos do jornalismo e, tal como em situações
de crise e tensão, como em 1954 e em 1964, se dá sem qualquer
possibilidade de contraponto por parte das forças que apoiam o governo.
É possível imaginar os níveis de histeria que o jornalismo
oposicionista atingiria se, tal como na Inglaterra, na Argentina, no
Equador, no Uruguai, na Bolívia e Venezuela, houvesse aqui uma ação para
uma regulamentação democrática da mídia? Hoje, mesmo direcionando
regiamente volumosa publicidade para o jornalismo oposicionista -
calcula-se que apenas a maior rede de TV teria recebido, em 10 anos,
cifra acima de 5 bilhões de reais de publicidade federal - e mesmo
sem esboçar iniciativas mais determinadas para regulamentar plenamente o
capitulo da Comunicação Social na Constituição Federal, visando
fortalecimento da mídia pública, a pluralidade, a diversidade e a
regionalização - caminhos que tinham que ser priorizados - os
apoiadores do governo vêm sendo acusados disso e daquilo e condenados
por qualquer crítica que façam àquele jornalismo que registra, tal como a
inflação, diminuição em número de leitores, de credibilidade, além do
que muitos jornais fecharam e a audiência dos jornais televisivos
também se reduz.
Influências do jornalismo delinquencial de Mudoch?
Imagine
se o governo e as forças que o apoiam priorizassem, de verdade, uma
política de democratização da comunicação. Chávez, chegou ao cúmulo de
ser acusado de distribuir água contaminada à população de Caracas! Evo
Morales, apresentado como narco-presidente. Cristina Kirchner, pintada
ditatora-populista por apoiar e assumir uma lei de iniciativa popular,
aprovada no Congresso, que desconcentra e desmonopoliza a comunicação,
por implantar TV digital pública, por fortalecer e criar veículos
públicos e universitários e por expandir os mecanismos de financiamento
do belo cinema argentino atual. Aqui, Dilma, mesmo tendo paralisado a
implantação das teses da Confecon, foi pintada como terrorista em sua
ficha falsificada publicada na capa do oposicionismo impresso, defendido
por Bucci. Afinal, é de se estranhar a tentativa de naturalizar um
oposicionismo impresso que chegou às raias de assumir o jornalismo
delinquencial do magnata Murdoch, na Inglaterra, e aqui, partiu para
métodos como o de induzir repórteres à prática de falsidade ideológica e
a penetrar de modo ilegal em hotéis,, instalando câmeras e microfones
em apartamento onde estava hospedado o ex-ministro José Dirceu. Isso vai
muito mais além do que jornalismo oposicionista, não?
O que se
debate e se exige, democraticamente, é que este oposicionismo impresso
faça jornalismo. Exercendo o natural direito de liberdade de expressão
que, atualmente, só as grandes empresas jornalísticas possuem, com
evidente ausência de pluralidade e diversidade. É justo reivindicar que
faça jornalismo, por exemplo, investigando jornalisticamente por que,
nas três auditorias realizadas pelo Banco do Brasil, não se
encontraram irregularidades nas operações realizadas com o fundo
Visanet, que é privado, mas, mesmo assim, os documentos nelas examinados
foram totalmente desconsiderados pelo Ministro Joaquim Barbosa, durante
o julgamento do chamado Mensalão? Talvez, porque o seu exame,
revelaria que a tese do uso do dinheiro público do Banco do Brasil,
nunca provada, pudesse ser, finalmente, desmontada em toda a sua
extensão, comprovando-se como falsa, fictícia.
Por tudo isto,
fica patente a urgência da democratização da comunicação no Brasil, a
necessidade de revisão dos critérios de distribuição das verbas
publicitárias, o debate sobre o inadiável nascimento de um jornal
cooperativo popular nacional, a implantação de fundos públicos para o
exercício da pluralidade e da diversidade, com o fortalecimento das
tevês comunitárias, universitárias distribuídas por todas as regiões do
país, em sinal aberto digital, tal como está sendo implantado na
Argentina. Sem isto, a democracia no Brasil será sempre incompleta,
insuficiente, sujeita à ação desestabilizadora. Mesmo assim, estamos
avançando.
(*) Beto Almeida é membro do Diretório da Telesur
Fonte: Carta Maior