Segundo Artigo (N65)
Karl Marx
11 de Dezembro de 1848
Primeira Edição: Escrito em 11 de Dezembro de 1848. Publicado na
Neue Rheinische Zeitung de 15 de Dezembro de 1848.
Fonte: Obras Escolhidas em três tomos,
Editorial "Avante!"
Tradução: José BARATA-MOURA (Traduzido do alemão e publicado segundo o texto do jornal).
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, janeiro 2007.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por
Editorial
"Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1982.
Colónia, 11 de Dezembro. Quando o dilúvio de Março
[N66] — um dilúvio
en miniature(1*)
— passou, não deixou à superfície da terra berlinense quaisquer
prodígios, quaisquer colossos revolucionários, mas criaturas do estilo
antigo, figuras burguesmente atarracadas — os liberais da Dieta unida
[N67],
os representantes da burguesia prussiana consciente. As províncias que possuíam a burguesia mais desenvolvida, a
Província Renana e a
Silésia, forneciam
o contingente principal para os novos ministérios. Atrás deles, todo um
séquito de juristas renanos. À medida que a burguesia era empurrada
para um plano secundário pelos feudais, nos ministérios, a Província
Renana e a Silésia cediam lugar às primitivas províncias prussianas. O
ministério Brandenburg só ainda tem ligação com a Província Renana
através de um
tory[N68] de Elberfeld.
Hansemann e
von der Heydt! Nestes dois nomes reside, para a burguesia prussiana, toda a diferença entre Março e Dezembro de 1848!
A burguesia prussiana foi atirada para os píncaros do Estado, porém, não, como tinha desejado, por meio de uma
transacção pacífica com a Coroa, mas por meio de uma
revolução. Não eram os seus próprios interesses, mas os
interesses do povo, que devia representar contra a Coroa, isto é, contra
si própria, uma vez que um
movimento popular lhe
tinha preparado o caminho. Aos seus olhos, a Coroa era, porém,
precisamente apenas o escudo pela graça de Deus por detrás do qual se
deviam ocultar os seus interesses próprios profanos. A inviolabilidade
dos
seus interesses próprios e das formas políticas
correspondentes ao seu interesse, traduzida na linguagem constitucional,
devia soar [assim]:
inviolabilidade da Coroa, Daí o entusiasmo da burguesia alemã e, especialmente, da prussiana pela
monarquia constitucional. Daí
que, se a revolução de Fevereiro com todas as suas sequelas alemãs, foi
bem recebida pela burguesia prussiana, porque por ela o leme do Estado
lhe foi posto nas mãos, ela igualmente foi um golpe nos seus cálculos,
porque, deste modo, a sua dominação ficava ligada a condições que ela
não queria cumprir nem podia cumprir.
A burguesia não tinha mexido um dedo. Tinha permitido que o povo se
batesse por ela. A dominação para ela transferida não era, portanto, a
dominação do general que vence o seu adversário, mas a dominação de um
comité de segurança a quem o povo vitorioso confia a defesa dos seus
interesses próprios.
Camphausen
sentia ainda inteiramente o incómodo desta posição e toda a fraqueza do
seu ministério deriva deste sentimento e das circunstâncias que o
condicionaram. Uma espécie de rubor envergonhado ilumina, portanto, os
actos mais desavergonhados do seu governo. A
desvergonha e a
impudência descaradas eram o privilégio de
Hansemann. A
teinte(2*) vermelha constitui a única diferença entre estes dois pintores.
Não se pode confundir a
revolução prussiana de Março, nem com a revolução
inglesa de 1648, nem com
a francesa de 1789.
Em 1648, a burguesia estava ligada à nobreza moderna contra a realeza, contra a nobreza feudal e contra a Igreja dominante.
Em 1789, a burguesia estava ligada ao povo contra realeza, nobreza e Igreja dominante.
A revolução de 1789 tinha por modelo (pelo menos, na Europa) apenas a
revolução de 1648, a revolução de 1648 apenas a insurreição dos Países
Baixos contra a Espanha
[N69].
Ambas
as revoluções estavam avançadas um século, não apenas pelo tempo, mas
também pelo conteúdo, relativamente aos seus modelos.
Em ambas as revoluções, a burguesia era a classe que
realmente se encontrava à cabeça do movimento. O
proletariado e as
fracções da população urbana não pertencentes à burguesia não
tinham ainda quaisquer interesses separados da burguesia ou não
constituíam ainda quaisquer classes, ou sectores de classes,
autonomamente desenvolvidas. Portanto, ali onde se opuseram à burguesia,
como, por exemplo, de 1793 até 1794, em França, apenas lutaram pela
prossecução dos interesses da burguesia, ainda que não
à maneira da burguesia.
Todo o terrorismo francês não foi mais do que uma
maneira plebeia de se desfazer dos
inimigos da burguesia, do absolutismo, do feudalismo e da tacanhez pequeno-burguesa.
As revoluções de 1648 e de 1789 de modo algum foram revoluções
inglesas ou francesas, foram revoluções de estilo
europeu. Não foram a vitória de uma classe
determinada da sociedade sobre a velha ordem política; foram a
proclamação da ordem política para a nova sociedade europeia. Nelas, a burguesia venceu; mas a
vitória da burguesia foi então
a vitória de uma nova ordem social, a
vitória da propriedade burguesa sobre a feudal, da nacionalidade sobre o
provincianismo, da concorrência sobre a corporação, da divisão [da
propriedade] sobre o morgadio, da dominação do proprietário da terra
sobre o domínio do proprietário pela terra, das luzes sobre a
superstição, da família sobre o nome de família, da indústria sobre a
preguiça heróica, do direito burguês sobre os privilégios medievais. A
revolução de 1648 foi a vitória
(3*) do
século XVII sobre o século XVI, a revolução de 1789 a vitória do século
XVIII sobre o século XVII. Estas revoluções exprimem mais ainda as
necessidades do mundo de então do que das regiões do mundo em que se
deram, a Inglaterra e a França.
Na
revolução prussiana de Março nada disto [se dá].
A revolução de Fevereiro tinha abolido a monarquia constitucional,
na realidade, e a dominação burguesa, na ideia. A revolução prussiana de
Março devia
instituir a monarquia constitucional, na ideia, e a
dominação burguesa, na realidade. Muito longe de ser uma revolução
europeia, foi apenas a repercussão atrofiada de uma revolução europeia
num país atrasado. Em vez de estar avançada em relação ao seu século,
estava mais de meio século atrasada em relação ao seu século. Era desde o
princípio
secundária, mas é sabido que as doenças secundárias
são mais difíceis de curar e simultaneamente desgastam mais o corpo do
que as primitivas. Não se tratava do estabelecimento de uma nova
sociedade, mas da ressurreição berlinense da sociedade falecida em
Paris. A revolução prussiana de Março nem sequer era
nacional, alemã; desde o princípio, era
provincial-prussiana. As
insurreições de Viena, de Kassel, de München, toda a espécie de
insurreições provinciais, se deram nas proximidades dela e
disputaram-lhe o primado.
Enquanto 1648 e 1789 tinham o infinito orgulho de estarem no cume
da criação, a ambição de 1848 berlinense era constituir um anacronismo. O
seu brilho assemelhava-se ao brilho das estrelas que só chega até nós,
habitantes da Terra, 100.000 anos depois de os corpos que o irradiavam
estarem extintos. A revolução prussiana de Março era, em ponto pequeno —
aliás, era tudo em ponto pequeno —, uma dessas estrelas para a Europa. O
seu brilho era o brilho de um cadáver de sociedade, há muito
apodrecido.
A burguesia alemã tinha-se desenvolvido tão indolente, cobarde e
lentamente que, no momento em que se contrapôs ameaçadoramente ao
feudalismo e ao absolutismo, avistou frente a si própria, ameaçadores, o
proletariado e todas as fracções da população urbana cujos interesses e
ideias se aparentam com o proletariado. E viu como inimiga não apenas
uma classe
atrás de si, mas toda a Europa
diante de si. A burguesia prussiana não era, como a francesa de 1789, a classe que defendia
toda a sociedade moderna face aos representantes da velha sociedade, a realeza e a nobreza. Tinha descido a uma espécie de
estado [ou ordem social —
Stand], tão
marcadamente contra a Coroa como contra o povo, desejosa de opor-se a
ambos, indecisa face a cada um dos seus adversários tomado isoladamente,
uma vez que os via sempre atrás ou diante de si; inclinada desde o
princípio para a traição contra o povo e para o compromisso com o
representante coroado da velha sociedade, uma vez que já ela própria
pertencia à velha sociedade; representando não os interesses de uma nova
sociedade contra uma velha, mas interesses renovados dentro de uma
sociedade envelhecida; ao leme da revolução não porque o povo estivesse
atrás de si, mas porque o povo a empurrava para diante de si; à cabeça
não porque representasse a iniciativa de uma nova época da sociedade,
mas o rancor de uma velha; um estrato do velho Estado, que não conseguiu
vir ao de cima, atirado por um tremor de terra para a superfície do
novo Estado; sem fé em si própria, sem fé no povo, resmungando contra os
de cima, tremendo perante os de baixo, egoísta para com os dois lados e
consciente do seu egoísmo, revolucionária contra os conservadores,
conservadora contra os revolucionários, desconfiando das suas próprias
palavras de ordem, com frases em vez de ideias, intimidada pela
tempestade mundial, explorando a tempestade mundial — energia em nenhuma
direcção, plágio em todas as direcções, vulgar, porque não era
original, original na vulgaridade — traficando com os seus próprios
desejos, sem iniciativa, sem fé em si própria, sem fé no povo, sem
vocação histórica universal — um velho amaldiçoado que se viu condenado a
dirigir e a desviar no seu próprio interesse senil os primeiros
arroubos juvenis de um povo robusto — sem olhos, sem ouvidos, sem
dentes, sem nada
(4*) — assim se encontrava a
burguesia prussiana depois da revolução de Março ao leme do Estado prussiano.
| Transcrição autorizada |
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Notas de Rodapé:
(1*) Em francês no texto: em miniatura.
(Nota da edição portuguesa.) (
retornar ao texto)
(3*) O texto da
Neue Rheinische Zeitung refere: "a revolução". Seguimos aqui a versão da generalidade das edições posteriores.
(Nota da edição Portuguesa.) (
retornar ao texto)
Notas de Fim de Tomo:
[N65] O presente artigo constitui uma parte do trabalho de Marx
A Burguesia e a
Contra-Revolução, escrito em Dezembro de 1848. Neste trabalho Marx analisa as
causas da vitória da contra-revolução na Prússia do ponto de vista do
materialismo histórico e revela o carácter e as particularidades da revolução de
Março na Alemanha. (
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[N67] Trata-se do órgão constituído na base de estados sociais e composto por
representantes de todas as dietas provinciais da Prússia. Neste caso Marx
refere-se à
Segunda Dieta Unida, que se reuniu em 2 de Abril de 1848, sob o
governo de
Camphausen. Aprovou a lei sobre as eleições para a Assembleia
Nacional prussiana e manifestou o seu acordo sobre o empréstimo que a Dieta
Unida recusara ao governo em 1847. Depois, em 10 de Abril de 1848, a dieta foi
dissolvida. (
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[N68]
Tories: partido político da Inglaterra que surgiu em fins do século XVIII.
Exprimia os interesses da aristocracia fundiária e do alto clero, defendia as
tradições do passado feudal. Em meados do século XIX, na base do partido dos
tories, foi criado o Partido Conservador. (
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[N69] Trata-se da revolução burguesa de 1566-1609 nos Países Baixos (actualmente
Bélgica e Holanda), que faziam parte do Estado espanhol; a revolução combinou a
luta da burguesia e das massas populares contra o feudalismo com a guerra de
libertação nacional contra o domínio espanhol. Em 1609, após uma série de
derrotas, a Espanha foi obrigada a reconhecer a independência da República
Holandesa burguesa. A revolução burguesa dos Países Baixos no século XVI abriu a
época das revoluções burguesas vitoriosas na Europa. O território da Bélgica
actual permaneceu nas mãos dos espanhóis até 1714. (
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