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terça-feira, 4 de março de 2014

Sevastopol, o porto seguro do Exército russo




Atualmente, 25 mil militares russos vivem na região Foto: Serguêi Savostianov/RG
Entenda a relação da Rússia com a região e por que o país precisa de uma base naval nas proximidades do mar Negro.






Víktor Litóvkin, especial para Gazeta Russa
Ao longo da história, Sevastopol conquistou a fama de fortaleza inacessível para os inimigos. A cidade foi fundada por ordem da imperatriz russa Catarina II, a Grande, na costa sudoeste da península da Crimeia, onde havia ruínas da Grécia Antiga. A própria imperatriz escolheu o nome que significava “cidade grandiosa” ou “sagrada”. O verdadeiro motivo para fundar uma cidade no local foi a existência de 30 baías profundas e protegidas de vento. A região tornou-se, então, a principal base russa do Mar Negro por muitos anos.
A Segunda Guerra Mundial foi a época mais difícil em toda a história da cidade. Os soldados do Exército Vermelho e os marinheiros da Frota do Mar Negro conseguiram resistir por 250 dias, mas Sevastopol acabou sendo conquistada pelos nazistas. Quando a guerra chegou ao fim, Sevastopol recebeu uma posição especial na hierarquia republicana da União Soviética.
Mas uma iniciativa tomada pelo secretário-geral do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, Nikita Khruschov, anexou a cidade de Sevastopol e a Crimeia ao território ucraniano, sem provocar mudanças significativas nas atividades da região. As autoridades ucranianas não foram autorizadas a interferir nos assuntos ligados ao governo local, pois, sendo considerada uma das principais bases navais da União Soviética, a cidade era supervisionada pelo Ministério da Defesa.
No início dos anos 1990, a realidade de Sevastopol e Crimeia sofreram mudanças drásticas devido à queda da União Soviética e a consequente independência da Ucrânia. Sete anos mais tarde, as autoridades russas e ucranianas assinaram o Tratado de Amizade e Cooperação, no qual a Rússia reconhece Sevastopol como uma cidade ucraniana e fica obrigada a respeitar as fronteiras do país, enquanto a Ucrânia autoriza o uso da base naval de Sevastopol pelas forças armadas russas, assim como a permanência de sua Frota do Mar Negro na Crimeia até 2017.
Atualmente, 25 mil militares russos vivem na região, sem contar os familiares e os empregados departamentos da frota marítima não pertencentes às forças armadas. Outro acordo entre a Ucrânia e a Federação Russa, assinado em 1997, autorizam também a permanência de até 388 navios russos nas águas territoriais e região terrestre, e 161 aeronaves nos campos de pouso e decolagem nas cidades de Gvardeiski e Sevastopol.
Apesar de a quantidade de equipamentos militares russos autorizados a permanecer em território ucraniano corresponder ao poder das forças navais da Turquia, o Exército russo escolheu a transferência de apenas uma parte deles para a sua base do Mar Negro. O prazo de validade do presente contrato é de 20 anos, com prorrogação automática a cada cinco anos em caso de ausência de notificação escrita por uma das partes com, no mínimo, um ano de antecedência.
Se não fosse o bastante, um segundo contrato, assinado em 2010, prolongou a permanência da Frota do Mar Negro em Sevastopol até 2042, em troca de 98 milhões de dólares ao ano e um desconto de 100 dólares em cima de cada tonelada do gás natural russo exportada à Ucrânia.
A falta de um centro naval próprio nas proximidades do Mar Negro, assim como as baixas profundidades e ausência de infraestrutura no porto da cidade de Novorossisk, obrigam as autoridades russas a arcar com o aluguel milionário da base ucraniana. Além disso, a frota do Mar Negro possui um objetivo estratégico de proteger a região sul da Rússia, prevenindo o surgimento de porta-aviões dos potenciais inimigos naquelas águas.
Gazetarussa.com.br/politica/2014/03/04/sevastopol_porto_seguro_do_exercito_russo_24471.html

Fonte: PÁTRIA LATINA

domingo, 2 de março de 2014

A alegria na Crimeia com a chegada dos russos

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60% da população da Crimeia tem ascendência russa, e festeja o gesto de Putin
60% da população da Crimeia tem ascendência russa, e festeja o gesto de Putin
O artigo abaixo foi publicado no DW, site alemão.

O júbilo é grande, entre parte da população da Crimeia. Carreatas transportando a bandeira da Rússia, pessoas festejando nas ruas das cidades de Sevastopol e Simferopol, capital da República Autônoma. Elas comemoram a aprovação, pelo Parlamento russo, de um pedido do presidente Vladimir Putin para enviar tropas militares à península pertencente à Ucrânia.
O entusiasmo dos grupos de origem russa, que respondem por aproximadamente 60% da população da Crimeia, já havia sido despertado antes, com a antecipação de um referendo sobre o status da península do dia 25 de maio para 30 de março. Este poderá ser o primeiro passo para uma maior independência da península em relação à Ucrânia, culminando com sua separação total do país, ou até mesmo com uma anexação à Rússia.
Após o anúncio do envio de tropas russas, houve manifestações nas duas maiores cidades da Crimeia. Estima-se que mais de 5 mil pessoas se reuniram na maior praça de Sevastopol, a pouca distância dos edifícios da administração pública. “Rússia! Rússia!” era a palavra de ordem.
Muitos manifestantes traziam a fita de São George – um símbolo de bravura militar, sobretudo para os russos, e lembrança de sua vitória sobre os nazistas. Entre 1941 e 1942 ocorreu no porto de Sevastopol uma das batalhas mais difíceis na Segunda Guerra Mundial. Atualmente, é lá que a frota russa no Mar Negro se encontra estacionada.
A maioria dos manifestantes quer uma aproximação à Rússia. “Esta é nossa escolha. Por que a imprensa internacional não fala isso?”, questiona a escriturária Svetlana Konycheva. Ela se diz chocada com o fato de a imprensa ucraniana só informar sobre “medo e pânico entre as pessoas na Crimeia”. Contudo, se trata exatamente do contrário, garante.
Carreatas a favor da Rússia na Crimeia
Carreatas a favor da Rússia na Crimeia

Poucas vezes o clima na Crimeia esteve tão politizado. Nos cafés, mercados e ruas só se fala em política. Há pouco tempo, a situação era bem diferente. “Geralmente vivemos com bastante tranquilidade. Mesmo durante os protestos em Kiev, tudo esteve bem calmo por aqui, até o novo governo ucraniano alterar a lei do idioma”, conta Galina, proprietária de uma pequena loja. “Essa foi a gota d’água. De repente, 30 mil pessoas vieram para esta praça protestar”, lembra.
A maioria dos cidadãos de Sevastopol tem dificuldade em entender e aceitar a revolução em Kiev – embora sejam poucos os que viam no presidente deposto Viktor Yanukovytch um bom chefe de Estado. Mas os que assumiram agora o poder na Ucrânia assustam boa parte da população da Crimeia.
“Não queremos uma Maidan aqui”, mostra um cartaz, referindo-se à Praça da Independência de Kiev, foco dos protestos pró-europeus. Os russos que vivem em Sevastopol e Simferopol lutam, sobretudo, pelo direito de ter sua língua materna reconhecida como idioma regional. A lei nesse sentido fora aprovada sob Yanukovytch, mas o novo presidente interino, Oleksander Turchinov, vetou a decisão do Parlamento de suspender a lei do idioma.
A população de origem russa espera que a fraca economia da Crimeia possa ganhar novo impulso sob orientação do Kremlin. “Vivemos há mais de 20 anos sob regime da Ucrânia. E o que eles fizeram pela Crimeia? Temos uma dívida pública de 130 bilhões de dólares, que os meus netos precisarão quitar. E nossa economia está no chão”, critica o pintor Oleg Tanzüra, inspirado pelo que ele chama de “energia dos protestos”.
Mas muita gente na Crimeia não está feliz de que a crise na Ucrânia tenha chegado a este ponto; entre eles, alguns russos que vivem na península. Não são todos os que apoiam os últimos movimentos de Moscou. “Tenho medo de que isso vire uma guerra”, desabafa Pavel, um executivo de Simferopol.
Profundamente preocupada estão as minorias que vivem na península – entre eles os tártaros, que respondem por 15% da população, e os ucranianos, que somam 10%. “Estamos a apenas meio passo de uma catástrofe”, avalia Refat Tchubarov, presidente de uma importante associação de tártaros da Crimeia.
Sua etnia não tem boas lembranças da política do Kremlin.
Na Segunda Guerra, o ditador soviético Josef Stalin mandou deportar os tártaros da Crimeia para a Ásia Central. Hoje, eles defendem que a integridade territorial da Ucrânia não seja ferida – por isso são contrários à separação da Crimeia. Tchubarov conclamou os cidadãos a não entrar em pânico e a manterem-se unidos. “Devemos manter tudo tranquilo”, afirmou o tártaro na televisão.
Para os ucranianos que vivem na península e que apoiaram integralmente a revolução em Kiev, o anúncio sobre a ocupação pela Rússia fez o mundo vir abaixo. “Estamos chocados”, afirma o coordenador do movimento Euromaidan Crimeia, Andrei Chekun: “Temos medo de protestar. Hoje, eu fui atacado na rua.”

A Burguesia e a Contra-Revolução


Segundo Artigo (N65)



Karl Marx

11 de Dezembro de 1848


Primeira Edição:
Escrito em 11 de Dezembro de 1848. Publicado na Neue Rheinische Zeitung de 15 de Dezembro de 1848.

Fonte: Obras Escolhidas em três tomos, Editorial "Avante!"
Tradução: José BARATA-MOURA (Traduzido do alemão e publicado segundo o texto do jornal).
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, janeiro 2007.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Editorial "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1982.


Colónia, 11 de Dezembro. Quando o dilúvio de Março[N66] — um dilúvio en miniature(1*) — passou, não deixou à superfície da terra berlinense quaisquer prodígios, quaisquer colossos revolucionários, mas criaturas do estilo antigo, figuras burguesmente atarracadas — os liberais da Dieta unida[N67], os representantes da burguesia prussiana consciente. As províncias que possuíam a burguesia mais desenvolvida, a Província Renana e a Silésia, forneciam o contingente principal para os novos ministérios. Atrás deles, todo um séquito de juristas renanos. À medida que a burguesia era empurrada para um plano secundário pelos feudais, nos ministérios, a Província Renana e a Silésia cediam lugar às primitivas províncias prussianas. O ministério Brandenburg só ainda tem ligação com a Província Renana através de um tory[N68] de Elberfeld. Hansemann e von der Heydt! Nestes dois nomes reside, para a burguesia prussiana, toda a diferença entre Março e Dezembro de 1848!
A burguesia prussiana foi atirada para os píncaros do Estado, porém, não, como tinha desejado, por meio de uma transacção pacífica com a Coroa, mas por meio de uma revolução. Não eram os seus próprios interesses, mas os interesses do povo, que devia representar contra a Coroa, isto é, contra si própria, uma vez que um movimento popular lhe tinha preparado o caminho. Aos seus olhos, a Coroa era, porém, precisamente apenas o escudo pela graça de Deus por detrás do qual se deviam ocultar os seus interesses próprios profanos. A inviolabilidade dos seus interesses próprios e das formas políticas correspondentes ao seu interesse, traduzida na linguagem constitucional, devia soar [assim]: inviolabilidade da Coroa, Daí o entusiasmo da burguesia alemã e, especialmente, da prussiana pela monarquia constitucional. Daí que, se a revolução de Fevereiro com todas as suas sequelas alemãs, foi bem recebida pela burguesia prussiana, porque por ela o leme do Estado lhe foi posto nas mãos, ela igualmente foi um golpe nos seus cálculos, porque, deste modo, a sua dominação ficava ligada a condições que ela não queria cumprir nem podia cumprir.
A burguesia não tinha mexido um dedo. Tinha permitido que o povo se batesse por ela. A dominação para ela transferida não era, portanto, a dominação do general que vence o seu adversário, mas a dominação de um comité de segurança a quem o povo vitorioso confia a defesa dos seus interesses próprios.
Camphausen sentia ainda inteiramente o incómodo desta posição e toda a fraqueza do seu ministério deriva deste sentimento e das circunstâncias que o condicionaram. Uma espécie de rubor envergonhado ilumina, portanto, os actos mais desavergonhados do seu governo. A desvergonha e a impudência descaradas eram o privilégio de Hansemann. A teinte(2*) vermelha constitui a única diferença entre estes dois pintores.
Não se pode confundir a revolução prussiana de Março, nem com a revolução inglesa de 1648, nem com a francesa de 1789.
Em 1648, a burguesia estava ligada à nobreza moderna contra a realeza, contra a nobreza feudal e contra a Igreja dominante.
Em 1789, a burguesia estava ligada ao povo contra realeza, nobreza e Igreja dominante.
A revolução de 1789 tinha por modelo (pelo menos, na Europa) apenas a revolução de 1648, a revolução de 1648 apenas a insurreição dos Países Baixos contra a Espanha[N69]. Ambas as revoluções estavam avançadas um século, não apenas pelo tempo, mas também pelo conteúdo, relativamente aos seus modelos.
Em ambas as revoluções, a burguesia era a classe que realmente se encontrava à cabeça do movimento. O proletariado e as fracções da população urbana não pertencentes à burguesia não tinham ainda quaisquer interesses separados da burguesia ou não constituíam ainda quaisquer classes, ou sectores de classes, autonomamente desenvolvidas. Portanto, ali onde se opuseram à burguesia, como, por exemplo, de 1793 até 1794, em França, apenas lutaram pela prossecução dos interesses da burguesia, ainda que não à maneira da burguesia. Todo o terrorismo francês não foi mais do que uma maneira plebeia de se desfazer dos inimigos da burguesia, do absolutismo, do feudalismo e da tacanhez pequeno-burguesa.
As revoluções de 1648 e de 1789 de modo algum foram revoluções inglesas ou francesas, foram revoluções de estilo europeu. Não foram a vitória de uma classe determinada da sociedade sobre a velha ordem política; foram a proclamação da ordem política para a nova sociedade europeia. Nelas, a burguesia venceu; mas a vitória da burguesia foi então a vitória de uma nova ordem social, a vitória da propriedade burguesa sobre a feudal, da nacionalidade sobre o provincianismo, da concorrência sobre a corporação, da divisão [da propriedade] sobre o morgadio, da dominação do proprietário da terra sobre o domínio do proprietário pela terra, das luzes sobre a superstição, da família sobre o nome de família, da indústria sobre a preguiça heróica, do direito burguês sobre os privilégios medievais. A revolução de 1648 foi a vitória(3*) do século XVII sobre o século XVI, a revolução de 1789 a vitória do século XVIII sobre o século XVII. Estas revoluções exprimem mais ainda as necessidades do mundo de então do que das regiões do mundo em que se deram, a Inglaterra e a França.
Na revolução prussiana de Março nada disto [se dá].
A revolução de Fevereiro tinha abolido a monarquia constitucional, na realidade, e a dominação burguesa, na ideia. A revolução prussiana de Março devia instituir a monarquia constitucional, na ideia, e a dominação burguesa, na realidade. Muito longe de ser uma revolução europeia, foi apenas a repercussão atrofiada de uma revolução europeia num país atrasado. Em vez de estar avançada em relação ao seu século, estava mais de meio século atrasada em relação ao seu século. Era desde o princípio secundária, mas é sabido que as doenças secundárias são mais difíceis de curar e simultaneamente desgastam mais o corpo do que as primitivas. Não se tratava do estabelecimento de uma nova sociedade, mas da ressurreição berlinense da sociedade falecida em Paris. A revolução prussiana de Março nem sequer era nacional, alemã; desde o princípio, era provincial-prussiana. As insurreições de Viena, de Kassel, de München, toda a espécie de insurreições provinciais, se deram nas proximidades dela e disputaram-lhe o primado.
Enquanto  1648 e  1789 tinham o infinito orgulho de estarem no cume da criação, a ambição de 1848 berlinense era constituir um anacronismo. O seu brilho assemelhava-se ao brilho das estrelas que só chega até nós, habitantes da Terra, 100.000 anos depois de os corpos que o irradiavam estarem extintos. A revolução prussiana de Março era, em ponto pequeno — aliás, era tudo em ponto pequeno —, uma dessas estrelas para a Europa. O seu brilho era o brilho de um cadáver de sociedade, há muito apodrecido.
A burguesia alemã tinha-se desenvolvido tão indolente, cobarde e lentamente que, no momento em que se contrapôs ameaçadoramente ao feudalismo e ao absolutismo, avistou frente a si própria, ameaçadores, o proletariado e todas as fracções da população urbana cujos interesses e ideias se aparentam com o proletariado. E viu como inimiga não apenas uma classe atrás de si, mas toda a Europa diante de si. A burguesia prussiana não era, como a francesa de 1789, a classe que defendia toda a sociedade moderna face aos representantes da velha sociedade, a realeza e a nobreza. Tinha descido a uma espécie de estado [ou ordem social — Stand], tão marcadamente contra a Coroa como contra o povo, desejosa de opor-se a ambos, indecisa face a cada um dos seus adversários tomado isoladamente, uma vez que os via sempre atrás ou diante de si; inclinada desde o princípio para a traição contra o povo e para o compromisso com o representante coroado da velha sociedade, uma vez que já ela própria pertencia à velha sociedade; representando não os interesses de uma nova sociedade contra uma velha, mas interesses renovados dentro de uma sociedade envelhecida; ao leme da revolução não porque o povo estivesse atrás de si, mas porque o povo a empurrava para diante de si; à cabeça não porque representasse a iniciativa de uma nova época da sociedade, mas o rancor de uma velha; um estrato do velho Estado, que não conseguiu vir ao de cima, atirado por um tremor de terra para a superfície do novo Estado; sem fé em si própria, sem fé no povo, resmungando contra os de cima, tremendo perante os de baixo, egoísta para com os dois lados e consciente do seu egoísmo, revolucionária contra os conservadores, conservadora contra os revolucionários, desconfiando das suas próprias palavras de ordem, com frases em vez de ideias, intimidada pela tempestade mundial, explorando a tempestade mundial — energia em nenhuma direcção, plágio em todas as direcções, vulgar, porque não era original, original na vulgaridade — traficando com os seus próprios desejos, sem iniciativa, sem fé em si própria, sem fé no povo, sem vocação histórica universal — um velho amaldiçoado que se viu condenado a dirigir e a desviar no seu próprio interesse senil os primeiros arroubos juvenis de um povo robusto — sem olhos, sem ouvidos, sem dentes, sem nada(4*) — assim se encontrava a burguesia prussiana depois da revolução de Março ao leme do Estado prussiano.
Link Avante




Notas de Rodapé:
(1*)   Em francês no texto: em miniatura. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)
(2*) Em francês no texto: tom. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)
(3*) O texto da Neue Rheinische Zeitung refere: "a revolução". Seguimos aqui a versão da generalidade das edições posteriores. (Nota da edição Portuguesa.) (retornar ao texto)
(4*) Cf. Shakespeare, As You Like It (Como lhe Aprouver), acto II, cena 7. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)
Notas de Fim de Tomo:
[N65] O presente artigo constitui uma parte do trabalho de Marx A Burguesia e a Contra-Revolução, escrito em Dezembro de 1848. Neste trabalho Marx analisa as causas da vitória da contra-revolução na Prússia do ponto de vista do materialismo histórico e revela o carácter e as particularidades da revolução de Março na Alemanha. (retornar ao texto)
[N66] Trata-se da revolução de Março de 1848 na Alemanha. (retornar ao texto)
[N67] Trata-se do órgão constituído na base de estados sociais e composto por representantes de todas as dietas provinciais da Prússia. Neste caso Marx refere-se à Segunda Dieta Unida, que se reuniu em 2 de Abril de 1848, sob o governo de Camphausen. Aprovou a lei sobre as eleições para a Assembleia Nacional prussiana e manifestou o seu acordo sobre o empréstimo que a Dieta Unida recusara ao governo em 1847. Depois, em 10 de Abril de 1848, a dieta foi dissolvida. (retornar ao texto)
[N68] Tories: partido político da Inglaterra que surgiu em fins do século XVIII. Exprimia os interesses da aristocracia fundiária e do alto clero, defendia as tradições do passado feudal. Em meados do século XIX, na base do partido dos tories, foi criado o Partido Conservador. (retornar ao texto)

[N69] Trata-se da revolução burguesa de 1566-1609 nos Países Baixos (actualmente Bélgica e Holanda), que faziam parte do Estado espanhol; a revolução combinou a luta da burguesia e das massas populares contra o feudalismo com a guerra de libertação nacional contra o domínio espanhol. Em 1609, após uma série de derrotas, a Espanha foi obrigada a reconhecer a independência da República Holandesa burguesa. A revolução burguesa dos Países Baixos no século XVI abriu a época das revoluções burguesas vitoriosas na Europa. O território da Bélgica actual permaneceu nas mãos dos espanhóis até 1714. (retornar ao texto)

sábado, 1 de março de 2014

Antônio Gramsci: A Obra de Lênin




António Gramsci
14 de Setembro de 1918












A imprensa burguesa de todos os países e especialmente a francesa (esta distinção especial explica-se por motivos intuitivos) não tem escondido a sua imensa alegria pelo atentado contra Lênin(2). Os sinistros corvos do anti-socialismo têm arrojado cobiçosamente sobre o presumível cadáver ensangüentado (ó cruel destino, quantos piedosos desejos, quantos tenros ideais tens despedaçado!), têm exaltado a gloriosa homicida, têm renovado a táctica, refinadamente burguesa, do terrorismo e do crime político.
Mas os corvos ficaram defraudados. Lênin vive e desejamos, para o bem e feliz sucesso do proletariado, que readquira depressa o vigor físico e retome o seu lugar de militante do socialismo internacional.
O bacanal jornalístico terá tido mesmo toda a sua eficácia histórica. Os proletários compreenderam o seu significado social. Lênin é o homem mais odiado do mundo, tal como foi no seu tempo Karl Marx (doze linhas censuradas).
Lênin consagrou toda a sua vida à causa do proletariado. A contribuição que deu para o desenvolvimento da organização e para a difusão das idéias socialistas na Rússia é imensa. Homem de pensamento e ação encontra a sua força ao caráter moral; a popularidade de que goza entre as massas obreiras é a homenagem espontânea à sua rígida intransigência para com o regime capitalista. Nunca se deixou cegar pela aparência superficial da sociedade moderna, essa aparência que outros confundiram com a realidade mesma, precipitando-se de erro para erro.
Lênin, ao aplicar o método utilizado por Marx, achou que o real é o profundo e intransponível abismo que o capitalismo cavou entre o proletariado e a burguesia e o sempre crescente antagonismo das duas classes. Ao explicar os fenômenos sociais e políticos e ao fixar ao partido a via a seguir em todos os momentos da sua vida, não perdeu nunca de vista a mola de toda a atividade econômica e política: a luta de classes.
Ele pertence à legião dos mais fervorosos e mais convencidos campeões do internacionalismo do movimento operário. Qualquer ação proletária deve estar subordinada e coordenada ao internacionalismo, deve poder ter caráter internacionalista. Qualquer iniciativa, em qualquer momento, mesmo que transitoriamente, que entre em conflito com este ideal supremo, deve ser combatida inexoravelmente: porque qualquer desvio, por pequeno que seja, do caminho que conduz diretamente ao triunfo do socialismo internacional é contrário aos interesses do proletariado, interesses longínquos ou imediatos, e serve apenas para dificultar a luta e prolongar o domínio da classe burguesa.
Ele, o fanático, o utopista, consubstancia o seu pensamento, a sua ação, e a do partido, somente nesta profunda e incoercível realidade da vida moderna, não em fenômenos superficialmente vistosos, que conduzem os socialistas que se deixam deslumbrar por eles, a ilusões e erros que põem sempre em perigo o conjunto do movimento.
Por isso Lênin viu sempre triunfar as suas teses, enquanto aqueles que o criticavam pelo seu “utopismo” e exaltavam o realismo próprio eram miseravelmente esmagados pelos grandes acontecimentos históricos.
Logo após a eclosão da revolução e antes de partir para a Rússia, Lênin enviou a seguinte advertência aos camaradas: “Desconfiem de Kerenski(3), os acontecimentos posteriores deram-lhe toda a razão. No entusiasmo da primeira hora pela queda do czarismo a maior parte da classe obreira e muitos dos seus dirigentes deixaram-se convencer pela fraseologia de Kerenski, o qual, com a sua mentalidade pequeno-burguesa, sem qualquer programa e sem uma visão socialista da sociedade, podia conduzir a revolução à sua derrota e arrastar o proletariado russo por um caminho perigoso para o futuro do nosso movimento (três linhas censuradas).
* * *
Chegado â Rússia, Lênin pôs-se imediatamente a desenvolver a sua ação essencialmente socialista e que se poderia sintetizar na epígrafe de Lassalle: “Dizer aquilo que é”: uma crítica cerrada e implacável ao imperialismo dos cadetes (partido constitucional-democrático; o maior partido liberal da Rússia), à fraseologia de Kerenski e ao colaboracionismo dos mencheviques.
Baseando-se sobre o estudo crítico aprofundado das condições econômicas e políticas da Rússia, do caráter da burguesia russa e da missão histórica do proletariado russo, Lênin, desde 1905, chegara à conclusão que, devido ao alto grau de consciência de classe do proletariado e dado o desenvolvimento da luta de classes, qualquer luta política transformar-se-ia na Rússia, necessariamente, em luta social contra a ordem burguesa. Prova suplementar da situação especial em que se encontrava a sociedade russa era a incapacidade da classe capitalista para conduzir uma luta séria contra o czarismo e substituí-lo no domínio político. Depois da revolução de 1905, em que experimentalmente ficou demonstrada a enorme força do proletariado, a burguesia teve medo de qualquer movimento político em que o proletariado participasse e, por necessidade histórica de conservação, tornou-se essencialmente contra-revolucionária. A fiel expressão deste estado de espírito foi dada pelo próprio Miliukov num dos seus discursos na Duma, onde afirmou que preferia a derrota militar à revolução.
A queda da autocracia não mudou em nada os sentimentos e as diretrizes da burguesia russa, pelo contrário, o seu fundo reacionário foi aumentando à medida que a força e a consciência do proletariado se concretizavam. A tese histórica de Lênin confirmou-se: o proletariado tornou-se o gigantesco protagonista da história, mas era um gigante ingênuo, entusiasta, cheio de fé em si e nos outros. A luta de classes, praticada num ambiente de despotismo feudal, dera-lhe a consciência da sua unidade social, da sua força histórica, mas não o educara no método frio e realista, não lhe formara uma vontade concreta. A burguesia encolheu-se manhosamente, disfarçou as suas características essenciais com frases retumbantes; para o seu número de ilusionista serviu-se de Kerenski, o homem mais popular entre as massas no princípio da revolução; os mencheviques e os socialistas-revolucionários (não marxistas, herdeiros do partido terrorista, intelectuais pequeno-burgueses) ajudaram-na inconscientemente com o seu colaboracionismo a esconder as suas intenções reacionárias e imperialistas.
Contra esta armadilha levantou-se vigorosamente o partido bolchevique, com Lênin à cabeça, desmascarando implacavelmente as verdadeiras intenções da burguesia russa, combatendo a táctica nefasta dos mencheviques que entregava o proletariado atado de pés e mãos à burguesia. Os bolcheviques reivindicavam todo o poder para os sovietes, porque só isso podia constituir uma garantia contra todas as manobras reacionárias das classes abastadas.
De início, os próprios sovietes, por influência dos mencheviques e dos socialistas-revolucionários, se opuseram a esta solução e preferiram dividir o poder com os diversos elementos da burguesia liberal; também as massas, excetuando uma minoria mais avançada, deixavam andar, não vendo claro na realidade, mistificada por Kerenski e os mencheviques que estavam no Governo (dezessete linhas censuradas).
Os acontecimentos desenrolavam-se de maneira a dar completa razão à crítica rigorosa e aguda de Lênin e dos bolcheviques, que tinham afirmado não ter a burguesia nem o desejo nem a capacidade para dar uma solução democrática aos objetivos da revolução, mas que ela, ajudada inconscientemente pelos socialistas colaboracionistas, conduziria o país à ditadura militar, instrumento político necessário para o êxito dos objetivos imperialistas e reacionários. As massas obreiras e lavradoras, através da propaganda dos bolcheviques, começaram a dar-se conta do que estava a acontecer, adquiriram uma capacidade e uma sensibilidade política cada vez maiores; a sua exasperação irrompeu pela primeira vez em Julho com a sublevação de Petrogrado, facilmente reprimida por Kerenski. Esta sublevação, embora justificada pela funesta política de Kerenski, não teve, porém, a adesão dos bolcheviques nem de Lênin, porque o soviete continuava a recusar-se a assumir todo o poder nas suas mãos e, por conseguinte, qualquer sublevação dirigia-se contra o soviete que, bem ou mal, representavam a classe.
* * *
Era preciso, portanto, continuar a propaganda de classe e persuadir os obreiros a colocar nos sovietes delegados que estivessem convencidos da necessidade de os sovietes assumirem todo o poder do país. Vê-se aqui com toda a evidência o caráter essencialmente democrático da ação bolchevique, orientada para dar capacidade e consciência política às massas, para que a ditadura do proletariado se instaurasse de modo orgânico e fosse uma forma amadurecida de regime social econômico-político.
Para apressar o desenrolar dos acontecimentos contribuiu, além da atitude cada vez mais provocatória da burguesia, a tentativa militar de Kornilov de marchar sobre Petrogrado para se apoderar do poder, e, depois, Kerenski, com os seus gestos napoleônicos, com a formação dum gabinete composto por conhecidos reacionários com o seu parlamento não eleito por sufrágio universal e, finalmente, com a proibição do Congresso Pan-Russo dos Sovietes, verdadeiro golpe de Estado contra o povo, início da traição burguesa à revolução.
As teses de Lênin e dos bolcheviques, sustentadas, repetidas, propagadas com perseverança e tenacidade desde o princípio da revolução, tinham uma confirmação absoluta na realidade: o proletariado, todo o proletariado da cidade e dos campos, alinhou resolutamente em volta dos bolcheviques, atirou abaixo a ditadura pessoal de Kerenski e deu o poder ao Congresso dos Sovietes de toda a Rússia.
Como era natural, o Congresso Pan-Russo dos Sovietes, que fora convocado apesar da proibição de Kerenski, confiou, no meio do entusiasmo geral, o cargo de presidente do Conselho de Comissários do Povo a Lênin, que tanta abnegação demonstrara pela causa do povo e tanta clarividência em julgar os fatos e em traçar o programa de ação da classe obreira (trinta e cinco linhas censuradas).
A imprensa burguesa de todos os países tem apresentado sempre Lênin como um “ditador” que se impôs pela violência a um povo imenso, a quem oprime ferozmente. Os burgueses não conseguem conceber a sociedade senão enquadrada nos seus esquemas doutrinários. A ditadura para eles é Napoleão, ou então Clemenceau, e o despotismo centralizador de todo o poder político nas mãos dum só e exercido através duma hierarquia de servos armados de fuziles ou de anotadores de práticas burocráticas. Por isso a burguesia rejubilou com a notícia do atentado contra o nosso camarada e decretou a sua morte. Desaparecido o “ditador” insubstituível, todo o novo regime tinha de ruir miseravelmente, segundo a sua concepção. (sessenta e três linhas censuradas).
Lênin foi agredido quando saía duma fábrica onde fora fazer uma conferência aos operários. O “feroz ditador” continuava, portanto, a sua missão de propagandista, está sempre em contacto com os proletários, aos quais leva a palavra de fé socialista, o incitamento à ação teimosa de resistência revolucionária, para construir, para melhorar, para progredir através do trabalho, do desinteresse, do sacrifício. Foi atingido pelo disparo do revólver duma mulher, duma socialista-revolucionária, velha militante da subversão terrorista. No episódio está todo o drama da Revolução russa. Lênin é o frio estudioso da realidade histórica, que tende organicamente para construir uma sociedade nova sobre bases sólidas e permanentes, segundo os ditames da concepção marxista: é o revolucionário que constrói sem se deixar arrastar por ilusões frenéticas, obedecendo à razão, à prudência. Dora Kaplan era uma humanitarista, uma utopista, filha espiritual do jacobinismo francês, que não consegue compreender a função histórica da organização e da luta de classes, que crê que o socialismo significa uma paz imediata entre os homens, um paraíso idílico de alegria e amor; que não compreende quão complexa é a sociedade e como é difícil a tarefa dos revolucionários quando se tornam gestores da responsabilidade social. Agiu de boa fé e acreditava poder levar a humanidade russa à felicidade libertando-a do “monstro”. Quem não está de boa fé com certeza são os seus glorificadores burgueses, os corvos nojentos da imprensa capitalista. Eles exaltaram o socialista-revolucionário Chiakovski que, em Arcângelo, aceitou pôr-se à cabeça do movimento antibolchevique e derrubou o poder dos Sovietes; agora, que cumpriu a sua missão anti-socialista e foi exilado pelos burgueses russos capitaneados pelo coronel Schiaplin, escarnecem do velho louco, do sonhador.
A justiça revolucionária castigou Dora Kaplan. O velho Chiakovski paga numa ilha gelada o delito de se ter transformado em instrumento da burguesia, e foram os burgueses que o puniram e se riem dele.

Primeira Edição: Il Grido del Popolo, 14 de Setembro de1918.
Fonte: Gramsci, António. Revolución rusa y Unión Soviética, Ediciones R. Torres, Barcelona, 1976.
Tradução para o português da Galiza: José André Lôpez Gonçâlez. Maio 2007.
HTML de: Fernando A. S. Araújo, Maio 2007.
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