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sábado, 22 de março de 2014

Ucrânia: como o blefe do Ocidente fracassou

Publicado em OUTRASPALAVRAS
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Sob influência dos “falcões” neoconservadores, Obama lançou-se a nova aventura arrogante. Nem toda histeria da mídia ocultará sua derrota

Por Pepe Escobar, no Znet | Tradução: Antonio Martins
Vamos aos fatos, rápido e rasteiro:
1. O jogada “estratégica” do governo Obama para subcontratar, junto ao “Khaganato de Nulands1” do Departamento de Estado, e exclusão da Ucrânia da esfera de influência Russa e sua anexação subsequente à NATO está arruinada. Ela baseava-se em instrumentalizar uma coalizão de neonazistas e fascistas, pintada com verniz de banqueiro (o primeiro ministro Arseniy Yatsenyuk).
2. O contra-ataque de Moscou consistiu em evitar, na Crimeia, um repetição programada do putsch de Kiev. O referendo na Crimeia (85% de comparecimento, em torno de 93% dos eleitores a favor da reincorporação à Rússia) é fato consumado, ainda que a “tão democrática…” União Europeia continue ameaçando punir o povo por exercitar seus direitos democráticos.
3. A principal razão para todo o movimento “estratégico” dos EUA – levar seus aliados, os putschistas de Kiev, a cancelar o acordo que permite a presença de uma base naval russa em Sebastopol – virou fumaça. Moscou continua presente no Mar Negro, com pleno acesso ao Mediterrâneo Oriental.
O resto é blablablá.


Nos últimos dias, o Departamento de Estado dos EUA praticamente concordou com uma Ucrânia federativa e, em termos práticos, finlandizada2. Por sinal, é a solução proposta pelo ministro das Relações Exteriores russo, Sergey Lavrov desde o início, com atesta um documento russo. O secretário de Estado dos EUA, John Kerry vai tentar roubar todo o crédito dos russos, assim como fez na crise síria. A mídia corporativa norte-americana comprará a versão docilmente, mas não publicações independentes, como Moon of Alabama3.
Esta solução inteligente implica, entre outros pontos cruciais: forte autonomia para as regiões, na Ucrânia; a reintrodução do russo como língua oficial, ao lado do ucraniano; e, principalmente, neutralidade política e militar do país – ou seja, a “finlandização”. Construir o entendimento será a missão de um grupo de apoio – igualmente proposto por Moscou desde o início – em que estarão presentes Estados Unidos, União Europeia e Rússia..
E tudo será santificado por uma resolução do Conselho de Segurança da ONU (ressalve-se que tudo pode dar errado, espetaculosamente, caso o “Ocidente” continue em posição de sabotagem). E tudo isso, também, sem que Moscou obrigue-se a reconhecer os putschistas de Kiev. Trocando tudo em miúdos: diante do blefe de Washington, Moscou pagou para ver – e ganhou.
Portanto, após toda a interminável série de ameaças, que envolveu desde Obama, Kerry e os falcões neoconservadores até parceiros menores, como o primeiro-ministro britânico David Cameron, seu chanceler William Hague e o premiê francês Franços Hollande, o essencial é: o governo Obama concluiu que não valia a pena arriscar um conflito nuclear com a Rússia pelo Khaganto de Nulands. Especialmente depois que Moscou fez saber, discretamente, que poderá criar condições para que o Leste e o Sul da Ucrânia também se separem da Ucrânia.
A Suécia, por exemplo, propôs um embargo à venda de armas para Moscou. Paris voltou os olhos rapidamente para os interesses de seu complexo industrial-militar e disse não. Só os decerebrados cultivam a noção de que Paris e Berlim desejarão arriscar suas relações comerciais com a Rússia. Ou pensarão que Beijing aderiria a sanções contra a Rússia – sua companheira no G-20, no BRICS e na Organização de Cooperação de Shangai – apenas porque Washington, vista na China como cada vez mais irracional, recomentou o gesto.
Ainda assim, a histeria ocidental prosseguirá invicta. Nos Estados Unidos, onde importa, a pergunta posterior será, inevitavelmente, “quem perdeu a Síria?” e “quem perdeu a Ucrânia?”
Eis o placar: George Bush lançou-se em duas guerras – e perdeu miseravelmente ambas. Obama tentou lançar duas guerras (Síria e Ucrânia). Por sua própria sorte, perdeu ambas ainda na fase de “tentativa”. Os neoconservadores e toda a brigada de excepcionalistas4 estão previsivelmente lívidos. Aguarde: a página de editoriais do Wall Street Journal vai tornar-se “balística”. E a embaixadora dos EUA na ONU, Samantha Power desejará ser Sinead O’Conner, cantando Nothing Compares to You.
Os putschistas de Kiev já estão anunciando suas intenções. O capo do grupo neonazista Right Sector, Dmytro Yarosh afirma: “A Rússia ganha dinheiro enviando petróleo para o Ocidente por meio de nossos oleodutos. Destruiremos estes oleodutos para privar nosso inimigo de sua fonte de renda”.
É a estratégia brilhante de um playboy do Khaganato de Nulands. As famílias e toda a base fabril da Ucrânia ficariam sem gás (vendido barato, com desconto), para não falar das grandes indústrias alemãs, para que os neonazistas cantem “vitória”. Com amigos como estes…
Os executivos da Gazprom não estão exatamente franzindo as sobrancelhas. Cerca de metade do gás que a Rússia envia à Europa já não passa pela Ucrânia, e em 2015, quando o gasoduto South Stream ficar pronto, este percentual crescerá (as “sanções” da União Europeia contra o South Stream são pura retórica).
Os putschistas vão tentar armar confusão também em outros fronts. O novo parlamento ucraniano decidiu constituir uma Guarda Nacional de 60 mil membros, coalhada de “ativistas”. Adivinhe quem a dirigirá: o novo chefe de segurança, Andriy Parubiy, um dos fundadores do Partido Nacional-Social, neonazista. Seu vice não é outro senão Yarosh, líder dos paramilitares do Right Sector. Que fiquem à vontade para criar suas próprias metáforas hitlerianas, mesmo que cresça o risco de a Ucrânia quebrar. Não é necessariamente má ideia. Vamos deixar que a “democrática” União Europeia pague as contas de gás de Kiev…
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1
. Referência à presença crescente da extrema-direita norte-americana (os “neoconservadores”) no Departamento de Estado, no governo Obama. “Nulands” é Victoria Nuland, a subsecretária de Estado para assuntos da Eurásia. Radicalmente anti-Rússia, ficou conhecida há semanas, quando vazou um telefonema que manteve com o embaixador dos EUA na Ucrânia. Recomendava-lhe ampliar a disputa com Moscou, ignorando a postura, mais conciliadora, da União Europeia. “Foda-se a UE”, disse então. “Khaganato” refere-se a Robert Kagan, seu marido, um dos principais expoentes dos neoconservadores, defensor de que os EUA imponham, por meios militares, sua hegemonia global. [Nota do Tradutor]
2. “Finlandizar” a Ucrânia significa assegurar que ela assuma neutralidade entre Estados Unidos e Rússia. O termo origina-se do papel semelhantes que a Finlândia cumpriu, durante a Guerra Fria, como “tampão” entre Estados Unidos e União Soviética. A “finlandização” tem sido defendida mesmo por analistas norte-americanos conservadores, como Henry Kyssinger e Zbigney Brezinsky [Nota do Tradutor]. A notícia das negociações de bastidores em curso, entre EUA e Rússia, para “finlandizar” a Ucrânia pode ser lida em  Lavrov, Kerry agree to work on constitutional reform in Ukraine: Russian ministry, Reuters, March 16, 2014.
3Ukraine: U.S. Takes Off-Ramp, Agrees To Russian Demands, Moon of Alabama, March 16, 2014.
4. Corrente de pensamento na política segundo a qual os EUA são uma nação “excepcional”, imprescindível, por seu poder e suposta sabedoria, à segurança do mundo. [Nota do Tradutor]

Pepe Escobar

Jornalista brasileiro, correspondente internacional desde 1985, morou em Paris, Los Angeles, Milão, Singapura, Bangkok e Hong Kong. Escreve sobre Asia central e Oriente Médio para as revistas Asia Times Online, Al Jazeera, The Nation e The Huffington Post.


Žižek: o Desejo e o Fascismo contemporâneos


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Que estranha relação existe entre a luta de Julian Assange, confinado numa embaixada do Equador, e a resistência a Hitler?

Por Slavoj Žižek | Tradução Artur Renzo, no Blog da Boitempo

Em dezembro de 2013 visitei Julian Assange na embaixada equatoriana localizada logo atrás da loja Harrods em Londres. Foi uma experiência um tanto deprimente, apesar da gentileza do pessoal da embaixada. A embaixada é um apartamento de seis cômodos sem jardim anexo, de forma que Assange não pode nem dar uma andada diária ao ar livre. Ele também não pode pisar para fora do apartamento, ao corredor principal da casa – policiais esperam por ele lá. Algo como uma dúzia deles estão o tempo todo em torno da casa e em alguns dos prédios circundantes, um deles inclusive debaixo de uma pequena janela de banheiro que dá para o jardim dos fundos, caso Assange tente escapar por aquele buraco na parede. O apartamento é grampeado de cima a baixo, sua ligação de internet é suspeitosamente lenta… então como assim o Estado britânico decidiu empregar em torno de 50 pessoas em tempo integral para vigiar Assange e controlá-lo sob o pretexto legal de que ele se recusa a ir à Suécia para ser questionado sobre uma má conduta sexual leve (não há acusações legais contra ele!)? É tentador se tornar um thatcherista e perguntar: onde está a política de austeridade aqui? Se um ninguém como eu fosse procurado pela polícia sueca para uma interrogação semelhante o Reino Unido também empregaria 50 pessoas para me vigiar? A pergunta séria está aqui: de onde brota tal desejo ridiculamente excessivo de vingança? O que Assange, seus colegas e fontes denunciantes fizeram para merecer isso?
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Jacques Lacan propôs como axioma da ética da psicanálise: “Não recues de teu desejo”. Não seria esse axioma uma designação precisa dos atos dos denunciantes? A despeito de todos os riscos envolvidos a sua atividade, eles não estão dispostos a recuar – de que? Isso nos traz à noção de evento: Assange e seus colaboradores realizaram um verdadeiro e autêntico evento político – com isso, pode-se facilmente compreender a reação violenta das autoridades. Assange e seus colegas são frequentemente acusados de traidores, mas são algo muito pior (aos olhos das autoridades) – para citar Alenka Zupančič:
“Mesmo se Snowden vendesse suas informações discretamente a outro serviço de inteligência, esse ato ainda contaria como parte dos ‘jogos patrióticos’, e se necessário ele seria liquidado como um ‘traidor’. No entanto, no caso de Snowden, estamos lidando com algo inteiramente diferente. Estamos lidando com um gesto que questiona a própria lógica, o próprio status quo, que por um bom tempo vem servindo de único fundamento para toda a (não) política ‘ocidental’. Com um gesto que, digamos, põe tudo a perder, sem nenhuma consideração por lucro e sem seus próprios interesses em jogo: assume-se o risco porque baseia-se na conclusão de que o que está acontecendo é simplesmente errado. Snowden não propôs nenhuma alternativa. Snowden, ou melhor, a lógica de seu gesto, assim como, digamos, o gesto de Bradley Manning – é a alternativa.”
Essa descoberta fundamental do WikiLeaks está lindamente sintetizada na auto-designação irônica de Assange como um “espião para o povo”: “espiar para o povo” não é uma negação direta da espionagem (o que seria antes agir como um agente duplo, vendendo nossos segredos para o inimigo) mas sua auto-negação, isto é, ele mina o próprio princípio universal da espionagem, o principio do sigilo, já que seu objetivo é tornar públicos os segredos. Funciona portanto de forma semelhante à forma pela qual a “ditadura do proletariado” marxiana deveria ter funcionado (mas raramente o fez, é claro): como uma auto-negação iminente do próprio princípio de ditadura. Àqueles que continuam pintando o espantalho do comunismo devemos responder: o que o WikiLeaks está fazendo é a prática do comunismo. O WikiLeaks simplesmente realiza o bem comum na informação.
Na luta das ideias, a ascensão da modernidade burguesa foi exemplificada pela Enciclopédia francesa, um empreendimento gigantesco apresentando de forma sistemática todo o conhecimento disponível a um amplo público. O destinatário desse conhecimento não era o Estado, mas o público como tal. Pode parecer que a Wikipédia já é a enciclopédia de hoje, mas algo falta a ela: o conhecimento que é reprimido e ignorado pelo espaço público, reprimido porque concerne precisamente a forma pela qual mecanismos estatais e agências controlam e regulam a todos nós. O objetivo do WikiLeaks deveria ser tornar esse conhecimento disponível para todos nós a um simples clique. Assange é efetivamente o d’Alambert de hoje, o organizador dessa nova enciclopédia, a verdadeira enciclopédia do povo para o século 21. É crucial que essa nova enciclopédia adquira uma base independente internacional, para que seja minimizado o jogo humilhante de se colocar um grande estado contra outro (como Snowden, obrigado a buscar asilo na Rússia). Nosso axioma deve ser o de que Snowden e Pussy Riot são parte da mesma luta – mas que luta?
Nossos bens comuns informacionais emergiram como um dos domínios chave da luta de classes em dois de seus aspectos: econômico em sentido estrito e sócio-político. Por um lado, novas mídias digitais nos confrontam com o impasse da “propriedade intelectual”. A World Wide Web parece ser comunista em sua natureza, tendendo ao livre fluxo de dados – CDs e DVDs estão gradualmente desaparecendo, milhões de pessoas estão simplesmente baixando músicas e vídeos, geralmente de graça. É por isso que o establishment de negócios está envolvido numa luta desesperada para impor a forma da propriedade privada nesse fluxo. Por outro lado, as mídias digitais (especialmente com o acesso quase universal à rede e a celulares) abriram novas formas para as milhões de pessoas comuns estabelecerem uma rede e coordenar suas atividades coletivas, oferecendo também a agencias estatais e a companhias privadas possibilidades inauditas de rastrear nossos atos públicos e privados. É nessa luta que o WikiLeaks interviu de forma tão explosiva.

Em suas Notas para uma definição de cultura, T.S. Eliot comenta que há momentos em que a única escolha é aquela entre a heresia e a descrença, em que a única forma de manter uma religião viva é efetuando um racha sectário em relação a seu corpo principal. Isto é o que o WikiLeaks fez: sua atividade é baseada no insight de que a única forma de manter nossa democracia viva é rompendo com seu principal cadáver institucional de aparatos e mecanismos estatais. Ao fazer isso, o WikiLeaks fez algo inédito, redefinindo as coordenadas do que conta como possível ou admissível na esfera pública. Escrevi um livro sobre a noção de “evento” precisamente para criar o espaço para a compreensão adequada de fenômenos como o WikiLeaks, quando um ato político não apenas viola as regras predominantes mas cria suas próprias novas regras e impõe novos padrões éticos. O que até então tomávamos como auto-evidente – o direito do Estado a nos monitorar e controlar – é agora visto como profundamente problemático; o que até então percebíamos como algo criminoso, um ato de traição – divulgação de segredos de Estado –, agora aparece como um ato heroico e ético.
Dessa breve descrição, já podemos ver como um evento se situa no interior de um campo narrativo. Nossa experiência histórica é formada como uma narrativa, isto é, sempre situamos ocorrências reais no interior de uma narrativa que as torna parte de um enredo que faça sentido. Surgem problemas quando uma reviravolta inesperada e abaladora nos acontecimentos – a eclosão de uma guerra, uma profunda crise econômica – não pode mais ser incluída numa narrativa consistente. Nessa situação, tudo depende da forma pela qual essa reviravolta catastrófica será simbolizada, de que interpretação ideológica ou narrativa irá se impor e determinar a percepção geral da crise. Quando o decorrer normal das coisas é traumaticamente interrompido, o campo se abre para disputa ideológica. Por exemplo, na Alemanha do final da década de 20, Hitler venceu a disputa pela narrativa que iria explicar aos alemães as razões pela crise da república de Weimar e a forma de sair dela (sua trama era a trama dos judeus); na França de 1940 foi a narrativa de Marshal Pétain que venceu na explicação das razões pela derrota francesa.
A lição importante desse exemplo do fascismo é que existem também o que se pode chamar de eventos negativos. Imagine uma sociedade que integrou completamente à sua substância ética os grandes axiomas modernos de liberdade, igualdade, direitos democráticos, o dever de uma sociedade prover educação e saúde básica para todos seus membros, e que visse o racismo ou o machismo como simplesmente inaceitáveis e ridículos.
Não é nem preciso argumentar contra, digamos, o racismo, já que qualquer um que abertamente o advogue é imediatamente visto como um esquisito excêntrico que não pode ser levado a sério, etc. Mas aí, passo a passo, essas conquistas vão sendo desfeitas. Já se pode abertamente propagar o racismo, advogar a tortura, etc. Hitler não fez algo assim? Sua mensagem ao povo alemão não era: “Sim, nós podemos…” – matar os judeus, esmagar a democracia, agir de forma racista, atacar outras nações? E não estamos testemunhando sinais de um processo semelhante hoje?
Em meados de 2013, dois protestos públicos foram anunciados na Croácia, um país em profunda crise econômica, com um alto índice de desemprego e uma profunda sensação de desespero na população: sindicatos tentaram organizar uma passeata em apoio aos direitos trabalhistas, enquanto nacionalistas de direita iniciaram um movimento de protesto contra o uso de caracteres cirílicos em edifícios públicos nas cidades com minoria sérvia. A primeira iniciativa trouxe a uma grande praça em Zagreb algumas centenas de pessoas; a segunda conseguiu mobilizar centenas de milhares, o mesmo que com um outro movimento fundamentalista contra o casamento gay. A Croácia está longe de ser exceção nesse quesito: dos Balcãs à Escandinávia, dos EUA a Israel, da África central à Índia, uma nova Idade das Trevas está por vir, com paixões étnicas e religiosas explodindo e valores do Iluminismo retrocedendo. Essas paixões estiveram à espreita no escuro o tempo todo, mas o que é novo agora é a forma totalmente descarada na qual aparecem.
Esse atual processo de minar os próprios fundamentos de nossas conquistas emancipatórias se dá em níveis diferentes. O debate sobre o afogamento simulado ser ou não tortura deve ser descartado como uma óbvia besteira: por que, se não provocando dor e medo da morte, o afogamento simulado faz com que suspeitos terroristas resilientes falem? E quanto à substituição da palavra “tortura” por “técnica aprimorada de interrogação”, deve-se notar que estamos lidando aqui com uma extensão da lógica do Politicamente Correto: na exata mesma forma que  “alejado” vira “deficiente físico”, “tortura” vira “técnica de interrogação aprimorada” (e, por que não, “estupro” poderia se tornar “técnica aprimorada de sedução”).
Vale insistir nesse paralelo entre tortura e estupro: e se um filme mostrasse um estupro brutal dessa mesma forma neutra, alegando que deve-se evitar o moralismo barato e começar a pensar no estupro em toda sua complexidade? Nossas entranhas nos dizem que existe algo de terrivelmente errado aqui: eu gostaria de viver em uma sociedade em que o estupro é simplesmente considerado inaceitável, de forma que qualquer um que argumente em seu favor é visto como um idiota excêntrico, não em uma sociedade em que é preciso argumentar contra ele. O mesmo vale para a tortura: um sinal de progresso ético é o fato de a tortura ser “dogmaticamente” rejeitada como repulsiva, sem nenhuma necessidade de argumentação. Mas e o argumento “realista”: a tortura sempre ocorreu, se bobear até mais no passado (recente), então não é melhor ao menos falarmos publicamente sobre ela? Esse, exatamente, é o problema: se a tortura sempre ocorreu, por que aqueles que agora estão no poder passaram a falar abertamente sobre ela? Só há uma resposta: para normalizá-la, isto é, para rebaixar nossos padrões éticos.
E é crucial ver essa regressão ética como o obverso do desenvolvimento explosivo do capitalismo global – são dois lados da mesma moeda. Então como ficamos hoje? Perto do museu das crianças em Seoul há uma estátua esquisita que, aos não-iniciados, não pode senão parecer a representação de uma cena de extrema obscenidade: parece um grupo de meninos, enfileirados um atrás do outro, enfiando suas cabeças dentro do reto do colega em frente, enquanto o menino da frente porta-se de pé e virado de frente para os outros, também com a cabeça do primeiro colega enfiada em sua virilha.
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Quando inquerimos, somos informados que a estátua é simplesmente a representação do malttukbakgi, um divertido jogo que tanto meninas quanto meninos coreanos jogam até o colegial. São dois times; o time A deixa uma pessoa de pé encostada na parede enquanto o resto do time fica com a cabeça enfiada na bunda/virilha de alguém de modo a formarem o que parece ser um grande cavalo. O time B então monta no cavalo humano um a um, pulando com o máximo de força possível; se alguém de algum time cair no chão, seu time perde.
Essa estátua não é a metáfora perfeita para nós, pessoas comuns, para nosso predicamento no capitalismo global de hoje? Nossa perspectiva é constrangida ao que podemos ver com nossa cabeça presa à bunda de um cara logo à frente de nós, e nossa ideia de quem é nosso Mestre é o cara de pé na frente cujo pênis e/ou bolas o primeiro cara da fileira parece estar lambendo – mas o verdadeiro Mestre, invisível para nós, é aquele livremente pulando nas nossas costas, o movimento autônomo do capital.
Como, então, devemos proceder em tal enrascada? Existe um maravilhoso verbo comum usado na Escócia, tartle, que designa o momento desconfortável em que um falante temporariamente esquece o nome de alguém (geralmente o nome de seu interlocutor em uma conversa). O verbo é então usado para contornar aquele constrangimento ocasional, como em: “Desculpe, eu tartlei ali por um momento!” Não estávamos todos tartlando nas últimas décadas, esquecendo o nome “comunismo” para designar o horizonte fundamental de nossas lutas emancipatórias? É tempo de plenamente relembrar essa palavra – sua plena reabilitação pública terá sido por si só um autêntico evento político.
* Publicado em inglês na revista New Statesman, em 12 de fevereito de 2014.

Slavoj Žižek descreveu Cypherpunks (compre em nossa loja), de Julian Assange, como ”leitura obrigatória para qualquer pessoa realmente interessada nas nossas liberdades.”
Fonte: OUTRASPALAVRAS

Major cassado pelo golpe de 64 conta detalhes sobre as seis maletas cheias de dólares vindas dos EUA e pagas pela FIESP a generais que implantaram a ditadura militar no Brasil

Posted: 22 Mar 2014 09:44 AM PDT

segunda-feira, 17 de março de 2014

Das democracias totalitárias ao Pós-Capitalismo



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David Harvey afirma: nova oligarquia controla riquezas globais. Para superá-la, é preciso compreender que Revolução é processo, não evento

Entrevista a André Antunes, no Blog da Boitempo
Um dos mais influentes pensadores marxistas da atualidade, o geógrafo britânico David Harvey esteve no Brasil em novembro para divulgar o lançamento de seu livro Os limites do capital. Escrita há mais de trinta anos, a obra ganhou sua primeira versão em português, mas, segundo Harvey, isso não significa que tenha ficado ultrapassada – pelo contrário. Pioneiro em sua análise geográfica da dinâmica de acumulação capitalista descrita por Marx, o livro, assim como grande parte da obra de Harvey, tornou-se mais relevante para entender os efeitos da exploração econômica dos espaços urbanos e suas consequências para os trabalhadores, ainda mais numa conjuntura marcada pela eclosão de protestos contra as condições de vida nas cidades, não só no Brasil, mas também na Europa, América do Norte e África. Nesta entrevista, Harvey faz uma análise dos levantes urbanos que ocorrem em todo mundo, aponta que não será possível atender às reivindicações por meio de uma reforma do capitalismo, e defende: é preciso começar a pensar em uma sociedade pós-capitalista.
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Os limites do capital foi escrito há mais de 30 anos. Desde então o capitalismo sofreu mudanças profundas. Qual é a atualidade dessa obra para entender o modelo de acumulação capitalista hoje?
O livro explora a teoria de Marx sobre acumulação de capital para entender as práticas de urbanização ao redor do mundo em vários lugares e momentos históricos diferentes. Minha investigação sobre as ideias de Marx se estenderam para uma análise de coisas como a renda fundiária, preços de propriedades, sistemas de crédito.
Uma coisa curiosa aconteceu: a análise de Marx era sobre o capitalismo praticado no século 19. Na época em que comecei a escrever Os limites do capital, havia muitos aspectos do mundo ao meu redor que não se encaixavam com a descrição de Marx: tínhamos um Estado de Bem-estar Social, os Estados estavam envolvidos na economia de diferentes formas, havia arranjos de seguridade social e movimentos sindicais fortes em muitos países. Mas aí veio a chamada contrarrevolução neoliberal depois dos anos 1970, com Margareth Thatcher, Ronald Reagan, as ditaduras na América Latina, e o capitalismo regrediu para sua forma do século 19. Por exemplo, houve o desmantelamento de muito da rede de seguridade social em boa parte da Europa e América do Norte; o capital se tornou muito mais feroz em sua relação com movimentos trabalhistas; as proteções que vinham de Estados que eram em algum grau influenciados por movimentos políticos de esquerda foram desmanteladas em boa parte do mundo. O que vimos desde os anos 1970 é um aumento da desigualdade social, que é precisamente o que Marx disse que aconteceria caso adotássemos um sistema de livre mercado. Adam Smith postulava que se tivéssemos um livre mercado seria melhor para todos. O que Marx mostra no O Capital é que quanto mais perto de um livre mercado mais provável é que os ricos fiquem cada vez mais ricos e os pobres mais pobres. E essa tem sido a tendência por grande parte do mundo desde os anos 1970 por conta do neoliberalismo.
De uma maneira curiosa, por essa razão, Marx se tornou mais relevante para entender o mundo hoje do que era na época em que escrevi o livro. Ao mesmo tempo, muitas das lutas que vemos ao nosso redor agora são lutas urbanas em vez de lutas baseadas em unidades fabris, de modo que ligar a dinâmica do que Marx descrevia com a dinâmica da urbanização se tornou mais relevante.
E o papel dos centros urbanos na dinâmica de acumulação capitalista, como mudou ao longo desse período?
O capital produz constantemente excedentes, e uma das coisas que aconteceu é que a cidade se tornou um local para a absorção de capital excedente. Muito desse dinheiro foi para construção de estruturas, em alguns casos para a construção de megaprojetos. O capital adora esses megaprojetos, como os envolvidos em Copas do Mundo e Olimpíadas, porque são uma ótima oportunidade para gastar muito dinheiro na construção de novas infraestruturas, o que levanta uma questão interessante: essas novas infraestruturas acrescentam algo à produtividade do país? Se você for para a Grécia, vai ver um país essencialmente falido, com esses estádios vazios ao redor, que foram construídos para um evento que durou algumas semanas. A maioria dos lugares que sediam esses eventos tem problemas financeiros sérios depois mas, no processo, as empreiteiras, construtoras e financiadoras ganham muito dinheiro. Ao longo dos últimos 40 anos, o capital excedente foi cada vez mais canalizado para mercados de ativos, como os direitos de propriedade intelectual, em que você investe no controle de patentes e vive da renda, sem fazer nada. E, da mesma forma, as cidades, as propriedades urbanas, se tornaram ativos muito lucrativos. O que vemos hoje nos mercados imobiliários é que é quase impossível para a maioria da população encontrar um lugar para viver que não absorva mais da metade de sua renda. Esse é um processo mundial: tivemos uma crise na habitação nos Estados Unidos, na qual o mercado de propriedade entrou em colapso. Em Nova York, Los Angeles e São Francisco os preços estão subindo, e vemos o mesmo fenômeno na Europa: tente achar um lugar para morar em Londres, em Paris. Mais e mais dinheiro está sendo extraído das pessoas na forma de aluguel. Isso é interessante, porque há um deslocamento da exploração do trabalho e da produção para explorar as pessoas em termos de extração de aluguel de seu local de moradia. O capital consegue inclusive fazer concessões aos trabalhadores e recapturar esse dinheiro que o trabalhador ganha aumentando o valor do aluguel.
Você trabalha atualmente em um livro que lista 17 contradições do capital: pode falar um pouco sobre elas a partir da crise de 2008?

A forma como as contradições funcionam é que elas estão interconectadas. O que houve em 2008 foi uma serie de contradições: entre valor de uso e de troca, entre a forma do dinheiro e o valor que ele deveria representar e entre aspectos da propriedade privada e o poder do Estado. Todas essas contradições se juntaram para criar um ambiente propício ao acontecimento da crise na habitação. Por exemplo: você olha uma casa, e há uma contradição entre encará-la em termos de valor de uso e valor de troca. Em algum ponto a casa se torna uma forma dupla de valor de troca, porque as pessoas que compram a casa a veem como uma forma de poupança. E mais tarde eles compram uma casa como uma forma de investimento, uma forma de ganhar dinheiro. Em vez de comprar uma casa para morar, as pessoas compram casas para reformá-las e vendê-las, para ganhar dinheiro em cima disso. Então se o mercado imobiliário está em alta, é possível ganhar muito dinheiro muito rápido com esse processo, e o resultado disso é que as vizinhanças se tornaram instáveis, porque ninguém mora e cuida do local, só usam a casa para ganhar dinheiro. E ao mesmo tempo, há muita especulação para tentar elevar o valor da casa por meio de ajustes superficiais, o que não é um problema em si, até que o mercado imobiliário despenque, porque as coisas não podem subir para sempre. Se começa a cair, todo mundo vende rapidamente e você tem o crash que vimos nos Estados Unidos em 2007-2008, e também na Espanha, Irlanda e em muitas partes do mundo. Essa tensão entre valor de troca e de uso é importante, mas é importante olharmos também para a forma como tudo é monetarizado. Há uma forma interessante com que o dinheiro começa a gerar mais dinheiro, esse aspecto especulativo do dinheiro. Eu poderia ter uma casa em Nova York sem a menor ideia de quem é o proprietário porque as hipotecas são divididas em pedacinhos e uma parte dela está na Alemanha, outra em Hong Kong e ninguém consegue descobrir de quem é a dívida. Isso é uma ficção que aconteceu por causa da maneira como o sistema monetário evoluiu.
A outra contradição é entre o Estado e a propriedade privada. O que vemos é que, em países como os Estados Unidos, o Estado vem incentivando a compra de casa própria nos últimos 40 anos, criando novas instituições financeiras para apoiar a aquisição da casa própria, dando isenções de impostos se você é proprietário, a um ponto que todo mundo tem que se tornar um proprietário, quando isso não é economicamente racional em mercados especulativos desse tipo. Entre quatro e seis milhões de pessoas foram despossuídas de suas casas nos Estados Unidos através dessa crise de execução de hipotecas. Quando perguntaram para as pessoas por que elas achavam que isso tinha acontecido, quem elas culparam? Elas mesmas. É exatamente o que os neoliberais dizem que você deve fazer. Vivemos num mundo em que o modo de pensar neoliberal se tornou profundamente arraigado: essa ideia de que nós como indivíduos somos responsáveis por sermos pobres. Como dizer para as pessoas que não é culpa delas, que é um problema sistêmico? É como o capital funciona, especialmente na sua forma de livre mercado, e se você é pobre você é um produto deste sistema. A única maneira de solucionar isso é mudando o sistema, o que quer dizer que é preciso tornar-se anticapitalista.
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Na sua avaliação, as manifestações que acontecem no Brasil apontam uma insatisfação da população brasileira aos efeitos concretos dessas contradições?
Eu acho que em vários lugares do mundo atualmente você vai encontrar um sentimento de profunda insatisfação. Há um grande descontentamento, mas acho que em nenhum desses lugares emergiu um movimento consolidado em termos de um entendimento de para onde esse descontentamento deve ser canalizado e o que deve ser feito para mudar esse quadro. Como resultado, o que você vê são essas erupções contínuas ao redor do mundo. Eu vejo que há um sentimento de descontentamento mundial que não está sintetizado, mas é interessante notar como ele entra em erupção e ninguém espera.
Ninguém esperava o que aconteceu no Brasil, foi uma surpresa. Ninguém esperava o que aconteceu na Praça Taksim, em Istambul, em Estocolmo, em Londres. O que se vê é um padrão global de expressões de descontentamento, que não localizaram o problema central, mas que são indicações de um descontentamento profundo com a maneira como o mundo caminha. Para mim, a melhor forma de se analisar isso é olhar quão bem o capital está indo. A maneira mais simples de ilustrar isso é olhando para a desigualdade de renda. Dados de vários países ao redor do mundo mostram que os 2% de maior renda entre a população saíram da crise muito bem e na verdade ganharam muito dinheiro com ela, enquanto o padrão de vida do resto encolheu.
Isso varia de um país para outro, mas dados da Oxfam apontam que os 100 maiores bilionários do mundo aumentaram sua riqueza em US$ 240 bilhões só em 2012. O número de bilionários aumentou dramaticamente nos últimos cinco anos, não só nos Estados Unidos: esse número dobrou na Índia nos últimos três anos, há muitos bilionários no Brasil, o mais rico do mundo é Carlos Slim, do México, há bilionários surgindo na Rússia, na China. Os dados mostram que o capital está indo extremamente bem.
É possível atender às reivindicações das ruas com uma reforma no capitalismo?
As opiniões variam na questão de o quanto podemos extrair das dificuldades atuais e ainda termos um capitalismo dinâmico. Minha análise é que será muito difícil desta vez. Certamente é possível acabar com alguns dos excessos do capitalismo neoliberal e certamente podemos ter um tipo de capitalismo mais socialmente justo, com redistribuição modesta de riqueza das classes abastadas para as classes médias e baixas. Há possibilidades de reforma do sistema e eu obviamente as apoiaria. Mas não acho que elas vão resolver o problema. Acho que a quantidade de riqueza que pode ser redistribuída é relativamente limitada. Em segundo lugar, falta poder político para fazê-lo. Temos uma situação agora em que essencialmente o poder político, a mídia, estão completamente capturados pelo grande capital, e a barreira política para fazer algo além de medidas pontuais é imensa. Temos uma oligarquia global que controla essencialmente toda a riqueza mundial, a mídia, os partidos políticos, o processo político. 
Vivemos hoje no que eu chamaria de democracias totalitárias, e acho que é muito difícil quebrar isso porque a oligarquia não está interessada em abrir mão desse poder. Então há uma barreira política e há também uma barreira econômica, porque se você realmente começa a redistribuir riqueza no modo que precisaríamos para resolver esses problemas e ter educação, saúde e transporte público decente para todos, se realmente fôssemos fazer isso, teríamos que tirar muito do dinheiro que hoje vai para os projetos que interessam ao grande capital.
Por que você acha que vai ser difícil sair da crise atual?
O capital tem que crescer, e crescer a uma taxa composta, que tem uma curva de crescimento exponencial. Isso significa que cada vez mais somos empurrados a encontrar oportunidades de investimento lucrativas, mais e mais. Meu cálculo, de maneira grosseira, é que nos anos 1970, globalmente, era preciso achar oportunidades de investimento lucrativas para algo em torno de US$ 600 bilhões. Hoje é preciso encontrar canais lucrativos para investimentos na ordem de US$ 3 trilhões. Em 20 anos, falaremos em canais lucrativos de investimento para US$ 6 trilhões e assim por diante. Acho que manter o capital ativo tornou-se um sério problema, e se houver um crescimento zero, há uma crise. O crescimento composto se torna cada vez mais problemático. Temos tido esse problema desde os anos 1970 e é por isso que mais e mais capitalistas estão vivendo de renda ao invés de procurar oportunidades de investimento lucrativas produzindo coisas materiais, que já não é tão lucrativo. E se todo mundo investe no rentismo, ninguém produz nada, o que também é um problema.
Você fala da importância de uma imaginação pós-capitalista. Fale sobre a sua visão do que seria uma sociedade pós-capitalista. 
É preciso haver uma revolução nas percepções, nas práticas, nas instituições. E essas revoluções levam muito tempo para se concretizarem. Quando você pensa na história do neoliberalismo, vê que foi uma transformação revolucionária que aconteceu num período de 30, 40 anos. Se foi possível mudar daquilo para isso, por que não podemos mudar do que vemos hoje para outra coisa? Mas temos que pensar não simplesmente em termos de fazermos barricadas, mudarmos governos. Temos que pensar nisso como um processo de 40 anos de mudança de mentalidades, concepções. Por exemplo, como as pessoas pensam a solidariedade social com seus vizinhos. Nos anos 1970 havia muito mais solidariedade social, e hoje o mundo se tornou muito mais individualista. Uma revolução é um processo, não um evento, estamos falando de transformações de longo prazo, e isso requer que as pessoas comecem a formular ideias sobre como mudar o mundo. Há muitos elementos que estão sendo praticados atualmente, o problema é que a maioria em pequena escala. Por exemplo, economias solidárias sendo praticadas ao redor do mundo, no Brasil, nos Estados Unidos. Há grupos tentando desenvolver modos de vida alternativos, ambientalistas, por exemplo, o movimento de recuperação de fábricas por trabalhadores na Argentina, há muitos movimentos desse tipo acontecendo, alguns em meio à crise. Na Grécia vemos o desenvolvimento de sistemas monetários alternativos e por aí vai. Há muitas coisas acontecendo atualmente que podem ser consideradas experimentos-piloto. Acho importante olhá-las e analisar quais são os elementos para se pensar um tipo diferente de sociedade no futuro.