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sexta-feira, 18 de julho de 2014

Destruição social e caos mundial, essência do império neoliberal


Escrito por Camila Carduz

Montreal, Canadá (Prensa Latina) É difícil não sentir que o mundo, a humanidade e nossa mãe terra estão sendo empurradas à catástrofe pelo império neoliberal, ou seja pelos Estados Unidos (EUA) e seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Isto é tão válido ao falarmos da natureza, da acelerada extinção de espécies e do reaquecimento global, assim como das sociedades, ou melhor dito do que delas resta em tantos Estados - países que se deixaram ou estão sendo empurrados a se despojar de toda soberania nacional e popular.

Este caos atual é o produto das políticas de um imperialismo que desde a derrubada da União Soviética trata de manter uma ordem unipolar para instaurar mundialmente e sem alternativa de mudança o neoliberalismo, de fazer realidade o "não há outra alternativa" de Margaret Thatcher.

Mas, como ficou demonstrado quando os EUA foram forçados a mudar sua política de agressão na Síria, a partir de setembro de 2013, a unipolaridadee já não é possível não apenas pelo papel ativo que jogam duas grandes potências, como o são Rússia e China, senão por existir uma maioria de países no mundo que apoiam o retorno a um multilateralismo e se opõem à perda da soberania nacional e popular que lhes permita adotar suas próprias políticas socioeconômicas e se integrar internacional ou regionalmente de maneira compatível com seus legítimos interesses nacionais.

A unipolaridade já estava comprometida pela constatação no Oriente Médio, África e Ásia de que os EUA e seus aliados provocam guerras que não ganham - Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria -, mas que sempre deixam caos, mortes, refugiados, miséria e destruição econômica e social.

Em 2011 os dois principais aliados do império no Oriente Médio, Israel e Arábia Saudita, criticaram abertamente Washington por não ter lançado uma guerra contra o Irã e ter permitido a derrocada do presidente Mubarak no Egito, fazendo chegar ao presidente Barack Obama a mensagem de que "não se abandona os aliados".

Todo mundo, e em primeiro lugar os aliados de Washington, sabem que as guerras que os EUA e seus aliados lançam não se ganham, que destroem países, economias e sociedades, e deixam o caos.

Desde o Afeganistão até a Síria, passando pelo Iraque e Líbia - sem esquecer do Paquistão, Sudão e outros países africanos -, só deixaram destruição, lutas sanguinárias entre comunidades religiosas e grupos étnicos, e centenas de milhares de mortos, feridos e refugiados, e uma grande miséria. Os EUA não têm nada de positivo para mostrar.

Há quase duas décadas o economista ítalo-estadunidense David Calleo escreveu sobre as fases de decadência final dos impérios da Holanda e da Inglaterra, qualificando-as como uma "hegemonia exploradora", nas quais o império não tem nada a oferecer de positivo (desenvolvimento socioeconômico ou segurança militar, por exemplo) aos países que domina e compõem o sistema, inclusive para a economia e sociedade do império, e então se dedica a expremê-los a fundo, a viver da fonte de renda que por todos os meios pode extrair desses países. O império estadunidense se encontra nessa fase.

Um exemplo é suficiente: em uma conversa privada o ministro de Relações Exteriores da Polônia, Radoslaw Sikorski, deixou claro que a aliança de seu país com os EUA e a OTAN não os beneficia e que, ao contrário, provoca perigosos focos de tensões com os países vizinhos.

O mesmo deve estar pensando qualquer pessoa honesta que ainda esteja no governo criado pelo golpe de Estado na Ucrânia, último país que os EUA e seus aliados da OTAN levaram à beira da guerra civil para provocar foco de constante confronto com a Rússia.

Ao mesmo tempo, um sinal de que o império já não pode controlar todo o mundo durante o tempo todo, é de que na América Latina e no Caribe prossegue a criação dos mecanismos de integração regional e subregional, nos quais os EUA não figuram nem podem controlar.

Por sua vez os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) continuam avançando com seus projetos de criação de um banco de desenvolvimento e instrumentos monetários e financeiros fora do alcance dos EUA e do dólar, enquanto assistimos ao reforço dos laços econômicos, comerciais e monetários entre a Rússia e a China, entre outros processos regionais em curso na Ásia e Eurásia.

Nada disto constitui em si uma alternativa anticapitalista, senão que quase a totalidade dos países funcionam dentro de um sistema capitalista, ainda que tenham importantes setores estatais na economia e possam estar priorizando formas de propriedade social como substitutas à propriedade privada em ramos da economia. Mas, detalhe chave, em praticamente todos os países a intervenção estatal na economia é um fato.

Igualmente, em todos esses processos o regionalismo inclui a participação e intervenção dos Estados, de suas instituições e empresas, assim como níveis de planejamento setorial nas áreas industriais, energéticas, comerciais e de serviços, e sistemas financeiros e monetários que se prometem ou vislumbram que estarão fora do controle do império e de seus aliados.

Uma forma de regionalismo deste tipo como alternativa ao "capitalismo universal", o que hoje chamamos neoliberalismo, foi proposto pelo intelectual húngaro Karl Polanyi em 1945.

Mas ainda não sendo uma alternativa socialista ou anticapitalista, é claro que estes processos regionais e multilaterais constituem uma formidável barreira aos planos do império, uma barreira que o imperialismo está tratando de derrubar com todos os instrumentos ao seu alcance, como a ofensiva para concluir rapidamente e no mais completo segredo os Acordos de "última geração" - o Acordo Transpacífico de Associação econômica, a Associação Transatlântica sobre Comércio e Investimentos e o Acordo sobre o comércio em serviços -, ou tratando de entorpecer os acordos regionais através dos políticos, burocratas, profissionais e empresários que estão a serviço do império.

Os mencionados Acordos têm por objetivo a eliminação da soberania nacional e a fixação dos Estados signatários de respeitar os termos desses tratados negociados em segredo, que respeitam apenas uma lei, a dos EUA, e incluem mecanismos através dos quais os Estados que não respeitarem os termos podem ser levados aos tribunais de arbitragem pelos monopólios. Esses Estados passam a ser fiadores dos investimentos dos monopólios estrangeiros para se apropriar dos setores econômicos que lhes interessam, incluindo os que deixarão os Estados ao se privatizar os serviços públicos.

Mas esses Acordos não estão simplesmente dados, porque cresce a rejeição nas populações que não querem abandonar seus legítimos sentimentos e interesses nacionais, e nos interesses capitalistas locais que sabem que serão esmagados pelos monopólios estrangeiros.

E enquanto o regionalismo avança, na Casa Branca e no Congresso de Washington não resta outra alternativa que se aferrar a continuar achando que o império é invulnerável e que pode continuar atuando, ele e seus aliados estratégicos, com a impunidade que a (relativamente breve) ordem unipolar lhes permitiu. É neste contexto que tem sua dimensão o discurso do presidente russo Vladimir Putin aos embaixadores da Rússia, em 1Â� de julho, em que recorda que os EUA estão aplicando ao seu país a mesma política de "contenção" que aplicaram contra a União Soviética durante a Guerra Fria, e que esperava que o pragmatismo prevaleceria, que os países ocidentais se despojariam de ambições, de tratar de "estabelecer quartéis mundiais para organizar tudo conforme os interesses, e impor regras uniformes de comportamento e de vida da sociedade".

Putin disse que os diplomatas russos sabem o quão dinâmicos e imprevisíveis os acontecimentos internacionais podem às vezes ser. Parecem ter acontecido juntos de uma só vez e por desgraça não são todos de caráter positivo.

O potencial de conflito está crescendo no mundo, as velhas contradições se agudizan e outras novas estão sendo provocadas. Continuamente nos encontramos com este tipo de situações, com frequência de forma inesperada, e observamos com pesar que o direito internacional não está funcionando, que as leis internacionais não funcionam, que as elementares normas de decência são descartadas e que triunfa o princípio de tudo-é-permitido...

É tempo de que reconheçamos o direito dos demais a serem diferentes, o direito de cada país a construir sua vida por si próprio, não pelas avassaladoras instruções de alguns (...) o desenvolvimento global não pode ser unificado, mas podemos e devemos procurar um terreno comum, ver parceiros nos demais, não rivais, e estabelecer cooperação entre os Estados, suas associações e as estruturas integradas.

E ao se referir aos conflitos que assolam várias regiões do mundo, Putin destacou que o mapa do mundo tem mais e mais regiões onde as situações estão cronicamente conturbadas, sofrendo de um "déficit de segurança".

Horas antes, no Encontro Internacional Anti-imperialista convocado pela Federação Sindical Mundial (FSM) e realizado em Cochabamba, Bolívia, o presidente boliviano, Evo Morales, apontou que "é importante identificar" os atuais instrumentos de dominação do capitalismo, do imperialismo, porque "pelo menos na América Latina já não se encontram golpes de Estado, já não há tanto as ditaduras militares como antes", senão que "povos que defendem as democracias, povos que com muita clareza propõem programas e projetos, projetos políticos de libertação".

E neste contexto, segundo o presidente boliviano, há que se perguntar o que faz o império: "provoca conflitos em cada país, financia confrontos de um povo, de um país e depois com o pretexto de defesa dos direitos humanos, da criança, da mulher, do idoso, intervêm com o Conselho de Segurança; que esse Conselho de Segurança? Para mim esse chamado Conselho de Segurança da ONU continua sendo um conselho de insegurança, um conselho de invasão aos povos do mundo".

Para enfrentar esta agressão imperialista, Morales pediu aos delegados da FSM que elaborem "uma nova tese política para libertar os povos do mundo", que ultrapasse "as reivindicações setoriais para afundar a crise no capitalismo e por um fim a ele, assim como às oligarquias e hierarquias".

Resumindo, para um observador que não tenha perdido a memória histórica, o que Putin disse não é mais do que uma explicação aos diplomatas da Rússia da conclusão à qual o povo russo, e ao menos uma parte de seus dirigentes, chegaram após terem sofrido a experiência da Perestroika e da aplicação brutal das políticas neoliberais, e de viver a atual experiência de como o imperialismo estadunidense age quando um povo quer buscar sua própria via, ainda que dentro do capitalismo. Sem menosprezar que tudo isso deva ter ajudado a reviver o que o imperialismo tentou enterrar: os ensinamentos de Lenin sobre o imperialismo.

Não é tão fácil apagar a memória histórica dos povos, e enquanto pensava li o artigo "Una mirada al pasado" de Ricardo Alarcón de Quesada, ex-presidente da Assembleia Nacional de Cuba, que conclui com a seguinte frase: Ao voltar a olhar para aqueles anos sonhadores vem à mente a advertência de William Faulkner: "O passado nunca morre. Nem sequer é passado" (publicado na revista chilena Punto Final, edição nro. 807 de 27 de junho de 2014).

Poucos dias antes da reunião da FSM, o presidente Evo Morales foi anfitrião da reunião dos 77+China, e sem dúvida ali registrou muitos sentimentos sobre o brutal agir do imperialismo e a vontade de muitos governos de poder defender seus legítimos interesses nacionais, algo que no império neoliberal está proibido.

Novamente, quando os povos vivem sob o punho imperial e recuperam a memória histórica, é lógico que a necessidade de uma estratégia anti-imperialista retorne.

Em uma recente análise intitulada "America's Real Foreign Policy - A Corporate Protection Racket", o intelectual estadunidense Noam Chomsky descreve o verdadeiro objetivo histórico da política exterior dos EUA: proteger os interesses do setor das grandes empresas com um "nacionalismo econômico (um protecionismo que) depende em grande parte da intervenção estatal em massa", e por isso em regra geral se opôs por todos os meios a que os demais países tenham políticas de "nacionalismo econômico".

Isto, fundamenta Chomsky com referências documentárias, é válido para toda a análise da política estadunidense para a América latina e o Caribe, e é a profundidade do conjunto da política exterior estadunidense em todo o período posterior à Segunda Guerra Mundial, quando o sistema mundial que ia ser dominado pelos EUA foi ameaçado pelo o que os documentos internos chamavam de "regimes radicais e nacionalistas", que respondem às pressões populares para um desenvolvimento independente.

O que Chomsky documenta se enquadra com o que em 1945 Karl Polanyi antecipava, que os EUA "têm sido o lar do capitalismo liberal do século XIX e é o suficientemente poderoso para prosseguir sozinho a utópica política de restaurar o liberalismo".

E, nesse sentido e com todas as limitações que implica, o regionalismo é nesse momento a principal frente anti-imperialista, e outra terá que ser construída pelos povos, por suas organizações políticas, sindicais e sociais.

*Colaborador da Prensa Latina.

A causa palestina é a causa central dos povos árabes


Escrito por Bianka de Jesus

San Salvador (Prensa Latina) Palestina está novamente sob o fogo indiscriminado de Israel e somam centenas de mortos, muitos deles crianças, em um conflito cujas causas repousam na dominação imperial.
Em entrevista exclusiva à Prensa Latina em El Salvador, o secretário geral do Partido dos Trabalhadores Comunistas Jordaniano, Mazzen Hanna, ressaltou que a cada dois ou três anos a Palestina sofre uma agressão de Israel e cada vez são mais agressivas e brutais. "A causa palestina é a causa central dos povos árabes porque a ameaça sionista vai bem mais além, pois na região persegue-se todo o movimento de libertação árabe e de esquerda", enfatizou o também secretário geral da Aliança de Comunistas Jordaniana.

Trata-se de uma situação muito complexa, na qual somam as facilidades da região para que seja agredida, assegurou.

O imperialismo e o sionismo têm aliados, como os grandes donos do petróleo e as forças de terror religiosas que governam o mundo árabe, ao contrário do que ocorre na América Latina, onde cresce a esquerda e os comunistas têm chegado ao poder apoiados por forças populares gigantescas.

"Como Cuba, Venezuela, Nicarágua e mais recentemente El Salvador", dimensionou Hanna, que foi recebido em El Salvador pelo secretário geral da Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN), Medardo González, e o presidente da Assembleia Legislativa, Sigfrido Reyes.

O imperialismo trabalha arduamente para liquidar a causa palestina que tem no sionismo um aliado essencial e cujos propósitos se estendem a outros confins do mundo, afirma.

"Nós estamos levando a cabo contra esses planos uma luta em todos os níveis, no contexto de uma situação que se fez bem mais complexa depois dos acontecimentos no Egito, Tunísia, Líbia e Síria", ressaltou.

A respeito do ocorrido na Líbia assegurou que esse país não significava uma ameaça nos últimos anos para os Estados Unidos nem para ninguém, sobretudo a partir da entrega de suas armas químicas ao ocidente.

Na realidade, o apoio de Muamar Kadafi à causa árabe foi o que incomodou os imperialistas, enfatizou.

"Líbia estava muito frágil, com estruturas velhas estagnadas no poder, e tinham muito espaço as forças tradicionais tribais, e se aproveitaram disso, mobilizaram as forças da Organização do Atlântico Norte e apresentaram a situação ali como se tivesse uma revolução popular", recordou.

Em mudança, a revolução na Tunísia, levada a cabo pela classe operária, conseguiu derrubar o regime, mas o imperialismo, para poder conservar seus interesses ali, utilizou o exército e deu seu golpe, acompanhado pelas forças religiosas reacionárias, as quais são o fundamento do regime anterior, explicou.

O político, que é médico por profissão, acrescentou que o mesmo se passou no Egito, quando durante as primeiras duas semanas de protesto popular o Ocidente não emitiu nenhuma opinião, e esperava que Hosni Mubarak pudesse sortear a crise e ficar no poder.

"Quando se deram conta de que isso era impossível mobilizaram o exército e permitiram ao islã político instalar-se e deram dois golpes de Estado, primeiro contra Mubarak e depois contra o presidente Mohamed Morsi", sublinhou.

As revoluções na Tunísia e Egito obrigaram os imperialistas a mudar seus planos e aproveitaram os dois momentos para tratar de liquidar o movimento de libertação árabe em toda a região, assinalou Hanna.

Em sua opinião, no mundo árabe as forças de esquerda são perseguidas e reprimidas ao mesmo tempo em que o fundamentalismo religioso tem tomado força e espaço.

Depois da queda do campo socialista e da União Soviética, o imperialismo tratou de se introduzir em alguns países da Europa oriental, África e América Latina, afirmou o comunista e também escritor jordaniano, autor de cinco livros.

No entanto, em nossa região demorou duas décadas em aproveitar essa queda do socialismo pela questão palestina, porque a agressão sionista unifica os povos árabes contra o sionismo, enfatizou.

Quanto à Síria, afirmou Hanna, esse país representa o último baluarte da resistência árabe.

Ali não há movimentos reacionários fortes, por isso tiveram que levar 120 mil jovens de 48 países, de terroristas islâmicos e reacionários, em uma tentativa de derrubar o governo sírio e dominar a região, afirmou.

Pensavam que ao implementar esse plano na Síria liquidariam a causa palestina porque debilitariam a resistência árabe, cortariam as unhas do Irã e tudo passaria ao domínio absoluto dos Estados Unidos, e Israel se converteria na única força na região, disse.

"Independentemente de que, como comunistas, estejamos de acordo ou não com alguns aspectos do governo sírio, o fato é que esse país está na trincheira anti-imperialista e antissionista", destacou.

Esse governo tem tido muitas conquistas de caráter econômico, financeiro, na agricultura, entre outros, que têm beneficiado à população, por isso que o plano imperial não calou e não conseguiu dividir o povo nem o exército, detalhou.

Síria tem conseguido resistir também porque foi apoiada pelo povo árabe, pela resistência libanesa e pelo estímulo da Rússia, ressaltou.

Em meio a esta situação, assegurou que o mais perigoso neste contexto é a ausência da consciência e lamentavelmente se recrutam jovens de pouca idade que não defendem nem direitos reais nem causas justas, pois lhes fazem crer na falsa ilusão de que podem fazer um reino na terra que é o caminho para o reino do céu.

"Esse é um instrumento utilizado pelo imperialismo, financiam e vendem as ilusões", lamentou.

Para o político jordaniano, as forças de esquerda no mundo árabe, especialmente os comunistas, estão em uma fase transitória, pois após a queda do campo socialista se debilitaram, ao que se soma a fragilidade da classe operária e suas organizações sindicais.

Alguns partidos mudaram sua natureza, passaram de esquerda à direita, houve divisões, como no próprio Partido Comunista Jordaniano, que nos obrigou a sair e fundar o Partido dos Trabalhadores Comunistas Jordaniano.

Alguns se mantêm e estão na linha de fogo nesta luta e trabalhamos com eles, sublinhou.

Hanna chegou a El Salvador nesta semana, convidado pela embaixada da Nicarágua aqui, e também para felicitar a direção da FMLN por seu recente triunfo eleitoral, compartilhar e desenvolver as relações entre os dois partidos.

E também, para aproveitar a experiência de outros povos e demonstrar "as nossas nações que há outros caminhos na luta pela justiça".

* Correspondente da Prensa Latina em El Salvador

'Os EUA não têm moral', diz Cuba sobre acusação de tráfico de seres humanos

Washington afirmou que na ilha há prostituição infantil e turismo sexual. No entanto, conforme assinalou o UNICEF, o país é exemplo na proteção da infância 

UNICEF: Cuba é o único país do Terceiro Mundo que erradicou a desnutrição infantil/EFE
Por Salim Lamrani no Opera Mundi 

Em seu relatório de 2014 sobre o tráfico de seres humanos no mundo, o Departamento do Estado inclui novamente Cuba em sua lista, situando-a na pior categoria (3). Segundo Washington, “adultos e crianças são vítimas de tráfico sexual e de trabalhos forçados” na ilha. “A prostituição infantil e o turismo sexual são uma realidade em Cuba e houve alegações de trabalhos forçados durante as missões no exterior que o governo cubano realizou”. 1

Entretanto, Washington reconhece a falta de credibilidade de suas informações:

Alguns cubanos que participam dessas missões de trabalho declararam que sua presença era voluntária e que o trabalho estava sendo bem remunerado em comparação a outros empregos em Cuba. Outros afirmaram que as autoridades cubanas os obrigaram a participar das missões, confiscando seus passaportes e limitando sua movimentação. Alguns profissionais da saúde que participavam dessas missões puderam se beneficiar de vistos estadunidenses e de algumas facilidades migratórias para viajar aos Estados Unidos com seus passaportes, o que indica que pelo menos alguns profissionais da saúde conservam seus passaportes. Os relatórios sobre coação imposta pelas autoridades cubanas não parecem refletir uma política governamental uniforme. Convêm ressaltar que carecemos de informação a respeito. 2

O relatório se refere, entre outros ao Cuban Medical Professional Parole Program (Programa de Liberdade para os Profissionais Médicos Cubanos, em tradução livre) (CMPP). De fato, desde 2006 Washington elaborou uma política destinada a tirar da ilha seu capital humano, facilitando a emigração de seus médicos para os EUA. Este programa prioriza particularmente os 30 mil médicos cubanos e outros funcionários de saúde que trabalham em cerca de 60 países do Terceiro Mundo, no marco de uma vasta campanha humanitária destinada a curar os despossuídos do planeta. 3
Assim, apesar da falta de informação confiável, o relatório de 2014 conclui que “o governo de Cuba não cumpre os padrões mínimos para eliminar o tráfico de seres humanos e não realiza os esforços necessários para isso”. 4

O ponto de vista da UNICEF

A acusação mais grave é relativa à prostituição infantil. Entretanto, a UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) não compartilha desse ponto de vista e, pelo contrário, saúda os avanços de Cuba na proteção da infância. 5 Segundo o organismo da ONU, “Cuba é um exemplo na proteção da infância”.  Segundo Juan José Ortiz, representante da UNICEF em Havana, “a desnutrição severa não existe em Cuba porque há vontade política” de eliminá-la. “Aqui não há criança nas ruas. Em Cuba as crianças ainda são prioridade e por isso não sofrem as carências de milhões de crianças na América Latina, trabalhando, explorados ou em redes de prostituição”. 6

Ortiz compartilha sua experiência a esse respeito:

Há milhões de crianças exploradas diariamente, que nunca irão a escola; milhões de meninos e meninas que nem sequer têm identidade, que não existem já que não foram registrados. 7

Cuba, há mais de 50 anos, tem sido um modelo de defesa e de promoção dos direitos da infância. As políticas públicas a favor da infância têm sido prioridade há muitos anos. Assim, conseguiu-se algo verdadeiramente inédito no mundo em desenvolvimento.

Entre as centenas de milhares de crianças que sofrem gravíssimas violações de seus direitos, que chegam inclusive a morrer diariamente de causas absolutamente evitáveis, nenhuma é cubana. É a demonstração clara de que é possível, sim, que os Estados priorizem a atenção à infância e o seu desenvolvimento.

[…] Cuba demonstra que, apesar da crise internacional, apesar da gravidade do impacto do bloqueio [sanções econômicas] sobre o desenvolvimento da infância, apesar desse agravante, uma vez que é o único país a tê-lo, pode garantir plenamente os direitos da infância e conseguir níveis de desenvolvimento humano cada vez maiores. Cuba é um exemplo para o mundo de como é possível trabalhar para garantir os direitos da infância e seu pleno desenvolvimento. O povo cubano disfruta de um tesouro do qual às vezes não se dá conta. Os meninos, as meninas e os adolescentes são privilegiados em comparação ao mundo. 8

20.000 meninos e meninas vão morrer no mundo hoje e a imensa maioria dessas mortes poderia ser evitada. É criminoso deixar que as crianças morram se temos recursos para salvá-las. Se a questão da infância fosse uma prioridade mundial, os problemas dos quais elas são vítimas estariam resolvidos há muito tempo, como é o caso de Cuba.

Cuba sempre foi um exemplo no setor de desenvolvimento social, com nível de igualdade semelhante à dos países mais desenvolvidos […].

O trabalho realizado em Cuba com os menores delinquentes (outra grande questão e desafio para a América Latina e o Caribe) é exemplar. Aqui, não há prisões para crianças. O sistema defende a reabilitação dos jovens extraviados […]. Da mesma maneira, todas as crianças descapacitadas são atendidas, e isso dentro da própria casa se o menino não pode se mover. É um avanço excepcional […]. É o único país que eu conheço onde se pode celebrar o Dia da Criança dançando […].
9

O representante da UNICEF ressalta também o seguinte: “Por causa do meu trabalho, dediquei meu tempo a sepultar crianças em todos os países. Entretanto, em Cuba, dedico meu tempo a brincar com eles”. Ele não exita em classificar a ilha como “paraíso da infância na América Latina”. 10 O UNICEF lembra que Cuba é o único país da América Latina e do Terceiro Mundo que erradicou a desnutrição infantil. 11

Resposta de Havana

Em Havana, as autoridades condenaram a nova inclusão de Cuba, presente na lista negra desde 2003, no grupo de países envolvidos no tráfico de seres humanos e qualificaram o relatório de “manipulador e unilateral ”: 12

O Departamento de Estado decidiu, outra vez, incluir Cuba na pior das categorias de seu relatório anual sobre os países que “não cumprem completamente os padrões mínimos para a eliminação do tráfico de pessoas e não fazem esforços significativos para esse fim”, fazendo caso omisso do reconhecimento e prestígio alcançados por nosso país por seu desempenho destacado na proteção da infância, da juventude e da mulher.
 
Cuba não solicitou a avaliação dos EUA nem necessita das recomendações de um dos países com maiores problemas no tráfico de meninos, meninas e mulheres no mundo. Os EUA não têm moral para qualificar Cuba, nem para nos sugerir “planos” de nenhuma índole, quando se estima que o número de cidadãos norte-americanos traficados dentro desse país está próximo a 200 mil, onde a exploração sexual, e onde mais de 300 mil crianças, do milhão que abandonam seus lares, estão sujeitas a alguma forma de exploração […].

A inclusão nessa lista, por motivações totalmente políticas, como é também a designação de Cuba como Estado patrocinador do terrorismo internacional, é dirigida a justificar a política de bloqueio […], que afeta severamente a nossa infância, juventude, nossas mulheres e todo o nosso povo.
13

Washington reconhece o caráter frágil de seu relatório e o UNICEF desmente as acusações contra Cuba. Além disso, o envolvimento dos EUA no tráfico de seres humanos e na exploração legal de crianças a partir dos 12 anos prejudica sua autoridade moral e dá um golpe severo em sua credibilidade.

Notas:

1. State Department, "Trafficking in Persons Report 2014", junho de 2014. http://www.state.gov/j/tip/rls/tiprpt/2014/index.htm (site consultado em 27 de junho de 2014), p. 148.

2. Ibid., p. 148-149.

3. United States Department of State, “Cuban Medical Professional Parole Program”, 26 de junho de 2009. http://www.state.gov/p/wha/rls/fs/2009/115414.htm (site consultado dia 2 de julho de 2014).

4. State Department, "Trafficking in Persons Report 2014", junho de 2014, op. cit., p. 149.

5. José A. De la Osa, "Cuba es ejemplo en la protección a la infancia", Granma, 12 de abril de 2008.

6. Fernando Ravsberg, "UNICEF: Cuba sin desnutrición infantil", BBC, 26 de janeiro de 2010.
7. Radio Havane Cuba, "L’UNICEF signale que Cuba est un exemple en matière des droits de l’homme", 1de junho de 2012.

8. Cubainformación, "Entrevista a representante de UNICEF en Cuba", 4 de junho de 2012. http://www.cubainformacion.tv/index.php?option=com_content&task=view&id=43657&Itemid=86 (site consultado dia 2 de janeiro de 2013.

9. Lisandra Fariña Acosta, "Ce pays est un laboratoire de développement social", Granma, 7 de junho de 2012. http://www.granma.cu/frances/cuba-f/7jun-Ce%20pays.html (site consultado dia 2 de janeiro de 2013).

10. Marcos Alfonso, "Cuba: ejemplo de la protección de la infancia, reconoce UNICEF", AIN, 18 de julho de 2010.

11. UNICEF, Progreso para la infancia. Un balance sobre la nutrición, 2011.

12. Agence France Presse, "Cuba califica de ‘manipulador y unilateral’ informe de EEUU", 21 de junho de 2014.

13. Josefina Vidal Ferreiro, "Declaración de la Directora General de Estados Unidos del Ministerio de Relaciones Exteriores de Cuba", República de Cuba, 21 de junho de 2014.

Salim Lamrani é Doutor em Estudos Ibéricos e Latino-americanos, é professor-titular da Universidade de la Reunión e jornalista, especialista nas relações entre Cuba e Estados Unidos. Seu último livro se chama Cuba. Les médias face au défi de l’impartialité, Paris, Editions Estrella, 2013, com prólogo de Eduardo Galeano.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Especialista: "grupos rebeldes não têm mísseis tão potentes"

Em entrevista ao Terra, Gunther Rudzit apostou em envolvimento de governos em incidente



Separatistas armados pró-Rússia em local da queda de avião da Malaysia Airlines na Ucrânia
Foto: Maxim Zmeyev / Reuters
O especialista em Segurança Internacional Gunther Rudzit falou ao Terra sobre o incidente envolvendo o voo MH17, da Malaysia Airlines, que caiu nesta quinta-feira em solo ucraniano. Rudzit descartou a possibilidade de acidente e disse acreditar que somente um míssil de alto alcance seria capaz de derrubar o avião. 
"Para derrubar esse avião, na altura em que estava, seria necessário mísseis de média/grande altitude. Ambos os governos têm esse míssil", afirmou. Rudzit também descartou a possibilidade de um grupo de rebeldes conseguir esse tipo de armamento por conta própria. "Um grupo rebelde não consegue um equipamento desses no mercado negro, muito menos conseguiria operá-lo", disse, antes de especular: "é muito provável que o governo russo esteja envolvido nisso. Mas (o envolvimento) pode ter vindo do governo ucraniano também, precisamos esperar". 
Cláudio Lucchese, diretor da revista Asas, especializada em aviação civil e militar, tem opinião semelhante. Segundo ele, tanto as forças armadas da Ucrânia quanto da Rússia estão equipadas com sistemas de defesa antiaérea capazes de atingir aeronaves a essa altitude. “Entre os mísseis que a defesa ucraniana opera, tem um sistema de mísseis que se chama Buk-M1. Os ucranianos têm em boa quantidade, esse míssil por exemplo consegue atingir um avião a 25 mil metros de altura. Atingir um avião a 10 mil não ia ser nenhum problema. Hoje a defesa aérea russa tem vários sistemas mais avançados, mas ainda opera as versões mais novas do Buk."
Lucchese vai além, e afirma que os indícios iniciais apontam que o míssil disparado do solo possivelmente tenha saído de território ucraniano, já que o local do acidente está fora do espaço aéreo russo. A única possibilidade de uma ação da Rússia, na opinião do especialista, seria caso o voo da Malaysia tenha sido interceptado por um caça. "Onde ele caiu, ele não estava tão perto da fronteira para ter sido um sistema antiaéreo russo para ter sido abatido. Ali tem duas alternativas: ou foi o sistema antiaéreo, ou foi atingido por um míssil disparado por outra aeronave - e aí poderia ter sido atingido por um caça russo. Só que aí o caça teria que ter entrado no espaço aéreo ucraniano, e até agora, apesar de seguidas acusações do governo da Ucrânia, não há casos comprovados de invasão aérea por parte da Rússia."
Para especialista, rebeldes não conseguiriam derrubar BoeingClique no link para iniciar o vídeo
Para especialista, rebeldes não conseguiriam derrubar Boeing
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O escritor Ivan Sant'Anna, autor dos livros Caixa Preta Perda Total, segue a mesma linha. Entretanto, aposta que o incidente seja fruto de um possível engano. "Muitos deles (rebeldes ucranianos) são russos de nascimento (até o fim da União Soviética, em 1990, a Ucrânia e a Rússia faziam parte do mesmo país) e outros são filhos de russos. Sendo suas armas fornecidas pelos russos (que querem se apossar do leste da Ucrânia) é possível que, por engano, tenham usado uma delas para derrubar o avião malaio". O escritor diz acreditar, ainda, que não será a última vez que esse tipo de incidente ocorrerá: "foi míssil mesmo (que derrubou a aeronave). Não é a primeira nem será a útlima que um jato comercial voando a grande altitude é derrubado por estar no lugar errado, na hora errada".
O avião da Malaysia Airlines caiu perto da cidade de Shaktarsk, na região de Donetsk, Ucrânia, cenário de combates entre as forças governamentais do país e rebeldes pró-Rússia, nesta quinta-feira. O Boeing- 777 voava de Amsterdã, na Holanda, para Kuala Lumpur, Malásia. Estavam a bordo do avião 280 passageiros e 15 tripulantes. Segundo informações iniciais, não há sobreviventes.
A Malaysia Airlines informou, via Twitter, que perdeu contato com o voo às 14h15 GMT (11h15 de Brasília) a cerca de 50 km da fronteira entre Ucrânia e Rússia. O avião havia decolado de Amsterdã, na Holanda, às 12h15 locais, e deveria chegar a Kuala Lumpur, na Malásia, às 6h10 desta sexta-feira (18), também no horário local.
Terra