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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Fidel Castro: Triunfarão as ideias justas ou triunfará o desastre




A sociedade mundial não conhece a trégua nos últimos anos, particularmente a partir do momento em que a Comunidade Econômica Europeia, sob a direção ferrenha e incondicional dos Estados Unidos, considerou que tinha chegado a hora de acertar as contas com o que restava de duas grandes nações que, inspiradas nas ideias de Karl Marx, tinham feito a façanha de pôr fim à ordem colonial e imperialista, imposta ao mundo pela Europa e os Estados Unidos.
Na antiga Rússia eclodiu uma revolução que abalou o mundo.
Esperava-se que a primeira grande revolução socialista tivesse lugar nos países mais industrializados da Europa, tais como a Inglaterra, França, Alemanha ou no Império Astro-húngaro. Contudo, esta revolução teve lugar na Rússia, cujo território se estendia até a Ásia, desde o norte da Europa até o sul do Alasca, que tinha sido também território czarista, vendido por uns dólares ao país que seria, posteriormente, o mais interessado em atacar e destruir a revolução e o país que a gerou.
A maior proeza do novo Estado foi a de criar uma União capaz de agrupar seus recursos e partilhar sua tecnologia com grande número de nações fracas e menos desenvolvidas, vítimas inevitáveis da exploração colonial. Seria ou não conveniente no mundo atual uma verdadeira sociedade de nações que respeitasse os direitos, credos, cultura, tecnologias e recursos de lugares acessíveis do planeta que tantas pessoas gostam de visitar e conhecer? E não seria muito mais justo que todas as pessoas que hoje em dia, em frações de segundo se comunicam de um extremo a outro do planeta, vejam nos demais um amigo ou um irmão e não um inimigo disposto a exterminá-lo com os meios que tem sido capaz de criar o conhecimento humano?
Ao acreditar que os seres humanos poderiam ser capazes de albergar tais objetivos, penso que não há direito algum de destruir cidades, assassinar crianças, pulverizar moradias, a espalhar o terror, a fome e a morte por todos lados. Em que recanto do mundo se poderiam justificar tais fatos? Se alguém lembra que no fim da chacina da última contenda mundial o mundo ficou iludido com a criação das Nações Unidas, é porque boa parte da humanidade imaginou as Nações Unidas com tais perspectivas, embora seus objetivos não estivessem cabalmente definidos. Um colossal engano é o que se percebe hoje quando surgem problemas que insinuam o possível deflagrar de uma guerra com o emprego de armas que poderiam pôr fim à existência humana.
Existem sujeitos inescrupulosos, segundo parece não poucos, que consideram um mérito sua disposição a morrer mas, sobretudo, a matar para defender privilégios vergonhosos.
Muitas pessoas ficam espantadas ao escutar as declarações de alguns porta-vozes europeus da OTAN ao se expressarem com o estilo e o rosto das SS nazistas. Por ocasiões até envergam fatos escuros em pleno verão.
Nós temos um adversário o bastante poderoso, que é nosso vizinho mais próximo: os Estados Unidos. Advertimo-lhes que resistiríamos o bloqueio, embora isso pudesse implicar um custo muito elevado para nosso país. Não há pior preço que capitular diante de um inimigo que, sem razão nem direito, te agride. Era o sentimento de um povo pequeno e isolado. O resto dos governos deste hemisfério, com raras exceções, estava do lado do poderoso e influente império. Do nosso lado, não se tratava de uma atitude pessoal, era o sentimento de uma pequena nação que desde começos do século era uma propriedade não só política, mas também econômica dos Estados Unidos. A Espanha nos cedeu a esse país, após termos sofrido quase cinco séculos de colonialismo e de um incalculável número de mortos e perdas materiais na luta para atingir a independência.
O império reservou-se o direito de intervir militarmente em Cuba, em virtude de uma pérfida emenda constitucional, que impôs a um Congresso impotente e incapaz de resistir. À parte de ser o dono de quase tudo em Cuba: abundantes terras, as maiores usinas açucareiras, as jazidas, os bancos e até a prerrogativa de imprimir nosso dinheiro, nos proibia produzir grãos alimentícios suficientes para alimentar a alimentação.
Quando a URSS se esfacelou e sumiu, ainda o Bloco Socialista, continuamos resistindo, e juntos, o Estado e o povo revolucionários, prosseguimos nossa marcha independente.
Contudo, não desejo dramatizar esta modesta história. Mais bem prefiro recalcar que a política do império é tão dramaticamente ridícula que não demorará muito tempo em ir parar à lixeira da história. O império de Adolf Hitler, inspirado na cobiça, passou à história sem mais glória que o alento dado aos governos burgueses e agressivos da OTAN, que os converte no alvo da chacota da Europa toda e do mundo, com seu euro que, tal como o dólar, não demorará a se converter em papel molhado, chamado a depender do yuan e também dos rublos, diante da vigorosa economia chinesa estreitamente unida ao potencial econômico e técnico da Rússia.
Algo que se converteu em um símbolo da política imperial é o cinismo.
Como é bem conhecido, John McCain foi o candidato republicano às eleições de 2008. Este personagem veio a público quando em funções de piloto foi derribado enquanto seu avião bombardeava a populosa cidade de Hanói. Um míssil vietnamita o alvejou em meio da tarfa e o avião e o piloto caíram em um lago situado nas proximidades da capital.
Um antigo soldado vietnamita, já aposentado, que ganhava o pão trabalhando perto dali, ao ver cair o avião e um piloto ferido que tentava salvar-se, veio socorrê-lo. Enquanto o velho soldado lhe prestava essa ajuda, um grupo de populares de Hanói, que sofria os ataques da aviação, se aproximava para acertar as contas àquele assassino. O próprio soldado convenceu os moradores para não o assassinarem, pois já era prisioneiro e sua vida devia ser respeitada. As próprias autoridades ianques se comunicaram com o governo vietnamita, rogando para não agirem contra esse piloto.
Além das normas do governo vietnamita relativamente ao respeito aos prisioneiros, o piloto era filho de um Almirante da Armada dos Estados Unidos, que tinha desempenhado um papel destacado na Segunda Guerra Mundial e ainda estava ocupando um cargo importante.
Naquele bombardeio, os vietnamitas tinham capturado um personagem importante e, logicamente, pensando nas conversações inevitáveis de paz que deviam pôr fim à guerra injusta que lhes haviam imposto, travaram amizade com McCain quem, naturalmente, estava muito feliz de pode tirar todo o proveito possível àquela aventura. Por sinal, isto não me foi contado por nenhum vietnamita, nem eu nunca perguntei nada a esse respeito. Eu li acerca disto e se ajusta totalmente a certos pormenores que conhecei mais tarde. Ainda, um dia li que o senhor McCain tinha escrito que, quando era prisioneiro no Vietnã, enquanto era torturado, escutava vozes em espanhol, assessorando os torturadores acerca do que deviam fazer e como fazê-lo. Eram vozes de cubanos, segundo McCain. Cuba nunca teve assessores no Vietnã. Os militares vietnamitas conhecem amplamente como travar uma guerra.
O general Giap foi um dos chefes mais brilhantes de nossa época, sendo capaz em Dien Bien Phu de deslocar os canhões por florestas emaranhadas e íngremes, uma coisa que os militares ianques e europeus consideravam impossível. Com esses canhões começaram a disparar de um ponto tão próximo que era impossível neutralizá-los sem que as bombas nucleares também afetassem os invasores. Os restantes passos pertinentes, todos difíceis e complexos, foram dados para impor às cercadas forças europeias uma rendição vergonhosa.
O raposo McCain tirou todo o proveito possível das derrotas militares dos invasores ianques e europeus. Nixon não conseguiu persuadir seu conselheiro de Segurança Nacional, Henry Kissinger, de que aceitasse a ideia sugerida pelo próprio presidente, quando em momento em que estava descontraído lhe dizia: por que não jogamos sobre eles uma dessas bombinhas, ó Henry? A verdadeira bombinha explodiu quando os homens do presidente tentaram espionar seus adversários do partido oposto. Isso não podia ser tolerado mesmo!
Apesar disso, o mais cínico do senhor McCain tem sido sua atuação no Próximo Oriente. O senador 
McCain é o aliado mais incondicional de Israel nas trapalhadas do Mossad, algo que nem os piores adversários teriam sido capazes de imaginar. McCain participou em parceria com esse serviço secreto israelense na criação do Estado Islâmico, que tomou posse de uma parte considerável e vital do Iraque, assim como segundo se afirma, de uma terça parte do território da Síria. Esse Estado já conta com receitas multimilionárias, e ameaça a Arábia Saudita e outros Estados dessa complexa região, que fornece a parte mais importante do combustível mundial.
Não seria preferível lutar por produzir mais alimentos e produtos industriais, construir hospitais e escolas para os bilhões de seres humanos que precisam desesperadamente deles, promover a arte e a cultura, lutar contra doenças em massa que matam mais de metade dos doentes, os trabalhadores da saúde ou tecnólogos que segundo se vislumbra, poderiam finalmente eliminar doenças como o câncer, o ébola, a malária, a dengue, a diabetes e outras que afetam as funções vitais dos seres humanos? 
Se hoje resulta possível prolongar a vida, a saúde e o tempo útil das pessoas, se é perfeitamente possível planejar o desenvolvimento da população em virtude da produtividade crescente, a cultura e o desenvolvimento dos valores humanos. O que é que esperam para fazê-lo?
Triunfarão as ideias justas ou triunfará o desastre.
31 de agosto de 2014
Fidel Castro. 

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Congresso dos EUA: Pouca popularidade e muitas tarefas pendentes

Escrito por Camila Carduz

Havana (Prensa Latina) O Congresso dos Estados Unidos retornou neste 8 de setembro de suas longas férias de verão de cinco semanas, e no que lhe resta de trabalho até finais deste mês tem diante de si tarefas pendentes que deve abordar, ao menos em parte, antes de iniciar um novo recesso para a campanha das eleições do próximo novembro.
Nessas eleições estarão em jogo as 435 cadeiras da Câmara de Representantes - agora com maioria republicana - e um terço dos cargos do Senado, dominado pelos democratas.

Uma das tarefas essenciais nesses dias será a aprovação de um projeto de lei com o fim de atribuir fundos de emergência e evitar o fechamento de agências federais por falta de dinheiro em 1Â� de outubro próximo - quando se inicia oficialmente o ano fiscal de 2015-, bem como o plano do presidente Barack Obama para elevar o salário mínimo.

A polémica em torno da postergada reforma migratória integral, bloqueada pela maioria republicana na Câmara de Representantes, é um dos assuntos que uma boa parte dos eleitores anseia que seja abordado por seus representantes, mas tudo parece indicar que agora isso não será possível.

Obama criticou repetidamente o Congresso em agosto passado por tirar férias muito longas sem agir sobre aspectos chave como o financiamento para enfrentar a chegada em massa de crianças sem documentos através da fronteira com o México e outros projetos importantes.

Diante da falta de ação do legislativo sobre a imigração em geral, o chefe da Casa Branca disse em 5 de setembro que "logo" usará suas faculdades executivas e tomará uma decisão com base nas recomendações recebidas pelo Promotor-Geral, Eric Holder, sem consultar o Capitólio.

Mas nesta curta sessão do Congresso até finais de setembro, alguns legisladores pretendem analisar uma temática da política exterior que mantém Obama e ao Partido Democrata em xeque: o debate em torno da expansão do uso da força contra os grupos do Estado Islâmico (EI) no Iraque e na Síria.

A decapitação de dois jornalistas estadunidenses e as constantes informações que detalham as atrocidades cometidas pelos jihadistas nesses dois países árabes, são tomadas como bandeira por aqueles que pressionam o presidente para que ele adote novas medidas de força contra o EI.

Durante o recesso de verão, vários legisladores declararam aos meios de imprensa suas intenções de que o Congresso discuta uma resolução que autorize o presidente a empregar mais a fundo os serviços armados nessa luta.

O presidente da Câmara de Representantes, John Boehner, estima que o Capitólio tomará decisões com respeito ao combate aos jihadistas no Iraque depois que a Casa Branca detalhe sua estratégia sobre a questão, mas considera questionável que essa autoridade se estenda às ações contra as forças de dito grupo na Síria.

Nesse contexto, nas poucas semanas que restam de trabalho do Congresso, existem dúvidas sobre se há tempo para resolver estas e outras tarefas pendentes, quando os índices de popularidade do Legislativo estão em seus piores níveis.

Segundo uma pesquisa de opinião recente da empresa Gallup, apenas 16% dos estadunidenses aprovam os trabalhos do congresso federal, o índice mais baixo desde 1974, para um ano de eleições de meio termo.

A pesquisa mostrou uma queda desse parâmetro em relação ao ano de 2010, quando a taxa de aceitação do trabalho do Capitólio chegou a 21%, enquanto em 2002 foi de 50%.

Outras pesquisas apontam que mais de 80% dos estadunidenses consideram incorreto que os membros do Congresso passem um mês de férias, fora de seus escritórios legislativos, porque não trabalham o suficiente para merecer tal descanso de verão.

Mas a rejeição dos eleitores vai além do que sentem pelo Congresso e nesse sentido uma pesquisa realizada pelo jornal The Wall Street Journal e a emissora de televisão NBC News mostrou que quase 80% dos estadunidenses estão insatisfeitos com o sistema político de seu país.

O 70% deles culpam seus governantes pelas dificuldades econômicas do país, enquanto 71% acham que o país está indo pelo caminho errado.

Analistas citados pelo The Wall Street Journal apontam que esta pesquisa destaca as dificuldades que Obama e seus partidários enfrentarão para conseguir apoio do eleitorado nas eleições de meio termo, que terão acontecerão em 4 de novembro próximo.

A tal tipo de opinião negativa se soma que, segundo estudos recentes, os congressistas estadunidenses recebem três vezes mais dinheiro em salários que a média dos trabalhadores que trabalham tempo integral nos Estados Unidos, mas obtêm muito baixa produtividade quanto à discussão e aprovação de leis.

Segundo a organização privada Aliança para a Proteção dos Contribuintes (APC), cada legislador ganha ao redor de 286 mil dólares ao ano entre benefícios e compensações, incluindo uns 174 mil dólares em salários, em comparação com os 55 mil que recebem os empregados com cargos de trabalho fixo no mesmo período.

"As entradas financeiras dos legisladores os colocam entre os empregados melhores pagos do país, portanto eles mesmos deveriam reduzir seu orçamento e contribuir assim com a diminuição da dívida pública nacional, que supera os 17 trilhões de dólares", disse o presidente da APC, David Williams.

"Com uma dívida nacional sem precedentes e um Congresso mais disfuncional que nunca, os contribuintes merecem muitos mais resultados pelo o que estão pagando aos seus representantes", apontou MacMillin Slobodien, diretor-executivo da organização sem fins de lucrativos Nossa Geração, que participou também da pesquisa.

Apesar de seus altos níveis de retribuição, a atual legislatura estadounidense é a mais improdutiva na história do país.

Esse ramo do governo aprovou somente 56 leis públicas neste ano, de um total de 121 desde começos de 2013, a maioria de pouca importância, como uma das mais recentes cujo fim é: ..."especificar o tamanho do metal precioso que será utilizado na produção das medalhas comemorativas do Salão Nacional da Fama".

Outro exemplo da baixa produtividade, segundo o jornal The Washington Post, é o fato de que a Câmara de Representantes não analisou o tema da reforma migratória integral nem os seguros por desemprego, mas ao mesmo tempo aprovou várias propostas que Obama se nega a assinar e que os democratas no Senado não aprovarão.

Os senadores apenas acordaram neste ano nove projetos de leis em votação direta, enquanto avaliaram meia dúzia mais de iniciativas importantes por consenso unânime, mas nenhum dos 13 projetos de atribuições de fundos.

Para a maioria dos analistas nestes temas, nos poucos dias que o Congresso trabalhará antes de cessar suas sessões uma vez mais, estarão em sintonia com a baixa produtividade e a ausência de discussões sérias que interessam aos eleitores, que tentarão de alguma forma de acertar as contas com seus representantes no próximo 4 de novembro.

*Jornalista da Redação América do Norte da Prensa Latina 

Obama poderia envolver os EUA em outra longa guerra

Escrito por Erica Soares

Washington, 12 set (Prensa Latina) O presidente Barack Obama parece empenhado a envolver os Estados Unidos em outra longa guerra, depois de sua anunciada campanha contra o Estado Islâmico (EI) no Iraque e na Síria, adverte hoje um artigo do The Nation.
A propósito da decisão do presidente de estender os bombardeios aéreos contra os fundamentalistas a território sírio -informada ao país na quarta-feira passada em uma mensagem- o semanário chama os norte-americanos a não se deixar manipular.

"Não se enganem com o duplo discurso da Casa Branca, os Estados Unidos estão embarcando em outra longa guerra no Oriente Médio, e esta pertence a Obama, e poderia ser estendida para além de sua presidência", sugere o jornalista William Greider.

O repórter cita, no The Nation, recentes declarações do secretário de Estado, John Kerry, que assinalou que "poderia nos tomar um ano, poderia nos tomar dois ou três, mas estamos determinados a fazê-la".

Greider recorda que os estadunidenses já viveram antes a situação de ver o país envolvido em extensas disputas bélicas, com horríveis perdas para a humanidade.

Washington invadiu e ocupou o Afeganistão em 2001 e parece que finalmente se retirará do país em 2016, enquanto agrediu o Iraque em 2003, de onde tirou seus soldados quase nove anos depois.

De acordo com o artigo, o papel assumido pelos Estados Unidos "de indispensável Goliath encarregado de manter com sua abrumadora supremacia militar a ordem mundial" gera rejeição no planeta.

Além disso, escreve, criou uma fracassada teoria na qual o poder aéreo estadunidense pode brigar e ganhar guerras nas quais os inimigos somente o que teriam a fazer é morrer.

"No entanto, as forças guerrilheiras e os terroristas entenderam há décadas que podem desestabilizar o Goliat com métodos como a luta irregular e as bombas caseiras", comenta Greider.

Em sua mensagem à nação de dois dias atrás, Obama manifestou sua intenção de acabar com os extremistas do EI que operam no Iraque e na Síria, postura interpretada como um passo da Casa Branca em sua intenção de agredir Damasco, em sintonia com a mudança de regime que promove contra o governo de Bashar Al Assad.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Bombardeamentos? Falar de Deus? Obama se curva aos jihadistas

O califado tem produtores teatrais bastante estritos. Escreveram um sórdido e selvagem guião. Que fazemos? Exatamente o que previ há 24 horas: converter a morte de Foley numa nova razão para continuar a bombardear o califado do EIIL. Por Robert Fisk
Barack Obama, antes de voltar ao campo de golfe, informou ao mundo que nenhum Deus justo permitiria (ao EIIL) fazer o que o grupo faz diariamente
O califado tem produtores teatrais bastante estritos. Escreveram um sórdido e selvagem guião. O nosso trabalho é responder a cada uma das suas frases. Compreendem-nos o suficiente para saber o que diremos. Assim, decapitaram James Foley e ameaçam fazer o mesmo com um dos seus colegas. Que fazemos? Exatamente o que previ há 24 horas: converter a morte de Foley numa nova razão para continuar a bombardear o califado do EIIL.
E que mais nos provocaram a fazer, ou pelo menos ao presidente norte-americano de férias? Uma guerra em estritos termos religiosos, que é exatamente o que eles queriam.
Barack Obama, antes de voltar ao campo de golfe, informou ao mundo que nenhum Deus justo permitiria (ao EIIL) fazer o que o grupo faz diariamente.
Aí têm: Obama converteu a barbárie do califado numa batalha inter-religiosa entre deuses rivais; o nosso (ocidental) e o deles (o Deus dos muçulmanos, claro). Isto é o mais que Obama se aproximou para rivalizar com a néscia reação de George W. Bush quando, ao referir-se ao 11 de setembro, afirmou que nos bateríamos numa cruzada.
Agora, claro, Obama não se referiu ao Deus muçulmano da mesma forma que Bush não tinha a intenção de mandar milhares de guerreiros cristãos a cavalo às terras bíblicas do Médio Oriente. De facto, Bush só enviou guerreiros em tanques e helicópteros.
Obama mencionou também que as vítimas do califado são “muçulmanas na sua imensa maioria”, com o que deu a entender que o califado nem sequer é muçulmano, apesar do seu entusiasmo em intervir no Iraque no princípio deste mês não ter sido para ajudar esses milhares de pobres muçulmanos, mas porque o preocupava que cristãos e yazidis fossem perseguidos. E, então, existia o perigo potencial de que houvesse vítimas norte-americanas, facto que os homens de Abú Bakr Bagdadi compreenderam muito bem. Por isso assassinaram o pobre James Foley. Não por ser jornalista, mas por ser norte-americano; um dos norte-americanos que Obama prometeu defender no Iraque.
Independentemente de Obama se esquecer que tinha reféns de nacionalidade norte-americana na Síria, a tentativa de resgate levada a cabo pelo exército dos Estados Unidos pelo menos prova que sabiam que Foley estava na Síria. Mas, porque é que o EIIL está na Síria? Pois para derrotar o governo de Assad, claro, que é o mesmo que nós tentamos fazer, certo?
Por que raio Obama achou que pode dizer aos muçulmanos o que um Deus justo pode ou não pode fazer? O presidente lamentou a guerra de Bush no Iraque, mas não se dá conta de que milhões de muçulmanos no Iraque não acham que um Deus justo aceite a invasão norte-americana ao seu país em 2003, ou que dezenas de milhares de iraquianos tenham sido assassinados pelas mentiras de Bush e de Blair
Por que raio Obama achou que pode dizer aos muçulmanos o que um Deus justo pode ou não pode fazer? O presidente lamentou a guerra de Bush no Iraque, mas não se dá conta de que milhões de muçulmanos no Iraque não acham que um Deus justo aceite a invasão norte-americana ao seu país em 2003, ou que dezenas de milhares de iraquianos tenham sido assassinados pelas mentiras de Bush e de Blair.
Fiquei chocado quando ouvi Obama dizer: Algo em que todos nós (sic) podemos estar de acordo é que um grupo como o EIIL não tem lugar no século XXI.
É o mesmo discurso pedante que o velho malandro do Bill Clinton usou para se dirigir ao Parlamento jordano após o impopular tratado do rei Hussein com Israel; quando afirmou que todos os grupos muçulmanos que se opuseram ao acordo eram formados por homens do passado.
Por alguma razão, na verdade achamos que os muçulmanos do Médio Oriente precisam que lhes contemos a sua história e lhes expliquemos o que os beneficia ou os prejudica.
Os muçulmanos que estão de acordo que o assassinato de Foley foi um repugnante crime contra a humanidade foram insultados por um cristão que lhes disse o que um Deus justo aprovaria ou desaprovaria. E os que apoiaram o assassinato estarão ainda mais convencidos de que os Estados Unidos são, muito justificadamente, inimigos de todos os muçulmanos.
Quanto ao sinistro verdugo britânico John, inclino-me a pensar que viveu entre Newcastle, Tyne ou Gateshead, pois dado que passei algum tempo em Tyne achei que escutei uma pitada do sotaque característico dessa região.
Mas John bem pode ser francês, russo ou espanhol. Não é isso que está mal na sua cabeça; trata-se de um fenómeno que afeta muitos outros jovens, e milhares farão o mesmo que ele.
Como foi que, por exemplo, um australiano permitiu que o seu filho posasse com a cabeça decapitada de um soldado sírio? (Um militar que servia no exército de Assad, cujo governo jurámos derrotar).
E como responderam os nossos serviços de segurança? Com as suas tolices habituais, dando a entender que o simples facto de ver esses horríveis vídeos de execuções poderia constituir um crime terrorista. Que tipo de idiotice é esta?
Pessoalmente, acho igualmente ofensivo filmar – para depois mostrar na televisão – o assassinato em massa de seres humanos mediante bombardeamentos. Mas apesar disso mostramo-los, não é assim? Repetidamente convidam-nos a observar nos nossos ecrãs de televisão os aviões e drones a apontar ao alvo nas supostas posições dos combatentes do EIIL e a imaginar a sua morte dentro da bola de fogo que calcina os seus veículos. Que não possamos ver os seus rostos não torna isso menos obsceno. Claro, as suas atividades são o oposto daquilo por que lutava Foley, mas na verdade todos são militantes? Ainda não ouvimos essa aberrante maldição linguística: dano colateral, mas estou certo de que em breve ouviremos.
Que farão os nossos chefes de segurança? Converter em crime terrorista ver os vídeos das ações militares norte-americanas? Duvido, a não ser que nas filmagens se mostre o sangrento assassinato de muitos civis. Então sim poderiam argumentar, com justa razão, que ao vê-los se alimenta o terrorismo. E então teríamos que deixar de cobrir as guerras.
Artigo de Robert Fisk, publicado por “The Independent”, traduzido por Gabriela Fonseca para o jornal mexicano La Jornada e por Carlos Santos para esquerda.net