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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Estado Islâmico, a nova estratégia de Washington



ISIL invasion
11 de Setembro de 2014, Damasco – Em Washington e em várias capitais europeias já se esfregam as mãos, pois as amplas zonas do Iraque e da Síria controladas pelo extremista Estado Islâmico (EI) abre as portas ao Ocidente para uma intervenção a grande escala no Oriente Médio.
A ofensiva do EI permite, também, cumprir um velho sonho: a balcanização da região, que possui as principais jazidas de hidrocarbonetos do mundo.
Com dezenas de milhares de homens, armamento sofisticado e abundante financiamento, o Daesh (acrônimo em árabe desse grupo) passou de uma minúscula formação para representar uma verdadeira ameaça para o Iraque e a Síria.
Decapitações, crucificações, violações sexuais, assassinatos em massa e outros crimes nas zonas que controla, fazem desse grupo sinônimo de terror.
O Estado Islâmico e a Frente al Nusra, braço da al-Qaeda na Síria, foram capazes de crescer graças às doações dos aliados da Casa Branca no Golfo Pérsico, disse Andrew Tabler, analista do Washington Institute for Near East Policy.
Durante os últimos três anos, Damasco denunciou o apoio vindo do exterior aos grupos armados e advertiu sobre o perigo que representavam para a região e o mundo, mas suas palavras foram ignoradas.
Com o argumento de combater o terrorismo, agora a Casa Branca iniciou bombardeios no Iraque, país que invadiu em 2003, e ameaça com ampliá-los ao país vizinho, na mira há vários anos.
No entanto, muitos poucos falam do jogo de xadrez que Washington e outros atores internacionais e regionais impulsionam como parte do grande jogo geopolítico.
As atuais fronteiras da região (com uma ou outra variação) datam do fim da I Guerra Mundial (1914-1918), quando a Grã-Bretanha e a França aplicaram o acordo secreto de Sykes-Picot para dividir a zona.
Precisamente essas demarcações impostas por potências estrangeiras foram sempre um elemento perturbador e de atritos entre os países árabes durante décadas, incitados convenientemente pelo Ocidente.
A utilização de diferenças políticas, religiosas, fronteiriças e até econômicas propiciaram os planos para balcanizar o Levante.
O objetivo é o que muitos cientistas políticos conhecem como “a teoria do caos construtivo”, que permitiria às antigas metrópoles e aos Estados Unidos remodelar e desenhar novas fronteiras e instaurar governos afins na região.
A Casa Branca desenvolveu nos anos 90 uma nova estratégia chamada Redireção, na qual os takfiries (extremistas sunitas) jogam um papel importante para transformar a região em um barril de pólvora, apontou Mahdi Darius Nazemroaya, sociólogo e pesquisador do Centre for Research on Globalization e a Strategic Culture Foundation, de Moscou.
Gostaria de ver a Síria como um país desintegrado e balcanizado com “mais ou menos regiões autônomas”, afirmou recentemente Henry Kissinger, ex-secretário do Estado norte-americano, durante uma intervenção na Escola Gerald R. Ford de Política Pública da Universidade de Michigan.
Pese às afirmações de Washington, a ofensiva do EI sobre amplos territórios no Iraque, não surpreendeu o governo de Obama, que conta com tecnologia de ponta e o mais alto orçamento do mundo para trabalhos de espionagem.
Tivemos essa informação desde o começo do ano, e a passamos para Washington, assegurou ao jornal britânico The Telegraph, Rooz Bahjat, que trabalha para Lahur Talabani, chefe da inteligência do Curdistão iraquiano.
Em um discurso ao Congresso em fevereiro passado, o tenente-general Michael Flynn, então chefe da Agência de Inteligência de Defesa, advertiu que o EI lançaria um ataque em massa em 2014 em ambos os lados da fronteira.
Segundo o Centre for Research on Globalization, membros chave dessa organização terrorista receberam treinamento da Agência Central de Inteligência norte-americana (CIA) em um acampamento secreto nas redondezas da cidade jordaniana de Safawi, em 2012.
“Os campos de treinamento secretos estadunidenses na Jordânia e em outros países treinaram vários milhares de combatentes muçulmanos nas técnicas de guerra irregular, sabotagem e no terror geral”, revelou o ideólogo militar.
Também há numerosas denúncias sobre instalações similares na Turquia e na Líbia, que depois da agressão ocidental se converteu em um viveiro de jihadistas.
O Daesh não tinha o poder para conquistar e ocupar Mosul (a segunda cidado iraquiana) por si só. O que tem ocorrido é o resultado da colaboração com a inteligência de alguns países da região com grupos extremistas dentro do governo iraquiano, disse o jornalista iraniano Sabah Zanganeh.
Uma reportagem do jornal The Wall Street Journal destacou que um comandante militar do EI, o georgiano de origem chechena Tarkhan Batirashvili, fez das guerras no Iraque e na Síria uma luta “geopolítica entre os Estados Unidos e a Rússia”.
A Síria e o Iraque sofrem hoje com as políticas das potências ocidentais que durante anos fecharam os olhos e financiaram as organizações radicais com um objetivo claro: justificar a intervenção com o argumento do combate ao terrorismo.
* Correspondente da Prensa Latina na Síria.

Partição da Rússia após uma III Guerra Mundial?



Russian Soldiers
O objetivo final dos EUA e da NATO é dividir (balcanizar) e pacificar (finlandizar) o maior país do mundo, a Federação Russa, e estender mesmo um manto de desordem perpétua (somalização) sobre o seu vasto território ou, pelo menos, sobre uma parte da Rússia e do espaço pós-soviético, à semelhança do que está a ser feito no Médio Oriente e no Norte de África.
A futura Rússia ou as muitas futuras Rússias, uma pluralidade de estados enfraquecidos e divididos, que Washington e os seus aliados da NATO prevêem, estará/estarão demograficamente em declínio, desindustrializadas, pobres, sem qualquer capacidade de defesa e sem zonas interiores que possam ser exploradas para obter recursos.
Os planos imperiais de caos para a Rússia
Washington e a NATO não se contentaram com a destruição da União Soviética. O objetivo final dos EUA é impedir que surjam quaisquer alternativas a uma integração euro-atlântica na Europa e na Eurásia. É por isso que a destruição da Rússia é um dos seus objetivos estratégicos.
Os objetivos de Washington estiveram vivos e presentes durante a luta na Chechénia. Também puderam ser vistos na crise que irrompeu em EuroMaidan na Ucrânia. De facto, o primeiro passo para o divórcio entre a Ucrânia e a Rússia foi um catalisador para a dissolução de toda a União Soviética e para quaisquer tentativas de a reorganizar.
O intelectual polaco-americano, Zbigniew Brzezinski, que foi conselheiro de segurança nacional do presidente americano Jimmy Carter e um dos arquitetos por trás da invasão soviética do Afeganistão, defendeu a destruição da Rússia através duma desintegração e devolução graduais. Estipulou que “uma Rússia mais descentralizada seria menos suscetível à mobilização imperialista” [1] Por outras palavras, se os EUA dividissem a Rússia, Moscovo não poderia desafiar Washington. Neste contexto, afirma o seguinte: “Uma Rússia confederada informalmente – formada por uma Rússia europeia, uma república siberiana e uma república do extremo oriente – teria mais facilidade de cultivar regulações económicas mais estreitas com a Europa, com os novos estados da Ásia central e com [a Ásia oriental], acelerando assim o desenvolvimento da Rússia”. [2]
Esta perspetiva não está restrita apenas a qualquer torre de marfim de académicos ou a grupos de pensamento isolados. Tem o apoio de governos e até tem aderentes cultos. Segue-se abaixo uma reflexão sobre ela.
Os media dos EUA prevêem a balcanização da Rússia
Em 8 de Setembro de 2014, Dmytro Sinchenko publicou um artigo sobre a divisão da Rússia. Este artigo intitula-se “À espera da III Guerra Mundial: Como o mundo mudará”. [3] Sinchenko esteve envolvido no EuroMaidan. A sua organização, a iniciativa ucraniana “Movimento de Estadistas”, defende um nacionalismo étnico, a expansão territorial da Ucrânia à custa da maior parte dos países fronteiriços, o reforço da Organização para a Democracia e Desenvolvimento Económico da Geórgia-Ucrânia-Azerbaijão-Moldova (GUAM), pró-EUA, a adesão à NATO e o lançamento de uma ofensiva para derrotar a Rússia, fazendo parte dos seus objetivos de política externa. [4] Em jeito de nota, a inclusão da palavra democracia no GUAM não deve iludir ninguém: o GUAM, como prova a inclusão da República do Azerbaijão, não tem nada a ver com democracia, mas apenas com contrabalançar a Rússia na Comunidade de Países Independentes (CPI).
O artigo de Sinchenko começa por falar sobre a história do “Eixo do Mal”, frase que os EUA têm usado para denegrir os seus inimigos. Fala sobre como George W. Bush Jr. cunhou a frase em 2002, agrupando o Iraque, o Irão e a Coreia do Norte, como John Bolton alargou o Eixo do Mal para incluir Cuba, a Líbia e a Síria, como Condoleezza Rice incluiu a Bielorrússia, o Zimbabué e Myanmar (Birmânia) e, por fim, propõe juntar a Rússia à lista, como o principal estado pária do mundo. Chega a argumentar que o Kremlin está envolvido em todos os conflitos nos Balcãs, no Cáucaso, no Médio Oriente, no Norte de África, na Ucrânia e no sudeste asiático. Prossegue, acusando a Rússia de planear invadir os estados bálticos, o Cáucaso, a Moldova, a Finlândia, a Polónia e, mais ridiculamente ainda, dois dos seus aliados militares e políticos mais próximos, a Bielorrússia e o Cazaquistão. Tal como insinua o título do artigo, chega a afirmar que Moscovo está propositadamente a pressionar para uma terceira guerra mundial.
Esta ficção não é uma coisa que tenha sido noticiada nas redes empresariais alinhadas com os EUA, mas é algo que tem sido publicado diretamente pelos media que são propriedade do governo dos EUA. A previsão foi publicada pelo serviço ucraniano da Radio Free Europe / Radio Liberty, que tem sido um instrumento de propaganda dos EUA na Europa e no Médio Oriente para ajudar a derrubar governos.
De modo arrepiante, o artigo tenta dourar as possibilidades duma nova guerra mundial. Ignorando de modo revoltante o uso de armas nucleares e a destruição maciça que significaria para a Ucrânia e para o mundo, o artigo pinta mistificatoriamente uma imagem simpática de um mundo que será corrigido por uma grande guerra global. A Radio Free Europe/Radio Liberty e o autor estão essencialmente a dizer ao povo ucraniano que “a guerra é boa para vocês” e que, depois duma guerra com a Rússia, surgirá um paraíso utópico qualquer.
O artigo também se encaixa perfeitamente nos contornos da previsão de Brzezinski para a Rússia, para a Ucrânia e para o subcontinente eurasiano. Prevê a divisão da Rússia, enquanto a Ucrânia passa a fazer parte duma União Europeia alargada, que inclui a Geórgia, a Arménia, a República do Azerbaijão, a Bielorrússia, Israel, o Líbano e a dependência dinamarquesa da Gronelândia no continente americano. Também controla uma confederação de estados no Cáucaso e no Mar Mediterrâneo – esta última poderá ser a União dos Mediterrânicos, que englobaria a Turquia, a Síria, o Egito, a Líbia, a Tunísia, a Argélia, Marrocos e o território ocupado por Marrocos da República Árabe Saaraui Democrática, ou Saara Ocidental. A Ucrânia é apresentada como um componente integral da União Europeia. Neste aspeto, a Ucrânia aparece situada num corredor franco-alemão-polaco-ucraniano, alinhado com os EUA, e num eixo Paris-Berlim-Varsóvia-Kiev cuja criação Brzezinski defendeu em 1997, e que Washington usaria para desafiar a Federação Russa e os seus aliados no CPI. [5]
Redesenhar a Eurásia: Mapas de Washington de uma Rússia dividida
Com a divisão da Federação Russa, o artigo da Radio Free Europe/Radio Liberty afirma que qualquer rivalidade bipolar entre Moscovo e Washington acabará depois da III Guerra Mundial. Numa profunda contradição, afirma que só quando a Rússia for destruída, haverá um mundo multipolar genuíno, mas também sugere que os EUA será a principal potência global dominante apesar de Washington e de a União Europeia saírem enfraquecidos desta grande guerra prevista com os russos.
.Acompanhando o artigo há também dois mapas que sublinham o novo traçado do espaço euroasiático e a forma do mundo após a destruição da Rússia. Além disso, nem o autor nem os seus dois mapas reconhecem a alteração de fronteiras na Península da Crimeia e representam-na como uma parte da Ucrânia e não da Federação Russa. De ocidente para oriente fazem-se as seguintes alterações à geografia da Rússia:
• O oblast russo de Kaliningrado será anexado pela Lituânia, pela Polónia ou pela Alemanha. Seja como for, passará a fazer parte duma União Europeia alargada.
• A Carélia de leste (Carélia russa) e o que é atualmente o súbdito federal da República da Carélia no interior do Distrito Federal Noroeste da Rússia, juntamente com a cidade federal de S. Petersburgo, o oblast de Novgorod, os dois terços do norte do oblast Pskov e o oblast de Murmansk são separados da Rússia para formarem um país alinhado com a Finlândia. Esta área até pode ser absorvida pela Finlândia para criar uma Grande Finlândia. Embora o oblast de Arcangel (Arkhangelsk) esteja listado no artigo como uma parte desta área repartida, não está incluída no mapa (provavelmente devido a um erro no mapa).
• Os distritos administrativos a sul, de Sebezhsky, Pustoshkinsky, Nevelsky, e Usvyatsky no oblast de Pskov do Distrito Federal Noroeste e os distritos administrativos mais ocidentais de Demidovsky, Desnogorsk, Dukhovshchinsky, Kardymovsky, Khislavichsky, Krasninsky, Monastyrshchinsky, Pochinkovsky, Roslavlsky, Rudnyansky, Shumyachsky, Smolensky, Velizhsky, Yartsevsky e Yershichsky, assim como as cidades de Smolensk e Roslavl, no oblast de Smolensk do Distrito Federal Central, são ligados à Bielorrússia. Os distritos de Dorogobuzhsky, Kholm-Zhirkovsky, Safonovsky, Ugransky, e Yelninsky do oblast de Smolensk e os distritos Yelninsky aparecem ainda mais repartidos no mapa, com a nova fronteira entre a Bielorrússia e a Rússia amputada conforme proposto.
• O Distrito Federal do Cáucaso Norte da Rússia, que engloba a República do Daguestão, a República de Inguchétia, a República Cabárdia-Balcária, a República Carachai-Circácia, a República da Ossétia-Alânia do Norte, o Krai de Stavropol, e a Chechénia, fica separado da Rússia como uma confederação caucasiana sob a influência da União Europeia.
• O Distrito Federal Sul da Rússia, que é formado pela República da Adigueia, o oblast de Astracã, o oblast de Volgogrado, a República da Calmúquia, o Krai de Krasnodar e o oblast de Rostov, é totalmente anexado pela Ucrânia; isso leva a uma fronteira partilhada entre a Ucrânia e o Cazaquistão e corta a Rússia do Mar Cáspio, rico em energia, e também a sul a uma fronteira direta com o Irão.
• A Ucrânia também anexa os oblasts de Belgorod, Bryansk, Kursk, e Voronej do distrito federal mais densamente povoado e de maior área da Rússia, o Distrito Federal Central.
• A Sibéria e o extremo oriente russo, especificamente o Distrito Federal da Sibéria e o Distrito Federal do Extremo Oriente, são separados da Rússia.
• O texto diz que todo o território da Sibéria e a maior parte do território do extremo oriente russo, que englobam a República do Altai, Altai Krai, o oblast de Amur, a República da Buriácia, Chukotka, o oblast Autónomo Judaico, o oblast de Irkutsk, Kamchatka Krai, o oblast de Kemerovo, Khabarovsk Krai, a República de Cacássia, Krasnoyarsk Krai, o oblast de Magadan, o oblast de Novosibirsk, o oblast de Omsk, Primorsky Krai, a República Iacútia, o oblast Tomsk, a República Tuva e Zabaykalsky Krai, ou passam a ser vários estados independentes dominados pelos chineses ou, juntamente com a Mongólia, passam a ser novos territórios da República Popular da China. O mapa desenha categoricamente a Sibéria, a maior parte do extremo oriente russo e a Mongólia como território chinês. A única exceção é o oblast Sacalina.
• A Rússia perde a Ilha Sacalina (chamada Saharin e Karafuto em japonês) e as Ilhas Curilas, que constituem o oblast Sacalina. Estas ilhas são anexadas pelo Japão.
Na sua página da Internet , Sinchenko publicou o seu artigo da Radio Free Europe/Radio Liberty, uns dias mais cedo, a 2 de Setembro de 2014. Os mesmos mapas, que são atribuídos à Radio Free Europe/Radio Liberty, também estão ali presentes. [6] Mas há uma imagem adicional na página da Internet de Sinchenko que vale a pena assinalar. É uma imagem da Rússia a ser alegremente esquartejada para consumo, como uma grande refeição de todos os países fronteiriços. [7]
O banquete às custas da Rússia, segundo Dimitri Sinchenko.
Mapeando uma Nova Ordem Mundial: O mundo depois da III Guerra Mundial?
O segundo mapa é o mundo após a III Guerra Mundial, que fica dividido em vários estados supranacionais. O Japão é a única exceção. O segundo mapa e os seus estados supranacionais podem descrever-se assim:
• Como referido anteriormente, a União Europeia está alargada e controla as suas periferias no Cáucaso, no sudeste asiático e no Norte de África. É a concretização do Diálogo Mediterrâneo e da Parceria para a Paz, da NATO, a nível político e militar e da Associação Oriental e da Parceria Euro-Mediterrânica, da União Europeia (a União do Mediterrâneo) a nível político e económico.
• Os Estados Unidos formam uma entidade supranacional com base na América do Norte, que inclui o Canadá, o México, a Guatemala, o Belize, El Salvador, as Honduras, a Nicarágua, a Costa Rica, o Panamá, a Colômbia, a Venezuela, o Equador, as Guianas (Guiana, Suriname, e Guiana Francesa) e todas as Caraíbas.
• Todos os países que não sejam engolidos pelos EUA na América do Sul formarão a sua entidade supranacional numa América do Sul mais pequena, que será dominada pelo Brasil.
• Formar-se-á uma espécie de bloco ou entidade supranacional no sudoeste asiático, com o Afeganistão, o Paquistão, o Irão, o Iraque, a Jordânia, a Arábia Saudita, o Kuwait, o Bahrain, o Qatar, os Emiratos Árabes Unidos, Omã e o Iémen.
• Formar-se-á uma espécie de entidade supranacional no subcontinente indiano ou sul da Ásia com a Índia, o Sri Lanka (Ceilão), o Nepal, o Butão, o Bangladesh, Myanmar (Birmânia) e a Tailândia.
• Haverá uma entidade supranacional na Australásia e na Oceânia que incluirá as Filipinas, a Malásia, Singapura, o Brunei, a Indonésia, Timor Leste, a Papua Nova-Guiné, a Nova Zelândia e as ilhas do Pacífico. Esta entidade incluirá a Austrália e será dominada por Canberra.
Com exceção do Norte de África, que será controlado pela União Europeia, o resto da África será unificada sob a chefia da África do Sul.
• Uma entidade supranacional do leste da Ásia incluirá a maior parte da Federação Russa, a Indochina, a China, a Península Coreana, a Mongólia e a Ásia Central pós-soviética. Esta entidade será dominada pelos chineses e dominada a partir de Beijing.
Embora o artigo da Radio Free Europe e os dois mapas pós III Guerra Mundial possam ser considerados como noções fantasiosas, temos que fazer algumas perguntas importantes. Primeiro, onde é que o autor foi buscar estas ideias? Foram transmitidas através de quaisquer “workshops” apoiados pelos EUA e pela União Europeia indiretamente? Segundo, o que sustenta a visão do autor duma paisagem política pós III Guerra Mundial?
O autor, essencialmente, segue o traçado de Brzezinski duma Rússia dividida. O texto e os mapas até incluíram as áreas do norte de África, do Médio Oriente e do Cáucaso, que a União Europeia considera como uma segunda periferia ou camada de si mesma. Estas áreas até estão pintadas com um azul mais claro do que o azul mais escuro que identifica a União Europeia.
Mesmo que não se dê importância à Radio Free Europe, ninguém deve esquecer o facto de que o Japão continua a reclamar o oblast de Sacalina e os EUA, a União Europeia, a Turquia e a Arábia Saudita têm apoiado movimentos separatistas tanto no Distrito Federal Sul como no Distrito Caucasiano Norte da Federação Russa.
Ucranianismo
O artigo da Rádio Free/Radio Liberty exibe indícios de ucranianismo, que vale a pena mencionar brevemente.
As nações são construídas porque todas elas são comunidades dinâmicas que, duma forma ou de outra, são construídas e mantidas juntas pelo coletivo dos indivíduos que formam as sociedades. Neste aspeto podem ser chamadas de comunidades imaginadas.
Há maquinações em marcha para desconstruir e reconstruir nações e grupos no espaço pós-soviético e no Médio Oriente. Isto pode chamar-se a manipulação do tribalismo em calão sociológico e antropológico ou, no calão político, a representação do Grande Jogo. Neste contexto, o ucranianismo tem sido especialmente apoiante de elementos anti-governo e dos sentimentos nacionalistas anti-russos na Ucrânia há mais de cem anos, primeiro pelos austríacos e os alemães, depois através dos polacos e dos britânicos, e agora pelos EUA e a NATO.
O ucranianismo é uma ideologia que procura coisificar e impor uma nova imagem coletiva ou uma memória histórica falsa entre o povo ucraniano sobre ele terem sido sempre uma nação e um povo separados é uma projeção política que procura negar a unidade histórica dos eslavos orientais e as raízes geográficas e o contexto histórico por trás da distinção entre ucranianos e russos. Por outras palavras, o ucranianismo procura descontextualizar e esquecer o processo que levou à distinção entre ucranianos e russos.
***
A Rússia sempre ressurgiu das cinzas. A história pode testemunhá-lo. Venha o que vier, a Rússia ficará de pé. Sempre que todos os diversos povos da Rússia se uniram sob uma bandeira pela sua pátria, estilhaçaram impérios. Sobreviveram a guerras e invasões catastróficas e venceram os seus inimigos. Os mapas e as fronteiras podem mudar, mas a Rússia permanecerá.
Tradução de Margarida Ferreira.
O original encontra-se em Stragic Culture Foundation

Notas
[1] Zbigniew Brzezinski, The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geo-strategic Imperatives (NYC: Basic Books, 1997), p.202.
[2] Ibid.
[3] “Waiting for World War III: How the World Will Change” Radio Free Europe/Radio Liberty], September 8, 2014.
[4] Ukrainian Initiative “Statesmen Movement” Foreign Policy Strategy Statesman Movement: Chasing Dreams/Visions. Accessed September 9, 2014.
[5] Brzezinski, The Grand Chessboard, op. cit., pp.85-86
[6] Dmytro Sinchenko, “Waiting for World War III: How the World Will Change”, Dmytro Sinchenko {blog}], September 2, 2014, Accessed September 3, 2014: .
[7] Ibid.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Por que Marina não pode dizer a verdade?



Evitar dizer a verdade, contorná-la, ou simplesmente silenciar sobre ela, é um princípio básico de sobrevivência da candidatura que não é mais o que era.
Juarez Guimarães
Carta Maior
O primeiro alerta partiu do deputado federal Jean Wyllys, do PSOL, em carta aberta dirigida à Marina Silva no dia 30 de agosto: “Bastaram quatro tuites do pastor Malafaia para que, em apenas 24 horas, a candidata se esquecesse dos compromissos de ontem anunciados em um ato público transmitido por televisão e desmentisse seu próprio programa de governo, impresso em cores e divulgado pelas redes. É com essa autoridade de quem agiu de boa fé, que agora digo: Marina, você não merece a confiança do povo brasileiro. Você mentiu a todos nós e brincou com a esperança de milhões de pessoas”. A explicação dada pela campanha de Marina foi totalmente inconvincente: teria sido um erro de edição, de quem formatou o programa!
Agora, vem o juízo do respeitado colunista Jânio de Freitas, documentando inverdades ditas várias vezes por Marina sobre três questões importantes: o pré-sal, os transgênicos e a relação entre suas opiniões políticas e religiosas. “Há uma lenda de que sou contra os transgênicos. Mas isto não é verdade”, disse Marina em entrevista a William Bonner e Patrícia Poeta. Jânio de Freitas registra que apenas uma pesquisa entre os anos 1998 e 2002 revelou que Marina não só fez seis discursos contra os transgênicos como apresentou um projeto de lei proibindo-os inicialmente por cinco anos. Argumentava com base “em cinco referências bíblicas”, “tendo em vista o lado espiritual”.
Da mesma forma, Jânio documentou várias declarações públicas recentíssimas da candidata contra o pré-sal. E, ao final de seu breve juízo, afirmava que Marina parece confirmar a fórmula de que se “deveria esquecer tudo o que antes havia dito”.
Agora, no dia 11 de setembro, vem a repórter Letícia Fernandes, de O Globo, documentar que Marina mentiu na sabatina feita pelo jornal. Marina afirmou que havia dado, quando era senadora, um parecer contrário ao projeto do deputado Filipe Pereira (PSC-RJ) que exigia “a obrigatoriedade da manutenção de exemplares da Bíblia Sagrada nos acervos das bibliotecas públicas “. “Me deram um relatório de um projeto que obrigava a colocar bíblias em todas as bibliotecas. Eu dei parecer contrário”, afirmou a O Globo. A pesquisa da repórter comprovou que Marina não deu o parecer contrário.
Não é razoável também pedir a alguém que acredite, como Marina repetiu várias vezes, que a sua relação com uma das principais herdeiras do Banco Itau, que coordenou o seu programa de governo e que a teria convencido da necessidade de defender a autonomia do Banco Central, seja por afinidades eletivas apenas como educadoras. Essa relação desinteressada tornou-se completamente inverossímil depois que se revelou que a amiga bancou 83 % das verbas, um milhão de reais, em 2013 do Instituto que Marina dirige e que lhe garante a sobrevivência.
Aliás, Marina não parece ter dito a verdade quando respondeu aos repórteres que não podia revelar os clientes nem quanto lhe pagaram por proferir palestras nos últimos anos porque estes clientes lhe exigiam cláusulas de confidencialidade. Uma pesquisa feita pelo jornal O Estado de São Paulo revelou quem eram estes clientes: grandes bancos, empresas e seguradoras como o Santander, o Banco Crédit Suisse, a multinacional Unilever, a Federação Nacional das Empresas de Seguros Privados e Capitalização, faculdades neoliberais. E, ao contrário do que Marina afirmou, confidenciou ao repórter um banqueiro: quem pedia cláusula de confidencialidade era a própria Marina !
O antigo tesoureiro da campanha do PSB, Márcio França, candidato a vice-governador na chapa de Alckmin, não parece ser também um representante da “nova política”. Ele certamente não disse a verdade quando declarou à imprensa que os documentos do avião em que viajava Eduardo Campos e seus companheiros não podiam ser apresentados porque estavam dentro dele e teriam sido provavelmente destruídos na queda. Como se documentou fartamente depois, na verdade, o avião havia sido comprado com notas frias e laranjas por empresas fraudulentas.
E muito menos o novo tesoureiro da campanha de Marina, agora diretamente indicado por ela, Álvaro de Souza, parece indicar novos rumos na política. Ele é ex-presidente do...City Bank no Brasil! Haja “nova política”!
Marina parece querer ocultar a verdade de seus eleitores quando declarou que não subirá aos palanques nem de Alckmin em São Paulo nem de Lindhenberg no Rio. É uma forma de não querer misturar sua imagem à “velha política” e mostrar eqüidistância em relação ao PT e ao PSDB. Mas ela combinou, então, com o deputado Beto Albuquerque, seu vice, para ir ao primeiro programa de TV Alckmin no horário eleitoral gratuito manifestar o seu apoio ao governador do PSDB? Ou ele agiu contra a sua opinião no principal colégio eleitoral do país? Aliás, Marina sabe, já que foi inclusive noticiado na imprensa, que este deputado federal pelo PSB do Rio Grande do Sul teve a sua candidatura financiada pela empresa Monsanto, principal interessada na aprovação dos transgênicos, e até por fabricantes de armas! É ele, então, um representante da “nova política”?
Marina não diz a verdade nem quando acusa o PT, partido no qual se formou e militou durante 27 anos: Paulo Roberto teria sido indicado pelo PT “para assaltar os cofres da Petrobrás’. Ora, este indivíduo ocupou cargo de direção na Petrobrás desde 1995, durante o primeiro governo FHC, e foi demitido no dia 19 de abril de 2012 por Graça Foster, indicado por Dilma para a presidência da Petrobrás.
O que não pode mais ser escondido
Ricardo Noblat, certamente um dos jornalistas com informações mais confiáveis sobre o que se passa na cúpula do PSDB, noticiou que a firme opinião de Fernando Henrique Cardoso era de que Aécio não deveria criticar Marina, deveria, ao contrário, renunciar à sua candidatura à presidência e apoiar já Marina no primeiro turno. Aécio resistiria a esta decisão por ter esperanças de ainda poder salvar de uma derrota arrasadora o candidato do PSDB ao governo Ora, como se documentou fartamente em artigo publicado em Carta Maior, “A “nova’ Marina é criatura de FHC”, o paradigma de programa, os economistas mandatados, a nova direção política de sua campanha, os financiadores e tesoureiros, seus argumentos e sua linguagem estão diretamente inseridas no campo político e intelectual organizado por FHC. Mas Marina não pode reconhecer esta ligação tão orgânica porque viria abaixo a sua identidade de ser a protagonista de uma “nova política” que visa superar a polarização PSDB e PT. Daí que esta relação íntima tenha de ser permanentemente escondida ou negada aos eleitores.
Mas uma contradição ainda mais explosiva tem de ser o tempo todo administrada por Marina. De um lado, ela afirma compromissos em aumentar os recursos do governo federal para a educação, para a saúde, para o Minha Casa Minha Vida, para o Bolsa Família, o valor do salário-mínimo , o emprego etc. Do outro, cada vez que falam os economistas mandatados por ela, Eduardo Gianetti e André Lara Resende, dois economistas neoliberais cujo radicalismo cheira à barbárie, é o inverso o que dizem. É como se Marina dissesse ao mesmo tempo: “odeio futebol mas não perco um jogo do Flamengo!”. Ou melhor: meu compromisso é com os pobres .. mas só gostar de andar atualmente com grandes banqueiros!.
Marina leu o que disse Eduardo Gianetti na entrevista publicada na capa do jornal Valor Econômico, de 6 de setembro, quando este afirmou com todas as letras “que os compromissos na área social assumidas pela candidata do PSB serão cumpridos à medida que as condições fiscais permitirem ? ” E que “ esses compromissos se distribuem no tempo. É um erro grave imaginar que o que está colocado no programa vá se materializar no primeiro orçamento”?
Marina ouviu a palestra pública proferida por André Lara Resende que uma “boa economia não pode ser feita com bons sentimentos” e que, ao invés de se ajudar os pobres do Nordeste, é preferível investir na educação? Será que ela leu que em seu programa está escrito que a legislação trabalhista que protege os direitos dos trabalhadores brasileiros deve ser superada ou contornada, como estão denunciando os principais representantes da tradição jurídica do Direito do Trabalho no Brasil?
De novo: Marina não pode fugir da contradição porque ela é, a sua própria candidatura, a contradição. Tem que documentar que ela é confiável e, como se diz em linguagem neoliberal, “amiga do mercado financeiro”, mas, ao mesmo tempo, tem de cultivar a adesão dos que querem direitos sociais mais universalistas e de melhor qualidade. Isto é, está impedida de dizer a verdade.
Violência e ilusão
A violência, todo o sentido anti-democrático e anti-popular, da principal proposta de Marina Silva para a economia – a chamada “autonomia” do Banco Central – é revelada quando se documenta que o Brasil já teve um Banco Central autônomo. Este era um sonho antigo dos econômistas liberais ortodoxos brasileiros como Eugênio Gudim, Octávio Gouveia de Bulhões e Roberto Campos desde os anos quarenta do século passado, que travaram desde sempre uma luta de vida ou morte contra Celso Furtado e as tradições desenvolvimentistas brasileiras.
Eles conseguiram realizar este sonho exatamente com o golpe militar de 1964: a reforma bancária logo anunciada pelos golpistas transformava a antiga Superintendência da Moeda e do Crédito ( Sumoc) em Banco Central e concedia autonomia para as autoridades monetárias. A diretoria do Banco central era composta por quatro membros, escolhidos dentre seis membros do Conselho Monetário Nacional, com mandatos fixos de seis anos.
Denio Nogueira, o primeiro presidente do Banco Central, era consultor do Sindicato dos Bancos do Rio de Janeiro e da ALALC ( Associação Latino Americana para Livre Comércio) e desde os primeiros anos da década de sessenta passou a fazer parte do IBAD ( Instituto Brasileiro de Ação Democrática) e do IPES ( Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais). Enquanto o IPES era o órgão que disseminava propaganda para justificar o golpe militar, o IBAD era encarregado de manipular os recursos para financiar e corromper candidatos comprometidos com o golpe na democracia. Depois de cumprido o seu mandato interrompido pelos generais - promoveu uma forte desvalorização cambial, que lhe provocou forte desgaste, tendo sido chamado junto com Roberto Campos e Octávio Gouveia de Bulhões de “trindade maldita” – Denio Nogueira foi representante no Brasil do grupo Rotschild and Sons, indicado por Eugênio Gudin, mostrando que desde o início houve forte intimidade entre diretores do BC e os grandes grupos financeiros internacionais.
É claro, a candidata Marina nada sabe disso. Faz parte do ator político transformista devorar o passado, inclusive o próprio, e inscrever-se em um tempo messiânico que promete o novo. Isto é para ele uma necessidade já que não pode explicar a razão de sua mudança, as rupturas que teve que fazer e os novos compromissos que teve de assumir.
Toda a violência da ação transformista de Marina está inscrita nesta passagem da política de opiniões fundamentalistas sobre temas da moral – por definição, o fundamentalista é aquele que defende verdades para além dos séculos e das circunstâncias - para a política pragmática, que, por definição, é aquela que ajusta a sua política à necessidade de vencer a todo custo.
Uma política carismática deve oferecer ao seu público as provas de sua autenticidade. Se a autenticidade lhe é desmentida, o carisma vem abaixo. Mas a verdade – uma relação clara e nítida com os seus eleitores – é, como procuramos demonstrar, o que Marina não pode mais representar.
Na política, assim como na vida, há momentos em que é preciso defender as pessoas que já amamos e cujo passado admiramos do que elas vieram a ser e fazer contra a dignidade da sua própria memória. Se Marina hoje não nos pode dizer a verdade, é preciso – é absolutamente necessário – que sejamos capazes, democraticamente e de modo sereno, dizer a verdade à Marina.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Fidel Castro: Triunfarão as ideias justas ou triunfará o desastre




A sociedade mundial não conhece a trégua nos últimos anos, particularmente a partir do momento em que a Comunidade Econômica Europeia, sob a direção ferrenha e incondicional dos Estados Unidos, considerou que tinha chegado a hora de acertar as contas com o que restava de duas grandes nações que, inspiradas nas ideias de Karl Marx, tinham feito a façanha de pôr fim à ordem colonial e imperialista, imposta ao mundo pela Europa e os Estados Unidos.
Na antiga Rússia eclodiu uma revolução que abalou o mundo.
Esperava-se que a primeira grande revolução socialista tivesse lugar nos países mais industrializados da Europa, tais como a Inglaterra, França, Alemanha ou no Império Astro-húngaro. Contudo, esta revolução teve lugar na Rússia, cujo território se estendia até a Ásia, desde o norte da Europa até o sul do Alasca, que tinha sido também território czarista, vendido por uns dólares ao país que seria, posteriormente, o mais interessado em atacar e destruir a revolução e o país que a gerou.
A maior proeza do novo Estado foi a de criar uma União capaz de agrupar seus recursos e partilhar sua tecnologia com grande número de nações fracas e menos desenvolvidas, vítimas inevitáveis da exploração colonial. Seria ou não conveniente no mundo atual uma verdadeira sociedade de nações que respeitasse os direitos, credos, cultura, tecnologias e recursos de lugares acessíveis do planeta que tantas pessoas gostam de visitar e conhecer? E não seria muito mais justo que todas as pessoas que hoje em dia, em frações de segundo se comunicam de um extremo a outro do planeta, vejam nos demais um amigo ou um irmão e não um inimigo disposto a exterminá-lo com os meios que tem sido capaz de criar o conhecimento humano?
Ao acreditar que os seres humanos poderiam ser capazes de albergar tais objetivos, penso que não há direito algum de destruir cidades, assassinar crianças, pulverizar moradias, a espalhar o terror, a fome e a morte por todos lados. Em que recanto do mundo se poderiam justificar tais fatos? Se alguém lembra que no fim da chacina da última contenda mundial o mundo ficou iludido com a criação das Nações Unidas, é porque boa parte da humanidade imaginou as Nações Unidas com tais perspectivas, embora seus objetivos não estivessem cabalmente definidos. Um colossal engano é o que se percebe hoje quando surgem problemas que insinuam o possível deflagrar de uma guerra com o emprego de armas que poderiam pôr fim à existência humana.
Existem sujeitos inescrupulosos, segundo parece não poucos, que consideram um mérito sua disposição a morrer mas, sobretudo, a matar para defender privilégios vergonhosos.
Muitas pessoas ficam espantadas ao escutar as declarações de alguns porta-vozes europeus da OTAN ao se expressarem com o estilo e o rosto das SS nazistas. Por ocasiões até envergam fatos escuros em pleno verão.
Nós temos um adversário o bastante poderoso, que é nosso vizinho mais próximo: os Estados Unidos. Advertimo-lhes que resistiríamos o bloqueio, embora isso pudesse implicar um custo muito elevado para nosso país. Não há pior preço que capitular diante de um inimigo que, sem razão nem direito, te agride. Era o sentimento de um povo pequeno e isolado. O resto dos governos deste hemisfério, com raras exceções, estava do lado do poderoso e influente império. Do nosso lado, não se tratava de uma atitude pessoal, era o sentimento de uma pequena nação que desde começos do século era uma propriedade não só política, mas também econômica dos Estados Unidos. A Espanha nos cedeu a esse país, após termos sofrido quase cinco séculos de colonialismo e de um incalculável número de mortos e perdas materiais na luta para atingir a independência.
O império reservou-se o direito de intervir militarmente em Cuba, em virtude de uma pérfida emenda constitucional, que impôs a um Congresso impotente e incapaz de resistir. À parte de ser o dono de quase tudo em Cuba: abundantes terras, as maiores usinas açucareiras, as jazidas, os bancos e até a prerrogativa de imprimir nosso dinheiro, nos proibia produzir grãos alimentícios suficientes para alimentar a alimentação.
Quando a URSS se esfacelou e sumiu, ainda o Bloco Socialista, continuamos resistindo, e juntos, o Estado e o povo revolucionários, prosseguimos nossa marcha independente.
Contudo, não desejo dramatizar esta modesta história. Mais bem prefiro recalcar que a política do império é tão dramaticamente ridícula que não demorará muito tempo em ir parar à lixeira da história. O império de Adolf Hitler, inspirado na cobiça, passou à história sem mais glória que o alento dado aos governos burgueses e agressivos da OTAN, que os converte no alvo da chacota da Europa toda e do mundo, com seu euro que, tal como o dólar, não demorará a se converter em papel molhado, chamado a depender do yuan e também dos rublos, diante da vigorosa economia chinesa estreitamente unida ao potencial econômico e técnico da Rússia.
Algo que se converteu em um símbolo da política imperial é o cinismo.
Como é bem conhecido, John McCain foi o candidato republicano às eleições de 2008. Este personagem veio a público quando em funções de piloto foi derribado enquanto seu avião bombardeava a populosa cidade de Hanói. Um míssil vietnamita o alvejou em meio da tarfa e o avião e o piloto caíram em um lago situado nas proximidades da capital.
Um antigo soldado vietnamita, já aposentado, que ganhava o pão trabalhando perto dali, ao ver cair o avião e um piloto ferido que tentava salvar-se, veio socorrê-lo. Enquanto o velho soldado lhe prestava essa ajuda, um grupo de populares de Hanói, que sofria os ataques da aviação, se aproximava para acertar as contas àquele assassino. O próprio soldado convenceu os moradores para não o assassinarem, pois já era prisioneiro e sua vida devia ser respeitada. As próprias autoridades ianques se comunicaram com o governo vietnamita, rogando para não agirem contra esse piloto.
Além das normas do governo vietnamita relativamente ao respeito aos prisioneiros, o piloto era filho de um Almirante da Armada dos Estados Unidos, que tinha desempenhado um papel destacado na Segunda Guerra Mundial e ainda estava ocupando um cargo importante.
Naquele bombardeio, os vietnamitas tinham capturado um personagem importante e, logicamente, pensando nas conversações inevitáveis de paz que deviam pôr fim à guerra injusta que lhes haviam imposto, travaram amizade com McCain quem, naturalmente, estava muito feliz de pode tirar todo o proveito possível àquela aventura. Por sinal, isto não me foi contado por nenhum vietnamita, nem eu nunca perguntei nada a esse respeito. Eu li acerca disto e se ajusta totalmente a certos pormenores que conhecei mais tarde. Ainda, um dia li que o senhor McCain tinha escrito que, quando era prisioneiro no Vietnã, enquanto era torturado, escutava vozes em espanhol, assessorando os torturadores acerca do que deviam fazer e como fazê-lo. Eram vozes de cubanos, segundo McCain. Cuba nunca teve assessores no Vietnã. Os militares vietnamitas conhecem amplamente como travar uma guerra.
O general Giap foi um dos chefes mais brilhantes de nossa época, sendo capaz em Dien Bien Phu de deslocar os canhões por florestas emaranhadas e íngremes, uma coisa que os militares ianques e europeus consideravam impossível. Com esses canhões começaram a disparar de um ponto tão próximo que era impossível neutralizá-los sem que as bombas nucleares também afetassem os invasores. Os restantes passos pertinentes, todos difíceis e complexos, foram dados para impor às cercadas forças europeias uma rendição vergonhosa.
O raposo McCain tirou todo o proveito possível das derrotas militares dos invasores ianques e europeus. Nixon não conseguiu persuadir seu conselheiro de Segurança Nacional, Henry Kissinger, de que aceitasse a ideia sugerida pelo próprio presidente, quando em momento em que estava descontraído lhe dizia: por que não jogamos sobre eles uma dessas bombinhas, ó Henry? A verdadeira bombinha explodiu quando os homens do presidente tentaram espionar seus adversários do partido oposto. Isso não podia ser tolerado mesmo!
Apesar disso, o mais cínico do senhor McCain tem sido sua atuação no Próximo Oriente. O senador 
McCain é o aliado mais incondicional de Israel nas trapalhadas do Mossad, algo que nem os piores adversários teriam sido capazes de imaginar. McCain participou em parceria com esse serviço secreto israelense na criação do Estado Islâmico, que tomou posse de uma parte considerável e vital do Iraque, assim como segundo se afirma, de uma terça parte do território da Síria. Esse Estado já conta com receitas multimilionárias, e ameaça a Arábia Saudita e outros Estados dessa complexa região, que fornece a parte mais importante do combustível mundial.
Não seria preferível lutar por produzir mais alimentos e produtos industriais, construir hospitais e escolas para os bilhões de seres humanos que precisam desesperadamente deles, promover a arte e a cultura, lutar contra doenças em massa que matam mais de metade dos doentes, os trabalhadores da saúde ou tecnólogos que segundo se vislumbra, poderiam finalmente eliminar doenças como o câncer, o ébola, a malária, a dengue, a diabetes e outras que afetam as funções vitais dos seres humanos? 
Se hoje resulta possível prolongar a vida, a saúde e o tempo útil das pessoas, se é perfeitamente possível planejar o desenvolvimento da população em virtude da produtividade crescente, a cultura e o desenvolvimento dos valores humanos. O que é que esperam para fazê-lo?
Triunfarão as ideias justas ou triunfará o desastre.
31 de agosto de 2014
Fidel Castro.