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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Hezbollah: Por que não participaremos da 'coalizão' contra o Estado Islâmico

 Fonte de informações: 
Hezbollah: Por que não participaremos da 'coalizão' contra o Estado Islâmico. 20996.jpeg

O segundo ponto tem a ver com os desenvolvimentos na região e a posição do Hezbollah quanto ao que se tem denominado "coalizão internacional contra o Estado Islâmico". Queremos evidentemente precisar nossa posição sobre a tal 'coalização', nossa posição como movimento, nossa posição como Resistência, nossa posição manifesta por nossos ministros dentro do governo libanês. Assim, queremos igualmente responder às distorções e mentiras de que fomos alvo, relacionadas a esse assunto. Depois, se ainda houver gente incapaz de saber e compreender, é problema deles, não nosso. Seja como for, expomos e explicamos nossa posição, porque se trata de um momento histórico crucial.

23/9/2014, Sayed Hassan Nasrallah (excerto, transcrição traduzida)
(vídeo em https://www.youtube.com/watch?v=7di5nDl8Mc0, legendas em inglês)

Em primeiro lugar, todo mundo sabe que o Hezbollah opôs-se ao Estado Islâmico. Já falei disso há dois meses, longamente e detalhadamente. Nos opomos àqueles grupos takfiris assassinos. Ainda mais, nós combatemos contra eles e perdemos muitos combatentes nessa luta.

Essa é a razão pela qual a primeira coisa a ser descartada é essa ideia de alguns, que pretendem que nossa posição vis-à-vis da coalizão internacional teria o objetivo de defender ou de proteger o Estado Islâmico; ou outras ideias similares. Absolutamente não. Trata-se de caricatura, zombaria: é erro que só se explica pela ignorância, por análises simplificadoras, ou mesmo pela vontade de enganar.

No que nos concerne, já expliquei longamente que consideramos o Estado Islâmico, esses grupos que matam e massacram apenas por causa de uma diferença de pensamento, um desacordo político ou uma discordância de organização - e já explicamos isso antes, longamente, em várias ocasiões -, nós entendemos que esses grupos são uma ameaça contra todos os povos, todos os governos e todas as religiões e confissões, não só contra as minorias: são ameaça contra todos os habitantes e povos dessa região.

Por isso nossa posição vis-à-vis desses grupos é posição firme, clara e definitiva. Nossa posição é clara quanto à necessidade de dar-lhes combate e de rejeitá-los; e de preservar os povos da região e toda a região contra o perigo que eles representam.

Outra questão, absoluta e completamente diferente é a intervenção militar norte-americana, ou a constituição de uma coalizão internacional dirigida pelos EUA. Essa é, completamente, outra questão. É assunto que tem de ser discutido sob vários ângulos.

Para começar, do ponto de vista de uma posição de princípio: não faz diferença alguma que os norte-americanos venham atacar o Estado Islâmico, ou que venham atacar os Talibã, ou que venham atacar o antigo regime iraquiano, ou que venham atacar seja quem for.

Nós - o Hezbollah - temos uma posição de princípio. É diferente da posição de outros que apoiam a intervenção norte-americana e solicitam intervenções, por exemplo, para derrubar tal ou qual governo, mas se opõem, se a intervenção norte-americana visa a atacar, por exemplo o Estado Islâmico; ou só se opõem à intervenção, no caso de a intervenção fazer mira contra o grupo deles. Não. Nossa posição é diferente. Nos somos contra a intervenção militar norte-americana e somos contra a coalizão internacional na Síria, e nada muda se o alvo é o regime (como acontecia há pouco mais de um ano), o Estado Islâmico ou outra coisa qualquer.

Há aí um princípio de base, fundamental, contra toda e qualquer intervenção militar norte-americana, venha ocultada sob uma coalizão internacional, intervenção da OTAN ou de forças multinacionais. Temos um princípio fundamental que repousa sobre bases e pilares que não mudam de um caso para outro. E por causa de nossa conexão a esse princípio fundamental, fomos atacados em diversos incidentes e em várias ocasiões no passado.

E é sobretudo por causa desse princípio que não somos favoráveis àquela coalizão. Isso foi o que declaramos ao Conselho de ministros mediante nossos ministros e outros aliados. Quando se tratar de votar no Conselho de Ministros, nós diremos, como partido, que nos opomos a que o Líbano participe daquela coalizão.

Quanto a o Líbano participar de conferências ou encontros é outro assunto, que concerne ao presidente da República, ao primeiro-ministro, ao ministro de Relações Exteriores. Mas os engajamentos do país são discutidos no Conselho de Ministros.

Afirmamos, em primeiro lugar, que temos uma posição de princípio contra toda e qualquer intervenção norte-americana. Sim, mas por que temos essa posição de princípio? Consideremos, para entender, o desenvolvimento dos eventos.

Primeiro, porque entendemos que os EUA são a mãe de todo o terrorismo. E se alguém quiser discutir esse ponto, podemos começar. Os EUA estão na origem do terrorismo em todo o mundo. Em todo ato terrorista que aconteça no mundo, procure, por trás dele, a mão do governo dos EUA. E falo sempre do governo, não do povo dos Estados Unidos.

Segundo, porque os EUA são apoiadores absolutos, o sustentáculo absoluto, do estado terrorista sionista. A causa do terrorismo em nossa região é a existência do Estado de Israel, que se beneficia do apoio total que recebe dos EUA: no plano militar, de segurança, político, econômico, financeiro, legal - até a mais mínima condenação de Israel é proibida no Conselho de Segurança, pelo veto dos EUA.

Terceiro, porque os EUA criaram, ou contribuíram para a criação de todos esses movimentos e grupos terroristas takfiris.

Quarto, porque os EUA não têm autoridade moral necessária para serem dignos de comandar uma coalizão contra o terrorismo. Na realidade, não têm hoje nem jamais tiveram nem qualquer mínima autoridade moral. Os que lançaram bombas atômicas contra o povo japonês, cometeram as piores atrocidades contra o Vietnã, que têm toda essa história... Os que, ainda bem recentemente, apoiaram Netanyahu na guerra de 50 dias contra a Faixa de Gaza e contra o povo de Gaza, bombardeando, destruindo, matando milhares de pessoa, ferindo milhares de pessoas, expulsando dezenas de milhares de pessoas dos próprios lares, esses, esse governo dos EUA é moralmente indigno de apresentar-se como se combatesse o terrorismo ou como se pudesse estar à frente de uma coalizão internacional contra o terrorismo.

Aquela coalizão nada tem a ver com lutar contra o terrorismo, absolutamente nada a ver.

O verdadeiro objetivo é o nosso 5º item, e como o presidente Obama sempre repete: essa coalizão existe para defender interesses dos EUA. Assim sendo, o que temos a ver, nós, com os interesses dos EUA? Principalmente, porque a maior parte desses interesses dos EUA, se não todos eles, crescem à custa dos nossos interesses aqui na região, dos interesses dos povos da região e dos governos da região.

Por que nós, o Líbano, ou qualquer outro estado, deveríamos participar de uma coalizão comandada pelos EUA, numa guerra para defender interesses dos EUA na região? O próprio Obama o diz, e não estou jogando sobre ele coisas que ele mesmo não tenha dito. Obama jamais disse que eles estavam chegando aqui para defender minorias, cristãos, muçulmanos, etc., jamais!

Todos os massacres que acontecem sob os olhos do mundo inteiro, e já há muitos anos, não só nos últimos meses... e os EUA nunca reagiram. Sim, é verdade que, agora, a situação tornou-se tão grave que já começa a prejudicar interesses dos EUA. Então resolveram agir, acobertados por essa coalizão que inventaram. Não temos interesse algum em combater numa coalizão internacional dessa natureza, ou em apoiar uma coalizão que só serve aos interesses dos EUA à custa dos interesses dos povos locais.

Em sexto lugar, os libaneses têm o direito, como iraquianos, sírios e todos os povos da região, de duvidar das intenções dos EUA escondidas sob essa súbita tomada de consciência, esse desejo de reunir o mundo inteiro e criar uma coalizão internacional (o que fizeram), de duvidar da disposição deles para fazer essa guerra que estão começando. Será que os EUA estão realmente despertando? Será que seus sentimentos humanitários foram realmente tocados? Será que estão realmente chocados ante as matanças, os massacres, as multidões de refugiados sem casa, mesquitas destruídas, igrejas, mausoléus, crucificações, etc.? Será que realmente estariam tomando consciência dessas realidades, e a consciência os empurrou a criar essa coalizão, por sentimentos humanitários?

Ou será que a verdade é o exato contrário disso, e os EUA vêm aí a ocasião, o meio, o pretexto para voltar a ocupara a região, ou impor a criação de bases militares que o Iraque recusou-se a receber no passado, e que agora poderiam ser implantadas à força no Iraque ou em outros países da região, ou impor por aqui outras decisões desse tipo?

Gostaria de simplesmente relembrar aos libaneses - porque é assunto sobre o qual já falei no passado - que no início da guerra de julho de 2006, quando recebíamos mensagens por intermediários, visando a pôr fim à guerra, recebemos a seguinte propostas: primeiro, entregar todas as nossas armas, todas as armas da Resistência; segundo, libertar os dois prisioneiros israelenses imediatamente e sem condições; e terceiro, um ponto muito importante, aceitar a presença de uma força armada multinacional - não forças da FINUL ou da ONU - forças multinacionais que ficariam presentes no sul, ao longo da fronteira entre o Líbano e a Palestina, nas fronteiras entre o Líbano e a Síria , no aeroporto, nos portos e em solo libanês. Esse foi a 'proposta' que rejeitamos na guerra de julho de (2006), e que derrotamos com nosso sangue, nossos mártires, nossa paciência, nossas lágrimas, nossos ferimentos, nossos sofrimentos, aflições, nossa solidariedade, etc.

Pois bem. Quem nos garante que não estão tentando novamente nos impor as mesmas condições, com essa participação na tal coalizão internacional? A partir no momento em que nos tornemos membros dessa coalizão internacional, nossos aeroportos, portos, céus, águas territoriais, tudo lhes será escancarado para aí instalarem bases militares para a OTAN e para os EUA. O que será feito do Líbano? Em que converterão então o Líbano?

Os libaneses não têm todo o direito de ter dúvidas? Assim também há grande dúvida entre os iraquianos, que se perguntam se o objetivo desse despertar e do súbito interesse dos EUA não será só interesse  de voltar para implantar bases militares. Querem voltar e criar bases militares permanentes, aeroportos, etc. Querem impor as condições deles e garantir a imunidade dos soldados e oficiais deles, como o que fizeram na Coreia do Sul e em outros pontos.

É por isso, por todas essas razões e ainda por outras que nem evoco agora para não me estender demais, que não somos favoráveis, que recusamos que o Líbano participe da coalizão internacional arranjada pelos EUA.

E o Líbano não precisa disso. Primeiro, não interessa ao Líbano, e o Líbano se exporá a perigos, se participar dessa coalizão.

E não estou dizendo que se trata de manter distância - explico para que não nos acusem de inconsequência. É outra coisa completamente diferente. A desintegração, por dentro desses grupos, é já visível. O Líbano se exporá a perigos, se participar dessa coalizão. Isso, em primeiro lugar.

O segundo ponto é que o Líbano não precisa dessa coalizão. Não precisa participar dessa coalizão, não tem nenhum interesse em participar.

Alguém poderá objetar que já enfrentamos esse perigo no Líbano, nesse momento. Mas os libaneses são capazes de fazer frente a esse perigo. Somos capazes, como libaneses, de fazer frente aos terroristas e ao terrorismo. E já agora, apesar das divisões políticas, apesar das disputas políticas, apesar da incitação sectária e de tudo do que já falei na primeira parte, o Líbano continua capaz de fazer frente a esse perigo, mesmo com esse nível mínimo de coesão e de cooperação que há dentro do governo libanês - o atual governo -, sim, o Líbano é capaz de enfrentá-los com seu exército, suas forças de segurança, seu povo, sua determinação e sua paciência. E também no futuro, sim, nós libaneses seremos capazes de fazer frente a esse perigo. Sim.

Quanto a nós, de que itens nós precisamos? Se alguém quiser apelar à comunidade internacional, aos EUA ou aos membros da nova coalizão internacional, vai aqui a lista do que nós queremos:

Primeiro, pedimos a todos os países - não só a esses - que parem de financiar e armar grupos terroristas que atacam o Líbano e o interior do Líbano. E nem falo da Síria ou do Iraque, falo do Líbano. Falo como libanês, no plano nacional. Parem de armar, financiar, treinar e enviar terroristas que atacam o Líbano - porque isso prossegue até hoje. E prossegue porque países que são membros dessa coalizão fazem que prossiga. Acabem com isso e prestarão bom serviço ao Líbano.

Querem ajudar o Líbano? O coração de vocês arde de paixão pelo Líbano e pelo povo libanês? Querem proteger o Líbano, contra o terrorismo? Pois parem de financiar e armar e treinar grupos terroristas. Aí está a primeira coisa que devem fazer.

Em segundo lugar, passem a apoiar o mais depressa possível o exército libanês e as forças de segurança, porque é deles que tudo depende; e, também, porque isso é responsabilidade do Estado.

Terceiro, ajudem o Líbano a enfrentar o problema dos refugiados. Se o problema dos refugiados for resolvido, já diminuirão consideravelmente os perigos representados por terroristas, pelo terrorismo, a sedição e todos os problemas que ameaçam a situação interna no Líbano. Se alguém quer ajudar o Líbano, que ajude nesses três pontos: (1) parem de financiar e armar os terroristas; (2) apoiem e armem o mais rapidamente possível o exército libanês e as forças de segurança; (3) dediquem-se a resolver o problema dos refugiados.

E quanto aos libaneses - quero insistir nesse ponto nessa noite -, os libaneses são capazes de fazer frente a qualquer perigo terrorista que se volte contra eles.

Ontem, os terroristas agruparam os soldados libaneses (reféns) num local e um dos terroristas veio jactar-se: "Se quiséssemos poderíamos chegar a Beirute em poucos dias." Mentira. Não podem. Não e não. Vocês não podem chegar a Beirute nem a parte alguma. E nem preciso falar de outras regiões do Líbano. Não podem!

Os libaneses são capazes de defender todas as regiões do país, com o estado, o exército, a solidariedade, os sentimentos patrióticos e nossa responsabilidade nacional - e isso é, para mim, convicção profunda. - Todas as regiões do país devem ser protegidas, podem ser protegidas e serão protegidas de todos os perigos terroristas.

As regiões do Líbano não pertencem a uma confissão, um partido, algum grupo específico: são território libanês, são o povo libanês, são libaneses. E todos os libaneses têm a responsabilidade de manter-se unidos, de mãos dadas, para impedir que o terrorismo chegue a regiões libanesas, sejam quais forem.

Ninguém deve dizer a si mesmo que, se o perigo terrorista alcança militarmente uma região, um ou outro não está envolvido, porque não são sua religião ou seu partido político que estão sendo atacados. Esse é erro grave, é erro fatal.

Os libaneses devem unir-se, dar-se as mãos, e poderão realmente fazer retroceder os terroristas e dostakfiris para longe do Líbano. Somos fortes, não somos fracos, e ninguém pode nos ameaçar: nem de invadir, nem de assumir o controle do território, nem de chegar a Beirute ou a não importa onde. Porque continuamos vivos e ninguém pode intimidar desse modo os libaneses. E, como já disse tantas vezes no passado, nos sempre assumiremos nossas responsabilidades.******

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Fidel Castro: Os heróis de nossa época

Muito se tem para dizer destes tempos difíceis para a humanidade. Hoje, no entanto, é um dia de especial interesse para nós e também para muitas pessoas. Ao longo de nossa breve história revolucionária, desde o golpe cruel de 10 de março de 1952 promovido pelo império contra nosso pequeno país, não poucas vezes nos vimos na necessidade de tomar importantes decisões.


Por Fidel Castro, no Granma



Reprodução
O jornal <i>Granma</i> publicou, na semana passada, um artigo do líder histórico da Revolução Cubana, Fidel Castro. O jornal Granma publicou, na semana passada, um artigo do líder histórico da Revolução Cubana, Fidel Castro.
Quando já não restava nenhuma alternativa, outros jovens, de qualquer outra nação em nossa complexa situação, faziam ou se propunham fazer o mesmo que nós, ainda que no caso particular de Cuba a casualidade, como tantas vezes na história, jogou um papel decisivo.

A partir do drama criado em nosso país pelos Estados Unidos naquela data, sem outro objetivo que frear o risco de pequenos avanços sociais que pudessem antecipar futuros de mudanças radicais na propriedade ianque em que tinha sido convertida Cuba, se engendrou nossa Revolução Socialista.

A Segunda Guerra Mundial, que acabou em 1945, consolidou o poder dos Estados Unidos como principal potência econômica e militar e converteu esse país, cujo território estava distante dos campos de batalhas, no mais poderoso do planeta.

A esmagadora vitória de 1959, podemos afirmar sem sombra de chauvinismo, converteu-se em exemplo do que uma pequena nação, lutando por si mesma, pode fazer também pelos demais.

Os países latino-americanos, com um mínimo de honrosas exceções, se bastaram depois das migalhas oferecidas pelos Estados Unidos; por exemplo, a quota açucareira de Cuba, que durante quase um século e meio abasteceu esse país em seus anos críticos, foi repartida entre produtores ávidos por mercados no mundo.

O ilustre general norte-americano que presidia então esse país, Dwight D. Eisenhower, tinha dirigido as tropas na guerra em que libertaram, apesar de contar com poderosos meios, só uma pequena parte da Europa ocupada pelos nazistas. O substituto do presidente Roosevelt, Harry S. Truman, mostrou ser o conservador tradicional que nos Estados Unidos costuma assumir tais responsabilidades políticas nos anos difíceis.

A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) que se constituiu até fins do século 20 na mais grandiosa nação da história na luta contra a exploração impiedosa dos seres humanos foi dissolvida e substituída por uma Federação que reduziu a superfície daquele grande Estado multinacional em quase 5,5 milhões quilômetros quadrados.

Algo, no entanto, não pôde ser dissolvido: o espírito heróico do povo russo, que unido a seus irmãos do resto da URSS tem sido capaz de preservar uma força tão poderosa que junto à República Popular da China e países como Brasil, Índia e África do Sul, constituem um grupo com o poder necessário para frear a tentativa de recolonização do planeta.

Exemplos ilustrativos destas realidades podemos ver na República Popular de Angola. Cuba, como outros muitos países socialistas e movimentos de libertação, colaborou com ela e com outros que lutavam contra o domínio português na África. Este exercia-se de forma administrativa direta com o apoio de seus aliados.

A solidariedade com Angola era um dos pontos essenciais do Movimento de Países Não Alinhados e do Campo Socialista. A independência desse país fez-se inevitável e era aceita pela comunidade mundial.

O Estado racista da África do Sul e o Governo corrupto do antigo Congo Belga, com o apoio de aliados europeus, preparavam-se ávidos para a conquista e a partilha de Angola.

Cuba, que há anos cooperava com a luta desse povo, recebeu a solicitação de Agostinho Neto para o treinamento de suas forças armadas que, instaladas em Luanda, a capital do país, deviam estar preparadas para sua posse, oficialmente estabelecida para o dia 11 de novembro de 1975.

Os soviéticos, fiéis a seus compromissos, tinham-lhes fornecido equipamentos militares e esperavam o dia da independênciapara para enviar os instrutores. Cuba, por sua vez, se adiantou no envio dos instrutores solicitados por Neto.

O regime racista da África do Sul, condenado pela opinião mundial, decide adiantar seus planos e envia forças motorizadas em veículos blindados, com potente artilharia que, depois de avançar centenas de quilômetros a partir de sua fronteira, atacaram o primeiro acampamento de instrução, onde vários instrutores cubanos morreram em resistência.

Depois de vários dias de combates sustentados por aqueles valorosos instrutores junto aos angolanos, conseguiram deter o avanço dos sul-africanos para Luanda, a capital da Angola, onde tinha sido enviado por ar um batalhão de Tropas Especiais do Ministério do Interior, transportado de Havana nos velhos aviões Britannia de nossa linha aérea.

Assim começou aquela épica luta naquele país da África negra, tiranizado pelos racistas brancos, cujos batalhões de infantaria motorizada e brigadas de tanques, artilharia blindada e meios adequados de luta, derrotaram as forças racistas da África do Sul e as obrigaram a retroceder até a mesma fronteira de onde tinham partido.

Porém, não foi no ano de 1975 a etapa mais perigosa daquele embate. Esta teve lugar, aproximadamente, 12 anos mais tarde, no sul de Angola.

Assim o que parecia o fim da aventura racista no sul de Angola era só o começo, pelo menos começaram a levar em consideração que aquelas forças revolucionárias de cubanos brancos, mulatos e negros, junto aos soldados angolanos, eram capazes de fazer engolir o pó da derrota aos supostamente invencíveis racistas. Talvez confiaram demais em sua tecnologia, suas riquezas e no apoio do império dominante.

Ainda que não fosse nunca nossa intenção, a atitude soberana de nosso país não deixava de ter contradições com a própria URSS, que tanto fez por nós em dias realmente difíceis, quando o corte dos fornecimentos de combustível a Cuba por parte dos Estados Unidos nos teria levado a um prolongado e caro conflito com a poderosa potência do Norte. Desaparecido esse perigo ou não, o dilema era decidir entre sermos livres ou nos resignar a sermos escravos do poderoso império vizinho.

Em tão complicada situação como naquela do acesso de Angola à independência, em luta frontal contra o neocolonialismo, era impossível que não surgissem diferenças em alguns aspectos dos quais podiam resultar consequências graves para os objetivos traçados, que no caso de Cuba, como parte nessa luta, tinha o direito e o dever de conduzir ao sucesso.

Sempre que no nosso julgamento qualquer aspecto de nossa política internacional podia se chocar com a política estratégica da URSS, fazíamos o possível para evitá-lo. Os objetivos comuns exigiam de cada qual o respeito aos méritos e experiências da cada um deles. A humildade não está em contradição com a análise séria da complexidade e importância da cada situação, ainda que em nossa política sempre fomos muito estritos com tudo o que se referia à solidariedade com a União Soviética.

Em momentos decisivos da luta em Angola contra o imperialismo e o racismo produziu-se um desses conflitos, que se derivou de nossa participação direta naquela região e do fato de nossas forças não só lutarem, como também instruirem a cada ano milhares de combatentes angolanos, aos quais apoiávamos em sua luta contra as forças pró-ianques e pró-racistas da África do Sul.

Um militar soviético era o assessor do governo e planificava o emprego das forças angolanas. Divergíamos, no entanto, em um ponto e de fato verdadeiramente importante: a reiterada frequência com que se defendia o critério errôneo de empregar naquele país as tropas angolanas melhor treinadas a quase mil e quinhentos quilômetros de distância de Luanda, a capital, pela concepção própria de outro tipo de guerra, nada parecida à de caráter subversivo dos contrarrevolucionários angolanos.

Na realidade não existia uma capital da Unita, nem Savimbi tinha um ponto onde resistir, se tratava de um chamariz da África do Sul racista que servia só para atrair para lá as melhores e mais munidas tropas angolanas para supreendê-las. Dessa forma, nos opúnhamos a tal conceito que mais de uma vez se aplicou, até a última batalha para golpear o inimigo com nossas próprias forças, a batalha de Cuito Cuanavale.

Direi que aquele prolongado confronto militar contra o exército sul-africano se produziu na raiz da última ofensiva contra a suposta "capital de Savimbi", em um longínquo rincão da fronteira de Angola, África do Sul e da Namibia ocupada, para onde as valentes forças angolanas, partindo de Cuito Cuanavale, antiga base militar desativada da Organização do Tratado do Atlêntico Norte (Otan), ainda que bem equipadas com os mais novos carros blindados, tanques e outros meios de combate, iniciavam sua marcha de centenas de quilômetros para a suposta capital contrarrevolucionaria.

Nossos audazes pilotos de combate apoiavam-nos com os Mig-23 quando estavam ainda dentro de seu raio de atuação.

Quando ultrapassavam aqueles limites, o inimigo golpeava fortemente aos valorosos soldados das Forças Armadas Populares de Angola (Fapla) com seus aviões de combate, sua artilharia pesada e suas bem equipadas forças terrestres, ocasionando muitas baixas entre mortos e feridos. Mas desta vez dirigiam-se, em direção as golpeadas brigadas angolanas, para a antiga base militar da Otan.

As unidades angolanas retrocediam em uma frente de vários quilômetros de distância entre elas. Dada a gravidade das perdas e o perigo que podia ser derivado delas, se esperava a solicitação habitual da assessoria do presidente de Angola para que se apelasse ao apoio cubano, e assim foi.

A resposta firme desta vez foi que tal solicitação só seria aceita se todas as forças e meios de combate angolanos na Frente Sul se subordinassem ao comando militar cubano. De imediato foi aceita aquela condição.

Com rapidez mobilizaram-se as forças em função da batalha de Cuito Cuanavale, onde os invasores sul-africanos e suas armas sofisticadas se lançaram contra as unidades blindadas, a artilharia convencional e os Mig-23 tripulados pelos audazes pilotos de nossa aviação. A artilharia, tanques e outros meios angolanos localizados naquele ponto que careciam de pessoal foram postos em disposição combativa com o pessoal cubano.

Os tanques angolanos, em sua retirada não podiam vencer o obstáculo do caudaloso rio Queve, ao Leste da antiga base da Otan, cuja ponte tinha sido destruída semanas antes por um avião sul-africano sem piloto, carregado de explosivos, além de estar rodeado de minas antipessoal e antitanques.

As tropas sul-africanas que avançavam toparam a pouca distância com uma barreira intransponível contra a qual se lançaram. Dessa forma com um mínimo de baixas e vantajosas condições, as forças sul-africanas foram contundentemente derrotadas naquele território angolano.

Mas a luta não tinha sido concluída, o imperialismo com a cumplicidade de Israel tinha convertido a África do Sul em um país nuclear. Ao nosso exército tocava pela segunda vez o risco de se converter em alvo de tal arma.

Mas sobre esse ponto, com todos os elementos de julgamento apropriados, estou elaborando e talvez possa escrever nos próximos meses.

Que acontecimentos ocorreram ontem à noite que deram lugar a esta prolongada análise? Dois fatos, a meu julgamento, de especial trascendência:

A partida da primeira Brigada Médica Cubana para a África para lutar contra o ebola. O brutal assassinato em Caracas, Venezuela, do jovem deputado revolucionário Robert Serra.

Ambos os fatos refletem o espírito heróico e a capacidade dos processos revolucionários que têm lugar na pátria de José Martí e no berço da liberdade da América, a Venezuela heróica de Simón Bolívar e Hugo Chávez.

Quantas espantosas lições guardam estes acontecimentos! Mal as palavras servem para expressar o valor moral de tais fatos, que ocorreram quase simultaneamente.

Não poderia jamais achar que o crime contra o jovem deputado venezuelano seja obra do acaso.

Seria tão incrível, tendo em vista a prática dos piores organismos ianques de inteligência. A verdadeira casualidade seria se o repugnante feito não tivesse sido realizado intencionalmente, ainda mais quando o mesmo se enquadra absolutamente ao que foi anunciado pelos inimigos da Revolução Venezuelana.

De todas as formas me parece absolutamente correta a posição das autoridades venezuelanas de propor a necessidade de investigar cuidadosamente o caráter do crime. O povo, no entanto, expressa comovido sua profunda convicção sobre a natureza do brutal fato sangrento.

O envio da primeira Brigada Médica a Serra Leoa, marcado como um dos pontos de maior presença da cruel epidemia do ebola, é um exemplo do qual um país pode se orgulhar pois não é possível atingir neste instante maior honra e glória.

Se ninguém teve a menor dúvida de que as centenas de milhares de combatentes que foram a Angola e a outros países da África ou da América, prestaram à humanidade um exemplo que não poderá ser apagado nunca da história humana; menos duvidaria que a ação heroica do exército de avental ocupará um altíssimo lugar de honra nessa história.

Não serão os fabricantes de armas letais que atingirão tal honra. Oxalá o exemplo dos cubanos que marcham para a África se agarre também à mente e ao coração de outros médicos no mundo, especialmente daqueles que possuem mais recursos, pratiquem uma religião ou outra, ou a convicção mais profunda do dever da solidariedade humana.

É dura a tarefa daquelas e daqueles que marcham ao combate do ebola e pela sobrevivência de outros seres humanos, ainda que com risco às suas próprias vidas. Não por isso devemos deixar de fazer o impossível para garantir, aos que tais deveres cumpram, o máximo de segurança nas tarefas que desempenhem e nas medidas a tomar para proteger a eles e a nosso próprio povo, desta ou outras doenças e epidemias.

O pessoal que marcha à África está protegendo também os que aqui ficam, porque o pior que pode ocorrer é que tal epidemia ou outras piores se estendam por nosso continente, ou no seio do povo de qualquer país do mundo, onde uma criança, uma mãe ou um ser humano possa morrer. Há médicos suficientes no planeta para que ninguém tenha que morrer por falta de assistência. É o que quero expressar.

Honra e glória para nossos valorosos combatentes pela saúde e a vida!

Honra e glória para o jovem revolucionário venezuelano Robert Serra junto à companheira María Herrera!

Estas ideias escrevi-as em dois de outubro quando soube de ambas as notícias, mas preferi esperar mais um dia para que a opinião internacional se informasse bem e para pedir ao Granma que o publicasse no sábado.

Fonte: Prensa Latina

Estado islâmico massacra população de Kobane

   


Desde ontem os destacamentos dos Estado Islâmico chegaram à cidade de Kobane, na fronteira sul da Turquia. Lugar de maioria curda, a cidade faz parte do território que está nos limites sírios e é conhecido como Rojava.
Desde o início da guerra civil na Síria, o povo curdo assumiu sua auto-defesa criando unidades armadas conhecidas como YPG, sigla em idioma curdo para Unidades Populares de Proteção. As forças da Al-Qaeda, Al-Nusra e outros grupos fundamentalistas se uniram na criação do Estado Islâmico e receberam armas dos EUA, União Europeia, da Turquia, do Qatar e da Arábia Saudita para combater Assad. Agora, essas armas se voltam para o assassinato de crianças, mulheres e idosos na cidade de Kobane.
Há vários dias que as organizações democráticas da Turquia denunciavam o ataque iminente a Kobane. Quando o ataque se iniciou, o povo da Turquia ocupou as ruas das principais cidades exigindo que o governo do presidente Edôrgan permitisse a passagem de armas e suprimentos para Kobane, fortalecendo a auto-defesa e impedindo o massacre.
O governo turco, no entanto, se negou a abrir a passagem dos suprimentos, tornando-se, na prática, cúmplice dos Estado Islâmico no massacre aos curdos. A polícia turca passou a atacar os manifestantes nas ruas com o apoio de milícias islâmicas que apoiam o EI. Até o momento, o resultado é de 10 manifestantes mortos e vários feridos.
A verdade é que  está em curso  um enorme gencídio aos curdos no norte da Síria, promovido por fundamentalistas islâmicos com a complacência do governo da Turquia. Os países ocidentais assistem calados a esse massacre.


Jorge Batista, com informações do jornal Evrensel e do site da Al jazzera .

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

MEU VOTO É DILMA!!!


~

Por VALDIR PEREIRA

Andei refletindo muito sobre a questão eleitoral e o candidato a votar. Comunista da velha estirpe, pensei em votar num candidato comunista. Pensei e comecei a avaliar se valia pena desperdiçar meu voto. Tem comunista e gente de esquerda de todo jeito: uns mais radicais, uns mais moderados e outros simplesmente lunáticos. Mas o que vi em comum entre eles é que não foram capazes de elaborar um projeto que leve em conta a realidade objetiva da conjuntura brasileira; as contradições entre o capital e o imperialismo e as novas relações internacionais, que manipulam o espectro político e agem como uma teia de aranha militar e nuclear, como a OTAN, que envolve mais de 130 países, armados até os dentes, colocando em risco a humanidade.
A hegemonia imperialista se envolveu e se envolve em projetos expansionistas, provocando guerras localizadas por todo o mundo; colocando em risco a paz mundial.
Por outro lado, resultado de uma política internacional independente e de aproximação comercial com países do leste europeu e asiáticos, hindu e africanos, formou-se um organismo de cooperação entre estes países, denominado BRICS. Nos dando a carta de alforria do império norte-americano.
Os países latino-americanos procuram estabelecer laços de aproximação econômica com a criação do Mercosul; UNASUL e a CELAC, na tentativa de se livrar das peias imperialistas.
Este projeto só foi possível com nova política estabelecida, a partir de 2002, com a eleição de Lula. Dilma deu continuidade.
Enquanto isso, a esquerda, com uma visão míope, sem avaliar a nova conjuntura, partiram para oposição, por mera ciumeira. Nada criaram, sequer um projeto mínimo que pudesse unificar suas forças, um projeto comum, pontual que unificasse o que há de comum entre eles, excluindo os sectarismos, que não levam a nada.
Outro fator importante, que devemos considerar, é o afastamento das esquerdas da classe operária. Na sua maioria, os Sindicatos, é sinonimo de peleguismo e de subserviência aos interesses patronais burgueses, com algumas exceções. Diante deste tenebroso quadro, só me restou votar na DILMA, que tem um projeto político e age pelos interesses nacionais epelas camadas mais pobres.

Esta posição me faz lembrar o velho partidão que em momento algum se omitiu em apoiar candidatos que melhor representasse os interesses nacionais e populares.
                                        MEU VOTO É DILMA!!!