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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O impeachment e a divisão da oposição


14.12.2015 | Fonte de informações:

Pravda.ru

O impeachment e a divisão da oposição. 23423.jpeg

Quando ainda se fazia política no país, antes do vale tudo em que se transformou a luta pelo poder nesta Nação, havia um velho homem público mineiro que, no rastro de  Salomão, gostava de dizer que a política é como as estações do ano.

 Mauro Santayana
Há o tempo de semear e o tempo de ceifar.
O tempo de colher e o tempo de moer.
O tempo de misturar e bater a massa.
E o de acender o forno para assar e comer o que se preparou.
O bom da Democracia, é que, a não ser que ocorram tragédias de grandes proporções, ela, como o clima, oferece um calendário próprio,   que pode servir de parâmetro, para os mais argutos e prudentes, no estabelecimento de um necessário e cada vez mais desprezado - como meio - plano de rota, que possa levar ao objetivo que se pretende alcançar.
O aumento da temperatura, ou efeito estufa, na cena política, que pode acabar prejudicando tanto a gregos como troianos, ocorre quando o papel dos partidos - espera-se que cada um tenha sua própria visão e seu próprio projeto para o país - é substituído por uma briga de foice em que um monte de cidadãos, individualmente, acredita que pode alcançar a Presidência da República, não interessando o momento ou o meio que vai utilizar para chegar lá.
Há impeachments e impeachments.
Na época do impedimento do Presidente Fernando Collor, havia um vice-presidente conciliador, em torno do qual se reuniu uma ampla aliança nacional, que era tão correto que se recusou a forjar uma alteração na constituição que lhe permitisse manter-se no poder por mais um mandato, e cujo maior erro - como depois admitiria mais tarde - foi escolher como sucessor um indivíduo que usurparia a maior conquista de seu governo, o Plano Real, e que, no lugar de cumprir o compromisso que tinha com ele de apoiá-lo para o pleito seguinte, tanto fez para não largar a rapadura que chegou até mesmo a ser acusado de comprar votos no Congresso para aprovar a lei que permitiu sua reeleição.
Hoje, em caso do impedimento da Presidente Dilma, não há, como havia à época de Itamar Franco, o mesmo consenso em torno da figura do Vice-Presidente Michel Temer.
O maior partido de oposição - teoricamente o mais interessado na saída de Dilma - apresentou, no TSE, pedido de cassação da chapa Dilma-Temer, vitoriosa nas eleições de um ano atrás, propondo a anulação do resultado e requerendo que se lhe entregue o poder, como coligação mais votada.
Os tucanos querem a saída de Dilma, mas cada um em seu tempo e a seu modo.
Se pudessem, prefeririam evitar a substituição da presidente por um vice que tem tudo para articular rapidamente a simpatia e as boas graças do "mercado".
Que depois poderia ser apresentado, contando com a estrutura de um dos maiores partidos do país, como um fortíssimo candidato nas eleições de 2018.
Para Alckmin, e para José Serra, que estão de olho no Planalto, isso não seria bom.
Alguns jornais informam que Serra pretende ser o Ministro da Fazenda de Temer, e seu candidato a Presidente, pelo PMDB.
Mas aquele que já foi por duas vezes candidato pelo PSDB, como diria Garrincha, ainda não "combinou com os russos", e muita água tende a rolar debaixo das pontes do Tietê antes que isso venha a ocorrer.
Serra teria que vencer a resistência da ala mais nacionalista do partido,  de construir algum tipo de liderança nele, sobrepondo-se a possíveis rivais, além de contar com a recusa de  Michel Temer de continuar ocupando um lugar no qual já estará há algum tempo, com todas as prerrogativas que lhe reserva o cargo mais importante da República.
Temer na Presidência, aliado a Serra, não seria desejável para Aécio Neves, que está na frente nas pesquisas de intenção de voto, entre os eventuais pré-candidatos.
E, muito menos, ainda, para eventuais concorrentes "independentes" que aparentemente correm "por fora", mas que têm um enorme apelo para o voto conservador e de extrema-direita nascido da campanha anti-petista dos últimos anos.
Entre eles, pode-se nomear - por enquanto - Jair Bolsonaro e o próprio Juiz Sérgio Moro, que dividem os apelos "Bolsomito 2018", e "Moro Presidente", no espaço de comentários dos grandes portais nacionais, de onde a militância do PT desapareceu.
Para muitas lideranças anti-petistas, ou com aspirações a sentar na principal cadeira do Palácio do Planalto, ideal seria que o governo Dilma "sangrasse", atacado pela mídia conservadora nacional e estrangeira, pelos internautas fascistas, pela sabotagem econômica e no contexto judicial, pelos entreguistas e privatistas, e pelos oportunistas de todo tipo, até o último dia de seu mandato.
Assim, eles teriam tempo para o fortalecimento de seus respectivos cacifes com vista a 2018, disputando entre si a preferência dos neoliberais, dos neo-anticomunistas, dos anti-petistas, dos anti-"bolivarianos", dos anti-estatistas, dos anti-desenvolvimentistas e dos anti-nacionalistas de plantão.
Um público cada vez mais radical, manipulado e desinformado que tem tudo para crescer como fungo, já que não existe nenhuma oposição ou reação estratégica, judicial, ou na área de comunicação minimamente detectáveis, por parte da esquerda - reunida quase que exclusivamente em seus próprios blogs, grupos e páginas de redes sociais - ou do Partido dos Trabalhadores em portais de maior audiência, como o UOL, o IG, o Terra, o MSN e o G1.
O grande problema do PT no Brasil é a internet, onde perdeu, sem esboçar qualquer reação coordenada - a batalha da comunicação.
De nada adianta o ex-presidente Lula processar na justiça certo "historiador" de oposição por calúnias proferidas em uma entrevista, se dezenas, centenas, de internautas continuam a atirar contra ele os mesmos insultos e as mesmas mentiras, impunemente, todos os dias, sem serem interpelados judicialmente da mesma maneira. Se o primeiro deles tivesse sido impedido, na forma da lei, desde o início, o PT - e a própria Democracia, vilipendiada com pedidos de "intervenção militar" e a defesa pública da volta da ditadura e da tortura - não estariam na situação institucional em que se encontram.+
O grande drama da oposição no Brasil é o que fazer com o impeachment.
Se Dilma sair do Palácio do Planalto agora, ficará difícil manter, contra Temer, a mesma campanha uníssona que existe, hoje, na imprensa e nos maiores portais da internet - por parte dos internautas de direita - contra o PT.
Os ataques sofridos pela Presidência da República tenderiam a diminuir, e a enfraquecer em seu ódio e veneno, já que não daria, simplesmente, para transferir para esse novo Presidente da República, o papel de Geni encarnado pelo PT até agora.
Finalmente, com Dilma fora do Planalto, será praticamente impossível manter a unidade das forças anti-petistas, que tendem a se lançar em uma guerra fratricida pelo Palácio do Planalto, que Michel Temer, do alto da cadeira presidencial, em caso do enfraquecimento de Lula, e de fragmentação da oposição, teria grande chance de vencer em 2018.

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domingo, 29 de novembro de 2015

Atentado de Paris: 13 perguntas e 24 reflexões


30.11.2015


Nenhum dos 13 objetivos da guerra contra a Síria tem a ver com eliminar o terrorismo: o jihadismo e o imperialismo se alimentam mutuamente.

Nazanín Armanian*/Carta Maior

"A verdade é a primeira vítima de toda guerra"
1. Quais são as mentiras dos atentados do dia 13 de novembro, em Paris para que o presidente Hollande utilize a palavra "guerra" no combate contra o terrorismo? Pois uma "guerra" - investida militar - se declara entre Estados, e não de um país contra um grupo terrorista com sede e presença em mais de vinte países, inclusive na França.
2. Que garantia há de que as notícias que nos transmitem reflitam a verdade? Robert Menard, fundador da organização Repórteres Sem Fronteiras e prefeito de Bèziers, por exemplo, é um ultradireitista que encabeça a campanha de expulsão dos refugiados sírios.
3. Por que as imagens (falsas ou verdadeiras) dos bombardeios russos na Síria mostram vítimas civis, enquanto nas correspondentes aos ataques da coalizão ocidental só se possam ver pontinhos negros no deserto, quando a cidade de Al Raqa, agredida e cercada militarmente, milhares de pessoas que não puderam fugir da guerra vivem sem eletricidade? Estão aplicando o ilegal castigo colectivo?
4. Bashar al-Assad teria direito de bombardear França, Arábia Saudita, Qatar, Turquia, entre outros, caso dissesse que há células terroristas que viajam ao seu país para criar distúrbios?
5. Não foi o próprio Estado Islâmico (EI) o alvo de cerca de 200 bombardeios franceses, entre setembro e novembro de 2014? O que mais pretendem fazer?
6. Como é possível que os Estados Unidos e seus sócios, em poucos dias, destruissem o exército líbio, mas não puderam com alguns poucos terroristas carentes de armamento pesado?
7. A Turquia tem o direito de organizar milhares de homens armados para desmontar outro Estado-membro da ONU, sem a autorização da OTAN (Pentágono)? Arábia Saudita, Qatar e Emirados Árabes, que abrigassem bases militares estadunidenses, podem fazer o mesmo? É como se a Espanha treinasse 30 mil terroristas nas fronteiras com o Marrocos ou a França para derrubar o seu governo, fornecendo bombas, mísseis e apoio logístico, sem prévia permissão de Bruxelas e Washington?
8. Segundo alguns analistas ocidentais, a expansão do jihadismo é uma das consequências das guerras contra o Iraque e o Afeganistão. Acaso pretenderão alimentar uma maior expansão deste fenômeno, que tem sido um ninho para os militaristas do Ocidente e do Oriente?
9. O que querem nos dizer é que a "inteligência" ocidental, com tantos artefatos ultrassofisticados, é menos inteligente que um grupo de garotos aventureiros?
10. Sobre a piada dos "documentos de identidade" que não se queimam e que teriam sido deixados pelos terroristas antes de explodirem seus próprios corpos, cabe a pergunta: como dois dos suicidas se mataram nas ruas vazias do lado de fora do Estádio de Saint-Denis e não no meio da aglomeração dos torcedores que saiam do campo?
11. Como é possível que as grandes potências tenham alcançado cessar fogo na Síria com os terroristas do Estado Islâmico? Alguém tem contato direto com eles? Por que não o fizeram durante os quatro anos anteriores? Utilizar esse argumento justifica a ação de desmantelar o Estado sírio?
12. Que grupo assassino é considerado "terrorista" para o Ocidente? Os Talibãs, coautores dos atentados do dia 11 de setembro de 2001, o são?
13. Qual o interesse da OTAN ao destruir os Estados não religiosos como Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, respaldando os islamistas, para logo viver com eles numa espécie de "coexistência pacífica"? O terrorismo islâmico é uma cortina de fumaça?
Objetivos e consequências do atentado
1. Empurrar a Europa a uma mega intervenção na Síria, capaz de derrubar Assad, e desatar a "crise de refugiados" na Europa.
2. Desmontar o "Plano Putin-Obama" de manter Assad no poder durante a transição política, ao qual Arábia Saudita, Qatar e Turquia se opõem. O diário republicano New York Post chegou a pedir que Obama renunciasse ou atuasse contra Assad. Mais atentados no Ocidente abrirão o caminho para os novos "Bushs" na Casa Branca.
3. Mudar o balanço militar nesta fase quase final do conflito a benefício da OTAN, justamente quando Rússia e Irã foram transformados em protagonistas absolutos do cenário. O atentado contra o avião russo também se encaixaria nesse contexto. Se trata nada menos que da conquista da Eurásia por parte das potências mundiais.
4. Tomar uma região desocupada pelos Estados Unidos, agora que Obama leva as suas tropas a cercar a China. Um traje grande demais para a França, que carece de recursos para fazer esse papel.
5. Segundo o "Instituto para a Paz e a Prosperidade" e a Agência de Inteligência de Defesa dos Estados Unidos, a aviação da coalizão Anti-EI, liderada pelo Pentágono, bombardeia as posições dos curdos da Síria, e não as dos jihadistas, e afirma que  "o apoio aos rebeldes sírios significa financiar grupos terroristas com o dinheiro dos contribuintes". Esta é uma das 23 verdades incômodas sobre o Estado Islâmico.
6. Abrir caminho para a conquista militar da Síria, que de outra forma seria impossível. Hillary Clinton confessou ao diário The Atlantic, no dia 1 de agosto de 2014, que a intervenção dos Estados Unidos na Síria foi desenhada para "mudar a equação" em favor dos rebeldes: de alguma forma, os jihadistas vem atuando como tropas terrestres da Coalizão para fazer da Síria um Estado falido.
7. Justificar os bombardeios ilegais do Ocidente contra a Síria, já aprovados pelo próprio Conselho de Segurança, o mesmo que rejeitou a petição de atacar o país em julho de 2012.
8. Reconstruir a coesão político-militar da OTAN no Pentágono, impedindo que os europeus pragmáticos retomassem suas relações de cooperação com a Rússia.
9. Reforçar as bases militares da OTAN na Turquia (e na Espanha). Nas últimas eleições, os atentados atribuídos aos jihadistas deram a maioria absoluta aos islamistas de Tayyab Erdogan - outro dos patrocinadores do terrorismo religioso: a OTAN para atuar na Síria, necessita uma Turquia estável, onde pode dirigir as operações de conquista de Damasco.
10. Mostrar a eficacia da tática de Obama, de transformar a Síria num pântano onde pode desgastar os inimigos e rivais dos Estados Unidos e de Israel.
11. A ameaça terrorista contribuirá para que mais cortes sociais e mais pobreza não sejam contestados: as novas leis "Patriot" e o aumento das mordaças aos críticos se propagarão: todos os cidadãos, exceto os governantes, serão suspeitos de terrorismo.
12. Multiplicar os lucros das empresas armamentistas: as estadunidenses Honeywell e General Dynamics, a francesa Thales e as britânicas Bae Systems e Rolls Royce estão faturando alto.
13. A França deixa de ser uma bárbara potência colonial, e passa a ser uma vítima de bárbaros procedentes da região que um dia ela avassalou. Agora, além disso, pode pedir sua parte da Síria como prêmio, o que está sendo dividido entre os sócios do G20.
14. Atacar a solidariedade dos europeus com os refugiados e vinculá-los com o terrorismo, dentro da miserável tática do "dividir para vencer". Para a maioria dos muçulmanos do mundo -principais vítimas do jihadismo -, o Islã é uma espiritualidade privada e não uma doutrina política.
15. Legitimar as boas relações das potências mundiais com os regimes autoritários e obscurantistas de Oriente Próximo e Norte de África (OPNA), apresentando a eles como "moderados" em comparação com os impiedosos jihadistas. A notícia é que Ali al Nimr, cidadão da monarquia "moderada" da Arábia Saudita e ativista de 21 anos, depois de três anos vivendo sob torturas, foi condenado à morte por decapitação e crucificação em público. Logo depois, a ONU apontou Riad como referência mundial da defesa dos direitos humanos.
16. Presentar a Coalizão Árabe da Síria - a nova cria da OTAN - como alternativa ao governo de Assad.
17. Impedir novas marchas contra os cortes de gastos sociais e contra o TTIP (sigla em inglês do Tratado Transatlântico de Investimentos), que partiram de várias cidades (Berlim, Madri, Londres, entre outras) rumo a Bruxelas. Conectar os atentados de Paris com a Bélgica e declarar Estado de emergência na sede da Comissão Europeia, o que motivará a suspensão de novas marchas contra a hegemonia das multinacionais e atentando contra os direitos dos trabalhadores.
18. Enviar mais efetivos militares ao Mali, aproveitando o atentado num hotel naquele estratégico país. França já conta com 3 mil soldados no Sahel, disputando suas grandes reservas de urânio (que abastecem meia centena das suas centrais nucleares), ouro e outros minerais com a China.
E a nível interno:
19. Resgatar François Hollande, que chegou a ser considerado "o pior presidente da história da França". Agora, pode sonhar com uma possível reeleição em 2017.
20. Forçar o crescimento das forças fascistas. Assim, a esquerda poderia até mesmo votar em Nicolas Sarkozy, o NeoCon europeu, nas próximas eleições  presidenciais. É a mesma jogada desenhada em maio de 2002.
21. Fazer com que os cidadãos franceses renunciem voluntariamente aos seus direitos políticos. Já foram tirados os direitos econômicos e sociais, e agora vão fazer o mesmo com os direitos políticos. Mas que diferença real existe entre o ataque de um estrangeiro (ou o cometido por um compatriota) e as conquistas de um povo?
22. Impulsionar a "unidade nacional" burguesa, baseada no medo, contra os mais pobres, representados pelos refugiados da guerra na Síria, os imigrantes e a classe trabalhadora própria. É como a estranha relação entre um preso e seu carcereiro. Na verdade, se trata de ódio aos pobres, disfarçado de ódio ao islã. Basta ver a magnífica relação entre os líderes do imperialismo com os sheiks do Golfo Pérsico.
23. A França é um dos países que há 30 anos vem enviando homens e mulheres de religião "cristã", sem visto e armados até os dentes, aos países do OPNA. Soldados "civilizados", que mataram cerca de um milhão e meio de pessoas, ferindo umas 20 milhões, obrigando a fugir dos seus lares a outras 30 milhões, ocupando suas terras e levando suas fortunas pessoais e nacionais. E ainda assim, eles não são "cristianófobos".
24. Fechar as fronteiras da Europa. Imaginem a felicidade sentida agora pelo presidente búlgaro Boyko Borisov! Afinal, seu colega Hollande, defensor da "fraternité", apoiado pelos cidadãos do seu país, respalda as políticas anti imigratórias da ultradireita.
Nenhum dos 13 objetivos da guerra contra a Síria tem a ver com eliminar o terrorismo. Ainda que o Estado Islâmico despareça (o que não acontecerá), a guerra na Síria continuará: o jihadismo e o imperialismo se alimentam mutuamente, e têm catastróficos planos para esta região.+

* Nazanín Armanian é iraniana, residente em Barcelona desde 1983, quando se exilou no país. Licenciada em Ciências Políticas, dá aulas em cursos online da Universidade de Barcelona. Também é colunista de Público.es.
Tradução: Victor Farinelli

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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Putin derrota Tio Sam no próprio jogo dos EUA

19.11.2015 | Fonte de informações: 

Pravda.ru

 
Grande-mestre Putin derrota Tio Sam no próprio jogo dos EUA. 23275.jpeg

"NO QUE TUDO SUGERE QUE SEJA mais um crime do estado profundo que governa Washington, uma série de ataques sob falsa bandeira - que a mídia-empresa já declarou 'ataques terroristas' - foram executados hoje numa de suas capitais , Paris, com o objetivo de justificar o envolvimento da OTAN na Síria. Está aberta a via de 'coturnos em solo' que o Pentágono e os sionistas-neoconservadores estão 'exigindo' há muito tempo 

[13/11/2015, Greanville Post].
_____________________________________________
Suponha que você despreze seu cunhado e queira assassiná-lo. Mas você não tem colhões para matar o homem, e contrata um matador de aluguel para fazer o serviço. Você mesmo assim é culpado de assassinato? Não há dúvidas de que sim, é. 
Apliquemos então a mesma regra à política externa dos EUA: é igualmente errado invadir um país, matar as pessoas que lá vivem, derrubar o governo que lá existe, com milícias que você paga, arma e treina como se fossem soldados dos EUA? Ah, sim, com certeza é.
Portanto, embora alguns ainda talvez pensem que Obama estaria sendo 'muito esperto', ao servir-se de exército 'por procuração' na Síria, em vez de mandar para lá o exército dos EUA, não há absolutamente diferença alguma, em termos morais ou legais entre o que Obama fez na Síria e o que Bush fez no Iraque: invasão norte-americana é invasão norte-americana. Ponto. Parágrafo. Nada muda se você se serve de assassinos de aluguel, ou se usa seu próprio pessoal. Dá na mesma. Obama é tão culpado quanto Bush.
Importa, porque a política de Obama para a Síria já resultou em 250 mil mortos e gerou 11 milhões de refugiados. Mais refugiados que o Iraque. Engraçado, só, que a mídia-empresa sequer comente o assunto. De fato, não há um único veículo da mídia-grande-empresa, em todo o país, que algum dia tenha publicado o que todos sabem que é a verdade mais óbvia: que os EUA são 100% culpados pela crise dos refugiados. 100%! Assad nada tem a ver com ela.
A política dos EUA e nosso presidente Barack ("Mamãe! A culpa é deles!") Obama são, integralmente, culpados de tudo isso.
As ruas das cidades norte-americanas estão desertas, a mídia-empresa convenceu muita gente de que a Síria estaria naufragada numa guerra civil - que nunca houve! - E nada de esquifes cobertos com a bandeira dos EUA ou de sacos de plástico preto para transporte de cadáveres chegando à base aérea de Andover, porque não há coturnos norte-americanos em solo em lugar algum da incontáveis guerras que os EUA semearam pelo planeta.
Parte da onda de refugiados sírios foi criada por Washington. Essas pessoas perderam casa, bens, o próprio país, muitos perderam a vida. Os crimes da plutocracia norte-americana e de seus matadores de aluguel e ideólogos prostitutos já são inquantificáveis.
A notícia entusiasmante é que, depois de quatro anos de guerra, o 'plano' de Obama para derrubar o presidente Bashar al Assad fracassou. Sim, Obama destruiu a mais antiga civilização do mundo e condenou aquele povo honrado a existência miserável por no mínimo 20 anos até que os sírios consigam reconstruir o próprio país. Mas nem assim Obama alcançou seu principal objetivo: remover Assad da presidência, dividir o país e assegurar para as majors norte-americanas do petróleo a via livre que tanto querem para seus oleodutos.
Assim se vê que todos os métodos sórdidos, sujos, vergonhosos, corrompidos, sem honra, que os Democratas usaram para prosseguir em segredo a própria guerra deles contra o Estado e o povo sírios fracassaram. Os EUA perderão mais essa guerra, façam o que fizerem.
E por que os EUA perderão mais essa guerra?
Porque a coalizão organizada e liderada pela Rússia conseguiu paralisar Washington na trilha de morte que escolheu para si, e pôs em fuga os terroristas, que agora só pensam em salvar o próprio pescoço. Aí está.
Na 3ª-feira, o Exército Árabe Sírio, o Corpo dos Guardas Revolucionários do Irã e combatentes do Hezbollah, a temida milícia nacional libanesa, recapturaram a estratégica base militar de Kuweires no Norte da Síria, matando centenas de terroristas e libertando 250 soldados sírios mantidos como reféns naquela base por mais de dois anos e meio.
A batalha não chegou às manchetes da grande mídia-empresa ocidental porque é um marco decisivo e ponto de virada crítico naquele conflito. Agora, são os russos que comandam a avançada da luta do ocidente contra o terror. Os terroristas "moderados" apoiados pelos EUA estão em fuga. O momentum da guerra mudou completamente a favor de Putin - o que significa que Putin vencerá e Obama será derrotado.
Quem saiu derrotado da batalha de Kuweires foi a política exterior dos EUA, 'política' que converteu em montes de ruínas fumegantes parte enorme do planeta, que vai do Norte da África, passa pelo Oriente Médio e chega à Ásia Central. Kuweires era nodo central no plano de Washington para derrubar Assad e jogar a Síria em estado de anarquia de estado falhado (mais um!).
Essa é a estratégia dos Democratas de Obama, que agora foi derrotada e obrigada a retroceder, não por cidadãos nas ruas erguendo bandeiras, ou políticos a clamar por paz e sanidade, nem por diplomatas no "balcão de conversa" que é a ONU, já reduzida à vergonhosa única missão de 'validar' os crimes de Washington. Nada disso.
Por no mínimo 15 anos, os EUA governaram o mundo pela força das armas. Ora, mas (quem diria?!) outros países também têm armas e estão decididos a usá-las.
Esse, em resumo, é o significado de Kuweires.
Muitos países no mundo recusam-se a aceitar um modelo de desordem global, no qual só um país arma, treina e espalha psicopatas terroristas homicidas pelo mundo, para promover exclusivamente os próprios estreitos, miseráveis interesses geopolíticos. Esse modelo está seriamente fraturado e tem de ser imediatamente substituído.
Semana passada, a coalizão liderada pelos russos fez grandes avanços na direção de pôr fim a essa loucura e a fazer reverter a maré do projeto imperialista. Resultado disso, Washington foi obrigada a repensar sua abordagem e a tentar adaptar-se às condições muito mutáveis em campo. Há sinais disso por todos os lados, como, por exemplo, nesse artigo imbecil que Huffington Post publicou na 5ª-feira. Vejam aí:
"Apoiados por aviões liderados pelos EUA, tropas curdas iraquianas tomaram, na 5ª-feira, parte de uma rodovia que é usada como linha vital de suprimento pelo Grupo do Estado Islâmico, passo inicial vital numa grande ofensiva para retomar dos militantes a estratégica cidade de Sinjar (...).
Horas depois, ainda na 5ª-feira, o Conselho Curdo de Segurança Regional disse que sua forças já controlavam o trecho da rodovia 47 que passa por Sinjar e conecta indiretamente as duas grandes fortalezas dos militantes -Raqqa na Síria e Mosul no norte do Iraque - como via de trânsito de bens, armas e combatentes (...). 'Ao controlar a Rodovia 47, usada pelo Daesh para transportar armas, combatentes, petróleo contrabandeado e outros itens que financiam suas operações, a coalizão visa a aumentar a pressão (...) e isolar seus componentes, uns dos outros' - disse a coalizão, em declaração." ["U.S.-Backed Kurds Launch Offensive To Retake ISIS-Held Iraqi Town Sinjar", Huffington Post]
Ah! Quer dizer que lançaram grande ofensiva por solo, e cortaram vias vitais de suprimento do ISIS? Que grande ideia! Pena, só, que ninguém em Washington tenha pensado nisso antes de perder os últimos 18 meses por lá, fazendo mira em camelos no deserto, ou sabe-se lá o quê, diabos, estavam fazendo.
E por que o Pentágono ficou por ali rodando feito barata tonta durante um ano e meio, enquanto aqueles alucinados violentavam mulheres, degolavam pessoas e faziam o inferno por todo o país, se já poderia, há tanto tempo, ter posto fim à matança, se quisesse?
"Por quê"? Já lhes explico por quê.
Porque o ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico é o fantoche preferido de Washington. Os doidos podem fazer lá "o negócio deles", desde que continuem a fazer avançar os objetivos geopolíticos dos EUA. Quando tiverem deixado de servir aos interesses de Washington... então poderão ser esmagados sem dó. O programa básico era esse. A coisa deveria ter funcionado assim.
Problema é que, quando Putin passou a moer os bandidos takfiris como colheitadeira em milharal, a turma de Obama teve de passar logo para o Plano B: ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico e implantar-se nas áreas que estavam sob controle deles. Assim Tio Sam ficaria com todo o território de que precisava para implantar suas "zonas seguras", a serem protegidas pela aviação dos EUA e servirão como santuário para formar mais levas e levas de terroristas sociopatas a serem reintroduzidos na Síria, para assim perpetuar a guerra. Resumida num parágrafo, essa é a estratégia dos EUA.
Washington já sabe agora que aquela guerra está perdida, e procura meios para manter um pé na Síria, para dar continuidade aos seus malfeitos por ali. O mesmo vale para a fronteira turco-síria, onde o sultão Recep Tayyip Erdogan conspira com Obama para criar uma zona-tampão em território sírio. Vejam o que diz Today's Zaman:
"Na campanha para as eleições de 1º de novembro, houve sinais de que, se o Partido Justiça e Desenvolvimento (tur.AKP) vencesse, a Turquia poderia iniciar operação militar na Síria (...).
Considerando as declarações de autoridades de Ancara, nos dias que antecedem a reunião de cúpula do G-20 em Antalya, tudo sugere que muito em breve haverá ação na Síria. Não importa o quanto Ancara diga que deseja cooperar na ação aérea sobre a Síria, o único fato objetivo é que Ankara deseja ver tropas turcas a invadir a Síria também por terra (...)
Surgem já sinais rápidos e furiosos de que a Turquia entrará nessa guerra. Ainda mais, os sinais já não são só declarações partidárias do AKP: já há sinais em todo o ocidente de que esse será o rumo que Ancara escolherá." ("Is war on the horizon?", Today's Zaman)
Erdogan é megalomaníaco, uma ameaça que Putin bem fará se mantiver sob cerrada vigilância. O mesmo vale para Obama. Obama está por baixo, mas ainda não foi expulso da guerra. Obama ainda tem alguns truques na manga, que com certeza usará antes de essa tragédia chegar ao fim. Seja como for, a vantagem está agora, sem dúvida, do lado dos russos. Putin deu uma surra em Washington, pelas regras do jogo que Washington escolheu.
Goste-se ou não dele, é preciso tirar o chapéu para um sujeito desses. *****
Mike Whitney, Greanvillepost, vol. IX, 2015+

E que importância tem isso?

De fato, os Democratas tem políticas idênticas às dos Republicanos [orig. Great Old Party, GOP], com mínimas alterações de rodapé. Assim, se os alucinados, mas estúpidos Republicanos decidem afundar os EUA na guerra, servindo-se de um pacote de mentiras, os Democratas espertalhões se dedicarão a superá-los, mas pela via 'espertíssima': tentarão fazer a microgestão das Relações Públicas, marketarão todos os discursos, porão de joelhos qualquer jornalismo decente que ainda haja no país; impedirão movimentos pacifistas, proibirão marchas antiguerra e negarão sempre qualquer baixa nas forças norte-americana, custe o que custar. Obama é sucesso total em todas essas manobras sujas. 
Para todos os efeitos, os Democratas criaram a primeira guerra norte-americana completamente invisível. Aí está uma grande realização do governo Obama, né-não?! 
Kuweires é a Stalingrado da Síria - a cidade russa que, na 2ª Guerra Mundial sobreviveu sitiada de agosto de 1942 a fevereiro de 1943, quando a Wehrmacht alemã foi repelida pelo feroz Exército Vermelho soviético, na mais longa e sangrenta batalha de toda a história de todas as guerras. Em Kuweires a escala é menor, de outra ordem de magnitude, mas a importância desse combate não poderia ser maior. 
Quem saiu derrotado na batalha por Kuweires não foi algum "ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico" - o único grande estado/exército combatente em toda a história do mundo que não tem território, recebe armamento de presente, que cai dos céus, entregue de helicópteros sem identificação, e que não tem nem nome definido.
Dessa vez, a política dos Democratas de Obama (e também dos Republicanos de Bush) foi derrotada pelos jatos russos, pela artilharia pesada dos russos, pelos veículos blindados russos e pela competência, coragem e dedicação de soldados e políticos que, esses sim, põem o próprio país e o próprio povo à frente de interesses grupelhistas e à frente, até, da própria segurança pessoal. Estão começando a entender o quadro geral?
Essa é a tarefa à qual se aplicaram Putin e seus parceiros liquidadores - não promotores e armadores e apoiadores - de terroristas. Impossível não ver que estão fazendo belo serviço também aí.




 
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Terrorismo religioso

19.11.2015 | Fonte de informações: 

Pravda.ru


Segundo  José Farhat  não existe terrorismo religioso. O que ocorre, na realidade, é o uso indevido da religião para a realização de interesses de pessoas, de grupos ou até mesmo de países, ou ainda de grupo de países. Leia a análise do presidente em exercício do ICArabe, José Farhat.O termo "terrorismo" talvez seja aquele sobre cujo significado círculos governamentais e acadêmicos têm discutido mais que qualquer outro conceito nos últimos tempos. Este é um fato cujas implicações, diferentemente de quaisquer outras, certamente são perigosas, principalmente para a área governamental, a militar em primeiro lugar.
16/11/2015 | José Farhat

Note-se que para os Estados Unidos existem três definições oficiais para terrorismo.
De acordo com o Departamento de Defesa: "Terrorismo é o uso calculado da violência ou a ameaça de violência para inculcar o medo, com a intenção de forçar ou intimidar governos ou sociedades a perseguirem os objetivos que geralmente são políticos, religiosos, ou ideológicos".
Para o Departamento de Estado, "Terrorismo é a violência premeditada, politicamente motivada perpetrada contra objetivos não combatentes por grupos subnacionais ou agentes clandestinos, usualmente pretendendo influenciar uma audiência".
Finalmente, a definição para o Departamento da Justiça: "Terrorismo é o uso ilegal de força ou violência contra pessoas ou propriedades para intimidar ou coagir o governo, a população civil, ou qualquer segmento, em apoio a objetivos políticos ou sociais".
Nenhuma dessas definições combina com a definição do governo do Reino Unido, constante da Lei da Prevenção contra o Terrorismo, de 2000, que reza: "Terrorismo é o uso ou a ameaça, com o propósito de fazer avançar uma causa política, religiosa, ou ideológica, de ação violenta contra qualquer pessoa ou propriedade, arriscando a vida ou a saúde ou a segurança do público ou de parte do público".
A Lei Patriot, de 2001, dos Estados Unidos traz duas definições separadas de terrorismo, cada qual mais longa e mais complicada.
Tendo em vista que terrorismo é um fenômeno internacional, uma definição aceita por todo o planeta é essencial.
Na ausência de uma definição global, o debate do relacionamento, se existir, entre o próprio terrorismo e a resistência à ocupação militar ou colonial, por exemplo, e ao próprio uso da religião como razão do terrorismo, que o assunto que nos interessa aqui, continuará sem solução. Há uma necessidade premente, urgente, de uma definição objetiva para que se possa formular políticas e programas de controle do terrorismo, evitando discussões infindáveis que a nada têm levado e talvez até agravado o surgimento de movimentos que podem ser ou não atribuídos ao terrorismo, dependendo do interesse de cada parte.
O que infelizmente tem acontecido é que algumas grandes potências preferem a escuridão às definições, tentando evitar que seus atos de violência ímpar sejam discutidos no contexto do terrorismo. Isto se tornou evidente com o que se seguiu aos atos terroristas de 11 de Setembro contra os Estados Unidos. A chamada "guerra contra o terror" declarada pelos Estados Unidos e um seleto grupo de seus aliados subordinados não querem uma definição precisa de terrorismo, preferindo que este seja definido como ação de grupos não governamentais, a fim de tentar iludir sobre a natureza terrorista mesmo de seus próprios atos.
Fatos não faltam! Não adianta querer mentir para a opinião pública planetária: matar pessoas inocentes por organizações tais como Al-Qaida é terrorismo, mas matar pessoas inocentes cidadãos do Afeganistão, do Iraque, da Somália, da Líbia, da Síria, do Kosovo e tantos outros rincões da terra, por alianças imperialistas, absolutamente não é terrorismo.
Uma lista de vinte e dois grupos terroristas que Washington publicou em novembro de 2001 incluía o libanês Hizbullah e, por esta razão, seus bens nos Estados Unidos foram congelados, enquanto o governo libanês recusava seguir o comportamento estadunidense, argumentando fazer distinção clara entre organizações que praticam o terrorismo e aquelas que têm como objetivo libertar seus países ou territórios ocupados por todos os meios a seu alcance. Lembremos que o Hizbullah foi criado na região sulina do Líbano quando estava submetida à ocupação israelense.
A posição do governo libanês continua a mesma até hoje, quinze anos após a retirada das forças israelenses do sul do Líbano, em 25 de maio de 2000. Declaração do Ministério das Relações Exteriores do Líbano reitera "o direito do Líbano para libertar o território restante ainda sob a ocupação israelense". Israel ainda ocupa a vila de Ghajar, as fazendas de Shebaa e as colinas de Kfar Shuba. O Líbano baseia sua pretensão contando com as forças de resistência à ocupação encabeçada pelo Hizbullah aliado ao Exército e outras organizações libanesas e não conta obviamente com os Estados Unidos, principais apoiadores de Israel.
Chega a ser demonstração de falta de vergonha argumentar que a morte de milhares de cidadãos inocentes de um país soberano pode ser considerada dano marginal na perseguição e morte de um punhado de terroristas enquanto Estados Unidos e seus ambiciosos aliados imperialistas esbanjam recursos fabulosos em gastos militares usadas contra países militarmente fracos e ainda se dão ao luxo de determinar o contexto e o paradigma nos quais suas políticas externas devem ser discutidas.
Esta é o padrão de duplicidade que as grandes potencias usam e querem impor a todas as nações no trato do assunto de terrorismo, dificultando a aceitação da definição do terrorismo, abrindo o campo para que cometam seus crimes.
De fato, atacar pessoas inocentes, independentemente de suas nacionalidades, pertencentes a qualquer grupo religioso, étnico ou ideológico, quer organizados em exércitos nacionais portadores de uniformes e bandeiras nacionais ou pessoas pertencentes a organizações clandestinas tais como Al-Qaida, devem ser igualmente consideradas terroristas.
Terrorista é terrorista e o adjetivo não deve ser usado, hora sim hora não, de acordo com a atuação momentânea da organização em questão se está agindo ou não de acordo com o interesse das grandes potencias encabeçadas pelos Estados Unidos.

Antes de tudo, é de grande importância esclarecer que não existe terrorismo religioso. O que ocorre, na realidade, é o uso indevido da religião para a realização de interesses de pessoas, ou de grupos e ou até mesmo de países ou ainda de grupo de países. Essa definição é fictícia. Estão usando a religião para transformar a situação atual de países árabes e muçulmanos e para instalar governos de orientação supostamente religiosa, porém obedientes às política ditadas pelas grandes potências.
Esses interesses, nem sempre estão de acordo com a religião, pelo contrário. O que fazem é um desrespeito tremendo contra os direitos humanos, por tudo aquilo que, de fato, interessa aos países árabes e muçulmanos: emprego, saúde, alimentação e tudo aquilo que os países produtores de petróleo, por exemplo, poderiam dar e não dão.
Ao ser proposto um debate sobre "Terrorismo Religioso" o caminho que se abre é o do terrorismo relacionado com o Islã. Esta é a Religião que vem imediatamente às mentes mal informadas e que vem sendo martelada sem cessar nas fontes de informações dirigidas.
Baruch Kopel Goldstein (1956-1994), na manhã de 25 de abril de 1994, às 05:00 horas da manhã, vestido com seu uniforme do exército israelense, enquanto 800 palestinos muçulmanos rezavam na Cava dos Patriarcas, um lugar sagrado para muçulmanos e judeus, fez com que os guardas israelenses o deixassem passar com seu rifle de assalto IMI Galil, 4.900 projéteis e inúmeras granadas, posicionou-se na única porta de saída, atrás dos muçulmanos que rezavam e abriu fogo: matou 29 pessoas e feriu 125. Foi obviamente dominado e surrado até à morte. Ele está enterrado sob um monumento para supostamente homenagear a sua coragem em prol da religião, a religião dele obviamente. Ele é considerado por seus irmãos de fé que ocupam à força terras que não lhes pertence como um herói e os palestinos, mortos ou vivos, mulheres idosos e crianças incluídos, são os terroristas.
Este poderia ser um exemplo de terrorismo religioso, pois este foi o único móvel para o crime de Goldstein na mesquita e na ocupação das terras palestinas, pois acreditava e seus pares acreditam que a terra lhes foi doada por Deus. Aqui neste recinto dificilmente encontraremos alguém que já ouviu falar nele. Os palestinos, sem distinção dos cristãos entre eles, são considerados terroristas islâmicos quando reivindicam politicamente a posse de suas terras e os sionistas nem são taxados de terroristas religiosos apesar do seu óbvio comportamento.
Vamos analisar algumas das pedras arremetidas contra o Islã e os muçulmanos.
O fundamentalismo é qualquer corrente, movimento ou atitude, de cunho conservador e integrista, que enfatiza a obediência rigorosa e literal a princípios básicos que remete a um livro sagrado. Há o fundamentalismo judeu, o cristão e o islâmico, mas só este é objeto de crítica ignorante e só ele é usado por certos muçulmanos para fins políticos criminosos; como é o caso da Arábia Saudita no Iêmen.
Fundamentalismo é o termo usado para o esforço de definir os fundamentos de uma religião e eventualmente aderir a eles. No caso do Islã, o objetivo principal de seu fundamentalismo é a proteção da pureza dos preceitos islâmicos evitando suas adulterações. Renascimento e ressurgimento e um renovado interesse no Islã. Atrás de tudo isto há um impulso visando a purificação do Islã, a fim de permitir o reaparecimento de toda a sua força vital.
É aí que surgem dois perigos que poderíamos chamar de internos, de dentro do círculo religioso: o primeiro é saber se aquele que se esforçou para definir os fundamentos da religião é confiável e o segundo, derivado ou associado àquele, é a possibilidade de uso indevido dos fundamentos mal interpretados para fins que colidem com os próprios fundamentos do Islã. Um terceiro perigo visto de fora do Islã poderá interpretar os dois perigos anteriores de acordo com o seu entendimento ou pior ainda, em relação a seus interesses, estranho ou contrário ao Islã.
O muçulmano deve interpretar corretamente a Sharia e deve aplicá-la na existência individual e coletiva, o que é objeto do Fiqh, o qual como os outros conhecimentos religiosos de caráter não jurídicos, se inspira em quatro grandes fontes: (1) o Corão; (2) a tradição (Sunna) do Profeta definida pelo conjunto dos Hadiths; (3) a (Quiyâs) dedução por analogia no caso de ausência de menção explícita no Corão e na Sunna; e, (4) a Ijmâ', consenso da comunidade dos crentes a qual segundo os ensinamentos do Profeta "não será jamais unânime no erro".
O conjunto das regras éticas que derivam da Sharia garantiram durante longos séculos a estabilidade e a harmonia da sociedade muçulmana, estruturando-a e garantindo sua coerência. Essas regras não vieram de convenções sociais e sim de ordem divina.
Deve ser reconhecido que no conjunto do mundo islâmico a Sharia tem sido contestada, especialmente de parte da juventude que, igual à juventude dos continentes, da Europa à America, rejeitam usos antigos e rejeitam toda forma de usos antigos e suportam cada vez menos toda forma de disciplina e de autoridade.
Tanto para esta juventude atual quanto para aqueles que guardam graus de fidelidade às tradições, nem tudo está perdido, muito pelo contrário, porque o abrandamento está previsto na própria Sharia através de Hadith do Profeta quando afirma: "Aquele que no início do Islã negligencia um décimo por cento da Lei estará perdido; mas aquele que, no final, guardará um décimo, será salvo".
O Corão explica: "A verdadeira piedade não está em voltardes as faces para o Levante ou para o Poente. O homem bom é aquele que crê em Deus". (Alcorão II:177) Suratu Al-Baqarah).
Depois de todos estes meios de conhecer o Islã vem a pergunta que interessa a este certame que se resume em saber como ficam organizações como por exemplo a Daesh, também chamada ISIS e igualmente EI que diz lutar pelo estabelecimento de um califado islâmico, começando com a Síria e o Iraque?
Ficou muito claro, em tudo o que foi dito até agora, que apesar do abrandamento previsto, não há como justificar as barbaridades que a mencionada organização vem cometendo, os crimes que vem praticando e principalmente usar o nome de Deus para justificar seus atos. O Corão é muito claro a este respeito quando determina: "E quem luta [pela causa de Deus], apenas luta em benefício de si mesmo. Por certo, Deus prescinde de toda a humanidade".(Alcorão II:177 Suratu Al-Baqarah). A luta a que se refere este versículo é o jihad, traduzido erroneamente por "guerra santa" no Ocidente. Jihad é esforço, luta. Porém levantar bandeiras em nome de Deus e cometer crimes contra a humanidade não é lutar, entrar emjihad em benefício de Deus, é crime que como vimos ao longo do que foi dito, não é aceito pelo Islã.
O espetáculo horripilante de ver dezenas de cristãos sendo levados para serem degolados, simplesmente por serem cristãos, é uma prova, entre as centenas que esta organização criminosa tem fornecido para condená-la por seus crimes contrários ao Islã e suas regras, daSharia islâmica. Matar cristãos contraria preceitos islâmicos fundamentais, conforme consta do Corão quando estabelece as seguintes regras:
"E não discutais com os seguidores do Livro senão da melhor maneira - exceto com os que, dentre eles, são injustos e dizei: 'Cremos no que foi descido para nós e no que fora descido para vós; e nosso Deus e vosso Deus é Um só. E para Ele somos submissos'" (Alcorão XXIX:46 Suratu Al-Ankabut). Este versículo é claro: os seguidores do Livro são os cristãos e os judeus e a eles é determinado um tratamento privilegiado, são claramente considerados como se muçulmanos fossem, principalmente quando é dito que Deus, para muçulmanos, cristãos e judeus é um só e todos os três são a Ele submissos. Submisso é a tradução do árabe para muçulmano, o que evidencia que todos pertencem a uma só religião.
O Corão reforça a recomendação do tratamento digno a ser dado aos portadores do Livro (cristãos e judeus) em vários outros versículos. Destacamos mais um versículo que diretamente condena os ditos promotores do pretendido estado islâmico e determina como o muçulmano deve proceder com relação aos portadores do Livro: "E, por certo, há, dentre os seguidores do Livro, os que creem em Deus, e no que fora descido para eles, sendo humildes para com Deus, não vendendo os sinais de Deus por ínfimo preço. Esses terão seu prêmio junto de seu Senhor. Por certo, Deus é destro no ajuste de contas". Seguindo as regras do Corão, o sangue dos cristãos coptas egípcios, trabalhadores engenheiros cumpridores de seus deveres, clamará por justiça, neste e em qualquer outro mundo e os criminosos receberão sua conta.
Esses criminosos não cumprem o que manda a religião não somente no caso de portadores do Livro e sim com relação a outros muçulmanos, usando o nome de Deus e da Religião. Isto está claro no Corão quando diz: "[...] E não mateis a alma que Deus proibiu matar, exceto se com justa razão. Eis o que ele recomenda para razoardes." (Alcorão VI:151 Suratu Al-Na'am).
O tal Estado Islâmico cometendo as transgressões que comete contra a Sharia e principalmente aos preceitos do Corão, não está relacionado ao Islã e jamais se poderia dizer que comete "terrorismo religioso".
O terrorismo religioso não existe, o que é comum através do tempo e do espaço, são atos terroristas usando e abusando da religião.
O Estado Islâmico usa a religião para erroneamente justificar suas ambições e suas ações.

Palestra proferida no Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP) em 27/05/2015 e aqui publicada, em 13/11/2015, em memória dos inocentes mortos vítimas dos assassinos que usam a Religião contrariando as suas próprias regras sagradas.

José Farhat - Formado em Ciências Políticas (USJ-Beirute) e Propaganda e Marketing (ESPM-São Paulo), tem cursos de extensão ou pós-graduação em: Comércio Exterior (FGV-São Paulo), Introdução à Teoria Política (PUC-São Paulo), Direito Internacional (PUC-SP) e cursou Filosofia no Collège Patriarcal Grec-Catholique (CPGC-Beirute). Domina os idiomas: Árabe, Francês, Inglês e Português e tem artigos publicados sobre Política Internacional, no Brasil e no Líbano. É ex-Diretor Executivo e atual Conselheiro do Conselho Superior de Administração da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira; foi Superintendente de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e é seu atual membro do Conselho de Comércio e atual Diretor do Centro do Comércio do Estado de São Paulo. É vice-presidente do Instituto da Cultura Árabe. http://josefarhat.wordpress.com

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