sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
Lições da NEP soviética para «Economia Socialista de Mercado» da China Popular
por Thomas Kenny**
Autores marxistas ocidentais de vários pontos de vista asseveram que a Nova Política Económica (NEP) prenunciou a Economia Socialista de Mercado (ESM). Um autor observou: «A ordem social que atualmente se considera válida na China apresenta-se como uma espécie de NEP gigantesca e expandida», (Losurdo, 2000, 498). De forma semelhante, um panfleto recente dos comunistas britânicos comparou a China dos dias de hoje, com a sua economia socialista de mercado, à NEP da Rússia Soviética na década de 1920. «Em defesa da NEP, Lénine elaborou muitos dos mesmos pontos que Deng Xiaoping e representantes do Partido Comunista Chinês elaboram hoje (...) Naturalmente, a China no último quartel do século XX não era a Rússia no primeiro quartel. Mas as suas crises apresentam sintomas semelhantes. E os seus remédios assemelham-se fortemente uns com os outros» (China's Line of March 2006, 32).
Este documento partilha a visão de que a NEP é de fato uma precursora da ESM. Chega-se à conclusão, no entanto, não de que a NEP tenha sido um êxito, o precursor abortado da ESM, mas ao contrário de que a NEP conta-nos antecipadamente as contradições e limites da ESM.
*www.resistir.info/varios/socialismo_de_mercado.html
**Autor de O Socialismo Traído, Por Trás do Colapso da URSS, Roger Keeren e Thomas kenny, Edições «Avante!», 2008.
1Da mesma forma, um académico norte-americano, AIbert L. Sargis, escreve na revista teórica e de discussão do CPUSA, que a NEP foi «uma economia socialista de mercado em forma embrionária» (Sargis 2004).
2A comparação de experiências revolucionárias tão remotas no espaço e no tempo como a NEP da Rússia e a ESM da China é certamente apropriada. Exemplo: a Comuna de Paris de 1871 e a Revolução de Outubro de 1917 tiveram lugar em circunstâncias totalmente diferentes. Mas a partir da Comuna, Marx fez importantes generalizações teóricas acerca da natureza do poder de Estado e das exigências da transformação revolucionária aplicáveis noutros lugares. Em 1917 Lénine testou-as na prática. Uma abordagem científica da história exige uma pesquisa de tais padrões. «Uma característica fundamental da historiografia anti-marxista é a absolutização do particular, do que é nacionalmente específico (...) Pois os anti-marxistas temem generalizações (...) eles evitam cuidadosamente conceitos que possam sugerir regularidades no desenvolvimento da sociedade». (E. Júkov, Methodology of History, Moscow: USSR Academy of Sciences, 1983, 56). É o caso do «excepcionalismo americano», um erro ideológico recorrente no movimento da esquerda dos EUA. O «excepcionalismo chinês» é um desvio nacionalista na esfera da teoria.
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NEP e ESM: essencialmente o mesmo
Ironicamente, podem-se encontrar eminentes economistas chineses a negarem a conexão entre a NEP e a ESM ou, pelo menos, relutantes em afirmá-la. Um destacado economista chinês pró-mercado, o falecido Xue Mukiao, enfatizou a dissemelhança entre a NEP e a ESM.3 Tal dissociação é pouco convincente. A NEP é semelhante à ESM em todos os aspectos chave. Na finalidade e no conteúdo de classe a NEP e a ESM são idênticas: aumentar a riqueza da classe trabalhadora, do Estado socialista, através de uma política que necessita do crescimento de novas classes que são objectivamente hostis à construção socialista. As suas principais políticas são idênticas. Ambas promovem mecanismos de mercado, a propriedade privada, a concorrência, a integração na economia capitalista externa. Os seus resultados tiveram a mesma sequência. Ambas, após o êxito inicial, entraram em crise porque eram auto-contraditórias. Em teoria, eram idênticas. Desenvolveram-se e realizaram a recuperação das forças produtivas recuando para relações capitalistas de produção historicamente ultrapassadas, discordantes dos objectivos socialistas de um Estado dos trabalhadores. Finalmente, as suas crises foram as mesmas, como veremos abaixo.4
3Xue parece pensar que o apoio anterior a 1949 dos camponeses chineses à revolução – tornando desnecessária qualquer NEP pós-revolucionária para restaurar a aliança dos operários com o campesinato – torna a China diferente da Rússia (Xue Mukiao, 1981, 3). Xue asseverou: «Ele [Lénine] avançou com a NEP numa tentativa de controlar a pequena economia camponesa através do mercado mediante o desenvolvimento do comércio estatal e cooperativo (...) A situação na China era diferente». Xue continua este raciocínio, afirmando que a Revolução Chinesa já havia desenvolvido «cooperativas de abastecimento e comercialização» em zonas libertadas antes de 1949, separando politicamente os camponeses do latifundismo e ganhando-os para a revolução. A inexistência da necessidade na China de se perseguir o objectivo político da NEP – reconquistar o apoio político do campesinato – é um fraco argumento para demonstrar a não semelhança entre a NEP e a ESM. No entanto, indirectamente e talvez involuntariamente, Xue admite que a NEP foi adoptada em condições de necessidade genuína e que a ESM não era necessária no mesmo sentido estrito. A visão de Xue é uma posição mistificadora para um académico chinês. É bem sabido que Deng Xiaoping se mostrou profundamente interessado em aprender tudo o que podia acerca da NEP através do industrial dos EUA, Armand Hammer, que a conheceu em primeira-mão (http://www.reference.com/browse/wiki/Deng_ Xiaoping). Possivelmente, muitas décadas de anti-sovietismo no discurso político chinês desencorajam comparações sino-soviéticas. A doutrina da «etapa primária do socialismo» ligada a uma teoria sobre 1989-91 oferece poucos incentivos para tais comparações, já que, para os Estados socialistas do Leste Europeu e a União Soviética tudo correu mal e a história pronunciou o seu veredicto. Um eminente pensador chinês escreveu que os Estados que caíram já não tinham nada de socialistas (ver Zhongkiao Duan, 1998, 224). Desde que isto aconteceu, houve tantas guinadas na política económica da China Popular que o período inicial, isto é, o período de 1949-56, é muito mais semelhante à NEP do que a própria ESM (Slakovsky 1972, 153).
4Obviamente, existem diferenças entre a NEP e a ESM. Primeiro, decorrem em diferentes circunstâncias históricas. A Rússia pré-1914 era um país capitalista de desenvolvimento médio, que foi arruinado pela I Guerra Mundial, pela intervenção estrangeira e pela guerra civil. No início da NEP, o governo de Lénine estava em perigo de perder o apoio do campesinato. Em 1949, a China era um país semi-feudal e semi-colonial; em 1978 a China havia perdido anos preciosos de desenvolvimento devido a políticas precipitadas, ultra-esquerdistas, aventureiras. Segundo, a ESM perdurou muito mais tempo. Certamente que a sensibilidade da China Popular ao perigo da perda de soberania nacional é um factor na paciência com que tanto as autoridades como o povo têm suportado as agudas contradições da ESM (ver Weil, 1996, 83). Além disso, a paciência chinesa é compreensível; arrancar da pobreza 400 milhões de chineses entre 1990 e 2
As bases da NEP
Recordemos o que foi a NEP. Em Março de 1921, após a rebelião do Kronstadt contra as políticas bolcheviques, o X Congresso do Partido Comunista Russo reuniu-se e ouviu Lénine argumentar em favor de um novo rumo na política soviética. Lénine argumentou a favor do que denominou «capitalismo de Estado», que deveria realizar-se nas seguintes formas: 1) joint-ventures com o estrangeiro e mesmo propriedade estrangeira de empresas («concessões»); 2) cooperativas baseadas nos princípios de mercado; 3) utilização de comerciantes capitalistas, bem como administradores económicos e especialistas técnicos treinados em métodos capitalistas de gestão e organização; e 4) o arrendamento de empresas de propriedade estatal e de recursos naturais tanto a capitalistas estrangeiros como nacionais. As empresas estatais, que controlavam os «níveis de comando», eram auto-suficientes e operavam segundo o princípio dos lucros e perdas, abastecendo-se elas próprias dos seus activos circulantes (Sargis, 2004).
Por que acabou a NEP?
A maior parte dos partidários do socialismo, incluindo este autor, encara a NEP sob uma luz positiva, como um expediente de curto prazo que teve êxito ao ajudar a Rússia revolucionária a sair de uma crise económica. Lénine provou estar certo: depois de ter sido restaurado o livre comércio nos cereais, a NEP teve êxito imediato. Mas no fim da década de 1920, contudo, a NEP terminou porque estava a aprofundar a crise e não por causa dos poderes arbitrários e excessivos de Stáline, como é muitas vezes apregoado.5
2003, segundo dados da OMC, é um feito estupendo. Terceiro, as perspectivas são qualitativamente diferentes. Na Rússia, a NEP foi vista como um recuo temporário para o «capitalismo de Estado». A China Popular abraçou todas as novas doutrinas do desenvolvimento, alongando a transição para o socialismo. Quarto, a Rússia Soviética cercada tinha o mundo externo hostil a pouco distância, interagindo com ele meramente através de acordos de paz e acordos comerciais. O Estado soviético permaneceu em grande medida economicamente autónomo. Em contraste, a China procurou a integração impetuosa na economia capitalista mundial. Quinto, na Rússia da NEP, o Partido mantinha uma vigilância estrita sobre a economia. As autoridades em Pequim, talvez porque o fenómeno de uma grande crise só amadureceu mais tarde, até recentemente transferiam grande parte da supervisão da economia para organismos regionais e locais. Sexto, durante grande parte da época da ESM, de 1978 até 1991, o alvo principal da hostilidade, pressão e subversão imperialista era a URSS, não a China Popular.
5 No ocidente capitalista, a NEP é um «terreno contestado» numa recorrente batalha ideológica entre comunismo e reformismo. Até 1985, a NEP constituiu a época da história soviética em que foi dada mais liberdade ao capitalismo. Assim, naturalmente, os reformistas sociais, reformistas liberais e comunistas revisionistas idealizam a NEP, mitologizando-a saudosamente como «o caminho não seguido». Na batalha para mudar de direcção em 1921, certas frases de Lénine – por exemplo, de que a NEP seria prosseguida «seriamente» e «por um longo período», forneceram aos oportunistas uma base documental para argumentar que o líder russo encarava a NEP como a nova rota permanente para o socialismo soviético. Já na década de 1930, o social-democrata austríaco Otto Bauer exprimiu a esperança de que a experiência da NEP poderia eventualmente suavizar o bolchevismo e conduzi-lo de volta à corrente principal do social-reformismo europeu. Em 1956, comunistas revisionistas húngaros, sob Imre Nagy, promoveram esta mesma imagem da NEP, tal como o fez mais tarde Ota Sik, conselheiro principal do 3
Múltiplas crises levaram a liderança soviética a terminar a NEP.6
A NEP trouxe mais cereais para as cidades (isto é, aumentou as forças produtivas), através do aumento dos incentivos para os camponeses, especialmente camponeses ricos (kulaks), na base dos antigos incentivos embutidos nas velhas relações de produção. Mas estas mesmas relações de produção pré-revolucionárias restauradas pelos bolcheviques deram o poder aos kulaks de reter os cereais do mercado na esperança de obterem preços mais elevados.
Num dado momento, a NEP restaurou rapidamente a aliança operário-camponesa, mas fê-lo à custa do fortalecimento dos inimigos de classe internos – os kulaks e os NEPmen 7 – dando-lhes, objectivamente, especialmente aos últimos, uma capacidade crescente de determinar o ritmo da construção socialista. Portanto, no curto prazo, a NEP apaziguou o campo mas, a longo prazo, fortaleceu inevitavelmente as classes opostas à construção socialista. Além disso, alienou a classe social para a qual o sistema devia orientar-se, a classe trabalhadora.
O Estado soviético lutou arduamente para debelar as contradições, mas estas não podiam ser eliminadas e tenderam a agudizar-se ao longo do tempo. Aumentaram as
revisionista checoslovaco Alexander Dubcek, em 1967-68. O historiador Roi Medvédev, um apoiante de Gorbatchov, louvou a NEP como «a mais vital contribuição de Lénine para a teoria e a prática do movimento socialista». Analogamente, a antiga e influente conselheira de Gorbatchov, Tatiana Zaslávskaia, promoveu a NEP como o modelo das reformas a partir de 1986. O analista de assuntos soviéticos do The Nation, Stephen F. Cohen, declarou: «Dito de uma forma simples, o Partido Comunista Chinês reabilitou a alternativa económica perdida com o stalinismo (...) a NEP, que estabeleceu uma economia mista, foi o primeiro experimento do socialismo de mercado». Nas suas memórias, Anatoli Cherniáev, um ajudante de topo de Gorbatchov, conta que depois de ter lido a biografia de Bukhárine, de Stephen F. Cohen, Gorbatchov – um bukharinista simplesmente inconsciente até então – decidiu reabilitar Bukhárine e adoptou-o como padrinho ideológico, por assim dizer, da perestróika. Alguns neo-bukharinistas dos dias de hoje, indo mais além do que o próprio Bukhárine ousou, fazem-se eco de economistas neoliberais tais como Ludwing von Mises e Friedrich Hayek, que argumentavam que apenas «mercados livres» permitem a formação racional do preço e a eficiência distributiva. Os mercados «livres», apregoam esses neo-bukharinistas, são superiores ao planeamento central pelo menos no presente estado da ciência.
6Um comunista italiano coloca o problema de modo claro: «A maior parte dos historiadores está bem consciente das contradições que acabaram por levar à crise da NEP no fim da década de 1920» (Boffa, 1982, 178). Primeiro, o mercado criou instabilidade, como por exemplo a crise das «tesouras» de 1922-23, na qual a acentuada flutuação dos preços dos cereais provocaram escassez alimentar e desemprego entre trabalhadores, prejudicando camponeses pobres e muitos camponeses médios, mas beneficiando camponeses ricos, isto é, kulaks. Segundo, os sovietes perceberam que as políticas da NEP condenavam a União Soviética a um período prolongado de atraso industrial, uma perspectiva inaceitável face aos boicotes e provável invasão por países ocidentais – sem mencionar o objectivo supremo de uma sociedade socialista próspera apenas possível na base da moderna indústria pesada. Terceiro, em 1927-28 a ideia de que os mecanismos de mercado, por si só, seriam suficientes para alimentar as cidades foi completamente destroçada quando, face à descida dos preços, os provocadores kulaks açambarcaram os cereais deixando as cidades confrontadas com a fome. A NEP também engendrou crescentes contradições políticas internas, como o crescimento de um nacionalismo pernicioso. Quando a situação internacional se agravou, as crises da NEP revelaram-se ingovernáveis.
7Os NEPmen eram comerciantes privados, uma nova burguesia que cresceu na época da NEP. (Ver Ball, 1987, 15-37).
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desigualdades no campo e os desequilíbrios na indústria. Diminuíram as possibilidades de crescimento rápido da indústria pesada socialista. Formas de consciência social instigando a agitação e o retrocesso ideológico atingiram o interior do Partido e ameaçavam a sua unidade.8 A corrupção floresceu.9 Entre 1921-28, o imperialismo utilizou a NEP, no quadro das relações externas, para se ingerir nos assuntos soviéticos.10 O fortalecimento económico da pequena burguesia levou ao crescimento do nacionalismo pequeno-burguês, que assumiu duas formas: o chauvinismo grão-russo e o separatismo nacionalista nas antigas nações subjugadas (Lénine e Stáline, 1979; Stáline 1953, 243 - 44). Quanto mais o fim da NEP fosse adiado, maior seria o custo de uma viragem para o planeamento e a propriedade pública. Em 1928, a maior parte dos líderes soviéticos concluiu que ou os kulaks estrangulariam a revolução ou o Estado soviético teria de descobrir um meio de cortar o nó górdio. A solução determinava que: a) O socialismo podia ser construído num só país através da industrialização rápida. b) A industrialização rápida podia ser financiada com o aumento do rendimento da agricultura através das cooperativas agrícolas e da mecanização. c) Um confronto com os kulaks seria inevitável. d) O crescimento da indústria e da agricultura podia ser coordenado através do planeamento central (Keeran e Kenny, 2004, 18).
O poder premonitório da NEP
Tal como a NEP, a ESM avançou e realizou a recuperação das forças produtivas através de um recuo para relações capitalistas de produção historicamente ultrapassadas, discordantes de outros objectivos socialistas a médio e longo prazo da China Popular. Se na verdade a NEP é a matriz da ESM, que fenómenos seria de esperar que ocorressem na China? Nós esperaríamos ver – e estamos a ver – o crescimento de forças de classe hostis dentro do país; corrupção no Partido; regressão ideológica; agitação social; desemprego; desigualdade crescente entre ricos e pobres; desigualdade entre regiões; privações e agitação no campo;11 condições gravosas para os imigrantes das zonas rurais em busca de trabalho nas cidades; abusos laborais, especialmente nas empresas controladas pelas corporações transnacionais (CTNs); distanciamento dos trabalhadores industriais e camponeses pobres em relação ao Partido; declínio dos serviços de saúde e educação (Hart-Landsberg and Burkett, 2004, 58-75).
Certas características especiais da ESM tornam a China Popular ainda mais vulnerável aos seus perigos do que a Rússia o foi durante a NEP. A inovação doutrinária da etapa primária de socialismo permitiu, até muito recentemente, uma atitude displicente em
8 «Durante a NEP, a burocracia, os administradores, os técnicos e a intelligentsia – o corpo dirigente da nova sociedade – era predominantemente, quase exclusivamente, constituído por elementos estranhos ao regime» (Carr, 1958, 116). A obra em vários volumes de Carr, A History of Soviet Russia, talvez seja o relato mais pormenorizado da NEP disponível em inglês.
9Sobre a corrupção da NEP, ver Ball 1987, 63, 106, 114, 116, 171.
10 O Acordo Anglo-Soviético de Comércio, no princípio da época da NEP, estipulava que os soviéticos tinham de restringir a «propaganda hostil» contra a Grã-Bretanha (Carr 1953, 289).
11«Corrupção, poluição, confisco de terras, taxas e impostos arbitrários estão entre as principais causas de uma vaga de agitação social. Os tumultos tornaram-se uma constante na vida rural da China – mais de 200 “incidentes maciços de protesto" verificaram-se diariamente em 2004, indicam as estatísticas da polícia – minando os esforços do partido para assegurar a estabilidade social» (Kahn 2006).
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relação aos sinais de aviso. A China tem uma integração muito mais plena na economia capitalista mundial, facto imposto por instituições tais como a Organização Mundial do Comércio (OMC). Desta integração resulta a facilidade de transmissão de choques económicos externos. A China permanece dependente de uma ordem política e militar dirigida pelo imperialismo. A pressão imperialista para desregulamentar o sistema financeiro da China e, mais amplamente, para enfraquecer o controlo do Estado sobre o conjunto da economia e «se abrir», persiste. Se a China procurar corrigir abusos laborais nas empresas propriedade das CTNs, estas ameaçarão reduzir ou suspender os investimentos no país.
Questões decorrentes para ESM da China
Se esta análise da NEP é correcta, então colocam-se logicamente certas questões.
A crise da ESM agravar-se-á forçosamente? A China conseguiu resultados extraordinários através do alargamento das relações capitalistas de produção, a mesma contradição que atormentou a NEP. Durante quanto mais tempo será a ESM sustentável? Para se por termo à NEP na União Soviética, em 1928-29, foi necessária uma luta demasiado sangrenta no campo, «uma terceira revolução», nas palavras de Bukhárine. Não será razoável pensar que a reversão do curso na China, se for adiada por «uma centena de anos»12, irá também exigir um preço demasiado alto? A nova doutrina da «etapa primária do socialismo», a estender-se quase infindavelmente no futuro, parece subestimar gravemente a velocidade da constituição de classes objectivamente hostis ao socialismo na China Popular.
Quais são as prováveis consequências da ESM na esfera da ideologia? Nos meados da década de 1920 os líderes soviéticos notaram a ascensão do nacionalismo pequeno-burguês. Poderá alguém avaliar o impacto ideológico regressivo da descolectivização e do retorno à propriedade privada em milhões de camponeses chineses?
Haverá um caminho de desenvolvimento para a China Popular que ofereça uma taxa de desenvolvimento das forças produtivas igual ou ainda mais rápida? No Primeiro Plano Quinquenal, quando a URSS superou a NEP, foram atingidas taxas anuais de crescimento industrial da ordem dos 13 por cento.13 Dado que a construção socialista significa ao mesmo tempo criar relações socialistas de produção e aumentar as forças produtivas, poderá fazer mais sentido aceitar um crescimento mais lento da produção se tal for exigido para dedicar
12«A China encontra-se e permanecerá por um longo período de tempo na fase primária do socialismo, etapa histórica inevitável na modernização socialista de um país atrasado do ponto de vista económico e cultural, que se prolongará por uma centena de anos» (Estatutos do Partido Comunista da China, parcialmente revistos no XVII Congresso Nacional do PCC e aprovados em 21 de Outubro de 2007, http://news.xinhuanet.com/english/2007-10/25/content_6944738.htm) [Link actualizado pelo editor da presente versão portuguesa].
13Um historiador económico contemporâneo dos EUA, Robert C. Allen, afirma que o ritmo da industrialização do Primeiro e Segundo Planos Quinquenais atingiu um crescimento de 12,7 por cento ano (2003, 219). Esta é uma visão semelhante à do economista marxista Maurice Dobb, que cita economistas burgueses anti-soviéticos nos Estados Unidos, os quais calcularam taxas de crescimento da produção industrial soviética pelo menos de 14 por cento entre 1929 e 1937 (1968, 261-62).
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mais atenção ao reforço da rede de segurança social e à recuperação do bem estar dos trabalhadores e camponeses?
Será totalmente inédito que fenómenos de crises inesperadas surjam na ESM fora do controlo das autoridades de Pequim? A NEP foi cheia de surpresas. As relações capitalistas de produção na China são vastas. A integração do país no sistema capitalista está avançada. Muitos – incluindo a Wall Street (Kahn 2005; Barboza 2006b) — temem a emergência de um dos maiores males do capitalismo, uma crise cíclica de sobreprodução ou, no jargão dos negócios, um crash após um longo boom. Os planeadores centrais em Pequim cederam muito poder à espontaneidade do mercado.14 Será que está posta em causa a capacidade do Estado de estabilizar uma economia estrepitosa e amortecer o impacto brutal de choques externos?
Haverá algum realismo em supor que o imperialismo consentirá uma «ascensão pacífica da China»?15 A NEP restringiu as «concessões estrangeiras» e confinou o comércio externo praticamente às trocas de cereais por maquinaria pesada. O peso da China na economia mundial tem aumentado. Mas a história teve episódios sinistros. Porventura a Grã-Bretanha imperialista aquiesceu à «ascensão pacífica» da Alemanha em 1870-1914? Ou a América imperialista aquiesceu à «ascensão pacífica» da URSS em 1945-91? A história mostra-nos que a China Popular terá de lutar pelo seu sistema socialista, pela sua independência nacional e pela paz. O imperialismo é inimigo destes três objectivos.
Se a ESM significa que a China continuará a pugnar pela sua integração num mundo política e economicamente dominado pelos EUA, como poderá este país socialista cumprir suas responsabilidades internacionalistas? Deverá a China procurar desenvolver-se atraindo investimentos estrangeiros e competindo no comércio exterior apenas na base dos salários baixos?16 Os interesses da classe trabalhadora da China não são os únicos que estão causa. Todos os amigos do socialismo chinês ficaram satisfeitos com os passos dados recentemente para melhorar os direitos laborais (Barboza 2006a). Quando a URSS alcançou milagres de produção nos primeiros dois Planos Quinquenais, revolucionários de todo o mundo ganharam ânimo. O prejuízo ideológico para o prestígio do socialismo provocado pela imagem da China – merecida ou não – como «fábrica do mundo com péssimas condições de trabalho» é grande.
14Monopólios transnacionais de propriedade ocidental e japonesa controlam cada vez mais a economia chinesa. A sua parte nas vendas totais de produtos manufacturados na China passou de 2,3 por cento em 1990 para 31,3 por cento em 2000 (Hart-Landsberg and Burkett 2004).
15A Foreign Affairs é uma revista chave no debate da classe dominante dos EUA acerca de política externa. Num artigo na Foreign Affairs, Zheng Bijian escreveu com a maior ingenuidade que uma «ascensão pacífica» dependia dos anseios da potência em ascensão, não dos armamentos da potência hegemónica, os EUA, armada até os dentes com milhares de armas nucleares e com um cadastro medonho no seu emprego contra um povo asiático. Zheng escreve: «A China não seguirá o caminho da Alemanha que levou à I Guerra Mundial» e «a China ultrapassará diferenças ideológicas no seu empenho pela paz, desenvolvimento e cooperação». O artigo identifica o autor como um dos que «redigiu relatórios chave em cinco congressos nacionais do partido chinês e que ocupa postos elevados em organizações académicas e do partido na China» (2005).
16«Apesar de os custos horários totais dos trabalhadores industriais terem aumentado mais rapidamente na China do que nos Estados Unidos entre 2002 e 2004, a remuneração horária por trabalhador na China continuava a ser três por cento do nível dos Estados Unidos» (Lett and Banister 2006).
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Conclusão
É de saudar que a liderança iniciada em 2002, perturbada por indicadores negativos, esteja a combater mais firmemente as consequências perniciosas da ESM. Este estudo, assim o espero, acrescenta argumentos, baseados na teoria e na história, aos esforços dos líderes chineses que desejam ir mais adiante nesta rectificação. O movimento revolucionário mundial sofreu imensas perdas com a destruição do socialismo na Europa e na URSS quase no fim do século XX. O movimento ainda está a lutar para recuperar deste revés. Tremo ao pensar no desespero que dominará toda a humanidade progressista no século XXI se a subestimação dos perigos inerentes à «economia socialista de mercado» vier a causar danos irreparáveis às realizações revolucionárias da China Popular.
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Para a História do Socialismo
www.hist-socialismo.net
sábado, 26 de dezembro de 2015
O yuan será a terceira moeda mais poderosa na cesta do FMI
Poucos meses atrás, houve muito ceticismo sobre se o Fundo Monetário Internacional (FMI) iria incorporar ou não a “moeda do povo” da China (“renminbi”) em sua cesta de divisas[1]. Finalmente, as dúvidas acabaram: apesar da forte oposição do Tesouro dos Estados Unidos, muito em breve o yuan se tornará o quinto membro da cesta de moedas do FMI[2].
Como chegamos até aqui? Em meio à crise do sistema de taxas de câmbio fixas, que foi estabelecido no ano 1944, em 1969 o FMI criou um ativo de reserva, que chamados de Direitos Especiais de Saque (SDR, ‘Special Drawing Rights’, em inglês). Como o sistema da Reserva Federal (Fed) dos Estados Unidos estava cada vez mais impossibilitado de trocar por ouro uma quantidade excessiva de dólares que os bancos centrais de todo o mundo tinham acumulado, o propósito do SDR foi o de complementar as reservas oficiais existentes dos países que compunham o FMI.
Em um primeiro momento, o valor do SDR foi definido como equivalente a 0,888671 gramas de ouro fino. E numa segunda fase, após o colapso dos acordos de Bretton Woods, o valor do SDR foi estabelecido por referência a uma cesta de moedas das principais economias da época: Estados Unidos, Alemanha, Japão, Reino Unido e França. No fim dos anos 90, a cesta do FMI era composta pelo dólar, euro, iene japonês e libra britânica.
E, a partir de então, não houve mais alterações. Apesar das enormes mudanças no quadro político e econômico mundial ao longo das últimas décadas, a composição da cesta do FMI manteve-se inalterada.
A deterioração da economia dos EUA não impediu que o dólar mantivesse a sua posição dominante: em 2011, ele ficava com quase 42% da carteira do SDR; seguido pelo euro, com 37,4%; a libra esterlina, com 11,3%; e o iene, com 9,4%. No entanto, após o Conselho Executivo do FMI decidir acrescentar a moeda chinesa em 30 de novembro, a composição da cesta finalmente vai mudar[3].
Assim, o yuan será a terceira divisa com maior peso nos SDR, com 10,92% do total, acima do iene japonês (8,33%), e da libra esterlina (8,09%), embora ainda atrás do dólar (41,73%) e do euro (30,93%). Esta decisão entrará em vigor em 11 meses, no próximo 01 de outubro de 2016.
“A inclusão do yuan vai aumentar a representação e o atrativo do SDR e ajudará a melhorar o sistema monetário internacional vigente, uma circunstância que beneficiará tanto a China como o resto do mundo”, declarou o Banco Popular da China em um comunicado[4].
Em 2009, Pequim já tinha deixado claro que aspirava que o yuan se tornasse uma moeda de reserva global. Como observei em meus artigos anteriores, a internacionalização do yuan tem sido baseada no “gradualismo” e apoiada especialmente na força comercial da China.
Nos últimos anos, o Banco Popular da China assinou swaps cambiais com mais de 40 bancos centrais, desde os localizados na Ásia-Pacífico, África e Europa aos do Chile e Canadá, aliados fervorosos dos Estados Unidos. Também não podemos esquecer a instalação de bancos de compensação no exterior para facilitar o uso do renminbi (‘RMB clearing banks’) e concessão de quotas de investimento para participar do programa chinês de Investidores Institucionais Estrangeiros Qualificados em Renminbi (RQFII, ‘Renminbi Qualified Foreign Institutional Investor Program’).
No entanto, essas medidas foram insuficientes para o yuan entrar na ‘primeira divisão’. Era preciso ganhar o reconhecimento de uma instituição decisiva na gestão das finanças, como o FMI. A China começou a ganhar a batalha em agosto, quando o yuan foi desvalorizado. Imediatamente, Pequim insistiu em que esta foi uma ação temporária; isto é, que não haveria desvalorizações prolongadas[5].
Foi então que a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, saiu para acalmar os investidores, neutralizando a propaganda dos EUA que responsabilizava a China pela turbulência econômica global[6].
Enquanto isso, Pequim não voltou atrás em seu programa de “reformas estruturais”; pelo contrário, pretende acelerar a abertura do seu setor financeiro. Tudo aponta no sentido da liberalização da taxa de câmbio e das taxas de juros, assim como do mercado de capitais. Depois de conectar as bolsas de valores de Xangai e Hong Kong em meados de novembro de 2014[7], agora a China contempla o estabelecimento uma ligação com a bolsa de Londres[8].
Em conclusão, embora seja verdade que o yuan ainda tem um longo caminho a percorrer para ser capaz de competir de igual para igual com o dólar, não há dúvida de que a sua próxima inclusão na cesta de moedas do FMI é um marco histórico[9]. O mundo financeiro está mudando…
Ariel Noyola Rodriguez
Artigo em espanhol :El yuan será la tercera divisa más poderosa dentro de la canasta del FMI
Fonte em espanhol : Russia Today (Rússia). 1 de Dezembro de 2015
Ariel Noyola Rodriguez: Economista graduado pela Universidade Nacional Autônoma do México.
[1] «Incorporar o yuan ao sistema SDR», Ariel Noyola Rodríguez, Tradução Victor Farinelli, Russia Today (Rússia), Rede Voltaire, 3 de Abril de 2015.
[2] «El Fondo Monetario Internacional incluye el yuan en la cesta de sus divisas de reserva», Russia Today, 30 de noviembre de 2015.
[3] «IMF Agrees to Include China’s RMB in SDR Basket», Zou Luxiao, People’s Daily, December 1, 2015.
[4] «PBC Welcomes IMF Executive Board`s Decision to Include the RMB into the SDR Currency Basket», People’s Bank of China, December 1, 2015.
[5] «La devaluación del yuan pone a prueba el ascenso de China como potencia mundial», por Ariel Noyola Rodríguez, Russia Today (Rusia), Red Voltaire, 29 de agosto de 2015.
[6] «IMF’s Christine Lagarde Tries to Tamp Down China Panic, but Urges Vigilance», Ian Talley, The Wall Street Journal, September 1, 2015.
[7] «Xangai e Hong Kong: a nova dupla do mercado de ações», Ariel Noyola Rodríguez, Tradução Daniella Cambaúva, Rede Voltaire, 24 de Novembro de 2014.
[8] «Yuanización mundial gracias a la City de Londres», por Ariel Noyola Rodríguez, Russia Today (Rusia), Red Voltaire, 5 de noviembre de 2015.
[9] «Hito histórico: El FMI decide sobre la inclusión del yuan como moneda de reserva», Russia Today, 30 de noviembre de 2015.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2015
Mísseis contra o gasoduto Turkish Stream
Os mísseis Aim-120 Amraam, lançados pelo F-16 turco (todos dois Made in USA) não foram dirigidos somente contra o caça-bombardeiro russo mobilizado na Síria contra o chamado Estado Islâmico, mas contra um objetivo mais importante: o Turkish Stream, o gasoduto projetado que levaria o gás russo à Turquia e de lá à Grécia e outros países da União Europeia
O Turkish Stream é a resposta de Moscou ao torpedeamento, por Washington, do South Stream, o gasoduto que, contornando a Ucrânia, levaria o gás russo até Tarvisio (na região italiana de Udine) e de lá à União Europeia, com grandes benefícios para a Itália, inclusive em termos de emprego. O projeto, lançado pela empresa russa Gasprom e a italiana ENI depois ampliado à alemã Wintershall e à francesa EDF, já estava em fase avançada de realização (a Saipem da ENI já tinha um contrato de dois bilhões de euros para a construção do gasoduto através do Mar Negro) quando, depois de ter provocado a crise ucraniana, Washington lançou aquilo que o New York Times definiu como “uma estratégia agressiva visando a reduzir fornecimentos russos de gás para a Europa”.Sob pressão estadunidense, a Bulgária bloqueou em dezembro de 2014 os trabalhos do South Stream, enterrando o projeto. Mas ao mesmo tempo, embora Moscou e Ancara estivessem em campos opostos no que concerne à Síria e ao chamado Estado Islâmico, a Gasprom assinou um acordo preliminar com a companhia turca Botas para a realização de um duplo gasoduto Rússia-Turquia através do Mar Negro. Em 19 de junho Moscou e Atenas assinaram um acordo preliminar sobre a extensão do Turkish Stream (com uma despesa de dois bilhões de dólares a cargo da Rússia) até a Grécia, para torná-la a porta de entrada do novo gasoduto na União Europeia.
Em 22 de julho Obama telefonou a Erdogan, pedindo que a Turquia se retirasse do projeto. Em 16 de novembro, Moscou e Ancara anunciaram, ao contrário, próximos encontros governamentais para lançar o Turkish Stream, com uma envergadura superior à do maior gasoduto através da Ucrânia.
Oito dias mais tarde, a derrubada do caça russo provocou o bloqueio, senão a liquidação, do projeto. Seguramente, em Washington, festejaram o novo acontecimento. A Turquia, que importava da Rússia 55% de seu gás e 30% de seu petróleo, se encontra de fato prejudicada pelas sanções russas e corre o risco de perder o grande negócio do Turkish Stream.
Quem, então, na Turquia, tinha o interesse de abater voluntariamente o caça russo, sabendo quais seriam as consequências? A frase de Erdogan – “Nós não queríamos que isto acontecesse, mas aconteceu, espero que uma coisa desse tipo não acontecerá mais” -, implica um cenário mais complexo do que o oficial. Na Turquia há importantes comandos, bases e radares da Otan sob o comando estadunidense. A ordem de abater o caça russo foi dada dentro desse quadro.
Nesse ponto, qual é a situação na “guerra dos gasodutos”? Os Estados Unidos e a Otan controlam o território ucraniano por onde passam os gasodutos Rússia-União Europeia, mas a Rússia pode hoje contar menos com eles (a quantidade de gás que eles transportam caiu de 90% a 40% da exportação russa de gás para a Europa) graças a esses dois corredores alternativos. O Nord Stream que, no Norte da Ucrânia, leva o gás russo à Alemanha: a Gasprom quer agora duplicar, mas o projeto é contestado na União Europeia pela Polônia e por outros governos do Leste (principalmente os ligados tanto a Washington como a Bruxelas). O Blue Stream, administrado paritariamente pela Gasprom e a ENI, que no sul passa pela Turquia e por este fato não está isento de risco. A União Europeia poderia importar bastante gás a baixo preço do Irã, com um gasoduto já projetado através do Iraque e da Síria, mas o projeto está bloqueado (não por acaso) pela guerra desencadeada nesses países pela estratégia dos Estados Unidos e da Otan.
Manlio Dinucci
Manlio Dinucci : Jornalista, geógrafo e cientista
político, colunista do jornal italiano Il Manifesto; tradução de José
Reinaldo Carvalho para o Blog da Resistênciaquarta-feira, 23 de dezembro de 2015
A LIBERAÇÃO DA MULHER
Por Valdir Pereira
Hoje, sem muita inspiração, me ocorreu avaliar
superficialmente o liberalismo moral que campeia a sociedade moderna.
Costumes rígidos que norteavam a minha geração,
mais ou menos comportada, onde relações sexuais se consumavam geralmente nos
casamentos, salvo algumas exceções. As molecadas jovens pouco namoravam ou
aproveitavam a missa aos domingos para assédios fortuitos as meninas. Vez ou
outra participavam de bailinhos, geralmente em casas de amigos, pois salões
eram vistos como inadequados. As amizades com as meninas, praticamente não
existiam. Nas escolas, nos colégios os gêneros estudavam separados, não se
misturavam até nos recreios, não se falavam.
Dois clubes predominavam o clube do bolinha e o
da luluzinha. Homem com homem, mulher
com mulher.
Essa
situação imposta pelos costumes, sofre radical mudança com o desenvolvimento
social. O trabalho das mulheres nas fábricas. Depois em outras atividades
econômicas aproximaram os gêneros e a liberação geral. Se antes nem votar
podiam, os novos tempos possibilitaram a mulher ser votada.
A chamada liberação feminina gerou novos costumes. As baladas servem para
encontros fortuitos de sexo, sem qualquer compromisso. Sexo ao acaso, muitas
vezes imprudentes, sem proteção. É a nova ordem que manda. É o liberou geral,
chegando ao sexo em grupos.
Diante da atual situação me ocorreu citar
pequenos trechos da ampla obra de Engels, baseada também nos estudos de Morgam
que, pelos estudos que fez, muito contribuiu
na confecção do livro A
origem da Família, da Propriedade e do Estado. Qualquer semelhança com a
atualidade é mera coincidência.
A
Família Sindiásmica
A família sindiásmica aparece no limite entre o
estado selvagem e a barbárie, no mais das vezes
durante a fase superior do primeiro, apenas em
certos lugares durante a fase inferior da segunda. É a forma de família
característica da barbárie, como o matrimônio
por grupos é a do estado selvagem e a monogamia é a da civilização. Para
que a família sindiásmica evoluísse até chegar a uma monogamia estável, foram
necessárias causas diversas daquelas cuja ação temos estudado até agora. Na
família sindiásmica já o grupo havia ficado reduzido à sua última unidade, à
sua molécula biotômica: um homem e uma mulher.
Faltava
apenas uma coisa: a instituição que não só assegurasse as novas riquezas
individuais contra as tradições comunistas da constituição gentílica, que não
só consagrasse a propriedade privada, antes tão pouco estimada, e fizesse dessa
consagração santificadora o objetivo mais elevado da comunidade humana, mas
também imprimisse o selo geral do reconhecimento da sociedade às novas formas
de aquisição da propriedade, que se desenvolviam umas sobre as outras - a
acumulação, portanto, cada vez mais acelerada, das riquezas -; uma instituição
que, em uma palavra, não só perpetuasse a nascente divisão da sociedade em
classes, mas também o direito de a classe possuidora explorar a não-possuidora
e o domínio da primeira sobre a segunda.
E essa instituição nasceu. Inventou-se
o Estado
A GENS ENTRE OS CELTAS E ENTRE OS GERMANOS -
Aqui, vamos nos limitar a umas breves notas sobre a gens entre os celtas
e os germanos.
As leis célticas mais antigas que chegaram até nossos dias mostra os a
gens ainda em pleno vigor. Na Irlanda ainda sobrevive, na consciência popular,
instintivamente, pois os ingleses a destruíram pela violência.
Na Escócia, em meados do século XVIII, estava em pleno florescimento; e
só morreu por obra das leis, dos tribunais e das armas inglesas.
A FORMAÇÃO DO ESTADO ENTRE OS GERMANOS- Se foram
capazes de preservar - pelo menos nos três países mais importantes (na
Alemanha, na Inglaterra e no norte da França) - uma parte do autêntico regime
da gens, transplantando-o ao Estado feudal sob a forma de marcas, dando aos
camponeses oprimidos, mesmo durante a mais cruel servidão medieval, uma coesão
local e meios de resistência que não tiveram os escravos da antigüidade e não
tem o proletariado moderno - a que se deve isso senão à sua barbárie, ao
sistema exclusivamente bárbaro de colonização por gens ?
Tudo que
era força e vitalidade, naquilo que os germanos infundiram no mundo romano,
vinha da barbárie. De fato, só bárbaros poderiam rejuvenescer um mundo senil
que padecia de uma civilização moribunda. E a fase superior da barbárie, à qual
tinham chegado e na qual estavam vivendo os germanos, era precisamente a mais
propícia à promoção deste processo. Isso explica tudo.
A FAMÍLIA
MONOGÂMICA
Nasce, conforme indicado acima, de forma sucinta,
da família sindiásmica, no período de transição entre a fase média e a fase
superior da barbárie. Seu triunfo definitivo é sintoma da civilização nascente.
Baseia-se no predomínio do homem; sua finalidade expressa é a de procriar
filhos cuja paternidade seja indiscutível; exigência para assegurar seus
direitos de posse dos gens de seu pai.
Ao homem
se concede o direito a infidelidade conjugal. Quanto a mulher, por acaso
recorda os antigas práticas sexuais e intenta renová-las, é castigada mais rigorosamente
do que em qualquer época anterior.
Entre os
gregos, encontramos, com toda sua severidade, a nova forma de família. Enquanto
a situação das deusas na mitologia, como assinala Marx, que nos fala de um período
anterior em que as mulheres ocupavam uma posição mais livres e de maior
consideração, nos tempos heróicos já vemos a mulher humilhada.
A
existência da escravidão junto a monogamia, a presença de jovens e belas
cativas que pertencem, de corpo e alma, ao homem, é o que imprime, desde a
origem um caráter especifico á monogamia que é monogamia só para a mulher, e
não para o homem. E na atualidade, conserva-se esse caráter.
Outra
coisa mais diversa se passava entre os jônios, para os quais é característico o
regime de Atenas.
As
donzelas aprendiam apenas a fiar, tecer e coser, e quanto muito a ler e
escrever. Eram praticamente cativas e Sá
lidavam com outras mulheres. Habitavam um aposento separado, situados no alto
ou atrás da casa; os homens não entravam ali com facilidade. Aristófanes fala
de cães molossos para espantar adúlteros e vigiar as mulheres, havia eunucos-
os quais, desde os tempos de Heródoto, eram fabricados em Quios para serem
comerciados e não serviam apenas aos bárbaros.
Apesar do
rigor das regras, a infidelidade feminina acontecia virtualmente às escondidas
do marido, como ocorre atualmente.
A
alavanca que impulsionou o processo até os tempos contemporâneos, alem da
divisão social do trabalho e criação do estado, deve-se a formatação do sistema
monogâmico da aliança entre famílias, com o casamento, que assegura o direito a
herança; a proteção da mulher e dos filhos.
Quanto à
liberação do comportamento sexual da mulher, nos dias atuais, no meu
entendimento, fatores diversos, entre os quais a poliandria, que vigeu no
período de nossa história primitiva, parece ressurgir como um fenômeno contraditório
que se aplicam as características do capitalismo, imoral e corrupto.
E, como
sempre, o gênero masculino não encontra resistência aos seus apetites,
motivados pelo alto grau de testosterona, encontra facilidades consentidas, em
nome de uma pseudo- liberdade feminina.
O homem
não fica grávido, engravida!
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