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domingo, 7 de fevereiro de 2016

Erdogan quer guerra com Rússia


08.02.2016

A situação com a Turquia está saindo rapidamente de controle: os turcos já atiraram da fronteira, contra território sírio; recusaram-se a respeitar o Tratado "Open Skies" e impediram que um avião russo de vigilância sobrevoasse a Turquia. Agora, militares russos dizem que já detectaram sinais de preparativos, do lado turco, para uma invasão.

Os turcos recusarem-se a cumprir o que determina o Tratado "Open Skies" é desenvolvimento muito preocupante, especialmente se combinado com os alertas russos sobre preparativos para invasão turca à Síria. E os russos não estão economizando no alerta (vídeo legendado em inglês).
Há muitos outros indicadores de que, sim, é possível uma escalada na guerra: as negociações de Genebra foram abruptamente interrompidas; os sauditas estão ameaçando invadir a Síria e há sinais de que o exército sírio, lentamente, mas sem retrocesso, prepara uma operação para libertar Aleppo ainda ocupada por takfiris, o que está criando pânico em Ancara e Riad (o que implica que já deram adeus às ideias estúpidas de que os russos estariam sendo contidos ou de que não existiria exército sírio).

Ao mesmo tempo, há muitos indícios de que todo o "grande plano" de Erdogan para a Síria já colapsou completamente e que não lhe restam opções (leiam, por favor, a excelente análise de Ghassan Kadi sobre isso que postei hoje, e, também, a reflexão de Pepe Escobar sobre o mesmo tema).

Não sou adivinho nem profeta. Não posso saber o que Erdogan está realmente pensando, ou se os turcos tentarão invadir a Síria. Mas posso, isso sim, oferecer alguns palpites relativamente bem informados sobre possíveis respostas a esse movimento dos turcos, se acontecer.

Primeiro, dois princípios básicos:

1) Forças russas que sejam atacadas, revidarão. Putin até já lhes deu a necessária autoridade para decidir, e acontecerá quase automaticamente, com comandos locais já autorizados a tomar decisões. Em outras palavras, essa troca de tiros não implicará automaticamenteguerra em escala total entre Turquia e Rússia.

2) Se a Turquia invadir a Síria, a Rússia agirá em estrita observância ao que determina e assegura a lei internacional. Significa que exigirá reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU e que muita coisa dependerá de como o Conselho reaja. Se a gangue dos fantoches de sempre der 'cobertura' à Turquia (o que, em minha opinião não é provável que aconteça, ou não, pelo menos, por muito tempo, no máximo por uma semana, por aí), nesse caso os russos declararão suas obrigações de proteger a Síria, nos termos do "Tratado de Amizade e Cooperação", de 1980, entre os dois países (sendo a Rússia estado sucessor da URSS, o tratado é plenamente vigente) e do "Acordo entre a Federação Russa e a República Árabe Síria sobre atuação de grupo de aviação das Forças Armadas sobre território da República Árabe Síria", de 2015.

Em outras palavras, a Rússia preservará para ela certo grau de flexibilidade para interpretar a situação, numa ou noutra direção. E isso, por sua vez, significa que muita coisa dependerá de o que os turcos realmente tentem conseguir.

Se estamos falando da velha típica violação pelos turcos de uma fronteira nacional para atacar os curdos, como já fizeram muitas vezes no passado, e se a intervenção for limitada em profundidade, a Rússia provavelmente optará por meios não militares para pressionar a Turquia. Mais uma vez, por mais que os doidos na Turquia anseiem muito por guerra com a Rússia para internalizar o conflito e forçar a OTAN a intervir, os russos não têm interesse algum nessa escalada.

Assim como no Donbass, o ocidente tenta fisgar a Rússia e arrastá-la para alguma guerra, e a Rússia recusa-se a morder a isca.

O problema é que, diferentes dos ucronazistas, os turcos têm máquina de guerra muito poderosa, que os russos não podem ignorar como ignoraram o exército ucronazista e seus muitos esquadrões da morte. Assim, se o objetivo de Erdogan for mostrar-se muito macho e flexionar alguns músculos, como, digamos, Reagan fez em Grenada, nesse caso é possível que nada de mais lhe aconteça, pelo menos por algum tempo. Mas se Erdogan estiver decidido a criar um conflito com a Rússia, os russos não poderão simplesmente dar de ombros e esperar que ele se acalme.

Nesse segundo caso, a Rússia terá várias opções para escalar.

primeira opção óbvia é ajudar sírios e curdos com informação de inteligência. Já está sendo feito agora e, em caso de invasão turca, as ações serão apenas intensificadas.

segunda é varrer dos céus as aeronaves turcas, aviões e helicópteros. É opção fácil, dado que os sírios já têm sistemas bastante bons de defesa antiaérea (incluindo alguns Pantsir-S1, Buk-M1/2E, Tunguskas 2K22 e sistema de alarme precoce bastante robusto) e mais algumas aeronaves mais ou menos capazes (que incluem, possivelmente, MiG-29s modernizados). O Kremlin pode pois contar com certo grau do que a CIA chamou de "negabilidade plausível".

terceira opção ao alcance da Rússia é ajudar os sírios com o sistema de artilharia que os russos já instalaram na Síria, incluindo armas MTSA-B 52-mm, e lançadores de foguetes BM-27 Uragan e BM-30 Smerch.

Todas essas opções ainda não alcançam nível de guerra em "plena escala" entre Rússia e Turquia. Mas se Erdogan estiver determinado a escalar ainda mais, então a guerra será inevitável. Se a Turquia tentar atacar diretamente a base Khmeimim, não há nem sombra de dúvida de que nesse caso a Rússia retaliará.

Que ares terá isso?

A primeira coisa que eu diria é que nem um nem outro país tentará invadir o outro. A ideia de a Turquia invadir a Rússia é autoevidentemente cômica; mas, embora a Turquia esteja dentro da profundidade de 1.000 km para a qual os militares russos são treinados, não creio que a Rússia sequer cogite de invadir a Turquia. Para começar, e exatamente como acontecia no caso da Geórgia, ninguém na Rússia realmente acredita que os turcos, como nação, desejem guerra. No máximo, Erdogan está muito mais para um "Saakashvili versão 2", que para um Hitler, e será enfrentado por esse parâmetro. Além do mais, se durante a guerra de 08.08.08 a Rússia teve de proteger a população de Ossetia, contra os quase genocidas georgianos, no caso do Curdistão a Rússia não tem obrigação semelhante.

Cenário muito mais provável é repetição do que já vimos, mas em escala muito maior: se Erdogan realmente forçar a Rússia a entrar em guerra, haverá ataques de mísseis cruzadores e balísticos contra qualquer infraestrutura que dê suporte à invasão contra a Síria; afundamento de qualquer nave da Marinha Turca que se envolva no esforço; e ataques à bomba e de mísseis contra concentrações de forças turcas e depósitos de munição e combustível (POL); e, especialmente, contra pistas de pouso. O objetivo da resposta russa não será "derrotar" militarmente a Turquia, mas empurrar os turcos a retroceder, e impor a Erdogan a necessidade de um cessar-fogo. 

Mesmo que os militares russos sejam capazes de derrotar completamente a Turquia numa guerra, o Kremlin também sabe perfeitamente que qualquer guerra entre Turquia e Rússia sempre terá de ser encerrada o mais rapidamente possível. Além do que, muito mais que "derrotar a Turquia" o verdadeiro objetivo dos russos sempre será derrotar Erdogan.

Por essa razão, os russos, longe de coçarem o dedo no gatilho, empreenderão todos os esforços imagináveis para mostrar que não iniciaram a guerra, mesmo que isso signifique deixar a Turquia entrar na Síria, pelo menos enquanto os turcos se mantiverem próximos da fronteira e desde que não tentem mudar o curso da guerra. Se tudo que os turcos quiserem for uma estreita "zona segura" dentro da Síria, não vejo os russos usando força militar para negar-lhes isso.Protestarão veementemente, em nível diplomático, a ajudarão sírios e curdos, mas não atacarão diretamente as forças turcas.

E quanto aos sauditas? Ora bolas, e o quê, quanto aos sauditas? Pois se não conseguem dar conta nem dos Houthis no Iêmen, por que alguém suporia que poderiam fazer alguma diferença na Síria? Os militares sauditas são piada. Não passam de força repressora degenerada, que mal consegue levar a cabo operações de repressão anti-xiitas. Podem ameaçar o quanto queiram, mas se tentarem entrar na Síria, sírios, russos, iranianos e o Hezbollah disputarão, uns contra outros, o direito de ser o primeiro exército que aplicará uma lição naqueles felásdaputa, que eles não esquecerão por muito tempo.

Francamente, simplesmente não quero crer que Erdogan e seus conselheiros sejam suficientemente doidos para tentar disparar uma guerra contra a Rússia, nem, sequer, para invadir a Síria. Erdogan, sim, é claramente maníaco, mas não acredito que toda a equipe que trabalha no governo turco sejam, todos, lunáticos. Além do mais, não consigo imaginar que EUA/OTAN/UE realmente apoiariam uma invasão turca à Síria ou, ainda menos, um ataque à Rússia. A russofobia é grande e forte, mas só enquanto não expõe o pescoço de cada um a uma guerra continental, porque aí prevalecem o autointeresse e a própria sobrevivência, acima de qualquer noção ideológica. Ou, pelo menos, espero que assim seja.

É possível que esteja sendo ingênuo, mas quero acreditar que o povo turco não ficará, lá, sentado, enquanto um presidente ensandecido arrasta o país deles a uma guerra contra a Rússia.

Para concluir, não quero deixar de mencionar algo bem estranho. Umancião grego, um monge, de nome Paisios, que a Igreja Russa Ortodoxa consagra como santo, é muito conhecido pelas visões proféticas. Uma das mais famosas é a previsão de que Turquia e Rússia se enfrentariam numa grande guerra, cujo resultado seria o esfacelamento da Turquia, com Constantinopla libertada do jugo otomano (quem se interesse, encontra detalhes aqui e aqui).

Claro que sei que, hoje, muita gente simplesmente desconsidera esse tipo de coisa como total nonsense, obscurantismo, superstição, pensamento 'desejante', brotado da cabeça de um "grego ressentido", 'enrolação' religiosa, etc. OK. Mas tenham em mente que, entre os séculos 15 e 20, Rússia e Turquia já combateram, uma contra a outra, 12 guerras (!). É mais de duas guerras (exatamente 2,4 guerras) por século, e a mais recente aconteceu já faz um século.

Assim sendo, independente de o que você pense sobre profecias, experiência histórica ou estatísticas, as coisas, sim, sim, parecem muito, muito assustadoras, pelo menos em minha opinião. E, como Ghassan Kadi e Pepe Escobar explicaram, Erdogan está preso contra a parede, sem saída. Isso, além de tudo mais, também o torna muito perigoso.

Os anglo-sionistas são especialistas em soltar pelo planeta os mais enlouquecidos ideólogos (wahabistas no Oriente Médio; neonazistas na Ucrânia), mas sempre acabam, mais cedo ou mais tarde, por, de um modo ou de outro, perder o controle sobre suas criaturas.

Espero que a 'cobertura' que os EUA dão hoje ao regime de Erdogan não resulte em disparar contra o mundo mais uma dessas ideologias pervertidas - um Imperialismo Otomano. Ou, se já tiverem disparado, que ainda esteja em tempo de os EUA porem rédeas naquele lunático, antes de que seja tarde demais.

Erdogan e seu regime são ameaça à paz regional e, também, à paz mundial. Não me faz diferença quem o tire do poder, se o povo turco ou a Casa Branca, mas, sim, espero que os dias de Erdogan no poder estejam contados, porque, enquanto ele lá permanecer, há risco real de uma catástrofe de grandes proporções.*****
+

6/2/2016, The Saker, Unz Review e The Vineyard of the Saker


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sábado, 6 de fevereiro de 2016

Programa da Internacional Comunista Adotado pelo VI Congresso Mundial




Programa da Internacional Comunista
Adotado pelo VI Congresso Mundial
Moscou, 1 de Setembro de 1928



A época do imperialismo é a do capitalismo em agonia. A guerra mundial de 1914-1918 e a crise geral do capitalismo que desencadeou foram resultado de uma profunda contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas da economia mundial e as fronteiras dos estados. Mostraram e provaram que as condições materiais do socialismo no seio da sociedade capitalista já se encontram amadurecidas e que, tendo-se o invólucro da sociedade tornado um obstáculo intolerável para o desenvolvimento ulterior da humanidade, a história colocou na ordem do dia o derrubamento do jugo capitalista pela revolução. O imperialismo sujeita as inumeráveis massas proletárias de todos os países – tanto nas metrópoles do poder capitalista como nos mais recônditos lugares do mundo colonial – à ditadura de uma plutocracia capitalista financeira. O imperialismo põe a nu e aprofunda com uma força cega todas as contradições da sociedade capitalista, leva ao extremo a opressão das classes, agudiza ao mais alto grau a luta entre os estados capitalistas, engendra a inevitabilidade das guerras imperialistas mundiais que abalam todo o sistema das relações de dominação e encaminha a sociedade, com uma necessidade irresistível,para a revolução proletária mundial. Amarrando o mundo inteiro nos laços do capital financeiro, unindo pelo sangue, pelo ferro e pela fome os proletários de todos os países, de todas as nacionalidades e de todas as raças sob o seu jugo, agravando formidavelmente a exploração, a opressão e a sujeição do proletariado que coloca diante da tarefa imediata de conquistar o poder, o imperialismo cria a necessidade de uma estreita coesão dos operários num exército internacional único dos proletários de todos os países, formado independentemente das fronteiras dos estados,das diferenças de nacionalidade, de cultura, de língua, de raça, de sexo e de profissão. O imperialismo, desenvolvendo e criando assim as condições materiais do socialismo, coloca o proletariado frente à necessidade de organizar-se numa associação operária internacional de combate e assegura desse modo a coesão do exército dos seus próprios coveiros.Por outro lado, o imperialismo separa das grandes massas a parte mais abastada da classe operária. Esta «aristocracia» operária, corrompida pelo imperialismo, que constitui os quadros dirigentes dos partidos sociais-democratas, interessada na pilhagem imperialista das colônias, devotada à «sua» burguesia e ao «seu» Estado imperialista,encontra-se, na hora das batalhas decisivas, ao lado do inimigo de classe do proletariado. A cisão do movimento socialista provocada pela traição de 1914 e pelas traições ulteriores dos partidos sociais-democratas, tornados de fato em partidos operários burgueses, provaram que o proletariado mundial não pode cumprir a sua missão histórica – quebrar o jugo do imperialismo e conquistar a ditadura do proletariado – senão através de uma luta
implacável contra a social-democracia. A organização das forças da revolução internacional não é, portanto, possível senão na base do comunismo. À II Internacional oportunista da social-democracia, opõe-se inelutavelmente a III, a Internacional Comunista, organização universal da classe operária, encarnando a unidade autêntica dos operários revolucionários de todos os países. A guerra de 1914-1918 provocou as primeiras tentativas de criar uma nova Internacional revolucionária, como contraposição à II Internacional social-chauvinista e com o instrumento de resistência ao imperialismo militarista (Zimmerwald, Kienthal). A vitória da revolução proletária na Rússia impulsionou a constituição de partidos comunistas nas metrópoles capitalistas e nas colônias. Em 1919 foi fundada a Internacional Comunista que, pela primeira vez na história, uniu efetivamente na luta revolucionária os elementos avançados do proletariado da Europa e da América aos proletários da China e das Índias, aos trabalhadores negros da África e da América. Partido internacional único e centralizado do proletariado, a Internacional Comunista éa única continuadora dos princípios da Primeira Internacional, aplicados sobre a nova base de um movimento proletário revolucionário de massas. A experiência da primeira guerra imperialista, da crise revolucionária do capitalismo que lhe sucedeu e das revoluções da Europa e dos países coloniais, a experiência da ditadura do proletariado e da edificação do socialismo na URSS, a experiência do trabalho de todas as secções da Internacional Comunista, fixada nas decisões dos seus congressos, e, por fim, a internacionalização cada vez maior da luta entre a burguesia imperialista e o proletariado tornam indispensável a elaboração de um programa da Internacional Comunista, único e comum a todas as suas secções. O programa da IC realiza assim a mais alta síntese crítica da experiência do movimento revolucionário do proletariado, um programa de luta pela ditadura mundial do proletariado, um programa de luta pelo comunismo mundial. A Internacional Comunista, que une os operários revolucionários e mobiliza milhões de oprimidos e explorados contra a burguesia e os seus agentes «socialistas», considera-se como a continuadora histórica da Liga dos Comunistas e da Primeira Internacional que estiveram sob a direção imediata de Karl Marx, e como herdeira das melhores tradições de antes da guerra da II Internacional. A Primeira Internacional fundou as bases doutrinais da luta internacional do proletariado pelo socialismo. A II Internacional, na sua melhor época, preparou o terreno para uma larga expansão do movimento operário entre as massas. A III Internacional Comunista, prosseguindo a obra da Primeira Internacional e recolhendo os frutos do trabalho da Segunda, rejeitou-lhe o oportunismo, o social-chauvinismo, a deformação burguesa do socialismo, e começou a realizar a ditadura do proletariado. A Internacional Comunista prossegue assim as tradições heróicas e gloriosas do movimento operário internacional: as dos cartistas ingleses e dos insurrectos franceses de 1830; as dos operários revolucionários franceses e alemães de 1848; as dos combatentes imortais e dos mártires da Comuna de Paris; as dos valorosos soldados das revoluções alemã, húngara e finlandesa; as dos operários outrora curvados sob o despotismo tsarista e concretizadores vitoriosos da ditadura do proletariado; as dos proletários chineses, heróis de Cantão e de Xangai. Inspirando-se na experiência histórica do movimento revolucionário de todos os continentes e de todos os povos, a Internacional Comunista coloca-se inteiramente e sem reservas na sua atividade teórica e prática no terreno do marxismo revolucionário, do qual o leninismo – que é o marxismo da época do imperialismo e das revoluções proletárias – é o desenvolvimento ulterior.

Defendendo e propagando o materialismo diabético de Marx e de Engels, aplicando-o como método revolucionário de conhecimento da realidade visando a sua transformação revolucionária, a Internacional Comunista combate ativamente todas as variedades do pensamento burguês e o oportunismo teórico e prático. Mantendo-se no terreno da luta de classe proletária conseqüente, subordinando os interesses conjunturais, parciais,corporativos e nacionais do proletariado aos seus interesses permanentes, gerais e internacionais, a Internacional Comunista desmascara impiedosamente, em todas as suas formas, a doutrina da «paz social» tomada pelos reformistas à burguesia. Exprimindo a necessidade histórica da organização internacional dos proletários revolucionários, coveiros do sistema capitalista, a Internacional Comunista é a única força internacional que tem como programa a ditadura do proletariado e o comunismo e que age abertamente como organizadora da revolução proletária mundial.

1 - O sistema mundial do capitalismo, o seu desenvolvimento e a sua inevitável ruína

 As leis gerais do desenvolvimento do capitalismo e a época do capital industrial
A sociedade capitalista, fundada sobre o desenvolvimento da produção de mercadorias, é caracterizada pelo monopólio da classe dos capitalistas e dos grandes proprietários de terras sobre os mais importantes e decisivos meios de produção, pela exploração da mão-de-obra assalariada da classe dos proletários, privados dos meios de produção e obrigados a vender a sua força de trabalho, pela produção de mercadorias com o objetivo da obtenção de lucro, pela ausência de planificação e pela anarquia que resulta destas diversas causas no conjunto do processo de produção. As relações sociais de exploração e a dominação econômica da burguesia encontram a sua expressão política na organização do Estado capitalista, aparelho de coerção contra o proletariado. A história do capitalismo confirma inteiramente a doutrina de Marx sobre as leis do desenvolvimento da sociedade capitalista e sobre as contradições inerentes a esse desenvolvimento que levam o sistema capitalista à sua inelutável perda. Na sua corrida ao lucro, a burguesia foi obrigada a desenvolver, em proporções sempre crescentes, as forças produtivas, a reforçar e alargar o domínio das relações capitalistas de produção. O desenvolvimento do capitalismo, por esse motivo, reproduziu constantemente, numa base alargada, todas as contradições internas do sistema, antes do mais a contradição decisiva entre o caráter social do trabalho e o caráter privado da apropriação, entre o crescimento das forças produtivas e as relações capitalistas de propriedade. A propriedade dos meios de produção e o funcionamento espontâneo e anárquico da própria produção provocaram a ruptura do equilíbrio econômico entre os diferentes ramos da produção devido ao desenvolvimento da contradição entre o alargamento ilimitado da produção e o consumo limitado das massas proletárias (Sobre produção geral), o que arrastou a crises periódicas devastadoras e levou ao desemprego massas de proletários. O domínio da propriedade privada traduziu-se por uma concorrência incessantemente crescente, tanto no interior de cada país capitalista como no mercado mundial.
 Esta última forma de rivalidade entre capitalistas teve como conseqüência as guerras que acompanham inevitavelmente o desenvolvimento capitalista. As vantagens técnicas e econômicas da grande produção provocaram, por outro lado,através do jogo da concorrência, a eliminação e a destruição das formas pré-capitalistas da economia e uma concentração e uma centralização crescente do capital. Na indústria, estalei de concentração e de centralização manifestou-se antes de tudo através do definhamento da pequena produção ou pela sua redução a um papel de auxiliar subordinado às grandes empresas. Na agricultura, cujo desenvolvimento é necessariamente atrasado em conseqüência do monopólio da propriedade do solo e da renda absoluta, esta lei exprimiu-se não apenas pela diferenciação do campesinato e pela proletarização de largas camadas de camponeses, mas também e, sobretudo por formas visíveis ou veladas da dominação do grande capital sobre a pequena economia rural que, neste caso, não pode conservar uma aparência de independência senão ao preço de uma extrema intensidade do trabalho e de um subconsumo sistemático. A utilização crescente das máquinas, o aperfeiçoamento constante da técnica e, nesta base, o crescimento incessante da composição orgânica do capital, acompanhadas da crescente divisão do trabalho, do aumento da sua produtividade e a sua intensificação,significaram igualmente o emprego mais amplo da mão-de-obra feminina e infantil e a formação de enormes exércitos industriais de reserva, engrossados sem cessar pelos camponeses proletarizados, expulsos dos campos, e pela pequena e média burguesia arruinada das cidades. Num dos pólos das relações sociais, a formação de massas consideráveis de proletários, intensificação contínua da exploração da classe operária,reprodução numa base alargada das contradições profundas do capitalismo e das suas conseqüências (crises, guerras, etc.), aumento constante da desigualdade social,crescimento da indignação do proletariado, concentrado e educado pelo próprio mecanismo da produção capitalista, tudo isto mina infalivelmente as bases do capitalismo e aproxima o momento da sua derrocada.Uma profunda convulsão produziu-se simultaneamente em toda a ordem moral e cultural da sociedade capitalista: decomposição parasitária dos grupos rentistas da burguesia, dissolução da família, exprimindo a contradição crescente entre a participação em massas das mulheres na produção social e as formas da família e da vida doméstica herdadas em larga medida das épocas econômicas anteriores; desenvolvimento monstruoso das grandes cidades e mediocridade da vida rural em conseqüência da divisão e da especialização do trabalho; empobrecimento e degenerescência da vida intelectual e da cultura geral; incapacidade da burguesia de criar, a despeito dos grandes progressos das ciências naturais, uma síntese filosófica científica do mundo; desenvolvimento das superstições idealistas, místicas e religiosas, todos estes fenômenos assinalam a aproximação do fim histórico do sistema capitalista.

2. A época do capital financeiro (imperialismo)

O período do capitalismo industrial foi, em geral, um período de «livre concorrência» durante o qual o capitalismo evoluiu com uma relativa regularidade e se expandiu por todo o globo através da repartição das colônias ainda livres, conquistadas pela força das armas, recaindo o peso das contradições internas do capitalismo, em crescimento incessante, principalmente sobre a periferia colonial oprimida, aterrorizada e sistematicamente espoliada.
Este período deu lugar, por volta do principio de século XX ao do imperialismo,caracterizado pelo desenvolvimento do capitalismo por saltos bruscos e por conflitos, nummomento em que a livre concorrência cedeu o seu lugar ao monopólio, em que as terrascoloniais antes «livres» se encontravam repartidas e em que a luta por uma nova partilhadas colónias e das esferas de influência começou a tomar, inevitavelmente e em primeirolugar, a forma da luta armada.Deste modo, as contradições do capitalismo adquiriram em toda a sua dimensão e à escala mundial a sua expressão mais nítida a época do imperialismo. O desenvo(capitalismo financeiro), que representa uma nova forma histórica do próprio capitalismo, uma novarelação entre as diferentes partes da economia capitalista mundial e uma modificação dasrelações entre as classes fundamentais da sociedade capitalista.Este novo período histórico resulta da acção das leis essenciais do desenvolvimento dasociedade capitalista. Amadurece com o desenvolvimento do capitalismo industrial e é asua continuação histórica. Acentua a manifestação das tendências fundamentais e das leisdo movimento da sociedade capitalista, das suas contradições e antagonismos do cafundamentais. A lei da concentração e da centralização do capital conduz à formação depoderosos grupos monopolistas (cartéis, sindicatos,trusts), a uma nova forma de empresasgigantes combinadas. Ligadas num só feixe pelos bancos. A fusão do capital industrial e docapital bancário, a entrada da grande propriedade fundiária no sistema geral trcapitalismo, caracterizado a partir de então pelos monopólios, transformaram o período docapital industrial no do capital financeiro. A «livre concorrência» do capitalismo industrial,que tinha outrora substituído o monopólio feudal e o monopólio do capital comercial,transformou-se ela própria em monopólio do capital financeiro moderno
Os monopólio capcapitalistas, saídos da livre concorrência, embora não a suprimam, dominam-na ancoexistem com ela, provocando assim contradições, confrontos e conflitos de uma acuidadee gravidade particulares.O emprego crescente de máquinas complexas, de processos químicos e de energiaeléctrica, o aumento da composição orgânica do capital nesta base e a queda da taxa delucro que daqui decorre – que só parcialmente é travada em favor das maiores associaçõesmonopolistas pela política de altos preços dos cartéis – provocam a continuação da corridaaos superlucros coloniais e a luta por uma nova partilha do mundo. A produção em massa,standardizada, exige novos mercados externos de escoamento. A procura crescente dematérias-primas e de combustíveis provoca ásperas rivalidades pelo controlo das suasfontes. Por fim, o alto protecionismo, impedindo a exportação de mercadorias assassegurando um super lucro ao capital exportado, cria estímulos complementares à esexportação de capitais que se torna na forma decisiva e específica da conexão económicaentre as diferentes partes da economia capitalista mundial. Em resultado, o controlomonopolista dos mercados coloniais de escoamento, das fontes de matérias primas e dasesferas de investimentos de capitais acentua fortemente a desigualdade do poderio concentrado. As funções desse Estado imperialista, que compreende dinumerosas nacionalidades, desenvolvem-se em todos os sentidos. O desenvolvimento dasformas do capitalismo de Estado facilita ao mesmo tempo a luta nos mercados externos(mobilização militar da economia) e a luta contra a classe operária. O desenvolvimentomonstruoso ao extremo do militarismo (exército, frotas aérea e naval, armas químicas e biológicas), a pressão crescente do Estado imperialista sobre a classe operária (exploraçãoacrescida e repressão directa, por um lado, corrupção sistemática da burocracia reformistadirigente, por outro), exprimem o enorme crescimento do papel do Estado. Nestas pcondições qualquer acção mais ou menos importante do proletariado se transforma numaacção contra o Estado, quer dizer, numa acção política. Assim, o desenvolvimento do capitalismo e, mais particularmente, a época imperialistareproduzem as condições fundamentais do capitalismo a uma escala cada vez mais coconsiderável. A concorrência entre pequenos capitalistas não cessa senão para dar lugar àconcorrência entre grandes capitalistas; quando esta se acalma, desencadeia-se a concorrência entre  as formidáveis coligações dos magnatas do capital e dos seus estados;as crises locais  e nacionais estendem-se a diversos países e acabam por abraçar o mundo inteiro; as guerras locais dão lugar as guerras de coligações e as guerras mundiais; a luta de classes passa da ação isolada de certos grupos operários as lutas nacionais,depois à luta internacional do proletariado mundial contra burguesia mundial. Enfim, levantam-se e organizam-se contra as forças do capital financeiro poderosamente organizado, duas grandes forças revolucionárias : de um lado, os operários dos estados capitalistas e, de outro lado as massas populares das colônias curvadas sob o jugo do capital estrangeiro, mas lutando  sob a direção e hegemonia do movimento revolucionário proletário internacional. Esta tendência revolucionária fundamental é, no entanto, temporariamente pararalisada pela corrupção de certos elementos do proletariado europeu, norte-americano e japonês  vendidos a burguesia imperealista e pela traição da burguesia nacional dos países coloniais e semicoloniais assustados pelo movimento revolucionário das massas. A burguesiadas grandes potencias imperialistas, arrecadando um lucro suplementar; tanto  em razrazão da suaposição da sua posição no mercado mundial em geral (técnica mais desenvolvida, exportação de capitais para países onde a taxa de lucro é mais alta,etc)  como em razão da pilhagem das colônias e das semicolonias pôde aumentar graças a esses superlucros os salários de seus operários despertando-lhes assim o interesse pelo desenvolvimento do capitalismo da sua pátria; pela pilhagem das colônias e pela fidelidade para com o estado imperealista. Esta corrupção sistemática  manifestou-se e manifesta-se particularmente ainda em larga escalanos países imperialistas mais poderosos; encontra a sua expressão mais relevante naideologia e na acção da aristocracia operária e nas camadas burocráticas da classe operária,quer dizer nos quadros dirigentes da social-democracia e dos sindicatos que se revelaramcomo agentes directos da influência burguesa no seio do proletariado e os melhores apoiosdo regime capitalista.Mas após ter desenvolvido a aristocracia corrompida da classe operária, o imperialismoacaba por destruir a sua influência sobre o proletariado, na medida em que se acentuam ascontradições do regime, o agravamento das condições de vida e o desemprego de grandesmassas operárias, as despesas e os enormes custos provocados pelos conflitos armados, a perda de certas posições que os monopólios detinham no mercado mundial, a separaçãodas colónias, etc., abalam a base do social-imperialismo nas massas. Do mesmo modo, acorrupção sistemática de diversas camadas da burguesia das colónias e das semicolónias, asua traição ao movimento nacional-revolucionário e aproximação às potênciasimperialistas não paralisam senão temporariamente o desenvolvimento da criserevolucionária. Este processo leva, por fim, ao reforço da opressão imperialista, aoenfraquecimento da influência da burguesia nacional sobre as massas populares, aoagravamento da crise revolucionária, ao desencadear da revolução agrária de grandesmassas camponesas e à criação de condições favoráveis à hegemonia do proletariado dospaíses coloniais e dependentes na luta das massas populares, pela independência e por umacompleta libertação nacional.
4. O imperialismo e a queda do capitalismo
O imperialismo elevou as forças produtivas do capitalismo mundial a um alto grau dedesenvolvimento. Concluiu a preparação das premissas materiais para a organizaçãosocialista da sociedade. Demonstra, pelas suas guerras, que as forças produtivas daeconomia mundial ultrapassaram o quadro restrito dos estados imperialistas e exigem aorganização da economia a uma escala internacional mundial. O imperialismo esforça-sepor resolver esta contradição, rompendo a ferro e fogo a via para um trust capitalista deEstado mundial e único que organizaria a economia mundial. Esta sangrenta utopia églorificada pelos ideólogos sociais-democratas que vêem nela o método pacífico do novocapitalismo «organizado». Na realidade, ela confronta-se com obstáculos insuperáveisobjectivos de uma tal dimensão que o capitalismo sucumbirá inevitavelmente sob o pesodas suas próprias contradições. A lei da desigualdade do desenvolvimento capitalista,acentuada na época imperialista, torna possíveis agrupamentos estáveis e duradouros depotências imperialistas. Por outro lado, as guerras imperialistas, que se transformam emguerras mundiais pelas quais a lei de concentração do capital se esforça por atingir o seulimite extremo – o trust mundial único –, são acompanhadas de tais devastações, impõe mà classe operária e aos milhões de proletários e de camponeses das colónias tais agravos,que o capitalismo perecerá inevitavelmente sob os golpes da revolução proletária, bemantes de ter atingido essa finalidade.Fase suprema do desenvolvimento capitalista, levando as forças produtivas da economiamundial a um desenvolvimento de amplitude formidável, recriando o mundo inteiro à sua imagem, o imperialismo arrasta para o campo da exploração do capital financeiro todas ascolónias, todas as raças e todos os povos. Mas a forma monopolista do capital desenvolve
simultaneamente num grau crescente os elementos de degenerescência parasitária, de apodrecimento e declínio do capitalismo. Destruindo em certa medida essa força motrizque é a concorrência, levando a cabo uma política de altos preços fixados pelos cartéis,dispondo sem restrições do mercado, o capital monopolista tende a travar odesenvolvimento ulterior das forças produtivas. Arrancando a milhões de operários e decamponeses coloniais superlucros fabulosos e acumulando enormes proventos dessaexploração, o imperialismo cria um tipo de Estado dependente da renda, em degeneraçãoparasitária e apodrecimento, e camadas inteiras parasitas que vivem de cupões de renda.Concluindo o processo da criação das premissas materiais do socialismo (concentração dosmeios de produção, imensa socialização do trabalho, crescimento das organizaçõesoperárias), a época imperialista agrava as contradições existentes entre as «grandespotências» e engendra guerras que culminam na desagregação da unidade da economiamundial. O imperialismo é, por esse motivo, o capitalismo em decomposição agonizante e, em geral, a última etapa da evolução capitalista,
o prelúdio da revolução socialista mundial. A revolução proletária internacional decorre assim das condições do desenvolvimento docapitalismo em geral e da sua fase imperialista em particular. O sistema capitalista conduzno seu conjunto a uma falência definitiva. A ditadura do capital financeiro perece, dando lugar à ditadura do proletariado
.
II. A crise geral do capitalismoe a primeira fase da revolução mundial

1. A guerra mundial e o desenvolvimento da crise revolucionária
A luta entre os principais estados capitalistas por uma nova partilha do mundo provocoua primeira guerra imperialista mundial (1914-1918). Esta guerra abalou o sistemacapitalista mundial e inaugurou o período da suacrise geral
Colocou ao seu serviço toda aeconomia nacional dos países beligerantes, criando assim o punho de ferro do capitalismode Estado; obrigou a fabulosas despesas improdutivas, destruiu uma enorme quantidade demeios de produção e de mão-de-obra, arruinou amplas massas populares, colocou cargasincalculáveis sobre os operários industriais, os camponeses e os povos coloniais. Agravou inevitavelmente a luta de classes, que se transformou em acção revolucionária de massas e em
guerra civil.
 A frente imperialista foi rompida no seu setor mais fraco, a Rússiatsarista.
A revolução russa de Fevereiro de 1917 estilhaçou o poder, a autocracia dos grandes latifundiários. Arevolução de Outubro derrubou o poder da burguesia. Esta  revolução proletária vitoriosa expropriou os expropriadores, retirou à burguesia e aoslatifundiários os meios de produção, estabeleceu e consolidou, pela primeira vez na história da humanidade, a ditadura do proletariado num grande país, realizou um novo tipo de Estado, o Estado soviético, e inaugurou a revolução proletária internacional.
O profundo abalo do capitalismo mundial, o agravamento da luta de classes e ainfluência imediata da revolução proletária de Outubro determinaram as revoluções e os movimentos revolucionários, tanto na Europa como nos países coloniais e semicoloniais:Janeiro de 1918, revolução operária na Finlândia; Agosto de 1918, «revoltas do arroz» noJapão; Novembro de 1918, revoluções na Áustria e na Alemanha, derrubando monarquias semifeudais; Março de 1919, revolução proletária na Hungria e sublevação na Coreia; Abril d e 1919, República dos Sovietes na Baviera; Janeiro de 1920, revolução nacional burguesa na Turquia; Setembro de 1920, ocupação das fábricas pelos operários na Itália; Março de1921, sublevação da vanguarda operária na Alemanha; Setembro de 1923, insurreição na Bulgária; Outono de 1923, crise revolucionária na Alemanha; Dezembro de 1924,insurreição na Estónia; Abril de 1925, sublevação em Marrocos; Agosto de 1925, sublevaçãona Síria; Maio de 1926, greve geral em Inglaterra; Julho de 1927, insurreição operária em Viena. Estes fatos e acontecimentos tais como a insurreição da Indonésia, a profunda e fervescência na Índia, a grande revolução chinesa que abalou todo o continente asiático,  formam os elos da cadeia da ação revolucionária internacional e são os elementos constitutivos da grave crise geral do capitalismo. O processo da revolução mundial compreende a luta imediata pela ditadura do proletariado, as guerras de libertação nacional e as sublevações coloniais contra o imperialismo, indissoluvelmente ligadas ao movimento agrário das grandes massas camponesas. Uma massa incalculável de homens achou-se assim arrastada pela torrente revolucionária. A história do mundo entrou numa nova fase, a fase da crise geral e duradoura do sistema capitalista. A unidade da economia mundial exprime-se pelo carácter internacional da revolução; e a desigualdade de desenvolvimento das diversas partes da economia mundial no fato de que as revoluções não eclodem simultaneamente em diferentes países. As primeiras tentativas de revolução, nascidas da crise aguda do capitalismo (1918-1921), terminaram com a vitória e consolidação da ditadura do proletariado na URSS e com a derrota do proletariado em diversos outros países. Estas derrotas são devidas, antes demais, à táctica de traição dos chefes sociais-democratas e dos líderes reformistas do movimento sindical; ao fato de que os comunistas não tinham ainda atrás de si a maioriada classe operária e que em muitos países importantes ainda não existiam partidos comunistas.Na sequência destas derrotas, que tornaram possível a exploração acrescida das massas proletárias e dos povos coloniais e uma brusca redução do seu nível de vida, a burguesia alcançou uma estabilização parcial do regime capitalista.

2. A crise revolucionária da social-democracia contra-revolucionária
Os quadros dirigentes dos partidos sociais-democratas e dos sindicatos reformistas e as organizações capitalistas de choque de tipo fascista adquiriram, no decurso da revolução internacional, a maior importância como força contra-revolucionária que combate ativamente a revolução e apoia ao mesmo tempo a estabilização parcial do capital. A guerra de 1914-1918 foi acompanhada pela vergonhosa falência da II Internacional social-democrata. Em contradição absoluta com a tese do Manifesto do PartidoComunista de Marx e Engels, que afirma que os proletários não têm pátria em regime capitalista, em contradição absoluta com as resoluções adotadas contra a guerra pelos congressos socialistas internacionais de Estugarda e de Basileia, os chefes dos partidos sociais-democratas nacionais, com algumas excepções, votaram os créditos de guerra,pronunciaram-se resolutamente pela «defesa nacional» das suas «pátrias» imperialistas(quer dizer, dos estados da burguesia imperialista) e, em lugar de opor-se à guerra imperialista, tornaram-se seus fiéis soldados, seus propagandistas, seus incensadores (o social-patrotismo transformou-se assim em social-imperialismo). No período seguinte, a social-democracia defendeu os tratados espoliadores (Brest-Litovsk, Versalhes); interveio activamente ao lado dos generais na repressão sangrenta das sublevações proletárias 9(Noske1); combateu com armas nas mãos a primeira República proletária (a Rússia dos Sovietes); traiu vergonhosamente o proletariado no poder (Hungria); aderiu à Sociedadedas Nações imperialista (A. Thomas,Paul-Boncour, Vandervelde); colocou-seabertamente ao lado dos esclavagistas imperialistas contra os escravos coloniais (o Labour Party inglês); apoiou ativamente os carrascos mais reacionários da classe operária(Bulgária, Polónia); promoveu as «leis militares» imperialistas (França); traiu a grande greve geral do proletariado inglês; ajudou a estrangular a greve dos mineiros ngleses; ajudou e ajuda ainda a oprimir a China e a Índia (governo Mac Donald); assume o papel de propagandista da Sociedade das Nações imperialista, de arauto do capital e de força organizadora da luta contra a ditadura do proletariado na URSS (Kautsky,Hilferding).
Noske, Gustav (1868-1946), social-democrata alemão da ala direita, ministro da Defesa daAlemanha( 1919-1920), comandou a repressão dos comunistas e sociais-democratas de esquerda e oassassínio de Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht , tendo declarado a propósito que «È preciso que alguémfaça o papel de cão sangrento. Não temo as responsabilidades». Demitido em 1933 pelos nazis do cargo degovernado de Nanover, que ocupava desde 1920, é preso em 1937 e internado em campos de concentração atéser libertado pelos soviéticos em Maio de 1945.(N. Ed.)
Thomas, Albert (1878-1932), político francês, socialista de direita. social-chauvinista durante a I GuerraMundial, membro do governo burguês francês. Em 1917, após a revolução de Fevereiro, deslocou-se à Rússia para agitar em defesa da continuação da guerra . Em 1919, foi um dos organizadores da Internacional de Berna, constituída por partidos reformistas. (N. Ed.)
Paul-Boncour, Joseph (1873-1972), advogado próximo dos socialistas franceses, é eleito deputado em1909, entrando para o governo como ministro do Trabalho em 1911. Ingressa na SFIO em 1916, partido como qual rompe em 1931, regressando ao Partido Republicano-Socialista que se funde em 1935 na UniãoSocialista Republicana. Senador (1931-1940), ministro da Guerra (1932), torna-se presidente do Conselho deMinistros entre Dezembro de 1932 e 1933. Após a queda do seu governo, permanece como ministro dos Negócios Estrangeiros até 1934, ministro de Estado até 1936 e de novo dos Negócios Estrangeiros entreMarço e Abril de 1938. Perseguido pela Gestapo adere em Junho de 1944 à Resistência. Após a libertaçãovolta a aderir à SFIO. (N. Ed.) 4
Vandervelde Émile, (1866-1938), professor universitário da cadeira de sociologia, foi um dos principaisdirigentes do Partido Socialista Belga desde a sua fundação em 1885. Foi presidente do
Bureau  Socialista Internacional, destacando-se pelas suas posições de direita no panorama da época do socialismo europeu. Em1900 pronunciou-se contra o reconhecimento imediato do direito de voto das mulheres, apesar tal reivindicação constar no programa do seu partido. Em 1914 aceita participar no governo como ministro dos Negócios Estrangeiros, de 1918 a 1921 é ministro da Justiça e volta aos Negócios Estrangeiros entre 1925 e1927.(N. Ed.)5
Mac Donald, James Ramsay (1866-1937), fundador e dirigente do Partido Trabalhista Independente e doPartido Trabalhista, pregou a teoria da conciliação de classes e da gradual transformação do capitalismo em  socialismo. Apoiou a burguesia na I Guerra Mundial. Em 1924 torna-se primeiro-ministro da Grã-Bretanha,com o apoio dos liberais, aliança que se desfaz ao fim de nove meses. Regressa à chefia do governo em 1929, formando, em 1931, um governo de unidade nacional, constituído maioritariamente por conservadores, que provocou a sua expulsão do Partido Trabalhista.
Kautski, Karl (1854-1938), dirigente do Partido Social-Democrata Alemão e da II Internacional. Inicialmente marxista, mais tarde renegado da teoria revolucionária, torna-se ideólogo do centrismo. Depoisda Revolução de Outubro na Rússia, manifesta-se contra a ditadura do proletariado, o Partido Comunista e o Estado Soviético. (N.  Ed.)
Hilferding, Rudolf (1877-1941), dirigente e teórico da social-democracia alemã e da II Internacional.Jornalista, participou na revolução de Novembro de 1918, tornando-se ministro das Finanças, em 1923 e entre1928 e 1929. Exila-se em França na sequência da ascensão do fascismo em 1933, onde é assassinado Gestapoem 1941.(N. Ed.)
10 Prosseguindo sistematicamente esta política contra-revolucionária, a social-democraciaopera alternadamente por meio das suas duas alas: a ala direita , abertamente contra-revolucionária, indispensável às negociações e à ligação direta com a burguesia, e a ala esquerda
, destinada a enganar os operários com uma subtileza particular. A «esquerda»social-democrata, usando de bom grado a frase pacifista e por vezes mesmo a fraserevolucionária, age na realidade contra os operários, sobretudo nas horas mais críticas (os«independentes» ingleses e a «esquerda» do Conselho Geral das Trade-Unions durante agreve geral de 1926; Otto Bauere C.ª durante a insurreição vienense, etc.) e constitui poressa razão a fracção mais perigosa dos partidos sociais-democratas. Servindo no seio daclasse operária os interesses da burguesia e colocando-se inteiramente no terreno dacolaboração de classes e da coligação com a burguesia, a social-democracia é, em certosmomentos, constrangida a passar à oposição e mesmo a simular a defesa dos interesses daclasse do proletariado na sua luta económica; fá-lo com a única finalidade de adquirir aconfiança de uma parte da classe operária e de trair os seus interesses permanentes, tantomais vergonhosamente na hora das batalhas decisivas.O papel essencial da social-democracia é agora o de minar a indispensável unidade decombate do proletariado em luta contra o imperialismo. Cindindo e dividindo a frente vermelha única da luta proletária contra o capital, a social-democracia é o principal apoiodo imperialismo na classe operária. A social-democracia internacional de todos os matizes,a II Internacional e a sua filial sindical, a Federação Sindical Internacional de Amsterdão,tornaram-se deste modo nas reservas da sociedade burguesa, na sua mais segura trincheira.

3. A crise do capitalismo e o fascismo
Ao lado da social-democracia, com a ajuda da qual a burguesia reprime o movimentooperário ou adormece a sua vigilância de classe, ergue-se o
fascismo.Na época do imperialismo, o agravamento da luta de classes e o desenvolvimento,sobretudo após a guerra imperialista mundial, dos elementos da guerra civil, conduziram auma crise do parlamentarismo. Daí os «novos» métodos e as novas formas de governo (osistema de «pequenos gabinetes», a formação de oligarquias agindo nos bastidores, adegredação e a falsificação da «representação popular», as restrições às «liberdades demdemocráticas», que por vezes são abolidas, etc.). Esta ofensiva da reação burguesaimperialista, toma, em certas condições históricas, a forma do fascismo. Essas condiçõessão: a instabilidade das relações capitalistas, a existência de importantes elementos sociaisdesclassificados, o empobrecimento de grandes camadas da pequena burguesia dos campose, por fim, a constante ameaça da acção de massas do proletariado. Para garantir umaestabilidade, uma firmeza e uma continuidade maiores do seu poder, a burguesia vê-secada vez mais na necessidade de passar do sistema parlamentar ao método fascista,independentemente das relações e das composições de partidos. Este método da ditaduradirecta, ideologicamente camuflada com a ajuda da «ideia nacional» e da representação«corporativa» (que é na realidade a dos diversos grupos das classes dominantes), explora odescontentamento das massas pequeno-burguesas, dos intelectuais e doutros meios sociais  Bauer, Otto, verdadeiro nome Heinrich Weber (1882-1932), social-democrata austríaco, dirigente da II Internacional, ideólogo do oportunismo, elaborou a teoria da «autonomia-nacional-cultural. Ministro dos Negócios Estrangeiros da Áustria, combateu o movimentou revolucionário da classe operária da Áustria. Em1934 exila-se em França onde vem a falecer. (N. Ed.)

Fonte:Historio do Socialismo

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Arábia Saudita em direção ao colapso


15.01.2016

Enquanto os Saud gozam os últimos momentos da sua ditadura, a decapitação do líder da sua oposição, Nimr al-Nimr, priva metade da população saudita de qualquer esperança. Para Thierry Meyssan a queda do reino tornou-se inevitável. Ela deverá ser acompanhada por um longo período de violência extrema.

Thierry Meyssan
O príncipe Mohammed ben Salman Al Saoud, 30 anos, príncipe herdeiro suplente, segundo Primeiro-ministro suplente, ministro de Estado, ministro da Defesa, secretário-geral do Tribunal real, presidente do Conselho para os Assuntos Económicos e o Desenvolvimento.
Num ano, o novo rei da Arábia, Salman, 25º filho do fundador da dinastia, conseguiu consolidar a sua autoridade pessoal em detrimento dos outros ramos da sua família, entre os quais o clã do príncipe Bandar bin Sultan e o do antigo rei Abdulla. Entretanto, ignora-se o que Washington prometeu aos perdedores para que eles não empreendessem nada no sentido de recuperar o seu poder perdido. De qualquer forma cartas anónimas, surgidas na imprensa britânica, permitem pensar que eles não desistiram de suas ambições.
Forçado pelos seus irmãos a nomear como herdeiro o príncipe Mohammad bin Nayef o rei Salman rapidamente o isolou, e limitou as suas competências, em proveito do seu próprio filho, o príncipe Mohammed bin Salman, cuja impulsividade e brutalidade não são refreadas pelo Conselho de Família, que não se reúne mais. De facto, são agora ele e o seu pai quem governa a sós, como autocratas, sem nenhum contra-poder, num país que nunca elegeu qualquer parlamento e onde os partidos políticos estão interditos.
Assim, vimos o príncipe Mohammed bin Salman assumir a presidência do Conselho de Assuntos Económicos e do Desenvolvimento, impôr uma nova direcção ao Bin Laden Group e apoderar-se da Aramco. Em cada jogada tratou-se, para ele, de afastar os seus primos e de colocar religiosos à frente das grandes empresas do Reino.
O xeque al-Nimr descrevia assim a vida dos xiitas na Arábia Saudita : « Desde o momento em que nascestes vós estais cercados pelo medo, a intimidação, a perseguição e os abusos. Nascemos numa atmosfera de intimidação. Temos medo até das paredes. Quem, de entre nós, não está familiarizado com a intimidação e a injustiça à qual temos sido submetidos neste país ? Eu tenho 55 anos de idade, mais de meio século, desde o dia em que nasci até ao presente jamais me senti em segurança neste país. É-se sempre acusado de qualquer coisa. Está-se sempre sob ameaça. O director da Segurança de Estado admitiu-o à minha frente. Ele disse-me quando fui preso : "Deveríeis ser mortos, todos vós, xiitas". Eis a sua lógica. »
Em matéria de política interna, o regime assenta apenas na metade da população sunita ou wahhabita, e discrimina a outra metade da população. O príncipe Mohammed bin Salman aconselhou ao seu pai a decapitação do xeque Nimr Baqir al-Nimr porque este ousara desafiá-lo. Por outras palavras, o Estado condenou à morte e executou o principal líder da sua oposição, cujo único crime é o de ter formulado e repetido o slogan: « O despotismo é ilegítimo». O facto que este líder seja um xeque xiita só reforça o sentimento de "apartheid" dos não-sunitas, que estão impedidos de seguir uma educação religiosa e que estão todos proibidos de aceder ao trabalho na função pública. Quanto aos não-muçulmanos, ou seja um terço da população, não estão autorizados a praticar a sua religião e não podem esperar aceder à nacionalidade saudita.
No plano internacional, o príncipe Mohammed e o seu pai, o rei Salman, conduzem uma política apoiada nas tribos beduínas do Reino. Só assim é possível compreender o prosseguir, ao mesmo tempo, do financiamento dos Talibãs afegãos e da Corrente do Futuro libanesa, a repressão saudita contra a Revolução no Barein, o apoio aos jiadistas na Síria e no Iraque e a invasão do Iémene. Em todo o lado, os Saud apoiam os sunitas --que eles consideram como os mais próximos do seu wahhabismo de Estado---, não apenas contra os xiitas, mas, primeiro, contra os sunitas esclarecidos, depois contra todas as outras religiões (ismaelitas, zaiditas, alevitas, alauítas, drusos, siques, católicos, ortodoxos, sabateus, yazidis, zoroastristas, hindus, etc.). Acima de tudo, em qualquer caso, eles apoiam exclusivamente líderes saídos de grandes tribos Sauditas sunitas.
De passagem, nota-se que a execução do xeque al-Nimr segue-se ao anúncio da criação de uma vasta Coligação(coalizão-br) anti-terrorista de 34 Estados em torno de Riade. Sabendo que o supliciado, que sempre rejeitou o uso da violência, foi condenado à morte por «terrorismo» (sic), deve-se entender que esta Coligação é, na verdade, uma aliança sunita contra as outras religiões.
O príncipe Mohammed tomou em mãos a decisão de lançar a guerra ao Iémene, alegadamente para socorrer o presidente Abd Rabbo Mansour Hadi, derrubado por uma aliança entre os Hutis e o Exército do antigo presidente Ali Abdullah Saleh, mas, na realidade, para se apoderar dos campos de petróleo e os explorar junto com Israel. Como se podia prever a guerra corre mal e os insurgentes lançam incursões na própria Arábia Saudita, onde o exército debanda abandonando o seu material.
A Arábia Saudita é, pois, o único Estado do mundo propriedade de um único homem, regido por este autocrata e seu filho, recusando qualquer debate de ideias, não tolerando nenhuma forma de oposição, e não aceitando mais que a vassalagem tribal. O que foi, por muito tempo, considerado como resquício de um mundo ultrapassado, chamado a adaptar-se ao mundo moderno, esclerosou-se até tornar-se na identificação própria de um reino anacrónico.
A queda da Casa Saud poderá ser provocada pela baixa dos preços do petróleo. Incapaz de reformar o seu nível de gastos, o Reino pede emprestado à larga, de modo que assim, segundo os analistas financeiros, deverá cair na falência daqui a dois anos. A venda parcial da Aramco poderá dar uma prorrogação a esta agonia, mas ela se fará ao preço de uma perda de autonomia.
A decapitação do xeque al-Nimr terá sido o capricho mais elevado. O colapso é agora inevitável na Arábia porque não há aí nenhuma esperança para os que lá vivem. O país encontrar-se-á, então, mergulhado numa mistura de revoltas tribais e de revoluções sociais, que serão muito mais mortíferas que os precedentes conflitos do Próximo-Oriente.
Longe de se oporem a este fim trágico, os protectores norte-americanos do Reino aguardam-no com impaciência. Eles não param de louvar a «sabedoria» do príncipe Mohammed como um meio para o encorajar a cometer mais erros. Já em Setembro de 2001 a Junta de Chefes de Estado-Maior(JCOS-ndT) trabalhava num mapa de Remodelagem do «Médio-Oriente Alargado», que previa a divisão do país em cinco Estados. Além de que, em julho de 2002, Washington avaliava a maneira de se livrar dos Saud, no decorrer de uma célebre reunião do Defense Policy Board(Conselho da Política de Defesa-ndT). Agora, é apenas uma questão de tempo. A RETER:
 Os Estados Unidos conseguiram resolver a questão da sucessão do rei Abdallah, mas empurram hoje em dia a Arábia Saudita para a queda. O seu objectivo é, agora, dividir o país em cinco.  
O wahhabismo é a religião de Estado, mas os Saud apoiam-se no interior e no exterior unicamente sobre as tribos sunitas e mantêm as outras populações em “apartheid”.
 
O rei Salman (80 anos) deixa o exercício do poder a um dos seus filhos, o príncipe Mohammed (30 anos). Este apoderou-se das grandes empresas do país, declarou guerra ao Iémene, e acaba de fazer executar o chefe da sua oposição, o xeque al-Nimr.+

Thierry Meyssan
Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: L'Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations(ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).
Tradução 
Alva

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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Ucraina: Heil mein Nato!

O arte da guerra

porochenko_nazi
O roteiro para a cooperação militar Otan-Ucrânia, assinado em dezembro, praticamente integra doravante as forças armadas e a indústria bélica de Kiev nas da Aliança sob a condução dos Estados Unidos. Nada mais falta a não ser a entrada formal da Ucrânia na Otan.
O presidente Poroshenko anunciou para esse efeito um « referendo » cuja data está por definir, prenunciando uma clara vitória do « sim » sobre a base de uma pesquisa já realizada. Por seu lado, a Otan garantiu que a Ucrânia, « um dos mais sólidos parceiros da Aliança », está « firmemente comprometida a realizar a democracia e a legalidade ».
Os fatos falam claramente. A Ucrânia de Poroshenko – o oligarca que enriqueceu com o saque das propriedades do Estado e a quem o primeiro-ministro italiano Renzi louva como « sábia liderança » – decretou por lei em dezembro o banimento do Partido Comunista da Ucrânia, acusado de « incitação ao ódio étnico e violação dos direitos humanos e das liberdades ». Estão proibidos por lei mesmo os símbolos comunistas : cantar A Internacional resulta numa pena de 5 a 10 anos de prisão.
É o ato final de uma campanha de perseguição semelhante à que marcou o advento do fascismo na Itália e do nazismo na Alemanha. Sedes de partidos destruídas, dirigentes linchados, jornalistas torturados e assassinados, militantes queimados vivos na Bolsa do Trabalho de Odessa, civis sem armas massacrados em Marioupol, bombardeados com fósforo branco em Slaviansk, Lougansk e Donetsk.
Um verdadeiro golpe de Estado sob a direção da dupla EUA/Otan, com o objetivo estratégico de provocar na Europa uma nova guerra fria para golpear e isolar a Rússia e, ao mesmo tempo, fortalecer a influência e a presença militar dos Estados Unidos na Europa. Como força assalto, foram utilizados, no golpe da Praça Maidan e nas ações sucessivas, grupos neonazistas treinados e armados para esse efeito, como provam as fotos de militantes de Uno-Unso treinados em 2006 na Estônia. As formações neonazistas foram em seguida incorporadas na Guarda Nacional, adestradas por centenas de instrutores estadunidenses da 173ª divisão aerotransportada, transferida de Vicenza para a Ucrânia, acompanhada por outras da Otan.
A Ucrânia de Kiev foi assim transformada no « viveiro » do nazismo renascente no coração da Europa. Chegam a Kiev neonazistas de toda a Europa (inclusive da Itália) e dos EUA, recrutados sobretudo pelo partido de extrema direita Pravy Sektor e pelo batalhão Azov, cuja identidade nazista é representada pelo emblema decalcado das SS do Reich. Depois de terem sido treinados e postos à prova nas ações militares contra os russos da Ucrânia e no Donbass, retornam a seus países com o « salvo-conduto » do passaporte ucraniano. Simultaneamente difunde-se na Ucrânia a ideologia nazista entre as jovens gerações. Disto, ocupa-se em particular o batalhão Azov, que organiza campos de treinamento militar e de formação ideológica para crianças e adolescentes, aos quais se ensina antes de tudo o ódio aos russos.
Isto advém da conveniência dos governos europeus: por iniciativa de um parlamentar da República Tcheca, o chefe do batalhão Azov, Andriy Biletsky, aspirante a « Führer » da Ucrânia, foi recebido pelo parlamento europeu como « orador convidado ». Tudo no quadro do « Apoio prático da Otan à Ucrânia », compreendendo o « Programa de potencialização da educação militar », no qual participaram em 2015, 360 professores ucranianos, instruídos por 60 experts da Otan. Num outro programa da Otan, « Diplomacia pública e comunicações estratégicas », ensina-se às autoridades como «contrapor-se à propaganda russa» e aos jornalistas como « gerar histórias factuais desde a Crimeia ocupada e a Ucrânia oriental ».
Manlio Dinucci
Fonte : Il manifesto
porochenko_nazi
Ucraina: Heil mein Nato!
Tradução de José Reinaldo Carvalho para o Blog da Resistência 
Na edição original, em italiano, foi publicado com este título em alemão, uma alusão ao famigerado « Heil, Hitler ! »