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quarta-feira, 9 de março de 2016

Racismo é crime e devemos combatê-lo todo dia...

10.03.2016 | Fonte de informações: 

Pravda.ru

Racismo é crime e devemos combatê-lo todo dia.... 23937.jpeg

"Um dia um homem branco me falou, que no Brasil não tem branco... mas quando olho em todo canto, eu vejo o branco dominando..."


Giovane Sobrevivente
Poeta e Ativista Cultural

Por: Valdeck Almeida de Jesus (*)
Posso começar este texto com as afirmações "sou racista, sexista, machista, homofóbico, gordofóbico, xenófobo, intolerante religioso...", pois vivo em um país de desigualdades e de discriminações e aprendi na infância, na adolescência e juventude, através do discurso dominante, inconscientemente, a negar a existência dessas desigualdades e discriminações. Também posso começar o mesmo texto dizendo que estou em processo de educação ao participar de debates, mesmo quando fico somente ouvindo, calado; quando vou a eventos onde se discute a desconstrução de toda e qualquer forma de discriminação e dou, apenas, pequenas contribuições.

Nesse sentido convido a todos os brancos e brancas, meus conhecidos ou não, a se irmanarem num grande debate sobre a humanidade negra, pra fazer um exame de consciência sobre o assunto, expor suas ideias e pensamentos, participar da luta contra os privilégios. É hora de cada um dos privilegiados começar a abrir corações e espaços de poder para que o debate seja posto, incluindo, certamente, recortes de raça, gênero e expressão sexual. Cito aqui grupos que poderão se sentir incluídos nesse chamado: juízes, advogados, delegados, deputados, senadores, vereadores, gestores públicos, governantes, prefeitos, presidentes, comando das polícias, jornalistas, escritores, artistas, empresários etc.

Não se deve calar diante das injustiças e desrespeitos praticados contra irmãos e irmãs negros e negras, contra minorias sexuais, contra mulheres. O momento é crucial e as bases precisam ser abaladas para que todos e todas sejam incluídos nos espaços de poder e protagonismo. É necessário que os portadores de privilégios façam exame de consciência e apoiem as lutas de minorias por afirmação e empoderamento.

Aqueles que não têm amadurecimento suficiente para se engajarem numa luta mais qualificada, podem auxiliar de outras formas. Afinal, sempre tem algo que se pode fazer. A empatia é o primeiro exercício necessário, se colocar no lugar do outro, tentar compreender as razões, ouvir, atentamente, o outro, e se permitir a escuta silenciosa, atenciosa, para o aprendizado que pode, também, advir desse processo, e se educar, e se empoderar para se desnudar dos preconceitos e das visões deturpadas de mundo.

Estou nesse processo de aprendizado, de compreensão do meu papel perante todo esse cenário de crimes, e estou tomando consciência de que sou um privilegiado por ter a pele branca. E não adianta apelar que tenho mãe índia e avó negra, que nos Estados Unidos sou considerado negro, pois no Brasil as portas se fecham somente para quem tem pele negra, fenótipo negro. Já passei por discriminações por ter nascido e crescido em uma favela, mas atualmente não passo mais por isso; ainda sou vítima de outros tipos de discriminações, que não vem ao caso descrevê-las aqui. Mas não sofro e nem sei o que é sentir a mesma discriminação que sente quem tem a pele negra, de quem mora na periferia por amor ou falta de opção, de quem é mulher, de quem é gordo, de tantos outros tipos horríveis de discriminação. Mas posso me irmanar, me permitir entender, compreender, perceber que o outro tem os mesmos direitos que eu, e labutar junto para que ele tenha acesso ao que lhe é de direito.

Ainda que eu me irmane, continuo sendo um privilegiado por causa da pele branca e sinto vergonha, principalmente, por não ser parado em blitz e não ser seguido nos corredores de lojas e supermercados, o que é feito descaradamente por autoridades desse país, as mesmas autoridades que deveriam proteger seus cidadãos; me solidarizo com a luta contra o racismo e toda espécie imunda de discriminação. Ojerizo os assassinatos praticados contra jovens negros e negras de todas as periferias do Brasil, não importam os motivos, todo cidadão tem direito à vida. Condeno o machismo, sexismo, homofobia, lesbofobia, transfobia, gordofobia etc. Não posso falar por meus irmãos e irmãs nem dizer o que devem fazer, mas me coloco à disposição, no apoio e lado a lado na luta. Outros amigos de pele branca, também privilegiados, podem e devem se perfilar nesse apoio, e usar de seus lugares de fala, dos microfones, das redes sociais, salas de aula, local de trabalho, onde quer que estejam, para mudar esse cenário de desigualdades.

Quem não tem intimidade com microfones ou desenvoltura diante de plateias, pode ajudar de outras formas. E maneiras de apoiar não faltam. Coloque seus pensamentos no papel, em forma de poema, crônica ou artigo, mesmo que você não seja de pronto compreendido e que perca amigos. O que não vale é fazer de conta que o país é cordial e que não existem diferenças e discriminações. O preço da omissão é alto demais e machuca muito. A hora é de combate a todo e qualquer tipo de discriminação e desrespeito aos Direitos Humanos.+
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(*) Valdeck Almeida de Jesus é jornalista, poeta, escritor ativista cultural.
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sábado, 5 de março de 2016

Biografia de Karl Marx, o maior pensador da humanidade


Karl Marx


Homem de Ciência e Lutador Socialista
“…Assim como Darwin descobriu a lei do desenvolvimento da natureza orgânica, Marx descobriu a lei do desenvolvimento da natureza humana [...] Marx descobriu também a lei específica que move o atual modo de produção capitalista e a sociedade burguesa criada por ele”. Mas ele não se contentava com os estudos,com as brilhantes conclusões a que chegava como resultado de suas investigações. O que considerava a verdadeira missão de sua vida? “…Marx era, acima de tudo, um revolucionário. Cooperar para a derrubada da sociedade capitalista, contribuir para a emancipação do proletariado. A luta era seu elemento.” (Engels, discurso no túmulo de Marx em 17/3/1883).
O interesse pelo estudo, pela pesquisa, para entender os fenômenos em sua essência e não apenas em sua aparência, acompanhou desde a mais tenra idade Karl Einrich Marx, que nasceu em Treves (Prússia, Alemanha) no dia 5 de maio de1818. O pai, Einrich Marx e a mãe, Henriqueta Pressburg eram de origem judaica. Os primeiros estudos foram no Liceude Treves, mas ele não se limitava aos ensinamentos da escola. Freqüentava a casa de Ludwig de Westafalen, funcionário do governo prussiano e homem de vasta cultura. Outro fator também atraía o garoto: uma bela menina, Jenny, filha do sábio amigo e também muito interessada em beber na fonte do conhecimento. Com ela, Marx casar-se-ia aos 26 anos e viveria a vida inteira.
Em 1835, foi para a Universidade de Bonn mas logo se transferiu para a de Berlim,“centro de toda cultura e de toda a verdade”, como a classificava o filósofo Hegel. Foi nela que depois de muito estudo, muita reflexão, se tornou um jovem hegeliano. Marx dedicou-se ao estudo da filosofia, do direito, da história, da geografia e expressava essa ânsia de saber nas cartas ao pai e em poesias.
Abandonou cedo os estudos de Direito para aprofundar os conhecimentos filosóficos e obteve o título de doutor em1841. Tentou uma vaga de livre docente,mas as universidades prussianas não simpatizavam com livres pensadores.
A oportunidade de trabalho surgiu quando um grupo de liberais da Renânia fundou um jornal, a Gazeta Renana e convidou os jovens hegelianos para a redação. Constatou então que para escrever sobre questões da atualidade, como as teorias do socialismo francês e as questões agrárias da Renânia, não bastava o saber filosófico, tornando-se necessário estudar a fundo a Economia Política e o Socialismo.
Os estudos da economia política e do socialismo levaram Marx a romper com a visão hegeliana e aderir ao comunismo. Em outubro de 1843, morando em Paris com Jenny, com quem se casara em setembro daquele ano, escreveu em Anais Franco-alemães, publicação que dirigiu: “…O sistema de lucro e do comércio, da propriedade privada e da exploração do homem, acarreta no seio da sociedade atual, um dilaceramento que o antigo sistema é incapaz de curar porque ele não cria nem cura, mas apenas existe e goza”.
Anais Franco-alemães publicou um trabalho intitulado Esboço de uma Crítica da Economia Política, que Max classificou de genial. Era de autoria de Friedrich Engels, que por sua vez acompanhava com admiração os escritos de Marx. Os dois se encontraram em Paris em setembro de 1844, ocasião em que nasceu uma amizade e uma parceria ímpares e fundamentais para a elaboração da teoria do socialismo científico (Sobre Engels,veja A Verdade nº 47).
Até ser expulso da França em 1845, a pedido do governo prussiano, Marx conviveu com os operários, conheceu seus movimentos, os socialistas utópicos e teóricos como Proudhon, com quem estabeleceu uma polêmica.
Proudhon escreveu A Filosofia da Miséria, obra em que criticava os utópicos, que pretendiam construir uma nova ordem social “sobre os sentimentos paradisíacos de fraternidade, de amor, de abnegação”. Propunha ação concreta, mediante a criação de grupos de produção autônomos, que trocariam entre si os produtos criados por eles, prescindindo da moeda e estabelecendo relações de cooperação e solidariedade. As atividades seriam organizadas de acordo com as necessidades da Comunidade .
Marx respondeu em A Miséria da Filosofia que Proudhon não compreendeu que as relações sociais entre os homens estão estreitamente ligadas às forças produtivas. No capitalismo, à medida que a burguesia se desenvolve, surge um novo proletariado; uma luta é travada entre a classe proletária e a burguesia, dado o caráter contraditório do sistema, pois as mesmas condições nas quais se produz a riqueza se produz a miséria. A única solução justa, diz Marx, porque provém da situação real, é organizar a classe oprimida para tornar a luta consciente. No decorrer dessas lutas é que nascerá a nova sociedade; aliás, ressalta, isso só poderá se suceder quando as forças produtivas tiverem atingido elevado grau de desenvolvimento.
O Manifesto Comunista e a organização do proletariado
Expulso de Paris, Marx foi para Bruxelas, onde ingressou na Liga dos Comunistas, organização dos operários alemães imigrados, à qual já pertencia Engels. A Liga definiu seus princípios e atribuiu a Marx e Engels a tarefa de dar-lhes forma e fundamentação teórica. Nasceu o Manifesto do Partido Comunista publicado em 1848, que se tornou a bíblia do movimento operário revolucionário. O Manifesto trata de três temas essenciais:
1- a história do desenvolvimento da burguesia. Sua obra positiva e negativa;
2- a luta de classe e o papel do proletariado;
3-  a ação revolucionária dos comunistas.
Mal é editado o Manifesto Comunista, eclode a revolução de 1848, que destrona a monarquia reinstalada na França pela burguesia, e se espalha por toda a Europa. Marx foi imediatamente preso e expulso de Bruxelas. Engels conseguiu se engajar no movimento revolucionário e participou de várias batalhas. Com a derrota, deixou o país. Ambos foram viver na Inglaterra, Marx em Londres e Engels em Manchester, mas comunicavam-se diariamente e voltaram a ser vizinhos 20 anos depois. Nesse período Marx se dedicou à elaboração de O Capital, sua principal obra, e aos contatos com o movimento operário.
A idéia surgiu da correspondência entre militantes operários da Inglaterra e da França e em setembro de 1864 se fundou a Associação Internacional de Trabalhadores. A mensagem inaugural, redigida por Marx, destaca a necessidade de uma ação econômica e política da classe operária em favor da transformação da sociedade. Marx dedicou-se á Internacional de 1865 a 1871, ano em que ela foi dissolvida, graças à ação dos anarquistas seguidores de Michael Bakunine (ativista russo).
Pai doce, terno e indulgente
Foi a Internacional que levou o jovem militante Paul Lafargue a conhecer Marx, de quem se tornou discípulo, amigo, admirador e genro, pois se casou com Laura, uma de suas três filhas (O casal Marx/Jenny teve seis filhos – quatro meninas e dois meninos-, dos quais só três meninas sobreviveram [Jenny, Laura e Eleanor]).
É Lafargue quem detalha aspectos da vida pessoal de Marx, destacando sua energia incansável para os estudos e para a ação. Seu cérebro não parava e durante as caminhadas que faziam no final da tarde, discorria sobre questões relativas ao capital, obra que estava elaborando na época e da qual só redigiu o I Volume, tendo Engels escrito os dois seguintes, a partir das anotações que o amigo deixou.
Quando cansava do trabalho científico, lia romances, dramaturgia, conhecia de cor as obras de Shakespeare ou álgebra (chegou a escrever um trabalho sobre cálculo infinitesimal). Os domingos eram reservados para as filhas, uma exigência delas. “Pai doce, terno e indulgente, não dava ordens, pedia as coisas por obséquio, persuadia-as a não fazer aquilo que contrariasse seus desejos. E como era obedecido! As filhas não o chamavam de pai e sim de ‘mouro’, apelido que lhe deram por causa de sua cor mate, de sua barba e dos cabelos negros”.
O proletariado tomou o céu de assalto
Em fins de 1870, o proletariado francês voltava a efervescer e uma insurreição se anunciava. O Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores avaliou que não havia amadurecimento das condições objetivas para assegurar o poder da classe operária e implantar o socialismo e emitiu resolução redigida por Marx, apelando para que “… utilizem, tranqüilamente e com energia, os meios que lhes oferecerem as liberdades republicanas a fim de poderem efetivar a organização de sua própria classe. Isso lhes proporcionará forças novas e gigantescas para a renascença da França e a realização da tarefa comum: a libertação do proletariado”.
Mas os operários parisienses não deram ouvidos; cansados da política antidemocrática, humilhados, no dia 18 de março de 1871 tomaram o poder e instalaram a Comuna de Paris, anunciando as primeiras medidas de construção de uma sociedade socialista. A duração foi efêmera, mas rica de experiências que Marx consolidaria na sua obra A Guerra Civil na França.
A Internacional deu todo o apoio possível ao proletariado francês em luta, tanto durante a guerra, como depois, protegendo os exilados e denunciando ao mundo a cruel repressão que a burguesia desencadeou sobre os operários parisienses e suas famílias.
Os últimos anos
Foram de sofrimento, com as doenças que lhe atingiram e à mulher, Jenny, que faleceu no dia 2 de dezembro de1881. Ao tomar conhecimento do fato, Engels comentou: “O mouro morreu também”. E não se enganava. Já debilitado, com problemas pulmonares , no dia 14 de março de 1883, o genial pensador faleceu repentinamente enquanto repousava numa cadeira em seu aposento de trabalho.
No sepultamento, sem cerimonial, como era seu desejo, junto à esposa, colaboradora e companheira de toda a vida, Engels discursou: “… É praticamente impossível calcular o que o proletariado militante da Europa e da América e a ciência histórica perderam com a morte deste homem…”
Legado e atualidade do marxismo
“Os filósofos buscam interpretar o mundo, enquanto nós queremos transforma-lo”, assim diferenciava Marx o materialismo histórico e dialético da filosofia clássica e mesmo da hegeliana. E o marxismo tem sido, de fato, guia para ação dos movimentos revolucionários dos trabalhadores em todo o mundo.
Apressada, a burguesia comemorou a derrocada dos regimes ditos socialistas da URSS e do leste europeu no final dos anos 80 e início da década de 90 e chegou a propalar o “fim da história”, deixando de observar que a tragédia se deu exatamente porque os dirigentes, atraídos pelo canto de sereia burguês, se desviaram do marxismo que norteou a Revolução Bolchevique de 1917, dirigida por Lênin, um genial discípulo de Marx.
Mas não demorou e o champanhe foi substituído por lágrimas, em decorrência dos conflitos que se sucederam nos quatro cantos do mundo e atingiram o centro do imperialismo.
Ao contrário, a evolução do capitalismo só tem comprovado as teses marxistas e seu caráter científico.
Globalização: por que a surpresa?
Nas suas jogadas de marketing, os teóricos da burguesia e seus meios de comunicação apresentaram a chamada “globalização” como algo novo, avassalador, que suplantaria qualquer resistência e bloquearia qualquer tentativa de transformação social. Ora, o capitalismo tem caráter mundial desde o seu surgimento: o que foram as grandes navegações? A colonização? É de sua essência, como afirmou o Manifesto Comunista, no ano de 1848: “… Pela exploração do mercado mundial, a burguesia imprime um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países.”
Os fatos recentes comprovam também que quanto mais se desenvolve, mais o capitalismo “forja as armas que o levarão à morte”. A produtividade é cada vez maior, mas o avanço tecnológico que a possibilita produz um exército permanente de desempregados e comprime os salários dos que permanecem na ativa, reduzindo assustadoramente o número de consumidores. Por isso, as crises se repetem em ciclos cada vez menores e atingem tanto a periferia como os países centrais. Seu declínio e a vitória do proletariado são, portanto, inevitáveis.
Essa vitória não é automática, entretanto. Ela carece da ação do proletariado consciente e organizado enquanto classe “para si”, tendo à frente os comunistas, “parcela mais decidida e avançada dos partidos operários de cada país” e que têm uma visão internacionalista, capaz de fomentar a união mundial dos oprimidos, realizando a conclamação com que Marx e Engels concluíram o manifesto: “Proletários de todos os países,uni-vos”.
Através dos séculos
Para finalizar essa tarefa hercúlea, falar sobre Marx em uma página queda a minha pena, incapaz de expressar algo diferente ou que se aproxime, pelo menos, do que proferiu Engels ante o túmulo em que foi depositado o corpo do grande pensador e herói do proletariado: “…o homem mais odiado e caluniado pela burguesia morreu venerado e querido, chorado por milhões de trabalhadores da causa revolucionária. Seu nome viverá através dos séculos e, com ele, sua obra”.

Luiz Alves 
Biografia de Karl Marx, o maior pensador da humanidade






                                          

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Apoiar Bernie Sanders?


Um novo (e grande) passo de amplos setores da esquerda no caminho da capitulação,

Por: Alejandro Iturbe
Começaram as eleições primárias nos Estados Unidos, o processo de votação popular pelo qual os dois grandes partidos da burguesia imperialista norte-americana escolhem seus candidatos para as próximas eleições presidenciais. A eleição final dos dois candidatos é feita, na verdade, de forma indireta, por meio das respectivas convenções em que votam não apenas os delegados eleitos nas primárias, mas também os representantes dos comitês das direções nacionais e estaduais de ambos os partidos.
Embora até o momento só tenham sido realizadas as primárias em dois pequenos estados, que enviam poucos delegados às convenções (Iowa e New Hampshire), já se destacaram duas figuras que não pertencem aos aparatos centrais dos dois partidos: Donald Trump, pelo Partido Republicano, e Bernie Sanders, pelo Partido Democrata.
Como reflexo de uma situação econômica que não consegue decolar, e de uma deterioração das condições de vida dos trabalhadores e das massas (somadas à decepção de muitos eleitores com Obama), a tendência parece caminhar para uma polarização do eleitorado (ou, pelo menos, de uma parcela significativa).
Desta forma, Donald Trump, com seu discurso xenófobo e de direita, lidera dentro dos republicanos, e Bernie Sanders, com um discurso mais radicalizado do que o habitual, luta ombro a ombro com Hillary Clinton nas primárias dos democratas. Este último fato — um candidato que ganha peso e apoio popular com um discurso que alguns qualificam como “socialista”— tem gerado muitas expectativas e alegria em inúmeros ativistas no país e no mundo. Tais expectativas se justificam? Quem é verdadeiramente Bernie Sanders?
Para começar a responder, observemos que, no caso dos democratas, é comum que tenham dentro do partido figuras mais “radicalizadas” e representantes dos sindicatos e das minorias étnicas. Por exemplo, o grande líder da luta antirracista pelos direitos civis da década de 1960, o pastor negro Martin Luther King, foi por muitos anos membro do Partido Democrata e ajudou a canalizar esta revolta por dentro das instituições, evitando que a maioria dos ativistas negros avançasse para posições mais radicalizadas e contestatórias, como as defendidas por Malcolm X, Stokely Carmichael e os Panteras Negras. “Temos que transformar nosso movimento em algo positivo e criativo”, dizia Martin Luther King quando debatia com as correntes do movimento negro mais radicalizadas.[1]
Também não é novidade que os democratas cooptem ativistas dos movimentos de luta: Bill Clinton era um assíduo participante das marchas contra a guerra do Vietnã. Ou que promovam figuras novas e diferentes quando situações complexas no país e no mundo assim o exigem. Foi o caso do impulso que dois dos “cérebros” do partido (Ted Kennedy e Zbigniew Brzezinski) deram à candidatura presidencial do jovem senador negro de Illinois (Chicago) Barack Obama. O Partido Democrata (dirigido por um setor da burguesia imperialista dos EUA) tem uma vasta experiência na elaboração de táticas e manobras de integração e contenção de setores sociais e políticos, para assim evitar que superem e rompam com as “instituições”.
Tampouco é novidade que a grande imprensa norte-americana exagere e apresente Sanders como um “radical” ou “socialista” confrontado com “o sistema”. Afinal, é a mesma imprensa que qualificou como “esquerdistas” os governos de Dilma Rousseff no Brasil ou de Cristina Kirchner na Argentina, e que caracterizava Alexis Tsipras e o Syriza como “extrema esquerda”.
Argumentos que se repetem
O problema (e o debate) começa quando vemos que amplos setores da esquerda internacional apoiam Sanders e chamam (de modo explícito ou implícito) a votar nele. É o caso do site português Esquerda.net (que expressa as posições do Bloco de Esquerda), do MES brasileiro (corrente interna do PSOL), ou do professor brasileiro Ruy Braga (que há menos de um ano rompeu com o PSTU).
O argumento central que eles utilizam é o seguinte: “não podemos ficar por fora dos processos progressivos” (Pedro Fuentes, do MES) e “do movimento social (os lutadores sindicais, a juventude e os ativistas negros) que impulsiona sua campanha” (Ruy Braga). A organização internacional trotskista Comitê por uma Internacional dos Trabalhadores (CWI, na sigla em inglês) e sua seção nos EUA (Socialist Alternative) também apoiam claramente Bernie Sanders.
Embora o MES e Ruy Braga não digam explicitamente, a orientação correta para eles seria fazer uma espécie de entrismo neste movimento e, para isso, é necessário identificar-se com Sanders. O CWI e o Socialist Alternative, por sua vez, chamam a construção de um Movement4Bernie (Movimento por Bernie). Isto é particularmente grave porque o CWI tem nos EUA uma organização de certo peso, que recentemente conseguiu eleger uma vereadora na cidade de Seattle (Kshama Sawant). Ou seja, teriam a possibilidade de impulsionar uma política revolucionária independente.
Para essas correntes, no entanto, adotar uma política de crítica e combate a Sanders (como a LIT-QI propõe e se expressou claramente no artigo dos camaradas do La Voz de Los Trabajadores dos EUA[2]) seria uma nova demonstração de nosso “sectarismo incurável”.
São argumentos (e debates) que se repetem de modo recorrente. Em essência, foram os mesmos que apareceram diante do processo venezuelano e do chavismo, ou com Alexis Tsipras e o Syriza, na Grécia[3]. Pedro Fuentes e o MES se mobilizavam nos Fóruns Sociais Mundiais (FSM) de Porto Alegre para apoiar o governo Chávez e, mais recentemente, ele e Luciana Genro se apresentavam dizendo “Somos o Syriza no Brasil”. É bom recordar o resultado desastroso dessas experiências.
Novamente, o erro desse raciocínio é confundir dois níveis diferentes da realidade. Por um lado, há os processos de luta que ocorreram nos EUA (como Occupy, a luta dos trabalhadores de Wisconsin, Black Lives Matter, a campanha pelos 15 dólares de salário mínimo, etc.) e a radicalização política que essas lutas (e o desencanto com Obama) produziram nos ativistas e na base. Tais processos são imensamente progressivos (sobre isso, todos concordamos). Mas, por outro lado, estão aqueles que recebem o apoio eleitoral e a confiança dos lutadores como resultado dessa radicalização: neste caso, Sanders. Para nós, este último é o aspecto negativo e regressivo da combinação que se dá na realidade e que, portanto, é preciso combater para que os processos progressivos (lutas e radicalização da consciência) avancem. Em outras palavras, combater as ilusões das massas como condição indispensável para um curso progressivo do processo.
Aqui entra a questão central do debate. Que papel Bernie Sanders desempenha diante dos processos progressivos que analisamos: quer impulsioná-los e desenvolvê-los ou detê-los e esterilizá-los, conduzindo-os pela via morta das eleições e das instituições? A resposta a essa pergunta é o eixo que ordena uma orientação correta. Para nós, trata-se evidentemente da segunda opção e daí se desprende uma orientação de claro combate político contra Sanders.
Quem é Bernie Sanders?
Para clarificar o debate (isto é, definir qual é o objetivo de Sanders), é preciso olhar sua trajetória política e o significado de sua dinâmica. Sanders tem 74 anos, estudou Ciências Políticas na Universidade de Chicago e, no início da década de 1960, foi um ativista da luta pelos direitos civis e ingressou na Liga da Juventude Socialista (YPSL, na sigla em inglês), organização da juventude do Partido Socialista Americano (socialdemocrata).
Radicado no pequeno estado de Vermont, aderiu ao LUP (Partido da União pela Liberdade). Na década de 1970, se opôs à guerra do Vietnã e foi candidato por este partido a diversos cargos (sem sucesso) até que, em 1980, ganhou a prefeitura de Burlington. Em 1990, foi eleito deputado “independente” e, no Congresso, atuou em conjunto com a bancada democrata. Em 2005, com o apoio dos democratas, foi eleito senador e, pouco depois, entrou formalmente neste partido.
Ou seja, é uma trajetória que (para além de sua retórica) não está em um processo de radicalização e de ruptura (como foi, por exemplo, o último ano de Martin Luther King), mas que vai claramente da esquerda para a direita, cada vez mais integrado ao aparato democrata.
Mas o que expressa ainda mais claramente essa dinâmica à direita são as leis em que ele votou como deputado e senador, em evidente contradição com suas posições a favor dos direitos civis e antibélicas de anos anteriores. Entre elas, leis que garantiram:
* Os bombardeios ao Iraque desde 1992 em diante;
* As sanções econômicas ao Iraque em 1992;
* O envio de tropas para o Kuwait e a Arábia Saudita para se “defenderem do Iraque”;
* Todas as intervenções de tropas norte-americanas desde que ele ocupa cargos no Congresso: Iraque, Somália, Haiti, Bósnia, Libéria, Zaire, Congo, Sudão, Afeganistão e Sérvia;
* Numerosas leis de apoio a Israel, contra os palestinos e os povos árabes, desde o respaldo dado em 2006 à invasão do Líbano até o apoio ao mais recente ataque israelense à Faixa de Gaza. Tudo em nome do “direito de Israel à autodefesa”. Nisso ele foi coerente: desde a sua juventude (quando viajou várias vezes a Israel para compartilhar a vida nos kibutz) tem sido pró-Israel;
* No que diz respeito à legislação nacional, em 1984 apoiou a Federal Crime Bill (também conhecida como Three Strikes Crime Bill ou “Lei dos Três Delitos”), amplamente utilizada pela burguesia e pela Justiça para encarcerar de forma crescente a população negra e latina.
vote democrat
“Vote nos democratas por um imperialismo mais sensível”
Ou seja, para além de seu discurso (e de alguns aspectos de seu programa interno que, isoladamente, são progressivos), quando estão em jogo questões centrais, como a intervenção militar do imperialismo norte-americano no exterior ou a repressão ao povo pobre, Sanders vota sem hesitação com os “donos do poder”. Alguém tem alguma dúvida sobre de que lado este homem vai estar no processo atual?
Caminhos equivocados
Mas quando expomos essa realidade e extraímos as conclusões políticas necessárias, Ruy Braga nos responde com um ligeiro aviso: “Bernie Sanders não é socialista. Portanto, sem ilusões no indivíduo ou em suas motivações-aspirações pessoais”. Mas logo em seguida nos diz que “ficar de fora” do processo das bases que lhe dão apoio é um “enorme erro político”.
Pedro Fuentes dá um passo muito maior, esquecendo completamente quem é Sanders e sua trajetória para “embelezá-lo” de um modo inacreditável: “Sanders tem programa. Sanders é socialista.” O mesmo caminho é percorrido pelo Bloco de Esquerda português, que publicou um artigo no site Esquerda.net intitulado “Um socialista na Casa Branca?”.
Mas sejam “crédulos” ou “desconfiados”, ambos nos propõem um caminho errado: a capitulação a Sanders para “não ficar de fora”. Um caminho que já na Venezuela com o chavismo e na Grécia com o Syriza mostrou que conduz ao desastre.
Qual deve ser a política dos socialistas revolucionários?
Resta analisarmos um aspecto central no debate: o combate político contra Sanders não nos afasta (não nos deixa “de fora”) do diálogo e do trabalho com os ativistas e lutadores sindicais, com os jovens do movimento Occupy e com os ativistas do Black Lives Matter (o melhor da vanguarda que surgiu nos últimos anos nos Estados Unidos) e nos condena ao propagandismo?
O ponto central é qual é hoje a tarefa principal de uma corrente revolucionária em processos que estão nascendo e que são incipientes. Para nós, essa tarefa é apoiar-se nos fatores progressivos e revolucionários (a mobilização e a organização das massas, os avanços na sua consciência) para combater o elemento negativo e assim ajudar as massas a fazerem sua experiência com Sanders e romper com ele. Sem este avanço na consciência e na luta, esses processos incipientes estão condenados à derrota ou ao retrocesso pela via da cooptação ao Partido Democrata (o que já aconteceu várias vezes no passado com muitos movimentos progressivos). A linha de “estar com as massas” (isto é, adaptar-se às suas ilusões) nos leva pelo caminho oposto: “embelezar” Sanders e ajudar a reforçar a sua influência sobre as massas e, com isso, a sua política para conter os processos e cooptar os melhores ativistas.
O que teria acontecido na Rússia após fevereiro de 1917 se Lenin, Trotsky e os bolcheviques tivessem aplicado a política de “estar com as massas”? Em vez de impulsionar a “explicação paciente” sobre a saída de fundo, a de que os sovietes tomassem o poder (a ditadura do proletariado), impulsionar a mobilização independente das massas por “paz, pão e terra”, e combater a política das correntes reformistas (mencheviques e socialistas revolucionários, que eram a maioria entre as massas no início do processo), deveriam ter apoiado o governo provisório burguês (e até mesmo entrado nele), porque essa era a “consciência das massas”. Ou seja, não teria acontecido a Revolução Russa, nem teria sido construído o primeiro Estado operário da história.
Diante disso, é totalmente secundário se é possível crescer ou não numa construção política. Em primeiro lugar, porque esse crescimento será ao custo de incidir negativamente sobre o avanço dos processos progressivos. Mas, além disso, esse crescimento e essa construção se darão não como uma organização revolucionária, mas como uma “outra coisa”: como uma “tendência de esquerda” do Partido Democrata.
Nós também queremos “estar por dentro” dos processos progressivos e dialogar com essa vanguarda, mas não para nos adaptarmos aos aspectos mais atrasadas da sua consciência e às suas ilusões, mas sim para que avancem cada vez mais, ao compasso do avanço de sua mobilização e organização independentes. Para esta tarefa, Sanders é claramente um inimigo.
É um caminho aparentemente mais difícil (“sectário e propagandista”, dirão nossos críticos), porque inicialmente (e ao longo de todo um processo de experiência das massas e dos ativistas) “estaremos em minoria” (como dizia Lenin), uma vez que nos chocamos com suas ilusões. Mas esse é o “único caminho possível” se realmente queremos que o processo avance na perspectiva estratégica da tomada do poder pelos trabalhadores e pelas massas.
Daqui até lá, há muitas possibilidades de propostas táticas. Por exemplo, ao mesmo tempo que chamamos a não depositar nenhuma confiança em Sanders nem a votar nele, propomos aos ativistas que confiam nele que exijam de Sanders, se ele realmente quer que os aspectos progressivos de seu programa sejam alcançados (como o salário mínimo de 15 dólares ou a defesa do direito ao aborto), que convoque mobilizações em defesa dessas reivindicações, ao invés de apenas prometer que é ele que irá garanti-las (pelas vias legislativa ou presidencial).
Há também propostas possíveis no terreno das ilusões eleitorais das massas. Mas todas elas partem da ruptura com o Partido Democrata e a necessidade de uma candidatura verdadeiramente independente da burguesia, com um conteúdo da classe trabalhadora. Mais ainda: a formação de um partido operário independente das duas organizações da burguesia imperialista, como propunham Trotsky e o SWP na década de 1930. No entanto, em todas essas propostas táticas, Sanders também é um inimigo.
Finalmente, deve-se notar que essas correntes têm capitulado a todas as “ilusões” e a toda “propaganda enganosa” que apareceram no mundo nos últimos anos (Chávez, Tsipras, Pablo Iglesias, Corbyn, etc.). Combatemos duramente essas capitulações, mas eram capitulações a figuras que, como Chávez ou Tsipras, pelo menos diziam ser contra o imperialismo.
Agora essas correntes dão um passo ainda maior (um salto, diríamos) nesse caminho: a capitulação a um homem das fileiras de um dos principais partidos do imperialismo norte-americano, que hoje está no governo. Ou seja, capitulam ao partido que, sendo a direção do imperialismo, é hoje o principal inimigo das massas e dos trabalhadores do mundo. Como dizia Dom Quixote a seu fiel escudeiro: “Cosas veredes, Sancho, que non crederes” (Você verá coisas, Sancho, nas quais não acreditará).
Notas:
[1] Martin Luther King rompeu com o Partido Democrata em 1967 porque se opunha à Guerra do Vietnã. Foi assassinado em 1968.
[2] Ver litci.org/pt/mundo/america-do-norte/eua/bernie-sanders-candidato-independente-da-classe-trabalhadora-ou-uma-armadilha/
[3] Ver as revistas Correio Internacional números 13 e 14.
Tradução: Márcio Palmares

domingo, 14 de fevereiro de 2016

AS LEIS DA DIALÉTICA





 



                       AS LEIS DA DIALÉTICA
  
Continuação...
                             


SEGUNDA LEI: A ação recíproca.

·       O encadeamento dos processos.

Sabemos que de um sistema econômico: o capitalismo. Sabemos que a divisão da sociedade em classes, a luta de classes, não nasceu, como o pretendem os nossos adversários, do marxismo, mas, pelo contrário, que este constata a existência de tal luta, e colhe a sua força no proletariado já existente.
Portanto, de processo em processo, chegamos ao exame das condições de existência do capitalismo. Temos, assim, um encadeamento de processos, que nos demonstra que tudo influi sobre tudo. É a lei da ação recíproca.
Vemos, portanto, que, contrariamente ao metafísico, que concebe o mundo como um conjunto de coisas congeladas, o dialético verá o mundo como um conjunto de processos. E, se o ponto de vista dialético é verdadeiro para a natureza e para as ciências, é-o, também, para a sociedade.
“O antigo método de pesquisa e de pensamento, a que Hegel chama o método metafísico, e que se ocupava, de preferência, do estudo das coisas consideradas na qualidade da objetos fixos dados... tinha, então, a sua grande justificação histórica”.(Engels: “Ludwig Feuerbach”)
Por conseguinte, estudavam-se, nessa época, todas as coisas e a sociedade como um conjunto de «objetos fixos dados», que não só não mudam, mas, particularmente para a sociedade, não estão destinados a desaparecer.
Engels assinala a importância capital da dialética, “essa grande ideia fundamental segundo a qual o mundo não deve ser considerado como um complexo de coisas acabadas, mas como um complexo de processos em que as coisas, na aparência estáveis, do mesmo modo
que os seus reflexos intelectuais no nosso cérebro, as ideias, passam por uma mudança ininterrupta de devir e decadência, em que, finalmente, apesar de todos os insucessos aparentes e retrocessos momentâneos, um desenvolvimento progressivo acaba por se fazer hoje”.(Engels:”Ludwug Feuerbach”)
O que constatamos atualmente é a existência, em todas as coisas, do encadeamento de processos que se produzem pela força interna daquelas (o autodinamismo). É que, para a dialética, insistimos nisso, nada está acabado. É necessário considerar o desenvolvimento das coisas como não tendo nunca cena final. No fim de uma peça de teatro do mundo, começa o primeiro ato de uma outra. Para dizer a verdade, ele começa já no último da peça precedente...

·       As grandes descobertas do século XX.

O que determinou o abandono do método metafísico foram as três grandes descobertas do século XX:
1.      Descoberta da célula viva e do seu desenvolvimento;
Antes desta descoberta, tomava-se como raciocínio o “fixismo”. Depois desta descoberta foi possível precisar a “evolução”. Ela permite compreender que a vida é feita de uma sucessão de mortes e nascimentos, e que todo o ser vivo é uma associação de células. Pelo que esta constatação não deixa subsistir qualquer fronteira entre animais e plantas, e, assim, afasta a concepção metafísica.
2.      A descoberta da transformação da energia;
Outrora, a ciência acreditava que o som, o calor, a luz, por exemplo, eram completamente estranhos uns aos outros. Ora, descobre-se que todos esses fenômenos se podem transformar uns nos outros, que há encadeamentos de processos, tanto na matéria inerte como na natureza viva.
3.      D descoberta da evolução no homem e nos animais.
Darwin, disse Engels, demonstra que todos os produtos da natureza são o resultado de um longo processo de desenvolvimento de pequenos germes, unicelulares na origem: tudo é o produto de um longo processo, tendo por origem a célula.
E Engels conclui que, graças a essas três grandes descobertas, podemos seguir o encadeamento de todos os fenômenos da natureza, não só no interior dos diferentes domínios, mas, também, entre eles.
Foram, pois, as ciências que permitiram o enunciado desta segunda lei da ação recíproca. Devemos, portanto, fixar que: a ciência, a natureza, a sociedade devem ser vistas como um encadeamento de processos, e o motor que trabalha para desenvolver tal encadeamento é o autodinumismo.

·       O desenvolvimento histórico ou em espiral.

Se examinarmos mais de perto o processo que começamos a conhecer, vemos que a maçã é o resultado de um encadeamento de processos. De onde vem à maçã? Vem da árvore. De onde vem à árvore?
Da maçã. Podemos, portanto, pensar que temos um círculo vicioso, no qual acabamos por voltar sempre ao mesmo ponto. Árvore, maçã. Maçã, árvore. O mesmo acontecerá se tomarmos o exemplo do ovo e da galinha. De onde vem o ovo? Da galinha. De onde vem a galinha? Do ovo.
Se considerássemos as coisas assim, tal não seria um processo, mas um círculo, e essa aparência deu mesmo a ideia do «retorno ao eterno». Isto é, voltaríamos sempre ao mesmo ponto, ao de partida.
Mas, vejamos exatamente como se põe o problema:
1. Eis uma maçã.
2. Esta, decompondo-se, dá origem a uma ou mais árvores.
3. Cada árvore não dá uma maçã, mas várias.
Não voltamos, portanto, ao mesmo ponto de partida; voltamos à maçã, mas num outro plano.
Do mesmo modo, se partirmos da árvore, teremos:
1. Uma árvore que dá
2. maçãs, e maçãs que darão
3. árvores.
Também aqui voltamos à árvore, mas num outro plano. O ponto de vista ampliou-se.
Não temos, pois, um círculo, como as aparências poderiam fazer pensar, mas um processo de desenvolvimento, a que chamaremos desenvolvimento histórico. A história mostra que o tempo não passa sem deixar marca. Passa, mas os desenvolvimentos que ocorrem não são os mesmos. O mundo, a natureza, a sociedade constituem um desenvolvimento que é histórico, e, em linguagem filosófica, se chama «em espiral».
Servimo-nos desta imagem para fixar as ideias. É uma comparação para ilustrar o fato de que as ciências evoluem segundo um processo circular, mas não voltam ao ponto de partida; voltam um pouco acima, num outro plano, e assim sucessivamente, o que dá uma espiral ascendente.
Por conseguinte, o mundo, a natureza, a sociedade têm um desenvolvimento histórico (em espiral), que é movido, não o esqueçamos, pelo autodinamismo.   

·        Conclusão.
Acabamos de estudar nestes primeiros capítulos sobre a dialética, as duas primeiras leis: a da mudança e a da ação recíproca. Isto era indispensável para poder abordar o estudo da lei da contradição, porque é ela que nos vai permitir compreender a força que move «a mudança dialética», o autodinamismo.