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quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A Indústria pornográfica e o machismo








Peter Sarsgaard e Amanda Seyfried em “Lovelace” (Foto: Dale Robinette/Divulgação)


Nos dias atuais, é comum que qualquer pessoa tenha fácil acesso à pornografia. Isso não é por coincidência; é proposital.
A educação sexual é importante na formação dos jovens, mas essa educação, em geral, é pouca ou quase nula. Naturalmente, as pessoas buscam referências sobre o sexo. O problema é que as primeiras referências disponíveis são os sites de pornografia.
O que é mostrado na pornografia não é sexo, é estupro gravado. Dinheiro nenhum compra consentimento e as mulheres filmadas não estariam lá se tivessem condições financeiras e estruturais melhores.
O que se tem na pornografia é claro: misoginia (isto é, o ódio declarado às mulheres) e machismo. Uma pesquisa mostra que, dos 50 filmes mais vendidos de 2015, 48% de 304 cenas dos vídeos pornográficos produzidos contêm violência verbal contra mulher; 94% contêm violência física.
Se a pornografia funciona como “o professor da educação sexual”, é mais que claro que a pornografia faz parte do aliciamento para prostituição e do tráfico humano. A pornografia ensina o homem a conseguir prazer vendo o sofrimento e a humilhação da mulher e, com isso, fortalece a cultura do estupro, o machismo e a misoginia.
A pornografia tem um método de fazer com que se crie uma “dessensibilização” do espectador para com as mulheres que estão ali submetidas. A violência verbal é uma delas. Uma vez que as palavras mais ditas são “vadias” e “putas”, cria-se a falsa ideia de que as mulheres que estão lá são completamente diferentes das mulheres com quem o espectador convive. É essa ideia que a pornografia cria na cabeça das pessoas: existem mulheres que são “vadias” e existem mulheres como a mãe, a namorada, a filha, a irmã, que são mulheres de respeito. Sabemos que essa é uma ideia de propriedade que se tem sobre as mulheres, a ideia de que uma mulher é propriedade pública, à qual todos têm o livre acesso, enquanto o outro tipo de mulher, a “mulher de respeito”, pertence a uma propriedade privada. Sabemos que essa é uma das ideias mais conservadoras e machistas que o capitalismo sustenta.
Mas a questão é que se um indivíduo enxerga um tipo de mulher como sendo pública e que serve para dar prazer a ele, e outra existe para servir de outras formas “mais respeitosas”, cria-se então o entendimento ao homem de que ele tem direito de “comprar” o seu prazer.
Muitas mulheres de baixa renda e sem condições de se manter entram para a prostituição para não morrer de fome; outras mulheres são sequestradas, traficadas e obrigadas a se prostituir. Mas o fato é que, na prostituição, essas mulheres irão reproduzir as mesmas cenas humilhantes a que os homens assistem nos vídeos pornográficos, ou seja, os homens que pagam essas mulheres vão acabar também as violentando – afinal, dinheiro não compra consentimento.
O estudo “Os Efeitos da Pornografia nos Relacionamentos Interpessoais”, de Ana Bridges, da Universidade do Arkansas (EUA), notou que homens que viram qualquer vídeo pornográfico são mais inclinados a demonstrar falta de empatia por vítimas de estupro; acreditar que mulheres que se vestem “provocativamente” merecem ser estupradas; mostrar raiva contra uma mulher que flerta mas não quer fazer sexo; experimentar queda substancial no desejo por suas parceiras; e demonstrar interesse crescente em coagir parceiras em algum tipo de sexo não desejado (também conhecido como estupro).
A indústria pornográfica estadunidense lucra milhões, pois produz cerca de 4.000 a 11.000 filmes por ano e conta com a estimativa de US$ 9-13 bilhões de receita bruta anual. A cada segundo US$ 3.075,64 é gasto em pornografia. 85% de toda a pornografia na internet é produzida na Califórnia, sendo que 37% da internet é pornografia. Existem mais de 26 milhões de sites pornôs, 40 milhões de usuários consomem pornografia regularmente nos EUA. Uma a cada quatro buscas do Google são por pornografia e mais de um terço de todos os downloads feitos são pornografia.
A indústria pornográfica, atualmente, está migrando para um novo tipo de negócio, as garotas que se parecem com crianças. Antes, por lei, nenhuma mulher que aparentasse ter menos de 18 anos poderia gravar um vídeo pornográfico. Hoje, essa lei foi revogada e a categoria mais acessada nos sites pornográficos é a categoria “adolescentes” (ou, em inglês, “teens”). As palavras mais procuradas nesses sites também são “novinhas”, “ninfetas” e “garotinhas”. Aproximadamente 25% de todo o conteúdo pornográfico na internet trata-se de abuso sexual infantil.
Está muito claro que a indústria pornográfica, além de promover a objetificação, tráfico e prostituição de mulheres, cria tendências pedófilas para os consumidores de pornografia. Como essa indústria pornográfica tem forte influência em ditar com o que se deve ter prazer, também cria, portanto, uma demanda de pessoas para continuarem financiando a prostituição, o tráfico e a pedofilia através da objetificação dos corpos das mulheres e a fetichização dos corpos das crianças.

História de Linda Lovelance

Linda Boreman, mais conhecida como Linda Lovelance, tinha apenas 23 anos quando participou de “Garganta Profunda”, o filme pornográfico mais famoso de todos os tempos. Ela participou do filme contra sua vontade.
O filme foi gravado em menos de uma semana com um orçamento de 25 mil dólares. A estimativa é de que tenham sido arrecadados 600 milhões de dólares num estouro de bilheteria, dos quais apenas 1.250 dólares teriam sido pagos a Chuck Traynor, marido de Linda na época. Anos depois, ela teve de fazer uma cirurgia de retirada dos seios devido a complicações com silicone que foi obrigada por seu marido a colocar para fazer o famoso filme.
Antes de “Garganta Profunda”, Linda já sofria diversos abusos e violência por parte de seu marido, sendo forçada à prostituição e filmes pornográficos de baixo orçamento – num deles, foi obrigada a praticar zoofilia, ato que descreve como um dos momentos mais horríveis de sua vida. Ela relata que, em determinada ocasião, seu marido recebeu dinheiro em troca de entregá-la para um estupro coletivo. Linda escreveu seu livro autobiográfico, se tornou ativista contra a violência masculina e exploração sexual da mulher no mercado pornográfico.
A história de Linda é apenas uma das milhões que a indústria pornográfica cria, todos os dias. Devemos dar um basta! A vida das mulheres vale muito mais que o mero prazer masculino!

A luta das mulheres por uma sociedade melhor

Sabemos que o capitalismo ganha milhões objetificando a mulher, seja para explorar sexualmente, como fazem a indústria pornográfica e a prostituição, como também a tratando como a proletária do proletário e designando tarefas domésticas e privativas. As mulheres não merecem morrer por serem mulheres! E sabemos que, enquanto o capitalismo existir, as mulheres não estão completamente emancipadas. Esse sistema econômico sustenta o modelo vigente, que é o patriarcado. Precisamos construir um novo modelo de sociedade, precisamos construir o socialismo para que a verdadeira emancipação da mulher se concretize!
Vitória Louise

Fonte: Jornal AVERDADE

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

AS LEIS DA DIALÉTICA


QUARTA E ÚLTIMA LEI: TRANSFORMAÇÃO DA QUANTIDADE EM QUALIDADE OU LEI DO PROGRESSO POR SALTOS

I. — Reformas ou revolução:
1. A argumentação política.
2. A argumentação histórica.
3. A argumentação científica.

II — O materialismo histórico:
1. Como explicar a história?
2. A história é obra dos homens.

Resta-nos, agora, antes de abordar o problema da aplicação da dialética à história, estudar uma sua última lei.
Isso vai-nos ser facilitado pelos estudos que acabamos de fazer, e em que vimos o que é a negação da negação e o que se entende por unidade das contrárias.
Como sempre, procedemos por exemplos.

I.— Reformas ou revolução?
Diz-se, falando da sociedade: é preciso recorrer a reformas ou fazer a revolução? Discute-se para saber se, para transformar a sociedade capitalista numa socialista, se alcançará esse fim por reformas sucessivas ou por uma transformação brusca: a revolução.
Perante este problema, recordemos o que já estudamos. Toda a transformação é o resultado de uma luta de forças opostas. Se uma coisa evolui, é porque contém em si a sua contrária, sendo cada coisa uma unidade de contrárias. Constata-se a luta das contrárias e a transformação da coisa na sua contrária. Como se faz essa transformação? É o novo problema que se põe.
Pode pensar-se que tal transformação se efetua pouco a pouco, por uma série de pequenas transformações, que a maçã verde se transforma em madura por uma série de pequenas mudanças progressivas.
Muitas pessoas pensam, assim, que a sociedade se transforma pouco a pouco e que o resultado de uma série dessas pequenas transformações será a transformação da sociedade capitalista em socialista. Pequenas transformações que são as reformas, sendo o seu total, a soma das pequenas mudanças graduais, que nos dará uma sociedade nova.
É esta a teoria a que se chama reformismo. Os partidários de tais teorias chamam-se reformistas, não porque reclamem reformas, mas porque pensam que elas bastam, que, acumulando-se, devem, insensivelmente, transformar a sociedade.
Examinemos se isso é verdade:
1. A argumentação política . Se olharmos os fatos, isto é, o que se passou nos outros países, veremos que, onde se ensaiou tal sistema, os resultados foram negativos. A transformação da sociedade capitalista — a sua destruição— teve êxito num único país: a U. R. S. S., e constatamos que não foi por uma série de reformas, mas pela revolução.
2. A argumentado histórica . É verdade que, de uma maneira geral, as coisas se transformam por pequenas mudanças, por reformas?
Vejamos sempre os fatos. Se examinarmos as mudanças históricas, veremos que não se produzem indefinidamente, que não são contínuas. Chega um momento em que, em vez de pequenas mudanças a mudança se faz por um salto brusco.
Na história das sociedades, os acontecimentos marcantes que verificamos são mudanças bruscas, revoluções; Mesmo os que não conhecem a dialética sabem, nos nossos dias, que se produziram mudanças violentas na história; no entanto, até ao século XVII, julgava-se que «a natureza não dá saltos»; não queriam ver as
transformações bruscas na continuidade das mudanças. Mas, a ciência interveio, e, pelos fatos, demonstrou que se faziam mudanças bruscamente. A Revolução de 1789 abriu ainda melhor os olhos; era ela própria um exemplo evidente de nítida ruptura com o passado. E acabou-se percebendo que todas as etapas decisivas da história foram e eram perturbações importantes, bruscas, súbitas. Por exemplo: de amigáveis que eram, as relações entre tal e tal Estado tornaram-se mais frias, depois tensas, agravaram-se, tomaram um caráter de hostilidade — e, de repente, era a guerra, brusca ruptura na continuidade dos acontecimentos. Ou, ainda: na Alemanha, depois da guerra de 1914-18, houve uma subida gradual do fascismo, depois, um dia, Hitler
tomou o poder — a Alemanha entrou numa nova etapa histórica.
Hoje, os que negam essas bruscas mudanças pretendem que são acidentes, sendo um acidente uma coisa que acontece e poderia não acontecer.
Assim se explicam as revoluções na história das sociedades: «São acidentes».
Explica-se, por exemplo, no que respeita à história da França, que a queda de Luís XVI e a Revolução francesa aconteceram porque Luís XVI era um homem fraco e indolente: «Se tivesse sido um homem enérgico, não teríamos tido a Revolução». Lê-se mesmo que, se, em Varennes. não tivesse prolongado a sua refeição, não o prenderiam e o curso da história teria sido outro. Portanto, a Revolução francesa é, digamos, um acidente.
A dialética, pelo contrário, reconhece que as revoluções são necessidades. Há, na verdade, mudanças contínuas, mas, acumulando-se, acabam por produzir mudanças bruscas.
3. A argumentação científica. Tomemos o exemplo da água. Partamos de 0º, e façamos subir a sua temperatura de 1°, 2°, 3° até 98°: a mudança é contínua. Mas, isso pode continuar assim indefinidamente?
Vamos, ainda, até 99°, mas, a 100° temos uma mudança brusca: a água transforma-se em vapor.
Se, inversamente, de 99° descermos até 1º teremos. de novo, uma mudança contínua, mas, não poderemos descer assim indefinidamente, porque, a 0º, a água se transforma em gelo.
De 1º a 99°, permanece sempre água; apenas a sua temperatura muda. É o que se chama uma mudança quantitativa,que responde à pergunta: «Quanto», isto é, «que quantidade de calor tem a água?». Quando se transforma em gelo ou em vapor, temos uma mudança qualitativa, uma mudança de qualidade. Já não é água; tornou-se gelo ou vapor.
Quando a coisa não muda de natureza, temos uma mudança quantitativa (no exemplo da água, uma mudança de grau de calor, mas, não de natureza). Se muda de natureza, quando se torna outra coisa, a mudança é qualitativa.
Vemos, pois, que a evolução das coisas não pode ser indefinidamente quantitativa: transformando-se, sofrem, por fim, uma mudança qualitativa. A quantidade transforma-se em qualidade. É uma lei geral. Mas, como sempre, não devemos agarrar-nos unicamente a esta fórmula abstrata.
No livro de Engels, «Anti-Duhring», no capítulo Dialética, quantidade e qualidade, encontraremos um grande número de exemplos que farão compreender que, em tudo, como nas ciências da natureza, se verifica a exatidão da lei segundo a qual em certos graus de mudança quantitativa; produz-se, subitamente, uma conversão qualitativa60.
Eis um novo exemplo, citado por H. Wallon, no VII volume da «Enciclopédia francesa» (em que nos remete a Engels): a energia nervosa, acumulando-se numa criança, provoca o riso; mas, se continua a aumentar, o riso transforma-se em lágrimas; assim, as crianças que se excitam e riem muito, acabam por chorar.
Daremos um último exemplo bem conhecido: o do homem que apresenta a sua candidatura a um mandato qualquer. Se forem precisos 4500 votos para obter a maioria absoluta, o candidato não é eleito com 4499, continua a ser, apenas, um candidato. Com um voto mais, a mudança quantitativa determina uma qualitativa,
uma vez que o candidato, que era, se torna um eleito.
Esta lei traz-nos a solução do problema: reforma ou revolução.
Os reformistas dizem-nos: «Quereis coisas impossíveis, que apenas acontecem por acidente; sois utopistas».
Mas, com esta lei, vemos bem quais são os que sonham com coisas impossíveis! O estudo dos fenômenos da natureza e da ciência mostra-nos que as mudanças não são indefinidamente contínuas, mas que, num dado momento, se tornam bruscas. Não somos nós que, arbitrariamente, o afirmamos, é a ciência, a natureza, a realidade!
Pode, então, perguntar-se: que papel representamos nós nessas transformações bruscas?
Vamos responder a esta pergunta, e desenvolver tal problema com a aplicação da dialética à história. Eis nos chegando a uma parte muito célebre do materialismo dialético: o materialismo histórico.

I.                 — O materialismo histórico.
O que é o materialismo histórico? É simplesmente, agora que se conhece o que é a dialética, a aplicação desse método à história das sociedades humanas.
Para compreender isto melhor, é necessário precisar o que é a história. Quem diz história diz mudança, e mudança na sociedade. A sociedade tem uma história, no decurso da qual muda continuamente; vemos produzirem-se nela grandes acontecimentos. Então, põe-se o seguinte problema: uma vez que, na história, as sociedades mudam, o que é que explica essas mudanças?
1. Como explicar a história?
É assim que nos perguntamos: «Que faz com que haja guerras? Os homens deveriam poder viver em paz!».
A estas perguntas, vamos dar respostas materialistas.
A guerra, explicada por um cardeal, é uma punição de Deus; é uma resposta idealista, porque explica os acontecimentos por Deus; é explicar a história pelo espírito. Aqui, é o espírito que cria e faz a história.
Falar da Providência, é, também, uma resposta idealista. É Hitler que, em «Mein Kampf», nos diz que a história é obra da Providência, agradecendo-lhe ter posto o lugar do seu nascimento na fronteira austríaca.
Tornar Deus ou a Providência responsáveis pela história, eis uma teoria cômoda: os homens nada podem, e, por conseguinte, nada há a fazer contra a guerra, é preciso consenti-la.
Podemos nós, do ponto de vista científico, sustentar uma tal teoria, encontrar nos fatos a sua justificação?
Não.
A primeira afirmação materialista, nesta discussão, é que a história não é obra de Deus, mas dos homens.
Então, os homens podem agir sobre a história e impedir a guerra.
2. A história é obra dos homens.
Os homens fazem a sua história, seja qual for o caminho que tome, prosseguindo cada um os seus próprios fins, conscientemente desejados, e são, precisamente, os resultados dessas numerosas vontades, atuando em sentidos diferentes, e as suas variadas repercussões sobre o mundo exterior que constituem a história.
Trata-se, também, por conseguinte, do que querem os numerosos indivíduos, tomados isoladamente. A vontade é determinada pela paixão ou pela reflexão... Mas, as alavancas que, por sua vez, determinam diretamente a paixão ou a reflexão são de natureza muito diversa... Ainda pode perguntar-se... quais as causas históricas que, nos cérebros dos homens que agem, se transformam nesses motivos.61
Este texto de Engels diz-nos, portanto, que são os homens que agem segundo as suas vontades, mas estas não se orientam sempre no mesmo sentido! O que é que determina, faz, então, as ações dos homens? Por que não caminham as suas vontades no mesmo sentido?
Certos idealistas consentirão em dizer que são as ações dos homens que fazem a história, e que tal ação resulta da sua vontade: é esta que determina a ação, e são os nossos pensamentos ou sentimentos que determinam a nossa vontade. Teríamos, portanto, o seguinte processo: ideia — vontade — ação, e, para explicar a ação, seguiremos o sentido inverso, à procura da ideia, causa determinante.
Ora, precisamos imediatamente que a ação dos homens importantes e das doutrinas não é negável, mas tem necessidade de ser explicada. Não é o processo ideia — vontade — ação que a explica. É assim que alguns pretendem que, no século XVIII, Diderot e os Enciclopedistas, difundindo entre o público a teoria dos Direitos do Homem, seduziram e ganharam, com essas ideias, a vontade dos homens que, em consequência, fizeram a Revolução; o mesmo aconteceu na U.R.S.S., onde as ideias de Lenine foram difundidas e as pessoas agiram de acordo com elas. E conclui-se que, se não houvesse ideias revolucionárias, não haveria revolução. É este o ponto de vista que faz dizer que as forças motrizes da história são as ideias dos grandes
chefes; são eles que fazem a história. Conheceis a fórmula da Ação francesa: «40 reis fizeram a França»; poderia acrescentar-se: reis que, no entanto, não tinham muitas «ideias»!
Qual o ponto de vista materialista sobre o assunto?
Vimos que, entre o materialismo do século XVIII e o moderno, havia muitos pontos comuns, mas o antigo materialismo tinha, da história, uma teoria idealista.
Portanto, francamente idealista ou dissimulada sob o materialismo inconsequente, a teoria idealista que acabamos de ver, parecendo explicar a história, nada explica. Com efeito, quem provoca a ação?
O antigo materialismo, disse Engels, aprecia tudo segundo os motivos da ação, divide os homens, exercendo uma ação histórica, em nobres e plebeus, e constata, em seguida, ordinariamente, que são os nobres os patetas e os plebeus os vencedores, do que resulta, para o antigo materialismo, que o estudo da história não nos ensina grande coisa de edificante, e, para nós, que, no domínio histórico, o antigo materialismo é infiel a si próprio, porque toma as forças motrizes ideais que aí estão ativas pelas causas últimas, em vez de examinar o que há por detrás delas62.
A vontade, as ideias reclamam-se como um direito. Mas, por que é que os filósofos do século XVIII tiveramprecisamente essas ideias?
Se tivessem tentado explicar o marxismo, não teriam sido escutados, porque, nessa época, as pessoas não o compreenderiam. Não conta só o fato de se produzirem ideias, é preciso, também, que sejam compreendidas; por conseguinte, há determinadas épocas para aceitar as ideias e também para as forjar.
Sempre dissemos que as ideias têm uma grande importância, mas devemos ver de onde vêm.
Devemos, portanto, procurar quais as causas que nos dão essas ideias, quais são, em última análise, as forças motrizes da história.

Encerramos esta primeira fase, estudando as LEIS DA DIALÉTICA. Continuaremos, a seguir, estudando o MATERIALISMO HISTÓRICO - As Forças Motrizes da História - DE ONDE VÊM AS CLASSES E AS CONDIÇÕES ECONÔMICAS; O MATERIALISMO DIALÉTICO E AS IDEOLOGIAS -  A aplicação do método dialético às ideologias- Com estas publicações, espero estar colaborando no estudo do marxismo, à aqueles interessados. 

Críticas do FMI e Despolitização da Sociedade Brasileira

By Edu Montesanti

Em sua revista deste mês de junho, o próprio Fundo Monetário Internacional criticou, não tão abertamente, as políticas neoliberais através de alguns de seus principais economistas, Jonathan D. Ostry, Prakash Loungani, and Davide Furceri. “Ao invés de produzir crescimento, algumas políticas neoliberais têm aumentado a desigualdade, por sua vez colocando em risco a expansão duradoura”, observam eles.
É interessante notar que o propalado neoliberalismo foi aplicado exatamente por governos autoritários e profundamente corruptos – casos de América Latina sob ditadura militar, Estados Unidos sob os Bush e Reagan, e Reino Unido nos anos de Margaret Tatcher, conhecida como Dama de Ferro. Tal fato pode causar surpresa inicial, mas não nenhuma contradição dada a natureza excludente do modelo econômico em questão.
Nas palavras da jornalista canadense Naomi Klein, “se olharmos para a história dos primeiros lugares onde o neoliberalismo foi imposto, ele foi imposto exatamente no oposto [do que nos é dito]: foi necessária uma derrubada da democracia para que ele se desenvolvesse”.
Por outro lado, políticas sociais são aplicadas exatamente como socorro às crises profundas geradas pela maximização do livre-mercado. Casos emblemáticos são o New Deal norte-americano do presidente Franklin Delano Roosevelt, pós-Grande Depressãoiniciada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929, e os Estados de Bem-Estar Social europeus pós-Segunda Guerra Mundial.
Os países nórdicos, berço da social-democracia, sempre foram exemplos neste sentido, nos dias de hoje abrindo-se ao Consenso de Washington ao diminuir a influência estatal, e, como sempre ocorreu na história, tornar as economias mais vulneráveis.
Enquanto tal modelo gera horror em setores reacionários pautados pela mídia predominante defensora dos interesses das grandes corporações que a sustentam, que chegam a ponto (não raras vezes) de qualificá-lo de “comunismo diabólico”, por outro lado a intervenção estatal de Bush filho em 208, maior da história destinada ao socorro aos bancos criminosos, exatamente os geradores da depressão econômica de então (não sanada até hoje), o qual ultrapassou 1,8 trilhão de dólares, e dois anos depois o plano de salvação de Barack Obama à indústria automobilística acima da casa dos 60 bilhões de dólares, acomodam os espíritos mais conservadores das sociedades.
Vale apontar que no atual festival da despolitização tupiniquim que tirou da Presidência uma das únicas políticas sem acusação nem sequer sendo investigada por corrupção, para colocar no poder, nas palavras de Noam Chomsky (intelectual mais respeitado do mundo) “uma corja de ladrões” sob forte influência e aplausos midiáticos, as classes média e alta brasileiras têm apoiado agora e historicamente o model neoliberal, com a típica raiva caçadoras de bruxas anti-comunistas presente na ridícula votação pelo impedimento da presidente Dilma Rousseff (assim observado por todos os meios de comunicação mundiais), e nestas semanas subsequentes.
Apontado neste sentido, da excessiva ignorância baseada na ditadura do mercado que relega todo o aparato do Estado e a própria sociedade à lógica do lucro (que é ilógica) e da profunda despolitização, baseadas em desenfreada competitividade, no ódio às diferenças e nos preconceitos étnicos, regionais, sociais, sexistas e de gênero, é a cara perfeita da sociedade brasileira, de seu estilo e de sua estatura moral e intelectual, este público ataque gospel-reacionário da jurista Janaína Paschoal na Faculdade de Direito da USP, no início de abril capaz de gerar desconforto até em seus colegas e alunos reacionários – portanto, nada dotados de grande senso do ridículo e de consideráveis capacidades intelectuais.
Famosas internacionalmente pela essência corrupta, pela fortíssima discriminação, pela agressividade e pela incapacidade organizacional que, no país do carnaval e do futebol decadente, dia a dia se superam, que se creem sábias ao mesmo tempo que, na ausência de autonomia reflexiva, são capazes de caírem no engodo de personagens como Temer, Sarney, Calheiros, Eduardo Cunha e da mesma mídia sabidamente manipuladora e historicamente golpista, bem como devota das própria retórica de “liberdade” baseada na lei do mercado, as mentalidades elitistas brasileiras (que não escolhem classe social) podem ter a condição de prostração intelectual e de falência moral refletida com perfeição nas palavras de Johann Wolfgang von Goethe: “Ninguém está mais desesperadamente escravizado, que aquele que falsamente acredita ser livre”.
E em não raros casos, certamente, é ainda mais sofrível ter-se consciência da escravidão econômica, social e política passivamente por medo, por interesse ou por uma patética combinação de ambos. Para os setores reacionários nacionais, imbecilizados pela grande mídia oligárquica pertencente a cinco famílias e financiada diretamente por Washington (fato comprovado documentalmente por WikiLeaks), pode o FMI e todas as evidências, atuais e históricas, apontar contrariamente a suas ideias pré-concebidas que tudo será em vão e tudo seguirá como está. A história mostra isso, e hoje e só esperar para ver.
Edu Montesanti

domingo, 31 de julho de 2016

AS LEIS DA DIALÉTICA



TERCEIRA LEI:  A CONTRADIÇÃO

Vimos que a dialética considera as coisas como estando em perpétua mudança, evoluindo continuamente, numa palavra, sofrendo um movimento dialético (1.ª Lei).
A dialética ensina-nos que as coisas não são eternas: tem um começo, uma maturidade, uma velhice, que termina num fim, a morte.
Todas as coisas passam por essas fases: nascimento, maturidade, velhice, fim. Por que acontece assim? Por que não são as coisas eternas.
Eis uma velha pergunta que sempre apaixonou a humanidade. Por que é preciso morrer? Não se compreende esta necessidade, e os homens, no decurso da história, sonharam com a vida eterna, com os meios de mudar tal estado de coisas, na idade média, por exemplo, inventando bebidas mágicas (elixires de juventude ou da vida).
Por que é que o que nasce é, portanto, obrigado a morrer? Eis uma grande lei da dialética, que deveremos confrontar, para bem a compreender, com a metafísica.

·       A vida e a morte.

Em poucas palavras, quando um metafísico examina o fenômeno a que se chama vida, fá-lo sem o relacionar a qualquer outro. Vê a vida, por si e em si, de uma maneira unilateral. Vê-a de um só lado. Se examinar a morte, fará a mesma coisa; aplicarão seu ponto de vista unilateral, e concluirá dizendo: a vida é a vida, a morte é a morte. Entre ambas, nada de
comum; não se pode estar ao mesmo tempo vivo e morto, porque são duas coisas opostas, inteiramente contrárias uma à outra.
Ver assim as coisas é fazê-lo de uma maneira superficial. Se as examinarmos um pouco mais de perto, veremos, primeiro, que não as podemos opor uma à outra, não podemos mesmo separá-las tão brutalmente, uma vez que a experiência e a realidade nos mostram que a morte continua a vida, que a morte vem do vivo.
E a vida, pode sair da morte? Sim. Porque os elementos do corpo morto vão transformar-se para dar origem a outras vidas e servir de adubo a terra, que será mais fértil, por exemplo. A morte, em muitos casos, auxiliará a vida, permitirá a esta nascer; e, nos próprios corpos vivos, a vida só é possível porque há uma contínua substituição das células que morrem por outras que nascem.
Portanto, a vida e a morte transformam-se continuamente uma na outra, e, em todas as coisas, constatamos a constância desta grande lei: por toda a parte, as coisas transformam-se na sua contrária.

·       As coisas transformam-se nas suas contrárias.

Se, portanto, as coisas se transformam na sua contrária, como é isso possível? Como se transforma a vida na morte?
Se houvesse apenas vida, a vida cem por cento, ela nunca poderia ser a morte, e se a morte fosse totalmente ela própria, a morte cem por cento, seria impossível que uma se transformasse na outra. Mas, já existe morte na vida e, por conseguinte, vida na morte.
Observando de perto, veremos que um ser vivo é composto de células, que estas se renovam, desaparecem e reaparecem no mesmo lugar. Vivem e morrem continuamente num ser vivo, onde existe, portanto, vida e morte.
Sabemos, também, que a barba de um morto continua a crescer. O mesmo acontece com as unhas e os cabelos. Eis fenômenos nitidamente caracterizados, que provam que a vida continua na morte.
Na União Soviética, conserva-se, em condições especiais, sangue de cadáveres, que serve para fazer transfusões: assim, com o sangue de um morto, refaz-se um vivo. Podemos dizer que, por conseguinte, no seio da morte há a vida.
“A vida é, pois, igualmente uma contradição «existente nas coisas e nos fenômenos em si», uma contradição que, constantemente, se apresenta e resolve; logo que a contradição cessa, a vida cessa também, intervém a morte”.(Engels: “Anti-Duhring”)
Portanto, a dialética constata a mudança; mas, por que mudam as coisas? Porque não estão de acordo consigo próprias, porque há luta entre as forças, entre os antagonismos internos, porque há contradição. Eis a terceira lei da dialética: As coisas mudam, porque contêm em si mesmas a contradição.

·       Afirmação, negação e negação da negação.

É necessário fazermos, aqui, uma distinção entre o que se chama a contradição verbal-que significa responder «não», quando alguém vos diz «sim» — e a que acabamos de ver, a chamada contradição dialética, isto é, nos fatos, nas coisas.
Tomemos o exemplo de um ovo que é posto e chocado por uma galinha: constatamos que, nele, se encontra o germe que, a uma certa temperatura e em certas condições, se desenvolve. Desenvolvendo-se, dará um pintainho: deste modo, o germe é já a negação do ovo. Veremos que, sem dúvida, no ovo há duas forças: a que tende para que permaneça um ovo e a que tende a que se torne pintainho. O ovo está, portanto, em desacordo consigo próprio, e todas as coisas o estão consigo mesmas.
Uma coisa começa por ser uma afirmação que sai da negação. O pintainho é uma afirmação resultante da negação do ovo. É esta uma fase do processo.
Mas a galinha será, por sua vez, a transformação do pintainho, havendo, no centro desta transformação, uma contradição entre as forças que lutam para que o pintainho se torne galinha e as que lutam para que permaneça pintainho. A galinha será, pois, a negação do pintainho, que vinha, por sua vez, da negação do ovo.
A galinha será, por conseguinte, a negação da negação. E isso é a marcha geral das fases da dialética.
1. Afirmação diz-se também Tese.
2. Negação ou Antítese.
3. Negação da negação ou Síntese.
Estas três palavras resumem o desenvolvimento dialético. Empregam-se para representar o encadeamento das fases, para indicar que cada uma é a destruição da precedente.
A destruição é uma negação. O pintainho é a negação do ovo, uma vez que, nascendo, o destrói. A espiga de trigo é, da mesma maneira, a negação do grão de trigo. O grão, na terra, germinará; essa germinação é a negação do grão de trigo, que dará a planta, que, por sua vez, florirá e dará uma espiga; esta será a negação da planta ou a negação da negação.
Vemos, pois, que a negação de que fala a dialética é uma maneira resumida de falar da destruição. Há a negação do que desaparece, do que é destruído.
Mas, se a negação significa destruição, não se trata de qualquer destruição, mas de uma destruição dialética.
Assim, quando esmagamos uma pulga, ela não morre por destruição interna, por negação dialética. A sua destruição não é o resultado de fases autodinâmicas; é o de uma mudança puramente mecânica.
Como outro exemplo, daremos o da filosofia materialista.
No início, encontramos um materialismo primitivo, espontâneo, que, por ignorante, cria a sua própria negação: o idealismo. Mas este, negando o antigo materialismo, será negado pelo moderno ou dialético, porque a filosofia se desenvolve e provoca, com as ciências, a destruição do idealismo. Também aqui, portanto, temos; afirmação, negação e negação da negação.
Vemos, pois, que a contradição é uma grande lei da dialética. Que a evolução é uma luta de forças antagonistas. Que não só as coisas se transformam umas nas outras, mas, também, cada uma na sua contrária.
Que as coisas não estão de acordo consigo próprias, porque há, nelas, luta entre forças opostas, uma contradição interna.

·       Recapitulemos

Só a dialética nos permite compreender o desenvolvimento, a evolução das coisas; só ela nos permite compreender a destruição das antigas e o nascimento das novas. Só a dialética nos faz compreender todos os desenvolvimentos nas suas transformações, conhecendo-os como todos formados de contrárias. Porque, para a concepção dialética, o desenvolvimento natural das coisas, a evolução, é uma luta contínua de forças e princípios opostos.
Assim, pois, para a dialética, a primeira lei é a constatação do movimento e da mudança: «Nada permanece o que é, nada fica onde está» (Engels). Sabemos, agora, que a explicação desta lei reside em que as coisas mudam, não só transformando-se umas nas outras, mas, também, nas suas contrárias. A contradição é,portanto, uma grande lei da dialética.
Estudamos o que é, do ponto de vista dialético a contradição, mas é necessário insistir ainda, para fazer certas precisões e, também, para assinalar alguns erros que é preciso não cometer.
É bem certo que, primeiro, é necessário familiarizarmo-nos com esta afirmação, que está de acordo com a realidade: a transformação das coisas nas suas contrárias. Certamente, ela fere o entendimento, admira-nos, porque estamos habituados a pensar com o velho método metafísico. Mas, vimos porque é assim; vimos, de uma maneira detalhada, por meio de exemplos, que isso está na realidade e porquê as coisas se transformam nas suas contrárias.
É por isso que se pode dizer e afirmar que, se as coisas se transformam, mudam, evoluem, é porque estão em contradição com elas próprias, trazem em si a sua contrária, contêm a unidade das contrárias.

·       Unidade das contrárias.

A unidade das contrárias, para um metafísico, é uma coisa impossível: Para ele, as coisas são feitas de uma só peça, de acordo com elas próprias, e eis que afirmamos o contrário, ao saber que são feitas de duas peças — elas próprias e as suas contrárias — e que nelas há duas forças que se combatem, porque as coisas não estão de acordo com elas próprias, se contradizem a si mesmas.
No entanto, se olharmos os fatos, vemos que não dão lugar a uma oposição tão rígida. Vemos que, primeiramente, reinou a ignorância, depois é que veio a ciência; e, aí, verificamos que uma coisa se transforma na sua contrária: a ignorância em ciência.
Não há ignorância sem ciência, não há ignorância cem por cento. Um indivíduo, por muito ignorante que seja, sabe reconhecer, pelo menos, os objetos, a sua alimentação; não há nunca ignorância absoluta; existe sempre uma percentagem de ciência na ignorância. A ciência está já, em germe, na ignorância; é, pois, justo afirmar que a contrária de uma coisa está na coisa em si.
Vejamos, agora, a ciência. Pode haver ciência cem por cento? Não. Ignora-se sempre qualquer coisa. Disse Lenine: «O objeto do conhecimento é inesgotável»; o que significa que há sempre que aprender.Não há ciência absoluta. Todo o saber, toda a ciência contém uma parte de ignorância. (Engels «A história das ciências é a da eliminação progressiva do erro, isto é, da sua substituição por um erro novo, mas cada vez menos absurdo.»)
O que existe, na realidade, é uma ignorância e uma ciência relativas, uma mistura de ambas.
Não é, portanto, a transformação das coisas nas suas contrárias que constatamos neste exemplo, mas, é, na mesma coisa, a existência das contrárias ou a unidade das contrárias.
Poderíamos retomar os exemplos que já vimos: a vida e a morte, a verdade e o erro, e constataríamos que, num e noutro caso, como em todas as coisas, existe uma unidade das contrárias, isto é, que cada uma contém, ao mesmo tempo, ela própria e a sua contrária. É por isso que Engels dirá: “Se, na pesquisa, nos inspirarmos constantemente neste ponto de vista, deixa-se, de uma vez para sempre, de procurar soluções definitivas e verdades eternas; tem-se sempre consciência do caráter necessariamente imitado de todo o conhecimento adquirido, da sua dependência acerca das condições nas quais foi
adquirido; não mais deixar-se iludir pelas antinomias, irredutíveis para a velha metafísica sempre em uso, do verdadeiro e do falso, do bem e do mal, do idêntico e do diferente, do fatal e do fortuito; sabe-se que estas têm apenas um valor relativo, que o que é conhecido agora como verdadeiro tem o seu lado falso escondido, que aparecerá mais tarde, assim como o que é atualmente reconhecido como falso tem o seu lado verdadeiro, graças ao qual pôde, anteriormente, ser considerado como verdadeiro”.(Engels:”Ludwig Feuerbach”)
Este texto de Engels mostra-nos bem como é preciso compreender a dialética e o sentido verdadeiro da unidade das contrárias.

·       Erros a evitar.

É preciso explicar bem essa grande lei da dialética que é a contradição, para não criar mal-entendidos.
Primeiro, é-nos necessário compreendê-la de uma maneira mecânica. É desnecessário pensar que, em todo o conhecimento, existe a verdade mais o erro, ou o verdadeiro mais o falso.
Se aplicasse essa lei assim, dar-se-ia razão aos que dizem que, em todas as opiniões, há uma parte de verdadeiro mais uma parte de falso, e que: «retiremos o que é falso, ficará o verdadeiro, o que é bom». Diz se isso em certos meios pretensamente marxistas, em que se pensa que o marxismo tem razão em mostrar que, no capitalismo, há fábricas, monopólios, bancos que têm nas mãos a vida econômica, que têm razão para dizer que esta caminha mal; mas, o que é falso no marxismo, acrescente-se, é a luta de classes:
deixemos de lado a teoria da luta de classes, e teremos uma boa doutrina. Diz-se, também, que o marxismo, aplicado ao estudo da sociedade, é justo, verdadeiro, «mas, para quê misturar-lhe a dialética? Eis o lado falso, retiremos esta, e guardemos como verdadeiro o resto do marxismo!».
São estas interpretações mecânicas da unidade das contrárias.
Eis, ainda, um outro exemplo: Proudhon pensava, depois de ter tomado conhecimento da teoria das contrárias, que, em cada coisa, havia um lado bom e outro mau. Também, ao constatar que, na sociedade, existe a burguesia e o proletariado, dizia: Retiremos o que é mau: o proletariado! E é assim que põe de pé o seu sistema de créditos, que deviam criar a propriedade parcelar, isto é, permitir aos proletários tornar-se proprietários; dessa maneira, só haveria burgueses, e a sociedade seria boa.
Sabemos bem, no entanto, que não há proletariado sem burguesia e que esta só existe peloproletariado: são duas contrárias inseparáveis. Tal unidade é interna, verdadeira: é uma união inseparável. Não basta, pois, para suprimi-las, separar uma da outra. Numa sociedade baseada na exploração do homem pelo homem, existem, obrigatoriamente, duas classes antagônicas: amos e escravos, na antiguidade, senhores e servos, na
idade média, burguesia e proletariado, nos nossos dias.
O que conta é o princípio: a dialética e as suas leis obrigam-nos a estudar as coisas para descobrir a evolução e as forças, as contrárias que determinam essa evolução. É-nos preciso, pois, estudar a unidade das contrárias contida nas coisas, e esta equivale a dizer que uma afirmação não é nunca uma afirmação absoluta, uma vez que contém, em si mesma, uma parte de negação. E isso é o essencial: é por as coisas conterem a sua própria negação que se transformam. A negação é o «dissolvente»: se não existisse, as coisas não mudariam. Como, de fato, estas se transformam, é preciso, na verdade, que contenham um princípio dissolvente. Podemos, de antemão, afirmar que existe, uma vez que vemos as coisas evoluir, mas, não podemos descobrir tal princípio sem um estudo minucioso da própria coisa, porque ele não tem o mesmo aspecto em todas as coisas.

·       Consequências praticas da dialética.

Praticamente, portanto, a dialética obriga-nos a considerar sempre, não apenas um lado das coisas, mas ambos: não considerar nunca a verdade sem o erro, a ciência sem a ignorância. O grande erro da metafísica é, justamente, considerar só um dos seus lados, julgar de uma maneira unilateral, e se cometemos muitos erros é sempre na medida em que vemos apenas um lado das coisas, é porque temos, muitas vezes, raciocínios unilaterais.
Se a filosofia idealista afirma que o mundo existe só nas ideias dos homens, é preciso reconhecer que há, com efeito, coisas que não existem senão no nosso pensamento. Isso é verdade. Mas o idealismo é unilateral, vê apenas esse aspecto. Vê só o homem que inventa coisas que não estão na realidade, e, daí, conclui que nada existe fora das nossas ideias. O idealismo tem razão em sublinhar essa faculdade do homem, mas, aplicando apenas o critério da prática, não vê senão isso.
O materialismo metafísico também se engana, porque vê apenas um lado dos problemas. Vê o universo como uma mecânica. A mecânica existe? Sim! Desempenha um papel importante? Sim! O materialismo metafísico tem, pois, razão em afirmar isso, mas, é um erro ver só o movimento mecânico.
Naturalmente, somos levados a ver um só lado das coisas e das pessoas. Se julgamos um camarada, vemos, quase sempre, apenas o seu lado bom ou o mau. É preciso ver um e outro, sem o que não seria possível ter quadros nas organizações. Na prática política, o método do julgamento unilateral leva ao sectarismo. Se encontramos um adversário pertencente a uma organização reacionária, julgamo-lo segundo os seus chefes.
E, no entanto, não é mais, talvez, que um modesto empregado revoltado, descontente, e não o devemos julgar como a um importante patrão fascista. Pode, da mesma maneira, aplicar-se este raciocínio aos patrões, e compreender que, se nos parecem maus, é, muitas vezes, porque eles próprios são dominados pela estrutura da sociedade, e que, noutras condições sociais, seriam, talvez, diferentes.
Se atendermos à unidade das contrárias, consideraremos as coisas sob os seus múltiplos aspectos. Veremos, portanto, que esse reacionário é reacionário, por um lado, mas, por outro, é um trabalhador, havendo nele uma contradição. Investigando, verificaremos porque aderiu a essa organização, procurando, ao mesmo tempo, indagar porque deveria não ter aderido. E, então, julgaremos e discutiremos, assim, de uma maneira menos sectária.
Devemos, pois, de acordo com a dialética, considerar as coisas sob todos os ângulos que se lhe possam distinguir.
Para resumir, e como conclusão teórica, diremos: as coisas mudam, porque encerram uma contradição interna (elas próprias e as suas contrárias). As contrárias estão em conflito, e as mudanças nascem desses conflitos; assim, a mudança é a solução do conflito.
O capitalismo contém esta contradição interna, esse conflito entre o proletariado e a burguesia; a mudança explica-se por tal conflito, e a transformação da sociedade capitalista em socialista é a sua supressão.
Há mudança, movimento, onde haja contradição. Esta é a negação da afirmação, e quando o terceiro termo, a negação da negação, se alcança, aparece à solução, porque, nesse momento, a razão da contradição é eliminada, ultrapassada.
Pode, pois, dizer-se que, se as ciências: a química, a física, a biologia, etc, estudam as leis da mudança que lhes são particulares, a dialética estuda as mais gerais. Engels disse:
A dialética é apenas a ciência das leis gerais do movimento e do desenvolvimento da natureza, da sociedade humana o do pensamento. (Engels: “Anti-Duhring”)

Na próxima publicação: A transformação da quantidade em qualidade