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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Fidel Castro: 90 anos de exemplo


11.08.2016


Fidel Castro: 90 anos de exemplo

Dizem que quando Fidel castro deu seu primeiro grito ao mundo naquele 13 de agosto de 1926, os cedros da chácara Birán balançaram suas folhas ao vento de forma diferente e alguns dos vizinhos, que foram dar as congratulações a Lina e a Ángel pela nova cria, miraram-no adormecido dentro do berço... e lhe auguraram que seria um grande homem.
O Líder histórico da Revolução cubana cumpre 90 anos e sua vida segue representando um exemplo para milhões de pessonas em todo o mundo.
O menino Fidel Castro
Dizem que quando Fidel castro deu seu primeiro grito ao mundo naquele 13 de agosto de 1926, os cedros da chácara Birán balançaram suas folhas ao vento de forma diferente e alguns dos vizinhos, que foram dar as congratulações a Lina e a Ángel pela nova cria, miraram-no adormecido dentro do berço e lhe auguraram que seria um grande homem. E não se equivocaram.
O menino Fidel cresceu entre o verdor do campo, das mangas, ameixas, tamarindos e, sem explicações lógicas, ia quase todos os dias até o albergue onde estavam os haitianos que trabalhavam na fazenda, pois gostava de passar o tempo junto aos trabalhadores.
Seu caráter revolucionário começou a moldar-se com força; se indignava ante cada injustiça, e se envolvia sempre em defesa das causas justas, até que jurou tornar-se advogado para defender aos despossuídos.
Já na Universidade se tornou líder. Os estudantes o seguiam em suas ideias porque viam nele o defensor das boas causas, e quando, em 1950, se gradua como Doutor em Direito Civil e Licenciado em Direito Diplomático, se dedica fundamentalmente à defesa de pessoas e setores humildes e já é um revolucionário completo, que sofre a cada dia ante tanta afronta e opróbrio que o tirano de turno causava.
Um dia, só e em silêncio, tomou a decisão mais radical: ao governo havia que derrocá-lo com as armas. 
Então começou a buscar companheiros que pensassem como ele e planejaram em silêncio um golpe contra o tirano Fulgêncio Batista, até que chegou o Dia da Santa Ana, quando Santiago de Cuba desfrutava de seus carnavais, aquele 26 de julho de 1953.
Fidel o Rebelde: "seremos livres ou seremos mártires"
Na noite de 25 de julho, Fidel, reunido com os revolucionários, sentenciou:
"Companheiros: poderão vencer dentro de algumas horas ou serem vencidos; porém, de todas as maneiras, ouçam bem, companheiros!, de todas as maneiras o movimento triunfará. Se vencemos amanhã, se fará em breve o que Martí aspirou. Se ocorrer o contrário, o gesto servirá de exemplo ao povo de Cuba, a tomar a bandeira e seguir adiante.
"O povo nos respaldará no Oriente e em toda a ilha. Jovens do Centenário do Apóstolo! Como no 68 e no 95, aqui no Oriente damos o primeiro grito de liberdade ou morte! Vocês já conhecem os objetivos do plano.
"Sem dúvida alguma é perigoso e aquele que saia comigo daqui nesta noite deve fazê-lo por sua absoluta vontade. Ainda estão a tempo para se decidir. De todas as maneiras, alguns terão que ficar por falta de armas. Os que estejam determinados a ir, deem um passo à frente. A palavra de ordem é não matar senão por última necessidade".
Naquele amanhecer de julho, o ataque ao quartel Moncada foi uma derrota militar, porém uma vitória política. Ainda que dezenas de combatentes foram assassinados, assinalaram o caminho para a liberdade.
Fidel, junto a outros 19 sobreviventes, intenta chegar até a Gran Piedra para continuar a luta. Depois de uma longa marcha para evitar numerosas barreiras militares e operações de rastreamento, são surpreendidos por uma patrulha de Batista, sob o mando do segundo-tenente Pedro Sarría Tartabull.
Ainda que a ordem que tinham era a de matar aos prisioneiros suspeitos de terem participado no assalto, Sarría respeita a vida dos jovens gritando para seus subordinados:
"Não disparem, não se mata as ideias".
Fidel foi preso com um grupo de sobreviventes e dois anos depois saiu do cárcere com uma sentença que cumpriria: "Em 1956 seremos livres ou seremos mártires".
Da guerrilha à Revolução
Assim se foi ao México e durante vários meses preparou uma expedição, que desembarcou nas costas do oriente cubano a 2 de dezembro de 1956, sob o assédio do exército que só umas horas depois, em Alegría de Pío, assestou um ataque demolidor contra os revolucionários, o qual obrigou a sua dispersão.
Depois, a guerrilha foi se rearmando e, depois de sua consolidação definitiva na Sierra Maestra como o Exército Rebelde, no oriente de Cuba, realizou a invasão para o ocidente e Fidel e seus homens se alçaram com o triunfo no primeiro de janeiro de 1959.
A partir desse momento Cuba e sua Revolução enfrentaram os momentos mais difíceis.
Fidel soube se impor com sua inteligência e decisão ante cada desafio: luta contra bandidos, Lei de Reforma Agrária, Lei de Reforma Urbana, Primeira e Segunda Declarações de La Habana, invasão por Playa Girón, a Crise de Outubro, imposição e recrudescimento do bloco econômico, comercial e financeiro; constantes planos de atentados, que somaram até o ano de 2007 um total de 638 tentativas de assassinato e ações terroristas.
Durante sua etapa como presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros presidiu missões oficiais cubanas em mais de 50 países e, entre 21 e 25 de janeiro de 1998, recebeu e atendeu durante sua estadia em Cuba ao papa João Paulo II.
De forma estratégica, Fidel dirigiu a participação de centenas de milhares de combatentes cubanos em missões internacionalistas em Argélia, Síria, Angola, Etiópia e outros países, e foi decisivo o aporte de Cuba ao triunfo sobre o Apartheid. Também impulsou e organizou o aporte de dezenas de milhares de médicos, professores e técnicos cubanos que prestaram e prestam serviços em mais de 40 países do Terceiro Mundo, assim como a realização de estudos em Cuba por parte de dezenas de milhares de estudantes desses países.
Lutador contra a hegemonia 
O líder da Revolução cubana consolidou os programas integrais de assistência e colaboração cubana em matéria de saúde em numerosos países de África, América Latina e Caribe, e a criação em Cuba de escolas internacionais de Ciências Médicas, Desporto e Educação Física e outras disciplinas para estudantes do Terceiro Mundo.
Fidel promoveu em escala mundial a batalha do Terceiro Mundo contra a ordem econômica internacional vigente, em particular contra a dívida externa, o desperdício de recursos como consequência dos gastos militares e a globalização neoliberal, e são notáveis seus esforços pela unidade e a integração da América Latina e do Caribe.
Também liderou a ação decidida do povo cubano para enfrentar os efeitos do bloqueio econômico imposto a Cuba pelos Estados Unidos desde há mais de 55 anos e as consequências no plano econômico da derrocada da comunidade socialista europeia, e promoveu o esforço tenaz dos cubanos para superar as graves dificuldades resultantes destes fatores, sua resistência durante o chamado Período Especial e o reinício do crescimento e desenvolvimento econômico do país.
A 31 de julho de 2006 Fidel Castro fazia entrega de suas responsabilidades por razões de saúde, e segundo suas próprias palavras havia chegado um momento em que, devido a sua enfermidade, não podia continuar à frente do governo, pelo que decidiu transferir o poder ao primeiro vice-presidente cubano nesses momentos, Raúl Castro.+
Desde então, Fidel Castro tem se dedicado a escrever sobre temas mundiais, o qual reafirma que continua sendo um ativo participante na luta de ideias. Por sua autoridade moral, influi em importantes e estratégicas decisões da Revolução, e aos seus 90 anos segue sendo luz para milhões de pessoas em todo o mundo.
Tradução: Joaquim Lisboa Neto


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quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A Indústria pornográfica e o machismo








Peter Sarsgaard e Amanda Seyfried em “Lovelace” (Foto: Dale Robinette/Divulgação)


Nos dias atuais, é comum que qualquer pessoa tenha fácil acesso à pornografia. Isso não é por coincidência; é proposital.
A educação sexual é importante na formação dos jovens, mas essa educação, em geral, é pouca ou quase nula. Naturalmente, as pessoas buscam referências sobre o sexo. O problema é que as primeiras referências disponíveis são os sites de pornografia.
O que é mostrado na pornografia não é sexo, é estupro gravado. Dinheiro nenhum compra consentimento e as mulheres filmadas não estariam lá se tivessem condições financeiras e estruturais melhores.
O que se tem na pornografia é claro: misoginia (isto é, o ódio declarado às mulheres) e machismo. Uma pesquisa mostra que, dos 50 filmes mais vendidos de 2015, 48% de 304 cenas dos vídeos pornográficos produzidos contêm violência verbal contra mulher; 94% contêm violência física.
Se a pornografia funciona como “o professor da educação sexual”, é mais que claro que a pornografia faz parte do aliciamento para prostituição e do tráfico humano. A pornografia ensina o homem a conseguir prazer vendo o sofrimento e a humilhação da mulher e, com isso, fortalece a cultura do estupro, o machismo e a misoginia.
A pornografia tem um método de fazer com que se crie uma “dessensibilização” do espectador para com as mulheres que estão ali submetidas. A violência verbal é uma delas. Uma vez que as palavras mais ditas são “vadias” e “putas”, cria-se a falsa ideia de que as mulheres que estão lá são completamente diferentes das mulheres com quem o espectador convive. É essa ideia que a pornografia cria na cabeça das pessoas: existem mulheres que são “vadias” e existem mulheres como a mãe, a namorada, a filha, a irmã, que são mulheres de respeito. Sabemos que essa é uma ideia de propriedade que se tem sobre as mulheres, a ideia de que uma mulher é propriedade pública, à qual todos têm o livre acesso, enquanto o outro tipo de mulher, a “mulher de respeito”, pertence a uma propriedade privada. Sabemos que essa é uma das ideias mais conservadoras e machistas que o capitalismo sustenta.
Mas a questão é que se um indivíduo enxerga um tipo de mulher como sendo pública e que serve para dar prazer a ele, e outra existe para servir de outras formas “mais respeitosas”, cria-se então o entendimento ao homem de que ele tem direito de “comprar” o seu prazer.
Muitas mulheres de baixa renda e sem condições de se manter entram para a prostituição para não morrer de fome; outras mulheres são sequestradas, traficadas e obrigadas a se prostituir. Mas o fato é que, na prostituição, essas mulheres irão reproduzir as mesmas cenas humilhantes a que os homens assistem nos vídeos pornográficos, ou seja, os homens que pagam essas mulheres vão acabar também as violentando – afinal, dinheiro não compra consentimento.
O estudo “Os Efeitos da Pornografia nos Relacionamentos Interpessoais”, de Ana Bridges, da Universidade do Arkansas (EUA), notou que homens que viram qualquer vídeo pornográfico são mais inclinados a demonstrar falta de empatia por vítimas de estupro; acreditar que mulheres que se vestem “provocativamente” merecem ser estupradas; mostrar raiva contra uma mulher que flerta mas não quer fazer sexo; experimentar queda substancial no desejo por suas parceiras; e demonstrar interesse crescente em coagir parceiras em algum tipo de sexo não desejado (também conhecido como estupro).
A indústria pornográfica estadunidense lucra milhões, pois produz cerca de 4.000 a 11.000 filmes por ano e conta com a estimativa de US$ 9-13 bilhões de receita bruta anual. A cada segundo US$ 3.075,64 é gasto em pornografia. 85% de toda a pornografia na internet é produzida na Califórnia, sendo que 37% da internet é pornografia. Existem mais de 26 milhões de sites pornôs, 40 milhões de usuários consomem pornografia regularmente nos EUA. Uma a cada quatro buscas do Google são por pornografia e mais de um terço de todos os downloads feitos são pornografia.
A indústria pornográfica, atualmente, está migrando para um novo tipo de negócio, as garotas que se parecem com crianças. Antes, por lei, nenhuma mulher que aparentasse ter menos de 18 anos poderia gravar um vídeo pornográfico. Hoje, essa lei foi revogada e a categoria mais acessada nos sites pornográficos é a categoria “adolescentes” (ou, em inglês, “teens”). As palavras mais procuradas nesses sites também são “novinhas”, “ninfetas” e “garotinhas”. Aproximadamente 25% de todo o conteúdo pornográfico na internet trata-se de abuso sexual infantil.
Está muito claro que a indústria pornográfica, além de promover a objetificação, tráfico e prostituição de mulheres, cria tendências pedófilas para os consumidores de pornografia. Como essa indústria pornográfica tem forte influência em ditar com o que se deve ter prazer, também cria, portanto, uma demanda de pessoas para continuarem financiando a prostituição, o tráfico e a pedofilia através da objetificação dos corpos das mulheres e a fetichização dos corpos das crianças.

História de Linda Lovelance

Linda Boreman, mais conhecida como Linda Lovelance, tinha apenas 23 anos quando participou de “Garganta Profunda”, o filme pornográfico mais famoso de todos os tempos. Ela participou do filme contra sua vontade.
O filme foi gravado em menos de uma semana com um orçamento de 25 mil dólares. A estimativa é de que tenham sido arrecadados 600 milhões de dólares num estouro de bilheteria, dos quais apenas 1.250 dólares teriam sido pagos a Chuck Traynor, marido de Linda na época. Anos depois, ela teve de fazer uma cirurgia de retirada dos seios devido a complicações com silicone que foi obrigada por seu marido a colocar para fazer o famoso filme.
Antes de “Garganta Profunda”, Linda já sofria diversos abusos e violência por parte de seu marido, sendo forçada à prostituição e filmes pornográficos de baixo orçamento – num deles, foi obrigada a praticar zoofilia, ato que descreve como um dos momentos mais horríveis de sua vida. Ela relata que, em determinada ocasião, seu marido recebeu dinheiro em troca de entregá-la para um estupro coletivo. Linda escreveu seu livro autobiográfico, se tornou ativista contra a violência masculina e exploração sexual da mulher no mercado pornográfico.
A história de Linda é apenas uma das milhões que a indústria pornográfica cria, todos os dias. Devemos dar um basta! A vida das mulheres vale muito mais que o mero prazer masculino!

A luta das mulheres por uma sociedade melhor

Sabemos que o capitalismo ganha milhões objetificando a mulher, seja para explorar sexualmente, como fazem a indústria pornográfica e a prostituição, como também a tratando como a proletária do proletário e designando tarefas domésticas e privativas. As mulheres não merecem morrer por serem mulheres! E sabemos que, enquanto o capitalismo existir, as mulheres não estão completamente emancipadas. Esse sistema econômico sustenta o modelo vigente, que é o patriarcado. Precisamos construir um novo modelo de sociedade, precisamos construir o socialismo para que a verdadeira emancipação da mulher se concretize!
Vitória Louise

Fonte: Jornal AVERDADE

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

AS LEIS DA DIALÉTICA


QUARTA E ÚLTIMA LEI: TRANSFORMAÇÃO DA QUANTIDADE EM QUALIDADE OU LEI DO PROGRESSO POR SALTOS

I. — Reformas ou revolução:
1. A argumentação política.
2. A argumentação histórica.
3. A argumentação científica.

II — O materialismo histórico:
1. Como explicar a história?
2. A história é obra dos homens.

Resta-nos, agora, antes de abordar o problema da aplicação da dialética à história, estudar uma sua última lei.
Isso vai-nos ser facilitado pelos estudos que acabamos de fazer, e em que vimos o que é a negação da negação e o que se entende por unidade das contrárias.
Como sempre, procedemos por exemplos.

I.— Reformas ou revolução?
Diz-se, falando da sociedade: é preciso recorrer a reformas ou fazer a revolução? Discute-se para saber se, para transformar a sociedade capitalista numa socialista, se alcançará esse fim por reformas sucessivas ou por uma transformação brusca: a revolução.
Perante este problema, recordemos o que já estudamos. Toda a transformação é o resultado de uma luta de forças opostas. Se uma coisa evolui, é porque contém em si a sua contrária, sendo cada coisa uma unidade de contrárias. Constata-se a luta das contrárias e a transformação da coisa na sua contrária. Como se faz essa transformação? É o novo problema que se põe.
Pode pensar-se que tal transformação se efetua pouco a pouco, por uma série de pequenas transformações, que a maçã verde se transforma em madura por uma série de pequenas mudanças progressivas.
Muitas pessoas pensam, assim, que a sociedade se transforma pouco a pouco e que o resultado de uma série dessas pequenas transformações será a transformação da sociedade capitalista em socialista. Pequenas transformações que são as reformas, sendo o seu total, a soma das pequenas mudanças graduais, que nos dará uma sociedade nova.
É esta a teoria a que se chama reformismo. Os partidários de tais teorias chamam-se reformistas, não porque reclamem reformas, mas porque pensam que elas bastam, que, acumulando-se, devem, insensivelmente, transformar a sociedade.
Examinemos se isso é verdade:
1. A argumentação política . Se olharmos os fatos, isto é, o que se passou nos outros países, veremos que, onde se ensaiou tal sistema, os resultados foram negativos. A transformação da sociedade capitalista — a sua destruição— teve êxito num único país: a U. R. S. S., e constatamos que não foi por uma série de reformas, mas pela revolução.
2. A argumentado histórica . É verdade que, de uma maneira geral, as coisas se transformam por pequenas mudanças, por reformas?
Vejamos sempre os fatos. Se examinarmos as mudanças históricas, veremos que não se produzem indefinidamente, que não são contínuas. Chega um momento em que, em vez de pequenas mudanças a mudança se faz por um salto brusco.
Na história das sociedades, os acontecimentos marcantes que verificamos são mudanças bruscas, revoluções; Mesmo os que não conhecem a dialética sabem, nos nossos dias, que se produziram mudanças violentas na história; no entanto, até ao século XVII, julgava-se que «a natureza não dá saltos»; não queriam ver as
transformações bruscas na continuidade das mudanças. Mas, a ciência interveio, e, pelos fatos, demonstrou que se faziam mudanças bruscamente. A Revolução de 1789 abriu ainda melhor os olhos; era ela própria um exemplo evidente de nítida ruptura com o passado. E acabou-se percebendo que todas as etapas decisivas da história foram e eram perturbações importantes, bruscas, súbitas. Por exemplo: de amigáveis que eram, as relações entre tal e tal Estado tornaram-se mais frias, depois tensas, agravaram-se, tomaram um caráter de hostilidade — e, de repente, era a guerra, brusca ruptura na continuidade dos acontecimentos. Ou, ainda: na Alemanha, depois da guerra de 1914-18, houve uma subida gradual do fascismo, depois, um dia, Hitler
tomou o poder — a Alemanha entrou numa nova etapa histórica.
Hoje, os que negam essas bruscas mudanças pretendem que são acidentes, sendo um acidente uma coisa que acontece e poderia não acontecer.
Assim se explicam as revoluções na história das sociedades: «São acidentes».
Explica-se, por exemplo, no que respeita à história da França, que a queda de Luís XVI e a Revolução francesa aconteceram porque Luís XVI era um homem fraco e indolente: «Se tivesse sido um homem enérgico, não teríamos tido a Revolução». Lê-se mesmo que, se, em Varennes. não tivesse prolongado a sua refeição, não o prenderiam e o curso da história teria sido outro. Portanto, a Revolução francesa é, digamos, um acidente.
A dialética, pelo contrário, reconhece que as revoluções são necessidades. Há, na verdade, mudanças contínuas, mas, acumulando-se, acabam por produzir mudanças bruscas.
3. A argumentação científica. Tomemos o exemplo da água. Partamos de 0º, e façamos subir a sua temperatura de 1°, 2°, 3° até 98°: a mudança é contínua. Mas, isso pode continuar assim indefinidamente?
Vamos, ainda, até 99°, mas, a 100° temos uma mudança brusca: a água transforma-se em vapor.
Se, inversamente, de 99° descermos até 1º teremos. de novo, uma mudança contínua, mas, não poderemos descer assim indefinidamente, porque, a 0º, a água se transforma em gelo.
De 1º a 99°, permanece sempre água; apenas a sua temperatura muda. É o que se chama uma mudança quantitativa,que responde à pergunta: «Quanto», isto é, «que quantidade de calor tem a água?». Quando se transforma em gelo ou em vapor, temos uma mudança qualitativa, uma mudança de qualidade. Já não é água; tornou-se gelo ou vapor.
Quando a coisa não muda de natureza, temos uma mudança quantitativa (no exemplo da água, uma mudança de grau de calor, mas, não de natureza). Se muda de natureza, quando se torna outra coisa, a mudança é qualitativa.
Vemos, pois, que a evolução das coisas não pode ser indefinidamente quantitativa: transformando-se, sofrem, por fim, uma mudança qualitativa. A quantidade transforma-se em qualidade. É uma lei geral. Mas, como sempre, não devemos agarrar-nos unicamente a esta fórmula abstrata.
No livro de Engels, «Anti-Duhring», no capítulo Dialética, quantidade e qualidade, encontraremos um grande número de exemplos que farão compreender que, em tudo, como nas ciências da natureza, se verifica a exatidão da lei segundo a qual em certos graus de mudança quantitativa; produz-se, subitamente, uma conversão qualitativa60.
Eis um novo exemplo, citado por H. Wallon, no VII volume da «Enciclopédia francesa» (em que nos remete a Engels): a energia nervosa, acumulando-se numa criança, provoca o riso; mas, se continua a aumentar, o riso transforma-se em lágrimas; assim, as crianças que se excitam e riem muito, acabam por chorar.
Daremos um último exemplo bem conhecido: o do homem que apresenta a sua candidatura a um mandato qualquer. Se forem precisos 4500 votos para obter a maioria absoluta, o candidato não é eleito com 4499, continua a ser, apenas, um candidato. Com um voto mais, a mudança quantitativa determina uma qualitativa,
uma vez que o candidato, que era, se torna um eleito.
Esta lei traz-nos a solução do problema: reforma ou revolução.
Os reformistas dizem-nos: «Quereis coisas impossíveis, que apenas acontecem por acidente; sois utopistas».
Mas, com esta lei, vemos bem quais são os que sonham com coisas impossíveis! O estudo dos fenômenos da natureza e da ciência mostra-nos que as mudanças não são indefinidamente contínuas, mas que, num dado momento, se tornam bruscas. Não somos nós que, arbitrariamente, o afirmamos, é a ciência, a natureza, a realidade!
Pode, então, perguntar-se: que papel representamos nós nessas transformações bruscas?
Vamos responder a esta pergunta, e desenvolver tal problema com a aplicação da dialética à história. Eis nos chegando a uma parte muito célebre do materialismo dialético: o materialismo histórico.

I.                 — O materialismo histórico.
O que é o materialismo histórico? É simplesmente, agora que se conhece o que é a dialética, a aplicação desse método à história das sociedades humanas.
Para compreender isto melhor, é necessário precisar o que é a história. Quem diz história diz mudança, e mudança na sociedade. A sociedade tem uma história, no decurso da qual muda continuamente; vemos produzirem-se nela grandes acontecimentos. Então, põe-se o seguinte problema: uma vez que, na história, as sociedades mudam, o que é que explica essas mudanças?
1. Como explicar a história?
É assim que nos perguntamos: «Que faz com que haja guerras? Os homens deveriam poder viver em paz!».
A estas perguntas, vamos dar respostas materialistas.
A guerra, explicada por um cardeal, é uma punição de Deus; é uma resposta idealista, porque explica os acontecimentos por Deus; é explicar a história pelo espírito. Aqui, é o espírito que cria e faz a história.
Falar da Providência, é, também, uma resposta idealista. É Hitler que, em «Mein Kampf», nos diz que a história é obra da Providência, agradecendo-lhe ter posto o lugar do seu nascimento na fronteira austríaca.
Tornar Deus ou a Providência responsáveis pela história, eis uma teoria cômoda: os homens nada podem, e, por conseguinte, nada há a fazer contra a guerra, é preciso consenti-la.
Podemos nós, do ponto de vista científico, sustentar uma tal teoria, encontrar nos fatos a sua justificação?
Não.
A primeira afirmação materialista, nesta discussão, é que a história não é obra de Deus, mas dos homens.
Então, os homens podem agir sobre a história e impedir a guerra.
2. A história é obra dos homens.
Os homens fazem a sua história, seja qual for o caminho que tome, prosseguindo cada um os seus próprios fins, conscientemente desejados, e são, precisamente, os resultados dessas numerosas vontades, atuando em sentidos diferentes, e as suas variadas repercussões sobre o mundo exterior que constituem a história.
Trata-se, também, por conseguinte, do que querem os numerosos indivíduos, tomados isoladamente. A vontade é determinada pela paixão ou pela reflexão... Mas, as alavancas que, por sua vez, determinam diretamente a paixão ou a reflexão são de natureza muito diversa... Ainda pode perguntar-se... quais as causas históricas que, nos cérebros dos homens que agem, se transformam nesses motivos.61
Este texto de Engels diz-nos, portanto, que são os homens que agem segundo as suas vontades, mas estas não se orientam sempre no mesmo sentido! O que é que determina, faz, então, as ações dos homens? Por que não caminham as suas vontades no mesmo sentido?
Certos idealistas consentirão em dizer que são as ações dos homens que fazem a história, e que tal ação resulta da sua vontade: é esta que determina a ação, e são os nossos pensamentos ou sentimentos que determinam a nossa vontade. Teríamos, portanto, o seguinte processo: ideia — vontade — ação, e, para explicar a ação, seguiremos o sentido inverso, à procura da ideia, causa determinante.
Ora, precisamos imediatamente que a ação dos homens importantes e das doutrinas não é negável, mas tem necessidade de ser explicada. Não é o processo ideia — vontade — ação que a explica. É assim que alguns pretendem que, no século XVIII, Diderot e os Enciclopedistas, difundindo entre o público a teoria dos Direitos do Homem, seduziram e ganharam, com essas ideias, a vontade dos homens que, em consequência, fizeram a Revolução; o mesmo aconteceu na U.R.S.S., onde as ideias de Lenine foram difundidas e as pessoas agiram de acordo com elas. E conclui-se que, se não houvesse ideias revolucionárias, não haveria revolução. É este o ponto de vista que faz dizer que as forças motrizes da história são as ideias dos grandes
chefes; são eles que fazem a história. Conheceis a fórmula da Ação francesa: «40 reis fizeram a França»; poderia acrescentar-se: reis que, no entanto, não tinham muitas «ideias»!
Qual o ponto de vista materialista sobre o assunto?
Vimos que, entre o materialismo do século XVIII e o moderno, havia muitos pontos comuns, mas o antigo materialismo tinha, da história, uma teoria idealista.
Portanto, francamente idealista ou dissimulada sob o materialismo inconsequente, a teoria idealista que acabamos de ver, parecendo explicar a história, nada explica. Com efeito, quem provoca a ação?
O antigo materialismo, disse Engels, aprecia tudo segundo os motivos da ação, divide os homens, exercendo uma ação histórica, em nobres e plebeus, e constata, em seguida, ordinariamente, que são os nobres os patetas e os plebeus os vencedores, do que resulta, para o antigo materialismo, que o estudo da história não nos ensina grande coisa de edificante, e, para nós, que, no domínio histórico, o antigo materialismo é infiel a si próprio, porque toma as forças motrizes ideais que aí estão ativas pelas causas últimas, em vez de examinar o que há por detrás delas62.
A vontade, as ideias reclamam-se como um direito. Mas, por que é que os filósofos do século XVIII tiveramprecisamente essas ideias?
Se tivessem tentado explicar o marxismo, não teriam sido escutados, porque, nessa época, as pessoas não o compreenderiam. Não conta só o fato de se produzirem ideias, é preciso, também, que sejam compreendidas; por conseguinte, há determinadas épocas para aceitar as ideias e também para as forjar.
Sempre dissemos que as ideias têm uma grande importância, mas devemos ver de onde vêm.
Devemos, portanto, procurar quais as causas que nos dão essas ideias, quais são, em última análise, as forças motrizes da história.

Encerramos esta primeira fase, estudando as LEIS DA DIALÉTICA. Continuaremos, a seguir, estudando o MATERIALISMO HISTÓRICO - As Forças Motrizes da História - DE ONDE VÊM AS CLASSES E AS CONDIÇÕES ECONÔMICAS; O MATERIALISMO DIALÉTICO E AS IDEOLOGIAS -  A aplicação do método dialético às ideologias- Com estas publicações, espero estar colaborando no estudo do marxismo, à aqueles interessados. 

Críticas do FMI e Despolitização da Sociedade Brasileira

By Edu Montesanti

Em sua revista deste mês de junho, o próprio Fundo Monetário Internacional criticou, não tão abertamente, as políticas neoliberais através de alguns de seus principais economistas, Jonathan D. Ostry, Prakash Loungani, and Davide Furceri. “Ao invés de produzir crescimento, algumas políticas neoliberais têm aumentado a desigualdade, por sua vez colocando em risco a expansão duradoura”, observam eles.
É interessante notar que o propalado neoliberalismo foi aplicado exatamente por governos autoritários e profundamente corruptos – casos de América Latina sob ditadura militar, Estados Unidos sob os Bush e Reagan, e Reino Unido nos anos de Margaret Tatcher, conhecida como Dama de Ferro. Tal fato pode causar surpresa inicial, mas não nenhuma contradição dada a natureza excludente do modelo econômico em questão.
Nas palavras da jornalista canadense Naomi Klein, “se olharmos para a história dos primeiros lugares onde o neoliberalismo foi imposto, ele foi imposto exatamente no oposto [do que nos é dito]: foi necessária uma derrubada da democracia para que ele se desenvolvesse”.
Por outro lado, políticas sociais são aplicadas exatamente como socorro às crises profundas geradas pela maximização do livre-mercado. Casos emblemáticos são o New Deal norte-americano do presidente Franklin Delano Roosevelt, pós-Grande Depressãoiniciada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929, e os Estados de Bem-Estar Social europeus pós-Segunda Guerra Mundial.
Os países nórdicos, berço da social-democracia, sempre foram exemplos neste sentido, nos dias de hoje abrindo-se ao Consenso de Washington ao diminuir a influência estatal, e, como sempre ocorreu na história, tornar as economias mais vulneráveis.
Enquanto tal modelo gera horror em setores reacionários pautados pela mídia predominante defensora dos interesses das grandes corporações que a sustentam, que chegam a ponto (não raras vezes) de qualificá-lo de “comunismo diabólico”, por outro lado a intervenção estatal de Bush filho em 208, maior da história destinada ao socorro aos bancos criminosos, exatamente os geradores da depressão econômica de então (não sanada até hoje), o qual ultrapassou 1,8 trilhão de dólares, e dois anos depois o plano de salvação de Barack Obama à indústria automobilística acima da casa dos 60 bilhões de dólares, acomodam os espíritos mais conservadores das sociedades.
Vale apontar que no atual festival da despolitização tupiniquim que tirou da Presidência uma das únicas políticas sem acusação nem sequer sendo investigada por corrupção, para colocar no poder, nas palavras de Noam Chomsky (intelectual mais respeitado do mundo) “uma corja de ladrões” sob forte influência e aplausos midiáticos, as classes média e alta brasileiras têm apoiado agora e historicamente o model neoliberal, com a típica raiva caçadoras de bruxas anti-comunistas presente na ridícula votação pelo impedimento da presidente Dilma Rousseff (assim observado por todos os meios de comunicação mundiais), e nestas semanas subsequentes.
Apontado neste sentido, da excessiva ignorância baseada na ditadura do mercado que relega todo o aparato do Estado e a própria sociedade à lógica do lucro (que é ilógica) e da profunda despolitização, baseadas em desenfreada competitividade, no ódio às diferenças e nos preconceitos étnicos, regionais, sociais, sexistas e de gênero, é a cara perfeita da sociedade brasileira, de seu estilo e de sua estatura moral e intelectual, este público ataque gospel-reacionário da jurista Janaína Paschoal na Faculdade de Direito da USP, no início de abril capaz de gerar desconforto até em seus colegas e alunos reacionários – portanto, nada dotados de grande senso do ridículo e de consideráveis capacidades intelectuais.
Famosas internacionalmente pela essência corrupta, pela fortíssima discriminação, pela agressividade e pela incapacidade organizacional que, no país do carnaval e do futebol decadente, dia a dia se superam, que se creem sábias ao mesmo tempo que, na ausência de autonomia reflexiva, são capazes de caírem no engodo de personagens como Temer, Sarney, Calheiros, Eduardo Cunha e da mesma mídia sabidamente manipuladora e historicamente golpista, bem como devota das própria retórica de “liberdade” baseada na lei do mercado, as mentalidades elitistas brasileiras (que não escolhem classe social) podem ter a condição de prostração intelectual e de falência moral refletida com perfeição nas palavras de Johann Wolfgang von Goethe: “Ninguém está mais desesperadamente escravizado, que aquele que falsamente acredita ser livre”.
E em não raros casos, certamente, é ainda mais sofrível ter-se consciência da escravidão econômica, social e política passivamente por medo, por interesse ou por uma patética combinação de ambos. Para os setores reacionários nacionais, imbecilizados pela grande mídia oligárquica pertencente a cinco famílias e financiada diretamente por Washington (fato comprovado documentalmente por WikiLeaks), pode o FMI e todas as evidências, atuais e históricas, apontar contrariamente a suas ideias pré-concebidas que tudo será em vão e tudo seguirá como está. A história mostra isso, e hoje e só esperar para ver.
Edu Montesanti