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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

"Os evangélicos descobriram o que Lula não conseguiu: para vencer é preciso mídia"




Em entrevista, Pastor fala sobre relação da Igreja Evangélica com a esquerda, o anti-petismo e as questões LGBTT

Mídia NINJA, 
Pastor Ariovaldo Ramos / Mídia NINJA

A ascensão do protestantismo no Brasil é um fenômeno eminentemente urbano. 
O crescimento se explica, em grande medida, pelo acolhimento que a igreja consegue dar à base da pirâmide social: os não-brancos, as mulheres, os pobres. Trabalho que a esquerda brasileira deixou de lado desde que alcançou o executivo, se afastando das periferias e deixando espaço para um projeto de direita conservador e moralista.

“O que move a história é a religião” decretou uma vez o historiador britânico
Arnold Toynbee, reconhecido por afirmar premonitoriamente o fim da União Soviética pela inexistência de uma fé que sustentasse sua ideologia.
O projeto de poder da ‘Nação Evangélica’, capitaneado pela Igreja Universal do Reino de Deus, acaba de vencer as eleições em uma das maiores cidades brasileiras com uma mensagem popular e uma teologia que entende na prosperidade e no dinheiro a benção divina.
Crime organizado, legalização das drogas, diversidade sexual, o anti-petismo e a resistência evangélica são alguns dos temas que a Mídia NINJA procurou compreender ao entrevistar o Pastor Ariovaldo Ramos, ex-presidente da AEVB (Associação Evangélica Brasileira) e um dos fundadores da potente Frente de Evangélicos Pelo Estado de Direito, uma resposta ao grande número de fieis expulsos de suas igrejas por criticarem o golpe de estado em curso no país.
Os evangélicos no Brasil
Pastor Ariovaldo: O avanço do protestantismo tem duas respostas: uma é a do fiel, que vai dizer “é Deus”. Outra possível, que não anula Deus, é a de que esse é um fenômeno eminentemente urbano, em que 85% do povo brasileiro mora na cidade.
Os Evangélicos no Brasil são um grupo crescendo desde a década de 1980: multifacetado, com muitas denominações e unidades independentes, com uma teologia rarefeita e, portanto, sem um discurso único, unidos basicamente pela confissão que Jesus Cristo é o único salvador. Como a maioria é pentecostal, vem da lógica que são batizados pelo Espírito Santo.
No entanto, as confissões de fé não são equânimes: há um número de evangélicos que se reconhece como tais, mas provavelmente não se encaixam em muitas doutrinas protestantes. É um movimento popular crescendo na base.
Em 1996, o Instituto de Estudos da Religião detectou que o movimento evangélico tinha chegado à base da pirâmide, e isso é um fenômeno. É a primeira vez na história moderna que uma fé estrangeira - precisamos lembrar que a fé evangélica como a gente conhece chegou aqui no século XIX - consegue chegar na base da pirâmide. Quando você consegue chegar lá, mexe com a cultura, pois ela é preservada na base.
Os evangélicos chegaram lá através dos pentecostais, e esse movimento explodiu. Os ‘históricos’ [protestantes tradicionais] têm uma definição mais conceitual, já os ‘pentecostais’ têm uma definição mais empírica, uma experiência que traz manifestações visíveis, notórias e perceptíveis.
Isso é o que eu diria dos evangélicos: é uma teologia muito rarefeita e multifacetada.
Há outra coisa que une: a figura do pastor. Sua liderança é muito forte e a fidelidade a ela também. Isso é menor nos históricos que vieram da reforma protestante, mas mesmo entre eles essa força institucional do líder começou a ganhar força. A maioria consegue esmagar a minoria e a força pentecostal é gigantesca em número, presença e volume.
Nós moramos em 200 cidades que são as que têm entre 150 e 200 mil habitantes, e o homem urbano é um homem de migração, ele saiu de sua localidade natural para buscar uma oportunidade fugindo de ‘N’ problemas que o Brasil tem e conhece, seja ambiental, da seca, ciclos climáticos ou mesmo a grilagem de terras, entre outros.
O homem rural foi sendo expulso: cerca de 40% a 50% das terras brasileiras estão com 2% da população, e onde está esse povo rural? Nas cidades. A cidade desassocia o ser humano da sua fonte primeira de construção de identidade, porque ele não está mais em um ambiente de segurança, não está mais no ambiente familiar, não está mais na região rural, não é mais “o filho do seu João”, agora ele é um número.
Quando chega à cidade precisa de comunidade e de acolhida, precisa ser reconhecido através de um nome. Então constrói comunidades do jeito que ele é, por exemplo, ele toma cachaça no mesmo bar, compra pão na mesma padaria, passa para ler as manchetes de jornal na mesma banca, anda no mesmo ônibus, no mesmo horário, e assim vai criando uma comunidade, alguém que o reconheça e que saiba dele, e nesse sentido a igreja evangélica é imbatível.
Quando ele entra na comunidade e é acolhido como um ser humano, é chamado pelo nome, recebe palavras que o dignificam e deixa de ser um sujeito perdido na cidade para ser um potencial de Deus, isso recupera a dignidade dele. Agora não é mais alguém da drogadição, do alcoolismo: agora tem uma comunidade, tem gente que ora por ele, gente que torce por ele, gente que o abraça.
Ele muda a forma de vestir, ascende socialmente.Pode ser obreiro, evangelista, líder, pastor. Em que outro lugar da cidade ele consegue isso? Que outro lugar do estado permite isso? Onde essa elite sub-desenvolvida no Brasil, que acha que a nação é só deles, permite um espaço desse? Não tem jeito, não tem como competir com isso. Lá o cara volta a ter nome, e mais, se ele tiver experiência com Deus, passa a ser referência, é o cara que fala com Deus, o cara que tem conhecimento, que cuida das crianças, é a “dona Maria” que tem uma oração poderosa, por exemplo, e com isso não tem como competir, não tem instituição nenhuma que possa o fazer.
Os evangélicos são os mais pobres. As pessoas pensam que os evangélicos são homens, brancos e ricos, mas os que são evangélicos são os não-brancos, os pobres e as mulheres. Mais de 60% da igreja são mulheres e negras. As crianças são atraídas porque tem lugar onde elas são amadas, recebidas, há uma programação para elas, tem música, enfim, é a ideia do Cristo de acolhimento.
A maioria das igrejas evangélicas está na periferia, ou seja, na base pegou. Faltava a esse grupo uma teologia mais elaborada que conseguisse perceber a face progressista da fé cristã. Por isso cresce tanto, independente da pessoa ter ou não um encontro com o Cristo, porque ela tem um encontro com o ser humano, que é uma coisa que muito dos intelectuais custaram a perceber.
Na igrejinha da periferia, a proposta é que a pessoa tenha um encontro com Jesus, com Deus e com o Espírito Santo e a trindade. Mas se não tiver esse encontro, vai ter um encontro com o ser humano, e dessa forma recupera sua noção de humanidade. Isso faz muita diferença em um povo alijado de seus direitos, oprimido, sem perspectiva em uma nação em que a lei não é séria e os acessos são negados.
Quando chega na comunidade, tem acesso e conta com a força mais poderosa que é Deus, pode orar, pedir por justiça, misericórdia e ter uma esperança. Se você pega uma mulher negra não evangélica, jogada na periferia, e pergunta sua fonte de esperança, o que ela vai dizer? Que ela espera do estado? Dos homens? Da elite branca? Mas se você a encontrar e ela tiver se convertido, vai dizer: “Eu espero em Deus, espero em Cristo, tenho meus irmãos e eles oram por mim, eles cuidam de mim”, e esse é um elemento na fé cristã que ninguém se dá conta, principalmente os intelectuais e a esquerda.

A "Nação Evangélica" e o poder do povo
Pastor Ariovaldo: A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) vem crescendo no poder, haja visto que eles descobriram o que o governo Lula não conseguiu descobrir a tempo, que para vencer no mundo moderno, você precisa ter a mídia. Você não precisa ter exércitos. Se tiver a mídia, tá feito. Eles sempre souberam disso e correram atrás como um sedento corre atrás de água. A sociedade moderna é uma sociedade midiática.
Você quer o poder? O que precisa? A mídia. Qual mídia? A TV. Pensamos que havíamos avançado ao colocar 94% das crianças na escola, mas isso é só o começo. Tem que aperfeiçoar o ensino até o cara chegar em um estágio de crítica. Se não está em um estado de crítica, não foi educado. Por isso essa historia de ‘Escola Sem Partido’ é um crime contra a educação. Não porque priva o sujeito de certos conhecimentos, mas porque retira dele a capacidade de chegar a um estágio de crítica
Esses caras têm essa noção, têm uma mensagem popular, uma teologia em que avaliam o capitalismo e que diz: a benção de Deus é financeira, é a prosperidade. Os -cristãos- históricos demoraram para reagir, porque são muito influenciados pelo calvinismo que pregava isso de alguma maneira. No calvinismo, uma das provas que você era um eleito de Deus é o quanto você prospera.

A Universal sabe exatamente o que está fazendo, tem uma visão muito clara. O Pastor Caio Fabio uma vez falou que o Edir Macedo disse a ele: “você usa a isca para o peixe que você quer pegar”. Isso é negócio complicado se você tem um povo semi-analfabeto, analfabeto funcional, destituído dos seus direitos, com um estado ausente e uma elite voraz.
Eles têm um projeto claro de poder e começaram incendiar isso, ou seja, a disseminar. Até começarem, a maioria do evangelicos não pensava assim, inclusive tinha uma certa ojeriza a movimento com questões político-partidárias, mas depois assimilaram a mesma lógica e começaram a chamar os deputados e vereadores de “nossos missionários na política”.
Isso foi ganhando um certo utilitarismo, porque para os evangélicos o missionário é um cara que tem uma função, de modo geral, de anunciar o Cristo, mas agora significa levar os interesses da igreja. No primeiro momento esses interesses eram para o seu funcionamento na cidade, ou seja, não atrapalhar a gente, não pedir para a gente abaixar o som, não chatear a gente porque fechamos a rua, não ficar em cima porque não temos todo estacionamento que a gente precisa.
Depois muda pro discurso de “tomar o país”, e esse discurso nasce na IURD e nas lideranças neopentecostais, com um sonho de uma nação evangélica, que não é só brasileira, é internacional. Começam a mostrar vídeos de como é uma cidade, uma nação que os evangélicos governam. Então o pessoal diz: “É isso aí, Brasília é só corrupção, os coronéis mandavam em tudo, eles expulsam a gente da terra, mandam a gente embora. Temos que ter uma nação evangélica!”.
Isso evolui para uma pauta moral. Quando chega nesse ponto não é só uma questão de ter uma nação evangélica, mas é uma questão de salvar a família. Aí vem o Crivella com o discurso: “O Paes cuidou da cidade, eu vou cuidar de você”, mas você fala para os progressistas e eles não querem saber. Vocês não sabem o que é o nosso povo, sua carência, o cara é explorado, explorado e explorado, e não tem saída. A Mais Valia não leva a mais nada a não ser à escravidão.
Mas a quem vão pedir socorro? Tem que pedir socorro a Deus. Aí vem o pastor que acredita mesmo e diz: “Vem para Deus, Deus é uma realidade, vamos lá, coragem!”. Mas tem outro que acredita em Deus, mas é um “pelego”, prepara o povo para ser explorado, e o povo não percebe, pois está sob acolhimento.
O Crivella representa, na minha opinião, essa visão de acolhimento e a pauta moral. Chego a me perguntar se ele realmente tem um projeto político. Acho que ele é um homem inteligente, como um senador teve participações interessantíssimas, discursos interessantíssimos, ele não caiu de paraquedas, construiu uma história.
Agora a grande pergunta é se ele vai conseguir fazer a ruptura entre o púlpito e a tribuna, entre a cadeira do bispo e a cadeira do prefeito. Se vai perceber que tem uma pauta comum e não pode ter pautas distintas. Porque senão vai ferir direitos civis. Ele vai se lembrar que um Estado laico de um lado não legisla sobre a fé do outro lado? Não pode permitir que a fé incida sobre a legislação.
Agora, ele é homem da IURD, que é a dona da Record. Se eu fosse os caras da Globo, pensaria duas vezes antes de saber como o Rio vai ficar agora. O Crivella é um cara muito interessante e ter sido indicado pela Universal é um golpe de gênio, pois é o cara mais bem preparado de lá, de todos evangélicos. Ele demonstrou isso em seu mandato no Senado e na campanha.
Enquanto prefeito, ainda deu muita sorte, pois se elege em um Estado falido, qualquer coisa que fizer será nivelada de baixo e assim vai brilhar. O PMDB conseguiu a proeza de destruir um Estado como o Rio de Janeiro e mesmo assim assumiu o controle do país. É uma coisa assustadora.
A direita nunca teve o povo, principalmente depois de mais de 20 anos de ditadura. Os pastores puseram o povo na rua, porque o preconceito dos intelectuais (da ala dos progressistas) em relação aos evangélicos, isolou esses intelectuais. Por causa do preconceito, eles zombavam dos caras. Isso é um problema do materialismo exacerbado: quando o materialismo assume, deixa de ser uma metodologia de administração da história para se tornar uma teologia.
A esquerda e a religião
Pastor Ariovaldo: Toda religião caminha para o extremismo. São Thomás de Aquino nos levou a pensar que os extremos se encontram. Então era inevitável. Isso gera o que? Preconceito.
Onde é que o preconceito é mais forte? Quando ele é exercido em nome de Deus ou da negação de Deus, que dá no mesmo. São duas faces da mesma moeda. Isso isola esse povo que está no looping, na base da pirâmide. É na base da pirâmide que a gente canta samba e forró pé de serra, não é essa “bobajada” da classe média não, é lá na base. E quem está na base?
Os movimentos sociais recuaram porque acharam que tinham tomado o poder. Cometemos o erro de achar que em um país semi-presidencialista ganhar o Executivo era tomar o poder. Ficou claro no golpe que não é. Então, o pastor está lá, é autoridade, ponto. Ele é uma dessas autoridades inquestionáveis, porque é quase um oráculo divino. Se ele subir um pouco e falar: “assim disse o Senhor”, acabou, amigo. Acabou! Você nunca vai mexer naquilo, porque tudo que você precisa fazer em relação aqueles que têm fé é colocar na cabeça deles uma dúvida que é: “e se for Deus mesmo?”. Ninguém quer brigar com Deus.
Mas as pessoas não perceberam isso. A gente leu Marx, tá ok, mas a gente não leu Toynbe. E o Arnold Toynbee dizia que o que move a história é a religião. A gente tinha que ter perguntado as duas coisas e entendido que tem uma outra força aqui. A força econômica não é hegemônica: tem uma outra força que não pode ser desprezada, e quando surge no púlpito vira verdade. Se na TV é um caminho epistemológico, no culto é aletea, ou seja, verdade, como dizem os gregos. Na TV é epistêmico o caminho para chegar à verdade, mas no púlpito é aletea, a excelência da verdade. Então acabou, não tem mais o que falar.
Esse púlpito foi conhecido pela mídia de que o mal moral da nação era o Partido dos Trabalhadores. Que o PT atentava contra nossa moral. Por que isso aconteceu? Porque nossa teologia foi adulterada, a fé cristã não é moralista. A fé cristã tem moral, mas não é moralista, porque a fé cristã acredita que toda salvação é uma obra da bondade de Deus e não do mérito humano.
Onde o mérito está excluído, o moralismo também está, porque não tem nada que eu possa fazer que possa melhorar minha relação com Deus. É o ato bondoso, misericordioso e gracioso de Deus: não tem nada a ver com mérito humano, mas com a capacidade divina de perdoar. Isso foi adulterado por causa da cultura brasileira.
Evangélicos e o Anti-Petismo
Pastor Ariovaldo: Começou assim, a mídia começou a propagar que o Partido dos Trabalhadores estava fomentando a imoralidade. Não é verdade, o Partido dos Trabalhadores nunca trabalhou com essa lógica.
A primeira coisa que aconteceu foi disseminar a ideia de que o governo popular era comunista. De forma rarefeita a mídia aqui e ali não ensinava, não trazia os dados, trazia só as versões. Então ficou aquela coisa de comunismo.
Os evangélicos têm um medo, porque a gente cresceu ouvindo sobre a perseguição que os comunistas faziam aos cristãos, e na verdade era viés do movimento, mas dependendo de como a notícia chega, é a que fica. Os evangélicos temiam. Não tem nada a ver, por enquanto, com questão econômica, a livre iniciativa ou com capitalismo, tem a ver com “eles matam os cristãos”.
Depois, quando os evangélicos começaram a elaborar a pauta moral, principalmente contra a comunidade LGBT, o pessoal começa a disseminar que o governo popular não só apoiava essa comunidade de forma explícita, como tinha cartilhas ensinando as crianças a optarem por outro gênero.
Me lembro muitas vezes que as pessoas me falavam isso: “como você apoia um negócio desse?”, e eu respondia: “traz a cartilha, deixa eu ver”. Nunca chegou a cartilha.
Isso foi aquela angústia, “o que vai acontecer com meu filho”. A pauta moral foi ganhando força. Qual a única forma de deter a imoralidade dos pagãos e dos ateus em uma nação evangélica? Esses caras estão prontos para ouvir qualquer coisa que leve você a essa pauta moral. Além disso, líderes expressivos da fé evangélica começaram a dizer explicitamente “não votem no Partido dos Trabalhadores”.
Quando o Lula chegou, foi diferente. Primeiro porque o Lula era um cara do povo. Segundo porque o país estava falido. Hoje todo mundo, não sei porque, venera o Fernando Henrique Cardoso (FHC), mas quando o FHC estava terminando o mandato dele, a gente estava às escuras no apagão.
Não conheço nenhum jeito mais efetivo de sabotar uma nação do que apagão. Você deixar, mesmo que um dia, 18 estados sem luz. Sabe quanto isso custa? Sabe quanto custa uma linha de voltagem interrompida? Sabe quantos caras têm gerador próprio? O nome para isso é sabotagem, em qualquer lugar do mundo. Faltou brio para mídia dar nome aos bois. Além do cara desvalorizar a nossa moeda em 90% da noite para o dia e reduzir nossos ativos a quase zero e vender nossos ativos a preço de banana, o cara deixa a gente sem luz.
Então você tem um Estado falido e as massas alvoroçadas, e chega o Lula. O Lula é cara do acordo trabalhista, da ideia de que é possível haver mais acordo entre proletário local e proprietário local do que entre as internacionais, sejam socialistas ou capitalistas.
No primeiro momento o Lula consegue fechar esse acordo, porque convence os empresários de que o cara estava vendendo tudo, que se não apoiassem, não teriam nada, pois estavam falidas a construção naval, a siderurgia em desespero, e sofrendo apagão. Por isso ele consegue a formulação trabalhista.
Os evangélicos tinham uma certa desconfiança, mas a gente é majoritariamente pobre, feminino e negro. Nossos pastores estão em contato direto com a pobreza, com a miséria, aí vem um cara que emana do povo, que fala sobre a fome e chora, então todo mundo se une. “Precisamos salvar esse país, porque nosso ex-presidente só faltou entregar a chave”.
Por isso deu tanto trabalho para demover a figura do Lula do governo popular. Isso só acontece quando a Dilma sobe ao poder e se afasta das bases. Quando a Dilma se afasta dos movimentos de base, também se afasta dos movimentos da periferia, que são majoritariamente evangélicos. Se afasta do MST, do MTST, que está cheio de evangélico.
A falta de diálogo abriu um vazio ideológico que podia ser preenchido por qualquer um. Foi criando na cabeça dos pastores a ideia de que tinham sido enganados. Eles que até então ouviam o grupo A, começam gradativamente a ouvir o grupo B por causa da distância. Não foi falta de gritar.
Não bastasse isso, tem toda uma articulação da direita, muito bem pensada. A direita sabe exatamente com quem falar, ela não vai conseguir nos caras engajados politicamente, mas nos caras que têm uma preocupação moral. O moralismo segrega, o ser humano deixa de ser digno pelo fato de existir, ele precisa fazer alguma coisa para ser digno.
A fé cristã ensina que o ser é humano porque ele existe, não importa a forma, mas quando você briga por moralismo, ele exige que o cara se prove digno e qualquer movimento que exige de outro ser humano que ele se prove digno, está contaminado, é só saber falar.
Quando eu olho para o que aconteceu no Brasil, fico pensando que você tem verdadeiros mestres da comunicação por trás de tudo isso, que tem um negócio pensado e organizado. O fato do governo Dilma ter se afastado das bases sociais, deixou o governo popular sem a única força que sempre teve, que é a mobilização do povo, contando que o pessoal da coligação era confiável, o que já se sabia que não era, então o púlpito ganhou um contorno de verdade incontestável, ele já é quando fala das coisas da fé, daí a pular para as coisas da política foi um detalhe.

Crime Organizado e a Legalização de Drogas
Pastor Ariovaldo: Sempre tivemos a religião com poder de barganha, aprendemos com o grupo fundador da nação a negociar com as entidades da floresta. Num outro grupo a gente aprendeu a negociar com os santos, em outro com os exus e orixás, sempre barganha. Oferece alguma coisa e recebe em troca.
Quando os pentecostais chegaram na base da pirâmide, eles vieram oferecendo poder, não necessariamente barganha, mas poder, que era o poder da oração. Se você está preocupado com poder, quem tem poder é Jesus Cristo: “Vem aqui que nós vamos orar e seja lá o que tiver acontecendo com você será resolvido”. Foram conquistando gente assim.
Aí chega a teologia da prosperidade, uma teologia de barganha, que diz que se você der, Deus devolve cem vezes mais. Isso é barganha. Ela se une à religião brasileira que é uma religião de barganha e de busca de poder. Esses caras tentam convencer todo mundo que o poder está conosco.
Agora, se você é um sujeito que vive da violência, a única coisa que você quer é fechar seu corpo. Quer ter a certeza de que os caras vão atirar em você e não vão te acertar, e se acertar você não vai morrer. Significa que você está buscando o luminoso, o sobrenatural, porque naturalmente qualquer ser humano baleado está complicado. Você tem que decidir onde está, já decidiu que não está com os católicos, e agora você está decidindo que não está com religiões de matrizes africanas, aí começa a ficar simpático com evangélicos. Tem pastor que apoia isso? É possível, eu não boto mais a mão no fogo por um bocado de cara aí, mas no discurso dificilmente.
O cara não consegue sair de lá, porque está naquele ambiente, e a questão da droga é uma questão que aqui no Brasil a gente não enfrenta, só criminaliza, não pára para discutir que a droga é antes de tudo uma questão de saúde pública.
A droga confere poder a uma determinada casta e temos que achar uma forma de derrotá-la. O estado brasileiro opta pela forma norte-americana, que através do enfrentamento bélico. Não dá pra competir com um cara do enfrentamento bélico.
A outra opção, que ninguém quer conversar, é como a gente faz para tirar a droga da mão do traficante? Como faz para o estado assumir a responsabilidade por isso e começar a ajudar o dependente químico? Porque hoje eu ajudo uma pá’ de drogado, mas não tenho acesso a ele, vou atrás o tempo todo. E se isso não tivesse na mão dessa casta, tivesse na mão do estado?
Sei que falar em legalização é muito complicado, não é simples, mas tô dizendo que tem um problema aqui e o jeito como estamos resolvendo o problema não está resolvendo. Se a gente achasse outro jeito em que a gente tem acesso ao dependente, em que o cara, pra ter o que quer, tem que passar por nós, a gente pode dizer: “é isso mesmo que você quer fazer da vida? Quer perder a capacidade de raciocínio?”, ninguém enfrenta isso.
Provavelmente o cara que me vê falando isso, me estigmatiza. Mas o fato é: tem gente morrendo na rua. 60 mil pessoas morrem por ano aqui, grande parte delas por causa da violência das ruas. Outra por causa da violência policial, porque se você vai para o enfrentamento bélico, tende a aumentar o poder discricionário da polícia, ou seja, dá licença para o cara matar. Se você não faz isso explicitamente, faz implicitamente. Hoje a igreja só atinge o usuário, não consegue mexer com a estrutura, tem um montão de clínica, de casa lar, casa refúgio etc.
Esses traficantes não são evangélicos na acepção do termo, pois não seriam traficantes, mas eles aceitam a oração dos evangélicos, e os evangélicos oram por quem quer que seja. A lógica deles é que o poder está na oração dos evangélicos. Aqui vem a terceira colocação, que é: você não pode dar espaço ao que não é divino, ao que não é de Deus, porque se você der espaço ao que não é de Deus, Deus não abençoa você.
No discurso fica a desconfiança se aquela religião é de Deus. O cara está no poder, governa como lhe deve, e quer sobreviver, quer ficar vivo, e para ficar vivo precisa de um poder sobrenatural, e chegou à conclusão de que o poder espiritual e sobrenatural é dos evangélicos, logo tudo o que for contrário tem que sair daqui, porque Deus pode ficar bravo.
É uma auto-defesa, porque houve uma deturpação da teologia, que é um Deus de barganha, um Deus que só abençoa a quem o serve, que é exatamente o contrário que diz a bíblia. A bíblia diz que Deus faz vir a chuva sobre justos e sobre injustos, cuida de todos os homens, e infesta todos os homens com seus atributos comunicáveis.
É totalmente contrário do discurso da cultura religiosa brasileira da cultura de barganha, que é um jogo de interesses. Essa adulteração da verdade é o empobrecimento da teologia cristã.
A fé evangélica teve um problema no Brasil: cresceu demais e muito rápido. Nós não tínhamos mais tempo para formar líderes, pastores, nem seminários suficientes. Quando chegou uma teologia capitalista que fomentou essa coisa do empreendedorismo pessoal e individualista, pipocou os ministérios particulares.
Isso é uma somatória, não é uma coisa simples, tem uma complexidade cultural e antropológica. Temos que nos unir, teólogos, antropólogos, sociólogos e pesquisadores para entendermos esse fenômeno e começar,ps a trabalhar.
Eivado e contaminado pelo preconceito, você não analisa nada. O preconceito já chega atacando e destruindo o outro porque ele não pensa como eu, mas o outro está na base da pirâmide. Ele está lá e você não, você vai lá uma vez por mês, e ele está lá em todas as esquinas diariamente, todas as noites, com gente vindo de tudo quanto é canto, com acolhimento, socorro, comida e cultura. Ou você começa a conversar com os caras que ou vai ser derrotado.
Família e Comunidade LGBTT
Pastor Ariovaldo: É uma questão muito complexa para os evangélicos, porque temos uma visão muito clara de uma família heterossexual, isso é muito claro na fé cristã. Temos uma grande tendência à misericórdia, entretanto os cristãos, principalmente os pentecostais, os neopentecostais e mesmo os históricos foram convencidos de que a comunidade LGBT estava tentando interferir na liberdade de culto, em grande parte por causa da PL 122, porque entenderam que ela determinava que um pastor não poderia se recusar a fazer um casamento homoafetivo, e que, se recusasse, seria contra a lei.
Isso nunca iria acontecer, o Brasil é um estado laico, a laicidade é cláusula pétrea, algo assim é inconstitucional, ninguém pode fazer um projeto de lei no Brasil legislando sobre religião nenhuma. A única coisa que está vetada à religião no Brasil é a tentativa de se impor a toda a nação pelo instrumento da lei, que é exatamente o que esse novo movimento neopentecostal ainda não se deu conta.

Pastor Ariovaldo em entrevista à Mídia NINJA. Foto: Mídia NINJA
Resistência Evangélica
Pastor Ariovaldo: No primeiro momento a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito é uma resistência ao golpe, pura e simplesmente. A gente se deu conta de que o que estava sendo processado no Brasil era um golpe de Estado e reagiu em favor da democracia e do respeito ao voto. A acusação contra a presidenta era absolutamente infundada e de que havia uma urdidura qualquer aqui.
No primeiro momento foi resistência, depois acolhimento, porque um grupo considerável de evangélicos começou a ser banido das suas comunidades, por denunciar que nós estávamos diante de um golpe de Estado. A liderança pastoral se bem trabalhada é promotora de avanço, mas se mal trabalhada é promotora de ditadura.
Então o movimento da Frente foi de acolher essa gente, e de dizer que elas não estão sozinhas e que mais gente como elas estão espalhados pelo país, e não abriu mão da fé cristã, e sabe com clareza que estamos diante de um golpe de estado e que temos que reagir.
A outra razão foi a de que nós tínhamos que evoluir para um movimento de Advocacy, porque a gente começou a se dar conta de que os golpistas estavam destruindo o estado social e relativizando a exigibilidade do direito, e toda uma construção de décadas seria solapada.
Sentimos a necessidade de ter uma base para sair às ruas para apoiar a sociedade civil democraticamente organizada e se unir a ela na resistência ao golpe. Hoje estamos evoluindo nessa direção, a gente já conversa com a Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo e de certa forma já somos reconhecidos como frente de resistência entre os evangélicos.
Os evangélicos que tomaram essa posição começaram a achar então seu nicho, o seu lugar de acolhimento e de engajamento. Foi assim que começou a Frente. A gente, claro, sonha com a conversão dos irmãos que foram ludibriados por esse discurso contaminado pela voracidade da direita e da elite branca,
Agora a gente está pensando em como a fazer um movimento dentro de casa, mais pedagógico, mas esse é o passo que estamos pensando em como começar, porque imagina que você é crente, está lá na sua igreja, cresceu lá, aprendeu tudo com o pessoal que está lá, e aí tem um movimento no seu país e você começa a tomar posição contrária, e vê seus líderes em outro sentido. Até aí tudo bem. Mas daqui a pouco seu líder diz que se você pensa diferente dele não pode ficar.
Essa é a situação. Ela nasceu do movimento de pregadores do que a gente chama de Teologia da Missão Integral, que é uma teologia libertadora, com ênfase na teologia do Reino de Deus. O alvo do Reino de Deus é a justiça, que é uma realidade em que todos desfrutam igualmente de tudo que Deus dá e doa, portando uma realidade igualitária.
A gente começou a pregar isso e dizer que a igreja tem que abdicar da teologia da prosperidade, do amor às posses e voltar às práticas da partilha, do desenvolvimento sustentável e comunitário. Nós estamos aqui para sermos relevantes na comunidade e fazermos como Cristo, que se responsabilizava pelos enfermos.
O movimento começou a crescer e se difundiu em grande parte do país. Quando veio o golpe de estado, e junto com o golpe de estado, com toda essa construção do discurso. Um grupo de caras que concorda que a fé cristã é uma fé de partilha não conseguiu discernir que esse discurso era um discurso que era atentava contra tudo o que ele estava assimilando.
Decidimos escrever um manifesto que teve milhares de adesões, mas também tivemos rachaduras. Diante das adesões e das rachaduras, decidimos ir para uma ação mais pragmática, incisiva e engajada, e nasceu a Frente. Hoje temos mais de mil pessoas que aderiram das mais diversas denominações em 10 estados, mas o potencial de crescimento é gigante. Entre simpatizantes e pessoas que interagem com a frente somamosmais de duas mil pessoas.
Graças a Deus está crescendo e isso para gente é ótimo, porque eu sou pastor e sei o que significa para um cara dizer, “Pastor, gosto muito de você, mas não posso concordar com você, eu tenho de ir onde a minha convicção está dizendo que Cristo estaria”. É muito difícil dizer para um pastor que ele está em um lugar onde Cristo não está, é quase impensável. O fato desse grupo está crescendo significa que nós começamos uma bola de neve.
Ninguém quer sair da comunidade. A comunidade é um local de convivência, as pessoas se conhecem, se gostam, se visitam. Não é um encontro que você chega lá em um domingo assiste e vai embora. Você está na casa do irmão e o irmão está na sua casa, você vai com ele ao cinema, vão jogar bola juntos.
Para você sair disso tem que haver uma ruptura muito forte, tem que se sentir agredido para além do seu nível de convivência pacífica e tolerante, em que você diz: “não quero sair, mas você está me obrigando a ir embora”, e o pastor responde, “você tem que ir embora”. Isso é uma agressão, porque é ideológico, e trazer a ideologia para dentro da confissão de fé é uma agressão profunda à fé cristã, e foi o que aconteceu no Brasil, ou está acontecendo. Essas pessoas estão sendo alijadas e foi por isso que a gente criou a Frente, para dizer: “você não está sozinho”.




sábado, 31 de dezembro de 2016

A farsa da modernização trabalhista

A pretexto de tirar o país da crise, empresários buscam alterar a legislação para retirar direitos dos trabalhadores
Colaboração | Brasil de Fato, 
Campanha "Não Vou Pagar o Pato", apoiada pela Fiesp / Lucio Bernardo Jr./ Câmara dos Deputados
Não foi contra a corrupção e o aumento de impostos que os empresários da Fiesp inflaram aquele pato amarelo na Avenida Paulista e em frente ao Congresso Nacional, durante o golpe do impeachment, apoiados pelos batedores de panelas vestidos com a camiseta da CBF.
Os empresários que atropelaram a democracia e financiaram o afastamento da presidenta Dilma possuem outros interesses, cuja fatura já foi devidamente cobrada do presidente ilegítimo Michel Temer. Não existe almoço grátis.
A pretexto de tirar o país da crise, eles buscam alterar a legislação para retirar direitos dos trabalhadores. Direitos, aliás, que nunca foram empecilho para que as empresas crescessem e o Brasil se tornasse uma potência mundial.
Além de patrocinar o golpe, a Fiesp e outras federações empresariais querem tirar proveito da composição mais favorável no Congresso para aprovar projetos que certamente, se apresentados em campanha eleitoral, não renderiam votos. Querem fazer o trabalhador pagar o pato!
O projeto de lei ainda não foi enviado por Temer ao Congresso, mas o que foi anunciado às vésperas do Natal, sem qualquer participação da CUT, já é suficiente para revelar que se trata da maior reforma trabalhista na história do país, pois visa flexibilizar a CLT e a Constituição de 1988. Por exemplo, com o negociado sobre o legislado, em plena recessão, com 12 milhões de desempregados, o governo propõe a precarização do trabalho, o que vai gerar menos renda, menor consumo e produção, comprometendo a retomada do crescimento econômico.
Ao invés de avanço trabalhista, como propagandeiam golpistas de plantão, existem retrocessos inegáveis. Dizer que é uma proposta de modernização na legislação é uma farsa. É uma reforma feita sob medida para empresários gananciosos, que desrespeitam leis e querem se livrar de ações trabalhistas. Segurança jurídica é cumprir a legislação vigente. Legalizar fraudes é roubar direitos dos trabalhadores.

Temos agora mais uma frente de resistência em defesa dos direitos, ao lado do combate à reforma da Previdência que visa tirar da maioria dos trabalhadores o direito de se aposentar. Estamos diante da volta aos tempos da escravidão.
O que o Brasil precisa é de redução dos juros, reformas tributária e política, combate à sonegação, revisão das renúncias fiscais, geração de empregos com trabalho decente, e qualificação dos serviços públicos com valorização dos servidores. O caminho é a retomada da democracia com eleições diretas, já! Nenhum direito a menos!



Claudir Nespolo é metalúrgico e presidente da CUT-RS (presidencia@cutrs.org.br).

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Relações Rússia-EUA: Escalada das Tensões sob Risco de Guerra Nuclear


15.12.2016

Ampla reportagem com importantes entrevistas: Peter Kuznick, diretor do Instituto de Pesquisas Nucleares da Universidade Americana (Washington); Annie Machon, ex-oficial autodemitida do serviço de inteligência britânico MI5; Timo Kivimäki, professor da Faculdade de Relações Internacionais da Universidade de Bath (Inglaterra); e Catherine Shakdam, analista do sítio norte-americano de notícias Mint Press, e diretora-adjunta do Beirut Center for Middle Eastern Studies (Líbano)
por Edu Montesanti

A principal evidência observada nos discursos de Obama, e especialmente no caso da Guerra Civil síria desde o inicio de setembro de 2013 quando os EUA tiveram de recuar diante de uma Rússia que, interferindo imediatamente buscando soluções diplomáticas conforme prevê a Carta das Nações Unidas, impediu mais uma "intervenção humanitária" do governo norte-americano que deseja repetir na Síria a dose iraquiana, líbia e afegã, é que as relações internacionais já não estão completamente rendidas à hegemonia de Washington, pelo contrário: afirma-se um mundo multipolar que Tio Sam tenta, a todo custo, evitar - ainda que seus métodos imperialistas contrariem a própria Constituição (que desautorizam guerras de agressão), e todas as leis internacionais. Em outubro deste ano, Washington manifestou a disposição de impor uma zona de exclusão aérea na Síria, o que fatalmente entraria em choque com as forças russas que atuam em conjunto com as do exército sírio. Novamente, teve de recuar. O Kremlin advertiu: aquilo seria considerado "clara ameaça" aos militares russos, que derrubariam os jatos da OTAN. Segundo os russos, os arquitetos do plano deveriam "considerar seriamente as possíveis consequências" de suas ações, disse então o Major-General Igor Konashenkov. Em ambos os casos, o mundo pareceu na iminência de um confronto entre Estados e Rússia, as maiores potências nucleares do planeta."Podemos atacar [a Síria] quando quisermos. Eu decidi que os Estados Unidos devem tomar ação militar contra alvos do regime sírio". Estas afirmações do presidente norte-americano Barack Obama, proferidas em 31 de agosto de 2013, apontam hoje à mudança que vai além da guinada radical do Prêmio Nobel da Paz de 2009 em relação ao discurso de sua primeira campanha presidencial, em 2008: "Nenhum presidente deve ter o poder de iniciar um ataque, quando não existe ameaça direta contra os Estados Unidos". Obama decepcionou ao adotar, em geral, a mesma "política externa" (eufemismo para crimes internacionais) coercitivo-expansionista de seu antecessor na Casa Branca, George W. Bush, que falava "como o dono do mundo" como dizia Hugo Chávez. E em alguns aspectos, Obama foi além: nestes oito anos na Casa Branca, tem superado, em muito, os ataques com drones de seu antecessor republicano. Ele mesmo havia dito, ainda em 2013: "Alguns, certamente, vão discordar de mim, mas acho que os Estados Unidos são excepcionais".
Essa sucessão de revés norte-americano, somada ao fato de que os EUA - autores das únicas bombas atômicas lançadas na história - e seu sistema excludente e dominador precisam desesperadamente de inimigos a fim de justificar expansão global à base da força militar, tem acentuado a nova Guerra Fria. De acordo com todos os procurados pela reportagem para analisar a escalada das tensões entre Estados Unidos e Rússia cujo epicentro é a Síria, a Guerra Fria hoje - acirrada pela grande mídia ocidental, estende-se da Ásia ao Leste Europeu - é ainda mais perigosa que a do século passado mesmo em seus momentos ais críticos, com o agravante do risco ainda maior de um confronto nuclear em comparação ao período anterior. Diversos outros especialistas e centros de pesquisas internacionais apontam no mesmo sentido hoje. E embora seja muito elogiado pelas promessas de campanha de se aproximar da Rússia e reverter este sombrio cenário global, o presidente norte-americano recentemente eleito, Donald Trump, traz em seu histórico, no contexto de seus discursos, na equipe de governo que tem montado e na própria realidade politicamente histórica de seu país, sérias dúvidas se realmente seguirá por esse caminho. 
Nova (Velha) Guerra Fria: Epicentro e 'Conflitos Congelados'
Pela primeira vez desde a crise dos "euro-foguetes" de 26 de setembro de 1983, o "dia em que o mundo quase morreu" segundo palavras do escritor britânico e ex-editor do jornal The Sunday Times, os próprios EUA e Rússia reconhecem oficialmente o risco de que o atual conflito diplomático possa se transformar em um choque armado. No entanto, pode-se dizer ainda que a Guerra Civil síria é muito mais perigosa que qualquer momento da Guerra Fria, incluindo a famosa Crise de Mísseis de Cuba de 1962. Hoje, o potencial de conflito nas relações russo-americanas é maior do que na segunda metade do século passado.
Em 2011, Obama e Dmitri Anatolievitch  Medvedev, então presidente russo, assinaram o Tratado START 3 a fim de conter o avanço da OTAN e das armas nucleares. Ainda assim, continuou a expansão da NATO, aumentaram as tensões sobre a Síria e teve início a crise na Ucrânia, levando ao agravamento das relações entre ambos os países e à introdução de sanções económicas e políticas contra a Rússia. Em fins de julho de 2014, os EUA e a União Europeia (UE) impuseram diversas sanções que afetam tanto indivíduos quanto empresas e setores inteiros da economia russa., pela crise ucraniana. Já a Rússia decidiu manter as sanções contra os produtores agropecuários da Europa, e elaborou uma lista de mais de 200 pessoas da UE e dos EUA para recusar-lhes de vistos de entrada.
Para o historiador norte-americano Peter Kuznick, diretor do Instituto de Pesquisas Nucleares da Universidade Americana de Washington D.C., Obama adotou uma política confusa, com acertos em importantes questões como no caso do acordo nuclear com o Irã e, por outro lado como nas relações com a Rússia, tem tido uma mentalidade retrógrada. "Ele e outros políticos pensam que podem tratar a Rússia como Bush pai e Bill Clinton fizeram na década de 1990. Levou algum tempo para que percebesse que Vladimir Putin não é Boris Yeltsin. Yeltsin se dispunha a conceder quase tudo em favor dos EUA, incluindo a perigosa expansão da OTAN mesmo que altos funcionários dos EUA tivessem prometido a Gorbachev que não expandiriam a OTAN nem sequer um polegar para o leste europeu. A OTAN agora se expandiu para mais 12 nações, as duas últimas durante a administração de Obama". O acordo estabelecia que, em contrapartida, a então União Soviética retiraria suas 260 mil tropas da Alemanha Oriental para a reunificação da Alemanha, o que efetivamente ocorreu.
Perguntado se vivemos uma nova Guerra Fria, Kuznick é categórico na resposta: Há, sim, uma nova Guerra Fria e a situação é muito perigosa agora. Ela tem sido impulsionada em grande parte por Obama, Clinton e John Kerry, e esta Guerra Fria está ativa há muitos anos". Talvez tenha começado em 2003 com a invasão dos EUA ao Iraque. Talvez, em 2008 com o anúncio de Bush de que desejava expandir a OTAN rumo à Geórgia e à Ucrânia. A Líbia foi um grande golpe. Piorou em 2014 com o golpe em Kiev, seguido pela anexação da Criméia e a guerra civil em Donbass". Para o historiador, esta atual Guerra Fria é ainda mais perigosa que a vivida no século passado devido ao fato que, naquela ocasião, ambas as partes respeitavam determinados limites, o que não ocorre agora.
Annie Machon, ex-oficial do serviço de inteligência britânico MI5, quem se demitiu nos anos de 1990 pelos excessos em espionagem da entidade, acrescenta que a nova Guerra Fria é produzida pelos Estados Unidos, pois o regime de Washington precisa de inimigos "para justificar o enriquecimento de seu complexo militar-industrial que está afundando o país e brutalizando o mundo, enquanto enriquece as oligarquias dos Estados Unidos em detrimento da sociedade civil em todo o mundo". A afirmação de Annie de que aos Estados Unidos interessam uma nova Guerra Fria com os russos, é também ratificada pelo fato de que o documento intitulado "Estratégia Militar Nacional" dos Estados Unidos de 1995, pela primeira vez, explicava o conceito de futuros conflitos com Rússia e China, bem antes que Putin chegasse ao Kremlin. Para a ex-funcionária da inteligência britânica, a atual Guerra Fria começa na Internet. "Agências de espionagem ocidentais perceberam o potencial para o domínio total da internet, criando um sistema de vigilância que a KGB ou Stasi [inteligência da Alemanha Oriental] nem sonhava em ter. Graças a Edward Snowden, estamos começando agora a nos dar conta do horror cheio da vigilância sob a qual vivemos hoje".
Para Catherine Shakdam, analista do sítio norte-americano de notícias Mint Press e diretora-adjunta do Beirut Center for Middle Eastern Studies, no Líbano, é inevitável uma nova Guerra Fria dado que os EUA fazem valer seus interesses econômicos à base da força militar em todo o mundo. "A realidade dos EUA que devemos perceber atua para alinhar nações de acordo com seu próprio paradigma, de modo que todos os povos venham a  reconhecer o país como uma matriz sócio-política excepcional. O excepcionalismo dos Estados Unidos, há muito, transcendeu as leis e o sistema político: tornou-se uma perigosa  forma de fascismo". Para Catherine, o país é hoje muito mais perigoso que em várias décadas. "Antes, sua fome de poder era menor, sua arrogância ainda estava retida, seu excepcionalismo ainda não havia sido institucionalizado".
Kuznick considera que a Guerra Fria hoje tem três principais frentes: a da Urânia e da Crimeia, que para ele não se trata de conflitos esquecidos mas sim "congelados", que devem voltar a ser "quentes" a qualquer momento, e os outros dois ainda mais perigosos, o da própria Síria e o dos Estados bálticos e da Polônia. No primeiro caso, a grande dificuldade em se encontrar solução, segundo o historiador, reside na recusa de Kiev em implementar o Protocolo de Mink que, assinado por lideranças russas, ucranianas e as da República de Donetsk (região ucraniana pró-Rússia, falante da língua russa), visa cessar fogo e descentralizar o poder na região, entre outras importantes medidas em busca de soluções pacíficas. No segundo, vê com preocupação o fato de que Washington insista em fornecer armas a grupos terroristas como a Al-Nusra, afiliada local da Al-Qaeda. "Essas armas acabam parando nas mãos de membros do Estado Islamita e da própria Al-Qaeda", pontua Kuznick. No terceiro caso, ele observa o quanto é preocupante o fato de que a OTAN tenha colocado tropas, tanques e outros equipamentos militares na fronteira da Rússia. "A Rússia respondeu colocando seu sistema anti-mísseis S-400 ,e seu sistema de mísseis nuclear de Iksander em Kaliningrado, um pequeno enclave entre a Polônia e a Lituânia".
Neste sentido, enquanto lideranças da União Europeia recentemente acusaram o Kremlin de ser "assertivo" e que, por esta razão, deveria ser punido através de sanções econômicas, Annie responde: "Sim, a Rússia tem retaliado e realizado tarefas fronteiriças. A liderança deve ser vista como atuante, de outra maneira parecerá fraca e que não protege seu próprio povo. Portanto, a postura russa pode ser 'assertiva', mas não 'agressiva'". Catherine concorda: "O único 'crime' da Rússia tem sido o de resistir aos Estados Unidos, mestres na arte de enganar quando o assunto é guerra!".
Diversos analistas internacionais afirmam que a retórica anti-russa e anti-Putin de hoje por parte de Washington e dos grandes meios de comunicação norte-americanos, ultrapassam o discurso de ódio da era de McCarthy. "No entanto, as máquinas de propaganda habilitadas pelos meios de comunicação dos EUA justificam tudo isso e demonizam outro país, criando mais um novo bicho-papão para justificar ainda mais gastos com 'defesa'", diz Annie. Kuznick destaca que"o New York Times, o Washington Post e as elites de política externa dos Estados Unidos, neoconservadoras e neoliberais, estão pressionando para o confronto com a Rússia".
Bombas Químicas na Síria: Made in USA
A Síria, epicentro da atual Guerra Fria, já era durante os primeiros anos da administração de Bush filho um dos países que faziam parte dos planos de 'intervenção humanitária" Estados Unidos a fim de efetuar uma "troca de regime", o que é proibido pela Convenção de Genebra. O general norte-americano Wesley Clark, comandante da OTAN durante a Guerra de 1999 na Iugoslávia, revelou à rede de notícias norte-americana Democracy Now! que Washington planejava invadir sete países em cinco anos, cuja lista era esta, pela ordem: Iraque, depois a Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e, por fim, o Irã.
Na mesma época, dava-se a infiltração secreta e bilionária da CIA em solo sírio. Segundo cabo secreto liberado por WikiLeaks emitido em abril de 2009 por Maura Connelly, então embaixada dos EUA na Síria, d2005 a 2010 os EUA enviaram, secretamente, 12 bilhões de dólares à oposição síria, e financiou instalação de canal de TV via satélite, transmitindo dentro do país programas contra o regime de Bashar al-Assad. Em determinado trecho, o cabo diz que com o financiamento, "realizou-se várias oficinas para um seleto grupo de ativistas sírios, sobre 'mobilização estratégica'".
Pois a questão mais controversa para se encontrar saídas para o genocídio na Síria hoje é: para derrotar o Estado Islamita é necessário derrubar o presidente Bashar al-Assad? Os Estados Unidos, a OTAN e a mídia predominante garantem que sim, em contraposição à Rússia, a diversos outros países e a analistas internacionais. Pois os fatos a seguir respondem esta questão.
Em maio de 2013, Carla del Ponte, uma das inspetora da ONU na Síria, afirmou que terroristas locais denominados "rebeldes moderados" pelos Estados Unidos e pela OTAN, estavam fazendo uso de armamentos químicos em território sírio. No documento de 11 de dezembro de 2012, intitulado Terrorist Designations of the al-Nusrah Front as an Alias for al-Qa'ida in Iraq, o Departamento de Estado dos Estados Unidos reconhece que os "rebeldes moderados" incluem terroristas da Al-Nusra.
Em 9 de dezembro do mesmo ano, a CNN havia reportado: "Os Estados Unidos e alguns aliados europeus estão usando empreiteiros da defesa para treinar rebeldes sírios na proteção dos estoques de armas químicas na Síria, disseram à CNN um alto oficial dos EUA e vários diplomatas" (reportagem intitulada Sources: U.S. helping underwrite Syrian rebel training on securing chemical weapons).
Posteriormente, diversos jornais internacionais e agências de notícias como a Associated Press divulgariam tal fato, para logo se esquecer. A Associated Press noticiou em 31 de agosto de 2013 que "há muitas brechas na Inteligência dos EUA, incluindo quem ordenou o uso de armas químicas e onde elas podem estar agora". O britânico The Guardian reportou no mesmo dia que "os EUA agem baseados na Inteligência israelense, a qual, supostamente, interceptou comunicações na Síria. Israel é inimigo declarado da Síria, importante peça nos interesses regionais sionistas".
Essas armas são fornecidas secretamente pelos EUA por meio de países como Jordânia, Turquia, Catar e Arábia Saudita, revelada por alguns meios, entre eles o New York Times em 24 de março daquele ano (Arms Airlift to Syria Rebels Expands, With Aid From C.I.A.). Em 8 de dezembro de 2012, o mesmo New York Times já havia publicado que tais "rebeldes" pertencem à Al-Nusra (Syrian Rebels Tied to Al Qaeda Play Key Role in War).
Sobre isto, Catherine lembra que "o fato de que Washington se sente com o direito de se alinhar a esses poderes para acelerar sua agenda no Oriente Médio, demonstra o quanto os EUA têm aumentado sua periculosidade". Para Timo Kivimäki, professor de Relações Internacionais da Universidade de Bath na Inglaterra, deter a alegada "proteção de civis" que, sob pretexto de "efeito colateral" acabou matando até agora mais de 400 mil pessoas na Síria,  depende "unicamente do enfraquecimento da justificativa humanitária do intervencionismo norte-americano".
As acusações das grandes potências ocidentais, de que Assad ataca com armas químicas, nunca foi comprovada.
Possibilidades e Consequências de Confronto Nuclear
Segundo recente estudo do instituto norte-americano Bulletin of the Atomic Scientists divulgado em setembro de 2016, "mais de quatro-quintos dos republicanos e quase metade dos democratas entrevistados disseram que apoiariam a destruição nuclear de Teerã, se o Irã atacar um porta-aviões dos EUA matando seus mais de 2 mil tripulantes. Os entrevistados apoiaram esta ação, mesmo considerando que ela mataria 20 milhões de iranianos". O Bulletin possui em seu sítio na Internet um medidor do risco de ataque nuclear, chamado Doomsday Clock (Cronômetro do Dia do Juízo). Neste ano, o cronômetro apresentou o índice mais grave desde 1953. Risco igual, apenas em 1984. "A probabilidade de catástrofe global é muito alta, e as ações necessárias para reduzir os riscos de desastre devem ser tomadas muito em breve. Essa probabilidade não foi reduzida. O cronômetro marca. O perigo global perturba. Os líderes sábios devem agir imediatamente", diz o indicador.
Para Kuznick concorda que é muito sério o risco de confronto nuclear entre EUA e Rússia, cujas tensões são as piores em 54 anos. "O que Kennedy e Khrushchev aprenderam durante a Crise de Mísseis de Cuba [1962] é que, uma vez que uma crise se desenvolve, ela rapidamente perde o controle. Apesar do fato de que ambos estavam tentando desesperadamente evitar uma guerra nuclear em 1962, eles perceberam que tinham perdido o controle. Não foi um estado de espírito brilhante que nos salvou, mas sim uma pura e estúpida sorte. Eles se moveram, depois disso, para eliminar qualquer conflito que pudesse causar outra crise. Essa foi a iniciativa de Khrushchev, e Kennedy finalmente respondeu positivamente. Existem agora várias situações que poderiam sair do controle. Se isso acontecer, elas podem aumentar sem que ninguém queira. Quem retrocede? Quem aceita a derrota? Putin? Trump? Precisamos desarmar todas as crises antes de chegarem a esse ponto".
Kuznick lembra que das 15.300 armas nucleares no mundo, 95% ou mais são controlados pelos EUA e pela Rússia. É estimado que os russos possuam arsenal maior e mais potente, embora tais valores sejam sempre muito ocultados pelos possuidores de tais armas. O diretor do Instituto de Pesquisas Nucleares da Universidade Americana, quem tem dado palestras e concedido entrevistas em todo o mundo sobre os riscos de guerra nuclear, observa ainda que "a maioria das armas nucleares hoje são de 8 a 80 vezes mais poderosa que a bomba lançada sobre Hiroshima". Kuznick questiona: "O que aconteceria se houvesse uma guerra nuclear relativamente pequena? Sabemos que, se as cidades fossem queimadas, produziriam tanta fumaça que os raios solares seriam bloqueados e os temperaturas cairiam abaixo de zero por muitos anos. Humanos e grandes animais morreriam já que a agricultura seria destroçada. Toda a vida no planeta estaria ameaçada".

"A teoria do inverno nuclear que os cientistas desenvolveram nos anos de 1980 foi atacada e amplamente ridicularizada. Mas os últimos estudos mostram que os cientistas estavam apenas errados em subestimar a enormidade dos danos". Peter Kuznick mostra que a destruição causada por um confronto nuclear é pior do que se pensava na década de 1980. "Embora haja muito menos armas nucleares agora do que as 70 mil que já existiram, há muito mais que o suficiente para causar o inverno nuclear. Esse é o desafio para a nossa espécie. Devemos evitar conflitos e guerras que possam levar à guerra nuclear. Trump entende isso? Espero que sim".
Diante deste cenário, a analista internacional, Catherine Shakdam, afirma: "Eu diria que, enquanto Washington tem feito birras internacionalmente, Moscou tem sido um estrategista brilhante".
Trump e Putin: Perspectivas de Paz?
Putin e Trump tem trocado elogios bem antes da vitória do republicano nas eleições presidenciais de novembro deste ano. No dia 16, pouco mais de uma semana após a vitória, Trump e Putin falaram-se por telefone visando a uma cooperação construtiva durante entre ambos os países nos próximos anos. O senador republicano John McCain, congressista mais financiado pela indústria armamentista, afirmou seguindo a retórica midiática e dos altos escalões da política de seu país: "Devemos depositar tanta fé em declarações como aquelas feitas por um ex-agente da KGB que mergulhou seu país na tirania, assassinou seus oponentes políticos, invadiu seus vizinhos, ameaçou os aliados dos Estados Unidos e tentou minar as eleições americanas". 

Londres afirma que pressionará Trump até que assuma a presidência em janeiro, para que não se aproxime de Putin. A conversa de ambos gerou crise diplomática entre o país europeu e o norte-americano. Políticos locais admitiram que os britânicos travarão conversas "muito difíceis" com o presidente eleito nos próximos meses sobre sua abordagem à Rússia. Londres também critica as considerações de Trump, de que "a OTAN não é um presente que os Estados Unidos possam continuar dando à Europa", afirmando que os aliados europeus deveriam aumentar a participação financeira. O Ministério das Relações Exteriores britânico, Philip Hammond, passará os próximos dois meses tentando convencer os altos responsáveis da equipe de Donald Trump a não priorizar a luta contra os terroristas islamitas na Síria. Em 13 de novembro, em resposta a Trump, o secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, escreveu artigo no jorna britânico The Observer ressaltando a importância da aliança que representa, a fim de fazer frente à "ameaça" russa.
Kuznick diz que concorda com o novo presidente eleito de seu país, que a OTAN tem sobrevivido em cima da inutilidade. "De fato, o mundo teria sido melhor se [Harry] Truman [presidente norte-americano de 1945 a 1953] nunca tivesse criado a OTAN. No mínimo, a OTAN hoje precisa reverter a recente expansão militar, e abandonar os planos de enviar milhares de soldados para os países bálticos". Por outro lado, não surpreende que exatamente o governo britânico, maior aliado de Washington em todas as empreitadas belicistas, seja o maior cliente da indústria armamentista local, de propriedade privada. Conforme estudo recente do Stockholm International Peace Research Institute, o apoio de Londres à produção e ao comércio de armas, através do subsídio direto e indireto, é muito desproporcional em relação à sua importância econômica.
Boas relações dos Estados Unidos com a Rússia dependem de se levantar as sanções econômicas ocidentais contra os russos, retirar as tropas de zonas provocativas (o arco de antigos parceiros soviéticos que se estende dos Estados Bálticos ao Mar Negro), abandonar o escudo antimísseis balísticos no Leste Europeu (Romênia, e construindo atualmente na Polônia), reconhecer o referendo popular da Crimeia, neutralizar a Ucrânia, e estabelecer um grupo de trabalho russo-norte-americano a fim de resolver os conflitos na Ossétia, Transnítria, Abecásia e no Alto Carabaque.
No Oriente Médio, particularmente na Síria, para manter as promessas de se aliar à Rússia no combate aos terroristas (até agora armados também pelos próprios Estados Unidos e aliados) Trump terá que contrariar diversos parceiros importantes, entre eles Israel e Arábia Saudita. O presidente Bashar al-Assad tem se mostrado animado com apoio dos Estados Unidos, prometido por Trump."Está "pronto" a cooperar com o Presidente eleito dos EUA Donald Trump", disse Bouthaina Shaaban, assessora do presidente sírio para a National Public Radio dos Estados Unidos no dia em que Trump foi eleito presidente, em 8 de novembro deste ano.
Trump não tem experiência política, nunca ocupou nenhum cargo político, apresenta inúmeras contradições em seus discursos (cujo contexto possui essência claramente imperialista) e não tem conhecimento de política externa, devendo contar para isso com seus assessores. Os nomes de escolhidos por ele para a equipe de governo são ultraconservadores e defensores de sanções contra a Rússia (como Jeff Sessions, escolhido para ser procurador geral), além daquilo que se costuma denominar de hawks, isto é, defensores da continuação da "política" imperialista dos Estados Unidos apoiando-se no uso da força militar a fim de impor seus interesses econômicos e geoestratégicos. "Ninguém sabe o que Trump vai fazer - e provavelmente, nem ele mesmo", afirma Kuznick. "Ele adotou o uso da tortura. Expressou o desejo de manter a prisão de Guantánamo. Ameaçou não apenas matar terroristas, mas também suas famílias. Tudo isso violaria o direito internacional", completa. 
Annie não vê perspectivas animadoras enquanto o mundo não se afirmar como multipolar, ao que a Rússia tem desempenhado papel fundamental. "As economias dos Estados Unidos e do Reino Unido dependem fortemente do comércio de armas, pelo que requerem um estado de guerra perpétua. O terrorismo internacional, de alguma forma, contribui com isso, mas para a construção de uma figura do inimigo, a Rússia é a melhor aposta histórica, daí a demonização de Putin". Realmente, nada indica que Trump, por inaptidão ou falta de vontade política, mudará este cenário de III Guerra Mundial sob sério risco de ataques nucleares.+

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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Quem Venceu e Quem Perdeu na Melhor Democracia que o Dinheiro Pode Comprar


10.11.2016
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"Se eu tiver que concorrer [à Presidência dos EUA], concorreria pelo Partido Republicano. Eles são o grupo de votantes mais burro do País. Acreditam em qualquer coisa da Fox News. Eu poderia mentir, e eles engoliriam. Aposto que meus números [de votação] seriam fantásticos", Donald J. Trump, outubro de 2015
por Edu Montesanti
Pouco depois da metade das apurações, quando já se desenhava a arrasadora vitória do candidato republicano à Casa Branca, Donald J. Trump, os grandes meios de comunicação norte-americanos, panfletários da candidata Hillary Clinton, claramente perdiam o entusiasmo: podia-se ler em meios como CNN e The New York TimesMercados globais afundaram, moedas  se hostilizam e o ouro sobe, e Mercados em turbulência por causa da forte exibição do Republicano, respectivamente.

Se já não bastassem a profunda ausência de propostas concretas e a baixaria pessoal que marcou (na realidade, acentuou-se) nesta nesta "campanha", as "pesquisas" acabaram também se mostrando rendidas ás leis do mercado na República de Bananas, que se autodenomina "berço da democracia global". Acrescente-se também: se não bastassem as evidências históricas de que o próprio sistema eleitoral, nas últimas décadas computadorizado, é tão vendável quanto a melhor democracia que o dinheiro pode comprar em pleno Império dos aloprados.O mesmo mercado financeiro que aumentou nos últimos meses "doações" aos meios de comunicação e à própria "campanha" de Clinton estão alarmados. Os mesmos meios que ressoavam "pesquisas eleitorais" apontando a ex-secretária de Estado do atual presidente Barack Obama como vencedora com folga durante toda a "campanha presidencial", diziam-se surpresos por vitórias já consolidadas, e previsões de mais vitórias do candidato republicano especialmente nos chamados battleground states, ou estados de batalha campal (aqueles que são historicamente decisivos pelo tamanho do Colégio Eleitoral).
"Trump surpreendeu o mundo!", tem sido as manchetes. Pois quem questiona a "democracia" e o "avanço" do moribundo Tio Sam evidenciados em mais este grotesco "equivoco" das "pesquisas" eleitorais"?
Quem Venceu e Quem Perdeu, Dentro e Fora do Império dos Aloprados
A gravidade da crise política norte-americana, que se atreve a enviar observadores a eleições ao redor do mundo, vai muito além do sexo oral de Monica Lewinsky ao esposo da presidenciável democrata derrotada neste dia 8 de novembro em plena Casa Branca (em hora de serviço), ou das afirmações de Trump que, a contragosto das mulheres (ainda que ilustres desconhecidas), as cumprimenta com um "toque" em suas partes mais íntimas.
A maioria dos próprios norte-americanos se diz avessa a ambos os candidatos, votando em um ou outro muito mais por apatia ao adversário. Quem é o menos nocivo no Império em decadência? Pois é.
Trump traz a seu favor disposição ao dialogo com a historicamente temida Rússia, ao invés de confronto como pretendia a rival e contrariando o terror psicológico provocado pela mídia de imbecilização das massas globais na tentativa de demonizar o presidente russo Vladimir Putin, através das velhas manipulações de sempre que ainda insistem em embaralhar a consciência dos mais desavisados.
Ao menos retoricamente, Trump também promete diminuir gastos militares do Império mais belicista e genocida da história, que retira dos investimentos sociais tais como moradia, saúde e educação para espalhar bases militares e despejar armas aos seus fantoches mundo afora, além de revisão da utilização norte-americana da OTAN a fim de intervir e guerrear internacionalmente. Tudo isso - ao menos retoricamente e o futuro aguarda confirmar ou desmentir o imprevisível magnata - em contraposição à "democrata" dos Estados Unidos da América, quem liderou a invasão à Líbia, apoiou aumento dos confrontos na Síria e, na década de 2000 como senadora, votou a favor da invasão ao Iraque, que, criminosa, sanguinária e apoderadora dos recursos naturais e das empresas locais, contrariou decisão da ONU e de todas as evidências de que Saddam Hussien não possuía bombas de destruição em massa, e que nada o ligava à Al-Qaeda como afirmavam os esquizofrênicos xerifes do planeta, tomadores de decisão de Washington.
Por outro lado, certamente venceram o racismo e do preconceito indiscriminado - evidenciado no combate à imigração (cuja histeria garante construção de grande muro separando os EUA do México, aos muçulmanos na promessa de proibir entrada dos religiosos ao País e ainda aumentar a vigilância e mesmo expulsar os que já habitam entre fronteiras norte-americanas) e ao próprio sexo feminino -, venceu a violência interna através do próprio racismo contra negros, latinos e ativistas por direitos humanos cujo apoio ao uso da repressão amentará a dose de Estado policialesco que impera no Império dos "mais ingênuos" (para dizer o mínimo).
Tal conteúdo de péssimo gosto, que retrata o ódio e a histeria levados à últimas consequência na América "livre e próspera", também contraria o de Clinton - sobre esta, tampouco se sabe o quanto foi sincera dado o contexto de suas "ideias" e as próprias mudanças oportunistas em seus discursos, uma infinidade de contradições, certamente, a fim de ganhar maior eleitorado.
Trump também aposta na diminuição do Estado: promete desfazer o Obamacare (programas de saúde mais acessíveis às classes menos favorecidas); Estado que a adversária, contrariando seu próprio discurso histórico e os interesses de seus principais doadores milionários de campanha como Wall Street, colocava na agenda fortalecer. O que é "curioso", para não dizer mesmo mais uma entre as calamitosas contradições desta "campanha", é o fato que Trump promete atingir os mesquinhos e corruptos interesses das grandes corporações, por exemplo taxando grandes fortunas.
No caso do fortalecimento da indústria bélica que leva a "política" exterior (para se utilizar dos eufemismos midiáticos para crimes internacionais) coercitivo-expansionista norte-americana, há fortes motivos para desconfiar do novo ocupante da Casa Branca: tudo isso também contraria o contexto de seu discurso e de sua personalidade.
Uma coisa parece certa: longe de ser psicopata decidido, frio e calculista como a adversária, abertamente belicista, o tão fanfarrão quanto ambíguo, completamente imprevisível Trump parece ser o homem perfeito para pavimentar o caminho rumo ao declínio ainda maior da hegemonia global dos Estados Unidos - má notícia à classes dominantes locais e as elites-fantoches internacionais, comedoras de migalhas de Tio Sam.
O menos catastrófico venceu, ao menos pela imprevisibilidade de sua agenda em comparação à bem conhecida da opositora. Neste ponto, por ira venceu especialmente considerando as sociedades globais que têm sofrido histórico boicote às democracias locais como o próprio Brasil. E menos catastrófico para os próprios norte-americanos, se considerados aqueles que acreditam que o mundo não precisa da imposição da força em nome da defesa de interesses dos Estados Unidos, como dizia a própria Hillary Clinton: "Sem nós, o mundo não pode fazer nada!". 
Por isso tudo, o mais catastrófico para a tentativa de salvação da hegemonia global dos Estados Unidos pode também ter vencido neste dia 8 de novembro.  Wall Street e seus patéticos porta-vozes da grande mídia de desinformação sabem bem disso. Mas qualquer dos dois seria, em geral, grande golpe à democracia local que precisaria, desesperadamente, desfazer-se do Estado policialesco, da intolerância e do ódio. Eis o grande momento para a afirmação do mundo multipolar, lamentavelmente sobre a acentuação da desgraça democrática norte-americana.


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