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sábado, 25 de março de 2017

Papéis de EUA, Rússia, Turquia, Irã e Israel na Síria: Rumo ao fim da guerra

Manier, Blog
Tradução: Vila Vudu
22.03.2017
 
Papéis de EUA, Rússia, Turquia, Irã e Israel na Síria: Rumo ao fim da guerra. 26235.jpeg














EUA e Rússia têm acordo para pôr fim ao "Estado Islâmico" (ISIS/Daech), como prioridade na Síria, unificando o objetivo sem necessariamente concordar com unir esforços e coordenar o ataque por terra. Ainda assim, esse começo levará ao fim da guerra na Síria e pavimentará o caminho para remover obstáculos essenciais (quer dizer: todos os jihadistas) na estrada do processo de paz.

EUA na Síria e as escolhas difíceis:

Os EUA já enviaram centenas de soldados de forças especiais e tropas de elite para o nordeste da Síria, para manter uma presença militar no país e ajudar os sírios curdos e tribos árabes a combater o ISIS [The Independent, Londres]. As forças dos EUA estão treinando, planejando e fornecendo armas aos seus 'representantes', além de apoio aéreo e monitoramento de inteligência com SIGINTL (inteligência de sinais), para observar e neutralizar líderes do ISIS e formular planos de ataque para a cidade de Raqqa.

Os comandantes militares, general Joseph F. Dunford Jr., comandante do Estado-maior das Forças Conjuntas dos EUA; general Valery V. Gerasimov, comandante do Estado-maior das Forças Conjuntas da Rússia; e seu contraparte turco, general Hulusi Akar reuniram-se semana passada [foto em The Telegraph, Londres] em Antalya e definiram os limites aos quais podem chegar as forças turcas e seus aliados na Síria. Ficou claro que Ancara não poderá participar de nenhum ataque contra Raqqa, e suas forças e aliados se deterão nos limites definidos pelos portões de Al-Bab. Ambos, EUA e Rússia querem evitar um confronto turco-curdo na Síria, particularmente quando o perigo de jihadistas,ISIS e al-Qaeda não está absolutamente controlado, e forças curdas ainda têm papel a cumprir no ataque ao ISIS em torno de Raqqa.É inevitável que os papéis serão de algum modo redistribuídos entre EUA e Rússia para o ataque para derrotar o ISIS em Raqqa. É o que manifesta também no avanço do Exército Árabe Sírio em direção ao território controlado pelo ISIS [Al-Masdar News] no nordeste de Aleppo, para deter o exército turco e aliados e impedir que avancem além da cidade de al-Bab [Reuters], e apertar o cerco em torno de Raqqa, cruzando o Rio Eufrates pela margem ocidental. O Exército Árabe Sírio visa a libertar Deir Hafer e Maskana, e completar seu pleno controle da área rural no nordeste de Aleppo e limpar o setor de qualquer presença do ISIS.
Aspectos da política do presidente Trump para a Síria estão-se materializando, apesar da visível hesitação do governo dos EUA no que tenha a ver com outros planos relacionados a Bilad al-Sham durante a guerra e depois que acabar. Trump quer evitar qualquer confronto militar com a Rússia e reconhece a importância do papel e da presença dos russos na Síria, para combater o terrorismo.
Moscou quer pôr fim à guerra e tratar de cuidar de seus interesses estratégicos fazendo-se presente em campo no Oriente Médio por muitos e muitos anos adiante, graças à janela síria. Também quer eliminar os mais de 9.000 cidadãos russos [Putin à BBCNews] e de outras nacionalidades alistados no ISIS e na al-Qaeda na Síria.
É do interesse de todos os países eliminar terroristas antes que se disseminem e troquem a Síria por outros pontos dos quais possam prosseguir na sua jihad. Essa específica questão orienta a coordenação russo-norte-americana nas ações de contraterrorismo, ainda que os EUA continuem sem saber o que farão depois do fim da guerra.
Até o presente momento, permanecem obscuros os objetivos estratégicos e a intenção das tropas dos EUA estacionadas no norte da Síria. A presença de quatro bases militares norte-americanas e um aeroporto em construção pode ser indicativo de que os norte-americanos não cogitam de sair de lá, pelo menos por hora. Deixar a Síria terá um preço e ficar significa a criação de um enclave sírio curdo semelhante ao Curdistão no Iraque. Também significa que as forças turcas seguirão os EUA e manterão anexados à Turquia mais de 5 mil quilômetros quadrados.
Também está claro que, apesar de Trump estar pondo mais coturnos norte-americanos em solo, ele está combatendo, até agora, com curdos e aliados de tribos árabes. Pode estar tentando assinalar uma "vitória reconhecida" ao derrotar o ISIS (o grupo está retrocedendo em todos os fronts no Iraque e na Síria, privado de qualquer apoio e com graves limitações financeiras), sem ter de mergulhar no atoleiro sírio. Mas é vitória que pode virar derrota, se Trump decidir manter ali tropas dos EUA por tempo indefinido, depois do fim da guerra na Síria.
A questão continua: quem cuidará do assalto à cidade de Raqqa?
20 mil militantes árabes e curdos podem chegar aos portões de Raqqa e participar no cerco. As tribos árabes naquela área rejeitarão que haja curdos no controle de uma cidade árabe. Sobretudo, não há razão para os curdos arriscarem a vida e perderem centenas ou milhares de militantes (morreram centenas de curdos na luta para libertar a cidade de Manbij), para novamente entregarem a cidade de Raqqa às tribos árabes, depois de libertada do peso do ISIS.
Significa que nesse front contra o ISIS Trump terá de enfrentar dilema real, e será forçado a cooperar com a Rússia. Não se exclui coordenação de ataques aéreos russos e norte-americanos, para que os curdos alcancem um lado de Raqqa, e para que o Exército Árabe Sírio assalte o outro lado da cidade - tática semelhante à que foi usada em Mosul (os curdos iraquianos ficaram responsáveis por alcançar o front norte de Mosul, o que contribuiu para cercar o ISIS). Nesse caso, Trump não será o único a colher os louros da vitória; será obrigado a partilhá-los com a Rússia e a trabalhar ao lado de forças sírias - a menos, claro, que decida usar seus próprios soldados (vários milhares) e aceite a perda inevitável de vidas norte-americanas!
Todas essas são escolhas difíceis. Mas a cooperação de forças dos EUA, russas e do Exército Árabe Sírio na Síria é absolutamente inevitável.
O papel da Rússia:
Moscou na guerra síria está atuando como o maestro de uma orquestra, para controlar o ritmo das batalhas e a distribuição do poder sobre o mapa geopolítico do Levante.
A Rússia decidiu que a Síria tornou-se parte de suas estratégias políticas e militares, impedindo a queda de um sistema coerente de governo que protege o Estado e impede que se reproduza ali o cenário líbio, de "estado fracassado". Para essa finalidade e para manter sua influência no Oriente Médio através da janela síria, a Rússia trabalhou em múltiplos fronts, para garantir que aquela influência não fosse tragada pelo atoleiro sírio; que tenha fim a longa guerra na Síria; e que fiquem confirmadas a segurança e a estabilidade de longo prazo de suas bases militares nas fronteiras do Oriente Médio da OTAN - representada pela Turquia.
Moscou mostrou os caninos afiados ao governo Obama, quando os norte-americanos insistiram em proteger a al-Qaeda e outros jihadistas. Os russos usaram todos os tipos do mais moderno armamento (adequado para a guerra síria) para atingir aliados dos EUA e seus grupos "protegidos" na Síria, que naquele momento operavam em íntimo contato com a al-Qaeda e beneficiavam-se de armas modernas, inteligência, dinheiro e logística que lhes chegava dos países da região (Arábia Saudita, Qatar e Turquia). Moscou ofereceu total apoio aéreo ao Exército Árabe Sírio e aliados, e foi cabeça dos principais ataques contra a aliança de jihadistas e grupos de rebeldes sírios. Assim as forças de Damasco alcançaram vitória robusta nas cidades de Aleppo, Palmyra, na área rural de Lattakia e Damasco e em outras partes da Síria.
A Rússia dedicou-se diretamente a atacar toda a qualquer aliança da al-Qaeda e a oposição armada (mesmo que não estivessem incluídas em qualquer conversa de paz), se mostrassem intenção de violar o acordo de cessar-fogo Astana-Cazaquistão, e de se prepararem para futura ofensiva contra o Exército Árabe Sírio. Agora, Moscou está pedindo que Damasco e aliados combatam contra o ISIS, não contra a al-Qaeda, estabelecido sobretudo em torno de Aleppo e na cidade de Idlib, ao norte; exceto se a al-Qaeda insistir em atacar posições do Exército Árabe Sírio.
O Kremlin rejeitou todas as propostas turcas para avançarem em território curdo, porque já não está ocupado pelo ISIS. E impediu a Turquia de avançar um metro que fosse além da cidade de al-Bab. Os russos não confiam nas intenções da Turquia na Síria, apesar da recente visita do presidente Erdogan a Moscou (marcada por aquecimento nas relações entre os dois países, com vistas aos respectivos interesses econômicos). O presidente Putin foi claro com Erdogan sobre sua aliança com o Irã, apesar do terrorismo que Erdogan rege, ao mesmo tempo em que espera obter as bênçãos de Trump.
Ancara pode tentar voltar suas atenções na direção da Rússia, não dos EUA, nas próximas conversações Astana 3, à espera, provavelmente vã, de persuadir Putin a escolher apoiar forças turcas contra os curdos na Síria. O mapa militar já está traçado e nele não há lugar para a Turquia na próxima guerra contra o ISIS - nem Erdogan será autorizado a pôr os pés na área já libertada pelos curdos. Mesmo assim, a influência turca ainda é necessária contra à al-Qaeda, uma vez que há vários grupos de aliados seus em Idlib e em torno da cidade; e por causa da livre passagem pela fronteira e outros benefícios que a Turquia garante à al-Qaeda.
Espera-se que Moscou desempenhe papel importante na futura política síria, impondo um diálogo político e negociações entre rebeldes e Damasco em Astana e Genebra. Os russos estão atentamente evitando repetir a experiência do Afeganistão, e não querem ver-se presos numa longa guerra na Síria. Essa é uma das principais razões pelas quais Putin quer pôr fim àquela guerra, o mais rapidamente possível. Já ninguém cogita de repetir que "Bashar al-Assad deve sair ou enfrentará a 'opção militar'" (como disse o ministro de Relações Exteriores da Arábia Saudita, ABC]. Nem os EUA falam de derrubar o presidente sírio; agora dizem que o destino de Assad será decidido "pelas negociações políticas em curso".
Por outro lado, a Rússia não interferiu no conflito entre Israel e Irã (e seu aliado o Hezbollah Libanês). Israel foi impedida de atacar qualquer força militar que lutava aos lado dos sírios, mas, ao mesmo tempo, os jatos de Telavive ficaram livres para bombardear depósitos iranianos dedicados ao Hezbollah no Líbano ou a "resistência síria" no Golan, uma força que está sendo preparada à margem dos combates, para o pós-guerra na Síria. A Rússia não quer ser parte dessa luta, e deixou que os dois lados acertassem sozinhos as próprias regras de engajamento. O primeiro-ministro Benyamin Netanyahu não conseguiu convencer o presidente Putin e não será autorizado a atacar o Hezbollah e o Irã (Jerusalem Post) na Síria,[1] enquando as duas forças forem aliadas numa mesma coalizão liderada pela Rússia para pôr fim a ISIS e al-Qaeda na Síria. A guerra ainda não acabou, e a al-Qaeda tem grandes contingentes no norte da Síria e outros no sul. O ISIS ainda é capaz de causar dano, com seus vários milhares de combatentes ainda na Síria e no Iraque.
Al-Qaeda, de "Nusra" a "Fateh al-Sham" a "Hay'at Tahrir al-Sham"
Al-Qaeda perdeu "pai e mãe" na Síria e região, quando desabou o apoio popular à 'mudança de regime' na Síria.
O "pai" aparecia sob a forma de vários países regionais (Arábia Saudita e Qatar), que agora cuidam de reduzir as respectivas presenças na Síria, porque a oposição não atingiu o objetivo de derrubar Assad, e porque Rússia e EUA estão impondo regras novas; e fechando a estrada para novos suprimentos de armas ou de dinheiro para grupos terroristas na Síria. O trânsito regular atravessando a Turquia vai sendo interrompido aos poucos, mas sem parar: não há dúvidas de que ISIS e al-Qaeda em breve já não poderão colher os benefícios da linha de suprimento que os manteve vivos por mais de cinco anos.
"O povo é para o movimento, como a água para o peixe:
Movimento que não conte com simpatia do povo perde continuadamente a confiança, até que o movimento desaparece ou esconde-se "
(Osama Bin Laden).[2]
Onde o governo Obama fracassou e não conseguiu separar rebeldes e al-Qaeda, o líder da AQ Abu Mohamad al-Joulani foi bem-sucedido: atacou o grupo rebelde que oferecera proteção à al-Qaeda durante anos, quando o grupo aceitou participar das conversações de Astana para o cessar-fogo. Como se não bastasse, a al-Qaeda também atacou o maior dos grupos rebeldes jihadistas "Ahrar al-Sham", que rejeitara a oferta para ir a Astana, o que o tornou alvo da fúria da Turquia, só porque queria manter-se ao lado da AQ. Nesse ponto, a al-Qaeda perdeu também a 'mãe', na Síria - quando o povo sírio deu-lhe as costas, voltando-se contra o grupo e rejeitando suas ações. Joulani ofereceu duas possibilidades para que os grupos jihadistas escolhessem: ou uniam-se à AQ, ou a AQ os atacará até dizimá-los.
"Você sabe que muitos dos grupos jihadistas que insistiram em começar trabalhando contra o inimigo interno foram contidos e não alcançaram seus objetivos, como a Fraternidade Muçulmana na Síria, a tentativa da Jihad Islâmica no Egito, a condição dos irmãos na Líbia e Argélia"
(Osama Bin Laden).[3]
À luz da determinação de russos e norte-americanos, de combater o terrorismo na Síria, a al-Qaeda tem poucas alternativas:
- Lutar até a morte uma luta sem qualquer possível ganho estratégico;
- Fundir-se com grupos rebeldes, como Ahrar al-Sham, passo muito improvável depois dos eventos recentes, quando AQ atacou rebeldes e Ahrar, para conseguir forças e armas;
- Pedir que todos os combatentes estrangeiros deixem a Síria e partam para outra terraJihadi , o Iêmen ou a Somália. Joulani disse que os Combatentes Estrangeiros constituem pelo menos 1/3 de suas forças.
Portanto, a decisão de russos e norte-americanos de definir como absoluta prioridade eliminar o ISIS pode estar dando tempo suficiente para a al-Qaeda ou preparar-se para sua maior batalha, ou optar por um plano alternativo. Tão logo Idlib tenha de escolher entre render-se ou lutar, acabou-se a etapa de pensar e alguma decisão clara se imporá por ela mesma.
Papel de Arábia Saudita e Qatar na Síria:
Os países do Oriente Médio compreendem hoje que a Rússia planeja permanecer na Síria e usará todo seu poderio para defender os próprios interesses. Também já está claro que os EUA não conseguirão alterar a intenção decisiva dos russos. Assim sendo, todos os atores regionais estão aos poucos retirando-se, sobretudo depois que forças de Damasco recuperaram a cidade de Aleppo.
O enviado da ONU à Síria Stafan De Mistura disse claramente que todas as partes devem desistir da ilusão de alguma possível vitória militar, devem abraçar um cessar-fogo global, discutir a Constituição (tarefa que cabe aos próprios sírios, reconstruir o país e pôr fim ao terrorismo. Não há o que discutir quanto ao destino do presidente sírio: é clara indicação de que a comunidade internacional está preparada para abandonar qualquer grupo que cogite de continuar a lutar na Síria; e que a Síria encaminha-se para o fim da guerra.
Isso implica mensagem muito forte dirigida à Arábia Saudita e ao Qatar, de que não se tolerará o envio de armas e suprimentos a rebeldes ou jihadistas - o que significa o fim do papel destrutivo de países do próprio Oriente Médio. Arábia Saudita e Qatar jamais tiveram estratégia clara para a Síria, exceto o infinito suprimento de dinheito e armas para um processo de 'mudança de regime', sem qualquer planejamento sobre o que fazer depois de o regime ter sido mudado, sem qualquer visão sobre quem desejavam ver como novo governo sírio. Produzir um "estado fracassado", sim, estava na agenda de Arábia Saudita e Qatar, mesmo que esse 'projeto' estivesse levando ao controle os jihadistas, a al-Qaeda e o ISIS, os quais, tão logo se sentissem suficientemente fortes, imediatamente atacariam aqueles dois atores regionais.
O Irã:
A mídia ferveu com especulações de que a Rússia pediria que o Irã e o Hezbollah saíssem da Síria, como parte do acordo para o processo de paz. Puro delírio desejante, porque Moscou jamais discutiu a questão com o Irã e aliados. A especulação é ainda mais irrealista, se se considera que só o governo sírio ou o presidente al-Assad poderiam pedir que seus aliados deixassem o país.
Além do mais, al-Qaeda e ISIS ainda mantêm dezenas de milhares de militantes em campo, e só o Exército Árabe Sírio, sem o apoio da Força Aérea Russa, pode não ser suficiente para varrê-los todos, do território sírio. AQ e ISIS contam a seu favor com ideologia forte, um poder que não existe na doutrina dos soldados profissionais. Assim sendo, é necessário contar com ideologia similar, para enfrentar toda aquela determinação.
O Irã veio à Síria em 1982, respondendo ao chamado do que adiante viria a ser conhecido como o Hezbollah Libanês. Também foi Assad quem pediu ajuda ao Hezbollah em 2013, quando a situação se tornou crítica.[4] Síria, Irã e o Hezbollah formam o que se conhece como "Eixo da Resistência", no qual a Síria cumpriu seu papel garantindo armamento avançado ao Hezbollah em 2006 (e continua a fazer o mesmo, até hoje) para enfrentar Israel. E a Síria não precisará de dezenas de milhares de outros aliados, quando a guerra acabar. Os aliados da Síria devem deixar o país tão rapidamente quando chegaram quando Assad decidir que saiam, sem dever qualquer consideração ao que desejem Moscou ou Washington.
Hoje, é óbvio que a estratégia iraniana derrotou a estratégia de Arábia Saudita e and Qatar na Síria e conseguiu manter na Síria governo amistoso. O Irã também tem papel positivo na reaproximação entre Bagdá e Damasco, que resultou em colaboração militar e bombardeio aéreo de alvos no ISIS na Síria, pela Força Aérea do Iraque.
Sobretudo, há uma discussão em andamento entre Damasco e Teerã para construir uma base naval iraniana no porto e terminal petroleiro de Banias, a 55km de Latakia. Se se concretizar  (e exigirá poucos anos, até se tornar operacional) será forte estímulo para a depauperada economia síria. Ao longo dos anos de guerra, o Irã forneceu petróleo à Síria, principalmente quando os jihadistas do ISIS e Al-Qaeda controlavam os poços de petróleo no nordeste do país.
Hezbollah:
Os militantes do Hezbollah estão presentes por toda a geografia da Síria, apoiando o Exército Árabe Sírio em sua guerra contra rebeldes e jihadistas. O Hezbollah suspeita que Israel e os EUA, financiados pela Arábia Saudita, estejam preparando mais um round de violência contra o grupo libanês no Líbano. Mas todos os fatos sugerem o contrário:
  • se Trump busca alguma vitória espetacular, oISISé muito mais fraco e mais facilmente derrotável;
  • As prioridades dos EUA na Síria são degradar e conter oISISe talvez também a al-Qaeda. Para alcançar esse objetivo, as forças do Hezbollah ainda são indispensáveis. Sobretudo, o resultado de uma guerra contra o Hezbollah - muito mais poderoso que oISIS- não é absolutamente garantido. As dezenas de milhares de foguetes e mísseis do Hezbollah podem provocar estrago real em Israel.
  • Se Israel declara guerra contra o Hezbollah, a Síria seráplayerdireto e ativo, e arrastará com ela a Rússia. O destino do regime sírio está conectado à vitória na guerra. E Assad não hesitará para se posicionar ao lado dos que lutaram aliados ao Exército Árabe Sírio durante anos. A Rússia não quererá ver o colapso de seus planos na Síria, quando está tão próxima de alcançar seus objetivos.
  • O front interno israelense não está preparado para enfrentar guerra destrutiva com o Hezbollah, que tem sob seu controle de 150 mil a 200 mil foguetes e mísseis, segundo fontes em Israel.
  • A experiência de combate que o Hezbollah acumulou na Síria fez do grupo adversário poderoso frente à infantaria de Israel. Na Síria, oHezbollah teve de combater batalha diferente contra seus mais ferozes inimigos (ISISe al-Qaeda), e mostrou que não foge diante do perigo e não teme a morte -, bem diferente, nisso, do exército israelense.
Enquanto a guerra na Síria era alimentada e ativada, Israel sentia-se segura. Agora que o fim da guerra se aproxima, Israel está preocupada, com razão. O Hezbollah precisou só de uns poucos dias para ocupar os 600 quilômetros quadrados da cidade de al-Quseyr em 2013. De quanto tempo precisará para ocupar os 2.380 quilômetros quadrados da Galileia, numa situação de guerra? A guerra na Síria foi altamente proveitosa e benéfica para o Hezbollah, apesar dos seus 1.600 mártires que caíram em combate.
A Síria parece simultaneamente próxima e ainda longe do fim da guerra. Ainda há batalhas militares (contra o ISIS e a al-Qaeda) e políticas (pela Constituição, pelo cessar-fogo, pela reconstrução) a serem lutadas. Mesmo assim, e mesmo que Damasco ainda tenha de encarar algum dia a ocupação norte-americana e turca de território sírio, há claros sinais de que se encaminha o fim da guerra na Síria.*****
[1] Sobre isso ver "Israel tenta cobrar uma libra de carne humana (mas ouve 'nyet', de resposta)", 12/3/2017, MK Bhadrakumar, Indian Punchline, trad. no Blog do Alok [NTs].
[2] Osama Bin Laden, carta a Abu Basir, Gabinete do Diretor Nacional de Inteligência, Comandode Integração de Inteligência, Prateleira dos Livros de Bin Laden, cartas confiscadas do prédio usado para esconder Osama Bin Laden em Abbottabad, durante o raid, liberada em janeiro de 2017, p.2.+
[3] Osama Bin Laden letter to Abu Basir, Gabinete do Diretor Nacional de Inteligência, Comando de Integração de Inteligência, Prateleira dos Livros de Bin Laden, cartas confiscadas do prédio usado para esconder Osama Bin Laden em Abbottabad, durante o raid, liberada em janeiro de 2017, p.2.
[4] Sobre isso ver "Para o Irã é essencial salvar a Síria", 16/3/2017, Ali Hashem, Al-Monitortraduzido em Blog do Alok [NTs].
- See more at: http://port.pravda.ru/russa/22-03-2017/42919-eua_russia-0/#sthash.d81DdSvm.dpuf

sexta-feira, 24 de março de 2017

Cuba receberá primeiro lote com 300 novos Lada


16 de março de 2017 Anna Tretiak, especial para Gazeta Russa
Maior fabricante de carros da Rússia retornará à ilha caribenha após 12 anos fora do mercado local. Especialista duvida, porém, do potencial de vendas no país.
Lada Vesta é um dos dois primeiros modelos que serão exportados ao país latino-americano Foto:Reuters
O principal fabricante de automóveis da Rússia, a AvtoVAZ, planeja entregar um lote com cerca de 300 carros Lada para Cuba. O fornecimento é esperado para maio.
“A última vez que vendemos carros novos para Cuba foi há 12 anos, então, a questão agora é como podemos voltar a esse mercado”, disse o presidente da AvtoVAZ, Nicolas Maure, em uma apresentação para empresas de transporte em Havana.
Por enquanto, serão comercializados apenas os modelos Vesta e Largus.
“A AvtoVAZ está interessada no mercado automotivo cubano porque há grande demanda; além disso, a proibição de importar carros novos foi levantada há pouco tempo”, explica Evguêni Ieskov, editor-chefe do site AvtoBusinessReview.
Durante meio século, a maior parte do mercado local de automóveis consistiu em carros norte-americanos e soviéticos de segunda mão. “Os cubanos conhecem carros russos, e isso conta a favor da AvtoVAZ”, acrescenta Ieskov.
Os primeiros modelos a chegarem à ilha estarão disponíveis para empresas de táxi, aluguel e turismo.
Se o teste for bem sucedido, e Cuba decidir comprar mais carros russos, um novo contrato deverá ser assinado já em 2018.
“O volume inicial de carros novos [300 unidades] parece ótimo para começar, e tudo dependerá dos resultados das vendas”, diz o editor.
De acordo com o site Lada.ru, o preço de varejo de um Lada Largus no mercado russo é, em média, 600 mil rublos (US$ 10.000), e de um Lada Vesta, 640 mil rublos (US$ 11.000). Os salários em Cuba são, entretanto, mais baixos do que na Rússia, e poucos residentes poderão ter recursos para investir em um carro novo.
“Em longo prazo, Cuba poderia se tornar um mercado importante para a AvtoVAZ, mas não o principal, porque os volumes de vendas não devem atender às necessidades de exportação do fabricante”, avalia Ieskov.
Em 2013, as autoridades cubanas cancelaram a proibição de importações e vendas de carros novos no varejo, em vigor desde 1959. Até então, os cubanos só podiam comprar e vender carros usados – e somente entre si. Embora os países da ex-URSS tenham fornecido alguns veículos durante o período anterior, essas importações eram basicamente de caminhões, ambulâncias ou e carros de bombeiros.

Armas supersônicas podem aproximar Rússia e China

15 de março de 2017 Rakesh Krishnan Simha, especial para Gazeta Russa
À medida que Washington aumenta sua presença militar na Ásia, Pequim demonstra cada vez mais interesse pelas tecnologias hipersônicas russas.
HGVs podem assumir velocidade de 11.000 km/h e realizar manobras aerodinâmicas Foto:Global Look Press
A corrida para construir o sistema de entrega nuclear mais rápido do mundo – o veículo hipersônico de deslize (HGV, na sigla em inglês) – ganhou impulso. Embora os Estados Unidos estejam claramente na liderança, a Rússia e a China não estão muito atrás, e há, inclusive, relatos sugerindo que Moscou – em uma reprise da amigável década de 1950 – estaria influenciando o programa de HGV de Pequim.
Em um novo estudo intitulado “Factoring Russia in the US-Chinese Equation on Hypersonic Glide Vehicles”, o Instituto da Paz de Estocolmo (Sipri) afirma que a Rússia estaria moldando a pesquisa chinesa relacionada a hipersônicos.
Considerando a crescente interseção entre as posturas estratégicas da China e da Rússia e as percepções de ameaças – particularmente na Ásia-Pacífico – é possível que haja, de fato, alguma correlação entre os programas hipersônicos dos países.
De acordo com o Sipri, dois sinais apontam para a integração Rússia-China nessa esfera. Em primeiro lugar, existem 872 textos em língua chinesa sobre HGVs que mencionam a Rússia – o que representa 52% do número total de artigos chineses sobre veículos hipersônicos de deslize. Além disso, o teste de voo do sistema hipersônico chinês DF-ZF em abril de 2016 ocorreu poucos dias depois que a Rússia realizou seu próprio teste com um sistema semelhante.
“Isso é mais do que mera coincidência. A revisão de mais de uma década da literatura chinesa sobre tecnologias hipersônicas e de deslize revela um interesse crescente e pesquisa do programa de veículos hipersônicos da Rússia”, diz o relatório do órgão.
“A combinação dessa tendência com as preocupações comuns de ambos os países sobre as defesas antimísseis dos EUA sugere que é hora de levar em conta como o programa de ‘ataque-relâmpago global’ da Rússia pode estar influenciando as decisões da China em relação às cargas convencionais e nucleares, aos alvos e ao alcance de seu próprio HGV”, continua o documento.
O especialista em política de defesa da Universidade de Ciência Política e Direito de Xangai, He Qisong, concorda que as avaliações da Rússia possam influenciar as decisões de Pequim sobre os objetivos e o alcance de seu próprio veículo hipersônico.
“Os testes hipersônicos conduzidos pela China e pela Rússia tentam causar uma ameaça aos Estados Unidos, que planejam montar um sistema de defesa antimísseis na Coreia do Sul”, disse Qisong ao jornal “South China Morning Post”.
“A China não tem outra opção, especialmente porque os EUA tomaram uma série de medidas provocativas para se envolverem nas disputas territoriais da China com outros países asiáticos no Mar da China Meridional”, acrescentou o professor. “O HGV é, até então, uma das armas de propriedade chinesa que poderiam romper o sistema de mísseis antibalísticos do Exército dos Estados Unidos (THAAD).”
Coalizão necessária
Ao contrário dos mísseis balísticos que viajam ao longo de um trajeto parabólico – e previsível – até o alvo, os HGVs deslizam através da estratosfera após o lançamento. A fase de deslizamento permite que os veículos assumam velocidades de 11.000 km/h ou mais e manobrem de forma aerodinâmica para escapar de interceptações.
Os HGVs são armas altamente desestabilizadoras porque, ao contrário dos mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs), que podem levar até 30 minutos para atingir seus alvos do outro lado do mundo, os veículos hipersônicos podem fazer o mesmo trajeto em uma fração desse tempo.
Os EUA são atualmente líder em tecnologia de armas baseadas no espaço. O programa norte-americano de veículo hipersônico de deslize é um componente-chave de seu sistema de ‘ataque-relâmpago global’, cujo objetivo é permitir ao país atingir qualquer alvo no mundo em menos de 60 minutos.
Embora, atualmente, não haja mais do que uma colaboração acadêmica ou teórica básica entre a Rússia e a China no setor, as ações de Washington estão aproximando os dois países. Uma dessas medidas é a implantação de uma de uma bateria americana THAAD na Coreia do Sul.
Segundo Víktor Poznikhir, tenente-general do Estado-Maior das Forças Armadas russas, Moscou e Pequim acreditam que essa nova geração de armas poderia fornecer aos EUA não só a possibilidade de perpetrar um ataque devastador sobre seus territórios, como também interceptar mísseis chineses e russos.
Para contrapor o potencial dos EUA, os dois países já realizaram em 2016 exercícios conjuntos para evitar ataques de mísseis com o uso de um sistema de defesa próximo a suas fronteiras. Espera-se que uma manobra semelhante seja conduzida este ano.
Mudança de postura
Pequim se mantém na defensiva: a maioria de seus ICBMs estão em silos, enquanto as ogivas nucleares ficam separadas de seus núcleos físseis e sistemas de entrega. Isso é feito para evitar alarde no Pentágono e uma desnecessária corrida de mísseis.
No entanto, a China está gradualmente mudando de abordagem. Acreditava-se que suas armas hipersônicas deslizantes seriam montadas sobre os mísseis DF-21D como uma tipo de sistema A2AD, mas tudo indica que o país está emulando a postura russa de que Moscou deve ser capaz de lançar um primeiro ataque contra alvos nos EUA.
“Se o objetivo final dos sistemas chineses estiver alinhado com o da Rússia e tiver por objetivo derrotar as defesas antimísseis dos EUA, isso sugere uma carga nuclear. Essa tendência poderia alterar não apenas as definições de ‘resposta rápida’ e ‘defesa ativa’, mas também a essência da postura da China de ‘não fazer o primeiro ataque’”, sugere o documento publicado pelo Sipri.
Fato é que as armas nucleares estão no centro da percepção russa e chinesa de poder. Os avanços dos EUA em relação a HGVs ​​têm o potencial de criar uma janela de vulnerabilidade que coloca em risco os arsenais de Moscou e Pequim, bem como seus sistemas de comando, controle e comunicação. É justamente nesse contexto que não se pode excluir uma convergência de interesses entre os dois no setor hipersônico.
Rakesh Krishnan Simha é um jornalista e observador internacional baseado na Nova Zelândia. Também integra o conselho consultivo do Diplomacia Moderna, um portal europeu voltado à discussão de assuntos internacionais.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Irã, China e Rússia: O grande triângulo estratégico que está modificando o mundo


17.03.2017 | Fonte de informações: 

Pravda.ru

 Irã, China e Rússia: O grande triângulo estratégico que está modificando o mundo. 26206.jpeg
Federico Pieraccini - Strategic Culture
Tradução: btpsilveira

Importantes mudanças mundiais estão acontecendo dentro do grande triângulo estratégico em curso entre Rússia China e Irã, enquanto o resto do mundo continua perdendo tempo tentando decifrar ou assimilar a nova presidência Trump.
Distante do atual caos nos Estados Unidos, grandes acontecimentos estão acontecendo a pleno vapor, com Irã, Rússia e China coordenados em uma série de movimentos significativos para o futuro do continente eurasiano. Com uma população total de mais de cinco bilhões de almas, que constituem cerca de dois terços da população do planeta, o futuro da humanidade passa obrigatoriamente através dessa área imensa. Apontando para uma mudança de grande magnitude na ordem mundial que se baseia atualmente na Europa e nos Estados Unidos, em direção a mundo multipolar monitorado pela China, Irã e Rússia, os estados eurasianos estão se preparando para um papel de liderança no desenvolvimento desse enorme continente. Como parte dos desafios que deverão enfrentar os líderes desses países multipolares, os eventos prejudiciais que se originam na ordem mundial Euro/Atlântica construída depois da Segunda Grande Guerra mundial terão que ser encarados.
Analisando os principais projetos do continente eurasiano, uma coisa que se destaca é o papel da China, Rússia e Irã nas diferentes áreas sob sua influência. O projeto One Belt, One Road (um cinturão, uma estrada, também conhecido como OBOR - ntrad) que foi proposto por Pequim (com investimento de cerca de um trilhão de dólares dentro dos próximos dez anos); a União Econômica Eurasiana (Eurasian Economic Union - ntrad) proposta por Moscou para integrar as antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central e o papel do Irã no Oriente Médio como esforço para trazer de volta a estabilidade de prosperidade para a região - são todos de importância crucial para o desenvolvimento eurasiano. Claro que possuindo uma perspectiva multipolar, todos estes projetos convergem totalmente, e requerem desenvolvimento conjunto e coordenado para que resultem realmente no sucesso do continente eurasiano.
Neste sentido, as principais áreas de grande agitação incluem aquelas sob a esfera de influência destes principais países eurasianos. As principais concentrações de turbulência podem ser facilmente identificadas no Oriente Médio e no Norte da África, isso para não fazer menção ao Golfo Pérsico, onde a guerra criminosa da Arábia Saudita contra o Iêmen continua sem tréguas há 24 meses.
Uma fonte de cooperação: o terrorismo islâmico
A fonte comum de instabilidade no continente eurasiano resulta do terrorismo islâmico, utilizado pelas grandes potências ocidentais como um instrumento de divisão e conflito. Assim, o papel de sauditas e turcos, alimentando e espalhando o Wahhabismo, bem como a Irmandade Muçulmana significa que eles estão diretamente contra a estabilidade pretendida pela esfera Russa, Chinesa e Iraniana. Previsivelmente, o papel de Teerã na região se tornou decisivo, com o apoio total, financeiramente da China e militarmente da Rússia. Hoje, o Irã é o país no qual a influência sino/russa se manifesta em todos os níveis, na região e além dela. A deterioração da situação militar na Síria, no entanto, obrigou Moscou a intervir militarmente para ajudar à Síria, aliado regional mais importante do Irã na região, mas ao mesmo tempo providenciou uma desculpa perfeita para conter a influência da Arábia Saudita e da Turquia na região. O Crescente Xiita em ascensão, que liga Irã, Iraque, Síria e Líbano, é de importância vital para quem quer estabelecer ou manter a influência de um mundo multipolar na região. Até agora, Washington tem sido capaz de impor seus assuntos através de ações levadas a termo por Arábia Saudita e Turquia, seus submissos ativos regionais, cujos interesses se alinham sempre com os mesmos de elementos sionistas, neoconservadores e Wahhabis que existem no estado profundo dos Estados Unidos. Washington claramente quer manter e preservar a ordem mundial de um mundo unipolar através de seus aliados regionais, com o objetivo de se manter o principal árbitro nas questões do Oriente Médio, uma área que reflete a instabilidade desde o Golfo Pérsico até o Norte da África.
Não é de se admirar, portanto, que Moscou tente manter relações especiais com o governo egípcio que sucedeu a Irmandade Muçulmana de Morsi, com a intenção de conter a influência saudita/(norte)americana no Cairo e no Norte da África, especialmente na sequência da destruição da Líbia de Kaddafi. Os sinais emitidos por Al Sisi são encorajadores e representam um exemplo claro de um mundo multipolar em construção. O Egito aceitou financiamento saudita durante a época de elevada tensão entre Doha eRIAD, o que representava um movimento de fraqueza óbvia do Cairo, especialmente depois do golpe que removeu Morsi, o qual era apoiado pelo Catar, Turquia e Estados Unidos. Hoje, o Egito está feliz em cooperar com Moscou, especialmente no que diz respeito a armamentos (a compra de dois navios Mistral da França representa futuras compras de armamento de Moscou; da mesma forma, é o caso de desenvolvimento de fontes de energia nuclear, que seria alternativa para a importação massiva de petróleo da Arábia Saudita, a qual foi suspensa por Riad, logo depois do início do diálogo entre Cairo e Damasco). O Egito trabalha para estabelecer uma posição estratégica na região, cada vez mais influenciada pelo triângulo russo/sino/iraniano (conversações sobre a inclusão do Egito na EAEU [União Econômica Euroasiática- ntrad] Estão em andamento já há algum tempo), embora não descarte completamente a contribuição econômica da Arábia Saudita e dos Estados Unidos. Por outro lado, a influência de Turquia e Irã é rejeitada e declarada hostil, principalmente por causa do contínuo relacionamento com a Irmandade Muçulmana, uma das maiores preocupações do país no Sinai.
A estabilidade no Oriente Médio e no Norte da África depende de uma expansão do papel mediador do Irã; de importantes contribuições financeiras da República Popular da China (pense um pouco na situação da Líbia e na reconstrução da Síria); e de uma cooperação militar da Federação Russa. A importância de focar nestas áreas jamais será superestimada, já que representam os primeiros passos na direção de uma reestruturação mais fundamental da nova ordem mundial em partes diferentes da massa continental eurasiana.
Síria, um caso de estudo: o Cáucaso, a Ásia Central e AfPak (região do Afeganistão/Paquistão - ntrad)
Ao prestarmos atenção nos perigos que representam um Islã politizado e o extremismo wahhabista, sempre vêm à mente três áreas do continente eurasiano para considerações: as antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central; a fronteira sempre problemática entre Afeganistão e Paquistão e a área do Cáucaso. Netas áreas, a cooperação entre China, Rússia e Irã está mais uma vez desempenhando um papel chave, e estamos presenciando muitas tentativas de mediação de tensões e conflitos que podem ser potencialmente catastróficos para o desenrolar de projetos econômicos e de desenvolvimento. Os ataques terroristas que aconteceram recentemente na cidade de Lahore, capital da província do Punjab no Paquistão, mostram a verdadeira face da cooperação entre Afeganistão e Paquistão, decididamente encorajada pela China e pela Rússia. Logo após uma breve troca de tiros entre militares dos dois países na fronteira comum, um acordo foi arranjado entre Kabul e Islamabad para reduzir as tensões e fazer progredir conversações de paz fortemente apoiadas por Moscou e Pequim. A necessidade de interromper a escalada de tensões entre Paquistão e Afeganistão é um dos principais objetivos de Rússia e China, naquela que é uma das regiões mais instáveis do mundo e pela qual deverão transitar os futuros projetos liderados pela aliança Irã/Rússia/China. A instabilidade dessa área em particular depende em grande parte do papel que Índia, Arábia Saudita, Estados Unidos e Turquia pretendem desempenhar para colocar um contrapeso ao papel do trio eurasiano. Assim, não é por coincidência que Moscou está tentando várias formas de entendimento complexo com cada um desses atores. A Arábia Saudita e a Turquia são os centros de controle e administração do terrorismo internacional, e a influência negativa deRIAD e Ancara é sentida desde a Líbia e a Síria, até o Paquistão, Afeganistão e o Cáucaso. Aqui, o fator determinante não é exercido pelos Estados Unidos, embora Washington não tenha nenhum pejo em encorajar quaisquer esforços destrutivos diretos contra a integração do continente eurasiano.
No papel representado por Rússia e Turquia, o primeiro ponto positivo de entendimento parece ser a Síria, e pode, caso seja encontrado um resultado positivo para o conflito, representar a pedra fundamental sobre a qual se poderá construir uma cooperação estratégica em áreas como AfPak e Ásia Central. Neste sentido, os incentivos do corredor energético representado pelos oleogasodutos, nos quais o principal empreendedor é a Rússia, não pode ser subestimado, como é o caso, por exemplo, do Turkish Stream. Também no Cáucaso, que é outra área de instabilidade acentuada, o papel desempenhado pela Rússia e Irã foi decisivo durante os quatro dias da Guerra em Nagorno-Karabakh.
Em relação ao campo energético, é certamente um grande fator de interesse para a Arábia Saudita, que está há tempos observando a diversificação do setor energético com atenção, em especial a energia nuclear civil, campo no qual a Rússia tem posição de liderança mundial. Moscou diversifica seu jogo, valorizando suas cartas ao prover cooperação econômica e militar com seus parceiros mais próximos (Irã, China, Síria, Cazaquistão, Tajiquistão e Quirguistão); fortalecendo as alianças bilaterais através de incentivo na forma de cooperação em sistemas de armamentos (Índia, Paquistão e Egito); e cooperação no setor de energia com países tão distantes como Catar, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, na intenção de abrir brechas que lhe permitam alcançar acordos geopolíticos mais amplos.
Toda a estratégia das três principais nações eurasianas dirige-se primariamente para a consolidação de suas fronteiras nacionais com os países das regiões mais turbulentas. A recente viagem de Putin ao Cazaquistão, Tajiquistão e Quirguistão tinha o objetivo de fortalecer a parte mais vulnerável da Federação Russa, ao eliminar a ameaça e influência do terrorismo islâmico radical, permitindo a expansão da cooperação econômica na União Eurasiana. Embora não seja uma tarefa fácil, há o encorajamento da perspectiva de ganhos de parte a parte para as nações envolvidas, com acordos bilaterais mutuamente vantajosos, em vez de imposições. De certa forma, é o que a República Popular da China também está tentando fazer na Ásia Central, uma das regiões mais voláteis do planeta, esforçando-se para estabelecer acordos e expandir o conjunto de seus recursos energéticos, como ocorreu recentemente no Turcomenistão. Outro exemplo da redução de ameaças no continente eurasiano pode ser visto na província chinesa de Xinjiang, onde a China colocou seus esforços um uma área onde existe a necessidade urgente de minimizar as tensões políticas e sociais, caso se queira evitar o sucesso de esforços estrangeiros para desestabilizar a China, a partir principalmente da Turquia, através de seu aliado Turcomenistão.
Neste contexto, o papel mais difícil de entender é o desempenhado pela Índia, encaixotada dentro de sentimentos contrários a Paquistão e China, bem como uma antiga sujeição aos Estados Unidos e uma boa amizade histórica com a Federação Russa. As ações de Nova Deli nesta parte do mundo são as mais difíceis de decifrar, vendo-se os inescrutáveis esforços da Índia para avançar na direção de seus objetivos estratégicos. A importância estratégica de Moscou e Teerã é essencial para equilibrar a posição da Índia. Historicamente, a Índia é um parceiro importante da URSS, e em anos mais recentes o exército hindu continua a desenvolver projetos militares importantes com a Federação Russa. Mais recentemente, a República Islâmico da Irã contribuiu muito para a diversificação dos suprimentos de energia da Índia. O fato de que Teerã é um parceiro privilegiado do Pequim mostra como se parece um mundo multipolar, e também ajuda a equilibrar o sentimento de antipatia contra a China, profundamente enraizado no establishment hindu. Neste caso, Rússia e Irã estão claramente desempenhando papel de mediadores entre China e Índia. O fato de que tanto a Índia quanto a China são compradores importantes de gás do Irã, bem como o fato de que tanto China quanto Índia estão cooperando com a Rússia em termos militares, ajuda a compreender como Moscou e Teerã estão pouco a pouco eliminando Washington e amenizando o sentimento contra a China na Índia.
As tensões dos fás de Washington na Índia estão sendo cada vez mais afastadas, não apenas porque trazem dificuldades para a necessidade do país de criar um ambiente confiável de desenvolvimento sem excluir qualquer oportunidade de parceria. O maior e mais difícil desafio é o processo de paz entre Afeganistão e Paquistão, o qual vai contra os interesses geopolíticos da Índia na região, nesta questão alinhados com a posição (norte)americana. Para amenizar a situação, é necessária grande cooperação conjunta. A SCO - Shanghai Cooperation Organization (Organização de Cooperação de Xangai - ntrad) tentará construir um quadro dentro do qual se discuta e se encontre acordos possíveis entre todos os participantes envolvidos. Mais uma vez, uma conversação regional entre poderes eurasianos não incluirá a velha ordem mundial composta por Europa e Estados Unidos.
Não se pode declarar que o esforço exercido por China e Rússia na Ásia Central são exagerados por causa da importância dos recursos energéticos potencialmente disponíveis. Isso para não mencionar a futura possível cooperação entre duas áreas econômicas gigantescas, como a União Europeia e Ásia, que deverá fluir através da Ásia Central, transformando a União Eurasiana em uma ponte dourada ligando a Europa e a Ásia. Até agora, a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO - Collective Security Treaty Organization - ntrad) se portou apenas como uma organização nos moldes da SCO, que tem a tendência de priorizar a luta contra o terrorismo; mas cada vez mais estás sendo vista como um lugar disponível para conversações, uma organização que pode oferecer um caminho para a cooperação econômica e que oferece prioritariamente as bases para a estabilização territorial da região. Nesta área do planeta, a prosperidade econômica depende profundamente da estabilidade militar e política.
Resumindo, trata-se do principal desafio que a Rússia, China e Irã estão encarando, nomeadamente, arrefecer as zonas quentes (Oriente Médio, Golfo Pérsico e Norte da África) através da erradicação do problema do terrorismo, e evitar nova escalada de tensões em regiões vizinhas que se situam dentro de sua esfera de influência (o Cáucaso, Afeganistão/Paquistão e Ásia Central). Assim, estarão evitando uma desestabilização destrutiva.
Somente quando um quadro internacional estiver implementado firmemente nestas áreas, estabilizando-a totalmente, será possível uma grande e abrangente cooperação econômica que terá significação histórica. Neste sentido, a admissão da Índia e do Paquistão na SCO foi o primeiro passo de um acordo complicado arranjado pela China e Rússia e que cobriu uma dúzia de nações. A mesma situação será observada com a futura entrada do Irã na SCO, com o objetivo específico de aumentar a influência da SCO em áreas instáveis como o Golfo Pérsico me o Oriente Médio. Da mesma forma as discussões relativas à entrada do Egito na SCO como membro efetivo é destinada a expandir a influência positiva da SCO em lugares tão longínquos quanto o Norte da África.
As fundações desenvolvimentistas que Rússia, China e Irã estão arquitetando destinam-se a tornar irrelevantes os Estados Unidos em seus esforços para esticar seu momento unipolar. Ao combinar o desenvolvimento econômico e demográfico dessas áreas com a população do continente eurasiano, é fácil entender como, no espaço de duas décadas, se tanto, a área que vai de Portugal à China e que inclui dúzias de nações em todas as latitudes e longitudes e que se estende desde as regiões Árticas da Federação Russa até as praias da Índia no Golfo Pérsico, deverá ser o pivô central a girar a economia mundial. A combinação dos corredores de mar e terra fará do continente eurasiano o coração do mundo, não apenas em termos de produção mas também em negócios e consumo, devido ao crescimento da riqueza da classe média dessas áreas do planeta.
Numa visão estratégica que historicamente incorporou décadas de planejamento, Teerã, Moscou e Pequim conseguiram compreender totalmente que a estabilidade é o objetivo principal a ser conquistado para promover desenvolvimento econômico efetivo que beneficie todas s nações envolvidas. Na Ásia, a ASEAN (Association of Southeast Asian Nations - Associação das Nações do Sudeste Asiático - ntrad) começou a agir de forma menos beligerante com a China. Embora Pequim continue a assegurar seus interesses estratégicos com a construção e militarização de ilhas artificiais no Mar do Sul da China. O presidente Duterte, das Filipinas, parece ter compreendido os ganhos potenciais de uma cooperação multipolar, e a recente guinada estratégica efetuada por seu país está mostrando o caminho para todas as nações asiáticas, especialmente na sequência do fracasso do projeto de livre comércio denominado TPP (Trans-Pacific Partnership), abandonado por Washington, que o projetara. Pertence ao futuro o papel que deverá ser representado pelo velho continente europeu, desde que continua amarrado à estratégia (norte)americana, focada em isolar a Rússia, China e Irã e comprometido em promover a hegemonia de Washington a qualquer custo, mesmo que isso envolve uma espécie de suicídio econômico, como pode ser visto nas sanções contra a Federação Russa motivadas pelos acontecimentos na Ucrânia.
Embora não se possa predizer, não se pode da mesma forma excluir uma mudança de direção pela Europa, como resultado direto das políticas fracassadas de se ajoelhar perante os interesses dos Estados Unidos em detrimento dos interesses dos cidadãos europeus. Não é por acaso que muitos partidos europeus, considerados populistas ou nacionalistas, têm mesmo a intenção de se voltar para o oriente, na busca de uma cooperação que por longo tempo vem sendo evitada pela estupidez das elites ocidentais.
China, Rússia e Irã parecem ter mesmo a intenção de acelerar o projeto de uma cooperação global e não mostram disposição para fechar a porta a qualquer ator de fora da Eurásia, especialmente em um mundo cada vez mais globalizado e interconectado. Dê uma olhada nas ligações da República Popular da China com projetos de desenvolvimento em países da América Latina para entender como a dimensão ciclópica dessa vontade de incluir todas as nações sem exceção. É sobre essa fundação que a nova ordem mundial multipolar está assentada, e cedo ou tarde as elites europeias e (norte)americanas terão que entender. O dilema que a elite ocidental tem uma dificuldade enorme de assimilar é o fato de que seu papel será diminuído na futura ordem mundial: os Estados Unidos e a Europa não mais serão protagonistas, e sim atores em pé de igualdade no elenco internacional. A ordem multipolar está a todo o vapor, deixando sem tempo e em crise o mundo unipolar. Como reagirão europeus e (norte)americanos? Aceitarão o papel de fazer parte do elenco em pé de igualdade ou rejeitarão a mudança histórica inexorável, relegando-se ao papel de um doloroso processo de aniquilação e esquecimento?
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