Translate

sábado, 22 de julho de 2017

Princípios Elementares de Filosofia - CAPÍTULO III


O MATERIALISMO
I. — Por que devemos estudar o materialismo?
II. — De onde vem o materialismo?
III. — Como e por que evoluiu o materialismo.
IV. — Quais são os princípios e os argumentos materialistas?
1. É a matéria que produz o espírito.
2. A matéria existe fora de todo o espírito.
3. A ciência, pela experiência, permite-nos conhecer as coisas.

I. — Por que devemos estudar o materialismo?
Vimos que, para este problema: «Quais são as relações entre o ser e o pensamento?», não pode haver mais que duas respostas, opostas e contraditórias.
Estudamos, no capítulo precedente, a resposta idealista e os argumentos apresentados para defender a filosofia idealista.
Torna-se necessário examinar, agora, a segunda resposta a este problema fundamental (problema, repetimo-lo, que se encontra na base de toda a filosofia), e ver quais são os argumentos que o materialismo emprega em sua defesa. Tanto mais que o materialismo é, para nós, uma filosofia muito importante, visto que é a do marxismo.
É, pois, por consequência, indispensável conhecer bem o materialismo. Indispensável, sobretudo porque as concepções desta filosofia são muito mal conhecidas e foram falsificadas. Indispensável, também, porque, pela nossa educação, pela instrução que recebemos - seja primária ou mais desenvolvida -, pelos nossos hábitos de viver e de raciocinar, estamos todos, mais ou menos, sem darmos conta disso, impregnados de
concepções idealistas. (Veremos, aliás, noutros capítulos, vários exemplos desta afirmação, e porque é assim.)
É, portanto, uma necessidade absoluta para os que querem estudar o marxismo conhecer a sua tese: o materialismo.

II. — De onde vem o materialismo?
Definimos, de uma maneira geral, a filosofia como um esforço para explicar o mundo, o universo. Mas sabemos que, segundo o estado dos conhecimentos humanos, as suas explicações mudaram, e que duas atitudes, no decurso da história da  humanidade, foram adotadas para explicar o mundo: uma, anticientífica, fazendo apelo a um ou a espíritos superiores, a forças sobrenaturais; a outra, científica, fundamentando-se em fatos e experiências.
Uma destas concepções é defendida pelos filósofos idealistas; a outra, pelos materialistas.
É por isso que, desde o início destas aulas, dissemos que a primeira ideia que se devia fazer do materialismo é que esta filosofia representa a «explicação científica do universo».
Se o idealismo nasceu da ignorância dos homens - e veremos como a ignorância foi mantida, sustentada na história das sociedades por forças culturais e políticas que partilhavam as concepções idealistas -, o materialismo nasceu da luta das ciências contra a ignorância ou obscurantismo.
É por isso que esta filosofia foi tão combatida, e é também por isso que, sob a forma moderna (o materialismo dialético), é pouco conhecida, senão ignorada ou desconhecida do mundo universitário oficial.

III. — Como e por que evoluiu o materialismo.
Contrariamente ao que pretendem os que combatem esta filosofia e dizem que tal doutrina não evoluiu desde há vinte séculos, a história do materialismo mostra-nos neste qualquer coisa de vivo e sempre em movimento.
No decorrer dos séculos, os conhecimentos científicos dos homens progrediram. No princípio da história do pensamento, na antiguidade grega, os conhecimentos científicos eram quase nulos, e os primeiros sábios, ao mesmo tempo, filósofos, porque, em tal época, a filosofia e as ciências nascentes formavam um todo, sendo
uma o prolongamento das outras.
Em seguida, precisando as ciências a explicação dos fenômenos do mundo, precisões que incomodavam e estavam mesmo em contradição com os dogmas das filosofias idealistas, nasceu um conflito entre a filosofia e as ciências.
Estando estas em contradição com a filosofia oficial dessa época, tornara-se necessário que se separassem.
Por isso, o melhor que têm a fazer é libertar-se, urgentemente, da balbúrdia filosófica, e deixar aos filósofos as vastas hipóteses de tomar contacto com problemas restritos, os que estão maduros para uma solução próxima.
Então, faz-se esta distinção entre as ciências... e a filosofia11.
Mas o materialismo, nascido com as ciências, ligado a elas e delas dependendo, progrediu, evoluiu com elas, para chegar, com o materialismo moderno, o de Marx e Engels, a reunir, de novo, a ciência e a filosofia no materialismo dialético.
Estudaremos, mais adiante, esta história e tal evolução, que estão ligadas ao progresso da civilização, mas constatamos já, e é o que é muito importante fixar, que o materialismo e as ciências não estão separados, e que aquele está absolutamente dependente da ciência.
Resta-nos estabelecer e definir as bases do materialismo, comuns a todas as filosofias que, sob aspectos diferentes, se valem dele.

IV. — Quais são os princípios e os argumentos materialistas?
Para responder, torna-se necessário voltar ao problema fundamental da filosofia, o das relações entre o ser e o pensamento: qual deles é o principal?
Os materialistas afirmam, em primeiro lugar, que há uma determinada relação entre o ser e o pensamento, entre a matéria e o espírito. Para eles, é o ser, a matéria que é a realidade primeira, e o espírito a realidade segunda, posterior, dependente da matéria.
Portanto, para os materialistas, não foi o espírito ou Deus que criaram o mundo e a matéria, mas foi o mundo, a matéria, a natureza que criaram o espírito:
O espírito não é mais que o produto superior da matéria12.
É por isso que, se retomarmos a pergunta que pusemos no segundo capítulo: «Por que pensa o homem?», os materialistas respondem que o homem pensa porque tem um cérebro e porque o pensamento é o seu produto.
Para eles, não pode haver pensamento sem matéria, sem corpo.
A nossa consciência e o nosso pensamento, tão transcendentes que nos parecem, são apenas produtos de um órgão material, corporal, o cérebro13.
Por consequência, para os materialistas, a matéria, o ser, são qualquer coisa de real, existindo fora do nosso pensamento, e não precisam dele, nem do espírito para existir. De igual modo, este, não podendo existir sem matéria, não tem alma imortal e independente do corpo.
Contrariamente ao que dizem os idealistas, as coisas que nos cercam existem independentemente de nós: são elas que nos dão os nossos pensamentos, e as nossas ideias são apenas o reflexo das coisas no cérebro.
Por esse motivo, perante o segundo aspecto do problema das relações do ser e do pensamento: - Que relação há entre as nossas ideias sobre o mundo que nos rodeia e o próprio mundo? O nosso pensamento está em condições de conhecer o mundo real? Podemos, nas nossas concepções deste, reproduzir uma imagem fiel da realidade? Tal problema é chamado, em linguagem filosófica, a questão da
identidade do pensamento e do ser14.- os materialistas afirmam: sim! podemos conhecer o mundo, e as ideias que fazemos dele são cada vez mais exatas, uma vez que podemos estudá-lo com o (auxílio das ciências, que estas nos
provam continuamente, pela experiência, que as coisas que nos rodeiam têm, na verdade, uma realidade que lhes é própria, independente de nós, e que os homens podem já, em parte, reproduzir, criar artificialmente tais coisas.
Resumindo, diremos, pois, que os materialistas, face ao problema fundamental da filosofia, afirmam:
1. Que é a matéria que produz o espírito , e que, cientificamente, nunca se viu este sem aquela.
2. Que a matéria existe fora de todo o espírito e não precisa deste para existir, tendo uma existência que lhe é particular, e que, por consequência, contrariamente ao que dizem os idealistas, não são as nossas ideias que criam as coisas, mas, pelo contrário, são estas que nos dão aquelas.
3. Que somos capazes de conhecer o mundo , que as ideias que fazemos da matéria e do mundo são cada vez mais exatas, uma vez que, com o auxílio das ciências, 'podemos precisar o que já conhecemos e descobrir o que ignoramos.

LEITURAS

11 René MAUHLANC: a Vida operária, 25 de Novembro de 1935.
12 Friedrich ENGELS: «Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã», Obras Escolhidas de Marx e Engels em Três Tomos, Ed. Avante 1985, Tomo III, pp 375-421
13 Friedrich ENGELS: «Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã», Obras Escolhidas de Marx e Engels em TrêsTomos, Ed. Avante 1985, Tomo III, pp 375-421
14 Friedrich ENGELS: «Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã», Obras Escolhidas de Marx e Engels em Três Tomos, Ed. Avante 1985, Tomo III, pp 375-421


sexta-feira, 21 de julho de 2017

Princípios Elementares de Filosofia - CAPITULO II



Princípios Elementares de Filosofia

O IDEALISMO
I. — Idealismo moral e idealismo filosófico.
II. — Por que devemos estudar o idealismo de Berkeley?
III. — O idealismo de Berkeley.
IV. — Conseqüências dos raciocínios «idealistas».
V. — Os argumentos idealistas:
1. O espírito cria a matéria.
2. O mundo não existe fora do nosso pensamento.
3. São as nossas ideias que criam as coisas.

I. — Idealismo moral e idealismo filosófico.
Denunciamos a confusão criada pela linguagem corrente, no que se refere ao materialismo. A mesma confusão encontra-se a propósito do idealismo.
Não é necessário confundir, com efeito, o idealismo moral e o idealismo filosófico.
O idealismo moral consiste em devotar-se a uma causa, a um ideal. A história do movimento operário internacional ensina-nos que um número incalculável de revolucionários, de marxistas, se devotaram até ao sacrifício da sua vida por um ideal moral, e, portanto, eram os adversários deste outro idealismo que se chama idealismo filosófico.
O idealismo filosófico é uma doutrina que tem por base a explicação do mundo pelo espírito.
É a doutrina que responde à pergunta fundamental da filosofia, dizendo: «é o pensamento o elemento principal, o mais importante, o primeiro». E o idealismo afirmando a importância primeira do pensamento, afirma que é ele que produz o ser, ou, por outras palavras, que: «é o espírito que produz a matéria».
Tal é a primeira forma do idealismo; encontrou o seu pleno desenvolvimento nas religiões, afirmando que Deus, «espírito puro», era o criador da matéria.
A religião, que pretendeu, e pretende ainda estar fora das discussões filosóficas, é, na realidade, pelo contrário, a representação direta e lógica da filosofia idealista.
Ora, a ciência, intervindo no decurso dos séculos, em breve se tornou necessária para explicar a matéria, o mundo, as coisas, de outro modo que apenas por Deus. Porque, desde o século XVI, a ciência começou a explicar os fenômenos da natureza sem ter em conta Deus e abstendo-se da hipótese da criação.
Para melhor combater estas explicações científicas, materialistas e ateias, foi preciso, pois, levar mais longe o idealismo e negar a existência mesmo da matéria.
Foi ao que se dedicou, no princípio do século XVIII, um bispo inglês, Berkeley, considerado o pai do idealismo.

II. — Por que devemos estudar o idealismo de Berkeley?
O propósito do seu sistema filosófico será, pois destruir o materialismo, tentar demonstrar-nos que a substância material não existe. Escreveu, no prefácio do seu livro «Diálogos de Hylas e de Philonoüs»: Se estes princípios são aceites e olhados como verdadeiros, resulta que o ateísmo e o cepticismo são, com o mesmo golpe, completamente abatidos, as perguntas obscuras esclarecidas, dificuldades quase insolúveis resolvidas, e os homens que se compraziam com os paradoxos reduzidos ao senso comum4.
Deste modo, para Berkeley, o que é verdadeiro é que a matéria não existe, e é paradoxal pretender o contrário.
Vamos ver como se agarra a isso, para tal nos demonstrar. Mas, penso que não é inútil insistir com os que querem estudar filosofia, para que tomem a teoria de Berkeley em muito grande consideração.
Bem sei que as teses de Berkeley farão sorrir alguns, mas é preciso não esquecer que vivemos no século XXI e beneficiamos de todos os estudos do passado. E veremos, aliás, quando estudarmos o materialismo e a sua história, que os filósofos materialistas de outrora fazem também, por vezes, sorrir.
É preciso, portanto, saber que Diderot, que foi, antes de Marx e Engels, o maior dos pensadores materialistas, ligava ao sistema de Berkeley alguma importância, uma vez que o descreve como um sistema que, para vergonha do espírito humano e da filosofia, é o mais difícil de combater, embora o mais absurdo de todos5!
O próprio Lenine consagrou numerosas páginas à filosofia de Berkeley, e escreveu:
[Os filósofos idealistas mais modernos] não produziram contra os materialistas qualquer...argumento que não possamos encontrar no bispo Berkeley6.
Enfim, eis a apreciação sobre o imaterialismo de Berkeley, dada por um manual de história da filosofia utilizado nos liceus:
Teoria ainda imperfeita, sem dúvida, mas admirável, e que deve destruir para sempre, nos espíritos filosóficos, a crença na existência de uma substância material7.
Eis a importância para toda a gente - embora por razões diferentes, como vos foi mostrado por estas citações - de tal raciocínio filosófico.

III. — O idealismo de Berkeley.
O propósito deste sistema consiste, pois, em demonstrar que a matéria não existe. Berkeley dizia:
A matéria não é o que acreditamos, pensando que existe fora do nosso espírito. Pensamos que as coisas existem, porque as vemos, porque lhes tocamos; é porque nos dão essas sensações que acreditamos na sua existência.
Mas as nossas sensações não são mais do que ideias que temos no nosso espírito. Pelo que os objetos que percebemos através dos nossos sentidos mais não são do que ideias, e as ideias não podem existir fora do nosso espírito.
Para Berkeley, as coisas existem; não nega as suas natureza e existência, mas afirma que não existem a não ser sob a forma de sensações que no-las fazem conhecer, e conclui que as nossas sensações e os objetos são  apenas uma e a mesma coisa.
As coisas existem, é certo, mas em nós, diz ele, no nosso espírito, e não têm qualquer realidade fora do espírito.
Concebemos as coisas com o auxílio da vista; percebemos, com a ajuda do tacto; o olfato esclarece-nos sobre o cheiro; o paladar, sobre o gosto; o ouvido, sobre os sons. Estas diversas sensações dão-nos ideias, que, combinadas umas com as outras, nos levam a dar-lhes um nome comum e a considerá-las como objetos.
Observamos, por exemplo, uma cor, um gosto, um cheiro, uma forma, uma consistência determinadas... Reconhecemos esse conjunto como um objeto que designamos com a palavra maçã.
Outras combinações de sensações dão-nos outras coleções de ideias [que] constituem aquilo a que chamamos a pedra, a árvore, o livro e os outros objetos sensíveis8,
Somos, pois, vítimas de ilusões quando pensamos conhecer, como exteriores, o mundo e as coisas, uma vez que tudo isso não existe a não ser no nosso espírito.
No seu livro «Diálogos de Hylas e Philonoüs», Berkeley demonstra-nos esta tese da seguinte maneira:
Não é um absurdo pensar que uma mesma coisa, num dado momento, possa ser diferente? Por exemplo, quente e fria, no mesmo instante? Imaginai, então, que uma das vossas mãos esteja quente, a outra fria, e que ambas sejam mergulhadas, ao mesmo tempo, num recipiente cheio de água, a uma temperatura
intermédia: não parecerá a água quente, a uma das mãos, e fria, à outra9?
Visto que é absurdo acreditar que uma coisa, ao mesmo tempo, possa ser, em si mesma, diferente, devemos concluir que tal coisa não existe a não ser no nosso espírito.
Que faz, pois, Berkeley, no seu método de raciocínio e de discussão? Despoja os objetos, as coisas de todas as suas propriedades.
«Dizeis que os objetos existem, porque têm uma cor, um cheiro, um sabor, porque são grandes ou pequenos, leves ou pesados? Vou demonstrar-vos que tudo isso não existe nos objetos, mas, sim, no nosso espírito.
«Eis um retalho de tecido: dizeis-me que é vermelho. Será isso exato? Pensais que o vermelho faz mesmo parte do tecido. Será isso certo? Sabeis que há animais que têm olhos diferentes dos nossos e não verão vermelho esse tecido; de igual modo, um homem tendo icterícia vê-lo-á amarelo! Então, de que cor é? Isso depende, dizeis? O vermelho não está, portanto, no tecido, mas no olhar, em nós.
«Dizeis que este tecido é leve? Deixai-o cair sobre uma formiga, e ela encontrá-lo-á, certamente, pesado.
Quem tem, portanto, razão? Pensais que é quente? Se estiverdes com febre, encontrá-lo-eis frio! Então, é quente ou frio?
«Numa palavra, se as mesmas coisas podem ser, a um tempo, para uns, vermelhas, pesadas, quentes, e, para outros, exatamente o contrário, é porque somos vítimas de ilusões, e porque as coisas não existem para além do nosso espírito».
Retirando todas as suas propriedades aos objetos, chegamos, por conseguinte, a dizer que estes não existem a não ser no nosso pensamento, isto é, que a matéria é uma ideia.
Já, antes de Berkeley, os filósofos gregos diziam, e isso era exato, que certas qualidades, como o sabor, o som, não estavam mesmo nas coisas, mas em nós.
Porém, o que há de novo na teoria de Berkeley é, justamente, que ele alarga esta advertência a toda a espécie de objetos.
Os filósofos gregos tinham, com efeito, estabelecido entre as qualidades das coisas a seguinte distinção: Por um lado, as qualidades primeiras, isto é, as que estão nos objetos, como o peso, o tamanho, a resistência, etc..
Por outro, as qualidades segundas, isto é, as que estão em nós, como o cheiro, o sabor, o calor, etc.
Ora, Berkeley aplica às qualidades primeiras a mesma tese que às segundas: todas as qualidades, todas as propriedades não estão nos objetos, mas em nós.
Se olhamos o sol, vêmo-lo redondo, achatado, vermelho. A ciência ensina-nos que nos enganamos, que não é achatado, não é vermelho. Faremos, portanto, a abstração, com o auxílio da ciência, de certas falsas propriedades que atribuímos ao sol, mas sem, com isso, concluir que não existe! É, pois, a uma tal conclusão que Berkeley conduz.
Berkeley não teve certamente culpa, mostrando que a distinção dos antigos não resistia à análise científica, mas comete uma falta de raciocínio, um sofisma, tirando de tais observações consequências que não comportam. Mostra, com efeito, que as qualidades das coisas não são exatamente como no-las mostram os
nossos sentidos, isto é, que estes nos enganam e deformam a realidade material, e, daí, conclui, imediatamente, que a realidade material não existe.

IV. — Conseqüências dos raciocínios idealistas.
Sendo a tese: «Nada existe senão no nosso espírito», devemos concluir que o mundo exterior não existe.
Levando este raciocínio até ao fim, chegaríamos a dizer: «Sou o único a existir, uma vez que não conheço os outros homens a não ser pelas minhas ideias, que eles não são para mim, como objetos materiais, mais do que coleções de ideias». É o que em filosofia se chama o solipsismo (que quer dizer apenas eu).
Berkeley, diz-nos Lenine no seu livro já citado, defende-se instintivamente contra a acusação de sustentar
uma tal teoria. Constata-se mesmo que o solipsismo, forma extrema do idealismo, não foi defendido por nenhum filósofo.
É por isso que devemos interessar-nos, discutindo com os idealistas, em tomar bem patente que os raciocínios que negam efetivamente a matéria, para serem lógicos e conseqüentes, devem chegar a esse extremo absurdo que é o solipsismo.

V. — Os argumentos idealistas.
Dedicamos a resumir, o mais simplesmente possível, a teoria de Berkeley, porque foi quem mais abertamente expôs o que é o idealismo filosófico.
Mas é certo que, para melhor compreender estes raciocínios, que são novos para nós, é agora indispensável tomá-los muito a serio e fazer um esforço intelectual. Porquê?
Porque veremos em seguida que, se o idealismo se apresenta de uma maneira mais oculta e a coberto de palavras e expressões novas, todas as filosofias idealistas mais não fazem do que retomar os argumentos do «velho Berkeley» (Lenine).
Porque veremos também quanto a filosofia idealista, que dominou, e domina ainda a história oficial da filosofia, trazendo consigo um método de pensamento de que estamos impregnados, soube penetrar-nos, apesar de uma educação inteiramente laica.
Sendo os raciocínios do bispo Berkeley a base dos argumentos de todas as filosofias idealistas, vamos, pois, para resumir este capítulo, procurar esclarecer quais são, e o que tentam demonstrar-nos.
1. O espírito cria a matéria .
Esta, sabemo-lo, a resposta idealista à pergunta fundamental da filosofia; é a primeira forma do idealismo, que se reflete nas diferentes religiões, onde se afirma que o espírito criou o mundo.
Tal afirmação pode ter dois sentidos:
Ou Deus criou o mundo, e este existe, realmente à nossa volta. É o idealismo comum às teologias10.
Ou Deus criou a ilusão do mundo, dando-nos ideias que não correspondem a qualquer realidade material. É o «idealismo imaterialista» de Berkeley, que nos quer provar que o espírito é a única realidade, sendo a matéria um produto fabricado por este.
É por isso que os idealistas afirmam que:
2. O mundo não existe fora do nosso pensamento.
É o que Berkeley quer demonstrar-nos, afirmando que cometemos um erro, atribuindo às coisas propriedades e qualidades que lhes seriam próprias, quando estas existem apenas no nosso espírito.
Para os idealistas, os bancos e as mesas existem, na verdade, mas somente no nosso pensamento, e não em redor de nós, por que
3. São as nossas ideias que criam as coisas .
Por outras palavras, as coisas são o reflexo do nosso pensamento. Com efeito, uma vez que é o espírito que cria a ilusão da matéria, uma vez que é aquele que dá ao nosso pensamento a ideia desta, uma vez que as sensações que experimentamos perante as coisas não provêm destas em si, mas, unicamente, do nosso pensamento, a origem da realidade do mundo e das coisas é o nosso pensamento, e, por consequência, tudo o que nos rodeia não existe fora do nosso espírito, e não pode ser senão o reflexo do nosso pensamento. Mas, como, para Berkeley, o nosso espírito seria incapaz de criar, só por si, estas ideias, e, por outro lado, não faz o que quer (como aconteceria se ele próprio as criasse), é preciso admitir que é um outro espírito mais poderoso o criador. É, pois, Deus que cria o nosso espírito e nos impõe todas as ideias do mundo que aí encontramos.
Eis as principais teses sobre as quais repousam as doutrinas idealistas e as repostas que dão à pergunta fundamental da filosofia. É altura de ver agora qual a resposta da filosofia materialista à mesma pergunta e aos problemas suscitados por estas teses.

(8 LÉNINE: «Materialismo e empirocriticismo», p. 18 Ed. Avante 1982)
(9 LÉNINE: «Materialismo e empirocriticismo» Ed. Avante 1982)

BERKELEY: “Diálogos de Hylas e Philonoüs”
LÉNINE: “Materialismo e empirocriticismo”, pp. 17 a 29
10 A teologia é a «ciência» (!) que se ocupa de Deus e das coisas divinas.
Próximo capitulo: O MATERIALISMO

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Princípios Elementares de Filosofia - Capítulo I




O PROBLEMA FUNDAMENTAL DA FILOSOFIA

I— Duas maneiras de explicar o mundo.
Vimos que a filosofia é o «estudo dos problemas mais gerais», e que tem por fim explicar o mundo, a natureza, o homem.
Se abrirmos um manual de filosofia burguesa, ficamos espantados com o grande número de filosofias diversas que aí se encontram. São designadas por múltiplas palavras, mais ou menos complicadas, terminando em «ismo»: o criticismo, o evolucionismo, o intelectualismo, etc., e esta quantidade cria a confusão. A burguesia, aliás, nada fez para esclarecer a situação, antes pelo contrário. Mas, podemos já fazer
a triagem de todos esses sistemas, e distinguir duas grandes correntes, duas concepções nitidamente opostas:
a) A concepção científica.
b) A concepção não científica do mundo.

II. — A matéria e o espírito.
Quando os filósofos tentaram explicar o mundo, a natureza, o homem, tudo o que nos rodeia, enfim, foram levados a fazer distinções. Nós próprios constatamos que há coisas, objetos que são materiais, que vemos e tocamos. Depois, outras realidades que não vemos e não podemos tocar, nem medir, como as nossas ideias.
Classificamos, portanto, assim as coisas: por um lado, as que são materiais; por outro, as que não o são, e pertencem ao domínio do espírito, do pensamento, das ideias.
Foi assim que os filósofos se encontraram em presença da matéria e do espírito.

III. — O que é a matéria? O que é o espírito?
Acabamos de ver, de uma maneira geral, como se foi levado a classificar as coisas, conforme são matéria ou espírito.
Mas devemos precisar que esta distinção se faz sob diversas formas e com palavras diferentes.
É assim que, em vez de falar do espírito, falamos, afinal, do pensamento, das nossas ideias, da nossa consciência, da alma, assim como, falando da natureza, do mundo, da terra, do ser, é da matéria que se trata.
Assim, ainda quando Engels, no seu livro «Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã», fala do ser e do pensamento, o ser é a matéria; o pensamento, o espírito.
Para definir o que é o pensamento ou o espírito, o ser ou a matéria, diremos:
O pensamento é a ideia que fazemos das coisas; algumas dessas ideias vêm-nos ordinariamente das nossas sensações e correspondem a objetos materiais; outras, como as de Deus, filosofia, infinito, do próprio pensamento, não correspondem a objetos materiais. O essencial, que devemos fixar aqui, é que temos ideias, pensamentos, sentimentos, porque vemos e sentimos.
A matéria ou o ser é o que as nossas sensações e percepções nos mostram e apresentam, é, duma maneira geral, tudo o que nos rodeia, a que se chama o «mundo exterior». Exemplo: a minha folha de papel é branca.
Saber que é branca é uma ideia, e são os meus sentidos que me dão tal ideia. Mas a matéria é a própria folha.
É por isso que, quando os filósofos falam das relações entre o ser e o pensamento, ou entre o espírito e a matéria, ou entre a consciência e o cérebro, etc., tudo isso diz respeito à mesma pergunta, e significa: qual é, da matéria ou do espírito, do ser ou do pensamento, o termo mais importante? Qual é o que é anterior ao outro? Tal é a interrogação fundamental da filosofia.

IV. — A pergunta ou o problema fundamental da filosofia.
Não há ninguém que não se tenha interrogado em que nos tornamos depois da morte, de onde vem o mundo, como se formou a Terra. E é-nos difícil admitir que sempre existiu qualquer coisa. Tem-se tendência em pensar que num dado momento nada haveria. É por isso que é mais fácil acreditar no que ensina a religião:
«O espírito pairava sobre as trevas... depois veio a matéria». Do mesmo modo, perguntamo-nos onde estão os nossos pensamentos, e, assim, põe-se-nos o problema das relações que existem entre o espírito e a matéria, entre o cérebro e o pensamento. Há, aliás, muitas outras maneiras de pôr a questão. Por exemplo,
quais são as relações entre a vontade e o poder? A vontade é, aqui, o espírito, o pensamento; e o poder é o que é possível, é o ser, a matéria. Encontramos, assim, muitas vezes, a questão das relações entre a «consciência social» e a «existência social».
A pergunta fundamental da filosofia apresenta-se, pois, sob diferentes aspectos, e vê-se quanto é importante reconhecer sempre a maneira em que se põe este problema das relações da matéria e do espírito, uma vez que sabemos que só pode haver duas respostas a essa pergunta:
1. Uma resposta científica.
2. Uma resposta não científica.

V. — Idealismo ou materialismo.
Foi assim que os filósofos foram levados a tomar posição nesta importante questão.
Os primeiros homens, completamente ignorantes, não tendo nenhum conhecimento do mundo, nem deles próprios, e não dispondo senão de fracos meios técnicos para agir sobre o mundo, atribuíam a seres sobrenaturais a responsabilidade de tudo o que os espantava. Na sua imaginação, excitada pelos sonhos em que viam viver os seus semelhantes e eles próprios, chegaram à concepção de que cada um de nós tinha uma dupla existência. Perturbados pela idéia deste «duplo», chegaram a imaginar que os seus pensamentos e sensações eram produzidos, não pelo seu próprio corpo,
“mas por uma alma particular, habitando nesse corpo e deixando-o na hora da morte”2.
Em conseqüência, nasceu a idéia da imortalidade da alma e de uma possível vida do espírito fora da matéria.
Do mesmo modo, a sua fraqueza, a inquietação perante as forças da natureza, face a todos esses fenômenos que não compreendiam, e que o estado da técnica não lhes permitia corrigir (germinação, tempestades, inundações, etc.), levam-nos a supor que, por trás dessas forças, há seres onipotentes, «espíritos» ou «deuses» benéficos ou maléficos, mas, em todo o caso, caprichosos.
Por igual razão, criam em deuses, em seres mais poderosos do que os homens, mas imaginavam-nos, sob a forma de homens ou animais, como corpos materiais. É somente mais tarde que as almas e os deuses (depois o Deus único que substituiu os deuses) foram concebidos como puros espíritos.
Chega-se então à idéia de que há na realidade espíritos que têm uma vida inteiramente específica, completamente independente da dos corpos, e que não têm necessidade deles para existir.
Assim, tal assunto pôs-se de uma maneira mais clara em função da religião, sob esta forma: O mundo foi criado por Deus ou existe desde sempre?
Conforme respondiam desta ou daquela maneira a tal pergunta, os filósofos dividiam-se em duas grandes facções3.
Os que, adotando a explicação não científica, admitiam a criação do mundo por Deus, isto é, afirmavam que o espírito tinha criado a matéria, formavam a facção do idealismo.
Os outros, os que procuravam dar uma explicação científica do mundo, e pensavam que a natureza, a matéria era o elemento principal, pretendam às diferentes escolas do materialismo.
Na origem, estas duas expressões, idealismo e materialismo, não significavam outra coisa senão isso.
O idealismo e o materialismo dão, pois, duas respostas opostas e contraditórias ao problema fundamental da filosofia.
O idealismo é a concepção não científica. O materialismo é a concepção científica do mundo.
Ver-se-á, mais adiante, as provas desta afirmação, mas podemos dizer, desde já, que: se  constata bem, na experiência, que há corpos sem pensamento, como as pedras, os metais, a terra, não se constata nunca, pelo contrário, a existência do espírito sem corpo.
Para terminar este capítulo com uma conclusão sem equívoco, veremos que, para responder a esta pergunta: como é que o homem pensa? não pode haver mais do que duas respostas, inteiramente diferentes e totalmente opostas:
1.ª resposta: O homem pensa porque tem uma alma.
2.ª resposta: O homem pensa porque tem um cérebro.
Conforme dermos uma ou outra resposta, estaremos preparados para dar soluções aos problemas que resultam desta questão.
Segundo a nossa resposta, seremos idealistas ou materialistas.

2 Friedrich ENGELS: «Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã», Obras Escolhidas de Marx e Engels em Três Tomos, Ed. Avante 1985, Tomo III, pp 375-421
3 Idem.


Próximo capitulo: O IDEALISMO

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Grupos de direita atentam contra pessoas na Venezuela

Fonte: Caracas, 19 jul (Prensa Latina)
Caracas, 19 jul (Prensa Latina) Um cidadão venezuelano foi assassinado, após ser queimado vivo por grupos violentos financiados pela ultra direita opositora, que impõe o caos nesta nação sul-americana há mais de 100 dias como parte de uma agenda golpista.