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segunda-feira, 24 de julho de 2017

Princípios Elementares de Filosofia - CAPITULO V



HÁ UMA TERCEIRA FILOSOFIA? O AGNOSTICISMO

I.     - Porque uma terceira filosofia?
II.    – Argumentação desta filosofia?
III.   – De onde vem esta filosofia?
IV.   – As suas conseqüências.
V.    - Como refutar esta “terceira” filosofia?
VI.   – Conclusão.

I.  – Porque  uma terceira filosofia?

Pode parecer-nos, depois, destes primeiros capítulos, que, afinal deve ser bastante fácil orientarmo-nos no meio de todos os raciocínios filosóficos, uma vez que só duas grandes dividem entre si todas as teorias: o idealismo e o materialismo. E que, além disso, os argumentos que militam em favor do materialismo dominam a convicção de maneira definitiva.

Parece, portanto, que, depois de algum exame, tenhamos encontrado o caminho que conduz a filosofia da razão: o materialismo.

Mas, as coisas não são tão simples. Como já assinalamos, os idealistas modernos não tem a franqueza do Bispo Berkeley. Apresentam as suas idéias

Com muito mais artifícios, sob uma forma obscurecida pelo emprego de uma terminologia “nova”, destinada a fazê-las  tomar, por pessoas ingênuas, pela filosofia “mais moderna”16.

Vimos que à pergunta fundamental da filosofia podem ser dadas duas respostas, totalmente opostas, contraditórias e inconciliáveis. São claras, e não permitem nenhuma confusão.

E, com efeito,, até cerca de 1710, o problema era posto assim: de um lado, os que afirmavam a existência da matéria fora de nosso pensamento – eram os materialistas; do outro, os que, com Berkeley, negavam a existência da matéria, e pretendiam que esta existia apenas em nós, no nosso espírito – eram os idealistas.

Mas, nessa época, progredindo as ciências, outros filósofos intervieram, os quais tentaram desempatar idealistas e materialistas, criando uma corrente filosófica  que lançasse a confusão entre essas duas teorias: tal confusão tem a sua origem na procura de uma terceira filosofia.

II. -  Argumentação dessa terceira filosofia.

A Base desta filosofia, elaborada depois de Berkeley, é que é inútil procurar conhecer a natureza real das coisas, e que nunca conheceremos senão as aparências.

É por isso que se chama a esta filosofia agnosticismo (do grego a, negação, e gnósticos, capaz de conhecer, portanto: “incapaz de conhecer”)

Segundo os agnósticos, não se pode saber se o mundo e, na realidade, espírito ou natureza. É-nos possível conhecer as aparências das coisas, mas não a realidade.

Retomamos o exemplo do sol. Vimos que não é, como o pensavam os primeiros homens um disco achatado e vermelho. Esse disco não era, portanto, mais que uma ilusão, uma aparência ( a aparência é a idéia superficial que temos das coisas; não é sua realidade).

Eis porque, considerando que os idealistas e materialistas se disputam para saber se as coisas são matéria ou espírito, se existem ou não fora de nosso pensamento, se nos é possível ou não conhecê-las, os agnósticos dizem que se pode, na verdade, se conhecer a aparência, mas nunca a realidade.

Os nossos sentidos, dizem, permitem-nos ver e sentir as coisas, conhecer os aspectos exteriores, as aparências; estas aparências existem, portanto, para nós; constituem o que se chama, em linguagem filosófica, a “coisa para nós”. Mas não podemos conhecer a coisa independente de nós, com a realidade que lhe é própria, o que se chama a “coisa em si”

Os idealistas e os materialistas, discutindo continuamente sobre esses assuntos, são comparáveis a dois homens que tivessem, um, óculos azuis, o outro, cor-de-rosa; passeariam na neve, e discutiriam para saber qual sua cor verdadeira. Suponhamos que nunca poderiam tirar os óculos. Poderão um dia conhecer a verdadeira cor da neve?...Não. Pois bem os idealistas e os materialistas, que disputam para saber qual das duas facções tem razão, trazem óculos azuis e cor-de-rosa. Nunca conhecerão a realidade. Terão um conhecimento da neve “para eles”; cada um vê-la-á à sua maneira, mas nunca a conhecerão “em si mesma”. Tal é o raciocínio dos agnósticos.

III. -  De onde vem essa filosofia?

Os fundadores dessa filosofia são Hume (1711-1776), que era escocês, e Kant (1724-1804), um alemão. Ambos tentaram conciliar o idealismo e o materialismo.

Eis uma passagem dos recicínios de Hume, citados por Lenine no seu livro “Materialismo e empiriocriticismo”:

Pode considerar-se como evidente que os homens são propensos, por instinto natural..., a fiar-se na sua opinião, e que, sem o menor raciocínio,supomos sempre a de um universo exterior, independente da nossa percepção, que existiria mesmo que fôssemos destruídos com todos os seres dotados de sensibilidade...
Mas, esta opinião primordial e universal é prontamente desacreditada pela filosofia mais superficial, que nos ensina que nada (para além da imagem ou da percepção será jamais acessível ao nosso espírito e que as sensações são apenas canais seguidos por essas imagens, não estando em condições de estabelecer, elas próprias, uma relação direta, qualquer que seja, entre o espírito e o objeto. A mesa que vemos parece-nos mais pequena quando nos afastamos, mas a mesa real, que existe independentemente de nós, não muda; o nosso espírito percebeu, portanto, apenas a imagem da mesa. Tais são as indicações evidente da razão17.

Vimos que Hume admite, em primeiro lugar, o que é por demais evidente: a “existência de um universo exterior” que não depende de nós. Mas, imediatamente, recusa-se a admitir tal existência como uma realidade objetiva. Para ele, não é mais que uma imagem, e os nossos sentidos, que constatam essa existência, essa imagem, são incapazes de estabelecer uma relação, qualquer que seja, entre o espírito e o objeto.

Numa palavra, vivemos no meio de coisas como no cinema, onde constatamos, na tela, as imagens dos objetos, a sua existência, mas onde, por detrás das próprias imagens, isto é, por detrás da tela, nada há.

Agora, se quisermos saber como nosso espírito tem conhecimento dos objetos, isso pode ser devido
A energia da nossa própria inteligência ou a ação de qualquer espírito invisível e desconhecido, ou, então, a qualquer causa menos conhecida ainda18.


IV.  -  As suas conseqüências.


Eis uma teoria fascinante que, aliás, esta muito difundida. Encontramo-la, sob diferentes aspectos, no decorrer da história, entre as teorias filosóficas , e nos nossos dias, em todos que pretendem “ficar neutros e manter-se numa reserva cientifica”.

É-nos necessário, portanto, examinar se esses raciocínios são justos e que conseqüências deles resultam.

Se nos é verdadeiramente impossível, como afirmam os agnósticos, conhecer  a natureza verdadeira das coisas, e se o nosso conhecimento se limita as suas aparências, não podemos pois, afirmar a existência da realidade objetiva, e saber se as coisas existem por elas próprias. Para nos, por exemplo, o automóvel é uma realidade objetiva; o agnóstico, esse diz-nos que tal não é certo, que não se pode saber se é um pensamento ou uma realidade. Interdita-nos,portanto, de sustentar que o nosso pensamento é o reflexo das coisas. Vemos que estamos  em pleno raciocínio idealista, porque, entre afirmar que as coisas não existem ou, muito simplesmente, que não podemos saber se existem, a diferença não é grande!

Vimos que o agnóstico distingue as “coisas para nós” e “as coisas em si”. O estudo das coisas para nós é, pois, possível: é a ciência; mas, o estudo da coisa em si é impossível, porque não podemos conhecer o que existe fora de nos.

O resultado deste raciocínio é o seguinte: o agnóstico aceita a ciência; e, como esta só pode ser utilizada para expulsar da natureza toda força sobrenatural, é, perante ela, materialista.

Mas, apressa-se a acrescentar que a ciência, dando-nos só aparências, jamais prova, por outra via, que não haja na realidade outra coisa alem da matéria, ou sequer que esta exista ou não existe Deus. A razão humana nada pode saber, e nem tem que intrometer-se. Se há outros meios para conhecer as “coisas em si” como a fé religiosa, o agnóstico não o quer saber tão pouco, e não reconhece o direito de discutir isso.

O agnóstico é,portanto, quanto a conduta da vida e à construção da ciência, um materialista que não ousa afirmar o seu materialismo, procurando, antes de mais, não se meter em dificuldades com os idealistas, não entrar conflito com as religiões. É “um materialista envergonhado”19.

A conseqüência é que, duvidando do valor profundo da ciência, vendo nela apenas aparências, esta terceira filosofia nos propõe não atribuir nenhuma verdade à ciência e considerar como  perfeitamente inútil  saber qualquer coisa, tentar contribuir para o progresso.

Os agnósticos dizem: outrora, os homens viam o sol como um disco achatado, e acreditavam que era assim na realidade; enganavam-se. Hoje, a ciência diz-nos que o sol não é tal como o vemos, e pretende explicar tudo. Sabemos, portanto, que se engana muitas vezes, destruindo num dia o que construiu na véspera. Erro ontem, verdade hoje, mas erro amanhã. Assim, sustentam os agnósticos, não podemos saber; a razão não nos traz  nenhuma certeza. E se outros meios além da razão, como a fé religiosa, pretendem dar-nos certezas absolutas, nem mesmo a ciência nos pode impedir de acreditar nisso. Diminuindo a confiança na ciência, o agnosticismo prepara, assim, o regresso das religiões.

V. -  Como refutar esta “terceira” filosofia?

Vemos que, para provar as suas afirmações, os materialistas se servem, não apenas da ciência, mas, também, da experiência, que permite controlar as ciências. Graças ao “critério da prática”, podemos saber, conhecer as coisas.

Os agnósticos dizem-nos que é impossível afirmar que o mundo exterior existe ou não.

Ora, pela prática, sabemos que o mundo e as coisas existem. Sabemos que as idéias que fazemos destas são fundamentais, que as relações que estabelecemos entre elas e nós são reais.

Desde que empregamos estes objetos, em uso próprio, segundo as qualidades que neles percebemos, submetemos  a uma prova infalível a exatidão ou inexatidão das nossas percepções sensoriais. Se estas são falsas, o uso dos objetos que nos sugeriram é falso; por conseqüência, a nossa tentativa deve falhar: Mas se logramos alcançar o nosso fim, se constatamos que nosso objeto corresponde à representação que temos dele, que dá o que esperamos da sua utilização, é a prova positiva que, no quadro  destes limites, as nossas percepções do objeto e das suas qualidades concordam com a realidade fora de nós. E se, pelo contrário, falhamos, não estamos geralmente longe de descobrir a causa de nosso insucesso; achamos que a percepção que serviu de base à nossa tentativa, ou era, por si, incompleta ou superficial, ou fora ligada de uma maneira que não justificava a realidade aos dados de outras percepções. É o que chamamos um raciocínio defeituoso. É por isso, quanto mais cuidamos da educação e  utilização correta dos nossos sentidos, cingindo a nossa ação aos limites prescritos  pelas nossas percepções corretamente obtidas e utilizadas, mais freqüentemente acharemos que o resultado de nossa ação demonstra a conformidade das nossas percepções com a natureza objetiva dos objetos percebidos. Até aqui, não há um único exemplo de que dos nossos sentidos, cientificamente controlados, tenham engendrado no nosso cérebro representações do mundo exterior que estejam, pela sua própria natureza, em desacordo com a realidade, ou que haja incompatibilidade imanente entre o mundo exterior e as percepções sensíveis que temos a esse respeito20.

Retomando a frase de Engels, diremos: “Só se prova que o pudim existe, comendo-o” (provérbio Inglês). Se não existisse ou fosse apenas uma idéia, depois de o ter comido, a nossa fome não estaria de modo algum apaziguada. Assim, é-nos perfeitamente possível conhecer as coisas, ver se nossas idéias correspondem a realidade. É-nos possível controlar os dados da ciência pela experiência e a destreza que traduzem, em aplicações práticas, os resultados teóricos das ciências. Se podemos fazer borracha sintética, é porque a ciência conhecia a “coisa em si” que é a borracha.

Vemos, pois, que não é inútil procurar saber quem tem razão, um vez que, através dos erros teóricos que a ciência pode cometer, a experiência nos dá cada vez mais a prova de que é na verdade a ciência que tem razão.

VI.  -  Conclusão.

Depois do século XVIII, nos diferentes pensadores que deram maior ou menor contributo ao agnosticismo, vemos que esta filosofia é sacudida, ora pelo idealismo, ora pelo materialismo. Acoberto de palavras novas, como diz Lenine, pretendendo mesmo servir-se das ciências para apoiar os seus raciocínios, mas não fazem que criar a confusão entre as duas teorias, permitindo, assim, a alguns terem uma filosofia cômoda, que lhes dá a possibilidade de declarar que não são idealistas, porque se servem da ciência, mas que também  não são materialistas, porque não ousam ir até ao fim dos seus argumentos, porque não são conseqüentes.

Que é, pois, o agnosticismo, diz Engels, se não um materialismo envergonhado? A concepção da natureza que o agnóstico tem é inteiramente materialista. Todo o mundo natural é governado por leis, e não admite a intervenção de uma ação exterior; mas acrescenta por precaução: “Não possuímos o meio de afirmar ou negar a existência de um qualquer ser supremo para além do universo conhecido”21.

Esta filosofia faz, portanto, o jogo do idealismo, e, no fim das contas, porque são inconseqüentes  nos seus raciocínios, os agnósticos tendem para o idealismo. “Raspai o agnóstico, diz Lenine, encontrareis o idealista”.

Vimos que pode saber-se , do materialismo ou do idealismo, quem tem razão.

Vemos, agora, que as teorias que pretendem conciliar estas duas filosofias não podem, de fato, senão afirmar o idealismo, que não trazem uma terceira resposta à pergunta fundamental da filosofia, e que, por conseqüência, não há terceira filosofia.


Leituras

16  Lenine: “Materialismo e empiriocriticismo”, Ed. Avante 1982
17  Idem.
18  Idem.
19  Engels: “Do socialismo utópico ao socialismo científico”, Introdução, Obras Escolhidas de Marx e Engels em três Tomos, PP. 140-149
20  Engels: idem...
21 Engels: idem...


domingo, 23 de julho de 2017

Nassif: Os problemas de Danellon, a Dallagnol paulista

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Luiz Nassif
Não começou bem a história da Lava Jato paulista.
Resume-se à transferência, para São Paulo, do desmembramento de algumas denúncias analisadas pelo STF (Supremo Tribunal Federal), contra réus que não disponham de foro privilegiado. De imediato, ganhou a cara da procuradora Thameia Danellon, lotada em São Paulo, apresentada como a chefe da Lava Jato paulista.
Pelos primeiros movimentos, Thameia representa a face mais comprometedora da Lava Jato.
É ativista política, conforme demonstrou participando ativamente das convocações do MBL (Movimento Brasil Livre) a favor do impeachment. Aliás, é sintomático o fato de terem sido abertas representações contra procuradores que participaram de atos contra o impeachment, e nada ter sido feito contra os que participaram ostensivamente dos atos a favor. Mas, enfim, esta é a cara do MPF.
Em São Paulo, Thameia transformou-se em figura fácil de programas nitidamente partidários.
Em participação recente no Roda Viva, a procuradora expôs todo o Ministério Público, ao receber lições de direito de um jornalista. Sua reação foi ir ao programa da notória Joyce Hasselman, para poder distribuir afirmações taxativas sem risco de ser questionada,  ocasião em que atacou o STF (Supremo Tribunal Federal), apontando-o como risco à Lava Jato.
No programa Pânico, da Jovem Pan, ela se permite criticar o hermetismo dos Ministros do Supremo, ou, como diz o apresentador do programa, “dos veinhos que ficam votando”.
Nesses tempos de Lava Jato, o Ministério Público Federal foi afetado de várias maneiras.
Primeiro, o jogo político, no qual os principais lances eram casados com eventos políticos. Depois, o protagonismo indesculpável de procuradores, se colocando como heróis nacionais e se apropriando (inclusive monetariamente, através de palestras)  dos benefícios de uma investigação que era mérito das prerrogativas constitucionais do MPF. Some-se a atuação política indevida, com pregações em redes sociais, rádios e TVs. Finalmente, o vazamento escandaloso de informações visando conquistar espaço junto aos veículos de comunicação.
Com exceção dos vazamentos – porque, a rigor, não há ainda o que ser vazado – a procuradora Thameia simboliza todos os vícios desse MPF, o salvacionismo, o ativismo político, a figura fácil em programas de rádio e TV.
É cautelosa apenas nos elogios aos seus chefes presentes e futuros. É significativa a maneira como elogia o chefe que sai, Rodrigo Janot, e, mais ainda, a chefe que entra, Raquel Dodge.
Nos elogios ou nas críticas denota um tipo de personagem público que se pretendia superado depois dos intocáveis de Curitiba, com suas conduções coercitivas espetaculosas, divulgação de conversas íntimas, imposição de humilhações públicas a pessoas e um facciosismo desmoralizante para o MPF. Mais uma vez se verá os episódios canhestros de um MPF a reboque dos MBLs da vida.
Fonte: Pátria Latina

Princípios Elementares de Filosofia - CAPÍTULO IV


QUEM TEM RAZÃO, O IDEALISMO OU O MATERIALISMO?

I. — Como devemos pôr o problema.
II. — É verdade que o mundo existe apenas no nosso pensamento?
III. — É verdade que são as nossas ideias que criam as coisas?
IV. — É verdade que o espírito cria a matéria?
V. — Os materialistas têm razão, e a ciência prova as suas afirmações.

I. — Como devemos pôr o problema.
Agora, que conhecemos as teses dos idealistas e dos materialistas, vamos tentar saber quem tem razão.
Recordemos que nos é preciso, primeiramente, constatar, por um lado, que elas são absolutamente opostas e contraditórias; por outro, que, logo que se defende uma ou outra teoria, esta nos leva a conclusões que, pelas suas consequências, são muito importantes.
Para saber quem tem razão, devemos reportar-nos aos três pontos pelos quais resumimos cada argumentação.
Os idealistas afirmam:
1. Que é o espírito que cria a matéria;
2. Que a matéria não existe fora do nosso pensamento, que é, portanto, para nós, apenas uma ilusão;
3. Que são as nossas ideias que criam as coisas. Os materialistas, esses afirmam exatamente o contrário.
Para facilitar o nosso trabalho, é preciso, em primeiro lugar, estudar o que é sobremaneira evidente e o que mais nos surpreende.
1. É verdade que o mundo não existe senão nO nosso pensamento?
2. É verdade que são as nossas ideias que criam as coisas?
Eis dois argumentos defendidos pelo idealismo «imaterialista» de Berkeley, cujas conclusões terminam, como em todas as teologias, na nossa terceira pergunta:
3. É verdade que o espírito cria a matéria? São perguntas muito importantes, uma vez que se relacionam com o problema fundamental da filosofia. É, por consequência, discutindo-as que vamos saber quem tem razão; são particularmente interessantes para os materialistas, no sentido em que as suas respostas a tais perguntas são comuns a todas as filosofias materialistas - e, por consequência, ao materialismo dialético
.
II. — É verdade que o mundo existe apertas no nosso pensamento?
Antes de estudar esta questão, é-nos necessário situar dois termos filosóficos de que somos chamados a servir-nos e encontraremos freqüentemente nas nossas leituras.
Realidade subjetiva (que quer dizer: realidade que existe somente no nosso pensamento).
Realidade objetiva (realidade que existe fora do nosso pensamento).
Os idealistas dizem que o mundo não é uma realidade objetiva, mas subjetiva.
Os materialistas dizem que o mundo é uma realidade objetiva.
Para nos demonstrar que o mundo e as coisas não existem a não ser no nosso pensamento, o bispo Berkeley decompõe nas suas propriedades (cor, tamanho, densidade, etc). Demonstra-nos que estas, propriedades, que variam consoante os indivíduos, não estão nas próprias coisas, mas no espírito de cada um de nós.
Deduziu, pois, que a matéria é um conjunto de propriedades não objetivas, mas subjetivas, e que, por consequência, não existe.
Se retomarmos o exemplo do sol, Berkeley pergunta-nos se acreditamos na realidade objetiva do disco vermelho, e demonstra-nos, com o seu método de discussão das propriedades, que não é vermelho nem um disco. Não é, portanto, uma realidade objetiva, porque não existe por si próprio, mas uma simples realidade subjetiva, uma vez que existe apenas no nosso pensamento.
Mesmo assim, os materialistas afirmam que o sol existe, não porque o vemos como um disco achatado e vermelho, porque isso é realismo ingênuo, o das crianças e dos primeiros homens, que não tinham senão os seus sentidos para controlar a realidade, mas afirmam que existe invocando a ciência. Esta permite-nos, com efeito, retificar os erros que os sentidos nos fazem cometer.
Mas devemos, neste exemplo do sol, pôr claramente o problema.
Com Berkeley, diremos que não é um disco e que não é vermelho, mas não aceitamos as suas conclusões: a sua negação como realidade objetiva.
Não pomos em causa as propriedades das coisas, mas a sua existência.
Não discutimos para saber se os sentidos nos enganam e deformam a realidade material, mas se esta existe fora deles.
Pois bem! os materialistas afirmam a sua existência fora de nós, e fornecem argumentos que são a própria ciência.
Que fazem os idealistas para nos demonstrar que têm razão? Discutem as palavras, fazem grandes discursos, escrevem numerosas páginas.
(Suponhamos, por um instante, que têm razão. Se o mundo existe apenas no nosso pensamento, não existiu antes dos homens. Sabemos que isso é falso, uma vez que a ciência nos demonstra que o homem apareceu muito mais tarde sobre a terra. Certos idealistas dir-nos-ão, então, que, antes dele, havia os animais, e que o pensamento podia habitá-los. Mas sabemos que, antes dos animais, existia uma terra inabitável, na qual nenhuma vida orgânica era possível. Outros, ainda, dir-nos-ão que, mesmo que apenas existisse o sistema solar, e o homem ainda não, o pensamento, o espírito já existiam em Deus. É assim que chegamos à forma suprema do idealismo. É-nos preciso escolher entre Deus e a ciência. O idealismo não pode manter-se sem Deus, e Deus não pode existir sem o idealismo.
Eis, pois, exatamente como deve ser posto o problema do idealismo e do materialismo. Quem tem razão?
Deus ou a ciência?
Deus é um puro espírito criador da matéria, uma afirmação sem prova.
A ciência vai demonstrar-nos, pela prática e pela experiência, que o mundo é uma realidade objetiva, e vai permitir-nos responder à pergunta:

III. — É verdade que são as nossas ideias que criam as coisas?
Tomemos, como exemplo, um automóvel que passa no momento em que atravessamos a rua em companhia de um idealista, com quem discutimos para saber se as coisas têm uma realidade objetiva ou subjetiva, e se é verdade que são as nossas ideias que as criam. É bem certo que, se não quisermos ser esmagados,
prestaremos muita atenção. Portanto, na prática, o idealista é obrigado a reconhecer a existência do automóvel. Para ele, praticamente, não há diferença entre um automóvel objetivo e um outro subjetivo sendo isto de tal modo exato, que a prática fornece a prova de que os idealistas, na vida, são materialistas.
Poderíamos, sobre este assunto, citar numerosos exemplos, pelos quais veríamos que os filósofos idealistas e os que sustentam tal filosofia não desdenham certas baixezas «objetivas», para obter o que, para eles, não é mais que realidade subjetiva.
É por isso, aliás, que não se vê mais ninguém afirmar, como Berkeley, que o mundo não existe. Os argumentos são muito mais subtis e ocultos. (Consultai, como exemplo do modo de argumentar dos idealistas, o capítulo intitulado A descoberta dos elementos do mundo, no livro de Lenine: «Materialismo e empirocriticismo»15).
É, pois, segundo a palavra de Lenine, «o critério da prática» que nos permitirá confundir os idealistas.
Estes, por outro lado, não deixarão de dizer que a teoria e a prática não se identificam, e que são duas coisas completamente diferentes. Não é verdade. Se uma concepção é exata ou falsa, é só a prática que, pela experiência, no-lo demonstrará.
O exemplo do automóvel mostra que o mundo tem, pois, uma realidade objetiva e não é uma ilusão criada pelo nosso espírito.
Resta-nos ver agora, sendo dado que a teoria do imaterialismo de Berkeley não pode manter-se face às ciências, nem resistir ao critério da prática, se, como o afirmam todas as conclusões das filosofias idealistas, das religiões e das teologias, o espírito cria a matéria.

IV. — É verdade que o espírito cria a matéria?
Como já foi visto, o espírito, para os idealistas, tem a sua forma suprema em Deus. Ele é a resposta final, a conclusão da sua teoria, e é por isso que o problema espírito-matéria se põe em última análise, saber quem, do idealista ou do materialista tem razão, sob a forma do problema: «Deus ou a ciência».
Os idealistas afirmam que Deus existiu desde sempre, e que, não tendo sofrido qualquer mudança, é sempre o mesmo. É o espírito puro, para quem o tempo e o espaço não existem. É o criador da matéria.
Nem mesmo para sustentar a sua afirmação de Deus, os idealistas apresentam qualquer argumento.
Para defender o criador da matéria, recorreram a uma profusão de mistérios, que um espírito científico não pode aceitar.
Quando se remonta às origens da ciência, e se vê que é pelo coração e proporcionalmente à sua grande ignorância que os homens primitivos forjaram no seu espírito a ideia de Deus, constata-se que os idealistas do século XXI continuam, como os primeiros homens, a ignorar tudo o que um trabalho paciente e perseverante permitiu conhecer. (Porque, no fim de contas, Deus, para os idealistas, não pode explicar-se, e continua a ser para eles uma crença sem qualquer prova. Quando os idealistas nos querem «provar» a necessidade de uma criação do mundo, dizendo que a matéria não pôde existir sempre, que foi, na verdade, necessário que tenha tido um começo, recorrem a um Deus que, ele, nunca teve princípio. Em que é mais
clara esta explicação?
Para sustentar os seus argumentos, os materialistas, pelo contrário, servir-se-ão da ciência, que os homens desenvolveram à medida que faziam recuar as «fronteiras da sua ignorância».
Ora, a ciência permite-nos pensar que o espírito tenha criado a matéria? Não.
15 Cap. I, § 2, p. 40 e seguintes.
A ideia de uma criação por um espírito puro é incompreensível, porque não conhecemos nada de semelhante na experiência. Para que tal fosse possível, seria preciso, como dizem os idealistas, que o espírito existisse só, antes da matéria, enquanto que a ciência nos demonstra que isso não é possível e que nunca há aquele
sem esta. Pelo contrário, o espírito está sempre ligado à matéria, e constatamos, mais particularmente, que o espírito do homem está ligado ao cérebro, que é a fonte das nossas ideias e do nosso pensamento. A ciência não nos permite conceber que as ideias existem no vazio...
Seria necessário, portanto, que o espírito Deus, para que possa existir, tenha um cérebro. É por isso que podemos dizer que não foi Deus que criou a matéria, o homem, portanto, mas que foi a matéria, sob a forma do cérebro humano, que criou o espírito Deus.
Veremos, mais adiante, se a ciência nos dá a possibilidade de acreditar num Deus, ou em qualquer coisa sobre a. qual o tempo não teria efeito, e para quem o espaço, o movimento e a mudança não existiriam.
Para já, podemos concluir. Na sua resposta ao problema fundamental da filosofia:

V. — Os materialistas têm razão, e a ciência prova as suas afirmações.
Os materialistas têm razão, ao afirmar:
1. Contra o idealismo de Berkeley e os filósofos que se escondem atrás do seu imaterialismo: que o mundo e as coisas, por um lado, existem, na verdade, fora do nosso pensamento, e não precisam dele para existir; por outro, que não são as nossas ideias que criam as coisas, mas, ao contrário, são estas que nos dão aquelas.
2. Contra todas as filosofias idealistas, porque as suas conclusões levam a afirmar a criação da matéria pelo espírito, isto é, em última instância, a afirmar a existência de Deus, e a sustentar as teologias; os materialistas, apoiando-se nas ciências, afirmam e provam que é a matéria que cria o espírito, e que não necessitam da «hipótese Deus» para explicar a criação da matéria.
Nota - Devemos prestar atenção à maneira como os idealistas põem os problemas. Afirmam que Deus criou o homem, quando vemos que foi este que criou Deus. Afirmam também, por outro lado, que foi o espírito que criou a matéria, quando vemos que foi, na verdade, exatamente ao contrário. Há nisso uma maneira de inverter as perspectivas, que devíamos assinalar.


LEITURAS
LENINE: «Materialismo e empirocritirismo», p. 52: A natutureza existia antes do homem?; pp. 62 a 65: O homem pensa com o cérebro?
ENGELS: «Ludwig Feuerbach», Idealismo e materialismo, p. 14.15 Cap. I, § 2, p. 40 e seguintes


sábado, 22 de julho de 2017

Princípios Elementares de Filosofia - CAPÍTULO III


O MATERIALISMO
I. — Por que devemos estudar o materialismo?
II. — De onde vem o materialismo?
III. — Como e por que evoluiu o materialismo.
IV. — Quais são os princípios e os argumentos materialistas?
1. É a matéria que produz o espírito.
2. A matéria existe fora de todo o espírito.
3. A ciência, pela experiência, permite-nos conhecer as coisas.

I. — Por que devemos estudar o materialismo?
Vimos que, para este problema: «Quais são as relações entre o ser e o pensamento?», não pode haver mais que duas respostas, opostas e contraditórias.
Estudamos, no capítulo precedente, a resposta idealista e os argumentos apresentados para defender a filosofia idealista.
Torna-se necessário examinar, agora, a segunda resposta a este problema fundamental (problema, repetimo-lo, que se encontra na base de toda a filosofia), e ver quais são os argumentos que o materialismo emprega em sua defesa. Tanto mais que o materialismo é, para nós, uma filosofia muito importante, visto que é a do marxismo.
É, pois, por consequência, indispensável conhecer bem o materialismo. Indispensável, sobretudo porque as concepções desta filosofia são muito mal conhecidas e foram falsificadas. Indispensável, também, porque, pela nossa educação, pela instrução que recebemos - seja primária ou mais desenvolvida -, pelos nossos hábitos de viver e de raciocinar, estamos todos, mais ou menos, sem darmos conta disso, impregnados de
concepções idealistas. (Veremos, aliás, noutros capítulos, vários exemplos desta afirmação, e porque é assim.)
É, portanto, uma necessidade absoluta para os que querem estudar o marxismo conhecer a sua tese: o materialismo.

II. — De onde vem o materialismo?
Definimos, de uma maneira geral, a filosofia como um esforço para explicar o mundo, o universo. Mas sabemos que, segundo o estado dos conhecimentos humanos, as suas explicações mudaram, e que duas atitudes, no decurso da história da  humanidade, foram adotadas para explicar o mundo: uma, anticientífica, fazendo apelo a um ou a espíritos superiores, a forças sobrenaturais; a outra, científica, fundamentando-se em fatos e experiências.
Uma destas concepções é defendida pelos filósofos idealistas; a outra, pelos materialistas.
É por isso que, desde o início destas aulas, dissemos que a primeira ideia que se devia fazer do materialismo é que esta filosofia representa a «explicação científica do universo».
Se o idealismo nasceu da ignorância dos homens - e veremos como a ignorância foi mantida, sustentada na história das sociedades por forças culturais e políticas que partilhavam as concepções idealistas -, o materialismo nasceu da luta das ciências contra a ignorância ou obscurantismo.
É por isso que esta filosofia foi tão combatida, e é também por isso que, sob a forma moderna (o materialismo dialético), é pouco conhecida, senão ignorada ou desconhecida do mundo universitário oficial.

III. — Como e por que evoluiu o materialismo.
Contrariamente ao que pretendem os que combatem esta filosofia e dizem que tal doutrina não evoluiu desde há vinte séculos, a história do materialismo mostra-nos neste qualquer coisa de vivo e sempre em movimento.
No decorrer dos séculos, os conhecimentos científicos dos homens progrediram. No princípio da história do pensamento, na antiguidade grega, os conhecimentos científicos eram quase nulos, e os primeiros sábios, ao mesmo tempo, filósofos, porque, em tal época, a filosofia e as ciências nascentes formavam um todo, sendo
uma o prolongamento das outras.
Em seguida, precisando as ciências a explicação dos fenômenos do mundo, precisões que incomodavam e estavam mesmo em contradição com os dogmas das filosofias idealistas, nasceu um conflito entre a filosofia e as ciências.
Estando estas em contradição com a filosofia oficial dessa época, tornara-se necessário que se separassem.
Por isso, o melhor que têm a fazer é libertar-se, urgentemente, da balbúrdia filosófica, e deixar aos filósofos as vastas hipóteses de tomar contacto com problemas restritos, os que estão maduros para uma solução próxima.
Então, faz-se esta distinção entre as ciências... e a filosofia11.
Mas o materialismo, nascido com as ciências, ligado a elas e delas dependendo, progrediu, evoluiu com elas, para chegar, com o materialismo moderno, o de Marx e Engels, a reunir, de novo, a ciência e a filosofia no materialismo dialético.
Estudaremos, mais adiante, esta história e tal evolução, que estão ligadas ao progresso da civilização, mas constatamos já, e é o que é muito importante fixar, que o materialismo e as ciências não estão separados, e que aquele está absolutamente dependente da ciência.
Resta-nos estabelecer e definir as bases do materialismo, comuns a todas as filosofias que, sob aspectos diferentes, se valem dele.

IV. — Quais são os princípios e os argumentos materialistas?
Para responder, torna-se necessário voltar ao problema fundamental da filosofia, o das relações entre o ser e o pensamento: qual deles é o principal?
Os materialistas afirmam, em primeiro lugar, que há uma determinada relação entre o ser e o pensamento, entre a matéria e o espírito. Para eles, é o ser, a matéria que é a realidade primeira, e o espírito a realidade segunda, posterior, dependente da matéria.
Portanto, para os materialistas, não foi o espírito ou Deus que criaram o mundo e a matéria, mas foi o mundo, a matéria, a natureza que criaram o espírito:
O espírito não é mais que o produto superior da matéria12.
É por isso que, se retomarmos a pergunta que pusemos no segundo capítulo: «Por que pensa o homem?», os materialistas respondem que o homem pensa porque tem um cérebro e porque o pensamento é o seu produto.
Para eles, não pode haver pensamento sem matéria, sem corpo.
A nossa consciência e o nosso pensamento, tão transcendentes que nos parecem, são apenas produtos de um órgão material, corporal, o cérebro13.
Por consequência, para os materialistas, a matéria, o ser, são qualquer coisa de real, existindo fora do nosso pensamento, e não precisam dele, nem do espírito para existir. De igual modo, este, não podendo existir sem matéria, não tem alma imortal e independente do corpo.
Contrariamente ao que dizem os idealistas, as coisas que nos cercam existem independentemente de nós: são elas que nos dão os nossos pensamentos, e as nossas ideias são apenas o reflexo das coisas no cérebro.
Por esse motivo, perante o segundo aspecto do problema das relações do ser e do pensamento: - Que relação há entre as nossas ideias sobre o mundo que nos rodeia e o próprio mundo? O nosso pensamento está em condições de conhecer o mundo real? Podemos, nas nossas concepções deste, reproduzir uma imagem fiel da realidade? Tal problema é chamado, em linguagem filosófica, a questão da
identidade do pensamento e do ser14.- os materialistas afirmam: sim! podemos conhecer o mundo, e as ideias que fazemos dele são cada vez mais exatas, uma vez que podemos estudá-lo com o (auxílio das ciências, que estas nos
provam continuamente, pela experiência, que as coisas que nos rodeiam têm, na verdade, uma realidade que lhes é própria, independente de nós, e que os homens podem já, em parte, reproduzir, criar artificialmente tais coisas.
Resumindo, diremos, pois, que os materialistas, face ao problema fundamental da filosofia, afirmam:
1. Que é a matéria que produz o espírito , e que, cientificamente, nunca se viu este sem aquela.
2. Que a matéria existe fora de todo o espírito e não precisa deste para existir, tendo uma existência que lhe é particular, e que, por consequência, contrariamente ao que dizem os idealistas, não são as nossas ideias que criam as coisas, mas, pelo contrário, são estas que nos dão aquelas.
3. Que somos capazes de conhecer o mundo , que as ideias que fazemos da matéria e do mundo são cada vez mais exatas, uma vez que, com o auxílio das ciências, 'podemos precisar o que já conhecemos e descobrir o que ignoramos.

LEITURAS

11 René MAUHLANC: a Vida operária, 25 de Novembro de 1935.
12 Friedrich ENGELS: «Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã», Obras Escolhidas de Marx e Engels em Três Tomos, Ed. Avante 1985, Tomo III, pp 375-421
13 Friedrich ENGELS: «Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã», Obras Escolhidas de Marx e Engels em TrêsTomos, Ed. Avante 1985, Tomo III, pp 375-421
14 Friedrich ENGELS: «Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã», Obras Escolhidas de Marx e Engels em Três Tomos, Ed. Avante 1985, Tomo III, pp 375-421