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terça-feira, 19 de dezembro de 2017

As Leis da Dialética - A AÇÃO RECÍPROCA


  A AÇÃO RECÍPROCA

I. — O encadeamento dos processos.
II. — As grandes descobertas do século XIX.
1. A descoberta da célula viva e do seu desenvolvimento
2. A descoberta da transformação da energia.
3. A descoberta da evolução no homem e nos animais.
III. — O desenvolvimento histórico ou em espiral.
IV. — Conclusão.

I. — O encadeamento dos processos.
Acabamos de ver, a propósito da história da maçã, o que é um processo. Retomamos esse exemplo.
Procuramos de onde vinha a maçã, e devemos, nas nossas pesquisas, chegar até à árvore. (Mas, o problema de pesquisa põe-se, também, para esta. O estudo da maçã conduz-nos ao das origens e dos destinos da árvore. De onde vem? Da maçã. De uma maçã que caiu, apodreceu na terra para dar origem a um rebento, e isto leva-nos a estudar o terreno, as condições em que as sementes puderam dar um rebento, as influências do ar, do sol, etc. Assim, partindo do estudo da maçã, somos conduzidos ao exame do solo, passando do processo da maçã ao da árvore; este processo encadeia-se, por sua vez, no do solo. Temos o que se chama: «um encadeamento de processos». Isto vai-nos permitir enunciar e estudar a segunda lei da dialética: a lei
da ação recíproca. Tomemos como exemplo de encadeamento de processos, depois do da maçã, o da Universidade Operária de Paris.
Se estudarmos esta escola do ponto de vista dialético, procuraremos de onde vem, e teremos, inicialmente, uma resposta: no outono de 1932, camaradas reunidos decidiram fundar em Paris uma Universidade Operária para estudar o marxismo.
Mas como teve esse comitê a ideia de fazer estudar o marxismo? Foi, evidentemente, porque ele existe. Mas, então, de onde vem o marxismo?
Vemos que a pesquisa do encadeamento dos processos nos conduz a estudos minuciosos e completos. Mais ainda: indagando de onde vem o marxismo, seremos levados a constatar que essa doutrina é a própria consciência do proletariado; vemos, pois, (seja-se por ou contra o marxismo) que o proletariado existe; e, então, poremos, de novo, a pergunta: de onde vem o proletariado?
Sabemos que de um sistema econômico: o capitalismo. Sabemos que a divisão da sociedade em classes, a luta de classes, não nasceu, como o pretendem os nossos adversários, do marxismo, mas, pelo contrário, que este constata a existência de tal luta, e colhe a sua força no proletariado já existente.
Portanto, de processo em processo, chegamos ao exame das condições de existência do capitalismo. Temos, assim, um encadeamento de processos, que nos demonstra que tudo influi sobre tudo. É a lei da ação recíproca.
Em conclusão destes dois exemplos, o da maçã e o da Universidade Operária de Paris, vemos como teria procedido um metafísico.
No exemplo da maçã, apenas poderia pensar «de onde vem a maçã?». E sentir-se-ia satisfeito com a resposta: «a maçã vem da árvore». Ficar-se-ia por aí.
Para a Universidade Operária, ficaria satisfeito por dizer, da sua origem, que foi fundada por um grupo de homens que querem «corromper o povo francês» ou outras banalidades...
Mas o dialético, esse vê todos os encadeamentos de processos, que terminam, conforme os casos, na maçã e na Universidade Operária. O dialético liga o fato particular, o detalhe ao conjunto.
Associa a maçã à árvore, e vai mais longe, até à natureza no seu conjunto. A maçã não é só o fruto da macieira, mas, também, o de toda a natureza.
A Universidade Operária não é apenas o «fruto» do proletariado, mas, também, o da sociedade capitalista.
Vemos, portanto, que, contrariamente ao metafísico, que concebe o mundo como um conjunto de coisas congeladas, o dialético verá o mundo como um conjunto de processos. E, se o ponto de vista dialético é verdadeiro para a natureza e para as ciências, é-o, também, para a sociedade.
O antigo método de pesquisa e de pensamento, a que Hegel chama o método metafísico, e que se ocupava, de preferência, do estudo das coisas consideradas na qualidade da objetos fixos dados... tinha, então, a sua grande justificação histórica49.
Por conseguinte, estudava-se, nessa época, todas as coisas e a sociedade como um conjunto de «objetos fixos dados», que não só não mudam, mas, particularmente para a sociedade, não estão destinados a desaparecer.
Engels assinala a importância capital da dialética, essa grande ideia fundamental segundo a qual o mundo não deve ser considerado como um complexo de coisas
acabadas, mas como um complexo de processos em que as coisas, na aparência estáveis, do mesmo modo que os seus reflexos intelectuais no nosso cérebro, as ideias, passam por uma mudança ininterrupta de devir e decadência, em que, finalmente, apesar de todos os insucessos aparentes e retrocessos momentâneos, um
desenvolvimento progressivo acaba por se fazer hoje50.
Nem mesmo a sociedade capitalista deve, pois, ser considerada como um «complexo de coisas acabadas», mas, pelo contrário, ser estudada, também, como um complexo de processos.
Os metafísicos dão-se conta de que a sociedade capitalista não existiu sempre, e dizem que tem uma história, mas pensam que, com a sua aparição, a sociedade acabou de evoluir e ficará, doravante, «fixa». Consideram todas as coisas como acabadas, e não como o início de um novo processo. O relato da criação do mundo por Deus é uma explicação do mundo como complexo de coisas acabadas. Deus executou uma tarefa acabada em cada dia. Fez as plantas, os animais, o homem de uma vez para sempre; daí a teoria do fixismo.
A dialética pensa de uma maneira oposta. Não considera as coisas na qualidade de «objetos fixos», mas em «movimento». Para ela, nenhuma coisa se encontra acabada; é sempre o fim de um processo e o começo de um outro, sempre em vias de se transformar, desenvolver. É por isso que estamos tão seguros da transformação da sociedade capitalista em socialista. Nada estando definitivamente acabado, a sociedade capitalista é o fim de um processo ao qual sucederá a socialista, depois a comunista, e assim sucessivamente; há e haverá continuamente um desenvolvimento.
Mas, aqui, é preciso ter em atenção que a dialética não deve ser considerada como qualquer coisa de fatal, de onde se poderia concluir: «uma vez que estais tão seguros da mudança que desejais, por que lutais?».
Porque, como disse Marx, «para fazer dar à luz a sociedade socialista, será preciso um parteiro»; de onde a necessidade da revolução, da ação.
É que as coisas não são tão simples. É preciso não esquecer o papel dos homens que podem acelerar ou retardar essa transformação (tornaremos a ver este assunto no capítulo V desta parte, quando falarmos do «materialismo histórico»).
O que constatamos atualmente é a existência, em todas as coisas, do encadeamento de processos que se produzem pela força interna daquelas (o autodinamismo). É que, para a dialética, insistimos nisso, nada está acabado. É necessário considerar o desenvolvimento das coisas como não tendo nunca cena final. No fim de uma peça de teatro do mundo, começa o primeiro ato de uma outra. Para dizer a verdade, ele começa já no último da peça precedente...

II. — As grandes descobertas do século XIX.
O que determinou o abandono do espírito metafísico, e obrigou os sábios, depois de Marx e Engels, a considerar as coisas no seu movimento dialético, foi, sabemo-lo, as descobertas feitas no século XIX. São, sobretudo, três grandes descobertas dessa época, assinaladas por Engels, em «Ludwig Feuerbach», que fizeram progredir a dialéctica51.
1. A descoberta da célula viva e do seu desenvolvimento.52
Antes desta descoberta, tomara-se como base de raciocínio o «fixismo». As espécies eram consideradas como estranhas umas às outras. Além disso, distinguia-se, categoricamente, de um lado, o reino animal, do outro, o vegetal.
Depois dessa descoberta, foi possível precisar a ideia da «evolução», que os pensadores e sábios do século XVIII tinham já ventilado. Ela permite compreender que a vida é feita de uma sucessão de mortes e nascimentos, e que todo o ser vivo é uma associação de células. Pelo que esta constatação não deixa subsistir qualquer fronteira entre animais e plantas, e, assim, afasta a concepção metafísica.
2. A descoberta da transformação da energia .
Outrora, a ciência acreditava que o som, o calor, a luz, por exemplo, eram completamente estranhos uns aos outros. Ora, descobre-se que todos esses fenômenos se podem transformar uns nos outros, que há encadeamentos de processos, tanto na matéria inerte como na natureza viva. Tal revelação é, ainda, um golpe aplicado no espírito metafísico.
3. A descoberta da evolução no homem e nos animais .
Darwin, disse Engels, demonstra que todos os produtos da natureza são o resultado de um longo processo de desenvolvimento de pequenos germes, unicelulares na origem: tudo é o produto de um longo processo, tendo por origem a célula.
E Engels conclui que, graças a essas três grandes descobertas, podemos seguir o encadeamento de todos os fenômenos da natureza, não só no interior dos diferentes domínios, mas, também, entre eles.
Foram, pois, as ciências que permitiram o enunciado desta segunda lei da ação recíproca.
Entre os reinos vegetal, animal e mineral, nada de separações, apenas processos; tudo se encadeia. Isso também é verdade para a sociedade. As diferentes sociedades que atravessaram a história dos homens devem ser consideradas como uma sequência de encadeamentos de processos, em que cada uma saiu, necessariamente, da que a precedeu.
Devemos, portanto, fixar que: a ciência, a natureza, a sociedade devem ser vistas como um encadeamento de processos, e o motor que trabalha para desenvolver tal encadeamento é o autodinamismo.

III.— O desenvolvimento histórico ou em espiral.
Se examinarmos um pouco mais de perto o processo que começamos a conhecer, vemos que a maçã é o resultado de um encadeamento de processos. De onde vem a maçã? Vem da árvore. De onde vem a árvore?
Da maçã. Podemos, portanto, pensar que temos um círculo vicioso, no qual acabamos por voltar sempre ao mesmo ponto. Árvore, maçã. Maçã, árvore. O mesmo acontecerá se tomarmos o exemplo do ovo e da galinha. De onde vem o ovo? Da galinha. De onde vem a galinha? Do ovo.
Se considerássemos as coisas assim, tal não seria um processo, mas um círculo, e essa aparência deu mesmo a ideia do «retorno ao eterno». Isto é, voltaríamos sempre ao mesmo ponto, ao de partida.
Mas, vejamos exatamente como se põe o problema:
1. Eis uma maçã.
2. Esta, decompondo-se, dá origem a uma ou mais árvores.
3. Cada árvore não dá uma maçã, mas várias.
Não voltamos, portanto, ao mesmo ponto de partida; voltamos à maçã, mas num outro plano.
Do mesmo modo, se partirmos da árvore, teremos:
1. Uma árvore que dá
2. maçãs, e maçãs que darão
3. árvores.
Também aqui voltamos à árvore, mas num outro plano. O ponto de vista ampliou-se.
Não temos, pois, um círculo, como as aparências poderiam fazer pensar, mas um processo de desenvolvimento, a que chamaremos desenvolvimento histórico. A história mostra que o tempo não passa sem deixar marca. Passa, mas os desenvolvimentos que ocorrem não são os mesmos. O mundo, a natureza, a sociedade constituem um desenvolvimento que é histórico, e, em linguagem filosófica, se chama «em espiral».
Servimo-nos desta imagem para fixar as ideias. É uma comparação para ilustrar o fato de que as ciências evoluem segundo um processo circular, mas não voltam ao ponto de partida; voltam um pouco acima, num outro plano, e assim sucessivamente, o que dá uma espiral ascendente.
Por conseguinte, o mundo, a natureza, a sociedade têm um desenvolvimento histórico (em espiral), que é movido, não o esqueçamos, pelo autodinamismo.

IV. — Conclusão.
Acabamos de estudar, nestes primeiros capítulos sobre a dialética, as duas primeiras leis: a da mudança e a da ação recíproca. Isto era indispensável para poder abordar o estudo da lei da contradição, porque é ela que nos vai permitir compreender a força que move «a mudança dialética», o autodinamismo.
No primeiro capítulo, relativo ao estudo da dialética, vimos porque fora esta teoria muito tempo dominada pela concepção metafísica e porque era metafísico o materialismo do século XVIII.
Compreendemos melhor agora, depois de ter visto rapidamente as três grandes descobertas do século XIX, que permitiram ao materialismo desenvolver-se para se tornar dialético, porque era necessário que a história desta filosofia atravessasse os três grandes períodos que conhecemos: 1,° materialismo da antiguidade (teoria
dos átomos); 2.° materialismo do século XVIII (mecanicista e metafísico), para levar, enfim, 3.°, ao materialismo dialético.
Afirmamos que o materialismo nascera das ciências e ligado a elas. Podemos ver, após estes três capítulos, como isso é verdade. Vimos, no estudo do movimento e da mudança dialéticos, depois dessa lei da ação recíproca, que todos os nossos raciocínios são baseados nas ciências.
Hoje, em que os estudos científicos estão especializados ao extremo e os sábios (ignorando, em geral, o materialismo dialético) não podem, por vezes, compreender a importância das suas descobertas particulares em relação ao conjunto das ciências, cabe à filosofia dar uma explicação do mundo e dos problemas mais gerais; é a missão em particular do materialismo dialético - reunir todas as descobertas particulares de cada ciência, para fazer a síntese, e dar, assim, uma teoria que nos torne cada vez mais, como dizia Descartes, «mestres e possuidores da natureza.

49 Friedrich ENGELS: «Ludwig Feuerbach»
50 Idem, p. 34.
51 Friedrich ENGELS: «Ludwig Feuerbach»
52 Foram Schwann e Schleiden que, ao descobrir, com a célula orgânica, «a unidade a partir da qual se desenvolve, por multiplicação e diferenciação, todo o organismo vegetal e animal», estabeleceram a continuidade dos dois grandes reinos da natureza viva.


domingo, 17 de dezembro de 2017

Processo de Mudança na Bolívia avança com apoio popular

La Paz, 17 dez (Prensa Latina) Cerca de um milhão de bolivianos ratificaram seu apoio ao processo de mudança no país, liderado hoje pelo presidente Evo Morales, ao apoiar a continuidade do mandatário para o período de 2020-2025.

Defender a Síria é defender a Palestina, diz Hezbollah

Beirute, 17 dez (Prensa Latina) O secretário geral da Resistência Islâmica Libanesa ou Hezbollah, Hasan Nasrallah, afirmou que defender a Síria é também defender a causa do povo palestino.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Mudança Dialética

Dando continuidade as publicações sobre a Dialética, dispomos hoje sua primeira Lei, após a Introdução ao Estudo da Dialética, no dia 9/12/2017. Como vimos, Herácrito foi o pai da dialetica por perceber as mudanças que ocorriam na natureza. A incipiencia da ciência, obstruiam o entendimento do processo. Por isso era uma dialética metafisica, que caiu no esquecimento. Hegel, discubriu a dialética onde via a mudança e as transformações na natureza e no universo. Mas, como era filosofo idealista, via o processo pela condução do espirito. Marx e Engels, seus discipulos, mas materialistas, retiraram o carater metafisico da dialética, introduzindo o materialismo, mas mantendo sua nomenclatura dialética materialista.

PRIMEIRA LEI: A MUDANÇA DIALÉTICA

I. — O que se entende pelo movimento dialético.
II. — <<Para a dialética, não existe nada de definitivo, de absoluto, de sagrado...» (ENGELS)
III. — O processo.

I. — O que se entende pelo movimento dialético.
A primeira lei da dialética começa por constatar que «nada fica onde está, nada permanece o que é». Quem diz dialética diz movimento, mudança. Por conseguinte, quando se fala de se colocar no ponto de vista da dialética, isso quer dizer colocar-se no do movimento, da mudança: quando quisermos estudar as coisas segundo a dialética, estudá-las-emos nos seus movimentos, na sua mudança.
Eis uma maçã. Temos duas maneiras de a estudar: por um lado, do ponto de vista metafísico, por outro, do dialético.
No primeiro caso, daremos uma descrição desse fruto, a sua forma, a sua cor. Enumeraremos as suas propriedades, falaremos do seu gosto, etc.... Depois, poderemos comparar a maçã com uma pera, ver as semelhanças, as diferenças e, enfim, concluir: uma maçã é uma maçã, e uma pera é uma pera. Era assim que se estudavam as coisas outrora, numerosos livros testemunham-no.
Se queremos estudar a maçã do ponto de vista dialético, colocar-nos-emos no do movimento; não do movimento da maçã quando rola e se desloca, mas do da sua evolução. Então, constataremos que a maçã madura não foi sempre o que é. Primeiramente, era uma maçã verde. Antes de ser uma flor, era um botão; e, assim, chegaremos até ao estado da macieira na primavera. A maçã não foi, pois, sempre uma maçã, tem uma história; e, de fato, não permanecerá o que é. Se cai, apodrecerá, decompor-se-á, libertará as sementes, que darão, se tudo correr bem, um rebento, depois uma árvore. Portanto, a maçã não foi e também não ficará sempre o que é.
Eis o que se chama estudar as coisas do ponto de vista do movimento. É o estudo do ponto de vista do passado e do futuro. Ao estudar assim, já não se vê a maçã presente senão como uma transição entre o que era, o passado, e o que se tomará, o futuro.
Para situar bem esta maneira de ver as coisas, vamos, ainda, tomar dois exemplos: a terra e a sociedade.
Colocando-nos no ponto de vista metafísico, descreveremos a forma da terra em todos os seus detalhes.
Constataremos que, na sua superfície, há mares, terras, montanhas; estudaremos a natureza do solo. Depois, poderemos comparar a terra aos outros planetas ou à lua, e concluiremos, enfim: a terra é a terra.
Enquanto que ao estudar a história da terra do ponto de vista dialético, veremos que não foi sempre o que é, sofreu transformações e, por conseguinte, sofrerá, no futuro, de novo, outras mais. Devemos, portanto, considerar hoje que o estado atual da terra é apenas uma transição entre as mudanças passadas e as futuras.
Transição na qual as mudanças que se efetuam são imperceptíveis, embora sejam a uma escala muito maior do que as que se efetuam na maturação da maçã.
Vejamos, agora, o exemplo da sociedade, que nos  interessa particularmente. Apliquemos sempre os dois métodos: do ponto de vista metafísico, dir-nos-ão que houve sempre ricos e pobres. Constataremos que há grandes bancos, fábricas enormes. Dar-nos-ão uma descrição detalhada da sociedade capitalista, que compararemos com as sociedades passadas (feudal, escravagista), procurando as
semelhanças ou as diferenças, e diremos: a sociedade capitalista é o que é.
Do ponto de vista dialético, aprenderemos que a sociedade capitalista não foi sempre o que é. Se constatarmos que, no passado, outras sociedades viveram um certo tempo, será para deduzir que a capitalista, como todas as outras, não é definitiva, não tem base intangível, mas, pelo contrário, é para nós apenas uma realidade provisória, uma transição entre o passado e o futuro.
Vemos, por alguns destes exemplos, que considerar as coisas do ponto de vista dialético é considerar cada coisa como provisória, como tendo uma história no passado, e devendo ter outra no futuro, tendo um começo, e devendo ter,um fim...

II. — «Para a dialética, não há nada de definitivo, de absoluto, de sagrado...»
Para a dialética, não há nada de definitivo, de absoluto, de sagrado; apresenta a caducidade de todas as coisas e em todas as coisas, e, para ela, nada existe além do processo ininterrupto do devir e do transitório48.
Eis uma definição que sublinha o que acabamos de ver, e que vamos estudar:
«Para a dialética, não há nada de definitivo-». Isto quer dizer que, para a dialética, tudo tem um passado e terá um futuro; que, por conseguinte, nada é de uma vez para sempre, e o que é hoje não é definitivo.
(Exemplos da maçã, da terra, da sociedade.)
Para a dialética, não existe nenhum poder no mundo, nem para além dele, que possa fixar as coisas num estado definitivo, portanto, «nada de absoluto». (Absoluto significa: que não está submetido a qualquer condição; por conseguinte, universal, eterno, perfeito.)
«Nada de sagrado», isto não quer dizer que a dialética despreze tudo. Não! Uma coisa sagrada é aquela que se considera como imutável, que não se deve nem tocar nem discutir, mas só venerar. A sociedade capitalista é «sagrada», por exemplo. Pois bem! A dialética diz que nada escapa ao movimento, à mudança, às transformações da história.
«Caducidade» vem de «caduco», que significa: que cai; uma coisa caduca é a que envelhece e deve desaparecer. A dialética mostra-nos que o que está caduco já não tem razão de ser, que tudo está destinado a desaparecer. O que é jovem torna-se velho; o que hoje tem vida morre amanhã, e nada existe, para a dialética, «além do processo ininterrupto do devir e do transitório».
Portanto, colocar-se do ponto de vista dialético é considerar que nada é eterno, salvo a mudança. É considerar que nenhuma coisa particular pode ser eterna, senão o «devir».
Mas, o que é o «devir» de que Engels fala na sua definição?
Vimos que a maçã tem uma história. Tomemos agora, por exemplo, um lápis, que também tem a sua.
Este lápis, que hoje está usado, foi novo. A madeira de que é feito sai de uma prancha, e esta de uma árvore.
Vemos, pois, que a maçã e o lápis têm cada um a sua história, e, uma e outro, não foram sempre o que são.
Mas, há uma diferença entre essas duas histórias? Certamente!
A maçã verde tornou-se madura. Podia, sendo verde, se tudo corresse bem, não se tornar madura? Não, devia amadurecer, assim como, caindo à terra, deve apodrecer, decompor-se, libertar as sementes.
Enquanto que a árvore de onde vem o lápis pode não se tornar prancha, e esta não se tornar lápis. Este pode, ele próprio, ficar sempre inteiro, não ser afiado.
Constatamos, portanto, entre estas duas histórias, uma diferença. No caso da maçã, é a maçã verde que se tornou madura, se nada de anormal se produziu, e é a flor que se tornou maçã. Por conseguinte, a uma dada fase, outra se segue necessariamente, inevitavelmente (se nada parar a evolução)..
Na história do lápis, pelo contrário, a árvore pode não se tornar prancha, esta não se tornar lápis, este não ser afiado. Logo, a uma dada fase, pode não se seguir a outra. Se a história do lápis percorre todas essas fases, é graças a uma intervenção estranha - a do homem.
No caso da maçã, encontramos fases que se sucedem, a segunda derivando da primeira, etc. Ela segue o «devir» de que fala Engels. No exemplo do lápis, as fases justapõem-se, sem resultar uma da outra. É que a maçã, essa segue um processo natural.

III. — O processo.
(Palavra que vem do latim, e quer dizer: marcha em frente, ou o ato de avançar, de progredir.)
Por que é que a maçã verde se torna madura? É por causa do que contém, por causa de encadeamentos internos que a obrigam a amadurecer; é porque era, mesmo antes de estar madura, uma maçã, que não podia deixar de amadurecer.
Quando se examina a flor que se tornará maçã, depois, a maçã verde que se tornará madura, constata-se que os encadeamentos que impelem a maçã na sua evolução atuam sob o domínio de forças internas a que chamamos autodinamismo, o que significa: força que vem do próprio ser.
Quando o lápis era ainda prancha, foi preciso a intervenção do homem para o fazer tornar-se lápis, porque nunca a prancha se transformaria, só por si, em lápis. Não houve forças internas, autodinamismo, processo.
Portanto, quem diz dialética, não diz só movimento, mas, também, autodinamismo.
Vemos, pois, que o movimento dialético contém em si o processo, o autodinamismo, que lhe é essencial.
Com efeito, nem todo o movimento ou mudança é dialético. Se tomarmos uma pulga, que vamos estudar do ponto de vista dialético, diremos que não foi nem será sempre o que é; se a esmagarmos, certamente, haverá, para ela, uma mudança, mas será dialética? Não. Sem nós, não seria esmagada. Essa mudança não é dialética, mas mecânica.
Devemos, por conseguinte, prestar muita atenção quando falamos da mudança dialética. Pensamos que, se a terra continuar a existir, a sociedade capitalista será substituída  por uma outra e depois por outra. Isto será uma mudança dialética. Mas, se a terra explodir, a sociedade capitalista desaparecerá, não por uma mudança autodinâmica, mas por uma mecânica.
Numa outra ordem de ideias, dizemos que há uma disciplina mecânica quando não é natural. Mas é autodinâmica quando é livremente consentida, isto é, quando vem do seu meio natural. Uma disciplina mecânica é imposta de fora; vem de chefes que são diferentes dos que comandam. (Compreendemos, então, quanto a disciplina não mecânica, a autodinâmica, não está ao alcance de todas as organizações!)
É-nos preciso, pois, evitar servir-nos da dialética de uma maneira mecânica. É uma tendência que nos vem do nosso hábito metafísico de pensar. Não é necessário repetir, como um papagaio, que as coisas não foram sempre o que são. Quando um dialético diz isso, deve procurar nos fatos o que as coisas foram antes.
Porque dizer isso não é o fim de um raciocínio, mas o começo dos estudos para observar minuciosamente o que as coisas foram antes.
Marx, Engels, fizeram estudos longos e precisos acerca do que foi a sociedade capitalista antes deles.
Observaram os detalhes mais ínfimos, para notar as mudanças dialéticas. Lenine, para descrever e criticar as mudanças da sociedade capitalista, analisar o período imperialista, fez estudos muito precisos, consultou numerosas estatísticas.
Quando falamos de autodinamismo, também nunca devemos fazer dele uma frase literária, devemos empregar essa palavra apenas com conhecimento de causa, e para os que a compreendam totalmente.
Enfim, depois de ter visto, ao estudar uma coisa, quais são as suas mudanças autodinâmicas, e dito qual se constatou, é preciso estudar, procurar de onde vem que seja autodinâmica.
É por isso que a dialética, as pesquisas e as ciências estão estreitamente ligadas.
A dialética não é um meio de explicar e de conhecer as coisas sem as ter estudado, mas o de estudar bem e fazer boas observações, pesquisando o começo e o fim das coisas, de onde vêm e para onde vão.
48 Friedrich EINGELS: «Ludwig Feuerbach»

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