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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Os 18 motivos da mudança de postura dos EUA em relação a Cuba
Por Nazanín Armanian na Carta Maior
Ninguém estava pressionando um Barack Obama debilitado e exausto para que rompesse o tabu de restabelecer relações diplomáticas com Cuba,
lançando-se para os falcões belicosos. Neste mercado da política e da
realpolitik, no qual reina a lógica do custo-benefício, o pequeno
tamanho do mercado cubano e seus insignificantes recursos naturais não
explicam essa histórica decisão de Obama. Que sejam bem-vindas essas
nove reuniões em 18 meses com representantes de Cuba, e logo a confissão
da derrota, do triunfo do povo cubano e de todas as forças
progressistas do mundo que denunciavam o meio século de cruéis e inúteis
sanções, atentados, sabotagens, e outros atos de guerra contra a ilha
socialista, que se negou a se transformar em outro “estado falido”.
“Não podemos continuar fazendo a mesma coisa e esperar um resultado
diferente”. Este é o argumento oficial do Presidente para justificar a
nova política. Trata-se, portanto, de mudar as táticas para conseguir o
mesmo objetivo, que é provocar a mudança no sistema político cubano a
favor de seus interesses, desta vez mediante o uso do poder brando:
relações políticas, econômicas, sociais e culturais para “conquistar o
castelo de dentro”. Desde a queda da URSS até pouco tempo atrás,
Washington já não podia tratar Cuba como uma ameaça à sua segurança
nacional.
As coisas mudam quando a Rússia e a China reencontram os velhos
companheiros cubanos e começam a ampliar seus laços em todos os níveis, e
diante do olhar atento do Conjunto de Operações Especiais do Pentágono,
com sede na Flórida. O fato de não impor a Cuba qualquer condição para
dar esse passo (ao contrário das exigências feiras a Irã ou Rússia para
retirar sanções) se deve a essa preocupação e também ao fato de que
Havana não morria de vontade e de necessidade para se ver obrigada a
aceitá-lo, ainda que a imprensa democrática – com a finalidade de
acalmar as críticas – afirme que haja um compromisso dos cubanos para
restaurar o capitalismo, como o preço a pagar pelo fim do bloqueio.
Os três níveis das razões “não oficiais”
A. No contexto da política interna dos EUA, os seguintes fatores contaram na tomada de decisão por Obama:
1. O fato de o próprio presidente pertencer à corrente de
políticos que admite a decadência do império e a existência de uma nova
ordem multipolar, opondo-se aos falcões vestidos de armadura e presos à
ficção de se ver como a única e todo-poderosa superpotência. Já em 2004,
como senador, ele criticou o embargo.
2. O fato de ter feito isso a pouco tempo de deixar seu cargo, e
não durante os seis primeiros anos de mandato, é porque não tem nada a
perder: entrará para a história sem pagar qualquer custo político.
3. A impossibilidade de encontrar ou criar um líder carismático
entre os opositores exilados capaz de provocar um levante em Cuba: pois
as rebeliões populares surgem e triunfam sobre fundamentos objetivos e
não pela eloquência de salvadores de todo tipo. Além disso, as sanções
incrementavam os sentimentos anti-EUA do povo cubano, e também quanto à
legitimidade de seu governo. As medidas tomadas por Washington estão
sendo apoiadas inclusive pela maioria dos exilados cubanos, que assim
poderiam ampliar seus laços com a ilha.
4. Os EUA pretendem estar presente em Havana quando houver a
mudança geracional de seus líderes para poder influir sobre eles de
dentro.
5. Para a opinião pública norte-americana, esse gesto em relação
ao vizinho cubano é mais importante que os desastres deixados por Obama
no Iraque, Afeganistão, Paquistão, Iêmen, Ucrânia ou Síria. Além disso,
alivia a decepção dos eleitores democratas pelo descumprimento de suas
promessas eleitorais na política exterior.
B. No contexto da política regional:
1. Após o fracasso da estratégia de “Regresso à Ásia” para conter
a China, de ter sido arrastado às guerras do Oriente Próximo, e do
surgimento de governos de esquerda em vários países da região, Obama
decidiu “Regressar à América” para recuperar a influência debilitada
sobre os centenas de milhões de almas da América. Vai desenterrar a
Doutrina Monroe para aplicá-la à sua maneira, apesar de que John Kerry
ter dito no ano passado que essa doutrina havia morrido (mas também
disseram “saímos do Iraque, do Afeganistão, e fecharemos Guantánamo”).
2. As fortes e contínuas pressões dos países latino-americanos
sobre Washington deram frutos: por fim, conseguiram que Cuba estivesse
presente na Cúpula das Américas.
3. A necessidade de recuperar a projeção hegemônica em uma região
no auge econômico, e fazer isso com o controle dos grandes projetos de
infraestrutura, como o da ampliação do Canal do Panamá e das explorações
petrolíferas no Golfo do México.
4. Recuperar a Venezuela, e não apenas mediante o “dumping” dos
preços do petróleo (planejado com a cumplicidade da Arábia Saudita) ou
com provocações internas; mas sobretudo gerando distanciamento entre
Havana e Caracas. Cuba continua representando a resistência diante do
imperialismo, e há quem, inclusive na esquerda, chame de “vacilo” a
acertada política de Havana.
5. Trazer o Brasil para perto de si e tirá-lo dos Brics. Para os
estrategistas da Casa Branca, é inadmissível que se desfaça do dólar em
suas transações e, além disso, equipe seu exército com bilhões de
dólares de armas russas.
C. No contexto internacional:
1. Cuba em troca da Crimeia? Ainda que não tenham nada a ver,
essa iniciativa foi, sem dúvida, a jogada mais magistral de Obama contra
a China e a Rússia, que se atreveram a entrar de cheio no quintal dos
EUA. Passou despercebida a Resolução 758, aprovada em dezembro pelo
Congresso dos EUA, e que insta o governo e os países aliados não só a
armar a Ucrânia, mas a tomar medidas militares contra a Rússia.
Moscou, que se sente acurralada, em manobras sem precedentes, exibiu no
dia 31 de outubro o voo de seus quatro aviões Tu-95 (equivalente aos
B-52 americanos) no céu da OTAN, desde o Báltico até Portugal.
2. Não é motivo de preocupação para os EUA que a China, o
principal inimigo do império para Obama, tenha se transformado no
segundo sócio comercial de Cuba (e de outros países latinos) depois de
ninguém menos que a Venezuela?
3. O temor de que o aumento das relações de China e Rússia com a
região inclua também sua presença militar. Por isso, resgatam a memória
da crise dos mísseis de 1962 para justificar a difusão do medo. A
imprensa do dia 12 de novembro ressaltou que o ministro da Defesa russo,
Sergei Shoigu, organizou patrulhas nas águas do Golfo do México, ainda
que tenha desmentido que a Rússia fosse reativar as instalações de
espionagem eletrônica de Lourdes (Cuba), o mais potente centro de
escutas da URSS no exterior para monitorar as comunicações dos EUA.
Lourdes foi fechada em 2001 por problemas financeiros e também pela
pressão de Washington.
4. Os EUA, que agora dedicam poucos recursos na defesa de suas
fronteiras (enquanto investe quantidades absurdas para desestabilizar as
fronteiras dos demais, recorrendo à excepcionalidade dos EUA), se verão
forçados a investir dinheiro nisso e aumentar a militarização da
região. Este é um fator contraproducente para atrair a confiança de
estados que ele pretende iludir.
5. Obviamente, o peso do temor de perder a América Latina é muito
maior que o de fazer negócio com um pequeno e pobre país como Cuba (não
se trata de um Irã, de 80 milhões de consumidores e suas imensas
reservas de petróleo). Foi casual o fato de, um dia antes de anunciar a
boa notícia, Obama ameaçar Moscou com novas sanções?
6. Há cinco meses, quando houve a queda do avião malaio sobre a
Ucrânia, passou despercebida a notícia da visita de Vladimir Putin na
América Latina; poucos perceberam que Moscou havia perdoado 90% dos 26
bilhões de euros da dívida que Cuba havia contraído com a União
Soviética. Putin também assinou com Cuba importantes contratos de
investimento na indústria petrolífera da ilha, a construção do novo
aeroporto da capital, a criação de uma empresa aérea russo-cubana, e a
cooperação na produção de produtos farmacêuticos, agrícolas, de
transporte, mineração e turismo. Mas agora que a Rússia (assim como a
Venezuela) foi tocada pela queda dos preços do petróleo e pelas sanções
econômicas (e dificilmente possa cumprir os acordos), Mr. Marshall pensa
em chegar com seus milhões ao país que empobreceu previamente.
7. Para os russos, Cuba é mais do que uma questão geopolítica ou
de reputação. É uma questão sentimental. E acreditam que arranha a
imagem russa o fato de que agora os norte-americanos queiram ocupar seu
lugar na Ilha.
Moscou e Pequim opinam
Dmitry Rogozin, vice-primeiro-ministro russo, considera que a tática
calculada do novo enfoque da Casa Branca, mesmo sendo positivo para os
cubanos, não é mais do que um “abraço de urso” para estrangular Cuba.
A China elogia Obama por demonstrar que é um estadista que soube
transformar “um jogo de nenhum ganhador em um no qual todos ganham”, e o
vê como o “legado mais memorável de sua presidência”.
Os EUA não aprendem com seus erros
Reconhecer que o bloqueio econômico, comercial e financeiro contra Cuba
não provocou um levante popular contra o governo socialista não
significa que Washington vá deixar de utilizar essa tática – que,
segundo o direito internacional, é uma declaração ilegal de guerra
contra uma nação. Nem sequer funcionou contra o governo impopular de
Saddam Husein no Iraque, e é improvável que provoque mudanças nas
políticas de Putin.
Cuba, que se beneficia com a entrada de tecnologia e capital
norte-americanos – agora que a Rússia e a Venezuela estão sofrendo com a
sabotagem petrolífera –, não poderia nem deveria perder essa
oportunidade com o governo Obama: afinal, os mais belicosos ameaçam
ocupar o Salão Oval em 2016. Para além de toda a especulação sobre o
futuro de Cuba, hoje, vendo as nações inteiras que ardem no fogo das
guerras, o primordial é a defesa da diplomacia nos conflitos entre os
estados. A paz é a condição prévia para qualquer ação democrática.
É possível que o presidente Obama, com esse “pequeno” passo que deu com
Cuba, esteja dando um passo gigante para conseguir o grande prêmio de
sua política externa: Irã (e este é o 18º motivo). Ele conseguirá?
Fonte: Solidários
Fonte: Solidários
domingo, 4 de janeiro de 2015
A democracia começa na Grécia
Gregos vão às urnas em 25/1, podendo derrubar políticas de “austeridade” e iniciar uma revolução democrática. Por isso, FMI e Alemanha já chantageiam…
Talvez 2015 — um ano que promete tudo, menos pasmaceira — tenha começado antecipadamente nesta quarta-feira, 29/12. Fracassou uma manobra do primeiro-ministro grego, Antonis Samaras, para assegurar seu próprio mandato até 2016. Como resultado, haverá eleições parlamentares antecipadas em 25/1. Segundo as pesquisas, a Syriza — Frente de Esquerda Radical — é favorita para formar novo governo. Seu principal líder, Alexis Tsipras, declarou, minutos depois: “uma página foi virada. Em pouco tempo, as políticas de ‘austeridade’ impostas ao país farão parte do passado”. São, em dose mais radical, o mesmo que Joaquim Levy, o ministro da Fazenda escolhido por Dilma Roussef, quer impor ao Brasil, também a partir de 2015…
Uma vitória da Syriza teria consequências além da Grécia e da Europa. Desafiaria o estranho retorno do neoliberalismo — a política ultracapitalista que provocou a crise iniciada em 2008, mas que paradoxalmente recuperou influência, por faltarem, ainda, opções sistêmicas. Por isso, não será fácil. Imediatamente após anunciadas as eleições, o Fundo Monetário Internacional (FMI) suspendeu o pagamento de um empréstimo à Grécia, com o qual havia se comprometido. E o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schaueble, dirigiu-se aos gregos repetindo, “ipsis literis”, a frase de Margareth Thatcher: “não há alternativas”…
Os gregos se curvarão? Talvez seja o primeiro grande desafio de 2015, o primeiro ato a definir seu sentido. “Outras Palavras” celebrará, nas próximas horas: por um ano que sacuda os acomodados e acalente os inquietos! Foi ótimo ter sua companhia em 2014. Estejamos juntos nos tempos áridos, porém cheios de oportunidades, que se abrirão. Tin-tim! (A.M.)
—
Quando os EUA ocuparam o Iraque enviaram um homem para mandar no país: Paul Bremer foi o escolhido. O homem que usava terno e gravata com botas militares notabilizou-se por ter defendido publicamente o seguinte: os iraquianos vão ter uma democracia, vão poder eleger todo mundo, menos os partidos com que os americanos não estão de acordo.
Apesar de o Iraque desse tempo viver sob ocupação militar e a União Europeia ser um espaço formalmente constituído por países independentes, esta é a situação dos povos a mando da troika [FMI, Comissão Europeia e Banco Central Europeu]: os povos são livres para votar, desde que não ponham em causa a ordem imposta a partir do eixo Berlim-Bruxelas. E para lembrar isso aos mais recalcitrantes, usam-se todas armas disponíveis: depois de o FMI anunciar a suspensão do pagamento da sexta parcela de um empréstimo, o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble veio a público afirmar que “os gregos não têm alternativa” às políticas de austeridade.
A receita da chantagem e da pressão é velha, mas tem dado até agora os seus resultados. Em 2011 a troika anunciou também a suspensão de uma parcela, do primeiro empréstimo à Grécia. A decisão de ouvir o povo e fazer um referendo às medidas da troika, anunciada pelo então primeiro-ministro grego, Papandreu, deixou Berlim e Bruxelas em estado de guerra. O governo grego foi obrigado a recuar em toda a linha e a assumir que as imposições da troika não estavam sujeitas às decisões democráticas.
Nesta segunda tentativa de chantagem, a Grécia tem mais uns anitos de medidas impostas pelo estrangeiro que levaram à destruição do país e ao empobrecimento da sua população, o que faz com que nenhum habitante ignore que esta chantagem pode ser poderosa, porque apela ao medo do desconhecido. Mas sabem o fundamental: que a política da troika se limitou a garantir os lucros dos especuladores: roubar aos pobres para dar aos ricos. Nenhum dos problemas estruturais da economia grega foi resolvido: o país produz menos, tem mais desempregados, deve mais e está mais pobre e desigual. A única coisa que estas políticas, com selo da chanceler alemã, conseguiram foi dar mais dinheiro aos do costume: os especuladores e os muito ricos.
No dia 25 de Janeiro realizam-se eleições legislativas antecipadas na Grécia e pela primeira vez um partido antitroika pode ganhar. As sondagens dão como vencedor o Syriza (coligação de esquerda radical). Este pode ser o primeiro episódio de uma mudança diversa mas considerável na Europa. Depois da possível vitória da extrema-esquerda na Grécia, as sondagens dizem que em Espanha o Podemos poderá disputar o primeiro lugar das eleições. Na França, pode vir a triunfar a Frente Nacional e no Reino Unido cresce o UKIP. Todos estes partidos são diferentes, a única coisa que os une é responderem a um mal-estar crescente dos povos em relação à integração europeia e às políticas ditadas pelo governo de Berlim.
Aquilo que se verificou até aqui é que as políticas neoliberais esvaziaram a democracia e se tornaram cada vez mais autoritárias. Os povos votam em partidos diferentes, mas quem dá ordens é Berlim e Bruxelas, a mando dos interesses dos “mercados”. Até os Orçamentos do Estado passaram a ter de ter visto de Bruxelas. A única coisa que a integração na UE faz é garantir que todos pagamos os prejuízos dos especuladores financeiros. Foi esta a lição que nos deixou a crise financeira começada em 2008: quando os lucros da especulação eram altos, receberam os dividendos os especuladores accionistas do bancos; quando os bancos tiveram prejuízos ou foram à falência devido à especulação, pagamos nós. A nossa democracia foi expropriada para garantir a segurança dos lucros dos poderosos.
Só há alternativa a este estado de coisas devolvendo a soberania aos povos. A democracia só tem sentido se pudermos escolher caminhos diferentes. No dia 25 de Janeiro os gregos vão às urnas e isso pode ser o início de uma revolução democrática.
Fonte: OUTRASPALAVRAS
Washington Configurou 2015 Para Ser Um Ano de Conflito Intenso.
A Rússia também ainda continuava muito enfraquecida para poder fazer alguma coisa de quando o governo de George W. Bush se retirou do acordo ABM, [Acordo regulamentando a quantidade e o uso dos mísseis anti-balísticos] e de quando o mesmo começou a organizar a colocação de bases militares americanas, contendo mísseis anti-balísticos, nas fronteiras russas. Washington mentiu para a Rússia dizendo que o objetivo da colocação dessas bases seria o de proteger a Europa dos não-existentes ICBMs nucleares do Irã. [ICBM sendo então um míssel intercontinental anti-balístico]
Entretanto, na Rússia compreendeu-se que o real objetivo dos Estados Unidos era o de degradar a capacidade retaliatória da Rússia, aumentando dessa maneira a capacidade de Washington para coagir o país a entrar em acordos que comprometeriam a sua soberanidade.
No verão de 2008 a Rússia já tinha o seu poder como que restabelecido. Por ordens de Washington o exército da Geórgia, equipado e treinado pelos Estados Unidos e Israel, atacou a separatista República da Ossécia do Sul na madrugada de 8 de agosto, matando 8 membros das forças da paz assim como pessoas da população civíl. Sectores dos militares russos reagiram imediatamente a isso e dentro de poucas horas o exército da Geórgia, treinados pelos acima mencionados, tinha sido completamente derrotado. A República da Ossécia do Sul, na Geórgia, estava novamente em mãos russas, como essa província sempre tinha estado, desde pelo menos desde os séculos 19 e 20.
Putin deveria ter deixado Mikheil Saakashvili – esse fantoche americano instalado no poder como presidente da Geórgia pela “Revolução Rosa” a qual foi instigada por Washington – ser enforcado. Entretanto, num erro estratégico, a Rússia retirou suas forças deixando o governo fantoche de Washington no lugar para causar futuros problemas para a Rússia.
Washington faz muita pressão para incorporar a Geórgia na OTAN e isso principalmente para poder pôr mais bases militares na fronteira russa. Tem-se entretanto também aqui que, na época do sucedido, Moscou via a Europa como bastante mais independente de Washington do que ela realmente era, acreditando que mantendo boas relações com a mesma iria impedir bases militares americanas a serem estabelecidas na Geórgia.
Hoje em dia o governo russo já não tem mais nenhuma ilusão quanto a Europa ser capaz de uma política exterior independente. O Presidente Vladimir Putin da Rússia declarou publicamente que a Rússia tinha compreendido que diplomacia com a Europa não fazia muito sentido, e isso porque os políticos europeus estavam representando mais os interesses de Washington do que os da Europa.
O Ministro dos Negócios e Relações Exteriores da Federação Russa, Sergei Lavrov, reconheceu recentemente que a categorização da Europa como uma entidade constituida por Nações Captivas tinha deixado claro para a Rússia que gestos de boa vontade da Rússia quanto a mesma não poderiam produzir, nessas circunstâncias, desejados efeitos diplomáticos.
Com o evaporar-se das ilusões de que diplomacia com o ocidente iria produzir soluções pacíficas, e com a realidade reafirmando-se, começou então a escalação da demonização de Vladimir Putin por Washington em conjunto com seus países vassálos. Tem-se Hillary Clinton nesse cenário até chamando Putin, de Hitler.
Enquanto Washington incorpora as ex-partes constituintes da Rússia e do império soviético no seu próprio império, e bombardeia sete outros países, Washington ao mesmo tempo vai declarando que Putin é militarmente muito agressivo, e que ele tem intenções de reconstruir o império soviético.
Washington arma o sistema neo-nazi, que Obama estabeleceu na Ucrânia, enquanto erradamente declara que Putin invadiu e anexou províncias ucranianas. Todas essas bramantes mentiras repetem-se, aos milhares, e em éco, pela mídia prostituta do ocidente. Nem mesmo Hitler teve a sua disposição uma tal complacente mídia como Washington.
Todos os esforços diplomáticos da Rússia tem sido bloqueados por Washington, acabando-se por se poder contar o resultado como zero e nada mais. Dessa maneira a Rússia foi forçada, pela realidade, a atualizar sua própria doutrina militar. A nova doutrina, aprovada em 26 de dezembro, afirma que os Estados Unidos e a OTAN constituem a principal ameaça militar para a existência da Rússia, como país independente e soberano.
O documento russo declara a doutrina de guerra de Washigton – na qual a aceitação da idéia de um ataque preventivo, a colocação de mísseis anti-balísticos [ditos de defesa mas na realidade de agressão], assim como a contínua construção das forças da OTAN, e a intenção dos americanos de colocarem armas no espaço – como uma clara indicação de que Washington está se preparando para atacar a Rússia.
Washington também está a conduzir guerra político-econômica contra a Rússia, tentando destabilizar a economia russa com sanções e ataques a moeda russa, o rublo. O documento russo reconhece que a Rússia enfrenta ameaças de mudança de regime [lê-se ameaças de golpe de estado] por parte do ocidente. Esse objetivo seria então conseguido através de “ações com a finalidade de violentamente mudar a ordem constitucional russa, com a destabilização da realidade político-social, da desorganização do funcionamento das instituições governamentais, e das principais e cruciais instituições civís e militares, assim como da infraestrutura informal da Rússia.”
As organizações não governamentais estrangeiras, ONGs, e a mídia russa, que é dirigida como propriedade de estrangeiros, são instrumentos nas mãos de Washington, que usam esses instrumentos para destabilizar a Rússia.
As agressivas e irresponsáveis diretivas políticas de Washington contra a Rússia fez por ressucitar a corrida de armamentos nucleares. A Rússia agora está desenvolvendo dois novos sistemas ICBM [de mísseis intercontinentais anti-balísticos] e em 2016 deverá colocar sistemas de armamentos designados a neutralizar os sistemas de mísseis anti-balísticos dos Estados Unidos. Em resumo, os instigadores de guerra que governam em Washington puseram o mundo a caminho do armageddon nuclear.
Tanto o governo da Rússia como o da China já compreenderam que suas respectivas existências estão sendo ameaçadas pelas ambições de hegemonia, ou seja de dominância, de Washington. Larchmonter apresentou relatórios que mostravam que, partindo do princípio de Washington ter planos para marginalizar os dois países, tanto a Rússia quanto a China decidiram-se por unificar suas economias, criando sectores de uma economia conjunta, conquanto também unificando seus comandos militares. Daqui por diante tem-se então que a Rússia e a China estarão andando conjuntamente, tanto no plano econômico como no militar.
http://www.mediafire.com/view/08rzue8ffism94t/China-Russia_Double_Helix.docx
Essa união do Urso Russo com o Dragão Chinês reduz o sonho dos conservativos americanos quanto a um “século americano” a um puro disparate. Larchmonter caracteriza isso assim: “Os Estados Unidos e a OTAN precisariam do Arcanjo Miguel para derrotar essa união Sino-Russa, mas ao que tudo indica o Arcanjo Miguel já está alinhado com o Urso Russo, e sua cultura ortodoxa. Não há armas, estratégias ou tácticas concebíveis que possam, num futuro próximo, conseguir causar maiores estragos a essas duas economias emergentes, agora que estão atuando em parceria.”
Larchmonter tem esperanças na nova geopolítica criada pela atuação conjunta da Rússia e da China. Eu não tenho nada contra essa sua conclusão, mas se os arrogantes conservativos compreenderem que as suas diretivas políticas para uma hegemonia mundial encontraram agora um inimigo que não poderão derrotar, eles irão pressionar para um ataque nuclear preventivo, antes que o comando unitário Russo-Chinês esteja operacional. Para se proteger contra um ataque à-surpresas, a Rússia e a China fariam melhor em operar em completa e total prontidão nuclear.
A economia dos Estados Unidos – na realidade a inteira ocidente-orientada economia indo do Japão a Europa – é um castelo de cartas. Desde que o declínio econômico começou, a cerca de 7 anos atrás, a inteira economia ocidental foi dirigida para o apoio de uns poucos bancos super-dimensionados, ao crédito soberano, e para o apoio do U.S. dólar. Em consequência disso as próprias economias assim como a capacidade das populações para manejar a situação foram se deteriorando.
Os mercados financeiros baseiam-se agora em contínuas manipulações e não em fundamentos sóbrios. Tem-se depois aqui que essas manipulações são insustentáveis. Com o débito explodindo os juros reais negativos não fazem sentido. Com a renda real do consumidor, assim também como o seu crédito real, e a real venda de produtos no comércio de varejo estagnados, ou em queda branta, o mercado de valores, fundos e ações, não pode ser outra coisa que uma bolha [a ser furada].
Com a Rússia e a China, assim como outros países, distanciando-se do uso do dólar no mercado internacional, e com a Rússia desenvolvendo uma alternativa rede bancária internacional SWIFT, enquanto os BRICS desenvolvem alternativas ao FMI e ao Banco Mundial, de quando outras partes do mundo desenvolvem seus próprios cartões de crédito e sistemas de Internet, o dólar americano, conjuntamente com as moedas do Japão e da Europa – que estão sendo imprimidas para sustentar o valor de câmbio do dólar – poderiam vir a experimentar uma dramática queda no mercado de câmbio, o que faria com que a economia de importação-dependente do ocidente se tornasse disfuncional.
Na minha opinião tomou muito tempo para que a Rússia e a China compreendessem a perversidade e malevolência que controla Washington. Por conseguinte, ambas estão a arriscar um ataque nuclear antes da total operacionalidade da implementação de sua defesa conjunta. Como a economia do ocidente é como um castelo de cartas, a Rússia e a China poderiam pô-la em colápso antes que os neoconservativos pudessem levar o mundo a guerra. Como a agressão de Washington contra os dois países é clara como cristal, não deixando nem sombras de dúvidas, tanto a Rússia como a China teriam todo o direito de tomar medidas defensivas.
Como os Estados Unidos estão conduzindo uma guerra financeira contra a Rússia, essa poderia reivindicar que arruinando a economia russa o ocidente a depravou da sua capacidade de pagar seus empréstimos aos bancos ocidentais. Se isso não fosse o suficiente para quebrar os fragilmente capitalizados bancos europeus, a Rússia poderia declarar que os países da OTAN – agora oficialmente reconhecidos pela nova doutrina de guerra da Rússia como inimigos do estado – tinham colocado a Rússia na situação de que ela não mais poderia apoiar a agressão da OTAN contra si, através de vender gás natural aos países membros dessa organização. Caso o fechamento de muitas das indústrias europeias, o aumento do desemprego e as quebras dos bancos não resultassem na dissolução da OTAN, e portanto ao fim das ameaças,os chineses poderiam começar a agir. [ênfases acrescentadas]
Os chineses tem um grande número de bens, valores e títulos denominados em dólares. Como os agentes da Reserva Federal [os denominados bancos de ouro ou bullion banks] inundam os futuros mercados com massivas quantidades de papéis de valor – “shorts”, em períodos de pouca atividade com a finalidade de abaixar o preço do ouro, a China poderia então inundar o mercado, em poucos minutos, com os seus papéis denominados em dólares com o equivalente a anos de flexibilização quantitativa, ou seja, massiva impressão de dólares.
Se a Reserva Federal, FED, [12 bancos particulares] rápidamente então criasse os dólares com os quais pudessem comprar essa massiva quantidade de papéis de valor da China, que no caso seriam os papéis denominados como “Treasuries” - para que o castelo de cartas deles não se desmoronasse – os chineses então poderiam inundar o mercado de divisas, mas dessa vez com os dólares que se lhes pagam pelos títulos. Conquanto a Reserva Federal pode imprimir dólares com os quais comprar os papéis denominados Treasuries, a Reserva Federal (FED) não pode imprimir moedas estrangeiras com as quais comprar os dólares.
O dólar entraria em colápso e com ele o poder do “Hegemon” – do Dominador. A guerra teria acabado sem um único tiro, ou míssel deslanchado.
Do meu ponto de vista, e nessa situação, tanto a Rússia quanto a China teriam uma obrigação moral em relação ao mundo quanto a impedir a guerra nuclear, que os conservativos que controlam as diretivas políticas dos Estados Unidos tem a intenção de deslanchar, simplesmente através de responder, a altura, a guerra econômica de Washington.
Tanto a Rússia quanto a China não deveriam dar avisos prévios. Aqui exige-se ação determinada. Agir passo a passo não seria o suficiente. A descarga deverá ser solta de vez. Com 4 U.S. bancos mantendo os papéis denominados “derivados” – os quais totalizam em muitas vezes o PIB do mundo – a explosão financeira seria equivalente a uma nuclear.
USA estaria terminado e o mundo salvo.
Larchmonter tem razão. 2015 pode ser um muito bom ano.
Paul Craig Roberts
Paul Craig Roberts, “Washington Has Shaped 2015 to Be a Year of Conflict. The Conflict Could Be Intense”- Strategic Culture Foundation, 29-12-2014.
Traduzido e síntese por Anna Malm, artigospoliticos.com, para Mondialisation.ca
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