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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A Autocrítica dos Black Bloc

Por Kiko Nogueira do Diário do Centro do Mundo

Os manifestantes fazem um exame de consciência e reclamam que sua conduta tem rendido fracassos e isolamento.
black blocs
Os manifestantes adeptos da chamada estratégia Black Bloc estão no meio de uma encruzilhada existencial. Nem a direita e nem a esquerda os vêem com simpatia. A origem do movimento é antiglobalização. Apareceram na Alemanha, na década de 80. Tinham um cunho anarquista. Sem liderança específica, se dizem uma organização horizontal.
Nos protestos, eles serviram, de certo modo, como escudo para o Movimento Passe Livre durante os enfrentamentos com a PM. Pouco depois começaram a aparecer os problemas. As pessoas que tinham certa consciência da tática BB (atacar símbolos do capital, como bancos ou filiais do McDonald’s), se viram acompanhadas de jovens apolíticos, violentos e a fim de depredar qualquer coisa, protegidos pelo anonimato da multidão. Como diferenciar uns dos outros?
Recentemente, a filósofa Marilena Chauí declarou que os black blocs tinham inspiração fascista. “Não é anarquismo”, disse ela. “Não usam violência revolucionária”. Eles também tiveram de lidar com uma virada na opinião pública. No Rio de Janeiro, se eles eram vistos com simpatia no início, agora os moradores dos edifícios lhes atiram garfos e colheres.
A situação chegou a tal ponto que os BB cariocas fizeram um exame de consciência e publicaram uma autocrítica em sua página no Facebook. “A destruição do patrimônio público e privado à “la bangu”, tem sido frenquente e muitas vezes de forma injustificável! Banca de jornal atacada? Por quê? Pra quê?”, diz o texto. “Estamos isolados, ao ponto de tacarem talheres dos prédios”.
O “comunicado oficial” do Black Bloc RJ:
Nas últimas semanas temos notado um aumento na rejeição da ação Black Bloc por parte da população em geral e até de alguns outros grupos que também possuem reivindicações que nós consideramos sérias. Alguns falarão: “E daí?” “Bando de Coxinhas” e etc… Será? Sabemos que boa parte dessa rejeição é devido à mídia, que é declaradamente contra o movimento, mas também é verdade que pseudo-ativistas que dizem usar a tática Black Bloc tem contribuído MUITO para esta má fama. Muitos destes para nós, não se diferenciam dos numerosos coxinhas que encheram a Presidente Vargas no famosos dia 20, pelo simples fato de não saberem o porquê de estarem nas ruas, “Querem se divertir” ou “Querem brigar com a PM” como ouvi outro dia. E desde quando esse foi o objetivo? A rejeição do povo não é boa, porque nós somos o povo e deveríamos representá-los.
A destruição do patrimônio público e privado à “la bangu”, tem sido frenquente e muitas vezes de forma injustificável! Banca de jornal atacada? Por quê? Pra quê? É compreensível quando arrancamos placas de trânsito e queimamos lixeiras para fazer barricadas contra o avanço da polícia porque nós sabemos o que eles fazem, mas o que temos visto é um descontrole, um corre-corre, perdoem-nos o termo, imbecil, que só faz dispersar o grupo tornando a palavra BLOCO, uma piada! E muitas vezes desse corre-corre temos como resultado carros danificados, lixo na rua, e patrimônio privado e público destruído sem justificativa alguma. E as pessoas que fazem isso ainda não perceberam que elas só estão facilitando o trabalho da oposição seja ela mídia, governo, polícia, etc… e atrapalhando outras pessoas assim como a gente ou você que está lendo esse texto agora, que trabalha e luta para tentar ser feliz. E os verdadeiros marginais continuam rindo em paz. É impressionante termos que tocar nesse assunto novamente, mesmo depois de produzirmos um vídeo que teve mais de 500 mil acessos só na primeira semana.
A cena dos “meninos” tirando fotos no Largo do Machado após quebrarem vidros de automóveis, derrubar banheiros químicos e destruir placas de rua foi patética. Se alguém conseguir nos apontar algum resultado positivo nisso, damos um prêmio!! E sinceramente, para nós não há a mínima diferença entre eles e os coxinhas que tiraram fotos com a cara pintada para colocar no Facebook no início das manifestações. Sabemos que isso foi tudo, menos uma ação BB, e sabemos que não foi ação de manifestantes que sabem a luta que é manter isso aqui de pé, mas como sempre, caiu na conta do Black Bloc, e mais uma vez, enfraqueceu o movimento, ao ponto de estarmos isolados. Quem está nas ruas e tem o mínimo de bom senso, sabe sobre o que estamos falando. 
O ponto precípuo da tática Black Bloc é dar resultados, antes de qualquer filosofada anárquica dos dissidentes de plantão. Se o que tem sido adotado até então não tem rendido mais frutos e sim fracassos, é hora de rever tal conduta, não? 
Para que o movimento fique mais forte, pessoas que não concordam com as ações BB, mas que gostariam de protestar, devem ter seu espaço, sim. Os coxinhas devem ter seu espaço! Assim como os demais grupos. Devemos lembrar antes de mais nada, que NÃO SOMOS DONOS DAS MANIFESTAÇÕES ALHEIAS e públicas, portando, não somos nós que devemos conduzi-las, nem devemos ser o motivo para que estas terminem antes que seus objetivos principais sejam concluídos, ainda mais por causa de adolescentes que ainda não conseguem controlar seus hormônios. 
Segundo, servimos de proteção aos manifestantes contra a ação repressiva da polícia, mas se o povo não concorda com nossa atuação não temos motivo de agir junto delas, nem razão para estarmos ali e por isso reafirmo que estamos isolados, ao ponto de tacarem talhares dos prédios. 
Quando nós fazemos nossas convocações, aí sim, devemos tomar as rédeas. O aumento do diálogo nas convocações é também fundamental. Essa notificação não é uma cartilha de como agir ou uma tentativa de impor coisa alguma. Simplesmente, é a visão de quem está nas ruas sempre dando a cara à tapa e tem visto mais fiascos do que vitórias ultimamente com o crescimento do grupo. E acreditem, isso cansa! Por isso ressaltamos, se metade do grupo tiver essa noção, a AUTO GESTÃO coletiva aparecerá espontaneamente e ela tem que aparecer. As ações estranhas à tática devem ser contidas pelo grupo, coloquem isso nas cabeças de vocês, se não o movimento apodrecerá de dentro para fora. E todos os fatores externos que querem nos derrubar sabem disso e estão rindo. A grande maioria cai que nem um patinho nas armadilhas feitas pelos nossos verdadeiros inimigos e simplesmente não conseguem ver isso.
Devemos rever a tática Black Bloc urgentemente e para isso, na próxima convocação, antes de sair de casa, pense nisso tudo que você acabou de ler aqui, para que tenhamos um diálogo produtivo, assim como uma ação produtiva. Pessoas que são contra a mudança das ações atuais, que concordam com as atitudes imaturas dos últimos protestos, favor não comparecer. Daqui em diante, só iremos comparecer nas nossas próprias convocações e quando formos convidados e/ou apoiados pelo grupo organizador. Portanto, coxinhas sintam-se à vontade para marcar o protesto que quiserem. Estamos mudando para tornar o Black Bloc RJ maior e mais forte, além de fugir desse caminho que temos seguido, o de um grupo de maratonistas sem ideal e sem união!
Para finalizar, ressaltamos a importância do diálogo para que haja organização e união entre os Black Bloc, portanto, dialoguem, dêem sugestão, critiquem o que houver de errado, porque acreditamos em uma horizontalidade – mesmo que teoricamente não sejamos um grupo – e que todos têm o direito – principalmente como cidadãos – de se expressarem e por fim e de tamanha importância, acreditamos piamente em uma grande melhora/evolução proveniente da consciência de cada um. Reflitam!


Bertolt Brecht: a cultura em favor de um mundo novo

Publicado no jornal  AVERDADE

Playwright Bertolt BrechtQual boletim de sindicato, de movimento popular, jornal ou outras publicações de esquerda não citaram o “Analfabeto Político”; não mencionaram que ninguém chama de violentas as margens que oprimem o rio; não alertaram para o individualismo e o comodismo de quem não se preocupa que alguém lhe tire uma rosa do jardim, que sequestrem o vizinho porque não tem nada a ver com isso, até que seja tarde demais; “Há homens que lutam a vida toda…”. Às vezes, sim, às vezes, não, escreve-se o nome de quem elaborou esses pensamentos tão profundos e eternos.
A mesma Alemanha que gerou Hitler para a destruição da Humanidade, produziu seu antídoto sintetizado pelo filósofo que não veio para interpretar, mas para transformar o mundo (Karl Marx) e no campo da cultura, pelo genial Eugen Bertholt Friedrich Brecht. Ele nasceu no dia 10 de fevereiro de 1898, em Augsburg, extremo sul da Alemanha. Mudou-se para Berlim no final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Viveu na juventude toda a efervescência e acirradas lutas de classes da República de Weimar.
Poucos e Frutíferos Anos
As perdas humanas e territoriais que a Rússia teve na Primeira Guerra Mundial foram compensadas pelo avanço que significou a Revolução Bolchevique (1917). Já o povo alemão, nada ganhou. Derrotada, a Alemanha teve de assinar o Tratado de Versalhes em condições humilhantes. Com o rabo entre as pernas, o Império (II Reich) saiu de cena e cedeu lugar à República, fundada na cidade de Weimar.
Nas condições em que surgiu, tendo de assinar a rendição, sem provocar alterações no sistema econômico (capitalista), o povo não entendeu a República como uma conquista. Consideravam-na fraca, elemento que seria muito bem explorado pelos nazistas para obter a adesão popular a um regime totalitarista que acenava com a perspectiva de uma nação forte, dominadora, e anunciava a superioridade da raça ariana e o resgate do seu poderio. O fim do regime republicano ocorre em 1933, com a ascensão de Adolf Hitler ao Governo e ao poder.
Mas foram anos intensos em que, influenciado pela Revolução Russa, o povo alemão viveu lutas memoráveis, inclusive uma tentativa de tomada do poder à bolchevique, com a Revolução Espartaquista (1919)(1). No campo da cultura, a efervescência dos anos 20 do século passado não teve precedente nem consequente.
Brecht, que já iniciara sua produção teatral no interior, bebe das fontes revolucionárias, representadas na Alemanha por Erwin Piscator, por meio do qual conhece, assimila e se aprofunda na teoria e na prática da Proletkult (Cultura Proletária) russa (1917-1926). Inspiram-no Emilevitch e Victor Chklovski , com sua teoria do estranhamento.
Isto é, tirar o convencional do palco, causar estranheza para provocar a reflexão. O público deixa de ser mero espectador para participar de todo o processo da produção teatral: montagem, ensaios, encenação, debates posteriores, sempre contribuindo, questionando, intervindo. O Construtivismo negava a arte pela arte, arte como simples entretenimento ou produto de mercado. O teatro épico se contrapõe ao teatro dramático, de origem grega, cuja definição se faz por ninguém mais, ninguém menos que Aristóteles, em sua Poética: “…conduz o espectador a uma ilusão da realidade e redução da percepção crítica”.(2) No teatro épico revolucionário a diferença não está apenas na objetividade do conteúdo, mas também na forma, dialeticamente relacionados: o proletariado vai para o palco (conteúdo) e o palco vem para o meio do proletariado (forma. A criação também se tornou prioritariamente coletiva; a esta prática, Brecht não aderiu inteiramente, dada a sua genialidade como autor.
Brecht não foi apenas dramaturgo. Foi poeta, pensador e pôs a mão no cinema. Nesses aspectos, as influências também são grandiosas e revolucionárias: o grande poeta Maiakovski (3), o não menos festejado cineasta Sergei Eisestein e as técnicas de colagem de Picasso (4)adaptadas para o teatro e o cinema(5).
Nos anos 20, o rádio era, ainda, uma experiência embrionária. Brecht previu sua importância como instrumento de educação, mobilização, formação de opinião do povo. Escreveu a TEORIA DO RÁDIO, à qual a esquerda não deu muita importância, infelizmente, porque Hitler soube utilizá-la magistralmente.
Com a subida de Hitler e do nazismo ao poder, qualquer sopro de criação, qualquer movimento de massa à esquerda foi esmagado sem dó nem piedade. Além de artista revolucionário, Bertolt Brecht se filiara ao Partido Comunista da Alemanha no final dos anos 20. Antes de ser massacrado pela bota opressora, exilou-se. Longe do movimento de massas, dedicou-se à reflexão sobre o teatro e a arte em geral, escreveu poemas e produziu peças. Nestas, sem abrir mão da objetividade revolucionária, deu ênfase também ao comportamento, aos sentimentos humanos, sem esconder que eles provêm da vida social. Foram as peças desse período que o tornaram conhecido mundialmente. Entre outras, A Mãe, O Casamento do Pequeno-Burguês, O Círculo de Giz Caucasiano, Os Fuzis da Senhora Carrar.
Passou pela Áustria, Suíça, Dinamarca, Finlândia, Suécia, Inglaterra, Rússia, Estados Unidos. Em 1947, dois anos após o término da Segunda Guerra Mundial, retorna à Alemanha, vivendo na parte oriental, que passou a compor o bloco socialista. Aí, fundou a Companhia Teatral Berlim Ensemble, que encenava, principalmente, suas peças, e publicou suas Obras Completas. Recebeu o Prêmio Stalin da Paz em 1954. Faleceu no dia 14 de agosto de 1956, aos 58 anos de idade.
Brecht no Brasil
A influência brechtiana no Brasil remonta aos anos 40 e teve seu auge nos anos que antecederam ao golpe de estado de 1964, com o Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE, o Teatro de Arena, o Teatro do Oprimido, o Cinema Novo. Autores como Dias Gomes, Augusto Boal, IdibalPiveta, Glauber Rocha, Zé Celso Martinez têm maior ou menor referência em Brecht.
No período da ditadura, se a expressão é bem mais difícil, a referência continua forte e reflui nos anos 80/90. Ocorre que a redemocratização trouxe a ilusão de volta e a crença, tantas vezes refutada pela História, de que a via institucional é capaz de promover a transformação da sociedade. Assim, em vez de mobilizar, organizar e desenvolver a consciência de classe, a grande maioria da esquerda passa a preocupar-se com a conquista do voto. Esta guinada foi influenciada também pelo fim do bloco socialista soviético. A burguesia cantou vitória e afirmou: a História terminou.
Demorou pouco para a História seguir seu curso e para a Teoria Marxista comprovar seu caráter científico: enquanto houver divisão de classes, a luta será o motor da História. O capitalismo cava a própria cova, enredado em suas contradições insolúveis. A crise se instalou na periferia, atingiu o centro e não vislumbra solução dentro do sistema, e o povo oprimido saiu da acomodação tanto lá como aqui.
Mas nem todo mundo se rendeu (ou se vendeu) ao canto da sereia burguesa. Em 1997, nasce em São Paulo a Companhia do Latão7, com a proposta de resgatar Brecht, sem dogmatismo, pois isto seria trair a teoria brechteana. Em 1998, é celebrado o centenário de nascimento do grande dramaturgo e poeta, com encenação de peças, debates, conferências e outras atividades.
A proposta de um teatro, de uma arte, que não seja mero entretenimento para o “respeitável público” é mais atual do que nunca. É preciso que seja retomada não apenas como expressão da vida do povo, mas como meio de transformação a partir da reflexão, da participação, da organização.
A peça Ensaio sobre o Latão, encenada pela Companhia do Latão, termina com o Diretor falando: “…Queremos espectadores despertos capazes de sonhar em pleno dia…”. É dizer, não sonhar o sonho impossível, que acontece muitas vezes durante o nosso sono. Mas sonhar acordado, com os pés no chão, aquele sonho mobilizador de que falava Lenin, parodiando o poeta Pisarev. O sonho que não se sonha só, mas é um sonho coletivo, que nega a realidade em que vivemos, supera o comodismo e nos mobiliza em vista da sociedade sem classes que enxergamos numa revolucionária visão do futuro.
José Levino é historiador
Notas
1.  Sobre a Revolução Espartaquista, leia A Verdade, nº 59, no artigo da pg. 12, dedicado a Rosa Luxemburgo.
2. Citado por Camila HespanholPeruchi em Companhia do Latão, uma experiência com teatro dialético no Brasil – projeto de iniciação científica – Universidade Estadual de Maringá (PR).
3. Sobre Maiakovski, leia artigo em A Verdade, nº 149.
4. Sobre Pablo Picasso, leia A Verdade, nº 90.
5. Brecht, entre documentários e filmes de menor repercussão, produziu KuhleWampe, filme sobre a vida e os anseios da classe operária.
Louvor do Revolucionário
Bertolt Brecht
Quando a opressão aumenta
Muitos se desencorajam
Mas a coragem dele cresce.
Ele organiza a luta
Pelo tostão do salário, pela água do chá
E pelo poder no Estado.
Pergunta à propriedade:
Donde vens tu?
Pergunta às opiniões:
A quem aproveitais?
Onde quer que todos calem
Ali falará ele
E onde reina a opressão e se fala do Destino
Ele nomeará os nomes.
Onde se senta à mesa
Senta-se a insatisfação à mesa
A comida estraga-se
E reconhece-se que o quarto é acanhado.
Pra onde quer que o expulsem, para lá
Vai a revolta, e donde é escorraçado
Fica ainda lá o desassossego.

NA PRESSA PARA ATACAR A SÍRIA, EUA TENTA IMPEDIR QUE A ONU INVESTIGUE




Gareth Porter, InterPress Service
http://www.ipsnews.net/2013/08/in-rush-to-strike-syria-u-s-tried-to-derail-u-n-probe/
Depois de ter insistido, de início, que a Síria desse pleno acesso aos investigadores da ONU, até os locais onde teria havido um atentado com gás venenoso, o governo do presidente Barack Obama mudou de conversa no domingo; e passou a tentar, sem sucesso, que a ONU abortasse sua própria investigação.
Essa virada repentina, que aconteceu horas depois de Síria e ONU terem acertado os detalhes da ação dos investigadores, foi noticiada pelo Wall Street Journal na 2ª-feira e confirmada no mesmo dia, mais tarde, por um porta-voz do Departamento de Estado.
No encontro com a imprensa na 2ª-feira, o secretário de Estado John Kerry, que chegou a falar por telefone com o secretário-geral da ONU Ban Ki-Moon, para que suspendesse a investigação – a qual, segundo Kerry, teria chegado tarde demais para obter provas válidas do ataque que, para fontes da oposição síria, teria feito 1.300 vítimas.
A mudança repentina e a repentina aberta hostilidade contra a investigação da ONU, que coincidem com indicações de que o governo Obama planeja um grande ataque militar contra a Síria para os próximos dias, sugere que o governo Obama entende que a ONU esteja atuando como obstáculo para seus planos de atacar militarmente.
Na 2ª-feira, Kerry disse que, na 5ª-feira, havia alertado o ministro Moallem, de Relações Exteriores da Síria, para que desse acesso imediato à equipe da ONU e suspendesse os bombardeios naquela área, os quais, disse Kerry, estariam “sistematicamente destruindo provas”. Disse que o acerto entre Síria e ONU, que afinal deu pleno acesso aos investigadores, estaria acontecendo “tarde demais para ter credibilidade”.
Mas logo depois de o acordo ter sido anunciado no domingo, Kerry já havia telefonado a Ban, tentando cancelar completamente qualquer investigação.
O Wall Street Journal noticiou a pressão sobre Ban, mas sem mencionar Kerry.[1] Publicou que “funcionários não identificados do governo disseram ao secretário-geral que já não é seguro que os inspetores continuem na Síria e que a missão deles já não faz sentido.”
Mas Ban, que sempre foi visto como instrumento dócil das políticas dos EUA, recusou-se a retirar da Síria a equipe de investigadores e, em vez de obedecer, “manteve-se firme na defesa dos princípios” – como escreveu o WST. O que se sabe é que Ban ordenou que a equipe de investigadores da ONU “continue seu trabalho.”
O WST noticia que “funcionários dos EUA” disseram também ao secretário-geral que os EUA “não acham que os inspetores conseguirão obter provas aproveitáveis, dado que já transcorreu muito tempo e bombardeios subsequentes destruíram as provas que houvesse.
A porta-voz do Departamento de Estado, Marie Harf, confirmou para jornalistas que Kerry, sim, falou com Ban durante o fim-de-semana. Também confirmou a mudança de posição dos EUA sobre as investigações. “Acreditamos que passou tempo demais e houve tal destruição na mesma área que a investigação não terá credibilidade” – disse ela.[2]
Essa mesma ideia apareceu também em declaração de “alto funcionário”, anônimo, no domingo, para o Washington Post, segundo a qual as provas teriam sido “significativamente corrompidas” por bombardeios subsequente, pelo regime, na mesma área.[3]
“Agora já não cremos que a ONU possa fazer investigação confiável sobre o que aconteceu” – disse Harf. – “Estamos preocupados, porque o regime sírio está usando a tática de atrasar as investigações, para continuar a bombardear e destruir provas na área.”
Mas Harf não explicou como o cessar-fogo que o governo sírio impôs na área a ser investigada e a decisão de dar pleno acesso aos investigadores da ONU poderiam ser interpretados como “continuar a bombardear e destruir provas na área.”
Apesar dos esforços dos EUA para fazer-crer que a política síria seria política de “atrasar”, a verdade é que o pedido formal da ONU para que a equipe chegasse ao local não havia sido encaminhado ao governo sírio, até que Angela Kane, Alta Representante da ONU para Temas de Desarmamento, chegou a Damasco no sábado; foi o que informou Farhan Haq, como porta-voz de Ban, em briefing à imprensa, em New York, na 3ª-feira.
Na 3ª-feira, o ministro sírio de Relações Exteriores Walid al-Muallem disse, em conferência de imprensa, que ninguém havia pedido à Síria qualquer autorização para que a ONU tivesse acesso à área de East Ghouta, até que o pedido afinal apareceu, encaminhado por Angela Kane, no sábado. No dia seguinte, a Síria informou que o pedido fora a aceito, bem como o cessar-fogo na mesma área.
Haq discordou frontalmente do que Kerry dissera sobre ser tarde demais para recolher provas sobre o incidente do dia 21/8. “O gás Sarin deixa rastros que podem ser detectados meses depois de o gás ser usado”, disse ele, como o New York Times noticia.[4]
Especialistas em armas químicas também sugeriram, em entrevistas para nosso InterPress Service, que a equipe de investigadores da ONU – coordenada pelo renomado especialista sueco Ake Sellström e reunindo vários especialistas requisitados da Organização para Prevenção de Armas Químicas – teria meio para confirmar ou descartar, em apenas alguns poucos dias, a acusação de ataque com gás de efeito neurológico ou por outra arma química na área investigada.
Ralph Trapp, consultor para temas relacionados à proliferação de armas químicas e biológicas, disse que se sentia “razoavelmente confiante” de que a equipe da ONU conseguirá esclarecer o que houve. “Eles podem oferecer resposta altamente confiável à questão de saber se houve ataque químico; e eles podem também dizer qual o produto químico usado como arma” – disse ele –, a partir de exame de amostras de sangue, urina e cabelo dos mortos e feridos. Há até “alguma chance” de recolher resíduos químicos, de pedaços de munição ou de cartuchos, nos locais investigados. E uma análise completa, disse Trapp, exige “vários dias”.
Steve Johnson, que dirige um programa de investigação forense de armas químicas, biológicas e radiológicas na Cranfield University na Grã-Bretanha, disse que até o final da semana a ONU já saberá se “houve mortes provocadas por agente químico de efeito neurológico”. Johnson disse também que, sendo absolutamente urgente, a equipe conseguiria produzir “alguma espécie de primeira estimativa tendencial” sobre a questão, no prazo de 24 a 48 horas.
Dan Kastesza, veterano que serviu durante 20 anos no Corpo de Armas Químicas do Exército dos EUA [orig. U.S. Army Chemical Corps] e foi conselheiro da Casa Branca sobre proliferação de armas químicas e biológicas, disse à InterPress Service que, de fato, não se procura traços de gás sarin em amostras de sangue, mas das substâncias químicas que são produzidas quando o gás sarin se decompõe. Kastesza disse também que, depois de recebidas as amostras, os especialistas podem saber, “no período de um ou dois dias”, se houve contato com gás sarin ou outro produto químico dos que se usam como arma.
A verdadeira razão da hostilidade do governo Obama contra a investigação pela ONU parece ser o medo de que a decisão do governo sírio, de dar livre acesso aos especialistas, indique que o governo sírio já sabe que os investigadores não encontrarão qualquer evidência de uso de gás de efeito neurológico.
Os esforços do governo dos EUA em 2013 para desacreditar a investigação dos especialistas fazem lembrar o que fez o governo de George W. Bush contra os inspetores da ONU, em 2002 e 2003, depois que não encontraram qualquer prova de que haveria armas de destruição em massa no Iraque; o governo Bush, daquela vez, recusou-se a dar mais tempo aos inspetores, de modo que não conseguissem demonstrar cabalmente, por prova irrefutável, que não havia no Iraque nenhum programa ativo de produção armas de destruição em massa.
Nos dois casos, o governo dos EUA já decidiu ir à guerra. E não permitirá que se produza informação que se contraponha à sua decisão.
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[1] http://online.wsj.com/article/SB10001424127887323407104579036173795495190.html
[2]http://www.scoop.co.nz/stories/WO1308/S00483/us-state-department-daily-press-briefing-august-26-2013.htm
[3] http://www.washingtonpost.com/blogs/right-turn/wp/2013/08/26/too-little-too-late-in-syria/
[4]http://mobile.nytimes.com/2013/08/28/science/not-easy-to-hide-a-chemical-attack-experts-say.html?from=global.home

Fonte: PÁTRIA LATINA

Fidel Castro: A mentira tarifada

De PÁTRIA LATINA

O que me move a escrever é o fato de que estão para ocorrer acontecimentos graves. Não transcorrem em nossa época 10 ou 15 anos sem que nossa espécie corra perigos reais de extinção. Nem Obama nem ninguém poderia garantir outra coisa; digo isto por realismo, já que somente a verdade nos poderia oferecer um pouco mais de bem-estar e um sopro de esperança. Em matéria de conhecimentos, chegamos à maior idade. Não temos direito a enganar nem a nos enganarmos.
Em sua imensa maioria a opinião pública conhece bastante sobre o novo risco que está às suas portas.
Não se trata simplesmente de que os mísseis de cruzeiro apontem para objetivos militares da Síria, mas que esse valente país árabe, situado no coração de mais de um bilhão de muçulmanos, cujo espírito de luta é proverbial, declarou que resistirá até o último alento a qualquer ataque a seu país.
Todos sabem que Bashar al Assad não era político. Estudou medicina. Graduou-se em 1988 e se especializou em oftalmologia. Assumiu um papel político com a morte de seu pai, Hafez al Assad, no ano 2000 e depois da morte acidental de um irmão, antes de assumir aquela tarefa.
Todos os membros da Otan, aliados incondicionais dos Estados Unidos e uns poucos países petroleiros aliados ao império naquela região do Oriente Médio, garantem o abastecimento mundial de combustíveis de origem vegetal, acumulados ao longo de mais de um bilhão de anos. Em contrapartida, a disponibilidade de energia procedente da fusão nuclear de partículas de hidrogênio, tardará pelo menos 60 anos. A acumulação dos gases de efeito estufa continuará, assim, crescendo a elevados ritmos e após colossais investimentos em tecnologias e equipamentos.
Por outro lado, afirma-se que em 2040, em apenas 27 anos, muitas tarefas que a polícia realiza hoje, como impor multas e outras tarefas, seriam realizadas por robôs. Imaginam os leitores quão difícil será discutir com um robô capaz de fazer milhões de cálculos por minuto? Na realidade era algo inimaginável há alguns anos.
Há apenas algumas horas, na segunda-feira, 26 de agosto, notícias das agências clássicas, bem conhecidas por seus serviços sofisticados aos Estados Unidos, dedicaram-se a difundir a informação de que Edward Snowden teve que se estabelecer na Rússia porque Cuba tinha cedido às pressões dos Estados Unidos.
Ignoro se alguém em algum lugar disse algo ou não a Snowden, porque essa não é minha tarefa. Leio o que posso sobre notícias, opiniões e livros que são publicados no mundo. Admiro o que há de valente e justo das declarações de Snowden, com o que, a meu juízo, prestou um serviço ao mundo ao revelar a política repugnantemente desonesta do poderoso império que mente e engana o mundo. Com o que eu não estaria de acordo é que alguém, quaisquer que fossem os seus méritos, possa falar em nome de Cuba.
A mentira tarifada. Quem a afirma? O diário russo “Kommersant”. O que é esse libelo? Segundo explica a própria agência Reuters, o diário cita fontes próximas ao Departamento de Estado norte-americano: “o motivo disso foi que no último minuto Cuba informou às autoridades que impediram que Snowden tomasse o voo da companhia aérea Aeroflot.
“Segundo o jornal, […] Snowden passou um par de dias no consulado russo de Hong Kong para manifestar sua intenção de voar para a América Latina, via Moscou.”
Se eu quisesse, poderia falar destes temas sobre os quais conheço amplamente.
Hoje observei com especial interesse as imagens do presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro, durante sua visita ao navio principal do destacamento russo que visita a Venezuela depois de sua escala anterior nos portos de Havana e da Nicarágua.
Durante a visita do presidente venezuelano ao navio, várias imagens me impressionaram. Uma delas foi a amplitude dos movimentos de seus numerosos radares capazes de controlar as atividades operacionais da embarcação em qualquer situação que se apresente.
Por outro lado, indagamos sobre as atividades do jornal mercenário “Kommersant”. Em sua época, foi um dos mais perversos veículos de imprensa a serviço da extrema direita contrarrevolucionária, a qual se aproveita do fato de que o governo conservador e lacaio de Londres envie seus bombardeiros à base aérea no Chipre, prontos para lançar suas bombas sobre as forças patrióticas da heróica Síria, enquanto no Egito, qualificado como o coração do mundo árabe, milhares de pessoas são assassinadas pelos autores de um grosseiro golpe de Estado.
É nesse clima que se preparam os meios navais e aéreos do império e de seus aliados para iniciar um genocídio contra os povos árabes.
É absolutamente claro que os Estados Unidos sempre tratarão de pressionar Cuba como faz com a ONU ou qualquer instituição pública ou privada do mundo, uma das características dos governos desse país e não seria possível esperar de seus governos outra coisa; mas não é vão que há 54 anos se resiste defendendo sem trégua — e o tempo adicional que for necessário —, enfrentando o criminoso bloqueio econômico do poderoso império.
Nosso maior erro é não termos sido capazes de aprender muito mais em muito menos tempo.
Fidel Castro Ruz
27 de agosto de 2013,