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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Como funcionava a democracia soviética nos anos 30(1)



 

 

Sam Darcy(2)

 

(…) Em Dezembro de 1936, o Partido Comunista devia realizar as eleições anuais dos
seus dirigentes. Até ali, as candidaturas e eleições para cargos partidários tinham sido
sempre feitas abertamente. Mas devido a esta prática havia membros que se sentiam
muitas vezes constrangidos em expressar a sua oposição a certas figuras poderosas dos
comitês executivos, com receio de represálias. O Comitê Central decidiu então submeter toda a direção a um teste para saber se os seus membros tinham realmente a aceitação das bases. Aqueles que realizavam um serviço público útil seriam provavelmente reeleitos, enquanto outros, que estavam simplesmente agarrados a uma sinecura e a um lugar de poder, dificilmente manteriam os seus cargos. Com este fim foi introduzido o voto secreto.
Os resultados foram surpreendentes. Em algumas organizações distritais do partido,
direções inteiras foram varridas das suas funções. Noutras houve uma sanção severa à
direção através de um forte voto de oposição, embora, no seu conjunto, a direção nacional do partido tenha recebido um retumbante apoio. O partido sentiu-se fortemente revigorado pelos novos quadros eleitos e pelo afastamento daqueles que se tinham tornado burocratas empedernidos e já não eram bem-vistos em cargos de direção.
Desde a implantação do poder soviético que a luta contra a burocracia constituía uma
das principais tarefas assumidas pelos dirigentes mais responsáveis. O nepotismo, o
favoritismo e as práticas de grupos fracionistas tinham criado uma situação malsã:
quando alguém chegava a um posto de responsabilidade, na indústria ou serviço do
Estado, trazia imediatamente como adjuntos todas as pessoas que, por uma razão ou
outra, favorecia, e colocava-as nos melhores postos sob a sua dependência. Com
frequência estas pessoas não eram qualificadas e mesmo quando o eram o sentimento de que tinham um protetor levava-as a tornarem-se preguiçosas e burocráticas. Além disso, estes dirigentes tinham tendência para aumentar o pessoal acima das necessidades da empresa, fosse porque queriam «cuidar» de todos os seus amigos, fosse porque sentiam que quantas mais pessoas estivessem sob o seu controlo, maior era a sua influência.
O problema tornou-se de tal modo sério que o governo adotou medidas que
começaram a ser aplicadas em 1935. Em dada altura surgiu uma grave penúria de braços para a colheita. Em contrapartida estimava-se que havia pelo menos 25 mil funcionários públicos em Moscou que não eram absolutamente necessários para assegurar o normal funcionamento da economia do país. Depois de uma campanha educativa, cada instituição do Estado recebeu simplesmente uma quota de trabalhadores que teria de destinar ao trabalho agrícola. Após uma seleção adequada, 25 mil funcionários foram transferidos de Moscou para os locais de produção.
A batalha para manter o país nos eixos, contra a paralisia crescente (que, por um lado, a
oposição tentava deliberadamente apresentar e, por outro, a simples existência da
burocracia tinha tendência a provocar), foi travada com particular severidade nas eleições gerais, realizadas em Dezembro de 1935, para o Congresso dos Sovietes da URSS,( 3) que procedeu à aprovação da nova Constituição [em Dezembro de 1936].
A observação de perto destas eleições impressionou-me, uma vez que, em todas as
discussões sobre a democracia soviética e na sua comparação com as práticas
democráticas noutros países, raramente se obtinha uma imagem do funcionamento dos
canais da expressão democrática do povo no novo processo eleitoral.
Vendo isto a três mil milhas de distância, pareceria que havia um boletim de voto e que
ao povo era dada a possibilidade de votar «sim» ou «não». Isso era de fato verdade nas
eleições nazis, mas constituía uma imagem completamente falsa no que respeita à União Soviética.
Para começar, na União Soviética, a política e as eleições não são deveres especiais de
um partido político. Se não compreendermos este fato essencial, tudo o resto será
provavelmente confuso. As escolhas para cargos públicos não são feitas apenas por um
partido político. É certo que o partido comunista apresenta muitos candidatos, mas
também os sindicatos indicam candidatos independentes para cargos políticos, tal como as cooperativas, as organizações culturais, as academias científicas, as organizações da juventude, as organizações de mulheres e quaisquer outras instituições ou organizações que o desejem. Em suma, as nomeações para cargos públicos, que no nosso país emanam unicamente dos partidos políticos, na União Soviética emanam de todas as organizações populares possíveis.
A segunda coisa que se tem de compreender a respeito das eleições soviéticas, e que
lhes confere a sua qualidade democrática especial, é o fato de o momento decisivo da
seleção dos candidatos não está na votação final, mas no processo de apuramento das
candidaturas.
Tive o privilégio de observar do princípio ao fim as candidaturas e as eleições na zona
em que vivi e trabalhei. A eleição específica a que me refiro foi para os delegados ao
Congresso dos Sovietes da URSS, que equivale à eleição dos membros para a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos em Washington. Cada instituição da circunscrição eleitoral em que residi e trabalhei realizou as suas reuniões para a apresentação de candidatos. Houve reuniões nas fábricas. A Universidade de Moscou que se situava nesta circunscrição realizou a sua reunião. O pessoal da Grande Biblioteca Lênin reuniu-se para designar candidatos. Também o fizeram todas as associações cooperativas de lojas comerciais da zona, os sindicatos, o partido comunista, as organizações de juventude, etc.
Em cada reunião era proposto um grande número de candidatos. O procedimento de cada candidato consistia em levantar-se, apresentar uma breve biografia e as razões pelas quais considerava que a sua candidatura deveria ser ou não aceite. A recusa por parte do nomeado era vista como uma falta de responsabilidade cívica. Se considerava que não devia ser eleito, tinha o dever de subir ao palanque, apresentar a sua breve biografia e explicar porque é que a sua nomeação não devia ser aceite. Este processo durou duas semanas inteiras. Algumas organizações reuniam-se todas as noites durante este período para examinar milhares de candidaturas. Cada candidato tinha de se submeter às perguntas da assembleia. No final, um ou mais candidatos eram propostos para representar toda a circunscrição, com indicação do organismo que os tinha escolhido.
Para além da propor os seus candidatos, cada grupo elegeu um determinado número de
delegados, numa base de representação proporcional, à conferência congressual da
circunscrição. Os trabalhos desta conferência duraram também cerca de duas semanas. As candidaturas foram apresentadas a este órgão. Seguiu-se o mesmo procedimento. Cada candidato foi examinado, confrontaram-se as respectivas qualificações com as dos
restantes candidatos e finalmente as propostas foram colocadas à votação dos delegados para uma seleção final.
Com frequência este órgão aprovava não um mas dois, três ou mesmo mais candidatos.
Depois deste meticuloso processo de apuramento, os candidatos eram submetidos ao
eleitorado para uma votação final. E assim, o eleitorado escolhia por maioria de votos um dos candidatos que representaria a circunscrição no Congresso dos Sovietes da URSS.
Por aqui se pode ver que, longe carecer de democracia, este é um processo muito
democrático, uma vez que dá às pessoas comuns a possibilidade de participar de forma
muito direta na escolha dos candidatos, e nós sabemos pelo nosso próprio sistema
eleitoral que, em última análise, a escolha do candidato é o aspecto crítico de qualquer
eleição.
Nas eleições de que fui testemunha vi candidatos a serem «passados pelo crivo» de uma maneira que seria muito benéfica se fosse aplicada no nosso país. As suas contribuições e participação nas atividades sociais, o seu interesse pelos assuntos públicos, o seu historial de serviços prestados desinteressadamente, os seus estudos, educação e grau de aproveitamento em termos de progresso pessoal e de benefício para a sociedade – tudo passava pelo crivo. Um indivíduo com má conduta pessoal e moral que se apresentasse como candidato era logo confrontado em plena assembleia pelos vizinhos e colegas de trabalho que o conheciam bem. Em certos aspectos assemelhava-se à nossa «Reunião de Cidade»(4) da Nova Inglaterra, aplicada à colossal escala nacional, num sufrágio que envolvia 170 milhões de pessoas. É deste processo que provém o incentivo à participação e empenhamento social e o interesse das pessoas pelos assuntos públicos em todo o país.
Nestas eleições, por exemplo, cerca de metade dos membros do Congresso dos Sovietes da URSS não foram reeleitos. Muitas figuras gradas bem instaladas, incluindo numerosos membros do partido comunista, ficaram surpreendidas quando no final das eleições se viram rejeitadas, enquanto muitas outras pessoas, que nem sequer eram membros do partido comunista e que nunca tinham pensado em cargos políticos, mas que haviam prestado grandes serviços à causa pública, com verdadeira devoção pelas pessoas, nas suas profissões ou ocupações, ou nalguma organização de voluntariado, viram-se membros do órgão supremo de poder da URSS, o novo Congresso dos Sovietes da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Este é um novo tipo de democracia e eu diria que os serve muito bem.
Cada geração tem de estar vigilante em relação às suas próprias liberdades. Ninguém
pode garantir as liberdades das gerações vindouras. As liberdades conquistadas podem
voltar a perder-se. Por conseguinte, a mera organização eleitoral mecânica não é em si
uma garantia para sempre de que as liberdades do povo serão salvaguardadas, mas, na
medida em que é possível orientar uma qualquer estrutura política para dar a melhor
resposta aos anseios e necessidades das pessoas, eu diria que a União Soviética tem feito grandes progressos nessa direção.
Mas mesmo a União Soviética, como constantemente nos recordavam, não é uma
entidade isolada vivendo no vácuo, ela faz parte do mundo real. A Europa Ocidental e a
Ásia estavam em efervescência com as primeiras batalhas da II Guerra Mundial. Havia
coisas a fazer para ajudar o povo espanhol sitiado, havia ainda o movimento clandestino nos países dominados pelos nazis, a organização de movimentos de frente popular contra os nazis nos países democráticos e o crescimento das forças anti-japonesas na China.
O meu interesse primordial era obviamente os Estados Unidos. Mas os Estados Unidos
também não vivem como um entidade isolada, no vácuo, e o futuro do nosso país decidia se em grande medida na Europa e na Ásia. Como milhares de outros americanos decidi dar uma ajuda lá onde pudesse ser útil. Tive sorte de poder fazer uma escolha quase livre. 

1 Texto transcrito por George Gruenthal, do manuscrito das Memórias de Sam Darcy, capítulo XX, pp. 25-31, Biblioteca Tamiment, Nova Iorque.

2 Darcy, Sam Adams, verdadeiro nome Samuel Dardeck, (1905-2005), dirigente do Partido Comunista dos EUA, nasceu na Ucrânia, donde foi levado pelos pais para os Estados Unidos, tinha apenas três anos de idade. Em 1920 adere à Liga dos Jovens Trabalhadores e, antes de ingressar na Universidade de Nova Iorque, trabalha no Daily Worker, o órgão central do partido.

3 Secretário nacional da Liga dos Jovens Trabalhadores Comunistas (1925-27), é designado, em 1927, representante dos EUA no Comitê Executivo da Internacional da Juventude Comunista, em Moscou. Regressando ao país em 1928, foi editor do Daily Worker e diretor da Workers School de Nova Iorque. Na primeira metade dos anos 30 dirige o partido no Estado da Califórnia. Em 1935 volta para Moscou, como  representante do PCEUA na Internacional Comunista. A partir de 1938, como representante do Comitê Central, desempenha tarefas de direção em várias regiões
dos EUA, porém, devido à sua oposição ativa ao então secretário-geral, Earl Browder, é expulso do partido em 1944, permanecendo um ativista político até ao fim da vida (8 de Novembro de 2005). Com vários livros publicados sobre temas políticos, sociais e econômicos, as suas memórias permanecem em manuscrito, na Biblioteca Tamiment, em Nova Iorque. (N. Ed.) 

4 No original: New England Town Meeting. A «Reunião de Cidade» é uma forma de governo local em alguns estados dos EUA. Surgiu na região da Nova Inglaterra ainda nos tempos coloniais, sendo adotada no século XIX noutras regiões do país. (N. Ed.)

sábado, 19 de janeiro de 2013

Um dos objetivos principais de Martí era a unidade latino-americana

  

  
Imagen activaHavana (Prensa Latina) Para José Martí um dos objetivos principais de seu trabalho editorial era convocar - através de seus textos - à unidade latino-americana, explicou o pesquisador Pedro Pablo Rodríguez, Prêmio de Ciências Sociais 2009 em Cuba.
"Não contei, mas é espantosa a quantidade de artigos de opinião onde Martí chama à unidade latino-americana", assinalou Rodríguez, se referindo ao Martí diretor da La América em 1884, onde definiu, avisou e pôs em alerta a classe letrada hispano-americana sobre as intenções dos Estados Unidos com a região ao sul do rio Bravo, no México.

Para o também Prêmio de História 2010, o Apóstolo através daquela publicação se dirigiu aos políticos, militares e à própria burguesia em formação então para lhes dizer que o país do norte oferecia negócios com a Hispano-américa, mas advertiu sobre a necessidade de compreender que essa relação mercantil devia ser estabelecida segundo os interesses dos latinos.

Em La América, considerou o pesquisador titular do Centro de Estudos Martianos, o escritor analisou o Tratado de Reciprocidade Comercial entre o México e os Estados Unidos e o condenou baseado em um princípio muito contemporâneo da teoria econômica: não se pode falar de reciprocidade entre duas economias absolutamente assimétricas.

Em referência às publicações dirigidas pelo jornalista (Revista Venezolana, La América, La Edad de Oro e Patria), o doutor em Ciências Históricas afirmou que estava desenvolvendo uma estratégia política do ponto de vista editorial com a missão de fazer consciente ao público.

Com relação ao jornalismo martiano, o diretor da Edição Crítica das obras completas do herói da independência, afirmou que para ele essa profissão e ofício tinha um caráter formador, um forte sentido ético, o que é visível em todos seus textos.

"O estilo aforístico e o uso da imagem são características essenciais não só de seu estilo como escritor, como também de sua forma de pensar. Martí pensava por imagens com aforismos, que é a maneira de sintetizar seu julgamento ético", comentou.

Sobre a Revista Venezolana (Caracas, julho 1881), Rodríguez comentou que, ao ler os dois números, nota-se que seu diretor promoveu o pensamento, a literatura, o intercâmbio de ideias. A respeito, comparou que La América (Nova York, 1884) também tinha esse caráter de certo modo, mas expôs que por depender de anúncios estava obrigada a procurar um público mais amplo que o da Revista Venezolana porque aquela era para as classes ilustradas e também para as pessoas de negócios.

Desde que Martí chegou a Caracas, no final de janeiro de 1881 - e talvez já estava indicando desde antes em sua estadia na Guatemala (1877-1878) - tinha um conceito de que uma época nova estava se abrindo no mundo, considerou.

"O Maestro tinha claro que não exisita um estado social ainda definitivo e isso é para ele uma oportunidade, algo positivo enquanto fator que permitia aos povos latino-americanos procurar seu caminho para se inserir nessa modernidade a partir de sua própria autonomia e originalidade.

"Abriu espaço a estudos de cultura popular, de linguística e antropologia, como o texto dedicado ao Dicionário de vocábulos indígenas. A Revista Venezolana conseguiu ser bem mais ampla que a maioria das revistas literárias da época. Em suas páginas se evidencia a vontade de Martí de não repetir o esquema de publicações para poetas e narradores".

Ao perguntar sobre o princípio do Maestro de "ensinar sem que pareça", esboçado na contra-capa do La Edad de Oro (julho-outubro de 1889), Rodríguez afirmou que isso é básico no bom jornalismo e que Martí o aplicou em toda sua obra jornalística.

"Deu-se conta de que tinha que fazê-lo com este público, porque uma publicação dirigida às crianças não funciona exatamente com os mesmos mecanismos mentais e culturais de um adulto.

"Este é um dos exemplos mais notáveis da eficácia do jornalismo martiano porque La Edad de Oro se converteu em um clássico da literatura infantil, ao ponto das gerações seguintes já não a lerem como uma revista, mas como um livro.

"O bom texto para crianças, de alguma maneira tem que envolver o adulto e se o consegue, é uma mostra mais de sua capacidade, qualidade e eficácia do ponto de vista literário".

A Pátria (março 1892- maio 1895), o estudioso qualificou como um semanário de opinião, de luta política, de combate.

"Foi um jornal para formar consciências e com uma claríssima e orientada função ideológica, portanto, aí estava o artigo de fundo ou o editorial junto com a nota informativa em função do problema central que justificava a Pátria: a independência de Cuba".

Com respeito à seção En Casa, publicada na Pátria, manifestou que era típico nova-iorquino, combinava o social e o patriótico: "É a crônica social do patriotismo dos emigrados de Nova York e de outras partes dos Estados Unidos".

Essa coluna encaixava perfeitamente com os propósitos gerais independentistas da publicação e ao mesmo tempo mostrava a riqueza daquele editor, diretor que foi Martí, opinou.

Sabia que era imprescindível, sustentou, captar a atenção dos leitores com o artigo de fundo ou o trabalho analítico, e também com a crônica da vida social da emigração, que incluía o trabalho dos Clubes membros do Partido Revolucionário Cubano.

Em sua opinião, no poeta, o literário era essencial: "Não é possível separar o jornalístico do literário nele".

"Era evidente naquele jornalista a renovação literária na linguagem, na expressão, nas ideias, no manejo das metáforas. Suas capacidades narrativas e descritivas se dão através deste exercício do jornalismo, essa é sua literatura".

Como mostra desse jornalismo literário, usou como exemplo a seção En Casa: "Eram pequenos relatos da vida real dessa emigração patriótica, mas que Martí manejava com uma eficácia tremenda a narração. Então: quanto tinha de verdade e de fictício? Até onde entrava a capacidade recreativa da ficção?"

"Com En Casa se propôs convencer o leitor da necessidade da independência de Cuba e do papel de Cuba independente pela via dos sentimentos, os ânimos e a paixão. Apelou ao subjetivo junto ao intelectual e ao racional", sintetizou o também jornalista Pedro Pablo, que confessou que teria gostado de escrever uma seção como aquela.

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*Versão feita pelo correspondente da Prensa Latina na Guatemala de entrevista realizada a Pedro Pablo Rodríguez no dia 14 de abril de 2009 para sua tese de mestrado "América Latina para os latino-americanos. Aproximação à construção da notícia nas publicações dirigidas por José Martí (1881-1895)".

*Correspondente da Prensa Latina na Guatemala

Alemanha: A chanceler de ferro na defensiva

       

  
Imagen activaBerlim (Prensa Latina) Nos últimos dias do ano de 2012, a chanceler alemã, Angela Merkel, ficou mais sozinha que 12 meses atrás.
O crescente isolamento do governo alemão a nível europeu e a resistência política no interior preocupam a "chanceler de ferro".

Durante sua última declaração de governo, Merkel, de 58 anos, pareceu rendida, comentou o jornal Sueddeutsche Zeitung, "esgotada das mesmas lutas de sempre pelo resgate do euro".

Sem dúvida alguma, Merkel e seus partidos de coalizão receberam muita resistência nos últimos 12 meses.

No começo do ano passado, apresentou-se com uma clara pretensão de encabeçar a União Europeia, no meio da crise mais grave em sua história.

Mas a vitória eleitoral de Francois Hollande na França e a resistência cada vez mais aberta dos governos do sul da Europa puseram limites a Berlim.

Em vista desta situação, Merkel assumiu pouco a pouco as posições de seus adversários, comentaram com ironia representantes da oposição nacional, ao pôr como exemplo a separação da responsabilidade de bancos e estados.

Com este tema e outros, a França e os países do sul europeu conseguiram impor seus conceitos sobre as propostas da rica e poderosa nação germânica.

A imagem da "chanceler de ferro" que faz questão de uma férrea política de austeridade tem sofrido bastante.

E se isso não fosse suficiente, cada vez mais chefes de governos se distanciam da dirigente democrata-cristã.

Faz poucos dias, o primeiro-ministro renunciante de Itália, Mario Monti, recusou que se comparem suas políticas com as de Merkel.

"Nossa política não se parece em nada", disse o político, ao sublinhar as diferenças na situação dos dois países.

"Nós damos mais peso ao crescimento que a senhora Merkel", agregou Monti, numa clara tentativa de distanciar-se da mandatária alemã. "Compartilhamos somente o M do início do sobrenome", acrescentou com ironia.

Ao mesmo tempo, também na Alemanha aumentou-se a pressão para uma mudança política.

Mais pobreza e desigualdade social, um aumento permanente do nível do preço do aluguel e um sistema social em crise escurecem o balanço do governo.

Sobretudo, as reformas neoliberais do mercado trabalhista provocam debates em nível nacional.

O Partido da Esquerda criticou reiteradamente o número crescente de trabalhadores e empregados com salário baixo.

Como parte de uma resposta a uma interpelação parlamentar dos socialistas, o Ministério de Trabalho reconheceu que em 2011 mais de 1,21 milhão de pessoas com escassa renumeração dependiam de ajudas sociais adicionais.

Segundo a resposta ministerial, o estado tinha que contribuir com 10,73 bilhões de euros, o que o copresidente do partido socialista considerou como "subvenção de salários de fome".

O paradoxo político é, que, no meio desta situação, não há uma alternativa na política partidária.

O Partido Socialdemocrata da Alemanha acercou-se nos últimos anos da Democracia Cristã de Merkel, pelo que já não consegue superar os 25 por cento nas pesquisas.

E ainda que o relativamente jovem partido socialista Die Linke (A Esquerda) tenha superado uma crise interna, quase não consegue ultrapassar os 10 por cento nas pesquisas em vista de uma permanente campanha mediática contra si.

Assim terminou o ano de 2012 com a conclusão de que os confrontos se intensificarão diante das eleições parlamentares no outono deste ano.

No meio da crise do euro, o ano 2013 trará mudanças decisivas para a nação alemã.

A questão é se Angela Merkel ainda estará.

* Corresponsável da Prensa Latina na Alemanha

Brasil: Conquistas sociais e desafios econômicos para 2013

Dilma RousseffBrasília (Prensa Latina) O governo da presidenta brasileira Dilma Rousseff deixou para trás um 2012 com uma importante redução da pobreza extrema e avanços significativos nos setores sociais, mas enfrenta em 2013 desafios econômicos.

       
 
  
O fraco crescimento da economia no ano passado, ao redor de um porcento do Produto Interno Bruto (PIB), obrigará à mandatária, que inicia este ano a segunda metade de seu mandato, a dedicar esforços para conquistar maior competitividade da indústria nacional.

Depois de receber uma economia com um crescimento de 7,5% em 2010, e atingir a cifra de 2,7% em 2011, os especialistas começaram a falar de uma desaceleração do PIB brasileiro, a sexta economia do planeta.

Para o governo federal, este limitado crescimento está relacionado aos efeitos da crise econômica mundial, problemas de competitividade e infraestrutura, assim como a desvalorização do real (moeda nacional), depreciado ao redor de 10% em relação ao dólar estadunidense.

Estamos conscientes dos desafios que a crise internacional tem lançado sobre o país e sabemos também que os momentos de crises podem ser transformados em grandes oportunidades, realçou Rousseff recentemente.

Depois de mostrar otimismo em dezembro sobre o desenvolvimento do Brasil neste novo período, a mandatária chamou os empresários a investir mais e transformar os atuais momentos de crise em grandes oportunidades.

As medidas adotadas por sua administração - como a diminuição de impostos no setor industrial, a entrega de créditos a pequenas empresas e agricultores, assim como planos de incentivos - ajudam a conter a queda do PIB.

2013 começa com uma redução de 16,2% nas tarifas de eletricidade para o setor residencial e até 28% para a indústria, o que promoverá a redução nos custos de produção e estimulará a manufatura.

Alguns dos investimentos estão garantidos, como a construção e reforma de 10 mil quilômetros de vias férreas e 7,5 mil quilômetros de estradas, e também a modernizarão dos portos e aeroportos tendo em vista maior eficiência no transporte de mercadorias e passageiros.

Uma maior intervenção e investimento do Estado estão previstos em projetos estratégicos para estimular os setores industriais e alcançar um crescimento de cerca de quatro porcento este ano.

Apesar do modesto crescimento econômico de 2012, outras esferas mostraram avanços alentadores que confirmam a confiança dos brasileiros em um melhor futuro e no governo do Partido dos Trabalhadores.

A chefa de Estado chega à metade de seu mandato com uma melhor avaliação que a de qualquer um de seus antecessores no mesmo momento, pois os questionários da empresa Ibope apontaram em dezembro passado a uma popularidade de 78% e o apoio a seu Governo chegou a 62%.

Outras pesquisas a colocam em primeiro lugar em intenção de votos para sua reeleição presidencial em 2014.

Seus últimos pronunciamentos demonstram otimismo no futuro da nação. "O Brasil que emerge dos últimos 10 anos é um país com mais inclusão social e sólido economicamente (e) o objetivo de meu Governo é aprofundar estas conquistas", destacou.

A inflação em 2012 se manteve sob controle e ainda que tenha sido maior que a estimada (5,4%), não superou os 6,5% estabelecidos como limite pelo Banco Central.

Apesar da crise internacional, no país foram criados nos últimos 10 anos ao redor de 19,4 milhões de postos de trabalho e 16,4 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema.

A implementação de programas sociais possibilitou que 40 milhões de brasileiros ascendesem à classe média, a maior mobilidade social na história do país.

Segundo a mandatária, desta forma estão enfrentando a raiz da desigualdade e "protegendo as crianças e jovens, estamos construindo um futuro melhor para o Brasil".

Desde o início de sua administração em 2011, foram criados quatro milhões de postos de trabalho, o que é considerado uma das grandes conquistas de seu Governo e a nação registrou a menor taxa de desemprego de toda sua história (4,9%).

Entre outras conquistas, um milhão de famílias conta já com moradia própria graças ao programa "Minha casa, minha vida", que oferece facilidades às pessoas de baixa renda para aquisição da casa própria.

Trata-se de uma revolução na aplicação de políticas sociais, em benefício da população mais vulnerável e "em 2013 a redução da pobreza será muito maior", sustentou Rafael Guerrero, diretor de Estudos e Políticas Sociais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Explicou que, na população de zero a 15 anos de idade, a miséria extrema caiu de 9,7 a 5,9% e os planos certificam que pode ser reduzida a 0,6%.

A consolidação das conquistas sociais e o desenvolvimento da economia brasileira confirmam assim que existe uma alternativa para outras nações europeias, pois demonstrará que as indústrias e bancos podem sair da crise e crescer sem ter que empobrecer seus cidadãos.

*Correspondente da Prensa Latina no Brasil.