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sábado, 22 de julho de 2017

Princípios Elementares de Filosofia - CAPÍTULO III


O MATERIALISMO
I. — Por que devemos estudar o materialismo?
II. — De onde vem o materialismo?
III. — Como e por que evoluiu o materialismo.
IV. — Quais são os princípios e os argumentos materialistas?
1. É a matéria que produz o espírito.
2. A matéria existe fora de todo o espírito.
3. A ciência, pela experiência, permite-nos conhecer as coisas.

I. — Por que devemos estudar o materialismo?
Vimos que, para este problema: «Quais são as relações entre o ser e o pensamento?», não pode haver mais que duas respostas, opostas e contraditórias.
Estudamos, no capítulo precedente, a resposta idealista e os argumentos apresentados para defender a filosofia idealista.
Torna-se necessário examinar, agora, a segunda resposta a este problema fundamental (problema, repetimo-lo, que se encontra na base de toda a filosofia), e ver quais são os argumentos que o materialismo emprega em sua defesa. Tanto mais que o materialismo é, para nós, uma filosofia muito importante, visto que é a do marxismo.
É, pois, por consequência, indispensável conhecer bem o materialismo. Indispensável, sobretudo porque as concepções desta filosofia são muito mal conhecidas e foram falsificadas. Indispensável, também, porque, pela nossa educação, pela instrução que recebemos - seja primária ou mais desenvolvida -, pelos nossos hábitos de viver e de raciocinar, estamos todos, mais ou menos, sem darmos conta disso, impregnados de
concepções idealistas. (Veremos, aliás, noutros capítulos, vários exemplos desta afirmação, e porque é assim.)
É, portanto, uma necessidade absoluta para os que querem estudar o marxismo conhecer a sua tese: o materialismo.

II. — De onde vem o materialismo?
Definimos, de uma maneira geral, a filosofia como um esforço para explicar o mundo, o universo. Mas sabemos que, segundo o estado dos conhecimentos humanos, as suas explicações mudaram, e que duas atitudes, no decurso da história da  humanidade, foram adotadas para explicar o mundo: uma, anticientífica, fazendo apelo a um ou a espíritos superiores, a forças sobrenaturais; a outra, científica, fundamentando-se em fatos e experiências.
Uma destas concepções é defendida pelos filósofos idealistas; a outra, pelos materialistas.
É por isso que, desde o início destas aulas, dissemos que a primeira ideia que se devia fazer do materialismo é que esta filosofia representa a «explicação científica do universo».
Se o idealismo nasceu da ignorância dos homens - e veremos como a ignorância foi mantida, sustentada na história das sociedades por forças culturais e políticas que partilhavam as concepções idealistas -, o materialismo nasceu da luta das ciências contra a ignorância ou obscurantismo.
É por isso que esta filosofia foi tão combatida, e é também por isso que, sob a forma moderna (o materialismo dialético), é pouco conhecida, senão ignorada ou desconhecida do mundo universitário oficial.

III. — Como e por que evoluiu o materialismo.
Contrariamente ao que pretendem os que combatem esta filosofia e dizem que tal doutrina não evoluiu desde há vinte séculos, a história do materialismo mostra-nos neste qualquer coisa de vivo e sempre em movimento.
No decorrer dos séculos, os conhecimentos científicos dos homens progrediram. No princípio da história do pensamento, na antiguidade grega, os conhecimentos científicos eram quase nulos, e os primeiros sábios, ao mesmo tempo, filósofos, porque, em tal época, a filosofia e as ciências nascentes formavam um todo, sendo
uma o prolongamento das outras.
Em seguida, precisando as ciências a explicação dos fenômenos do mundo, precisões que incomodavam e estavam mesmo em contradição com os dogmas das filosofias idealistas, nasceu um conflito entre a filosofia e as ciências.
Estando estas em contradição com a filosofia oficial dessa época, tornara-se necessário que se separassem.
Por isso, o melhor que têm a fazer é libertar-se, urgentemente, da balbúrdia filosófica, e deixar aos filósofos as vastas hipóteses de tomar contacto com problemas restritos, os que estão maduros para uma solução próxima.
Então, faz-se esta distinção entre as ciências... e a filosofia11.
Mas o materialismo, nascido com as ciências, ligado a elas e delas dependendo, progrediu, evoluiu com elas, para chegar, com o materialismo moderno, o de Marx e Engels, a reunir, de novo, a ciência e a filosofia no materialismo dialético.
Estudaremos, mais adiante, esta história e tal evolução, que estão ligadas ao progresso da civilização, mas constatamos já, e é o que é muito importante fixar, que o materialismo e as ciências não estão separados, e que aquele está absolutamente dependente da ciência.
Resta-nos estabelecer e definir as bases do materialismo, comuns a todas as filosofias que, sob aspectos diferentes, se valem dele.

IV. — Quais são os princípios e os argumentos materialistas?
Para responder, torna-se necessário voltar ao problema fundamental da filosofia, o das relações entre o ser e o pensamento: qual deles é o principal?
Os materialistas afirmam, em primeiro lugar, que há uma determinada relação entre o ser e o pensamento, entre a matéria e o espírito. Para eles, é o ser, a matéria que é a realidade primeira, e o espírito a realidade segunda, posterior, dependente da matéria.
Portanto, para os materialistas, não foi o espírito ou Deus que criaram o mundo e a matéria, mas foi o mundo, a matéria, a natureza que criaram o espírito:
O espírito não é mais que o produto superior da matéria12.
É por isso que, se retomarmos a pergunta que pusemos no segundo capítulo: «Por que pensa o homem?», os materialistas respondem que o homem pensa porque tem um cérebro e porque o pensamento é o seu produto.
Para eles, não pode haver pensamento sem matéria, sem corpo.
A nossa consciência e o nosso pensamento, tão transcendentes que nos parecem, são apenas produtos de um órgão material, corporal, o cérebro13.
Por consequência, para os materialistas, a matéria, o ser, são qualquer coisa de real, existindo fora do nosso pensamento, e não precisam dele, nem do espírito para existir. De igual modo, este, não podendo existir sem matéria, não tem alma imortal e independente do corpo.
Contrariamente ao que dizem os idealistas, as coisas que nos cercam existem independentemente de nós: são elas que nos dão os nossos pensamentos, e as nossas ideias são apenas o reflexo das coisas no cérebro.
Por esse motivo, perante o segundo aspecto do problema das relações do ser e do pensamento: - Que relação há entre as nossas ideias sobre o mundo que nos rodeia e o próprio mundo? O nosso pensamento está em condições de conhecer o mundo real? Podemos, nas nossas concepções deste, reproduzir uma imagem fiel da realidade? Tal problema é chamado, em linguagem filosófica, a questão da
identidade do pensamento e do ser14.- os materialistas afirmam: sim! podemos conhecer o mundo, e as ideias que fazemos dele são cada vez mais exatas, uma vez que podemos estudá-lo com o (auxílio das ciências, que estas nos
provam continuamente, pela experiência, que as coisas que nos rodeiam têm, na verdade, uma realidade que lhes é própria, independente de nós, e que os homens podem já, em parte, reproduzir, criar artificialmente tais coisas.
Resumindo, diremos, pois, que os materialistas, face ao problema fundamental da filosofia, afirmam:
1. Que é a matéria que produz o espírito , e que, cientificamente, nunca se viu este sem aquela.
2. Que a matéria existe fora de todo o espírito e não precisa deste para existir, tendo uma existência que lhe é particular, e que, por consequência, contrariamente ao que dizem os idealistas, não são as nossas ideias que criam as coisas, mas, pelo contrário, são estas que nos dão aquelas.
3. Que somos capazes de conhecer o mundo , que as ideias que fazemos da matéria e do mundo são cada vez mais exatas, uma vez que, com o auxílio das ciências, 'podemos precisar o que já conhecemos e descobrir o que ignoramos.

LEITURAS

11 René MAUHLANC: a Vida operária, 25 de Novembro de 1935.
12 Friedrich ENGELS: «Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã», Obras Escolhidas de Marx e Engels em Três Tomos, Ed. Avante 1985, Tomo III, pp 375-421
13 Friedrich ENGELS: «Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã», Obras Escolhidas de Marx e Engels em TrêsTomos, Ed. Avante 1985, Tomo III, pp 375-421
14 Friedrich ENGELS: «Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã», Obras Escolhidas de Marx e Engels em Três Tomos, Ed. Avante 1985, Tomo III, pp 375-421