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domingo, 23 de julho de 2017

Princípios Elementares de Filosofia - CAPÍTULO IV


QUEM TEM RAZÃO, O IDEALISMO OU O MATERIALISMO?

I. — Como devemos pôr o problema.
II. — É verdade que o mundo existe apenas no nosso pensamento?
III. — É verdade que são as nossas ideias que criam as coisas?
IV. — É verdade que o espírito cria a matéria?
V. — Os materialistas têm razão, e a ciência prova as suas afirmações.

I. — Como devemos pôr o problema.
Agora, que conhecemos as teses dos idealistas e dos materialistas, vamos tentar saber quem tem razão.
Recordemos que nos é preciso, primeiramente, constatar, por um lado, que elas são absolutamente opostas e contraditórias; por outro, que, logo que se defende uma ou outra teoria, esta nos leva a conclusões que, pelas suas consequências, são muito importantes.
Para saber quem tem razão, devemos reportar-nos aos três pontos pelos quais resumimos cada argumentação.
Os idealistas afirmam:
1. Que é o espírito que cria a matéria;
2. Que a matéria não existe fora do nosso pensamento, que é, portanto, para nós, apenas uma ilusão;
3. Que são as nossas ideias que criam as coisas. Os materialistas, esses afirmam exatamente o contrário.
Para facilitar o nosso trabalho, é preciso, em primeiro lugar, estudar o que é sobremaneira evidente e o que mais nos surpreende.
1. É verdade que o mundo não existe senão nO nosso pensamento?
2. É verdade que são as nossas ideias que criam as coisas?
Eis dois argumentos defendidos pelo idealismo «imaterialista» de Berkeley, cujas conclusões terminam, como em todas as teologias, na nossa terceira pergunta:
3. É verdade que o espírito cria a matéria? São perguntas muito importantes, uma vez que se relacionam com o problema fundamental da filosofia. É, por consequência, discutindo-as que vamos saber quem tem razão; são particularmente interessantes para os materialistas, no sentido em que as suas respostas a tais perguntas são comuns a todas as filosofias materialistas - e, por consequência, ao materialismo dialético
.
II. — É verdade que o mundo existe apertas no nosso pensamento?
Antes de estudar esta questão, é-nos necessário situar dois termos filosóficos de que somos chamados a servir-nos e encontraremos freqüentemente nas nossas leituras.
Realidade subjetiva (que quer dizer: realidade que existe somente no nosso pensamento).
Realidade objetiva (realidade que existe fora do nosso pensamento).
Os idealistas dizem que o mundo não é uma realidade objetiva, mas subjetiva.
Os materialistas dizem que o mundo é uma realidade objetiva.
Para nos demonstrar que o mundo e as coisas não existem a não ser no nosso pensamento, o bispo Berkeley decompõe nas suas propriedades (cor, tamanho, densidade, etc). Demonstra-nos que estas, propriedades, que variam consoante os indivíduos, não estão nas próprias coisas, mas no espírito de cada um de nós.
Deduziu, pois, que a matéria é um conjunto de propriedades não objetivas, mas subjetivas, e que, por consequência, não existe.
Se retomarmos o exemplo do sol, Berkeley pergunta-nos se acreditamos na realidade objetiva do disco vermelho, e demonstra-nos, com o seu método de discussão das propriedades, que não é vermelho nem um disco. Não é, portanto, uma realidade objetiva, porque não existe por si próprio, mas uma simples realidade subjetiva, uma vez que existe apenas no nosso pensamento.
Mesmo assim, os materialistas afirmam que o sol existe, não porque o vemos como um disco achatado e vermelho, porque isso é realismo ingênuo, o das crianças e dos primeiros homens, que não tinham senão os seus sentidos para controlar a realidade, mas afirmam que existe invocando a ciência. Esta permite-nos, com efeito, retificar os erros que os sentidos nos fazem cometer.
Mas devemos, neste exemplo do sol, pôr claramente o problema.
Com Berkeley, diremos que não é um disco e que não é vermelho, mas não aceitamos as suas conclusões: a sua negação como realidade objetiva.
Não pomos em causa as propriedades das coisas, mas a sua existência.
Não discutimos para saber se os sentidos nos enganam e deformam a realidade material, mas se esta existe fora deles.
Pois bem! os materialistas afirmam a sua existência fora de nós, e fornecem argumentos que são a própria ciência.
Que fazem os idealistas para nos demonstrar que têm razão? Discutem as palavras, fazem grandes discursos, escrevem numerosas páginas.
(Suponhamos, por um instante, que têm razão. Se o mundo existe apenas no nosso pensamento, não existiu antes dos homens. Sabemos que isso é falso, uma vez que a ciência nos demonstra que o homem apareceu muito mais tarde sobre a terra. Certos idealistas dir-nos-ão, então, que, antes dele, havia os animais, e que o pensamento podia habitá-los. Mas sabemos que, antes dos animais, existia uma terra inabitável, na qual nenhuma vida orgânica era possível. Outros, ainda, dir-nos-ão que, mesmo que apenas existisse o sistema solar, e o homem ainda não, o pensamento, o espírito já existiam em Deus. É assim que chegamos à forma suprema do idealismo. É-nos preciso escolher entre Deus e a ciência. O idealismo não pode manter-se sem Deus, e Deus não pode existir sem o idealismo.
Eis, pois, exatamente como deve ser posto o problema do idealismo e do materialismo. Quem tem razão?
Deus ou a ciência?
Deus é um puro espírito criador da matéria, uma afirmação sem prova.
A ciência vai demonstrar-nos, pela prática e pela experiência, que o mundo é uma realidade objetiva, e vai permitir-nos responder à pergunta:

III. — É verdade que são as nossas ideias que criam as coisas?
Tomemos, como exemplo, um automóvel que passa no momento em que atravessamos a rua em companhia de um idealista, com quem discutimos para saber se as coisas têm uma realidade objetiva ou subjetiva, e se é verdade que são as nossas ideias que as criam. É bem certo que, se não quisermos ser esmagados,
prestaremos muita atenção. Portanto, na prática, o idealista é obrigado a reconhecer a existência do automóvel. Para ele, praticamente, não há diferença entre um automóvel objetivo e um outro subjetivo sendo isto de tal modo exato, que a prática fornece a prova de que os idealistas, na vida, são materialistas.
Poderíamos, sobre este assunto, citar numerosos exemplos, pelos quais veríamos que os filósofos idealistas e os que sustentam tal filosofia não desdenham certas baixezas «objetivas», para obter o que, para eles, não é mais que realidade subjetiva.
É por isso, aliás, que não se vê mais ninguém afirmar, como Berkeley, que o mundo não existe. Os argumentos são muito mais subtis e ocultos. (Consultai, como exemplo do modo de argumentar dos idealistas, o capítulo intitulado A descoberta dos elementos do mundo, no livro de Lenine: «Materialismo e empirocriticismo»15).
É, pois, segundo a palavra de Lenine, «o critério da prática» que nos permitirá confundir os idealistas.
Estes, por outro lado, não deixarão de dizer que a teoria e a prática não se identificam, e que são duas coisas completamente diferentes. Não é verdade. Se uma concepção é exata ou falsa, é só a prática que, pela experiência, no-lo demonstrará.
O exemplo do automóvel mostra que o mundo tem, pois, uma realidade objetiva e não é uma ilusão criada pelo nosso espírito.
Resta-nos ver agora, sendo dado que a teoria do imaterialismo de Berkeley não pode manter-se face às ciências, nem resistir ao critério da prática, se, como o afirmam todas as conclusões das filosofias idealistas, das religiões e das teologias, o espírito cria a matéria.

IV. — É verdade que o espírito cria a matéria?
Como já foi visto, o espírito, para os idealistas, tem a sua forma suprema em Deus. Ele é a resposta final, a conclusão da sua teoria, e é por isso que o problema espírito-matéria se põe em última análise, saber quem, do idealista ou do materialista tem razão, sob a forma do problema: «Deus ou a ciência».
Os idealistas afirmam que Deus existiu desde sempre, e que, não tendo sofrido qualquer mudança, é sempre o mesmo. É o espírito puro, para quem o tempo e o espaço não existem. É o criador da matéria.
Nem mesmo para sustentar a sua afirmação de Deus, os idealistas apresentam qualquer argumento.
Para defender o criador da matéria, recorreram a uma profusão de mistérios, que um espírito científico não pode aceitar.
Quando se remonta às origens da ciência, e se vê que é pelo coração e proporcionalmente à sua grande ignorância que os homens primitivos forjaram no seu espírito a ideia de Deus, constata-se que os idealistas do século XXI continuam, como os primeiros homens, a ignorar tudo o que um trabalho paciente e perseverante permitiu conhecer. (Porque, no fim de contas, Deus, para os idealistas, não pode explicar-se, e continua a ser para eles uma crença sem qualquer prova. Quando os idealistas nos querem «provar» a necessidade de uma criação do mundo, dizendo que a matéria não pôde existir sempre, que foi, na verdade, necessário que tenha tido um começo, recorrem a um Deus que, ele, nunca teve princípio. Em que é mais
clara esta explicação?
Para sustentar os seus argumentos, os materialistas, pelo contrário, servir-se-ão da ciência, que os homens desenvolveram à medida que faziam recuar as «fronteiras da sua ignorância».
Ora, a ciência permite-nos pensar que o espírito tenha criado a matéria? Não.
15 Cap. I, § 2, p. 40 e seguintes.
A ideia de uma criação por um espírito puro é incompreensível, porque não conhecemos nada de semelhante na experiência. Para que tal fosse possível, seria preciso, como dizem os idealistas, que o espírito existisse só, antes da matéria, enquanto que a ciência nos demonstra que isso não é possível e que nunca há aquele
sem esta. Pelo contrário, o espírito está sempre ligado à matéria, e constatamos, mais particularmente, que o espírito do homem está ligado ao cérebro, que é a fonte das nossas ideias e do nosso pensamento. A ciência não nos permite conceber que as ideias existem no vazio...
Seria necessário, portanto, que o espírito Deus, para que possa existir, tenha um cérebro. É por isso que podemos dizer que não foi Deus que criou a matéria, o homem, portanto, mas que foi a matéria, sob a forma do cérebro humano, que criou o espírito Deus.
Veremos, mais adiante, se a ciência nos dá a possibilidade de acreditar num Deus, ou em qualquer coisa sobre a. qual o tempo não teria efeito, e para quem o espaço, o movimento e a mudança não existiriam.
Para já, podemos concluir. Na sua resposta ao problema fundamental da filosofia:

V. — Os materialistas têm razão, e a ciência prova as suas afirmações.
Os materialistas têm razão, ao afirmar:
1. Contra o idealismo de Berkeley e os filósofos que se escondem atrás do seu imaterialismo: que o mundo e as coisas, por um lado, existem, na verdade, fora do nosso pensamento, e não precisam dele para existir; por outro, que não são as nossas ideias que criam as coisas, mas, ao contrário, são estas que nos dão aquelas.
2. Contra todas as filosofias idealistas, porque as suas conclusões levam a afirmar a criação da matéria pelo espírito, isto é, em última instância, a afirmar a existência de Deus, e a sustentar as teologias; os materialistas, apoiando-se nas ciências, afirmam e provam que é a matéria que cria o espírito, e que não necessitam da «hipótese Deus» para explicar a criação da matéria.
Nota - Devemos prestar atenção à maneira como os idealistas põem os problemas. Afirmam que Deus criou o homem, quando vemos que foi este que criou Deus. Afirmam também, por outro lado, que foi o espírito que criou a matéria, quando vemos que foi, na verdade, exatamente ao contrário. Há nisso uma maneira de inverter as perspectivas, que devíamos assinalar.


LEITURAS
LENINE: «Materialismo e empirocritirismo», p. 52: A natutureza existia antes do homem?; pp. 62 a 65: O homem pensa com o cérebro?
ENGELS: «Ludwig Feuerbach», Idealismo e materialismo, p. 14.15 Cap. I, § 2, p. 40 e seguintes